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quinta-feira, 17 de março de 2022

UMA ROSA É UMA ROSA - Cyro de Mattos

 


Uma rosa é uma rosa

Cyro de Mattos

 

                 Uma rosa é uma rosa é uma rosa, uma das frases mais famosa da literatura, foi escrita por Gertrude Stein (1874-1946), escritora e poeta feminista, mensageira de uma poesia inovadora nos Estados Unidos. A frase motivou ao longo dos anos várias versões e variações através de músicas, óperas, filmes e paródias. Artistas famosos usaram-na em suas criações e, entre eles, Ernest Hemingway, Charles Chaplin, Aldous Huxley, Stephen King e Vinícius de Moraes com seu Rancho das Flores.

           Precisamos nesse momento de elogio ao sublime ser íntimos de outra rosa, que nos faz sentir como a vida é bela quando a encontramos formosa no jardim da cidade ou no da sua casa. É feita de seda e fragrância, gosta de acontecer no momento singular da natureza. Em ritual de carícia, ilumina o ar quando se entreabre no sonho suave da flora.

          Gostaria que fosse duradoura, não fugaz como acontece, pois em seu destino frágil de rosa fica murcha mal desponta. Assim se apresenta na sua aparição ligeira, vocação para que seja admirada em terna nervura, provocando suspiros e desejos, sugerindo a ideia de que o amor entre os seus protagonistas se faz necessário que seja bafejado com os ares da rosa.      

           Se você quiser ver sua mulher sorrir de contente, diga, quando sentar à mesa para a refeição matinal, que ela amanheceu bonita como uma rosa. Se ela quiser saber de onde foi que você achou essa rosa, que se parece com ela, não hesite em dizer que foi no Jardim de Dona Bela, só o seu coração conhecia, amava visitá-la todos os dias. Acrescente que de repente encontrou com aquela rosa agora, ali mesmo em sua frente, sentada à cabeceira da mesa. Radiante apresentava-se em ritual de amor fazendo com que seu coração tivesse a sensação de que sua casa fosse de fato na manhã formosa um jardim, igual ao de Dona Bela.    

        Os poucos leitores dessa crônica já perceberam que dentro de mim habita uma rosa, que sopra seu hálito delicado mal a manhã desperta. Justamente é essa, que nunca some, dadivosa em ritmo de cores e sons na alma flora. Tem habituais cuidados comigo, acha nesse instante que eu não deva prosseguir com a crônica, tentando dizer sobre o que é uma rosa. Ora, uma rosa é uma rosa com sua beleza fascinante, observa, será que alguém vai conseguir descrevê-la dentro da perfeição de suas linhas harmoniosas?  Desenhada pelos dedos de Deus, nunca na minha escrita pobre vou chegar perto de sua beleza provinda da natureza, que é inimitável, sua delicadeza com finas saliências, seu jeito iluminado que trescala um sentimento que perfuma e encanta.    

          Verdade, nunca saberei decifrar o quanto essa rosa que acalma os olhos é misteriosa, seja qual for a cor que expresse o seu estar na vida, em qualquer estação, embora dê preferência que aconteça na primavera quando há trinados e voos alegres para celebrar esse dom da flora. Se uma rosa é uma rosa, uma só vale todos os poemas escritos pelos melhores poetas de todos os tempos. Inalcançável é a sua perfeita aparição, sem concorrente entre as flores não se presta ao decalque da mais apurada sensibilidade do poeta genial, tendo em vista que  suas particularidades formadas por pétala e sonho pertencem somente a ela.       

Rosa no verde é felicidade, no branco sinal de tranquilidade. Ambas as duas são generosas.  Rosas no peito são bem-vindas, tão queridas, acariciam o coração ao toque do violão suave. A essa altura, em que tento mostrar minha admiração pela rainha das flores, penso que posso encerrar essa crônica recorrendo a Ataulfo Alves, poeta de nosso cancioneiro popular, que gostava de cantar o amor embalado com a beleza da rosa. Ele disse: “Quando morrer não quero choro nem vela, quero uma rosa amarela, gravada com o nome dela. “

 

Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Um dos idealizadores da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

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segunda-feira, 14 de março de 2022

14 DE MARÇO - Dia Nacional da Poesia

 


Pelas Sombras

Castro Alves

                                Ao padre Francisco de Paula

                                            C’est que je suis frappé du doute.

                                            C’est que l’étoile de la foi

                                            N’éclaire plus ma notre route:

                                            Tout est abime autor de moi!

                                 

                                                                        LA MORVONNAIS

                                

 

Senhor, a noite é brava... a praia é toda escolhos.

Ladram na escuridão das Circes as cadelas...

As lívidas marés atiram, a meus olhos,

Cadáveres, que riem à face das estrelas!

 

Da garça do oceano as ensopadas penas

O mórbido suor enxugam-me da testa,

Na aresta do rochedo o pé se firma apenas,

No entanto ouço do abismo a rugidora festa!...

 

Nas orlas de seu manto o vendaval se enrola

Como invisível destra, açoita as faces minhas

Enquanto que eu tropeço... um grito ao longe rola...

“Quem foi?” perguntam rindo as solidões marinhas.

 

Senhor! Um facho ao menos empresta ao caminhante,

A treva me assoberba... Ó Deus! Dá-me um clarão!

E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:

“Acende, ó Viajor! – o facho da razão!”

 

.......................................

Senhor! Ao pé do lar, na quietação, na calma

Pode a flama subir brilhante, loura, eterna;

Mas quando os vendavais, rugindo, passam n’ alma,

Quem pode resguardar a trêmula lanterna?

 

Torcida... desgrenhada aos dedos da lufada

Bateu-me contra o rosto, e se abismou na treva,

Eu vi-a vacilar... e minha mão queimada

A lâmpada sem luz embalde ao raio eleva.

 

Quem fez a gruta – escura, o pirilampo cria!

Quem fez a noite – azul, inventa a estrela clara!

Na fronte do oceano – acende uma ardentia!

Com o floco do Santelmo – a tempestade aclara!

 

Mas ai! Que a treva interna – a dúvida constante –

Deixaste assoberbar-me em funda escuridão!...

E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:

“Acende, ó Viajor! A Fé no coração!...

 

Castro Alves (Antônio Frederico), nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É o patrono da cadeira n. 7, por escolha do fundador Valentim Magalhães.

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sexta-feira, 11 de março de 2022

QUANDO A TARDE VEM CAINDO – Ariston Caldas


 Ele mesmo se divertia: “Osório, não te metes com mulher novinha!” Parecia intuição, um aviso do que estava por acontecer. Conhecera Beatriz como caixa de uma loja de vender bombons, menina quase ingênua, de sobrancelhas fechadas, sorriso leve, cabelo cheio feito em cachos, olhos apertados; uma fitinha do Senhor do Bomfim atada no pulso da mão direita. Ele, conversador, alegre, com a experiência de 55 anos.

            Intimidade crescendo, a começar por não receber os trocos; depois, os alisamentos, a espera na saída do trabalho, ao meio-dia e à noitinha; ele a segurava por um braço ou punha-lhe uma mão ao ombro, rua afora até o ponto do ônibus. Beatriz nem conhecera o pai que teria sido um sujeito ciumento mas responsável, segundo as estórias da mãe dela, mulher ranzinza mas que nem sabia do chamego entre a filha e Osório; assuntava somente o dinheiro dela rendendo, vestidos bonitos, sapatos, sutiãs, calcinhas. “Graças a Deus o emprego tá dando certo”.

          “Não tenho nem um perfume”. Osório comprava, dos bons. Por que se embeiçara assim com Beatriz? Era uma menininha novinha, direita, mas novinha demais para ele com quarenta e tantos a mais. Tentava um beijo na boca, ela virava o rosto, como a proteger-se. “Não”. Abria a bolsinha dela, futucava; uma vez viu o nome de um sujeito, escrito num pedaço de papel: Sílvio. “Namorado”, não, “amiguinho”. Passou a ciumar de Beatriz.

            “Eu queria que você fosse meu pai”. Gostava do apoio dele, dos afagos, alisando seu cabelo em cachos, apertando-a contra o peito. Vinham as brincadeiras dela, “par ou ímpar?”. Desenhava carinhas de bonecos, bichinhos; ele assistia, empolgado com o mundo.

            Beatriz conheceu a casa onde ele morava; ajeitava os móveis, lavava os pratos arrumava a cama, o guarda-roupas; gostaria que Beatriz fosse a dona de tudo. Se tivesse condição compraria uma casa boa para ela, faria uma poupança e um seguro que lhe garantisse o futuro; tinha somente uma aposentadoria razoável, uma pequena reserva num banco. Não tirava Beatriz da cabeça, lembrava da juventude, disputado. Ela só lhe deixava beijá-la no rosto, bem do lado; na boca, não; “Tanto faz aqui como ali”, ele pensava. Beatriz o encarava nesses momentos, desentendida, lhe fitando os olhos, como quem procurava adivinhar as intenções.

            “Queria que você fosse meu pai”. Depois de Beatriz, Osório sentia-se jovem, tomava cerveja, comia acarajé, participara de peladas no meio da praia. Beijo, só no rosto, bem de lado. Avançou uma vez. “Você beijou minha boca?” Ele pediu desculpa. “Foi casual”. Ela limpou os lábios com os dedos, ficou olhando para o chão, calada, sentindo; Osório ficou feliz, experimentara o gosto da boca de Beatriz, estranho e bom; a momento a preocupação sumiu e ela voltou às brincadeiras, fazendo “dedo mindinho”, jogando “três-marias” no pátio da casa dele. “Uma menina tola”, pensava, satisfeito, perdido num mundo de sonhos, como se estivesse num castelo colorido, cheio de juventude; Beatriz fazia um biquinho, atravessava os olhos, ajeitava o cabelo, lhe apalpava o rosto, de supetão: “Perdeu”.

            Ele passou a amar a vida com mais entusiasmo, com mais fulgor, sentir com mais beleza as estações do ano, mesmo dormindo só, sem carinho, sem Beatriz que morava numa casa humilde de um bairro distante; menina de seus sonhos, uma rosa cheia de viço. Ele sentia tudo com clareza, lembrava da juventude, preferido, disputado por este mundo a fora. E um dia Beatriz apareceu de sobrancelhas fechadas, sorriso leve, olhos apertados; doze anos despontados cheios de frescor. Ele pensava definir a situação: “quero me casar com você”.

            Beatriz nem pensava nisso; gostava dele, até o amava, mas como se fosse uma filha, uma amiga sincera. E a definição veio dela: “Quero me casar com Sílvio”. Quem era Sílvio? Lembrou do pedacinho de papel. Beatriz queria seu consentimento. Ele sentiu tontura, um suor frio porejar pelo rosto. E disse que sim, com amargura.

            Enxovou Beatriz dos pés à cabeça, foi o padrinho do casamento; bebeu champanha, comeu iguarias e fez um discurso. Era tarde da noite quando voltou para casa, à toa, mais solitário do que nunca. Saiu pela beira do cais, olhando a escuridão, ouvindo o barulho das ondas em baixo trovejando pelas rochas em redor. Chegou em casa ainda meio tonto, deitou-se e adormeceu sentindo-se num altar iluminado e florido, beijando a boca de Beatriz como se ele fosse Sílvio.

 

(LINHAS INTERCALADAS)

Ariston Caldas

 

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Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia, em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico ‘Terra Nossa’, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.

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quinta-feira, 10 de março de 2022

RUMO E FASES - Paulo Bezerra

 


Rumo e Fases

 

 

Quando eu tinha dez anos

sentava-me na pedra e olhava o mar.

Via navios iluminados

e sonhava com um mundo lá de fora.

E já tinha tanto, no peito, pra dizer.

 

Quando eu tinha quinze anos

sentava-me na pedra e olhava o mar.

Não via mais os navios,

mas sonhava com um mundo lá de fora

e tinha mais coisas, no peito, pra dizer.

 

Quando eu tinha vinte e cinco anos

sentava-me na pedra e olhava o mar.

Não via mais os navios iluminados,

nem sonhava com um mundo lá de fora,

mas tinha, ainda, coisas, no peito, pra dizer.

 

Quando eu tinha trinta e cinco anos

não sentava mais na pedra nem olhava o mar.

Não via os navios iluminados,

nem sonhava com um mundo lá de fora.

Mas já gritava o que tinha, no peito, pra dizer.

 

Às vésperas dos quarenta e cinco anos

não sento na pedra, nem olho o mar.

Não vejo os navios iluminados,

não sonho com um mundo lá de fora,

nem uso palavras pra dizer o que tenho pra dizer.

Apenas vivo, e digo, assim, sem ter palavras,

tudo o que tinha e tenho pra dizer.

 

Paulo Bezerra – Juiz do Trabalho da 19ª Região – AL

(Poema escrito em União dos Palmares)

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O ESTRO QUE ILUMINA O SER – 1ª EDIÇÃO

Paulo Bezerra

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quarta-feira, 9 de março de 2022


 

Agudo mundo ou do solitário caminhante nos campos insanos

Cyro de Mattos*

 

    ...matador de pássaro terra água a mancha que envergonha.   aguda fome vil de novo impelindo-te.  fecha as pálpebras o sol quando vê tuas águas oleosas ondas dum peito sem dó e lágrima a comemorar de ira excedido o que o coração mais lateja desamor a queimar no verde a cobrir com cinzas os tocos das vastidões desoladas. em flor carbonizada borboletas ausentes de odores fragrâncias sem finas saliências a relva em hesitante tremor. sem tecer da natureza minúsculos dramas a vida.  sanha sorves de todas as forças reunidas pulsando veias nervos num calor para matar os sobreviventes. te ativa o cheiro enfurecido das manadas som das patas nas têmporas tua fronte do animal transformador babando bufando nas rugas do tempo o detentor só de fissuras o mundo te pergunta se no antigamente havia o semeador no campo de centeio decididamente desviado da rota alegre dos dias preferindo ser o que se acha nos gestos impuros mãos impassíveis dentro da bruma.  o litoral tu fizeste de tal assombro clamor que perfura a inocência irrompendo das gargantas sedentas do abraço. que adiantam soluçantes vozes emanando miasmas contaminações dos peitos esvaídos a cidade em grito? o deserto o deserto tua marcha algemando estas mãos abertas em súplicas sopradas por vento de amanhecer sofrido. de assaltos atropelos dizem os que são vítimas dum surpreendente audaz animal andarilho bicho insano poliglota suicida 

 

NÃO NOS MATE MAIS SOMOS A INFÃNCIA QUE VIVE NAS COLMEIAS DO METRÕ DORME EM ESCADARIA DE IGREJA ROLA NAS RUAS SOLITÁRIAS PUTAS NO CALABOUÇO DA CARNE NEGROS AÇOITADOS NOS PORÕES DA MEMÓRIA ESCRAVA POUCOS NATIVOS SOBREVIVENTES EM GRITO DA FUGA TRESPASSADA NOS RASTROS DA DESGRAÇA

 

        fuzilas com o sorriso aplaudes com os dentes de metralha habitas nesta inconcebível fundura dos mais vastos ais abismo feito invenção de fornos crematórios no espetáculo de amontoados nos vagões como boi pro matadouro tão pele osso os que sequer adeus podiam dar aos que ficavam sonâmbulos penetrados de angústia pelas trilhas do horror. tua máscara o sabor dos holocaustos tuas veias até hoje inflamadas no letreiro de ódio:

 

MINHA VOZ CONFUNDE ATÉ O AR AS AMARGAS SIM AO INVÉS DE SADIOS SABERES BEM-VINDOS NO AMOR SABORES DAS FRUTAS DOCES NO VERSO DO TEMPO ME MASCARO DE IDEOLOGIA NEGATIVA NADA DE UTOPIA COMO CANÇÃO DO AMOR

 

             de crimes hediondos executor numa incrível capacidade de proliferar tudo que não se cobre com a folhagem da vida 

 

QUERO QUE O POBRE EXPLODA MENINO DE RUA SE FODA PRETO QUE SE LASQUE PUTA QUE VÁ PRA PUTA QUE PARIU ÍNDIO MATO AGORA É COM GRANADA

 

                    à vontade instauras teus ares disseminando pétalas atômicas. gente flora fauna alimentando teu ópio com ventos gemedores urdidos de agonia nos sequestros diabólicos. o viajante das estrelas corruptor corrompido estampado no mundo não mundo como o matador incansável dos que cantam a poesia da pomba em veias puras da manhã carícia feita mansidão verdadeira. na bomba teu maior elogio dos escombros no sal destas águas que despojam as cores do arco-íris nada de choro com a menina morta a bala perdida encravada na cabeça remorso não habita teus becos insones bem conheces tua música de eficiente terror no ar a explodir a maravilha estilhaçada de gritos entre tudo que soterras quem te fez exilado nas próprias sombras dos anos desalmados? não mais  pressentes sementes da terra amputada dos rumores  do vento nos ramos trescalando chuva de flores nem o encontro  dos amantes com seus anéis brilhando nos jardins do amor já não existe  mais choro mais grito mais dor mais nada conseguiste secar  todas as lágrimas de seres provisórios neste estar no mundo ambíguo. não conseguem encarar-te as trevas há muito tempo a morte evita encontrar teu olhar medonho numa carreira tão veloz sumiu para que o vento mais rápido nessa fuga de assombros nunca consiga alcançá-la

 

apesar de tudo creio.  sabe o tempo caminhos de mim mais os outros mais o mundo. duma flauta mágica da qual escorre uma música de tranças que se faz no seu expectante amanhecer. enleio de canção que acena com luzes na parte obscura do ser

 

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* Cyro de Mattos é ficcionista, poeta, ensaísta, cronista, romancista e autor de literatura infantojuvenil. Editado também em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha e Estados Unidos. Premiado no Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia e Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.  Autor de mais de 80 livros.

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terça-feira, 8 de março de 2022

08 DE MARÇO - Dia Internacional da Mulher

 


PARA NOSSA CONSCIÊNCIA

 

Um dia para nossa consciência:

dos homens – que precisam aprender

que braços de ternura e reverência

não são favor algum a se fazer,

mas são direito e dom da convivência!

 

Um dia pra firmarmos compromisso

conosco, com o nosso bem-querer,

em vista de um olhar jamais omisso,

pois elas, as mulheres, são pra ser

parceiras de partilha e de serviço.

 

Um dia que nos lembra esta incumbência:

servi-las!... Sim, a Paz precisa disso!

 

J. Thomas Filho

Petrópolis /RJ


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É NO CORAÇÃO QUE DEUS COLOCOU O TALENTO INVENTIVO DAS MULHERES, PORQUE AS OBRAS DESSE TALENTO SÃO OBRAS DE AMOR. - Alphonse de Lamartine

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segunda-feira, 7 de março de 2022


 

  Duas mulheres guerreiras de Jorge Amado

                                 Cyro de Mattos

 

          Reconhecido como o embaixador símbolo do povo brasileiro no exterior, Jorge Amado, o baiano que dizia ser a sua paixão escrever, viver sem ela não fazia sentido diante das incompletudes da vida, no romance Tieta do Agreste cria uma das personagens femininas mais sensuais e rica de caráter para ficar em definitivo com a sua grandeza na prateleira da sua galeria de mulheres inesquecíveis, elaboradas com imagens certeiras, bem forjadas nos traços do caráter e curvas de cada beleza, como ressoam na retina os casos de Gabriela, Dona Flor e Teresa Batista, para citar algumas.

          Liberação sexual, luta pelo poder, necessidade de preservar o meio ambiente, conflito entre o atraso e o progresso são alguns dos ingredientes formadores do cenário provinciano de Santana do Agreste, palco onde vai se desenrolar o enredo protagonizado por Tieta, a pastora de cabras, representante da garra e ardência da vida, expulsa pelo pai por ser muito namoradeira. E, pelo outro lado Perpétua, a irmã rival, ciumenta, invejosa, com um caráter mesquinho, que encarna tudo que é maledicência para nutrir a alma com negações nos dias cor de sombras. 

          A volta de Tieta de São Paulo cria um rebuliço no ambiente da vidinha provinciana, da cidade estagnada no tempo, alimentada dos valores mesquinhos, da fuxicaria na falta de perspectivas, acostumada à vigilância dos que vivem de vigiar a vida alheia, sem razão para alcançar os horizontes dos melhores dias.  A menina que saíra pobre da sua terra natal voltava agora amadurecida, cheia de ímpeto para lutar contra os velhos costumes, pela valorização do meio ambiente, trazendo esperança à localidade com a instalação da energia elétrica, disseminando novos meios de vida no lugar dos preconceitos e das desigualdades sociais.

          Aos poucos, o romancista, que aderiu ao humor no lugar do juízo de valor no estilo, vai colocando nas páginas dúvidas sobre a vida de Tieta em São Paulo. Não se fizera a moça sedutora que inquietava os homens, nem casara com um comendador rico. Não passara de dona de um bordel de prostitutas, exploradora de mulheres da vida, que frequentavam a sua casa, fazendo na prostituição com que suas condições produzissem a riqueza necessária para o bem-estar da vida.  Para muitos em Santana do Agreste o que importava era sua maneira nova de ver a vida, a garra que transmitia para que a esperança motivasse livres movimentos, ideias e sentimentos misturados com fervorosa ternura, na qual sobressaía a garra da vida vivida ardentemente, com seus lances repletos de inquietações em caminhos contraditórios, desafiadores na natureza.

          De maneira até certo ponto idêntica com Tieta do Agreste, a leitura de Teresa Batista cansada de guerra (1977), de Jorge Amado, forte romance, pleno de verdades, nos força a pensar sobre aquela mulher não resignada, que rola no mundo. Aquela a quem um dia elogiei com este poema:

 

Para onde vá sem voz
Deixa que seja levada.
Maneira de ser conduzida
Expressa o espaço inútil.

Rolam anos de vergonha,
O que podemos achar nela?
Amanhecer é preciso
Apesar das opressões.

 Chega! Um grito é capaz
De parir as próprias emoções.
Sabe que viver são ondas
Passando pelo mito da mulher.

Significa enfim o arrojo
 Ao alcance da verdade.
Tal qual o parceiro na lida
De frente para o mundo.

 

          A personagem Teresa Batista simboliza a vida de muitas mulheres marcadas pela violência física e psicológica do machismo, preconceito e injustiça social. Sua história caracteriza-se pelas circunstâncias de uma garra mística, que exibe sem romantismos o contexto formado de negações, entranhado na desumanidade, no machismo que ofende e não se dá por satisfeito porque está nas entranhas do irracionalismo.

          A narrativa de alentado volume une as pontas de passado e presente, com feição de cordel em muitas passagens, dando uma visão certeira das relações sociais da Bahia em meados do século XX. No centro das atenções, à mulher reserva-se o polo passivo da submissão, que lhe é imposto sem concessão, para ser vista como alguém relegado à passividade, dominada pelas normas de desumanidade e preconceito.

          De regresso a Sergipe, depois de solta com a intervenção do advogado Lulu Santos, a estrela da noite fará sua estreia no cabaré famoso. A cena do homem que, na pista de dança, bate na sua mulher, deixa essa heroína das gentes indefesas com sangue nos olhos. Fere os brios de quem não gosta de ver homem batendo em mulher. Vai para cima dele, a briga rende-lhe ferimentos e a quebra dos dentes, é presa. Tem início aí o inconformismo da personagem, que terá uma imagem construída com valentia e misticismo, a se opor sempre contra as injustiças cometidas pelo sistema de poder contra a mulher.

          O espírito de revolta dessa mulher incrível está ligado ao passado sofrido, reiterado pela pobreza, abandono e exploração sexual. Para atenuar as negações do mundo, acompanham-na três orixás, de quem herda forças e virtudes que lhe infundem o caráter. De Iansã, dona dos raios e tempestades, ela herda a coragem e a valentia, de Omolu, orixá que cura as moléstias, a perseverança de quem tudo dá e nada quer em troca, pois como reza o canto, “o mundo de   Deus é grande, trago na mão fechada, o pouco com Deus é muito, o muito sem Deus é nada.” De Oxalá, dono de Olorum, o pai de todos os orixás, tem o socorro da mão protetora, que a salva das ocasiões perigosas.

          Menina, órfã, aos doze anos, por uma ninharia é vendida pelos tios ao capitão Justiniano Duarte da Rosa, conhecido na região pelas falcatruas, corrupções e estupros. Sua tara tende para preferir as vítimas que mal tinham tido a primeira relação sexual. Teresa Batista torna-se propriedade sexual exclusiva do capitão, violentada todos os dias, durante anos.  Numa proeza em que entram a audácia e o espírito místico, ela consegue escapar da prisão na casa do capitão Justiniano.

          Por sua valentia atuante nas causas justas, vai para a prisão, torna-se amante de um coronel, que certa vez a libertou. Depois que ele morre, volta à prostituição para poder se sustentar, até que encontra o jovem médico, junta-se a ele, que a leva para uma cidadezinha no Sergipe. Lá é que outra vez se mostra como verdadeira guerreira, dessas que causa pasmo e é aplaudida de pé pelos que são vítimas de circunstâncias críticas operadas pela dura lei da vida.

           Inspirada por Omolu, combate sem trégua uma epidemia de varíola, sem temer permanece no meio das prostitutas da pequena cidade de Buquim. Em Salvador, mais uma vez volta à prostituição, mobiliza e lidera uma greve das prostitutas contra a violência policial e a destruição dos prostíbulos mais pobres. Essas e outras façanhas constroem a biografia audaciosa de Teresa Batista, mulher guerreira, de feitos intrépidos e incomuns na travessia da vida, de caráter forjado com a fome, peste e guerra. Na constante estupidez cometida pela sociedade contra a mulher, valente e impetuosa.  Daí se tornar no estrangeiro a bandeira de movimento feminista.

 

Referências

AMADO, Jorge. Tieta do agreste, romance, Editora Record, Rio, 

1977.

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Teresa Batista Cansada de Guerra, romance, Livraria Martins Editora, São Paulo, 1972.

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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