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domingo, 3 de abril de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: As duas Ilhas-Castro Alves



As Duas Ilhas

Castro Alves

 

(Sobre uma página de poesia de Victor Hugo com o mesmo título)

 

Quando à noite – às horas mortas –

O silêncio e a solidão

 - Sob o dossel do infinito –

Dormem do mar n’amplidão,

Vê-se, por cima dos mares,

Rasgando o teto dos ares,

Dois gigantescos perfis...

Olhando por sobre as vagas,

Atentos, longínquas plagas

Ao clarear dos fuzis.

 

Quem os vê, olha espantado

E a sós murmura: “O que é?

Ai! Que atalaias gigantes,

São essas além de pé!...”

Adamastor de granito

Coa testa roça o infinito

E a barba molha no mar;

E de pedra a cabeleira

Sacodindo a onda ligeira

Faz de medo recuar...

 

São – dois marcos miliários,

Que Deus nas ondas plantou,

Dois rochedos, onde o mundo

Dois Prometeus amarrou!...

- Acolá... (Não tenhas medo...)

É Santa Helena – o rochedo

Desse Titã, que foi rei!...

- Ali... (Não feches os olhos!...)

- Ali... aqueles abrolhos

São a ilha de Jersey!...

 

São eles – os dois gigantes

No século de pigmeus.

São eles que a majestade

Arrancam das mãos de Deus.

- Este concentra na fronte

Mais astros – que o horizonte,

Mais luz – do que o sol lançou!...

- Aquele – na destra alçada

Traz segura sua espada

- Cometa, que ao céu roubou!...

 

E olham os velhos rochedos

O Sena, que dorme além...

E a França, que entre a caligem

Dorme em sudário também...

E o mar pergunta espantado:

“Foi deveras desterrado

Buonaparte – meu irmão?...

Diz o céu astros chorando:

“E Hugo?...” E o mundo pasmando

Diz: “Hugo... Napoleão!...”

 

Como vasta reticência

Se estende o silêncio após...

És muito pequena, ó França,

Pra conter estes heróis...

Sim! que estes vultos augustos

Para o leito de Procustos

Muito grandes Deus traçou...

Basta os reis tremam de medo

Se a sombra de algum rochedo

Sobre eles se projetou!...

 

Dizem que quando alta noite,

Dorme a terra – e vela Deus,

As duas ilhas conversam

Sem temor perante os céus.

- Jersey curva sobre os mares

À Santa Helena os pensares

Segreda ao velho Hugo...

- E Santa Helena no entanto

No Salgueiro enxuga o pranto

E conta o que ele falou...

 

E olhando o presente infame

Clamam: “Da turba vulgar

Nós – infinitos de pedra –

Nós havemos-los vingar!...”

E do mar sobre as escumas,

E do céu por sobre as brumas,

Um ao outro dando a mão...

Encaram a imensidade

Bradando “Posteridade!...”

Deus ri-se e diz: “Inda Não!...”

 

Castro Alves (Antônio Frederico), nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É o patrono da cadeira n. 7, por escolha do fundador Valentim Magalhães.

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PALAVRA DA SAVAÇÃO (260)



5º Domingo da Quaresma – 03/04/2022


Anúncio do Evangelho (Jo 8,1-11)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus foi para o monte das Oliveiras. De madrugada, voltou de novo ao Templo. Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los. Entretanto, os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles, disseram a Jesus: 'Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?' Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão. Como persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: 'Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra.' E tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. E eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio do povo. Então Jesus se levantou e disse: 'Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?' Ela respondeu: 'Ninguém, Senhor.' Então Jesus lhe disse: 'Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais'. 

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira – Sacerdote da Comunidade Canção Nova:


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Jesus, o mestre da presença misericordiosa

 


 “De madrugada, voltou ao templo, e todo o povo se reuniu ao redor dele. Sentando-se começou a ensiná-los” (Jo 8,2)

 

O tempo litúrgico da Quaresma é um tempo privilegiado para nos deixar ensinar pele Mestre da Galileia; somos alunos(as) da escola da vida, centrados no ensinamento e na mensagem de vida de Jesus.

A imagem de Jesus educador atravessa os evangelhos. De fato, o cristianismo é um projeto de educação messiânica, uma escola de vida universal, fundada por Jesus na Galileia.

Seu ensinamento entrou em conflito com os representantes do judaísmo oficial, centrado no templo e na prática da lei, e com o poder romano, que não admitia um ensinamento diferente. Jesus foi perseguido e morto por seu magistério, mas sua mensagem foi recolhida e expandida pelos seus discípulos. 

Jesus não fundou uma escola de especialistas, mas quis educar a todos os homens e mulheres, nas vilas e campos, nas sinagogas, no Templo ou em suas próprias casas. Ele não tinha nenhum doutorado na Lei judaica, não tinha nenhum Master em questões do Templo; não era um perito a quem consultar sobre as leis. Diferentemente dos mestres da Lei e dos escribas, cujo ensinamento estava centrado em “decorar” e conservar a Lei, o ensinamento de Jesus partia da realidade humana de sofrimento, exclusão, preconceito...

Jesus era Ele mesmo; seu único título era sua verdade, sua honestidade, sua bondade, sua capacidade de sanar a dor daqueles que sofriam e libertá-los dos maus espíritos que os escravizavam. Era a identidade de si mesmo, plena: a identidade entre o que dizia e fazia, entre o que era e o que ensinava.

Podemos afirmar que Jesus era um “pedagogo da vida”, um “mestre da vida humana digna”. Não tinha estudado em outra universidade a não ser a universidade da vida, do amor, da liberdade...

Jesus, o Grande Mestre, contemplava os rostos das pessoas e via, no interior delas, ricas possibilidades humanas, ainda latentes. Sua presença humanizadora reconstruía a humanidade ferida e abria sentido para sua existência.

No seu magistério, Jesus foi semeando humanidade, um conhecimento criativo e inspirador, que se fazia vida naqueles que escutavam e acolhiam sua palavra. Esta era a sua missão: ensinar aos homens e mulheres, para que fossem eles mesmos em liberdade, para que descobrissem e ativassem a verdade por dentro, sua verdade fontal, para que todos se guiassem e se ajudassem e, assim, fossem e vivessem em plenitude.

Frente aos sábios e entendidos, representantes do poder estabelecido, Jesus descobriu e cultivou a sabedoria de Deus nos pequenos que acolhem sua Palavra e se deixam transformar por ela.

O evangelho deste domingo nos diz que Jesus se encontrava na esplanada do Templo ensinando o povo, quando levaram até ele uma mulher surpreendida em adultério. De um lado, rostos dos fariseus e Mestres da lei, endurecidos pela lei, com pedras no coração e nas mãos; de outro, o rosto de Jesus, que transparece amor, compreensão, bondade. Suas mãos acolhedoras e seu coração misericordioso estão mobilizados para dar segurança e abrir nova possibilidade de vida à pecadora.

Uma “nobre” justificação era apresentada pelos escribas e fariseus e, assim, condenar uma mulher ao apedrejamento: “a lei” mata. Salva-se a lei, mata-se a pessoa.

A lei manda apedrejar; mas a lei não tem coração, não tem misericórdia; ela é fria, fixa no passado, condena e não oferece chance de um novo futuro.

É o eterno conflito do ser humano entre fidelidade à lei ou fidelidade ao coração. A fidelidade à lei prefere a morte do(a) pecador(a), prefere as pedras que ferem e matam; a fidelidade ao coração e ao amor prefere a vida do(a) pecador(a), prefere o abraço acolhedor que devolve a confiança e esperança de vida. 

Partindo da perspectiva da lei, a mulher não tinha possibilidade nenhuma de viver; não havia saída nenhuma. Só a misericórdia poderia destravar a vida, colocar a mulher em movimento, arrancá-la do círculo legalista de morte e abrir para ela um novo e amplo horizonte de sentido.

A retirada de cena dos mestres da lei e dos fariseus é patética. É o sistema legalista e opressor que termina cedendo o lugar a uma nova relação, instaurada por Jesus, centrada na misericórdia. A mulher permanece aí, no centro, porque o sistema que decretava sua morte terminou. Agora, inicia-se um novo diálogo, entre Jesus e a mulher. Não é um diálogo inquisitório, mas uma oferta de salvação: esta mulher, humilhada e condenada por todos, envergonhada de si mesma, se encontra com Jesus que lhe diz: “Eu também não te condeno”. Desde modo, Jesus nos ensina que não se extirpa o mal eliminando quem o cometeu, mas oferecendo ao pecador condições de vida nova e plena. E a mulher, talvez, se sentiu profundamente amada pela primeira vez.

Jesus é o “pedagogo misericordioso” pois ativa nas pessoas as melhores possibilidades, riquezas escondidas, capacidades, intuições... e faz emergir nelas sua verdade mais verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis...

A força criativa da sua presença misericórdia põe em movimento os grandes dinamismos da vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe sempre uma possibilidade de vida nova nunca ativada.

O “princípio misericórdia” é o núcleo e a essência do Evangelho. E a misericórdia é o “amor em excesso”. Na misericórdia, Deus sempre nos surpreende, sempre excede nossas estreitas expectativas, abrindo caminho a partir de nossas fragilidades. Só o amor misericordioso de Deus nos reconstrói por dentro, destravando-nos e abrindo-nos em direção a horizontes maiores de coragem, responsabilidade e compromisso.

misericórdia constitui a resposta de Deus à nossa indigência. A misericórdia é expansiva, pois abre um novo futuro e desata ricas possibilidades latentes em cada um. Ela não se limita ao êrro e às fragilidades, mas impulsiona cada um a ir além de si mesmo.

Onde não há misericórdia, não há sequer esperança para o ser humano. A misericórdia, portanto,  não só é a mais divina mas também a mais humana das virtudes. É aquela que melhor revela a essência do Deus Pai e Mãe de infinita bondade. É a que revela, igualmente, o lado mais luminoso da natureza humana. Por isso, ela é o atributo que mais humaniza as relações entre as pessoas.

Fundamentalmente, a misericórdia significa assumir como própria a miséria do outro, inicialmente como sentimento que comove, mas que, logo em seguida, leva à ação. A misericórdia parte das “entranhas” e se dirige instintivamente ao próximo na forma de presença, acolhida, compaixão, ternura e consolo.  Misericórdia é exatamente: ter coração” para o outro, dando preferência aos mais frágeis e limitados.

misericórdia é a caridade que “toma mãos e pés”, ou seja, o amor que se expressa em uma ação decidida e generosa, capaz de transformar e libertar.

Ser presença misericordiosa é um “modo de proceder”, um “estilo de vida” que não está ligado a uma transgressão; é muito mais um estilo de bondade, compreensão, magnanimidade, estilo de quem não se fixa no que o outro merece, nem se escandaliza com sua miséria.

"Devemos ser presença misericordiosa como pecadores, não como justos”. A misericórdia é fundamentalmente uma mensagem de estima e confiança no outro, crer na sua amabilidade e bondade. Por isso, a presença misericordiosa é força que provoca no outro a redescoberta de sua própria identidade (uma pessoa amada e acolhida pelo Deus misericordioso).

Quem é misericordioso está convencido de que o irmão é melhor que aquilo que aparenta ser.

Texto bíblico:  Jo 8,1-11

Na oração: Uma vez mais somos chamados(as) a aprender de Jesus, que sempre olha o que há de mais autêntico em cada pessoa, isto é, a imagem de seu Pai.

- Entrar no movimento da misericórdia nos humaniza e nos cristifica. Como seguidores(as) de Jesus, somos seu coração, seus olhos, suas mãos e seus pés juntos aos que mais sofrem rejeições, julgamentos, condenações...; somos “canais de misericórdia” por onde flui a Misericórdia e a Compaixão de Deus Pai-Mãe.

 

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2537-jesus-o-mestre-da-presenca-misericordiosa

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sexta-feira, 1 de abril de 2022

A VOLTA DO FUTURO - Carlos Diegues


A eleição de Fernanda Montenegro para a ABL é uma vitória do Brasil que nós amamos.

A Academia Brasileira de Letras (ABL) vive, desde sexta-feira passada, um momento novo e brilhante em sua história. Não somente na sua história particular, como também novo e brilhante na História contemporânea do país.

Sexta-feira, dia 25 de março, tomou posse como membro da Academia nossa grande Fernanda Montenegro, eleita para isso no final do ano passado.

Fernanda não representa apenas o que existe de melhor no teatro brasileiro, uma síntese excepcional da interpretação que um ser humano pode fazer de um outro ser humano, mas também a imagem de uma forma de pensar o Brasil e o mundo que nasceu com a sua geração de artistas e intelectuais. Antes, na minha juventude, dona Arlete me lembrava as melhores tradições de nosso teatro a caminho do cinema. Hoje, ela é a lembrança de tudo que aprendi a compreender e amar nesse país tão difícil e tantas vezes traído.

Não sei como e onde ela aprendeu esses sentimentos todos e essa cultura tão vasta e antiga de coisas que se tornaram nossos costumes porque seus amigos e amigas, sobretudo parceiras e parceiros, assim desejaram. Hoje, grande parte do que sabemos de onde viemos devemos certamente a Fernanda por tudo que ela nos mostrou nos palcos e depois nas telas de cinema.

Em 1973 fiz um filme contando as histórias de famílias de minha terra que meu avô me contava às gargalhadas. O personagem principal vinha da Europa e descobria comigo essa misteriosa cultura local, se atrelava de tal maneira a ela que acabava sem fôlego no varandão da Casa Grande. Como a famosa atriz não teve como vir dublar o filme no Brasil, foi Fernanda quem me socorreu, emprestando ao personagem sua voz tão cheia de significados de coisas que não eram ditas. Fernanda Montenegro tornou-se minha Joanna Francesa e sei que devo a ela grande parte do sucesso de estima desse filme. Fernanda soprava e sussurrava as verdades que Joanna ia descobrindo e assumia o que ela vinha assumindo.

Mas o que faz de Fernanda Montenegro uma enorme representante de tudo que amamos nesse país tão difícil de ser, nesse momento, amado, não sai necessariamente de suas lembranças do passado e de costumes que não eram seus. Sai do que ela aprendeu e agora nos ensina, confiando em que ainda vivemos numa sociedade que, por pior que pareça, será sempre repositório de esperanças que não se perdem. Porque a verdade não morre, mesmo que desfaleça em aparência e nos deixe meio perturbados com isso.

A eleição de Fernanda Montenegro para a ABL é uma vitória do Brasil que nós amamos e não queremos perder de vista. Com ela a nos chamar nossa atenção, isso não acontecerá nunca mais. Mas, por via das dúvidas, insistimos em contemplar dona Arlete e a farta família que formou com Claudio e Nanda, fazendo com que recuperemos nossa confiança num futuro que ainda podemos, se tivermos o mesmo caráter que eles, viver intensamente.

O poder exercido por em quem nunca confiamos, não pode ser mais poderoso e definitivo que o amor e a fé que temos em nossos verdadeiros heróis. Em mais alguns breves meses, estaremos acordando do pesadelo em que vivemos durante esses últimos anos, graças ao acaso de eleições desprezadas e desprezíveis. Aí poderemos novamente olhar para a frente, como sempre fizemos, porque lá estará nossa certeza de que é para ali que o Brasil, apesar de tudo, ruma. E lá estarão também e para sempre as mãos e um sorriso em que aprendemos a amar e a confiar, esse sim, como um de nossos guias. As mãos e o sorriso de Fernanda Montenegro.

O Globo, 28/03/2022

https://www.academia.org.br/artigos/volta-do-futuro

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Carlos Diegues - Décimo ocupante da Cadeira 7 da ABL, eleito em 30 de agosto de 2018 na sucessão do Acadêmico Nelson Pereira dos Santos e recebido pelo Acadêmico Geraldo Carneiro em 12 de abril de 2019.

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quinta-feira, 31 de março de 2022

BENTO XVI: “MORRER NA PÁSCOA É UM DOM DE DEUS”



Pierre-Philippe MARCOU | AFP

Francisco Vêneto - 

O Papa Emérito já fez diversos comentários serenos e repletos de esperança e paz a propósito da morte cristã

Morrer na Páscoa, para quem crê na Ressurreição de Cristo, é certamente um privilégio repleto de significado. Por ocasião do sexto aniversário de falecimento da Madre Angélica, fundadora da pioneira rede católica norte-americana de televisão EWTN, a agência de notícias ACI Digital, que pertence ao mesmo grupo, recordou uma inspiradora declaração do Papa Emérito Bento XVI a respeito da data em que a religiosa partiu deste mundo: o Domingo da Ressurreição de 2016, que recaiu no dia 27 de março. Ela tinha 92 anos e havia passado os últimos quinze às voltas com as difíceis sequelas de um derrame cerebral.

De acordo com um testemunho do secretário pessoal de Bento XVI, dom Georg Gänswein, o Papa Emérito afirmou, na época, que morrer em pleno Domingo de Páscoa “é um dom de Deus”. Em dezembro do mesmo ano, Bento afirmou a repórteres da rede que a Madre Angélica havia sido “uma grande mulher, muito corajosa”.

O próprio Bento XVI, ainda como pontífice reinante, havia concedido a ela, em 2009, a medalha “Pro Ecclesia et Pontifice”, a mais alta condecoração que os Papas podem outorgar a um religioso ou leigo na Igreja Católica.

Serenidade e paz perante a morte

Bento XVI já fez diversos comentários serenos e repletos de esperança e paz a propósito da morte cristã, que, afinal, é uma transição desta vida passageira para a vida plena em Deus na eternidade.

Em 7 de fevereiro de 2018, por exemplo, o Papa Emérito enviou uma carta ao jornal italiano Corriere della Sera confirmando a natural deterioração da sua saúde física e afirmando, com grande simplicidade, que já estava “em peregrinação a caminho de Casa”. Ele escreveu na ocasião:

“Só posso dizer que, na lenta diminuição das forças físicas, estou interiormente em peregrinação para Casa. Para mim, neste último trecho do caminho, às vezes um pouco esgotador, é uma grande graça estar rodeado de amor e bondade tamanhos que eu não poderia ter imaginado”.

Em outubro de 2021, ao saber da morte de um grande amigo sacerdote, o pe. Gerhard Winkler, Bento XVI escreveu uma carta aos padres da abadia de Wilhering, na Áustria, para lhes oferecer os seus pêsames. No texto, o Papa Emérito afirma:

“Ele chegou agora ao outro mundo, onde tenho a certeza de que muitos amigos já o aguardam. Espero me unir logo a eles”.

A serenidade diante do final da vida terrena é um sinal de fé. É a consciência de que a vida ilumina a morte e, portanto, a morte ilumina a vida. A morte, afinal, é apenas uma passagem.

 

https://pt.aleteia.org/2022/03/28/bento-xvi-morrer-na-pascoa-e-um-dom-de-deus/?utm_campaign=EM-PT-Newsletter-Daily-&utm_content=Newsletter&utm_medium=email&utm_source=sendinblue&utm_term=20220329

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AS ASNEIRAS DO GUEDES – Artur Azevedo

   


        Não é precisamente um conto o que hoje vou escrever.

           

            Voltou do seu passeio a São Paulo o Guedes – o Guedes sabem? – o maior asneirão que o sol cobre, aquele mesmo que respondeu aqui há tempos quando numa roda lhe perguntaram se tinha filhos:

            - Tenho uma filha já adúltera.

            - Adúltera?!

            - Sim, senhor, adúltera; vai fazer 17 anos.

            - Adulta quer o senhor dizer...

            - Ou isso. É uma boa menina; só tem um defeito: é muito luxuriosa.

            - Luxuriosa?!

            - Sim, senhor, luxuriosa: gosta muito de luxar.

            - Ah!

           - Mas lá está minha mulher para lhe dar bons conselhos... sim, porque minha mulher é muito sensual.

            - Sensual?!

            - Sim, senhor, sensual: tem muito bom senso.

                           ***

            Pois é como lhe digo: tive o prazer de encontrar ontem esse precioso Guedes, cujas asneiras, colecionadas, dariam um volume de trezentas páginas, ou mais.

            Eu estava num armarinho da rua do Ouvidor, onde entrara para cumprimentar a minha espirituosa amiga dona Henriqueta, que andava, como sempre, fazendo compras, enchendo-se de caixinhas e pequeninos embrulhos, adquiridos aqui e ali.

            O Guedes, mal me viu, correu a dar-me um abraço, dizendo:

            - Li no “O País” a notícia do seu aniversário...

            E recuando dois passos, tomou uma atitude solene, deixou cair as pálpebras, e acrescentou:

            - Faço votos para que você tenha um futuro tão brilhante como o que passou.

           Agradeci comovido essa manifestação de apreço envolvida num disparate, e apresentei o Guedes à minha espirituosa amiga dona Henriqueta, que mordia os lábios para não rir.

            - Apresento-lhe, minha senhora, o mais extraordinário reformador da língua portuguesa: o Guedes, o grande Guedes, que acaba de chegar de São Paulo, onde esteve a passeio.

            - Era tempo de fazer uma viagem! – explicou ele. – Foi a primeira vez que saí do Rio de Janeiro.

            - Eu também não saí ainda dessa cidade senão para ir uma vez a Petrópolis e duas a Niterói – disse dona Henriqueta.

            - Vejo então que a senhora é cortesã... – acudiu o Guedes curvando os lábios no mais amável dos seus sorrisos.

            - Cortesã?!

            - Cortesã, sim... filha da Corte...

            - Oh, Guedes! – observei baixinho. – Pois você não vê que está dizendo uma inconveniência?

            - Tem razão... Atualmente não se deve falar em Corte...

            E emendou:

            - Vejo então que a senhora é capitalista federalista

            Dona Henriqueta desta vez riu-se a perder. É provável que ao leitor não aconteça o mesmo. Paciência.

            - Ó Guedes! Vamos lá! Diga-me! Que impressões trouxe você de São Paulo?

            - Muito boas! Aquilo é uma grande terra!

            - Dizem que há lá muita sociabilidade.

            - Como?

            - Muita convivência...

            - Isso há... As famílias visitam-se... Os moços coabitam com as moças.

            - Ora essa!

            - Que entende você por “coabitar”?

            - É... é...

            - É uma indecência... uma inconveniência... uma coisa que não se diz!...

            O Guedes inflamou-se:

            - Está você muito enganado... “Coabitar” é...

            E voltando-se para um dos caixeiros do armarinho:

            - O senhor tem aí um dicionário que me empreste?

            - Pois não?

            E daí a dois minutos o Guedes tinha nas mãos os dois volumes do Aulete.

            - Muito bem! – disse eu. – Procure “coabitar”.

            Depois de folhear em vão o dicionário durante um ror de tempo, o teimoso exclamou:

            - Não dá! Não dá! Vejam...

            - Perdão: você está procurando com u: deve ser com o!

            - Tem razão. Tem razão...Onde estava eu com a cabeça?

            E o Guedes pôs-se de novo a folhear o Aulete.

            - Não dá! Também não dá com o! Veja: de coa para coação! Não dá com u nem com o!

            -  Valha-o Deus, Guedes, valha-o Deus! Você está procurando sem h? Dê cá o dicionário!

            E com um sorriso de triunfo mostrei ao Guedes a significação da palavra.

             - Olhe, leia: "Coabitar, habitar, viver conjuntamente”.

            - Mas isso...

            - Agora veja o que o Aulete acrescenta entre parênteses: “Diz-se particularmente de duas pessoas de diferente sexo”.

            - Perdão! – bradou Guedes furioso. – Perdão! Eu não disse particularmente, mas alto e bom som, e só não me ouviu que não me quis ouvir!

            E batendo com a mão espalmada sobre o balcão:

            - Eu não sou homem que diga as coisas particularmente!

 

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Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.       

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