(Sobre uma página de poesia de Victor Hugo com o mesmo título)
Quando à noite – às horas mortas –
O silêncio e a solidão
- Sob o dossel do
infinito –
Dormem do mar n’amplidão,
Vê-se, por cima dos mares,
Rasgando o teto dos ares,
Dois gigantescos perfis...
Olhando por sobre as vagas,
Atentos, longínquas plagas
Ao clarear dos fuzis.
Quem os vê, olha espantado
E a sós murmura: “O que é?
Ai! Que atalaias gigantes,
São essas além de pé!...”
Adamastor de granito
Coa testa roça o infinito
E a barba molha no mar;
E de pedra a cabeleira
Sacodindo a onda ligeira
Faz de medo recuar...
São – dois marcos miliários,
Que Deus nas ondas plantou,
Dois rochedos, onde o mundo
Dois Prometeus amarrou!...
- Acolá... (Não tenhas medo...)
É Santa Helena – o rochedo
Desse Titã, que foi rei!...
- Ali... (Não feches os olhos!...)
- Ali... aqueles abrolhos
São a ilha de Jersey!...
São eles – os dois gigantes
No século de pigmeus.
São eles que a majestade
Arrancam das mãos de Deus.
- Este concentra na fronte
Mais astros – que o horizonte,
Mais luz – do que o sol lançou!...
- Aquele – na destra alçada
Traz segura sua espada
- Cometa, que ao céu roubou!...
E olham os velhos rochedos
O Sena, que dorme além...
E a França, que entre a caligem
Dorme em sudário também...
E o mar pergunta espantado:
“Foi deveras desterrado
Buonaparte – meu irmão?...
Diz o céu astros chorando:
“E Hugo?...” E o mundo pasmando
Diz: “Hugo... Napoleão!...”
Como vasta reticência
Se estende o silêncio após...
És muito pequena, ó França,
Pra conter estes heróis...
Sim! que estes vultos augustos
Para o leito de Procustos
Muito grandes Deus traçou...
Basta os reis tremam de medo
Se a sombra de algum rochedo
Sobre eles se projetou!...
Dizem que quando alta noite,
Dorme a terra – e vela Deus,
As duas ilhas conversam
Sem temor perante os céus.
- Jersey curva sobre os mares
À Santa Helena os pensares
Segreda ao velho Hugo...
- E Santa Helena no entanto
No Salgueiro enxuga o pranto
E conta o que ele falou...
E olhando o presente infame
Clamam: “Da turba vulgar
Nós – infinitos de pedra –
Nós havemos-los vingar!...”
E do mar sobre as escumas,
E do céu por sobre as brumas,
Um ao outro dando a mão...
Encaram a imensidade
Bradando “Posteridade!...”
Deus ri-se e diz: “Inda Não!...”
Castro Alves (Antônio Frederico), nasceu em Muritiba,
BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É
o patrono da cadeira n. 7, por escolha do fundador Valentim Magalhães.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus foi para o monte das
Oliveiras. De madrugada, voltou de novo ao Templo. Todo o povo se reuniu
em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los. Entretanto, os mestres
da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles, disseram a Jesus: 'Mestre, esta mulher foi surpreendida
em flagrante adultério. Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres. Que
dizes tu?' Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo de
o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão. Como
persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: 'Quem dentre vós não
tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra.' E tornando a
inclinar-se, continuou a escrever no chão. E eles, ouvindo o que Jesus
falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou
sozinho, com a mulher que estava lá, no meio do povo. Então Jesus se
levantou e disse: 'Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?' Ela
respondeu: 'Ninguém, Senhor.' Então Jesus lhe disse: 'Eu também não te condeno.
Podes ir, e de agora em diante não peques mais'.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
---
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira
– Sacerdote da Comunidade Canção Nova:
“De madrugada, voltou ao templo, e todo o povo
se reuniu ao redor dele. Sentando-se começou a ensiná-los” (Jo
8,2)
O tempo litúrgico da Quaresma é um tempo privilegiado para
nos deixar ensinar pele Mestre da Galileia; somos alunos(as) da escola da vida,
centrados no ensinamento e na mensagem de vida de Jesus.
A imagem de Jesus educador atravessa os
evangelhos. De fato, o cristianismo é um projeto de educação messiânica, uma
escola de vida universal, fundada por Jesus na Galileia.
Seu ensinamento entrou em conflito com os representantes do
judaísmo oficial, centrado no templo e na prática da lei, e com o poder romano,
que não admitia um ensinamento diferente. Jesus foi perseguido e morto por seu
magistério, mas sua mensagem foi recolhida e expandida pelos seus
discípulos.
Jesus não fundou uma escola de especialistas, mas quis
educar a todos os homens e mulheres, nas vilas e campos, nas sinagogas, no
Templo ou em suas próprias casas. Ele não tinha nenhum doutorado na Lei
judaica, não tinha nenhum Master em questões do Templo; não era um perito a
quem consultar sobre as leis. Diferentemente dos mestres da Lei e dos escribas,
cujo ensinamento estava centrado em “decorar” e conservar a Lei, o ensinamento
de Jesus partia da realidade humana de sofrimento, exclusão,
preconceito...
Jesus era Ele mesmo; seu único título era sua verdade, sua
honestidade, sua bondade, sua capacidade de sanar a dor daqueles que sofriam e
libertá-los dos maus espíritos que os escravizavam. Era a identidade de si
mesmo, plena: a identidade entre o que dizia e fazia, entre o que era e o que
ensinava.
Podemos afirmar que Jesus era um “pedagogo da
vida”, um “mestre da vida humana digna”. Não
tinha estudado em outra universidade a não ser a universidade da vida, do amor,
da liberdade...
Jesus, o Grande Mestre, contemplava os rostos das pessoas e
via, no interior delas, ricas possibilidades humanas, ainda latentes. Sua
presença humanizadora reconstruía a humanidade ferida e abria sentido para sua
existência.
No seu magistério, Jesus foi semeando humanidade, um conhecimento
criativo e inspirador, que se fazia vida naqueles que escutavam e acolhiam sua
palavra. Esta era a sua missão: ensinar aos homens e mulheres, para que fossem
eles mesmos em liberdade, para que descobrissem e ativassem a verdade por
dentro, sua verdade fontal, para que todos se guiassem e se ajudassem e, assim,
fossem e vivessem em plenitude.
Frente aos sábios e entendidos, representantes do poder
estabelecido, Jesus descobriu e cultivou a sabedoria de Deus nos pequenos que
acolhem sua Palavra e se deixam transformar por ela.
O evangelho deste domingo nos diz que Jesus se encontrava na
esplanada do Templo ensinando o povo, quando levaram até ele uma mulher
surpreendida em adultério. De um lado, rostos dos fariseus e Mestres da lei,
endurecidos pela lei, com pedras no coração e nas mãos; de outro, o rosto de
Jesus, que transparece amor, compreensão, bondade. Suas mãos acolhedoras e seu
coração misericordioso estão mobilizados para dar segurança e abrir nova
possibilidade de vida à pecadora.
Uma “nobre” justificação era apresentada pelos escribas e
fariseus e, assim, condenar uma mulher ao apedrejamento: “a lei” mata. Salva-se
a lei, mata-se a pessoa.
A lei manda apedrejar; mas a lei não tem coração, não tem
misericórdia; ela é fria, fixa no passado, condena e não oferece chance de um
novo futuro.
É o eterno conflito do ser humano entre fidelidade à lei ou
fidelidade ao coração. A fidelidade à lei prefere a morte do(a) pecador(a),
prefere as pedras que ferem e matam; a fidelidade ao coração e ao amor prefere
a vida do(a) pecador(a), prefere o abraço acolhedor que devolve a confiança e
esperança de vida.
Partindo da perspectiva da lei, a mulher não tinha
possibilidade nenhuma de viver; não havia saída nenhuma. Só a misericórdia poderia
destravar a vida, colocar a mulher em movimento, arrancá-la do círculo
legalista de morte e abrir para ela um novo e amplo horizonte de sentido.
A retirada de cena dos mestres da lei e dos fariseus é
patética. É o sistema legalista e opressor que termina cedendo o lugar a uma
nova relação, instaurada por Jesus, centrada na misericórdia. A mulher
permanece aí, no centro, porque o sistema que decretava sua morte terminou.
Agora, inicia-se um novo diálogo, entre Jesus e a mulher. Não é um diálogo
inquisitório, mas uma oferta de salvação: esta mulher, humilhada e condenada
por todos, envergonhada de si mesma, se encontra com Jesus que lhe diz: “Eu
também não te condeno”. Desde modo, Jesus nos ensina que não se
extirpa o mal eliminando quem o cometeu, mas oferecendo ao pecador condições de
vida nova e plena. E a mulher, talvez, se sentiu profundamente amada pela
primeira vez.
Jesus é o “pedagogo misericordioso” pois ativa nas pessoas
as melhores possibilidades, riquezas escondidas,
capacidades, intuições... e faz emergir nelas sua verdade mais
verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis...
A força criativa da sua presença misericórdia põe em
movimento os grandes dinamismos da vida; debaixo do modo
paralisado e petrificado de viver, existe sempre uma possibilidade de vida nova nunca
ativada.
O “princípio misericórdia” é o
núcleo e a essência do Evangelho. E a misericórdia é o “amor em
excesso”. Na misericórdia, Deus sempre nos
surpreende, sempre excede nossas estreitas expectativas, abrindo caminho a
partir de nossas fragilidades. Só o amor misericordioso de
Deus nos reconstrói por dentro, destravando-nos e abrindo-nos em direção a
horizontes maiores de coragem, responsabilidade e compromisso.
A misericórdia constitui a resposta de Deus
à nossa indigência. A misericórdia é expansiva, pois abre
um novo futuro e desata ricas possibilidades latentes em cada um. Ela não se
limita ao êrro e às fragilidades, mas impulsiona cada um a ir além de si mesmo.
Onde não há misericórdia, não há sequer
esperança para o ser humano. A misericórdia, portanto,
não só é a mais divina mas também a mais humana das virtudes. É aquela que
melhor revela a essência do Deus Pai e Mãe de infinita bondade. É a que revela,
igualmente, o lado mais luminoso da natureza humana. Por isso, ela é o atributo
que mais humaniza as relações entre as pessoas.
Fundamentalmente, a misericórdia significa
assumir como própria a miséria do outro, inicialmente
como sentimento que comove, mas que, logo em seguida, leva
à ação. A misericórdia parte das “entranhas” e
se dirige instintivamente ao próximo na forma de presença,
acolhida, compaixão, ternura e consolo. Misericórdia é
exatamente: “ter coração” para o outro, dando
preferência aos mais frágeis e limitados.
A misericórdia é a caridade que “toma
mãos e pés”, ou seja, o amor que se expressa em
uma ação decidida e generosa, capaz de transformar e libertar.
Ser presença misericordiosa é
um “modo de proceder”, um “estilo de vida” que não está ligado a uma
transgressão; é muito mais um estilo de bondade, compreensão,
magnanimidade, estilo de quem não se fixa no que o outro merece, nem se
escandaliza com sua miséria.
"Devemos ser presença misericordiosa como
pecadores, não como justos”. A misericórdia é
fundamentalmente uma mensagem de estima e confiança no
outro, crer na sua amabilidade e bondade. Por isso, a presença misericordiosa é
força que provoca no outro a redescoberta de sua própria identidade (uma pessoa
amada e acolhida pelo Deus misericordioso).
Quem é misericordioso está convencido de que o irmão é melhor que
aquilo que aparenta ser.
Texto bíblico: Jo 8,1-11
Na oração: Uma vez mais somos chamados(as)
a aprender de Jesus, que sempre olha o que há de mais autêntico em cada
pessoa, isto é, a imagem de seu Pai.
- Entrar no movimento da misericórdia nos
humaniza e nos cristifica. Como seguidores(as) de Jesus, somos seu coração,
seus olhos, suas mãos e seus pés juntos aos que mais sofrem rejeições,
julgamentos, condenações...; somos “canais de misericórdia” por
onde flui a Misericórdia e a Compaixão de Deus Pai-Mãe.
A eleição de Fernanda Montenegro para a ABL é uma vitória do
Brasil que nós amamos.
A Academia Brasileira de Letras (ABL) vive, desde sexta-feira
passada, um momento novo e brilhante em sua história. Não somente na sua
história particular, como também novo e brilhante na História contemporânea do
país.
Sexta-feira, dia 25 de março, tomou posse como membro da
Academia nossa grande Fernanda Montenegro, eleita para isso no final do ano
passado.
Fernanda não representa apenas o que existe de melhor no
teatro brasileiro, uma síntese excepcional da interpretação que um ser humano
pode fazer de um outro ser humano, mas também a imagem de uma forma de pensar o
Brasil e o mundo que nasceu com a sua geração de artistas e intelectuais.
Antes, na minha juventude, dona Arlete me lembrava as melhores tradições de
nosso teatro a caminho do cinema. Hoje, ela é a lembrança de tudo que aprendi a
compreender e amar nesse país tão difícil e tantas vezes traído.
Não sei como e onde ela aprendeu esses sentimentos todos e
essa cultura tão vasta e antiga de coisas que se tornaram nossos costumes
porque seus amigos e amigas, sobretudo parceiras e parceiros, assim desejaram.
Hoje, grande parte do que sabemos de onde viemos devemos certamente a Fernanda
por tudo que ela nos mostrou nos palcos e depois nas telas de cinema.
Em 1973 fiz um filme contando as histórias de famílias de
minha terra que meu avô me contava às gargalhadas. O personagem principal vinha
da Europa e descobria comigo essa misteriosa cultura local, se atrelava de tal
maneira a ela que acabava sem fôlego no varandão da Casa Grande. Como a famosa
atriz não teve como vir dublar o filme no Brasil, foi Fernanda quem me
socorreu, emprestando ao personagem sua voz tão cheia de significados de coisas
que não eram ditas. Fernanda Montenegro tornou-se minha Joanna Francesa e sei
que devo a ela grande parte do sucesso de estima desse filme. Fernanda soprava
e sussurrava as verdades que Joanna ia descobrindo e assumia o que ela vinha
assumindo.
Mas o que faz de Fernanda Montenegro uma enorme
representante de tudo que amamos nesse país tão difícil de ser, nesse momento,
amado, não sai necessariamente de suas lembranças do passado e de costumes que
não eram seus. Sai do que ela aprendeu e agora nos ensina, confiando em que
ainda vivemos numa sociedade que, por pior que pareça, será sempre repositório
de esperanças que não se perdem. Porque a verdade não morre, mesmo que
desfaleça em aparência e nos deixe meio perturbados com isso.
A eleição de Fernanda Montenegro para a ABL é uma vitória do
Brasil que nós amamos e não queremos perder de vista. Com ela a nos chamar
nossa atenção, isso não acontecerá nunca mais. Mas, por via das dúvidas,
insistimos em contemplar dona Arlete e a farta família que formou com Claudio e
Nanda, fazendo com que recuperemos nossa confiança num futuro que ainda
podemos, se tivermos o mesmo caráter que eles, viver intensamente.
O poder exercido por em quem nunca confiamos, não pode ser
mais poderoso e definitivo que o amor e a fé que temos em nossos verdadeiros
heróis. Em mais alguns breves meses, estaremos acordando do pesadelo em que
vivemos durante esses últimos anos, graças ao acaso de eleições desprezadas e
desprezíveis. Aí poderemos novamente olhar para a frente, como sempre fizemos,
porque lá estará nossa certeza de que é para ali que o Brasil, apesar de tudo,
ruma. E lá estarão também e para sempre as mãos e um sorriso em que aprendemos
a amar e a confiar, esse sim, como um de nossos guias. As mãos e o sorriso de
Fernanda Montenegro.
Carlos Diegues - Décimo ocupante da Cadeira 7 da ABL, eleito
em 30 de agosto de 2018 na sucessão do Acadêmico Nelson Pereira dos Santos e
recebido pelo Acadêmico Geraldo Carneiro em 12 de abril de 2019.
O Papa Emérito já fez diversos comentários serenos e
repletos de esperança e paz a propósito da morte cristã
Morrer na Páscoa, para quem crê na Ressurreição de Cristo, é
certamente um privilégio repleto de significado. Por ocasião do sexto
aniversário de falecimento da Madre Angélica, fundadora da pioneira rede
católica norte-americana de televisão EWTN, a agência de notícias ACI Digital, que pertence ao mesmo grupo, recordou uma
inspiradora declaração do Papa Emérito Bento XVI a respeito da data em que a
religiosa partiu deste mundo: o Domingo da Ressurreição de 2016, que recaiu no
dia 27 de março. Ela tinha 92 anos e havia passado os últimos quinze às voltas
com as difíceis sequelas de um derrame cerebral.
De acordo com um testemunho do secretário pessoal de Bento
XVI, dom Georg Gänswein, o Papa Emérito afirmou, na época, que morrer em pleno
Domingo de Páscoa “é um dom de Deus”. Em dezembro do mesmo ano, Bento afirmou a
repórteres da rede que a Madre Angélica havia sido “uma grande mulher, muito
corajosa”.
O próprio Bento XVI, ainda como pontífice reinante, havia
concedido a ela, em 2009, a medalha “Pro Ecclesia et Pontifice”, a mais alta
condecoração que os Papas podem outorgar a um religioso ou leigo na Igreja
Católica.
Serenidade e paz perante a morte
Bento XVI já fez diversos comentários serenos e repletos de
esperança e paz a propósito da morte cristã, que, afinal, é uma transição desta
vida passageira para a vida plena em Deus na eternidade.
Em 7 de fevereiro de 2018, por exemplo, o Papa Emérito
enviou uma carta ao jornal italiano Corriere della Sera confirmando
a natural deterioração da sua saúde física e afirmando, com grande
simplicidade, que já estava “em peregrinação a caminho de Casa”. Ele escreveu
na ocasião:
“Só posso dizer que, na lenta diminuição das forças físicas,
estou interiormente em peregrinação para Casa. Para mim, neste último trecho do
caminho, às vezes um pouco esgotador, é uma grande graça estar rodeado de amor e
bondade tamanhos que eu não poderia ter imaginado”.
Em outubro de 2021, ao saber da morte de um grande amigo
sacerdote, o pe. Gerhard Winkler, Bento XVI escreveu uma carta aos padres da
abadia de Wilhering, na Áustria, para lhes oferecer os seus pêsames. No texto,
o Papa Emérito afirma:
“Ele chegou agora ao outro mundo, onde tenho a certeza de
que muitos amigos já o aguardam. Espero me unir logo a eles”.
A serenidade diante do final da vida terrena é um sinal de
fé. É a consciência de que a vida ilumina a morte e, portanto, a morte ilumina
a vida. A morte, afinal, é apenas uma passagem.
Não é
precisamente um conto o que hoje vou escrever.
Voltou do
seu passeio a São Paulo o Guedes – o Guedes sabem? – o maior asneirão que o
sol cobre, aquele mesmo que respondeu aqui há tempos quando numa roda lhe
perguntaram se tinha filhos:
- Tenho
uma filha já adúltera.
- Adúltera?!
- Sim,
senhor, adúltera; vai fazer 17 anos.
- Adulta
quer o senhor dizer...
- Ou isso.
É uma boa menina; só tem um defeito: é muito luxuriosa.
-
Luxuriosa?!
- Sim,
senhor, luxuriosa: gosta muito de luxar.
- Ah!
- Mas lá
está minha mulher para lhe dar bons conselhos... sim, porque minha mulher é
muito sensual.
-
Sensual?!
- Sim,
senhor, sensual: tem muito bom senso.
***
Pois é como
lhe digo: tive o prazer de encontrar ontem esse precioso Guedes, cujas
asneiras, colecionadas, dariam um volume de trezentas páginas, ou mais.
Eu estava
num armarinho da rua do Ouvidor, onde entrara para cumprimentar a minha
espirituosa amiga dona Henriqueta, que andava, como sempre, fazendo compras,
enchendo-se de caixinhas e pequeninos embrulhos, adquiridos aqui e ali.
O Guedes,
mal me viu, correu a dar-me um abraço, dizendo:
- Li no “O
País” a notícia do seu aniversário...
E recuando
dois passos, tomou uma atitude solene, deixou cair as pálpebras, e acrescentou:
- Faço
votos para que você tenha um futuro tão brilhante como o que passou.
Agradeci
comovido essa manifestação de apreço envolvida num disparate, e apresentei o
Guedes à minha espirituosa amiga dona Henriqueta, que mordia os lábios para não
rir.
-
Apresento-lhe, minha senhora, o mais extraordinário reformador da língua
portuguesa: o Guedes, o grande Guedes, que acaba de chegar de São Paulo, onde
esteve a passeio.
- Era
tempo de fazer uma viagem! – explicou ele. – Foi a primeira vez que saí do Rio
de Janeiro.
- Eu
também não saí ainda dessa cidade senão para ir uma vez a Petrópolis e duas a
Niterói – disse dona Henriqueta.
- Vejo
então que a senhora é cortesã... – acudiu o Guedes curvando os lábios no mais
amável dos seus sorrisos.
-
Cortesã?!
- Cortesã,
sim... filha da Corte...
- Oh,
Guedes! – observei baixinho. – Pois você não vê que está dizendo uma
inconveniência?
- Tem
razão... Atualmente não se deve falar em Corte...
E emendou:
- Vejo
então que a senhora é capitalista federalista
Dona
Henriqueta desta vez riu-se a perder. É provável que ao leitor não aconteça o
mesmo. Paciência.
- Ó
Guedes! Vamos lá! Diga-me! Que impressões trouxe você de São Paulo?
- Muito boas! Aquilo é uma grande terra!
- Dizem
que há lá muita sociabilidade.
- Como?
- Muita
convivência...
- Isso
há... As famílias visitam-se... Os moços coabitam com as moças.
- Ora essa!
- Que
entende você por “coabitar”?
- É...
é...
- É uma
indecência... uma inconveniência... uma coisa que não se diz!...
O Guedes
inflamou-se:
- Está
você muito enganado... “Coabitar” é...
E voltando-se para um dos caixeiros do
armarinho:
- O senhor
tem aí um dicionário que me empreste?
- Pois
não?
E daí a
dois minutos o Guedes tinha nas mãos os dois volumes do Aulete.
- Muito
bem! – disse eu. – Procure “coabitar”.
Depois de
folhear em vão o dicionário durante um ror de tempo, o teimoso exclamou:
- Não dá!
Não dá! Vejam...
- Perdão:
você está procurando com u: deve ser com o!
- Tem
razão. Tem razão...Onde estava eu com a cabeça?
E o Guedes
pôs-se de novo a folhear o Aulete.
- Não dá!
Também não dá com o! Veja: de coa para coação! Não dá com u nem com o!
-Valha-o Deus, Guedes, valha-o Deus! Você está
procurando sem h? Dê cá o dicionário!
E com um
sorriso de triunfo mostrei ao Guedes a significação da palavra.
- Agora
veja o que o Aulete acrescenta entre parênteses: “Diz-se particularmente de
duas pessoas de diferente sexo”.
- Perdão!
– bradou Guedes furioso. – Perdão! Eu não disse particularmente, mas alto e bom
som, e só não me ouviu que não me quis ouvir!
E batendo
com a mão espalmada sobre o balcão:
- Eu não
sou homem que diga as coisas particularmente!
---------------
Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo),
jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e
faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do
irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde
criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.
* * *
quarta-feira, 30 de março de 2022
ORAÇÃO PARA APRESSAR O TRIUNFO DO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA
Tendo em vista a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração
de Maria, Dom Athanasius Schneider (bispo auxiliar de Astana, no Cazaquistão)
compôs uma oração que aqui transcrevemos na tradução para o português feita
pelo nosso colaborador Hélio Dias Viana.
Ó Imaculado Coração de Maria, Santa Mãe de Deus e nossa
terna Mãe, olhai para a angústia em que vive toda a humanidade devido à
propagação do materialismo, da impiedade e da perseguição à fé católica.
Em nossos dias, o Corpo Místico de Cristo está sangrando de
tantas feridas causadas dentro da Igreja pela propagação impune de heresias,
pela justificação dos pecados contra o Sexto Mandamento, pela busca do reino da
terra em vez do reino dos céus, pelos horrendos sacrilégios contra a Santíssima
Eucaristia, especialmente através da prática da Comunhão na mão e da forma
protestante de celebração da Santa Missa.
Em meio a essas provações surgiu a luz da consagração da
Rússia ao vosso Imaculado Coração, pelo Papa em união com os bispos do mundo.
Em Fátima Vós pedistes a Comunhão Reparadora nos Primeiros Sábados do mês.
Implorai ao vosso Divino Filho que conceda uma graça especial ao Papa, para que
aprove a Comunhão Reparadora nos Primeiros Sábados.
Que Deus Todo-Poderoso apresse o tempo em que a Rússia se
converta à unidade católica, a humanidade tenha um tempo de paz, e a Igreja
receba uma renovação autêntica na pureza da fé católica, na sacralidade do
culto divino e na santidade da vida cristã.
Ó Medianeira de todas as graças, ó Rainha do Santíssimo
Rosário e nossa doce Mãe, voltai para nós os vossos olhos misericordiosos e
atendei graciosamente esta nossa oração confiante.