Total de visualizações de página

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

A Mandíbula de Caim

Marco Lucchesi

 


Quem adentra esse mundo 3D, torna-se coautor da narrativa, segunda alma de Edward Mathers.

Este romance precisa de você. Não aprecia monólogos solitários. Nasceu para o diálogo, para ouvir suas ideias. O espetáculo começa quando você chega. Só depois abrem as cortinas.

Como um ator e espectador ao mesmo tempo. O livro precisa de um Tu. É um tabuleiro de xadrez, a convidar os jogadores.

Foi uma longa espera, convenhamos. Longa e sentida. Mas importa chegar.

Mantenha os olhos abertos. Leia 'além do que existe na impressão', segundo Jorge de Lima. São muitas mudanças de plano. Metamorfoses da língua. Mosaicos vivos. Quadrados mágicos, a que recorreu Osman Lins. Remate de palavras cruzadas. Recobre a atenção. Tantas sereias e Ulisses vai sozinho.

Esse livro jamais termina. Há quatro anos adentrei a narrativa. Já não consigo, e nem pretendo, abandoná-la. Talvez nos encontremos no meio da história. Conheço alguns bares nessas páginas. Uma xícara de café? E juntos escolhemos um caminho, capaz de elucidar parte do enigma. Um desafio refinado, quebra-cabeça dúctil, cujas peças podem crescer ou diminuir, sem alterar o desenho, com seu conjunto inquieto.

Os entendidos dão três soluções ao livro. Tenho uma ideia, mas não bancarei o spoiler. Mesmo porque, cada combinação é dinâmica. Se hoje parece uma coisa, amanhã já é outra.

Quem adentra esse mundo 3D, torna-se coautor da narrativa, segunda alma de Edward Mathers.

Para uma ideia da paisagem, cito o verbete 'dogma', do Etimologiário, de Maria Sebregondi: 's.m. (do ingl. 'dog': cachorro) - irrefutável verdade canina. As trocas e as metáteses entre etologia e teologia revelam que os cães têm indiscutivelmente razão: o cão é o espelho de deus (dog/god)'.

Espelho, forma invertida, ludismo, deriva e combinação: eis alguns pontos centrais viajar com Mathers.

A que horas marcamos nosso encontro, aqui dentro, meu cúmplice-leitor, colega de aventura?

Comunita Italiana, 22/02/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/mandibula-de-caim

 

----------

Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila , foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018, 2019, 2020 e 2021

* * *


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

 

O fim da Cultura

Arnaldo Niskier


 

Como se fosse uma obrigação, todas as vezes que fui a São Paulo, nos últimos anos, visitei a Livraria Cultura, na Avenida Paulista. Era uma forma de me manter em dia com os lançamentos literários, o que é muito importante para um homem com o meu tipo de atividades profissionais. Agora isso poderá deixará de existir, em virtude do fechamento daquele famoso espaço. É de se lamentar que isso tenha ocorrido, pondo fim ao sonho da família Herz.

É muito triste ver as fotos das estantes esvaziadas no Conjunto Nacional, depois de decretação da falência da loja. Na sentença, o juiz afirmou que o grupo não conseguiu superar a sua crise econômica. Tem uma dívida declarada de 285 milhões de reais, entre aluguéis e prestações de contas, inclusive dívidas trabalhistas. Há diversas editoras com o registro de créditos enormes, como a Record, a Companhia das Letras, a Sextante, a Panini e a Intrínseca. São 76 editoras brasileiras como credoras somente no Rio de Janeiro. A empresa pode (e vai recorrer), mas sabe-se que é um processo demorado.

A administração da livraria apontou diversas causas principais para justificar esse fato profundamente lamentável: altos custos de produção, queda na demanda por livros, falta de interesse por leitura e a nossa profunda crise econômica desde 2014. É claro que estamos vivendo uma nova realidade pedagógica, com outros e revolucionários formatos de transmissão de conhecimento. Isso naturalmente teria que provocar consequências.

No Rio, praticamente ao mesmo tempo, fechou outra livraria tradicional em Ipanema: a Galileu Galilei. Não se tem como comemorar tais fatos, pois abalam o nosso arcabouço cultural. O triste, nisso tudo, é que não existe nenhuma reação por parte dos governos, de qualquer instância. Já existe, é certo, um novo Ministério da Cultura, mas ninguém soube de qualquer reação das novas autoridades a propósito do assunto. Um país com mais de 60 milhões de estudantes não pode sobreviver sem bibliotecas e livrarias compatíveis com o seu tamanho e as suas perspectivas de crescimento. Assistir a isso tudo de forma silenciosa é o que de pior pode acontecer. Está mais do que na hora de protestar contra esse tipo de descaso com o nosso futuro.

Planalto em pauta, 17/02/2023

 

-----------

Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

* * *

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

21/02/2023 UNIDOS EM ORAÇÃO AVIVAMENTO COM DEUS NO COMANDO

Da alegria

José Sarney

 


Parece que da etimologia da palavra 'carnaval' a única coisa certa é que se refere a carne. Seria para designar a abstinência de carne da quaresma? Ou, como queria o pai italiano de minha amiga Zélia Gattai, para afirmar que 'o que vale é a carne', jogando a origem da festa para as farras romanas ou germânicas, quando não a uma verdadeira bacanal grega? Essa origem europeia pode ser incontestável, mas basta ver a tristeza do carnaval de Veneza ou a imitação que são os carnavais que pipocam mundo afora para saber que carnaval como sinônimo de alegria tem origem bem brasileira, isto é, africana.

Pois se os negros não tivessem tomado conta da festa - e incorporado, sem preconceito, todas as etnias, afinal há rainha da bateria nissei -, ela não seria essa bagunça organizada que a faz única no mundo. Que me desculpem os mardi gras, os carnavais do Caribe e de toda a América Latina, todos dominados pela herança dos afrodescendentes, mas nos últimos cem anos o carnaval é nosso.

É verdade que um dia, Presidente da República, visitei o Cabo Verde. Ia comigo o casal Zélia Gattai e Jorge Amado. Em homenagem ao Brasil houve festa e se aquela alegria não era carnaval? Voltei-me para o casal e disse: 'Vejam, é a Bahia! Foi daqui que a alegria embarcou para Salvador!'

O sincretismo religioso, tolerado pela Igreja Católica com boa ou má intenção, conseguiu o que é raro: que as festas religiosas sejam dominadas pela alegria, como recomendava São Paulo, ou como escreveu Paul Claudel - 'não temos outro dever que não seja a alegria' -, ou como está no 'Memorial' de Pascal - 'alegria, alegria, alegria, lágrimas de alegria.' Nas nossas alegrias estamos mais para o riso que para a lágrima, e a lavagem do Bonfim se faz na dança e na água, e essa não vem dos olhos, mas das quartinhas com que as baianas perfumam as calçadas. Depois corre muita água, mas é da que passarinho não bebe.

Com a festa do Senhor do Bonfim, na quinta-feira que antecede o segundo domingo depois da Epifania - para que simplificar, se podemos confundir? - começa o carnaval na Bahia. E por mais que tentemos no resto do Brasil, mesmo no Rio de Janeiro que ensina samba em escola, mesmo em São Paulo que faz tudo maior, em nenhum lugar do mundo há tanta disposição para festejar quanto na velha cidade de Salvador da Bahia de Todos os Santos. É de todos os santos, afinal.

Não quer dizer que o dia da festa não tenha vindo da terça-feira-de-carnaval - gorda - se estendendo para segunda, domingo, sábado, sexta-feira-de-carnaval, e aí já foi pegando as semanas em bloco. E para terminar invadiram primeiro a quarta-feira-de-cinzas, que é de abstinência de carne, mas, com tanto peixe brincando, já não se sabe o que vale e o que não vale, e depois as micaretas, que, como na Bahia isso é assunto sério, tiveram o nome definido em concurso de A Tarde, em seus tempos de glória, e foram se adiantando ao meio da quaresma para começar no próprio próximo sábado de depois do carnaval, que ninguém é de ferro.

Nós no Maranhão também tivemos práticas de entrudo, com direito a seringa de água - nem quero saber de quem as enchia com outros líquidos -, pó de arroz ou farinha de tapioca ou maizena, até os mais civilizados confete e serpentina ou ao proibido rodó-lança-perfume, e corso com os carros enfeitados e gente dependurada, e baile de máscara, de dominó e com anonimato garantido - quase -, e as marchinhas faziam o carnaval de rua, do bloco de sujo, ser democrático. Hoje já incorporou as práticas gerais, escola de samba com regra, bloco fechado com abadá.

Mas o carnaval é resistente. Os blocos abertos ressurgiram com força e hoje centenas estão registrados no Rio e em São Paulo e em todo o País, o que não impede que uma multidão de grupos informais, com todo tipo de instrumento, carregue alegria para todo lado, sem falar no Galo da Madrugada que já não cabe no Recife e ganha o mundo.

Alegria e brincadeira Brasil afora, agora que as pandemias, a de vírus e a outra, ficaram para trás. Sem preconceito, discriminação, na mistura de toda gente, que todos somos, direta ou indiretamente, herdeiros da África e da cultura que ela aqui construiu.

Os Divergentes, 14/02/2023

 

-----

José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

* * *

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Música calmante para os nervos 🌿 música curativa para o coração e vasos ...

Viver sem ela?

Ignácio de Loyola Brandão

 


Na rodoviária, Alzeni pediu.

'Por favor, uma passagem para Duas Passagens.'

O bilheteiro estendeu duas passagens.

'Quem pediu duas? Disse uma!'

'Tenho certeza, a senhora disse duas.'

Ela se deu conta, caiu na gargalhada, ri fácil, contagia.

'Duas Passagens, moço, é o lugar da Bahia onde nasci e para onde vou.'

São dois dias de viagem. Já dissemos a ela: 'Vá de avião, te damos passagem, vai até Salvador, pega ônibus lá'.

'Mas o ônibus de Salvador não vai até Duas Passagens, preciso trocar duas vezes. O que sai de São Paulo passa na porta de minha casa.'

Outro Brasil. E desconhecemos. Há 30 anos, Alzeni trabalha em casa. Faz parte da família. Dividimos dores e alegrias. Vai todos os anos rever os pais. A ansiedade agora é ir, porque o pai vai fazer 100 anos e ainda moureja na roça. Tem o maior orgulho da mãe, analfabeta, mas que, na hora de fazer contas, é um azougue. A cabecinha, um computador. Ela paga, confere o troco, diz o que falta em um segundo. Alzeni, no final do ano, carrega presentes para um mundão de pessoas. Quando a energia elétrica chegou ao sertão, ela levou fogão, geladeira, liquidificador, televisão para os pais e agora vai levar a panela que frita tudo sem engordurar nada. Tudo no bagageiro do ônibus. O celular chegou rápido, o longe ficou perto. O bagageiro do ônibus vem lotado, ela traz ovos caipiras em caixas de sapato cheias de areia.

Alzeni está há 30 anos conosco. Age como se fosse minha cuidadora. 'Mediu a glicemia? Tomou o Xigduo? Colocou colírio nos olhos? Tomou a vacina? Assinou o livro daquela moça?' Vacina é a insulina das manhãs. 'Nem olhou para o chá de pata de vaca que acabei de fazer.' Recomendado para baixar a glicemia, coisa de mineiro, agora que também sou de lá.

Alzeni fala, fala, ouve rádio, angustia-se com cada notícia ruim, liga para o filho, cuida dele, preocupa-se com a filha, faz dezenas de chamadas por dia, cuida das irmãs, dos parentes, muitas vezes ficamos bravos:

'Alzeni, você cuida de todo mundo, menos de você'. Ela fica abalada com cada morte de famoso, é íntima de todos, fica acabrunhada com agressões racistas. Dia desses, subiu ao meu estúdio dez vezes, por causa de um assalto, aquele estupro no Piauí, um celular roubado, etc. E falou, falou. E eu, nervoso por um texto que não saía, disse: 'Ainda te mando embora, quero sossego.'

'Ah, é? Ruim comigo? Mil vezes pior sem mim.'

Dei razão, rimos. Como viver sem ela?


Jornal O Estado de S. Paulo, 12/02/2023

 

---------------

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

* * *


domingo, 19 de fevereiro de 2023

Desencanto em Lima Barreto 

Cyro de Mattos

  


                          

               Viera ao mundo numa data aziaga para os espíritos supersticiosos: treze de maio, uma sexta-feira, dia de Nossa Senhora dos Mártires. E o que se chama destino trama contra ele cedo, começando com a perda da mãe, seis anos depois de ter nascido. Parte do espírito rebelde e a cor de mulato têm raízes na figura paterna, o tipógrafo João Henriques, filho de uma antiga escrava com um madeireiro português. O pai não lhe reconhece a paternidade.

             A cor de mulato instala-se na alma como algo que atormenta, causando-lhe obstáculos sucessivos. Estimulado pelo meio social vai acompanhá-lo até o fim da vida, gerando dramas marcados por uma sociedade opressiva, que ele pretende vingar-se. A alma de inconformado vai combater uma sociedade anacrônica, expressando-se perante o meio cultural através do que ele rotula de estética da sinceridade. Nesse particular interage numa literatura visceralmente voltada para as camadas proscritas da população, no texto destituído de linguagem rebuscada, submissa a modelos europeus, postura que era comum entre nossos escritores quando abordavam a realidade brasileira no fim do século dezenove e início do vinte.

             A imagem reinante dessa época era a de uma fragilidade no estado de espírito de nossos escritores. Nossa literatura possuía um corpo eclético formado pelo cruzamento e entrecruzamento de várias correntes estéticas, tendências ou estilos. Vivia-se no Rio com o sonho da França. E a Literatura, forma ampla de conhecimento da vida, era concebida por alguns como o sorriso da sociedade. Ninguém podia ser chamado de culto se não falasse nos heróis gregos e no cerco de Tróia. Como parte do contexto que primava pelo elogio à cultura de fora, com os valores formais da arte tradicional sem conteúdo nacional, aparece uma figura peculiar de escritor, a do boêmio, tipo pitoresco que se dava ao prazer de contar anedotas, fazer trocadilhos, nas portas de café e confeitarias. Nosso Parnasianismo, que em geral praticava a arte pela arte e a precisão vocabular (mot juste), quanto à sonoridade e ao senso colorido, embriagava muitos poetas.

         A sedução de Paris, as agremiações literárias, o hábito dos saraus artísticos, a mania de conferências e o uso das letras na escrita sonora, em seu poder verbal pobre de significado e percepção do drama humano, que teve em Coelho Neto um expoente, testemunham um Brasil literário vivendo um clima de ócio cultural e inutilidade criativa.

O criador de Policarpo Quaresma emerge dessa ambiência cultural moldada em atitudes importadas da Europa, alma inconformada que pretendia se tornar referencial oposto à estagnação que tomava conta de nossas letras de fim de século dezenove e início do vinte. Uma voz indignada, em sua revolta feita de humanismo social e humor cotidiano, vinha para contradizer como legítima prata da casa as cenas vazias de autênticos protagonistas nacionais, as quais se desenvolviam com as normas instituídas pelo ouropel alheio.

Reclamava o Brasil dentro do Brasil, querendo ter o direito de se fazer ouvir aos que não cuidavam de se interessar pelas coisas verdadeiras de nossa realidade. Munido de um estilo liberto do complexo colonial, brasileiro na maneira de ver, sentir e narrar as coisas nossas tomadas emprestadas ao cotidiano, Lima Barreto vai buscar seus personagens nos subúrbios do Rio de Janeiro, lá onde gravitam funcionários públicos, pequenos negociantes, médicos com pequena clínica, tenentes de diferentes milícias e seresteiros.

É o precursor do romance social brasileiro. Foi uma de minhas leituras na adolescência. Integra um de meus ensaios reunidos no livro A Leitura Lembrada, inédito,  sobre contistas, romancistas e poetas importantes da  literatura nacional.

 

Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Publicado em Portugal, Itália, Espanha, Alemanha, França, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Premiado no Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia e de Ilhéus. Comendador da Ordem do Mérito do Governo da Bahia


* * *