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terça-feira, 21 de fevereiro de 2023
Da alegria
Parece que da
etimologia da palavra 'carnaval' a única coisa certa é que se refere a carne.
Seria para designar a abstinência de carne da quaresma? Ou, como queria o pai
italiano de minha amiga Zélia Gattai, para afirmar que 'o que vale é a carne',
jogando a origem da festa para as farras romanas ou germânicas, quando não a
uma verdadeira bacanal grega? Essa origem europeia pode ser incontestável, mas
basta ver a tristeza do carnaval de Veneza ou a imitação que são os carnavais
que pipocam mundo afora para saber que carnaval como sinônimo de alegria tem
origem bem brasileira, isto é, africana.
Pois se os negros
não tivessem tomado conta da festa - e incorporado, sem preconceito, todas as
etnias, afinal há rainha da bateria nissei -, ela não seria essa bagunça
organizada que a faz única no mundo. Que me desculpem os mardi gras, os
carnavais do Caribe e de toda a América Latina, todos dominados pela herança
dos afrodescendentes, mas nos últimos cem anos o carnaval é nosso.
É verdade que um
dia, Presidente da República, visitei o Cabo Verde. Ia comigo o casal Zélia
Gattai e Jorge Amado. Em homenagem ao Brasil houve festa e se aquela alegria
não era carnaval? Voltei-me para o casal e disse: 'Vejam, é a Bahia! Foi daqui
que a alegria embarcou para Salvador!'
O sincretismo
religioso, tolerado pela Igreja Católica com boa ou má intenção, conseguiu o
que é raro: que as festas religiosas sejam dominadas pela alegria, como
recomendava São Paulo, ou como escreveu Paul Claudel - 'não temos outro dever
que não seja a alegria' -, ou como está no 'Memorial' de Pascal - 'alegria,
alegria, alegria, lágrimas de alegria.' Nas nossas alegrias estamos mais para o
riso que para a lágrima, e a lavagem do Bonfim se faz na dança e na água, e
essa não vem dos olhos, mas das quartinhas com que as baianas perfumam as
calçadas. Depois corre muita água, mas é da que passarinho não bebe.
Com a festa do
Senhor do Bonfim, na quinta-feira que antecede o segundo domingo depois da
Epifania - para que simplificar, se podemos confundir? - começa o carnaval na
Bahia. E por mais que tentemos no resto do Brasil, mesmo no Rio de Janeiro que
ensina samba em escola, mesmo em São Paulo que faz tudo maior, em nenhum lugar
do mundo há tanta disposição para festejar quanto na velha cidade de Salvador
da Bahia de Todos os Santos. É de todos os santos, afinal.
Não quer dizer que
o dia da festa não tenha vindo da terça-feira-de-carnaval - gorda - se
estendendo para segunda, domingo, sábado, sexta-feira-de-carnaval, e aí já foi
pegando as semanas em bloco. E para terminar invadiram primeiro a
quarta-feira-de-cinzas, que é de abstinência de carne, mas, com tanto peixe
brincando, já não se sabe o que vale e o que não vale, e depois as micaretas,
que, como na Bahia isso é assunto sério, tiveram o nome definido em concurso de
A Tarde, em seus tempos de glória, e foram se adiantando ao meio da quaresma
para começar no próprio próximo sábado de depois do carnaval, que ninguém é de
ferro.
Nós no Maranhão
também tivemos práticas de entrudo, com direito a seringa de água - nem quero
saber de quem as enchia com outros líquidos -, pó de arroz ou farinha de
tapioca ou maizena, até os mais civilizados confete e serpentina ou ao proibido
rodó-lança-perfume, e corso com os carros enfeitados e gente dependurada, e
baile de máscara, de dominó e com anonimato garantido - quase -, e as
marchinhas faziam o carnaval de rua, do bloco de sujo, ser democrático. Hoje já
incorporou as práticas gerais, escola de samba com regra, bloco fechado com
abadá.
Mas o carnaval é
resistente. Os blocos abertos ressurgiram com força e hoje centenas estão
registrados no Rio e em São Paulo e em todo o País, o que não impede que uma
multidão de grupos informais, com todo tipo de instrumento, carregue alegria
para todo lado, sem falar no Galo da Madrugada que já não cabe no Recife e
ganha o mundo.
Alegria e
brincadeira Brasil afora, agora que as pandemias, a de vírus e a outra, ficaram
para trás. Sem preconceito, discriminação, na mistura de toda gente, que todos
somos, direta ou indiretamente, herdeiros da África e da cultura que ela aqui
construiu.
Os Divergentes,
14/02/2023
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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38, eleito em 17
de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de
novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos
Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.
* * *
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023
Viver sem ela?
Ignácio de Loyola Brandão
Na rodoviária,
Alzeni pediu.
'Por favor, uma
passagem para Duas Passagens.'
O bilheteiro
estendeu duas passagens.
'Quem pediu duas?
Disse uma!'
'Tenho certeza, a
senhora disse duas.'
Ela se deu conta,
caiu na gargalhada, ri fácil, contagia.
'Duas Passagens,
moço, é o lugar da Bahia onde nasci e para onde vou.'
São dois dias de
viagem. Já dissemos a ela: 'Vá de avião, te damos passagem, vai até Salvador,
pega ônibus lá'.
'Mas o ônibus de
Salvador não vai até Duas Passagens, preciso trocar duas vezes. O que sai de
São Paulo passa na porta de minha casa.'
Outro Brasil. E
desconhecemos. Há 30 anos, Alzeni trabalha em casa. Faz parte da família.
Dividimos dores e alegrias. Vai todos os anos rever os pais. A ansiedade agora
é ir, porque o pai vai fazer 100 anos e ainda moureja na roça. Tem o maior
orgulho da mãe, analfabeta, mas que, na hora de fazer contas, é um azougue. A
cabecinha, um computador. Ela paga, confere o troco, diz o que falta em um
segundo. Alzeni, no final do ano, carrega presentes para um mundão de pessoas.
Quando a energia elétrica chegou ao sertão, ela levou fogão, geladeira,
liquidificador, televisão para os pais e agora vai levar a panela que frita
tudo sem engordurar nada. Tudo no bagageiro do ônibus. O celular chegou rápido,
o longe ficou perto. O bagageiro do ônibus vem lotado, ela traz ovos caipiras
em caixas de sapato cheias de areia.
Alzeni está há 30
anos conosco. Age como se fosse minha cuidadora. 'Mediu a glicemia? Tomou o
Xigduo? Colocou colírio nos olhos? Tomou a vacina? Assinou o livro daquela
moça?' Vacina é a insulina das manhãs. 'Nem olhou para o chá de pata de vaca
que acabei de fazer.' Recomendado para baixar a glicemia, coisa de mineiro,
agora que também sou de lá.
Alzeni fala, fala,
ouve rádio, angustia-se com cada notícia ruim, liga para o filho, cuida dele,
preocupa-se com a filha, faz dezenas de chamadas por dia, cuida das irmãs, dos
parentes, muitas vezes ficamos bravos:
'Alzeni, você cuida
de todo mundo, menos de você'. Ela fica abalada com cada morte de famoso, é
íntima de todos, fica acabrunhada com agressões racistas. Dia desses, subiu ao
meu estúdio dez vezes, por causa de um assalto, aquele estupro no Piauí, um
celular roubado, etc. E falou, falou. E eu, nervoso por um texto que não saía,
disse: 'Ainda te mando embora, quero sossego.'
'Ah, é? Ruim
comigo? Mil vezes pior sem mim.'
Dei razão, rimos.
Como viver sem ela?
Jornal O Estado de
S. Paulo, 12/02/2023
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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.
* * *
domingo, 19 de fevereiro de 2023
Desencanto em Lima Barreto
Cyro de Mattos
Viera
ao mundo numa data aziaga para os espíritos supersticiosos: treze de maio, uma
sexta-feira, dia de Nossa Senhora dos Mártires. E o que se chama destino trama
contra ele cedo, começando com a perda da mãe, seis anos depois de ter nascido.
Parte do espírito rebelde e a cor de mulato têm raízes na figura paterna, o
tipógrafo João Henriques, filho de uma antiga escrava com um madeireiro
português. O pai não lhe reconhece a paternidade.
A cor de mulato instala-se na alma
como algo que atormenta, causando-lhe obstáculos sucessivos. Estimulado pelo
meio social vai acompanhá-lo até o fim da vida, gerando dramas marcados por uma
sociedade opressiva, que ele pretende vingar-se. A alma de inconformado vai
combater uma sociedade anacrônica, expressando-se perante o meio cultural
através do que ele rotula de estética da sinceridade. Nesse particular interage
numa literatura visceralmente voltada para as camadas proscritas da população,
no texto destituído de linguagem rebuscada, submissa a modelos europeus,
postura que era comum entre nossos escritores quando abordavam a realidade
brasileira no fim do século dezenove e início do vinte.
A imagem reinante dessa época era
a de uma fragilidade no estado de espírito de nossos escritores. Nossa
literatura possuía um corpo eclético formado pelo cruzamento e entrecruzamento
de várias correntes estéticas, tendências ou estilos. Vivia-se no Rio com o
sonho da França. E a Literatura, forma ampla de conhecimento da vida, era
concebida por alguns como o sorriso da sociedade. Ninguém podia ser chamado de
culto se não falasse nos heróis gregos e no cerco de Tróia. Como parte do
contexto que primava pelo elogio à cultura de fora, com os valores formais da
arte tradicional sem conteúdo nacional, aparece uma figura peculiar de
escritor, a do boêmio, tipo pitoresco que se dava ao prazer de contar anedotas,
fazer trocadilhos, nas portas de café e confeitarias. Nosso Parnasianismo, que
em geral praticava a arte pela arte e a precisão vocabular (mot juste),
quanto à sonoridade e ao senso colorido, embriagava muitos poetas.
A sedução de Paris, as agremiações
literárias, o hábito dos saraus artísticos, a mania de conferências e o uso das
letras na escrita sonora, em seu poder verbal pobre de significado e percepção
do drama humano, que teve em Coelho Neto um expoente, testemunham um Brasil
literário vivendo um clima de ócio cultural e inutilidade criativa.
O criador de
Policarpo Quaresma emerge dessa ambiência cultural moldada em atitudes
importadas da Europa, alma inconformada que pretendia se tornar referencial
oposto à estagnação que tomava conta de nossas letras de fim de século dezenove
e início do vinte. Uma voz indignada, em sua revolta feita de humanismo social
e humor cotidiano, vinha para contradizer como legítima prata da casa as cenas
vazias de autênticos protagonistas nacionais, as quais se desenvolviam com as
normas instituídas pelo ouropel alheio.
Reclamava o Brasil
dentro do Brasil, querendo ter o direito de se fazer ouvir aos que não cuidavam
de se interessar pelas coisas verdadeiras de nossa realidade. Munido de um
estilo liberto do complexo colonial, brasileiro na maneira de ver, sentir e
narrar as coisas nossas tomadas emprestadas ao cotidiano, Lima Barreto vai
buscar seus personagens nos subúrbios do Rio de Janeiro, lá onde gravitam
funcionários públicos, pequenos negociantes, médicos com pequena clínica,
tenentes de diferentes milícias e seresteiros.
É o precursor do romance social brasileiro. Foi uma de
minhas leituras na adolescência. Integra um de meus ensaios reunidos no livro A
Leitura Lembrada, inédito, sobre
contistas, romancistas e poetas importantes da
literatura nacional.
Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa
da Universidade Estadual de Santa Cruz. Publicado em Portugal, Itália, Espanha,
Alemanha, França, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Premiado no Brasil e
exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia e de Ilhéus. Comendador
da Ordem do Mérito do Governo da Bahia
* * *
sábado, 18 de fevereiro de 2023
A Vida
Bert Hellinger
"A vida te decepciona pra você para de viver com ilusões e
ver a realidade.
A vida destrói todo supérfluo até que reste somente o
importante.
A vida não te deixa em paz para que deixe de culpar-se e
aceite tudo como é.
A vida vai retirar o que você tem até você para de reclamar
e começar a agradecer.
A vida envia pessoas conflitantes pra te curar, pra você
deixar de olhar pra fora e começar a refletir o que você é por dentro.
A vida permite que você cai de novo e de novo até que você
decida aprender a lição.
A vida lhe tira do caminho e lhe apresenta encruzilhadas até
que você pare de querer controlar tudo e flua como um rio.
A vida coloca seus inimigos na estrada até que você pare de
reagir.
A vida te assusta e assustará quantas vezes for necessário
até que você perca o medo e recupere sua fé.
A vida tira o seu amor verdadeiro. Ele não concede ou
permite até que você pare de tentar comprá-lo.
A vida lhe distancia das pessoas que você ama até entender
que não somos esse corpo, mas a alma que ele contém.
A vida ri de você muitas e muitas vezes até você para de
levar tudo tão a sério e rir de si mesmo.
A vida quebra você em tantas partes quantos forem
necessárias para a luz penetrar em você.
A vida confronta você com rebeldes até que você pare de
tentar controlar.
A vida repete a mesma mensagem, se for preciso, com gritos e
tapas até você finalmente ouvir.
A vida envia raios e tempestades para acordá-lo.
A vida te humilha e por vezes te derrota de novo e de novo
até que você decida deixar o seu ego morrer.
A vida lhe nega bens e grandeza até que pare de querer bens
e grandeza e comece a servir.
A vida corta suas asas e poda suas raízes até que não
precise de asas, nem raízes, mas apenas desapareça nas formas e seu ser voe.
A vida lhe nega milagres até que entenda que tudo, tudo é um
milagre.
A vida encurta seu tempo pra você se apressar em aprender a
viver.
A vida te ridiculariza até você se tornar nada, ninguém para
então tornar-se tudo.
A vida não te dá o que você quer, mas o que você precisa pra
evoluir.
A vida te machuca e te atormenta até que você solte seus
caprichos e birras e aprecie a respiração.
A vida te esconde tesouros até que você aprenda a sair para
a vida e buscá-los.
A vida te nega Deus até você vê-lo em todos e em tudo.
A vida te acorda, te poda, te quebra, te desaponta, mas
creia, isso é para que seu melhor se manifeste, até que só o amor permaneça em
ti".
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Profunda reflexão de Bert Hellinger, o alemão que já foi padre, largou o celibato e tronou-se psicoterapeuta e escritor. Falecido em 19/09/2019, ficou conhecido mundialmente pela criação do método Constelação Familiar.
* * *
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023
O Triste e Merecido Fim do Maior Ladrão do Mundo!
Natália Ramos Costa
O maior ladrão do mundo está a caminho de uma severa
demência.
Roubou, matou, mentiu, sempre acreditando na própria
mentira.
Antes, durante e após a prisão, esteve sempre convencido de
que era e é um herói, o único salvador do Brasil, um semideus.
Saiu da prisão, convicto de que seria ouvido, acatado,
respeitado, endeusado.
Todavia, em todos os lugares para onde vai, é expulso pelo
povo, sob vaias e gritos: "Luladrão, seu lugar é na prisão!”
Vários Estados Brasileiros já declararam: “Aqui, ele não entra”.
Nem o mais mal formado espírito, nem a pior e mais gelada
consciência humana é capaz de suportar o peso de uma vida tão errada, tão cheia
de crimes, de mentiras e de roubos, nunca confessados, nunca admitidos, sempre
vigorosamente negados, sempre desmentidos, até a exaustão.
Esse conflito interno é dele e irá dilacerá-lo, cada vez
mais. E não lhe será aliviado, enquanto persistir nessa mentira deslavada,
nesse mantra de que é inocente, nesse ódio venenoso, nessa tresloucada
arrogância, nessa ridícula e risível megalomania.
Ele não consegue acreditar no que está acontecendo à sua
volta. Isso deve parecer-lhe um pesadelo.
Então, prefere o caminho do ataque.
Ataca, desesperadamente, Jair Messias Bolsonaro, Sérgio
Moro, Deltan Dallagnol, para tentar, também, desesperadamente, convencer os
seus adeptos de que ele é o bom, o certo, o “deus salvador”.
Cada vez mais enfurecido, cada vez mais odioso, cada vez
mais repugnante... Ele está tão irado, tão fora de si, tão desequilibrado, que
não consegue perceber que, desta forma, afasta esse mesmo povo pelo qual ele
quer ser cada vez mais paparicado, pelo qual ele tanto deseja ser endeusado.
Vejam o abismo entre a expectativa dele e a realidade que
está enfrentando...
Pouco a pouco, a ficha do ladrão vai caindo, ele vai
enlouquecendo, porque nunca se preparou para ser desprezado e humilhado.
Pelo contrário, tudo o que fez foi inflar, mais e mais, o
seu ego do tamanho do mundo e chamar de quadrilha os Juízes e Procuradores da
Lava-Jato.
A ambição e a ganância desmedidas do maior ladrão do mundo
vão levá-lo a um fim trágico! Ele mesmo é quem está buscando isso.
Esse verme fez muito mal ao Brasil!
Vai enlouquecer de vez, abandonado pelos seus
companheiros, pelos seus aduladores e até mesmo pelos seus familiares, que têm
vergonha da sua sombra.
Vai se transformar numa “carniça”, cheia de vermes... e que
federá, cada vez mais...
Quando ele entender que o povo ACORDOU, que o povo tem
consciência de que ele é o ladrão, ele vai parar num hospício. E que os seus
seguidores "cegos"... o sigam.
Esse será o triste e merecido fim do “maior ladrão do mundo”.
* * *





