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quinta-feira, 19 de janeiro de 2023
segunda-feira, 16 de janeiro de 2023
Ano que vai, ano que vem
O tempo é algo em que vivemos, com
que não nos conformamos e que festejamos. Os versos de T. S. Eliot, que sempre
cito, dizem tudo: 'O tempo presente e o passado / esta? O ambos talvez no tempo
futuro, / e o tempo futuro está contido no tempo passado.' Já o Padre Vieira
explicava que 'se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se
que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do
passado, e o mesmo presente é o passado do futuro'.
O homem, para conviver com essa
complicação, resolveu recriar o tempo, imaginando que poderia controlá-lo.
Inventou maneiras de marcar as horas e os dias pela passagem do Sol; e a
sucessão de dias pela passagem da Lua. Depois começou a contar os anos pelas
estações, bem marcadas estas pelos solstícios de inverno e de verão. Apesar de
grande parte da Humanidade estar vivendo no ano do Tigre 4720 - só daqui a três
semanas entrarão no ano do Coelho -, e ser mais difícil saber que calendário
seguir nas áreas sob influência hindu que entender os dito cujos, a maior parte
do mundo segue o calendário definido pelo Papa Gregório XIII na bula Inter
gravíssimas.
Nós passamos na noite de sábado para
domingo pela virada - não sei bem o que virou - do ano velho para o ano novo.
E, embora o novo ano seja cheio de expectativas e esperanças, o ano velho,
neste final, foi de muita tristeza, pois marcado pela morte.
Sábado cedo morreu, em Roma, o Papa
Ratzinger, Bento XVI. Participando ainda jovem do Concílio Vaticano II, ele se
dedicou ao estudo da liturgia e defendeu a renovação do Santo Ofício. Poucos
anos depois João Paulo II o retirou da responsabilidade de ser Arcebispo de
Munique justamente para presidir a Congregação para a Doutrina da Fé, que São
Paulo VI criara para substituir a velha Inquisição Romana e sua versão mais
recente, a Sacra Congregação do Santo Ofício. No cargo se tornou o principal
auxiliar do Papa Wojtyla.
Durante anos Ratzinger defendeu com
firmeza a ortodoxia na Igreja como auxiliar do Papa, mas em 2005, com a morte
de São João Paulo II, foi eleito para substituí-lo e adotou o nome de Bento. Um
grande intelectual e brilhante escritor, pareceu viver os anos seguintes com
sofrimento, tendo dificuldade em enfrentar as tempestades que se abatiam sobre
Roma. Como solução, surpreendeu o mundo em 2013 ao renunciar ao cargo. A
profunda integridade de sua fé permanece como uma lição extraordinária.
Dia 29 Pelé deixou o esporte, do
Brasil e do mundo, com enorme saudade do seu gênio. Nenhum jogador se compara a
ele, que foi decisivo para tornar o futebol no mais amado dos jogos atléticos,
numa era em que estes expandiram-se de pequenos clubes de elite para serem
jogados em cada várzea e cada quadra de vizinhança, informalmente ou em clubes
que apaixonam multidões e movimentam quantias fabulosas. Ele foi único na
capacidade física e na inteligência do que fazer com a bola para superar os
adversários que tentassem evitar os gols inevitáveis.
Quando fui Governador, Marly
organizou um jogo beneficente entre a seleção maranhense e o time do Santos.
Conheci então sua generosidade e sua simpatia.
Convidado para uma visita oficial aos
Estados Unidos pelo Presidente Reagan, levei Pelé na comitiva. Nunca mais um
Presidente terá a oportunidade de contar com o prestígio de alguém conhecido
por toda a Humanidade, como ele era. Naquela viagem ninguém dava bola para os
Presidentes, ninguém queria saber dos Presidentes, das outras personalidades,
todos queriam era ver o Pelé.
E a literatura brasileira perdeu
Nélida Piñón, sua figura mais importante neste século em que vamos entrando,
quando o Brasil começa a expandir o caminho traçado por Jorge Amado de ter seus
autores conhecidos em todo o mundo. Nélida criou uma obra colossal, reconhecida
por um sem-número de prêmios, entre eles alguns com nomes que simbolizam sua
grandeza: Juan Rulfo, Rosalía de Castro, Cervantes. É o universo
hispano-americano, decerto, de que ela se tornara um dos maiores nomes.
Ela era para mim sobretudo uma amiga
de muitos anos, por quem tínhamos, Marly e eu, uma enorme afeição, sempre
reforçada por seus gestos de estima. Orgulho-me de ter sido um dos que apoiou
sua entrada na Academia Brasileira de Letras, onde presidiu o centenário da
Casa, e onde foi uma líder que orientou nosso caminho no século XXI. Saudade
imensa!
Mas o novo ano abre largas as portas
da esperança, nesta convenção do tempo que assimilamos para definir que será
melhor o amanhã e, já vendo isso acontecer, podemos, mais uma vez, desejar bons
anos para todos!
Os Divergentes,
03/01/2023
https://www.academia.org.br/artigos/ano-que-vai-ano-que-vem
José Sarney - Sexto
ocupante da Cadeira nº 38, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José
Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué
Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de
Mello Franco.
* * *
sábado, 14 de janeiro de 2023
Memória da Ponte Velha
Cyro de Mattos
Não só as cenas de tristeza, ocorrências com espanto, horror
e medo, a Ponte Velha presenciara durante o tempo que existira de pé, altaneira
e soberana no curso invariável do tempo, que tudo dá e toma. Acontecia também o
afago do vento no rosto dos namorados, na manhã morna ou na tarde fresca. Para
pessoas que moravam nos dois lados da cidade, era um corpo sólido erguido para
servir sem nada exigir em troca, dotado de vigor e beleza, que funcionava como
orgulho dos habitantes da pequena cidade. O professor Vilaboim, o que mais
entendia da história da cidade, não tinha dúvida em afirmar que ela tinha voz
oculta, boca que conversava consigo em segredo, ouvido que escutava atento aos
ruídos da natureza e os gestos das pessoas. Sua alma era profunda para nas
disposições interiores gravar com as fibras potentes de ferro e cimento tudo
que se passava através das cenas rotineiras. Era dotada de uma magia que
ninguém alcançava, nem sequer conseguia chegar perto de sua sabedoria lendária.
Um dia, os namorados chegaram de mãos dadas, debruçaram em
uma das balaustradas e dali ficaram apreciando a paisagem do rio na tarde
morna. As correntezas embaixo faziam espumas quando desciam no barulho por
entre as pedras perto da ponte. Sustentados pela leveza dos ares, dali traçaram
os sonhos com os olhos expectantes de esperança, querendo alcançar o horizonte.
Um fazia carícia no outro, beijavam-se, sorriam com a felicidade estampada no
rosto.
Outras vezes vieram com o intuito de alimentar o sonho do
amor no dia de verão morno. Pressentiam nas ondas do amor onde uma casa seria
habitada pelos hábitos do afeto, cuidaria ela dos filhos, ele com o trabalho
daria o sustento necessário para que os meninos crescessem e se tornassem um
dia pessoas respeitáveis. Ele gostava de dizer a ela que uma ponte é uma ponte,
uma rosa é uma rosa. A ponte servia para que fizessem a travessia sobre o rio
da vida e fossem alcançar na outra margem as metas melhores. A rosa emitia
fragrâncias nas horas suaves da existência, mas durava pouco. A ponte morava no
pensamento, já a rosa no sentimento. Com o equilíbrio e segurança de uma mais a
formosura de outra, regiam-se ambas pelos dons milagrosos da natureza e se
cabiam na gramática que Deus criara para a criatura não conviver com o
sentimento do nada. Tanto a ponte como a rosa reinventavam-se na proposição de
cada sonho.
* Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Detentor de prêmios
literários importantes e, entre eles, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de
Letras, Associação dos Críticos Literários de São Paulo, Nacional de Poesia
Ribeiro Couto (UBE-RJ), Internacional Maestrale Marengo d’Oro, Itália, duas
vezes, Menção Honrosa do Jabuti, Nacional Pen Clube do Brasil e Nacional Cidade
de Manaus. Publicado em oito idiomas.
* * *
quinta-feira, 12 de janeiro de 2023
Poema de Roberto Dinamite
Cyro de Mattos
Cruz de malta no coração,
Dinamite certeira nos pés,
O goleiro queria se esconder,
Daquela vez podia morrer.
Até as redes tremiam
Com o maior goleador,
Cada chute uma explosão
Que assombrava o torcedor.
Artilheiro como Roberto
No vitorioso Vasco da Gama
Outro igual pode até haver,
Outro maior não pode ter.
O Vasco, gigante da colina,
Teve o Ademir Queixada,
Quanto mais fazia gol
Mais queria ser goleador.
Teve o japonês Vavá,
Bicampeão mundial,
Um artilheiro perfeito,
Fazer gol era seu defeito.
Teve o Edmundo Animal,
Que tinha técnica apurada,
Mas sua fome de artilheiro
Fez do craque um matador.
Somente ele foi inimitável,
Agora joga com os anjos,
Seu petardo ultrapassa nuvens
Fazendo cair flores do céu.
Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Também editado no exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC.
* * *
quarta-feira, 4 de janeiro de 2023
terça-feira, 3 de janeiro de 2023
O balão vermelho
Passando pela
Marginal Pinheiros, dei com a roda-gigante destinada a ser a maior da América
Latina. Minúsculo pano vermelho (parecendo balãozi-nho) mostrava-se agarrado a
uma das cabines. Estremeci, a memória me remeteu aos meus 22 anos. Em um
domingo de 1958, eu voltava de um show, promovido pelo jornal Última Hora e dei
carona para Marlene França, atriz baiana nascida em Uauá, descoberta aos 14
anos por Alex Viany em Rosa dos Ventos, lançado em 1957. Ela veio para São
Paulo disposta a fazer carreira, e fez. Ao passarmos pelo Parque Shangai, no
centro, vimos a roda-gigante. Ela arregalou os olhos: 'Lô' - assim me chamava
-, 'vamos dar uma volta?'. Na entrada, outro pedido: 'Me dá um balão
vermelho?'. O filme de Lamorisse, Le Ballon Ronge, tinha sido sucesso. Feliz,
apertava tanto o balão junto ao corpo que tive medo de estourar. Demos uma
volta, duas, três, ela pedia: vamos passar a noite girando? Não passamos, mas tempos
depois começamos a namorar. Ela, que vinha de uma separação, queria desfrutar
tudo, vivíamos pela noite, mas nosso ponto mesmo era o bar Porta do Sol, na Rua
Sete de Abril. Marlene cresceu na carreira, acabamos nos distanciando e ela se
casou com Andréa Matarazzo Ippolito, teve três filhos, fez carreira
cinematográfica nas mãos de diretores como Walter Hugo Khouri, Jorge Ileli,
Aurélio Teixeira, Luiz Sérgio Person, Carlos Coimbra, Fauzi Mansur, Ozualdo
Candeias, Rubem Biáfora, Luiz Paulino, Roberto Santos. Viveu com intensidade os
filmes da 'Boca do Lixo'. Muitas vezes, quando nos cruzávamos, ela dizia: 'Ah!
Meu balão vermelho'.
Passamos décadas
sem nos ver. Nesse período, a baiana que aos 12 anos vendia doces em Feira de
Santana mostrou maturidade e pioneirismo ao dirigir quatro curtas-metragens. A
mulher de sorriso esfziante ousou enfrentar a ditadura em 1983 com um
documentário (assistência de Frei Betto) sobre Frei Tito, o dominicano que se
suicidou sob pressão da ditadura. Em 1985, ela foi a primeira a olhar para a
questão dos boias-frias no curta Mídheres da Terra. Dirigiu em seguida Meninos
de Rua, em 1988, problema ainda atual. Em 1999, veio o último curta, O Vale das
Mídheres.
Num momento em que
a batalha das mulheres está em plena erupção, espero que se dê um lugar a
Marlene. A escritora e videomaker Alexandra Roscoe, de Brasília, baseada nesse
retalho de vida, fez poética animação, dez anos atrás. Em 2011, em uma tarde de
setembro, Maria do Rosário Caetano me trouxe a biografia de Marlene por ela
escrita e me deu o telefone, há muito por mim perdido. Liguei, ela morava em um
sítio em Itatiba. Reconheceu minha voz. 'Lô, o balão vermelho?' A voz era
débil. Duas frases e a linha foi cortada. No dia seguinte, li: Marlene tinha
tido um enfarte.
O Estado de S.
Paulo, 01/01/2023
https://www.academia.org.br/artigos/o-balao-vermelho
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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL,
eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.
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