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quarta-feira, 25 de julho de 2018

ITABUNA, TERRA AMADA: Estudo vespertino, por Renato de Oliveira Prata


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Estudo vespertino

A tarde no dorso do rio
Pelo intervalo de uma brisa
Ou parece encurralada
Se redoma é o mormaço
Vapor da última chuva
Gestação da nuvem próxima.
Estou no jardim da prefeitura
Continente de sombra onde a tarde
Exalará sua beleza eficaz
Para enredar os mitos da vida.
Sei que múltipla é a tarde
Repertório e fusão de imagens
Uma tarde de caixeiros-viajantes
A pasta vazia de pedidos
Das lavadeiras que ensinam à pedra
A força do seu trabalho
Do poeta insano, os pés descalços
Embarcado às pressas para a Bahia
Tarde de ciganos desavindos
Sangue derramado no poente
Tarde-dançante, que ouvimos
Tarde, quase noite de afagos
É tarde.



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Renato de Oliveira Prata, natural de Itabuna, é membro da Academia de Letras de Itabuna, ALITA, cadeira nº 20, desde 2011. Além do premiado Mar interior, contemplado no Edital do Selo João Ubaldo Ribeiro da Fundação Gregório de Mattos, na categoria poesia. Salvador: ADM, 2015 − e Sob o cerco de muros e pássaros, Poesia, Prêmio Braskem Cultura e Arte. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; Braskem, 2003 − Renato de Oliveira Prata teve publicados os livros A quinta estação. Salvador: Ed. do A. 2007, A pulseira do tempo. Ilhéus: Mondrongo, 2012 e Pequena Antologia Poética. Itabuna: Mondrongo, 2017.

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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

LANÇAMENTO: Renato de Oliveira Prata - Pequena Antologia Poética

C O N V I T E
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Renato Prata


Renato de Oliveira Prata é natural de Itabuna – Bahia. Graduou-se em Direito pela faculdade de Direito. Exerceu profissionalmente a função de Auditor Fiscal do Ministério da Fazenda.

Apesar de ter produzido desde a sua juventude, apenas após a aposentadoria é que Renato passa a dedicar-se exclusivamente à literatura. Participou das antologias “Poetas da Bahia II” (Expogeo, 2002) e “Poetas da Bahia III” (Expogeo, 2015). Foi vencedor do Prêmio Brasken de Cultura e Arte, na categoria poesia em 2003 e teve publicada pela Fundação Casa de Jorge Amado a sua obra “Sob o cerco de Muros e Pássaros”. Publicou ainda dois outros livros de poesia: “A quinta estação” (Edição do autor, 2009) e “A pulseira do tempo” (Mondrongo, 2012).

Em 2014 foi selecionado como vencedor na categoria poesia da primeira edição do selo João Ubaldo Ribeiro, com sua obra “Mar interior”, participando da publicação da primeira coleção em fevereiro de 2016. Renato é membro da Academia de Letras de Itabuna-ALITA, onde ocupa a cadeira de nº 20.
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sexta-feira, 28 de julho de 2017

VERSOS NA PULSEIRA DO TEMPO - Cyro de Mattos

Versos na Pulseira do Tempo
Cyro de Mattos


O baiano Renato Prata nasceu em Itabuna, como sua irmã Heloísa Prazeres, que também é poeta.  Em Breve antologia poética (2017) publica dessa vez uma seleção de poemas extraídos de seus quatro livros:  Sob o cerco de muros e pássaros (2003), A quinta estação (2007), A pulseira do tempo (2012) e Mar Interior (2015), além de outros retirados das antologias  Poetas da Bahia II e III (2003, 2015) e  Outros Riscos (2013). Essa Breve Antologia Poética, que nos dá uma amostragem da vida em seu claro parentesco com a música, a considerar espaços da  significação ideal do mundo através do verso,  é organizada por Heloísa Prazeres.

De marcante presença na lírica contemporânea da Bahia,  o poeta de gestos recatados preferiu conviver com o seu projeto estético, em exercício qualificado, durante décadas até que comparecesse em livro. Recolhido ao silêncio de suas criações, não optou  por conviver em grupos, forjar alianças, para desfrutar de certo comércio no setor, muito comum aos elogios mútuos e fáceis. Tornou-se o principal crítico de sua produção poética antes de fazer sua estreia  como um poeta maduro, privilegiado na sua expressividade  nas construções de  formas líricas, tanto nos versos livres como nos de estruturas fixas.

Conquistou alguns prêmios literários importantes na Bahia. Um de seus livros teve a edição do próprio  autor, já  outros três foram publicados por editoras  baianas de porte pequeno, sem atuação no circuito nacional. Mas o que vale é a sua  poesia, que,   de livro a livro, apresenta-se  integrada de linguagem e vida.
 
Poeta de ritmo melodioso, desde a estreia em Sob o cerco de muros e pássaros revela que,  se procede dos deuses, viaja com tropeços na claridade. Lê-se no poema “O passado investe nossos passos” que os versos da juventude nem chegaram a ter escritura, “gastaram-se no limbo por decênios”.  Sem cantar “as efusões de um dia,  amadas inúteis, o primeiro encontro com a morte”, a certa altura  indaga da razão dessas impressões líricas, guardando sonhos no que sabem o quanto viver, no fluxo e refluxo do prazer,  têm o passado que investe nossos passos. Leva-nos  à conclusão de que um clima é formado de acréscimos líricos,  que a cada momento formam um corpo concentrado em si de sentimentos, escavações no interior, que são expostas aos ventos.

É nesse tom essencialmente lírico, participante de momentos com aguda sensibilidade,  que encontramos  um poeta inventor do poema com lastros da miragem, ternuras, purezas, maciez e algum presságio. Toca em nossos ouvidos uma poesia orvalhada de emoções, trinado de pássaro, jogo das ondas no vasto mar de  ideias, que   no seu timbre ritmado de cores, sutilezas várias, corre e voa com a musicalidade de sua composição quando escalavra o vento.  Tece com sabedoria o silêncio marcado pela ilusão, que se  impôs nas trilhas do sonho através do intercâmbio da palavra capaz de  esclarecer o  mundo.

De arguta leitura da vida, compartimentada no verso, como no poema “Rastrear os deuses”, Renato Prata  expõe sua crença na poesia quando afirma que elabora o verso para atravessar divisas da solidão, maneja-o com precisão para capturar sentidos que revelam o mundo.


Eu faço versos mais cedo
Quando arfa o silêncio pela casa
Olhos de neblina e entressonho
Rastreando os deuses da poesia.


         Na poética construída com paciência e consciência do ofício,   nota-se como  o poeta em si concebe esse sujeito que tem veias de vidro para refletir o mundo, esse habitante daquela ilha verde com a aridez dos anos,  expedindo canção e danação, mas desprovido de cupom fiscal. Quando dotado de sensibilidade arguta, constrói belas e verdadeiras estrofes, tentando equilibrar-se entre espantos,  na direção constante de quem incorpora novas opiniões perante a experiência humana no mundo. 


Não guardo moldes e cálculos
Soletro tempos e pássaros
Mas tudo exponho aos ventos.


         Nessa Breve Antologia Poética, de novo percebo as qualidades de um discurso que vaza lucidez, pulsando nas intimidades de suas estações com a pulseira do tempo o eu lírico, em procedimentos de teor filosófico, até mesmo nas  incursões  expressivas metalinguísticas. Nessas suas maneiras alusivas da vida, que são apenas ondas antes de alcançar o cume e espraiar na metáfora, prova ser a sua força a de um lírico autêntico,  a ação quase não se fazendo perceptível,  o poeta caminhando  pelo  interior de espaços que existem independentes de sua forma instrumental,  manifestando-se    com imagens  que se ajustam a uma inventiva formal que só os  poetas experientes dominam.

Contra o silêncio de seres e objetos,  em suas relações instransponíveis ao primeiro golpe de vista, emerge esse  poeta de sentidos e visões  penetrantes do que importa deixar-se ficar, vale tocar e decifrar. Revela, em sua legítima impressão digital, sinais que reverberam solidões, estados de alma por entre cenas  do cotidiano, plasmadas pelas luzes da memória, transes e emoções de quem sabe ser isso a veia e o veio para dialogar com o outro nas incompletudes do tempo,  indiferente ao que nos envolve e habita no trânsito da existência.  Desse ponto de vista, existe sem dúvida uma proposta formulada que chamo de pulsações líricas  no labirinto de Orfeu, que comove nessa coisa afável, diáfana, feita de versos e estrofes para suportar a vida. 
           

Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Publicado em inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, dinamarquês, russo. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro titular da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.  

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