— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, ao passar, Jesus viu um homem cego de
nascença. E cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os
olhos do cego. E disse-lhe: “Vai lavar-te na piscina de Siloé” (que quer
dizer: Enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando.
Os vizinhos e os que costumavam ver o cego — pois ele era
mendigo — diziam: “Não é aquele que ficava pedindo esmola?” Uns diziam:
“Sim, é ele!” Outros afirmavam: “Não é ele, mas alguém parecido com ele”.
Ele, porém, dizia: “Sou eu mesmo!”
Levaram então aos fariseus o homem que tinha sido cego. Ora,
era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego. Novamente,
então, lhe perguntaram os fariseus como tinha recuperado a vista.
Respondeu-lhes: “Colocou lama sobre os meus olhos, fui lavar-me e agora vejo!”
Disseram, então, alguns dos fariseus: “Esse homem não vem de
Deus, pois não guarda o sábado”. Mas outros diziam: “Como pode um pecador fazer
tais sinais?”
E havia divergência entre eles. Perguntaram outra vez ao
cego: “E tu, que dizes daquele que te abriu os olhos?” Respondeu: “É um
profeta”.
Os fariseus disseram-lhe: “Tu nasceste todo em pecado e
estás nos ensinando?” E expulsaram-no da comunidade.
Jesus soube que o tinham expulsado. Encontrando-o,
perguntou-lhe: “Acreditas no Filho do Homem?” Respondeu ele: “Quem é,
Senhor, para que eu creia nele?” Jesus disse: “Tu o estás vendo; é aquele
que está falando contigo”.
Exclamou ele: “Eu creio, Senhor!” E prostrou-se
diante de Jesus.
“Vai lavar-te na piscina de Siloé. O cego foi,
lavou-se e voltou enxergando” (Jo 9,7)
Jesus afasta-se do Templo, fugindo dos fariseus que queriam
apedrejá-lo por ter dito: “Eu sou a luz do mundo”. Ele vai repetir isso e
demonstrar com atos, dando ao cego a capacidade da visão. Não conhecemos o nome
deste cego. Só sabemos que é um mendigo, cego de nascimento, que pede esmola
nas proximidades do templo. Não tem experiência da luz, não a conhece, nunca a
viu. Estava sentado, não podia caminhar nem orientar-se por si mesmo; estava
imóvel, dependendo sempre dos outros. Sua vida transcorria nas trevas. Nunca
poderia conhecer uma vida digna.
Também não se menciona que era sábado, somente ao longo da
narração. Jesus não leva em conta essa circunstância à hora de fazer bem ao ser
humano. “Amassar barro” estava explicitamente proibido pela interpretação
farisaica da lei. O amassar o barro no sétimo dia, prolonga o sexto dia da
criação. Jesus termina a criação do ser humano.
Este ponto de partida é chave para ressaltar o ponto de
chegada. Jesus vai ativar no cego a mobilidade e a independência, vai lhe
devolver a capacidade de ver, vai reconstruí-lo como ser humano por inteiro.
Jesus vê na cegueira uma ocasião para a manifestação da atividade salvífica de
Deus. As obras que Deus realiza consistem em libertar o ser humano de sua
inatividade e dar-lhe capacidade de ação.
“Enquanto é dia, temos de realizar as obras d’Aquele que me enviou”.
Jesus não consulta ao cego se ele quer ficar curado, pois
sendo cego de nascimento não tem experiência da luz e não a pode desejar de
maneira especial. Mas a cura não acontece automaticamente; o cego tem de
aceitar a luz e optar livremente por ela. Jesus não lhe tira a liberdade:
oferece-lhe a oportunidade e coloca diante dos seus olhos o projeto de Deus
sobre o ser humano. A decisão de recuperar a vista fica nas mãos do cego: ela
se manifesta no fato de ir à piscina de Siloé por sua própria iniciativa, de
caminhar livremente, de poder sair do seu lugar, lavar-se na piscina, para
chegar a ser ele mesmo.
Jesus passa à ação. João usa dois verbos para indicar a
aplicação do barro nos olhos: aqui untar-ungir tem relação com o título de
Jesus “Messias” (que significa o “ungido”). Mais adiante dirá simplesmente
“aplicar”. Aquí está a chave de todo o relato. O cego é agora um “ungido”, como
Jesus. O homem ferido na sua cegueira foi transformado pelo Espírito.
A reação das pessoas (parentes, vizinhos...) sobre a
identidade do cego manifesta a novidade que o Espírito realiza. Sendo o mesmo,
é outro. O que era cego revela a nova identidade de homem reconstruído pelo
Espírito: ele agora é um ungido, encontrou-se a si mesmo – “Ele afirmava: sou
eu”.
Ao “ungir-lhe os olhos”, Jesus convida o cego a ser homem
“acabado, reconstruído, restaurado...”
Os outros personagens continuam em sua cegueira: fariseus,
conterrâneos, pais… são símbolos da dificuldade de aceitar a luz quando esta
ilumina o que não se quer ver.
Há uma grande diferença entre o cego sem iniciativa, sem
liberdade no início da cena, e o homem livre depois da cura. Daí que ele
utilize as mesmas palavras que tantas vezes, no evangelho de João, Jesus
utilizava para identificar-se: “Sou eu”. Esta fórmula deixa transparecer a identidade
do ser humano recriado pelo Espírito; descobre a transformação que se realizou
em sua pessoa e quer que os outros a vejam.
O cego opta livremente pela luz. Segue o caminho apontado
por Jesus e chega à meta indicada. Ele, que era só limitação, recupera sua
autonomia e deixa-se conduzir pelo Espírito. O que de verdade importa é que
este homem estava limitado e carecia de toda liberdade antes de encontrar-se
com Jesus. Agora descobre o que significa ser pessoa e se sente completamente
realizado. O Espírito o capacitou para desatar todas as possibilidades de ser
“humano”.
Sua vida, escondida e dependente, está agora cheia de
sentido. Perde o medo e começa a ser ele mesmo, não só em seu interior mas
diante dos outros. O horizonte que se abre para ele é indescritível. O mundo
mudou radicalmente; agora ele poderá dar orientação à própria vida: não
dependerá mais que os outros o conduzam.
O relato do evangelho de hoje é, sobretudo, uma catequese
cristológica. Como aparece Jesus nele? Em primeiro lugar, Jesus é Aquele que
vê. Na cena do “cego de nascença”, onde os discípulos viam um pecador, Jesus
via um ser humano. Seu olhar não se detinha na máscara, mas contemplava um
rosto.
O “cego de nascença” encontra em Jesus um olhar encorajador,
compreensivo, que acredita nele e lhe inspira confiança; um olhar que não se
prende ao passado, mas abre uma nova possibilidade de vida. Um olhar que ativa
nele a capacidade de olhar a própria vida de maneira diferente. Por isso, Jesus
aparece também como Aquele que faz ver. É o mestre que vai curando a cegueira e
trazendo luz, para que a pessoa, descobrindo sua identidade, possa dizer como o
cego curado: “sou eu”.
Neste tempo quaresmal, sentimos a urgência de uma conversão
do nosso olhar; é preciso purificar o olhar, cristificá-lo. Olhar com os “olhos
cristificados”. Não se trata de qualquer olhar. É o olhar limpo, diáfano,
gratuito e desinteressado, que destrava e expande a vida do outro numa nova
direção. Contemplar o rosto do outro é sentir sua presença, sem pré-conceitos e
pré-juízos..., vendo nele o sinal da ternura de Deus. Passar da contemplação à
acolhida: este é o movimento da oração dos olhos.
O “olhar contemplativo” está perdendo sua força criativa no
contexto atual; marcado pela ansiedade de querer “ver” tudo ao mesmo tempo, o
ser humano já não é mais capaz de fazer uma “pausa” para se deixar “ver” pela
realidade. Sob o peso do olhar do racionalismo, ele tudo examina, compara,
esquadrinha, mede, analisa, separa... mas nunca “exprime”. Daí o olhar reprimido,
desviado, insensível, frio, duro, ríspido...
Este é o pecado contra o olhar: olhar supérfluo e
imediatista, olhar esquizofrênico e narcisista, olhar morno, sem vibração, sem
brilho, sem assombro... Nesse olhar não há lugar para a admiração, nem para a acolhida
e a presença do outro. Só existe o olhar que “fixa”, escraviza e aliena.
A arte de viver consiste, fundamentalmente, em chegar a ver
tudo com o coração. Só o coração descobre em tudo as pegadas da Presença
Última, que olha a partir do rosto de cada pessoa, a partir da beleza de cada
criatura. O amor nos abraça em tudo quanto vemos.
Texto bíblico: Jo 9,1-41
Na oração: Ver mais além, a partir do coração, transcender,
despertar nossa visão interna e intuitiva das coisas e das pessoas, tirar as
cataratas de nossos olhos e abrir-nos a Deus.
- Abro os olhos para olhar de outra maneira.
- Quê há de fechamento, de intransigência, de
superficialidade, de rotina em minha vida, que não quero ver?
- Estou aberto a acolher a Luz da verdade, do amor, da
justiça, da gratuidade... venha de onde vier?
- Creio ter a posse da verdade ou me deixo questionar pelos
outros?
- Em quê aspectos de minha vida pessoal e relacional preciso
abrir-me à luz do Evangelho?
Ferreira
Gullar - Sétimo ocupante da cadeira nº 37 da ABL, eleito em 9 de
outubro de 2014, na sucessão de Ivan Junqueira, e recebido em 5 de dezembro de 2014,
pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin. Faleceu no dia 4 de dezembro de 2016.
Meu nome é Felicidade.
Sou casada com o Tempo.
Ele é responsável pela resolução de todos os problemas.
Ele reconstrói corações partidos, ele cura machucados, ele vence a tristeza...
Junto tivemos três filhos: Amizade,
Sabedoria e Amor.
A Amizade é a filha mais velha. Uma menina linda! Ela une pessoas, pretende
nunca ferir, sempre consolar.
A do meio é a Sabedoria, culta, íntegra, sempre foi mais apegadas ao pai, o
Tempo. A sabedoria e o Tempo estão sempre juntos!
O caçula é o Amor. Ah!! Como esse me dá trabalho!
È teimoso, às vezes só quer morar em um lugar...
Eu vivo dizendo: Amor, você foi feito para morar em muitos corações, não apenas
em um.
O Amor é complexo, mas é lindo, muito lindo!
Quando ele começa a fazer estragos, eu chamo logo o pai dele. E aí o Tempo sai
fechando todas as feridas que o Amor abriu!
Tudo no final dá certo, se ainda não deu é porque não chegou o final.
Por isso acredite sempre na minha família.
Acredite no Tempo, na Amizade, na Sabedoria, e principalmente no Amor.
Aí com certeza um dia eu, a Felicidade, baterei em sua
porta!
Cultivamos fantasias autocomplacentes no mundo do trabalho,
nas relações sociais e nos afetos. Depois nos enfurecemos – ou desabamos –
quando os fatos nos contrariam
IVAN MARTINS
22/03/2017
Eu nunca experimentei, mas dizem que namoros à distância são
complicados. Falta convívio, sobram inquietações, algumas experiências
importantes são atrofiadas. Mesmo em tempos de Skype e WhatsApp, a intimidade
de quem se relaciona à distância é incompleta. Um corpo apaixonado requer o
toque do outro corpo. Na ausência desse contato, as relações são limitadas. Por
isso os namoros à distância tendem a ser temporários. Ou as pessoas se mudam
para o mesmo lugar ou o romance acaba.
Pensei nisso na semana passada, quando uma moça me contou
que seu namoro acabara repentinamente, durante uma conversa por Skype. O rapaz
está morando na Europa e anunciou que ficará por lá, indefinidamente. Ela
estava devastada. Imaginava que ele voltaria nos próximos meses ou que a
convidaria para encontrá-lo. Ele, obviamente, tinha outros planos e
sentimentos.
Minha primeira reação a essa história foi maldizer o abismo
social que separa os dois continentes e torna a vida na Europa tão atraente
para boa parte dos brasileiros. Mas, depois de ouvir com atenção, essa
impressão se desfez. Ficou claro que o problema não estava na distância
civilizatória entre o Brasil e a Europa, mas na distância entre o que a moça
imaginara e a realidade. Ela havia inventado um namorado para si mesma. O que o
sujeito fez no Skype foi comunicar a ela que a ilusão estava oficialmente
encerrada.
Alguma leitora dirá que é impossível inventar um namorado, e
estará errada. Homens e mulheres têm capacidade de acreditar em qualquer coisa
que lhes dê conforto ou alivie sofrimentos. As relações imaginárias são uma
delas. Quando falta um relacionamento real, as pessoas podem se enrabichar com
o cobrador de ônibus, com a gerente do banco ou até mesmo com aquela prima – ou
primo – que aparece de visita uma vez por ano. Basta a pessoa dar atenção ao
carente para que ele se imagine numa relação.
O que aconteceu com a protagonista desta história foi
diferente. Ela passou algumas semanas com um homem que estava de partida e
imaginou que o combustível emocional seria suficiente para aquecer dois
corações à distância. Estava errada. Assim que chegou ao outro lado do Atlântico,
o rapaz começou a mudar de atitude. De apaixonado foi passando a distraído, e
logo a impaciente. As trocas de WhatsApp escassearam, e as conversas semanais
por Skype se tornaram burocráticas. Ela pedia atenção e sentimento. Ele
oferecia pressa e indisfarçável frialdade. No aniversário de um ano da viagem,
encerrou a farsa. O que para ele fora apoio emocional num momento de transição
se transformara para ela em esperança de vida comum. Não poderia haver
sentimentos mais desencontrados.
Se o relacionamento entre eles era imaginário, a dor que ela
sente é real. Está arrasada e ressentida. Acredita que perdeu um ano de vida se
dedicando a um egoísta. É um julgamento duro, provavelmente correto, que ajuda
a superar seu sofrimento. Mas ele contém um elemento de ilusão. Culpar a
fraqueza e a ambiguidade do outro a isenta de pensar em sua própria
responsabilidade no episódio. A base da relação era frágil, e o rapaz deu
vários sinais de que desejava rompê-la, mas ela persistiu no namoro à
distância, acreditando e insistindo, até que ele tornou a fantasia impossível.
Ela tem direito de se sentir enganada, mas talvez devesse admitir que foi
cúmplice da encenação.
Descontadas as particularidades – a Europa, o Skype, o tempo
–, essa história guarda lições para nós todos. Somos especialistas em
enxergar aquilo em que queremos acreditar e mestres em ignorar evidências que
nos contrariem. Cavalgamos ilusões com mais facilidade do que lidamos com a
realidade. Cultivamos fantasias autocomplacentes no mundo do trabalho, nas
relações sociais e nos afetos. Depois nos enfurecemos – ou desabamos – quando
os fatos nos contrariam. Se os nossos problemas se resumissem aos que agem mal
conosco, teríamos pouco com que nos preocupar. O que mais atrapalha a nossa
vida são os nossos enganos.
Não interessa saber se o namoro é à distância, mas se ele é
real. Se a pessoa do outro lado da linha telefônica – ou do outro lado da sala
– faz com que você se sinta amada ou amado, tudo bem. Esse é o antídoto contra
o autoengano. As relações que satisfazem emocionalmente costumam ser
verdadeiras. Problemas e complicações são inevitáveis, mas, quando se olha nos
olhos do outro – mesmo desapontado, mesmo depois de uma briga, mesmo na tela do
computador – é preciso encontrar cumplicidade e reconhecimento, não indiferença
ou desatenção.
O relacionamento que a moça me relatou não resiste aos
filtros de realidade. Um dia talvez tenha sido verdadeiro, mas havia tempos não
passava de ilusão. Por pior que tenha agido antes, o rapaz foi correto ao
encerrá-lo. A moça está gostando de sentir-se vítima, mas faria mais por si
mesma se admitisse seu próprio papel na trama. Abandonar-se à autopiedade é uma
forma conhecida de prazer, mas, assim como os namoros imaginários, não leva a
lugar nenhum.
IVAN MARTINS
Colunista de ÉPOCA
Autor do livro Alguém especial, escreve em epoca.com.br
às quartas-feiras