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terça-feira, 7 de dezembro de 2021

É a corrupção, estúpido !

12 POEMAS DE NATAL - Cyro de Mattos



12 Poemas de Natal

Cyro de Mattos

 

 

É Natal!

 

Do céu dos céus

Uma estrela

Que anuncia

Só amores

Para iluminar

As pobrezas

Dessa terra.

 

Na manjedoura

Ondas embalam

O menino no berço

Feito de palha.

Cantam os anjos,

Tocam os pastores

Suas doces flautas.

 

Os reis magos

Estão sorrindo

De pura alegria.

Numa manjedoura

O bem afugenta o mal.

Os sinos tocam:

É Natal! É Natal!

 

***

 

O Pinheiro

 

Antes triste, no canto,

Só que de repente

Como por encanto

Aparece iluminado

Com estrelinhas do céu,

Não mais que de repente

Todo aceso de Deus.

 

***

 

Manjedoura

 

O que mais encanta

É nascer o menino

Na poeira desse chão

Onde os bichos andam

E até hoje esse menino

Com sua luz suave

Semear grãos azuis

De amor e de paz

Na manjedoura dos ares.

 

***

 

Árvore de Natal

 

Esse pequeno cofre

Para o papai Onofre,

Esse quadro com flores

Para a mamãe Dolores,

Esse cachimbo dourado

Para o vô Clodoaldo,

Essa coberta branquinha

Para a vó Vitorinha,

Essa camisa de linho

Para o tio Bernardinho,

Essa boneca que chora

Para a maninha Eudora,

Esse pião e o tambor

Para o meu primo Dodô.

Quem quiser a flautinha

Nem espere que é minha

 

***

 

O Amanhecer

 

Para Firmino Rocha,

em memória

 

A estrela desponta,

A nuvem se descobre,

O galo clarineta

E anuncia que em Belém

O menino já chegou

Na manhã mais bela.

 

A boa notícia corre

No fiozinho do rio

Que da montanha desce.

Segue no vento leve

Que sopra a flor sozinha

Na plantinha do brejo.

Vem com a borboleta

Que pousa na roseira

E fica brincando

Com os raios de sol.

 

***

 

Uma Oração Pequena

 

Pelo

Papai Noel

Que só aparece

Na televisão.

 

Pelo

Riozinho

De minha cidade

Cada vez pior

Com os despejos.

 

Pelo

Menino

Que na seca

Fez com os ossos

Do cachorro

Um carro

De brinquedo.

 

Pela

Professora

Que mal tem salário

Mas ensina

Um mundo.

Menino Jesus

Seja bem-vindo!

 

***

 

Esse Menino Jesus

 

Com o seu jeito

Amigo de dizer

Que pra vencer

O egoísmo

Dessa guerra

De cada um

Pensando em si

Basta querer

Sair por aí

De mãos dadas

E como criança

Espalhar

Num instante

Só ternura

Nessa terra.

 

***

 

 Presépio

 

 

Virgem Maria:                                 Seda do céu

                                                         Adorna o dia,

                                                         Pureza eterna

                                                         O amor de Maria.

                      

 

São José:                                        As mãos na enxó,

                                                       Plaina e formão

                                                       Talham a fé

                                                       Do constante coração.

 

 

Os Reis Magos:                            Basta uma palavra

                                                      E seremos salvos;

                                                      Não somos dignos

                                                      De tocar na palha.

 

 

O Burro:                                       Nos meus cascos

                                                      Que não cansam

                                                      Venço a solidão.

 

 

O Galo:                                         Amar a todos!

 

                   

A Ovelha:                                     Não o egoísmo!

 

              

A Cabra:                                       Cortar todo o mal!

 

                     

 

A Vaca:                                        E perdoar sempre!

 


A Estrela-Guia:                           Eu sou a luz

                                                     Que mostra

                                                     O caminho

                                                     Sem qualquer desvio

                                                     Onde com ternura

                                                     Somos todos irmãos.

 

 

O Menino:                                   Minhas proezas

                                                    Numa só mesa

                                                    De todas as mãos

 

Os Anjos:                                    Foi tanto balão

                                                   Que subiu ao céu,

                                                   Foi tanta canção

                                                   Que ventou ao léu

 

                                                  Que até hoje luz

                                                  Do menino a cruz.

 

***

 

Canção do Deus Menino

 

 

Alegre como passarinho

Lá vou eu pelo caminho

Cantando porque nasceu

Em Belém o Deus menino.

 

Esse menino que nasceu

Na manjedoura em Belém

Como estrela nos fascina

Na cidade ou na campina.

 

Quer os homens como irmãos

Convivendo em comunhão

Dentro de cada coração

Pelos ares ou no chão.

 

Quer os bichos sem matança,

A vida sem agressão,

A vida sem solidão,

A vida como uma dança.

 

Alegre como passarinho

Lá vou eu pelo caminho

Cantando porque nasceu

Em Belém o Deus Menino.

 

***

 

Presença de Natal

 

O canto do galo

Que fere a aurora

Dessa vez é belo.

 

Num sorriso silencioso,

A Virgem Maria sabe

Do amor de Deus no chão.

 

Abelhas de ouro zumbem,

A música que comove

Sai da flauta dos pastores.

 

Todos os anjos entoam

A cantiga que nos fala

Deste amor pelo mundo.

 

“Eu sou pobre, pobre, pobre

Desde que eu nasci;

Eu sou rico, rico, rico

Quando estou dentro de ti.”

 

***

 

Meu Sino de Natal

 

O sino de Raquel

Toca para o céu,

O sino de Raul

É quase sempre azul,

O de Josefina

Vai pela campina,

O de Graça Capinha

No País de Pero Vaz de Caminha,

O da professora Nelly

Como é bom ouvir!

 

O de Maria

Soa com alegria

E o de vovô

Dói de tanto ardor,

O de Jesuscristinho

Toca no Natal

E vem de Belém

Só pra me dizer

Que ele é o que mais

Vai me querer bem.

 

***

 

Louvemos Baixinho

 

 

Para Manuel Bandeira,

em memória

 

Nasceu numas palhas

O nosso reizinho,

Os matos cheiravam,

O vento embalava.

 

A Virgem Maria

Sentia como doía

O destino humano

Do filho de Deus.

 

Quando for um homem

Com o nome de Jesus

De tanto nos amar

Irá morrer na cruz.

 

Louvemos no Natal

O nosso reizinho

Enquanto ele dorme

Como um cordeirinho.

 

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Cyro de Mattos é autor premiado no Brasil e exterior. Autor de 55 livros pessoais, de diversos gêneros.

* * *

NATAL DOS CORAÇÕES BONS - Luiz Gonzaga Dias


Natal dos Corações Bons

Luiz Gonzaga Dias


 

Velhos e moços, sonhadores, crentes,

Em que a existência vale ser vivida,

E que a Esperança - flama colorida...

Envolve a alma em auréolas refulgentes.

 

Sacerdotes no ritual da vida,

Obreiros de ações nobres, conscientes,

Felizes corações de adolescentes,

Eternos jovens de alma reflorida.

 

Para vocês Dezembro é o mês folguedo.

Quando as cigarras cantam no arvoredo,

E os pássaros gorjeiam nos seus ninhos.

 

Natal, portanto, é festa e resplendores,

Risos de sol, desabrochar de flores,

E mensagens de amor pelos caminhos.


 
 

VOZES DO SÉCULO

Luiz Gonzaga Dias

* * *

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

O BEM E O MAL – Gibran Khalil Gibran

 


O Bem e o Mal

 

          E um dos anciãos da cidade disse: “Fala-nos do Bem e do Mal”.

           E ele respondeu:

            “Do bem que está em vós, poderei falar, mas não do mal.

            Pois que é o mal senão o próprio bem torturado por sua fome e sede?

            Em verdade, quando o bem sente fome, procura alimentos até nos antros escuros, e quando sente sede, desaltera-se até em águas estagnadas.

 

            Vós sois bons quando vos identificais com vós próprios.

            Porém, quando não vos identificais com vós próprios, não sois maus.

            Pois a casa que se divide não se torna antro de ladrões; é, apenas, uma casa dividida.

            E um navio sem leme pode vaguear sem rumo entre recifes perigosos, e não se afundar.

            Vós sois bons quando vos esforçais por dar de vós próprios.

            Porém, não sois maus quando vos limitais a procurar o lucro.

            Pois, quando lutais pelo lucro, sois simplesmente raízes que se agarram à terra e sugam seu seio.

            Certamente, a fruta não pode dizer à raiz: ‘Sê como eu, madura e plena, e sempre generosa de tua abundância’.

            Pois, para a fruta, dar é uma necessidade como, para a raiz, receber é uma necessidade.

            Vós sois bons quando falais plenamente acordados.

            Porém, não sois maus quando adormeceis enquanto vossa língua tartamudeia sem propósito.

            E mesmo um discurso gaguejante pode fortalecer uma língua débil.

            Vós sois bons quando andais rumo a vosso objetivo, firmemente e com passos intrépidos.

            Porém, não sois maus quando ides coxeando.

            Mesmo aqueles que coxeiam não andam para trás.

            Mas vós que sois fortes e velozes, guardai-vos de coxear por complacência na presença dos coxos.

            Vós sois bons de inumeráveis maneiras, e não sois maus quando não sois bons.

            Estais apenas ociosos e indolentes.

            Pena que as gazelas não possam ensinar a velocidade às tartarugas!

 

            Na vossa ânsia pelo vosso Eu-gigante está vossa bondade; e essa ânsia está em todos vós.

            Mas em alguns, essa ânsia é uma torrente que se precipita impetuosamente para o mar, carregando os segredos das colinas e as canções da floresta.

            Em outros, é uma corrente preguiçosa que se perde em meandros, e serpenteia, arrastando-se, antes de atingir a costa.

            Mas que aquele que muito deseja se guarde de dizer àquele que pouco deseja: ‘por que és lento e atrasado?’

            Pois o verdadeiramente bom não pergunta ao desnudo: ‘Onde está tua roupa?’ nem ao desabrigado: ‘Que aconteceu à tua casa?’ “

 

(O PROFETA)

Khalil Gibran Khalil

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Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.

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ASAS PARTIDAS O PRIMEIRO AMOR DE GIBRAN

         

          Este romance, vivido e escrito por Gibran, é o romance de cada um de nós. O romance de nosso primeiro amor. O romance de nossas primeiras alegrias e sofrimentos.

          “Que jovem, pergunta o autor, não se lembra da primeira mulher que transformou o torpor de sua mocidade num despertar, ao mesmo tempo terrível e cheio de doçura?

          Para todo jovem, há uma Selma que surge na primavera de sua vida quando menos a espera e dá a seu isolamento um sentido poético e povoa sua solidão e enche suas noites de melodia.”

          Gibran e sua Eva foram expulsos do Paraíso.

          Mas a narração de seu amor e de sua expulsão constitui um deleite literário de permanente encantamento.

          Asas Partidas continuará a ser lido e amado enquanto houver amor e beleza neste mundo, enquanto o homem for sensível à primavera e ao luar, e enquanto o mal e a ganância prevalecerem às vezes contra jovens enamorados, sacrificando-lhes os sonhos de felicidade.

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domingo, 5 de dezembro de 2021

Passaporte da vacina: a luta contra a criação de um apartheid no Brasil

O ROMANCE AUDACIOSO DE ASSIS BRASIL – Cyro de Mattos


O Romance audacioso de Assis Brasil

Cyro de Mattos


          Quando Assis Brasil estreou no romance com Beira rio, beira vida (1965), já era conhecido nos meios literários do Rio como crítico atuante de jornais e revistas importantes, além de ser visto como conceituado ensaísta do livro Faulkner e a nova técnica do romance. Editava o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (SDJB), do qual era colaborador assíduo com ensaios e artigos, no período compreendido entre 1956 a 1961. A atuação constante do ensaísta e crítico fizera com que durante largo tempo o escritor esquecesse a experiência existencial ligada às raízes na terra natal, importantes vivências que poderiam ser transformadas em ficção de alto nível. 

          Beira rio, beira vida rendeu-lhe o Prêmio Nacional WALMAP, o maior e mais prestigiado na época. Seu autor informava, em depoimento à imprensa, que nesse romance vigoroso deflagrava o processo estético da tetralogia piauiense, constituída a seguir com os livros A filha de meio quilo, O salto do cavalo cobridor e Pacamão. Ficava visível na escrita contundente que a tetralogia formava um dos mais vastos painéis de denúncia social do Brasil arcaico encravado no Piauí. Revelava um narrador seguro, que se apresentava com um projeto dotado de técnica inovadora, de rico conteúdo na denúncia social equilibrada, sem que fosse nas linhas traçadas da realidade impiedosa um autor panfletário, favorecendo o ideológico em prejuízo do estético. 

          Assis Brasil dedicou-se durante dez anos ao projeto da tetralogia, comprometido em projetar o que viveu na problemática social da terra natal em matéria ficcional, dotada de feição humanista com engajamento implícito na solidariedade social, tendo como vínculo de gravidade a dura existência de mulheres largadas ao azar, estagnadas na vida áspera sob o peso da vida. Criaturas que eram procuradas no cais do Parnaíba para suprir na cama carências dos marujos de água doce. Mulheres infelizes, fundadoras de uma dinastia em que o destino não dava trégua ao círculo inevitável de infelicidade, que lhes impingia o gosto da tristeza nos dias.

           Com um ritmo veloz, centrado no drama, livre da sequência cronológica linear e  da onisciência narrativa do romance convencional,  em que o autor é o que sabe tudo sobre os personagens, imprimindo  sua impressão digital na escrita como um controlador exclusivo do plano previsível do que deve acontecer no desenvolvimento do enredo,    Beira rio, beira vida mostrava-se como resultado de uma imaginação audaciosa, técnica inovadora bem-sucedida, texto contemporâneo contrário aos tipos estereotipados na forma de narrar da  ficção brasileira. 

          De curtos trechos, diálogos cerrados, convincentes espaços, usando silêncios  imprescindíveis, ligeireza nos trechos. A narrativa de textura nervosa informava o necessário do que pretendia expressar na ideia tecida de sentimentos dolorosos, pensamentos com um ritmo nada agradável suscitando uma realidade dura, na teia armada de situações críticas. Com peculiaridades instigantes na forma romanesca de narrar, contemporâneos modos de apreender a lembrança tornada cena no detalhe, surgia esse romance arguto na denúncia social com uma estrutura plural tanto no significado como no significante.  Vinha estruturado no texto coeso com felizes soluções, surpreendentes efeitos no movimento, que se aglutinavam na desenvoltura da trama impregnada de sofrimento. Impressionantes lances do enredo preenchiam-se de ideias nítidas, apropriada cadência fragmentada na entonação ausente de ternura, na rude   verdade dos enleios e anseios, que assinalavam desabafos, choros e gritos.

          De vozes solitárias ecoava o gesto perverso nas rações diárias, simbolizadas pela vida impotente diante da realidade cruel, sem brilho, fomentada na sina lastimável de mulheres que viviam no cais envelhecendo, no tempo igual, sem cura, onde tudo acontecia com o sofrimento. A intensidade conferida com clareza por cada recorte da existência lembra Calvino na proposta do milênio. Leveza e concisão na linguagem de fácil acesso, rapidez e precisão como ingredientes eficazes para o desdobramento do enredo.

       Assis Brasil denuncia em Beira rio beira vida o drama de mulheres marginalizadas,  suas relações agudas com a  paisagem humana e física do rio, descendo na água barrenta, nas travessias com as canoas, as balsas, os navios-gaiolas, o delém, delém das sinetas;  no  deslize rotineiro das embarcações as cargas de arroz e algodão,  transporte de gente simples, marinheiros que sempre vinham jantar  com a mesma farda vistosa, branca, de botões dourados, o inseparável dolmã, o quepe azul, o talabarte brilhante.

          Romance que toca com sensibilidade apurada nas feridas sociais, faz emergir as verdades com sensações de um tempo invariável onde habitam criaturas que sentem bater o coração em dó e tristeza. Conta o drama de mulheres, que, de mãe à filha, ocupam um destino estipulado pelo rio da vida, sem perspectiva de fuga, desprotegidas na rotina sofrida.   

“Vergonha, humilhação, por quanto tempo? Os mesmos atos, palavras – uma submissão completa. Assim, assim, nada mudava, todos sabiam e aceitavam, a vida era aquela, botar os passos no rumo e pronto. Eles nasceram na cidade para dar esmolas, elas nasceram no cais para receber.” (página 65, ano 1965).

        Cremilda, Luiza, tempo de solidão, cenas caracterizadas na saga do destino marcado na dura profissão de humildes prostitutas do cais, mal a noite caía. E Mundoca, que não se interessava por homens, não esperaria em vão com a barriga  cheia. Havia pegado o vício de fumar o cachimbo desde cedo. E Jessé e Nuno, personagens absorvidas pelos lances aventureiros da vida, que também compartilham dessa saga atravessada com tristeza e revolta pela imaginação audaciosa e técnica que renova a estrutura da narrativa brasileira. 

          Entra no conjunto das personagens desse romance de província uma protagonista passiva, que não fala, não ouve, vestida de pano feito com retalhos coloridos. A boneca Ceci recebe tratamento cuidadoso de Luíza, porque sabe como ela consola quando se busca apoio para sublimar lembranças de coisas amargas, remoídas com sentimentos que porejam nas pulsações de feridas abertas.

          Assis Brasil serve da personagem Luíza para montar a história das prostitutas no cais do Parnaíba e ela própria, como figura central do drama, cria os outros personagens, fazendo com isso que a nervura da trama ganhe em autonomia e intensidade dramática. A mãe contava uma história quando estava bêbada. Ela ouviu da avó, se referindo a outra pessoa.  Era a mais bonita mulher do cais, tinha casa própria, muitos vestidos e admiradores tantos. Um dia um moço da cidade, de família rica e conhecida, se apaixonou por ela, causando grande escândalo. De tanto repetir a história, terminou por ficar entendendo tudo. Um marinheiro amigado com a mulher matou o pobre rapaz. Diziam que o pai mandou matar o próprio filho e botar a culpa na mulher, que foi presa. Na cadeia, toda noite, quando a cidade dormia, gritava e chorava alto. Um dia descobriram que a mulher estava de barriga, passando os meses atormentada na cela. Gritava e chorava, maldizendo a filha que estava para ser parida, para que a cidade toda ouvisse o sofrimento e não dormisse. Do marinheiro assassino nunca se soube.

           Nuno fora o primeiro e verdadeiro amor de Luíza, do encontro dos dois no camarote do navio-gaiola, quando ela era jovem, nascera Mundoca. Ele fora o primeiro a lhe pagar. A cédula de vinte mil réis era um presente para ela comprar o que mais quisesse, embora o que mais quisesse era que ele ficasse uma porção de tempo ou quando voltasse que fosse para sempre. Guardara o dinheiro sem jeito, não querendo que ele notasse sua tristeza. Guardara como um presente. Viriam outras cédulas, de outros homens, acompanhados com as sombras de Nuno. O tempo passava, ia conhecendo outros marinheiros, os retratos deles afixados na parede, como fizeram a bisavó, a avó, a mãe.

          Em todos os traços, de um homem que gostava da aventura na vida, ela amara Nuno como nenhum outro. Os cabelos crespos, o rosto rústico de marinheiro, a pele tostada, a barba entranhada na pele, dando coloração azul no queixo. A boca diferente dos beiços de Jessé – firme, altiva nos dentes enfileirados, certos, alvos. Jessé sempre lhe pareceu com uma boca de velho, beiço caído, uns cacos estragados nas gengivas à mostra – a dentadura nova o fizera bicudo, cuspindo as palavras com uma feição grotesca e modo esquisito de dizer a vida.  

      Olhava um, que era Nuno, afogada na ilusão, e via o outro, Jessé, o amigo de brincadeiras na infância como livre expressão de inocência pura. Crescera ao seu lado como guia e protetor, nutrindo por ela com o tempo o sentimento do amor. Era   correspondido com os risos de afeição, relações de uma amizade boa feita nas corridas pelo mato para saber quem chegava primeiro. Encontros com os passos despreocupados aconteciam pela rua quieta do cais, debaixo do sol que aquece, no sopro do vento que ameniza.   

       Mundoca era uma figura estranha, não tinha interesse por marinheiros, jamais conhecera Nuno, jamais esperaria de barriga grande, seguindo a sina de sofrer aquele sofrimento terno, “aquela saudade boa, o choro de uma infelicidade doce.”  Perguntava à mãe quem era o pai, perguntava, perguntava, até que um dia soube dela a verdade num desabafo misturado de dor e lembrança. Ouviu que era o Nuno, ficando surpresa na revelação súbita, frustrada por saber que não justificava a ausência paterna durante tanto tempo. Ele nunca voltou para Luíza, depois de anos que vivera com o coração pulsando na ilusão da espera.

         E Mundoca, numa mistura de perversidade e tristeza, quando enterraram a velha, disse:

         - Quantos não passaram por cima dessa pobre.

            A acusação ressoava grave, como anotação desconfortável dirigida à mãe, à avó, à bisavó, a toda família que se reproduziu no ciclo da prostituição, nas submissões diárias da derrota, das amargas procedentes das aspirações sociais que não vingavam, o coito exasperado no armazém através daqueles homens conhecidos, com gestos conhecidos que sumiam uma vez consumados. Era tudo agora lembrado como notas do argumento solitário, desgastante ali mesmo   na beira do cais. Na saga que perfurava com choros e gritos, o tempo era indiferente, não dava descanso aos cortes da dor.  Os meses passavam em dó nas vidas vendidas para o dinheiro, envelhecendo sem cura, sem volta no tempo que tudo sabe, lambe o sal e escorre sua neutralidade perene na paisagem subvertida dos dias saudáveis, estes que confortam nessa hora leve do sono desfrutado pelos justos.    

              Assim se externa numa dinâmica que aflige o romance Beira rio, beira vida, sem forçar as notas. Tem sua ordem formal contemporânea, personalidade gritante que transcende da vida nada fácil de mulheres humildes, amassadas nas dobras opressivas do tempo, que não muda, pois na temperança do feio e belo ao mesmo tempo dá permanência a uma criação artística realizada com sobras no acerto. Procede da palavra insuspeita no texto intocável porque operado com habilidade e talento.  De tanto saber o lado ruim da canção, da vida que ventava entre pobres mulheres com os sopros do não.

               

Leitura sugerida

ASSIS Brasil. Beira rio, beira vida, romance, edição O Cruzeiro, Rio, 1965.

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Possui prêmios literários expressivos no Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.

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