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sábado, 11 de junho de 2022

“Senhor, por que pareceis dormir?”


 

Padre David Francisquini *

 

No último domingo, dia 5 de junho, 50 dias depois da Páscoa, a Santa Igreja celebrou a grande festa da descida do Espírito Santo sobre a Virgem Maria e os Apóstolos reunidos no Cenáculo. Trata-se de uma das datas mais importantes do calendário litúrgico, juntamente com a Páscoa e o Natal.

O termo “Pentecostes” vem do grego pentēkostḗ, que significa “quinquagésimo”, em referência aos 50 dias que se sucedem à Páscoa. No Antigo Testamento, o Pentecostes era celebrado apenas pelos judeus, no fim da última colheita do ano, como forma de agradecer a Deus pela comida. É também conhecida como celebração da Lei de Deus, em memória do dia em que Moisés recebeu as Tábuas com as Leis Sagradas.

Essa festividade aconteceu especificamente na primeira Páscoa depois de o povo de Israel sair da escravidão do Egito e receber os Dez Mandamentos enviados por Deus. Mas, no Antigo Testamento, o dia de Pentecostes é citado com outros nomes, tais como ‘Festa da Colheita ou Sega’ (Êxodo 23.16), ‘Festa das Semanas’ (Deuteronômio 34.22) e ‘Dia das Primícias dos Frutos’ (Números 28.26).

No Novo Testamento, a comemoração de Pentecostes é citada no livro dos Atos dos Apóstolos, no capítulo 2, quando narra o momento em que os apóstolos receberam os dons do Espírito Santo: “Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem” (Atos dos Apóstolos 2:1-4).

Os fiéis católicos sabem que a festa do divino Espírito Santo é comemorada com toda solenidade e se estende por oito dias. Tão importante é este tempo, que os domingos seguintes estão concatenados entre si e são chamados ‘domingos depois de Pentecostes’. A importância dessa solenidade se acentuou a partir do século IV, e conferiu à Igreja o valor do batismo e da crisma administrados aos catecúmenos na vigília de Pentecostes para aqueles que não os receberam no Sábado Santo.

Com o fato histórico descrito nos Atos dos Apóstolos, fica estabelecida a promulgação solene da verdadeira Igreja de Jesus Cristo, que se dá na difusão do evangelho e administração do Batismo. As línguas de fogo sobre os apóstolos indicam a difusão da verdadeira fé e da palavra de Cristo contidas nos evangelhos e nas epístolas: “ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). A Igreja, esposa de Jesus Cristo, se inicia pelo esplendor e grandeza desta ação no mundo no dia desta solenidade, onde se encontrava reunidos os discípulos do Senhor.

Com a descida retumbante do Divino Paraclito sobre os apóstolos, estes se tornaram instrumentos eficazes da graça para transmitir em toda a face da Terra a doutrina ensinada por seu Divino Mestre. Não é de estranhar que a vinda do Espírito Santo no Cenáculo deu-se com grande estrondo; com um vento impetuoso e a aparição de destacadas línguas de fogo sobre todos os que se encontravam no recinto sagrado, onde Jesus Cristo instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio católico. Todos ouviram em seus próprios idiomas, com enorme fascínio, o que os apóstolos falavam sobre as maravilhas de Deus.

São Luís Grignion de Montfort, no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, descreve a relação entre o grande acontecimento de Pentecostes e os pregoeiros do Reino de Maria. Fundamenta ele que a ação de Maria no Cenáculo sobre os apóstolos seria semelhante à graça que receberão aqueles que lutarão pela vitória indelével da Igreja em uma era inteiramente marial, pulverizando o processo revolucionário multissecular desencadeado há séculos com o declínio da Cristandade.

Este grande santo francês, que viveu no século XVIII, num momento em que o movimento revolucionário grassava fortemente em toda a França, não por acaso lançou, com um brado pungente, os seus justos e zelosos anseios de ver restabelecida a ordem universal de outros tempos, fazendo ecoar os anseios do salmista: “Levante-se Deus, e sejam dispersados os seus inimigos” (Sl. 67, 1-2); Erguei-vos, Senhor, por que pareceis dormir? Erguei-Vos.

Acalentava São Luís Grignion no mais profundo de sua alma, o ideal profético de instauração de uma civilização ainda mais aperfeiçoada do que a de outrora. Segundo os perenes ensinamentos daquela que é Mãe e Mestra da verdade, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana ensina, guia, governa, santifica e define as verdades de Fé com vistas à salvação eterna dos homens, em todos os séculos.

Ao se referir ao reino profetizado por ele, São Luís fala que nessa era marial as almas estarão embebidas do amor de Deus, e serão instrumentos do Espírito Santo para constituir uma era de fogo na qual a face da Terra será renovada pela ação da Santa Igreja. Convém ressaltar o relacionamento existente entre Maria e os apóstolos, unidos em oração no Cenáculo, pois Maria é o elo entre a Igreja e Deus, pois sendo Mãe de Jesus Cristo, tornou-se a Mãe da Igreja.

De fato, o Espírito Santo operou uma transformação naquelas almas, que passaram a difundir as verdades ensinadas por Nosso Senhor. Pela fé, não somente temos certeza na promessa divina de que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, mas confiamos que algo extraordinário ocorrerá nos tempos atuais, diante da crise na qual Ela se encontra.

De tal modo extraordinário, que é impensável instaurar o Reino de Maria sem a ocorrência de uma ação extraordinária do Espírito Santo sobre as almas. Como pela ação de Maria no Cenáculo foi possível a vinda do Espírito Santo, assim também será em nossos dias, para que os escolhidos sejam verdadeiros condutores para a difusão da verdadeira civilização em toda a face da terra, em que Cristo será o centro e o rei da sociedade temporal e espiritual.

*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/senhor-por-que-pareceis-dormir/

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quinta-feira, 9 de junho de 2022

A AMA-SECA

Artur Azevedo

 


          O Romualdo, marido de dona Eufêmia, era um rapaz sério, lá isso era, e tão incapaz de cometer a mais leve infidelidade conjugal como de roubar o sino de São Francisco de Paula; mas – vejam como o diabo as arma! Um dia dona Eufêmia foi chamada, a toda a pressa, a Juiz de Fora, para ver o pai que estava gravemente enfermo, e, como o Romualdo não podia naquela ocasião deixar a casa comercial de que era guarda-livros (estavam a dar balanço), resignou-se a ver partir a senhora, acompanhada pelos três meninos, o Zeca, o Cazuza, o Bibi, e a ama-seca deste último, que era ainda de colo.

            Foi a primeira vez que Romualdo se separou da família. Custou-lhe muito, coitado, e mais lhe custou quando, ao cabo de uma semana, dona Eufêmia lhe escreveu, dizendo que o velho estava livre de perigo, mas a convalescença seria longa, e o seu dever de filha era ficar junto dele um mês pelo menos.

            O Romualdo resignou-se. Que remédio!...

            Durante os primeiros tempos saía do escritório e metia-se em casa, mas no fim de alguns dias entendeu que devia dar alguns passeios pelos arrabaldes, hoje este, amanhã aquele. Era um meio, como outro qualquer, de iludir a saudade.

            Uma noite coube a vez ao Andaraí Grande. O Romualdo tomou o bonde  do Leopoldo, e teve a fortuna ou a desgraça de se sentar ao lado de mulatinha mais dengosa e bonita que ainda tentou um marido, cuja mulher estivesse em Juiz de Fora.

            Nessa noite fatal a virtude de Romualdo deu em pantanas: tencionando ele ir até o fim da linha, como fazia todas as noites, apeou-se na rua Mariz e Barros, ali pelas alturas da travessa de São Salvador. A mulata havia se apeado algumas braças antes.

            E ele viu, à luz de um lampião, o vulto dela saltitante e esquivo, e apressou o passo para apanhá-la, o que conseguiu facilmente, porque, pelos modos, ela já contava com isso.

            - Boa-noite!

            - Boa-noite.

            - Como se chama?

            - Antonieta.

            - Pode dar-me uma palavra?

            - Por que não falou no bonde?

            - Era impossível... estava tanta gente... e estes elétricos são tão iluminados...

            - Mas o senhor bolinou que não foi graça! Vamos, diga: que deseja?

            - Desejo saber onde mora.

            - Não tenho casa minha; tou empregada numa família ali mais adiante, por siná que não ‘stou satisfeita, e ando procurando outra arrumação.

            - Onde podemos falar em particular?

            - Não sei.

            - Você sai amanhã à noite?

            - Amanhã não, porque saí hoje, e não quero abusá.

            - Então, depois de amanhã?

            - Pois sim.

            - Onde a espero?

            - Onde o sinhô quis é.

            - Na praça Tiradentes, no ponto dos bondes. Às oito horas.

            - Na porta do armazém do Derby?

            - Isso!

            - Tá dito! Inté depois d’amanhã às oito horas.

            - Não falte!

            - Não farto, não!

            No dia seguinte o Romualdo contou a sua aventura a um companheiro de escritório que era useiro e vezeiro nessas cavalarias baixas, e o camarada levou a condescendência ao ponto de confiar-lhe a chave de um ninho que tinha preparado adrede para os contrabandos do amor.

            Antonieta foi pontual; à hora marcada lá estava à porta do Derby, com ares de quem esperava o bonde.

            O Romualdo aproximou-se, fez um sinal, afastou-se, e ela o seguiu.

           

 

            Dez dias depois, estava ele arrependidíssimo da sua conquista fácil, e com remorsos de haver enganado dona Eufêmia, aquela santa! Procurava agora meios e modos de se ver livre da mulata, cuja prosódia era capaz de lançar água na fervura da mais violenta paixão.

           Vendo que não podia evitá-la, tomou o Romualdo a deliberação de fugir-lhe, e uma noite deixou-a à porta do ninho, esperando debalde por ele. Lembrou-se, mas era tarde, que havia prometido dar-lhe um anel, justamente nessa noite.

           - Diabo! – pensou ele – Antonieta vai supor que lhe fugi por causa do anel.

 

 

            Voltou, afinal, dona Eufêmia de Juiz de Fora. Veio no trem da manhã, inesperadamente, e já não encontrou o marido em casa.

            Estava furiosa, porque a ama-seca de Bibi deixara-se ficar na estação da Barra. Podia ser que não fosse de propósito. O mais certo, porém, era o ter sido descaminhada por um sujeito que vinha no trem a namorá-la desde Paraibuna.

            Quando dona Eufêmia contou isso ao marido, acrescentou indignada:

            - Que homem sem-vergonha!... Não podem ver uma mulata!...

            O Romualdo perturbou-se, mas disfarçou, perguntando:

            - E agora? É preciso anunciar! Não podemos ficar sem ama-seca!

            - Já mandei o Zeca por um anúncio no “Jornal do Brasil”.

            No dia seguinte, o Romualdo saiu muito cedo; ao voltar a casa, a primeira coisa que perguntou à senhora foi:

            - Então? Já temos ama-seca?...

            - Já; é uma mulatinha bem jeitosa, mas tem cara de muito sapeca. Chama-se Antonieta.

            - Hein? Antonieta?

            - Que tens, homem?

            Nada; não tenho nada... É jeitosa?... Tem cara de sapeca?... Manda-a embora! Não serve! Nem quero vê-la!...

            - Ora essa! Por quê? Olha, ela aí vem.

            Antonieta chegou, efetivamente, com o Bibi ao colo; mas o Romualdo tinha fechado os olhos, dizendo consigo:

            - Que escândalo!... rebenta a bomba!... este diabo vai reclamar o anel!...

            Mas como nada ouvisse, o mísero abriu os olhos e – Oh! Milagre! – era outra Antonieta!...

          Ele pensou, os leitores também pensaram que fosse a mesma; não era.

            Decididamente há um Deus para os maridos que enganam as suas mulheres.

 

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Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.

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segunda-feira, 6 de junho de 2022

Missa | Santuário Nacional de Aparecida 10h30 06/06/2022

Romance de Cyro de Mattos

Participa da Festa do Livro da USP





Nos dias 7 a 9 de junho, das 9:30 às 21 horas, a Editora Letra Selvagem estará participando da 10ª Festa do Livro da USP Leste. Os livros dos "autores selvagens" estarão disponíveis, com até 50% de desconto. São romances, poesias, contos, crônicas, ensaios, de autores brasileiros e estrangeiros, escolhidos a partir da qualidade e contribuição à literatura.  E entre eles o romance Os Ventos Gemedores, de Cyro de Mattos, Prêmio Nacional do Pen Clube do Brasil, um dos mais expressivos e tradicionais dos certames literários brasileiros. https://www.livrariaselvagem.com.br

A Festa do Livro da USP - Leste será no formato híbrido. Ou seja, presencialmente a Letra Selvagem vai estar com uma bancada e em seu site: https://www.livrariaselvagem.com.br. Todos os livros da LS com até 50% de desconto, no período de 07 a 09/06, estarão participando no grande evento da USP Leste e no site da Editora. https://festadolivro.edusp.com.br/uspleste/editoras

 

VULCÂNICOS LABIRINTOS NO CORAÇÃO DA TERRA

No chão encharcado de sangue e lágrimas do Japará, território imaginado pelo romancista, a narrativa labiríntica de Os Ventos Gemedores reafirma a criatividade admirável de um autor aclamado pela crítica. “Cyro de Mattos possui uma personalidade vigorosa e original, a condição humana dos personagens que surgem do seu conhecimento e de sua emoção nada têm de artificialismo... O autor de Os Brabos pisa chão verdadeiro, toca a carne e o sangue dos homens, entre sombras e abismos.”

Jorge Amado

 

“Começo bem o ano, lendo Os Brabos, em que Cyro de Mattos põe muito sentimento dramático da vida, e muita vivência brasileira. São histórias que ficam na lembrança da gente.”

Carlos Drummond de Andrade

 

“Extraordinária capacidade de dar aos aspectos mais típicos da realidade nacional, em estilo profundamente impregnado da nossa fala brasileira, a revelação de um escritor visceralmente nosso... admirável ficcionista.”

Alceu Amoroso Lima


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domingo, 5 de junho de 2022

Sequência de Pentecostes (Espírito de Deus, enviai dos céus)


 

SEQUÊNCIA DE PENTECOSTES:

 

Espírito de Deus, enviai dos céus
um raio de luz!

Pai dos Miseráveis com vossos dons afáveis
vinde aos corações!

Consolo que acalma, hóspede da alma,
doce alívio, vinde!

No labor descanso, na aflição remanso,
no calor aragem.

Enchei, ó luz bendita, chama que crepita
o íntimo de nós!

Sem a luz que acode, nada o homem pode,
nenhum bem há nele.

Lavai o que há impuro, regai o seco e duro, curai o doente.

Dobrai toda dureza, o frio se aqueça,
no escuro conduzi

Dai à vossa Igreja, que espera e deseja
vossos sete dons.

Dai em prêmio ao forte uma santa morte. Alegria eterna.

 Amém! Amém!

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Deus, que animou a vida e a missão da primeira comunidade cristã, com a força do Espírito Santo, ilumine os nossos corações e acenda neles o fogo do seu amor,
para que sejamos testemunhas da Páscoa, com palavras e com a nossa vida.
Abençoe-nos o Pai e o Filho e o Espírito Santo. Amém.

https://revistadeliturgia.com.br/domingo-de-pentecostes-2022/

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (266)



Solenidade de Pentecostes | Domingo, 5 de junho de 2022


Anúncio do Evangelho (Jo 20,19-23)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira, Sacerdote da Comunidade Canção Nova:


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O vento (santa Ruah) sopra a teu favor

 


“…soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo’” (Jo 20,22) 

 

A liturgia da festa de Pentecostes deste ano nos situa no momento do encontro do Ressuscitado com seus discípulos, literalmente “trancados” numa sala, incapazes de romper seus medos, marcados por uma profun-da tristeza e decepção.

O Ressuscitado, ao exercer o “ofício do consolar” (S. Inácio), desperta novo ânimo naqueles homens desolados, graças ao sopro vital do seu Espírito, que se torna ação criadora e rompedora de tudo que limita. O Ressuscitado não só se apresenta e fala, mas comunica a si mesmo: entrega o seu Espírito, Aquele mesmo que o conduzia criativamente pelas estradas da Galiléia, instaurando o novo Reinado do Pai.

Pentecostes é, para os cristãos, a festa do Espírito. Ao dizer que Deus é Espírito, estamos dizendo que Ele não é um “ser fechado em si”, senão abertura, ser-para-os-outros. Chamamos Deus “Espírito” porque é força criadora e criativa, alento no qual todas as coisas e os humanos se sustentam. Toda a realidade, perpassada pelo dinamismo divino, só tem sentido em Deus; todas as “coisas” são em Deus. Também o ser humano: ele existe unicamente a partir do “sopro” do Espírito divino, que lhe dá autonomia e liberdade.

Em outras palavras, o Espírito é o espaço aberto do amor oblativo e presença que estabelece continuamente o “cosmos” em meio ao “caos”; é Deus mesmo como força expansiva e como fundamento de vida de tudo e de todos, como seio maternal e fecundante no qual podemos chegar à existência verdadeira. Por isso, o ser humano nunca vive a partir de si nem para si mesmo; existe imerso no Espírito divino e caminhando para o futuro (o novo nascimento) ao qual o Espírito lhe abre. 

Recebei a Ruah”, assim deve ter dito Jesus. Em sua língua materna, Jesus chamava o Espírito de “Ruah”.  É uma pobreza falar só do “Espírito Santo” e deixar de lado a riqueza semântica da “ruah”, que, em hebraico, tem conotações muito mais ricas que o termo latino “spíritus”.

Assim, a expressão hebraica “Ruah”, feminino de Deus, significa a brisa, o “pairar” de Deus sobre as águas, o sopro impetuoso que gera vida. Alento, vento, sopro, respiração, força, fogo... com nome feminino, que fala de maternidade e de ternura, de vitalidade e carícia.

Assim como Jesus, pela força da “Ruah”, se encarnou e se humanizou, também nós nos fazemos cada vez mais humanos, por obra da mesma “Santa Ruah” de Deus. Ela nos faz pressentir o quanto amados somos, que, na comunhão, nunca estamos sozinhos, e que esta é a hora para cada um(a) de nós e o melhor momento que nos cabe viver. Sob o impulso da “Ruah”, vivemos todos no "horário nobre da vida”. 

É a “Ruah” quem nos move a superar os esquemas atrofiados da vida e a assumir uma causa mobilizadora, centrada no Reino anunciado por Jesus. É Ela que nos arranca das malhas do egoísmo, liberta-nos dos interesses mesquinhos, faz-nos caminhar no terreno firme do amor, abre novos horizontes e nos impulsiona a assumir ideais mais elevados de felicidade e realização pessoal.

Ela continua presente na vida de todo(a) seguidor(a) de Jesus e no seio de sua comunidade. Continua atuando através de muitas pessoas e organizações que se comprometem radicalmente na luta contra tudo aquilo que rompe os vínculos, alienam e desumanizam. A “Ruah” de Deus continua atuando na história, embora aparentemente não a percebamos. Não é necessário fazer tanto barulho para dizer que a “Ruah” está agindo através de um discreto silêncio. Muitas vezes, não a sentimos porque atua de maneira muito simples, através de gestos que podem passar desapercebidos. 

Portanto, viver alentados pela e na Ruah é também um convite a harmonizar sabiamente os opostos da vida: experiência de fortaleza/experiência de debilidade, silêncio/palavra, trabalho/descanso, partilhar/receber, presença/ausência, conectar/desconectar, saber caminhar acompanhados/saber estar a sós saboreando a dimensão positiva e fecunda de uma “solitude” (solidão habitada) que enriquece nosso mundo interior e fortalece nossas opções e compromissos.

Por outro lado, as consequências de viver sem o Espírito-Ruah, Espírito-Sophia, são realmente desastrosas. A vida cristã sem “Ruah” se revela como um conjunto de normas em uma instituição a mais, carregada de moralismo, doutrina estéril e ritualismos vazios. Fica obsoleta, porque não interpreta os sinais dos tempos, odres velhos para vinho novo.

Sempre é a “Ruah” que nos unifica, Aquela que nos convida a superar a divergência que é fruto de nosso falso eu. Nela, a diversidade nos enriquece.

É a “Ruah” de Deus, do amor, do comunitário e do comum, do povo de Deus. N’Ela já não é possível permanecermos fechados, pois Ela transpassa as paredes e quebra os ferrolhos das portas, nos faz abertos de coração e de mente, frente às reservas e às dúvidas do temor.

Com seus dons, compreendemos que o universo é nossa casa e nós não somos estranhos nela, que a humani-dade não caminha no vazio de uma existência do nada, senão rumo à Casa Comum do Pai, e que a senda é a dos irmãos na comunidade, em direção a um horizonte sempre inspirador. 

O ser humano, desde sempre existe enquanto está fundamentado (protegido e potenciado) na Ruah.

Constituído de argila, como vaso nas mãos de um ceramista, cada um recebe o sopro ou hálito divino. É a própria Vida de Deus, o seu sopro vital, que faz surgir o humano do húmus da terra. É a “Ruah” de Deus, inspirado no ser humano, que o torna realmente humano.

Cada pessoa é portadora deste sopro de Deus e desta força misteriosa que o impulsiona à plenitude.

sopro de Deus impresso no mais profundo de nosso ser, está enfaixado pela fragilidade da argila.

Somos a grande combinação resultante do sopro de Deus e da argila que nos configura.

Cada um de nós é a força criativa de Deus impressa em cada coração. O respiro ou hálito é o símbolo da presença do Criador em nós. Sob o signo de Adão, nós somos, em primeiro lugar, criaturas de Deus em comunhão com as demais criaturas, participando da mesma existência criatural. Mas, pelo sopro do próprio Deus, somos “elevados” à condição de imagem e semelhança d’Ele.

Então, tornamo-nos “criaturas abertas ao Espírito” e, mais ainda, “criaturas habitadas pelo Espíri-to”; somos argila, mas argila portadora da “Ruah”, argila aberta ao céu. Tornamo-nos, assim, imagem do mundo diante de Deus e imagem de Deus diante do mundo. 

Nos relatos bíblicos, a “Ruah de Deus” se revela sempre “rompedora”, pois é Ela que “alarga o espaço de nossa tenda interior”. É como se derrubasse as paredes, abrisse portas e janelas e nos oferecesse espaços amplos de encontro. Desse modo, cabe mais gente em nossas vidas e a “Ruah” nos ajuda a descobrir a fraternidade e sororidade como um dom.

A “Ruah Santa” é aquela que faz estremecer as estruturas, que toca nos lugares mais profundos e nossos. Ela vem como gesto de Deus que arranca nossas vidas do porto seguro da acomodação e nos lança para os mares abertos do novo e das surpresas. Nela, quanto mais navegamos, mais descobrimos novos mares.

E nunca faltará o Vento ao nosso veleiro.

Texto bíblico:  Jo 20,19-23

Na oração: “Vem, Santa Ruah!”: é o clamor, o gemido, a oração universal. Melhor: é a Ruah quem clama, geme e ora no mais profundo de seu ser e no mais profundo de tudo quanto existe. O universo é oração.

- Deixe a Ruah fluir livremente; assim, a vida espiritual será para você aquela vida na qual a Ruah poderá se mover sem obstáculos. Uma espiritualidade holística que experimenta a presença d’Ela na totalidade de sua vida, em todas as dimensões da realidade: a história, a natureza, a interioridade, as relações humanas, a luta pela justiça, o descanso, o trabalho etc. Todos estes são lugares onde a Ruah se manifesta.

- Como exercício prático, localize em sua vida os momentos de profundas mudanças nos quais você se atreve a chamar “Pentecostes”, porque lhe fizeram descobrir em seu interior, a presença da Ruah de um modo novo, mais vivo e vigoroso; porque lhe fizeram ver as pessoas e a realidade com reverência; porque lhe fizeram sair de visões e atitudes estreitas; porque lhe tornaram diáfano (transparente) da presença de Deus no cotidiano de sua vida...

- Em sintonia com toda a Criação, abra espaço à presença e voz da “Ruah” em seu coração.


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2591-o-vento-santa-ruah-sopra-a-teu-favor

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