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quinta-feira, 12 de maio de 2022

 

60 ANOS EM 6 - Já parou para pensar?

 


Em 2014, fomos às ruas para tentar derrubar a tresloucada Dilma... votando no Aécio. Sim, o Aécio, o cara que era chefe de quase todo o esquema de corrupção, traficante e drogado, mancomunado com o PT e com todo o lixo que nos governou durante os últimos 30 anos.

Éramos completamente cegos e ignorantes na política. Éramos escravos do sistema e nem sabíamos que havia um sistema!

Para nós, Olavo de Carvalho era um desconhecido; Enéas Carneiro era um louco; Roberto Campos era o “Bob Fields” e Bolsonaro era o deputado nervosinho.

Confiávamos na Rede Globo e batíamos palmas para os artistas sem talento que compravam apartamento em Paris e Nova Iorque com nosso dinheiro.

 

Em apenas 6 anos (6 e não 60):

 

- Tiramos uma débil mental e ex-terrorista do poder.

 - Prendemos um semianalfabeto corrupto e seu bando

 - Elegemos o primeiro Presidente de direita dos 500 anos do Brasil

 - Aprendemos muito mais de política do que de futebol.

 - Esvaziamos as plateias de artistas comunistas e sem talento.

 - Paulo Guedes foi eleito o melhor Ministro da Fazenda do mundo de 2019.

 - Demos uma banana para Cuba e Venezuela e nos aliamos a EUA e Israel.

 - Quebramos a espinha dorsal de um sistema de ensino que criava zumbis esquerdistas.

 - Boicotamos uma das mais influentes emissoras de TV do mundo.

 - Identificamos quem são Maia e Alcolumbre e muitos outros traidores.

 - Acabamos com a carreira de um juiz infiltrado, vaidoso e traidor (“ele cometeu suicídio político”).

 - Tivemos o prazer de aprender com um ministro da Educação que os 11 do STF não passam de bandidos com toga.

 - Enfim, Bolsonaro escancarou todo o sistema podre! Bolsonaro abriu a tampa do imenso bueiro! Ratos e baratas estão desesperados!

-Bolsonaro fez o povo ficar ciente da política e da economia como nunca!

 -Bolsonaro governa com transparência, ou seja, ele mostra seus erros e acertos.

 -Bolsonaro nos devolveu o amor pelo nosso país.


 Você acha que enterraremos um sistema todo em 6 anos?

Claro que não! Mas estamos mais fortes e mais lúcidos do que nunca estivemos.

 Desistir, nunca! Render-se, jamais!

 Por tudo o que Bolsonaro passou (e passa), apostando até sua vida por nós, o mínimo que devemos fazer é ter a decência de lutar com toda a força e coragem que tivermos.

 ESTAMOS JUNTOS, BRASIL!

 

 (Recebi via WhatsApp sem menção de autoria)

* * *

 

quarta-feira, 11 de maio de 2022

O TELEFONE - Artur Azevedo



O Telefone

Artur Azevedo

 

          Isso passou-se nos últimos tempos do segundo império:

          O Chagas, moço de vinte e cinco anos, amanuense numa secretaria de estado, era tímido, o que, aliás, não o impediu de  corresponder prontamente aos olhares libidinosos que certa noite – por sinal que era domingo – lhe atirou de um camarote, no Recreio Dramático, uma bonita mulher, um pouco mais velha que ele, acompanhada pelo marido, muito mais velho que ambos.

            Este parecia interessado pelo espetáculo: tinha os olhos pregados no palco, sem desconfiar nem de leve que a sua cara metade namorava escandalosamente às suas barbas, um jovem espectador da plateia.

            Depois de castigado o vício e premiada a virtude, o Chagas acompanhou, a certa distância o casal, até o largo de São Francisco e, apesar de tímido teve coragem de sentar ao lado da senhora.

            Dali até São Cristóvão, como não se pudessem falar, entenderam-se ambos, a princípio com os cotovelos e joelhos, depois com os pés e afinal com as próprias mãos, que se apertaram furtivamente, quando, nas alturas do canal do Mangue, o marido deixou de fazer considerações críticas sobre o dramalhão que ouvira, e começou a cochilar, como todos os maridos confiantes.

            Alguns metros antes de chegar ao domicílio conjugal, ela preveniu o Chagas com uma joelhada mais enérgica e, voltando-se para o sonolento, disse-lhe:

            - Acorda, Barroso, que estamos quase!

            Apearam-se, e o Chagas tomou nota do número da casa.

            No dia seguinte, o ditoso mancebo olhou todas as informações desejáveis. O Barroso era um honrado negociante, estabelecido perto do Mercado; saía de casa às seis da manhã e só voltava à noitinha – o que facilitou ao Chagas os meios de escrever a Clorinda, que assim se chamava a bela.

            Pediu-lhe uma entrevista, e escusado é dizer que ela não opôs a esse pedido a menor resistência; exigiu apenas depois do primeiro encontro, que os outros se efetuassem longe do bairro, e que o Chagas a esperasse no campo de São Cristóvão, dentro de um carro fechado. Este os transportaria para um retiro longínquo e discreto.

 

            O venturoso amante em pouco tempo se convenceu de que as mulheres mais caras são justamente as que se dão de graça. Os seus magros cobres de amanuense não chegavam para aquele carro escandalosamente misterioso e para o hotel com duas entradas, onde se escondiam aqueles amores ignóbeis. O pobre rapaz recorreu ao prego e ao usurário: encalacrou-se deveres.

            Demais, o namorado estragou o funcionário. Como estivesse profundamente impressionado por Clorinda, e não pensasse noutra coisa que não fosse ela, e só dela, o amanuense começou a meter os pés pelas mãos, errando os trabalhos mais insignificantes que lhe confiavam, tornando-se incapaz até de extrair uma simples cópia.

            Junte-se a isso a circunstância de faltar pelo menos uma vez por semana à repartição – nos dias em que, metido no carro, suando por todos os poros, trêmulo de impaciência e com o coração aos saltos, esperava que ela entrasse também, para voarem ambos ao miserável ninho  das suas poucas-vergonhas.

           Algumas vezes Clorinda faltava à entrevista, porque uma circunstância qualquer a impedia de sair de casa. Nessas ocasiões o Chagas passava por tormentos incríveis.

            - Ainda nada, ó Maciel? – perguntava de vez em quando ao cocheiro, sempre o mesmo, que o servia naquelas arriscadas aventuras, homem já maduro, pai de filhos, e tão discreto que não encarava Clorinda quando esta apontava ao longe e vinha na direção do carro, protegida pela sombrinha e pelo véu, arregaçando a saia com muita elegância, e apressando os passinhos miúdos, lépida, saltitante como se houvesse saído de casa para boa coisa.

            - Nada!

            Mas, desde que a via, o cocheiro voltava-se para o Chagas e o avisava:

            - Agora!

            E o Chagas esperava-a com a portinhola entreaberta.

 

            Um dia Clorinda deu-lhe uma notícia desagradável: o marido tinha mandado colocar em casa um aparelho telefônico.

            - É um perigo – observou ela – mas por outro lado é bom, porque posso falar-te quando  estiveres na secretaria. Vocês têm lá telefone?

            - Naturalmente.

 

            Poucos dias depois estava o Chagas, sentado à sua mesa de amanuense, copiando pela terceira vez um aviso, quando se aproximou dele um contínuo e lhe disse:

            - O Sr. Ministro chama-o.

            - A Mim?!

            - Sim, senhor.

            - Ora essa! Você não está enganado?...

            - Não, senhor. S. Excelência me perguntou: - Há aqui na casa algum empregado chamado Chagas?

            - Respondi que sim, e ele disse-me: Pois vá chamá-lo.

            - Que diabo será? – perguntou o amanuense aos seus botões.

            E foi para o gabinete do ministro.

            Tremia que nem varas verdes.

            O conselheiro, homem enfatuado e rebarbativo, estava sentado à secretaria, com as barbas metidas numa papelada que o absorvia.

            - Estou às ordens de V. Ex.ª – gaguejou o Chagas.

            Não teve resposta.

            Dois minutos depois repetiu:

            Estou às ordens de V. Exc.ª

            S. Ex.ª sem se dignar erguer os olhos, perguntou em tom áspero:

            - É o Chagas?

            - Sim senhor.

            - Estão o chamando no telefone.

            E, sempre de olhos baixos, e carrancudo, apontou para o telefone, que ficava a alguns passos de distância,  e fazia ouvir o seu impertinente e desrespeitoso tlin-tlin-tlin.

           O Chagas sentiu falar-lhe o chão debaixo dos pés; entretanto, conseguiu aproximar-se do aparelho, e dizer engasgado pela emoção:

            - Alô! Alô!

            - Quem fala?

            - É o amanuense Chagas.

            - Ah! Bom! Sou eu, a tua Clorinda. Quem foi o sujeito que falou antes de ti? É um malcriado! Então? Não respondes?

            - Não sei.

            - Ele disse que era o ministro.

            - Era. Que deseja a senhora?

            - Por que me tratas por senhora?

            - Não posso dizer nesse momento.

            - Por quê?

            - Por... por nada... Estou muito ocupado... A ocasião é imprópria...

            - Já não me amas?

            - Sim!

            - Como sim? Já não me amas?

            - Não... isto é, não posso... Diga o que deseja.

            - Estás zangado comigo?

            - Não.

            - Então dize: não estou zangado e amo-te!

            - Isso não posso. Depois explicarei por quê.

            - Não vás amanhã: o Barroso faz anos e janta em casa... eu não me lembrava... mas dize ao menos que ainda me amas!

            - Não posso agora.

            - Por quê?

            - Depois saberá.

            O ministro, sem levantar os olhos da papelada:

             - Veja se acaba com isso, meu caro senhor; quero trabalhar!

            O Chagas estremeceu, largou das mãos o telefone, que ficou pendurado, e saiu do gabinete fazendo muitas mesuras.

            O conselheiro ergueu-se para desligar o aparelho, mas levou o fone ao ouvido e ainda ouviu:

            - Que modos são esses? Nunca me tratastes assim! Já não me amas! E eu que por tua causa enganei o meu pobre marido! Está tudo acabado entre nós!...

            - Tenha juízo, senhora! – bradou o ministro com a sua bela voz parlamentar.

            E desligou o aparelho, sem suspeitar que ao mesmo tempo desligava dois amantes.

 

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Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.

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segunda-feira, 9 de maio de 2022

A RELIGIÃO – Gibran Khalil Gibran


A Religiã
o
 

          E um velho sacerdote disse: “Fala-nos da Religião.”

          E ele disse:

          “Tenho eu falado de outra coisa hoje?

          Não é a religião todas as nossas ações e reflexões?

          E tudo que não é ação nem reflexão, mas aquele espanto e aquela surpresa sempre brotando na alma, mesmo quando as mãos talham a pedra ou manejam o tear?

          Quem pode separar sua fé de suas ações, ou sua crença de seus afazeres?

          Quem pode espalhar suas horas perante si, dizendo: ‘Esta é para Deus, e essa é para mim; esta é para minha alma, e essa é para meu corpo’?

          Todas vossas horas são asas que adejam através do espaço, passando de um Eu a outro.

          Aquele que veste sua moralidade como veste seus melhores trajes, melhor seria que andasse desnudo.

          O vento e o sol não cavarão buracos na sua pele.

          E aquele que traça sua conduta pela ética, encarcera seu pássaro cantor numa gaiola.

          A mais livre canção não chega através de barras e arames.

          E aquele para quem a adoração é uma janela a abrir, mas também a fechar, não visitou ainda o santuário de sua alma, cujas janelas permanecem abertas de aurora a aurora.

         

          Vossa vida cotidiana é vosso templo e vossa religião.

          Todas as vezes que penetrais nela, levai convosco todo o vosso ser.

          Levai o arado, a forja, o macete e a lira,

          Todas as coisas que modelaste por necessidade ou por prazer.

          Pois nos vossos sonhos, não podeis elevar-vos acima de vossas realizações nem cair abaixo de vossos fracassos.

          E levai convosco todos os homens.

          Pois na vossa adoração, não podeis voar acima de suas esperanças nem aviltar-vos abaixo de seu desespero.

          E se quereis conhecer a Deus, não procureis transformar-vos em decifradores de enigmas.

          Olhai, antes, à vossa volta e encontrá-Lo-eis a brincar com vossos filhos.

          E erguei os olhos para o espaço e vê-lo-eis caminhando nas nuvens, estendendo Seus braços no relâmpago e descendo na chuva.

          E O vereis sorrindo nas flores e agitando as mãos nas árvores.”

 

O PROFETA

Gibran Khalil Gibran

  

Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.        

 

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A LOUCURA EM CADA UM DE NÓS

 

          O Louco é mais um livro de Gibran composto exclusivamente de parábolas.

          Para Gibran, o louco é um homem que, um dia, por acidente, perde as sete máscaras que ele “havia confeccionado e usado em sete vidas”. E assim, torna-se capaz de ver o sol na sua plenitude (isto é, naturalmente, a verdade) e passa a ser tratado como louco pelos outros homens, ainda separados da luz pelas suas próprias máscaras.

          As parábolas do livro são cenas da vida, vistas, contadas e julgadas por um homem sem máscara.

          Assim, chega o leitor a se perguntar: quem é louco e quem não é louco? E o que é a loucura? Uma estupidez e uma cegueira, ou uma compreensão mais profunda da vida?

          Gibran não é um psiquiatra, mas um sábio e um poeta que nos conduz ao mundo mais fascinante de todos: o que existe dentro de nós mesmos.

          E é lá que cada um decide se é um louco ou se não é um louco.

          Um livro que nos desafia e nos encanta, e ora nos humilha, ora nos diviniza.

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sexta-feira, 6 de maio de 2022

 



Sonho de Ícaro

José R. Canedo

 

Pombos Correios que passais por mim,

 Num voo largo e cheio de elegância,

Levai-me ao velho lar de minha infância,

Nas asas de alabastro e de cetim.

 

Levai-me à minha terra – esse jardim

Onde as brisas palpitam de fragrância.

Quero ali, mensageiros da distância,

Fechar os olhos quando for ao fim.

 

Pousar convosco em cima duma telha

E contemplar a minha casa velha,

Eis o sonho que vós me acalentais.

 

Mas ai! Ó pombos, para que sonhar?

Se vós sempre voltais ao pátrio lar,

Eu não posso dizer se volto mais.


* * *

quarta-feira, 4 de maio de 2022

A MORTE O QUE É? - Ignácio de Loyola Brandão



A morte o que é?

Ignácio de Loyola Brandão


Para quem prega programação para tudo, a vida desmente. Tudo determinado, muda-se em um instante. Um mês atrás tive um encontro com Marco, pri-mo-irmão, mais irmão que primo, ele parecia ter vencido um câncer. Ao sair, combinamos nos revermos logo. Dez dias atrás estávamos com tudo pronto para irmos a Minas, queríamos o silêncio e o verde. íamos descer para o carro, veio a notícia, Marco tinha morrido.

Em vez de irmos para Minas, fomos para Araraquara. Estava desnorteado. Os primos Zezé e Marco tomaram-se irmãos de coração e mente. Breves insights.

Em 1966, eu tinha 30 anos e Marco 14. A Ferroviária disputava a primeira divisão, após ter caído da Especial. Na sexta, em São Paulo, eu terminava meu expediente na Última Hora e seguia para a Estação da Luz, entrava em meu leito do vagão-dormitó-rio (coisa boa que acabou) da Companhia Paulista e seguia: 5 da manhã, em Araraquara, meu tio José me esperava com o Marco. Seguíamos, agora no vagão-restaurante, para Rio Preto, onde naquele sábado havería jogo da AFE contra o América. Certa vez, no vestiário, intervalo de jogo, Marco e eu vimos umas laranjas, avançamos, o roupeiro adverbe depois. Outra vez em Franca, vimos Tião Macalé colocando um martelo na sunga e entrando em campo. Felizmente, não usou. Em Batatais levamos uma surra de sombrinha da torcida feminina, senhoras de meia-idade. Em Taquaritinga, os carros de Araraquara tinham pneus furados. Não se brincava, era guerra. Curtos episódios pitorescos de uma vida cheia deles, nas relações entre o Marco e eu. Ele era marido de Valéria, pai de Isado-ra, Júlia e Carol, esta a chef do Las Chicas, após ter feito carreira com Carla Pernambuco. Caravana para a formatura da Carol no Senac, em Aguas de São Pedro, mostrava a união dos Brandão. Quando tomei posse na Brasileira de Letras, lá estavam o Marco e Zezé à frente do clã em peso, os de Araraquara e os de Bauru. Meu último encontro com Marco se deu um mês atrás na casa de Carol. Conversamos por horas, tomando um litro de Campari. Ele morria de rir de uma excursão em navio de cruzeiro, fracassada por causa da pandemia e da revolta de passageiros que saqueavam comida e estocavam nos camarotes. Comédia pura não fosse tragédia. Os Brandão traduziam e traduzem tudo em riso. Última aventura hilariante em vida. Marco se foi. Perdi um irmão. Araraquara lotou o velório, até o prefeito Edinho estava. A amizade levou aquela multidão em sábado de céu azul. Sei, a morte é certeza. Uma coisa me obceca: no instante final sabemos que estamos morrendo? Como fica nossa mente? Apaziguada ou ansiosa? Enigma que me obceca. ?

Uma coisa me obceca: no instante final, sabemos que estamos morrendo? Como fica nossa mente?

O Estado de S. Paulo , 01/05/2022

 https://www.academia.org.br/artigos/morte-o-que-e

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 d ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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terça-feira, 3 de maio de 2022

ROMANCE EM TEMPO DE TERNURA – Cyro de Mattos



                             Romance em Tempo de Ternura

                                Cyro de Mattos

              

            Aníbal Machado estreou em 1944 com Vila Feliz, contos que seriam acrescidos de mais sete histórias inéditas, formando o volume de Histórias Reunidas (1959). Compendiado como autor de obras-primas com os contos “A Morte da Porta-Estandarte”, “O Iniciado do Vento” e “Viagem aos Seios de Duílio”, publicou ainda a coletânea Cadernos de João (1957), em que reúne breves meditações lírico-filosóficas e poemas em prosa. João Ternura (1965, rapsódia romanesca, teve publicação póstuma, após lendária gestação durante o período de quarenta anos.

             Na longa gestação do romance, cujo personagem tem uma alma impregnada de visões do mundo numa paisagem que não lhe é vulnerável, considera-se que o clima em que se cumpre viver pelo personagem conota no real coerência e naturalidade. Daí ser compreendido por particularidades pessoais onde pulsa a ternura. Na peregrinação para escrever o livro, contemporâneos que viveram no ambiente íntimo do criador de João Ternura   informaram que Aníbal Machado passou por momentos difíceis de sua jornada criativa, na iminência da conclusão ou engavetamento dos escritos.

Aníbal Machado ressalta na introdução de João Ternura:


 É possível que alguns leitores, de tanto ouvirem falar neste livro,

o recebam de pedras na mão. Especialmente os da geração mais

antiga. Tal seria a minha reação, se, em vez do autor, fosse aqui

o leitor (pág. 3).


            Valeu a pena a espera, tantas são as lições carregadas de humanismo que o herói terno-lírico transmite nas cenas fomentadas na rotina obediente ao seu próprio ritmo de contradições. Porque é simples, nascido cercado de desvelos, inquietações e expectativas, esse personagem solto na realidade aparentemente generosa constitui um grito lúcido contra a miséria da existência humana. Na pauta de egoísmo corriqueiro, em que   funciona a vida competitiva, o que ele vê não é um cenário desalentador, mas a necessidade que tem a natureza humana de seguir em frente, dentro de uma normalidade, que gera movimento e comportamento entranhados na rotina de expectativas e repressões.

             Através de gestos ingênuos, o personagem torna-se uma reflexão profunda da vida. Sem qualquer espécie de partidarismo ou pieguice, é cativante no itinerário das ocorrências que preenchem a biografia lírica cercada de intenções pequenas. Não se dá à reflexão em face de gestos desconcertantes, porque as contradições e dúvidas vêm desde os primeiros passos na infância quando o mundo adulto da incompreensão e insolência começa a existir até os momentos desagregadores das qualidades humanas.  Na cidade grande que esmaga, a vida mostra-se tal qual ela é, pulsa tendo como o principal os dias constituídos de indiferenças, incoerências que não fazem sentido diante do racional.

            Esse passageiro tranquilo, símbolo do vulgar ligado na ternura, “esse pobre João ternura que nas nuvens melhor ficaria, uma vez que sua simplicidade e inocência nem sempre encontravam resposta num mundo em que não conseguiu (e nem suportava) atingir a chamada idade da razão e das conveniências sociais que tão tristemente já alcançamos” (pág. 5). Ele não mede a vida com seus despropósitos porque a simplicidade é a tônica da sua mentira verdadeira, da qual emerge a vulgaridade das ideias, que nos sabem seres estranhos formados com a natureza das próprias conveniências. Até mesmo nas reações ingênuas diante da morte quando tinha a ilusão que poderia depois continuar de olhos abertos. Alguns anos em silêncio, sem direito à vida, a espiar com prazer a sucessão das novas gerações no Brasil progressista, com o seu crescimento material, a grandeza humana de seu povo, enfim, com os homens vivendo com simplicidade, cordiais nas atitudes para longe da exploração e do medo.

             Frágil e forte, o personagem do romancista mineiro acredita na inocência como uma coisa útil e, por ser terno, não se corrige com as decepções que a vida oferece.

           Aníbal Machado explica:

 E você pensa que ele vai se corrigir? Duvido. É possível que um dia ainda abra os olhos. Isso a poder de muita cabeçada. Precisa primeiro sofrer na pele, levar trancos. Mas esse diabinho parece que não sofre, nem toma conhecimento da realidade. Não analisa os fatos. Nem raciocina. Falta-lhe espírito objetivo... (pág.125). 

            Em sua maneira de contar com o mundo sem merecer inconformismos, vê-se que João Ternura acha tudo natural, a cegueira de lidar com a vida sem ver nela o sofrimento o absorve de tal maneira que suas relações com o cotidiano chegam a dar pena. Ele está sempre consciente de que entrou na vida inconsciente como qualquer um de nós. Não entrou nesta briga pensando em Dom Quixote, mas apenas trazendo como arma e bagagem uma maneira ingênua para sentir os seres humanos como agentes naturais das coisas que precisam ser alcançadas. Nessa visão desprevenida de que viver é rolar na vida com simplicidade, sem se importar com as agruras, manter com ele qualquer tipo de conversa que analise a realidade tal qual ela é não será proveitoso. Ele não pode entender, por exemplo, que há em cada esquina pelo menos meia dúzia de desgraçados precisando de socorro. Não consegue conceber o mundo como um nunca acabar de murros, com os fortes, em geral estúpidos, pisando nos fracos.

             Na escrita reveladora de candura, contradições e desconcertos, a fabulação sincopada em cada episódio sugere o ambiente necessário para revelar o conflito contado em determinadas passagens. Com isso quer traduzir a criatura humana em seus becos sem saída, prisões e medos.  Mostrá-la com a certeza de que quando se tem a natureza moldada com humildade a vida só pode ser vista no plano da realidade oposta à dos valores materiais,  não permitindo que se pise nela com a vontade de deter as coisas postas no mundo para satisfazer desejos e ambições.

              João Ternura nos faz refletir sobre a humanidade caminhando nas pegadas da distância de uns para com os outros, projetando-se tranquila, aparentemente generosa, na expressão feliz o rosto dá a entender da existência de uma realidade proveitosa. Como portador da brandura, esse personagem intrigante informa sobre o nosso gosto de apertar o nó na garganta, sem variar nosso apetite voraz  persistente de pender para o egoísmo, que vem de longe.

            O personagem lírico-vulgar resulta de inegável força criativa de autor experimentado, consistente em sua experiência de vida com bases humanísticas. Sabe valorizar sua mensagem pela atualidade vista nos gestos primitivos dos que se dizem civilizados, vivendo em ritmo tumultuado de hoje, cada vez mais intenso e veloz da cidade grande, “insone, cruel... maravilhosa ao longe, terrível ao perto. O texto que se move para a ingenuidade do personagem distante da realidade exterior, atinge momentos oníricos de rara beleza, de sonho sustentado na gravidade do diálogo difícil de ser formado nas zonas da morte onde tudo se dissolve.

             A economia vocabular, usada como uma constante para suportar o ritmo sugestivo da narrativa, a linguagem descontínua, composta de aforismos, artifícios, inversão de frases, acrobacias conscientes nas palavras, todas essas invenções formais com soluções só encontráveis na melhor ficção brasileira situam João Ternura num fluxo de beleza no qual se integram as fronteiras da poesia e do prosaico.

            Como adianta um escritor da época, não é exagero afirmar que em sua construção afetiva encontra-se aqui a síntese do comportamento literário de Aníbal Machado. A mesma síntese cristalizada na escrita de Histórias Reunidas ou Cadernos de João. Nesse livro póstumo do escritor mineiro, o excelente prosador sente-se como que à vontade. O pleno domínio da escrita poética novamente emerge do espírito sensível com sutilezas líricas, no plano de imagens o sonho circula saliente sob o ritmo que prende.  Ora acelerado, ora lento, irrompe nas passagens da prosa depurada com fragmentos, vozes e figuras de um mundo incompreensível que nos impinge viver como estranhos e assustados. Trata-se de texto com técnica renovadora do discurso literário, mostrado como o real transfigurado no literário passa a se identificar com a poesia imbricada na vida.

            Mas João Ternura não é apenas um texto com a forma apurada em sua grandeza técnica. Nas páginas de um discurso lírico bem construído, a vida pulsa com sentimentos que se mostram precisos nos momentos em que se desenham como achados felizes. É sentimento esteticamente realizado com sua mensagem forte formulada no diálogo aceso para iluminar o ser perdido na memória primitiva do tempo. O clima que se apreende no mundo singular de João Ternura muito se identifica com o espírito de seu criador. É como se o diálogo do personagem lírico-vulgar com a rotina das coisas não se esgotasse em si mesmo perante o lado incompreensível da vida. E fosse o grito lúcido do espírito tranquilo do próprio Aníbal Machado. Da razão penetrante e sentimento poético que se atraem e se unem para dizerem que o homem quando vive apoiado em padrão frágil de comportamento, imbuído de ternura, desligado da realidade exterior em seu lado cruel, não tem salvação para o pobre coitado, a vida deixa que se vá em sua clausura de alheamento até sucumbir acossado pela sua própria simplicidade.

             Ler essa fábula moderna, percorrer o texto rico de significados e significantes, é rever a figura de Aníbal Machado. O homem culto, sensível, atencioso, de bons préstimos. Durante anos influenciou geração de contemporâneos por meio de artigos, conferências, diálogos e sugestões. Como testemunham dois escritores de seu tempo, foi um escritor que compareceu à lide literária dotado de simplicidade, não se preocupando com o poder e a glória, não usando ressentimentos para ferir o talento dos companheiros de militância artística.

             Por ser criatura sem vaidades, cada vez mais rara entre os habitantes do país das letras, onde infelizmente circula o duvidoso como se fosse o verdadeiro, já podemos também dizer, como bem lembrou Carlos Drummond de Andrade, ao concluir a leitura do lendário livro, que ficamos sem saber se o criador de “João Ternura morreu efetivamente ou se é apenas uma de suas mágicas.”

 

REFERÊNCIAS

                        MACHADO, Aníbal. João Ternura, romance, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1965.

                      -----------------------------Histórias reunidas, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1959.

                      ------------------------Cadernos de João, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro,1957.

ANDRADE, Carlos Drummond de. “Balada em Prosa de Aníbal Machado”, in João Ternura, José Olympio Editora, 1957.

 

 * Cyro de Mattos é escritor premiado e publicado no exterior.

* * *