O Coletivo Flisba vai promover o “CURSO LIVRE: Linhas e
Entrelinhas na Carta de Caminha” entre
os dias 22 e 25 de abril de 2021. A atividade visa discutir a importância da
Carta de Pero Vaz de Caminha sob uma ótica interdisciplinar, bem como refletir
sobre o documento e seu potencial para a compreensão da atualidade brasileira.
A Carta de Pero Vaz de Caminha, certidão de nascimento do
Brasil, mesmo depois de 521 anos de escrita continua atual e sendo uma
referência histórica, literária e socioeconômica.
O curso é gratuito e as pessoas podem fazer suas inscrições
pelo Sympla: https://www.sympla.com.br/curso-livre-linhas-e-entrelinhas-na-carta-de-caminha__1183060.
O evento será virtual pela plataforma Zoom e os inscritos vão receber link para
a participação. O curso também será transmitido pelo Canal do Flisba no
Youtube. Os participantes presentes nas sessões serão certificados com carga
horária de 10 horas.
O curso será realizado em quatro dias e terá início sempre
às 20 horas. No dia 22/04 , o tema do curso será sobre a "Propaganda e
Sexo na Carta de Pêro Vaz"ministrado pelo professor Ramayana Vargens e mediação Luh Oliveira; no
segundo dia, 23/04, a abordagem será sobre "A Carta de Caminha -
entre a História e outras Linguagens"com exposição da professora Tica Simões e do professor Marcelo
Dias. A mediação desse dia será realizada por Igor Luiz.
No terceiro dia, 24/04 , o debate vai girar em torno
"Da Carta de Caminha às Redes Sociais" , com exposição do professor
Ruy Póvoas e a mediação de Silmara Oliveira. Por fim, no dia 25/04 , o tema
será "O direito à terra e as questões ambientais", cuja
abordagem será feita por Kâhu Pataxó e a mediação Efson Lima.
A importância do estudo sobre a Carta de Caminha pode ser
constatado pelas reflexões do professor de literatura Ramayana Vargens, cujo
documento “deixou marcas profundas na formação do povo brasileiro” analisa
omembro da Academia de Letras de Ilhéus
e um dos membros do Coletivo FLISBA.
O CURSO LIVRE: Linhas e Entrelinhas na Carta de Caminha” é uma
homenagem especial ao Professor Henrique Campos Simões, presidente
da comissão especial da Uesc encarregada das comemorações dos 500 anos do
Descobrimento. O professor Henrique Simões foi estudioso sobre a Carta de Caminha
e do início da colonização portuguesa no Brasil.
O Coletivo Flisba é responsável por organizar o Festival
Literário Sul-Bahia e tem promovido diversos cursos, palestras e lives de cunho
literário no sul do estado por meio das redes sociais, assim como tem feito
reflexões sobre o patrimônio cultural e fomentado o acesso à leitura.
A prática religiosa decaiu nesse período de pandemia.
Na França, entre 15 e 30% dos que ainda assistiam à missa abandonaram essa
prática.
Em 1978, 81% dos franceses se diziam católicos; agora são
apenas 53%, mas somente 1,8% cumprem o preceito dominical. Lourdes, o santuário
das curas milagrosas, está quase deserta.
No Brasil, 3.371.127 romeiros foram a Aparecida em 2020, 72%
menos que em 2019, quando foram 11.963.635. À festa da Padroeira do Brasil
compareceram 30 mil, enquanto em 2019 foram mais de 160 mil.
As procissões de Semana Santa de Sevilha foram vetadas pela
arquidiocese com argumentos sanitários. Em vez de reparar a Paixão de Nosso
Senhor, haverá uma demonstração massiva de insensibilidade.
A Academia de Letras de Itabuna, carinhosamente chamada
ALITA, foi instalada em 19 de abril de 2011, data em que se comemora o Dia do
Índio, esse primeiro habitante do Brasil, que com a sua gente indefesa foi
usurpado e massacrado pelo colonizador europeu, e que até hoje caminha nos rastros
da desgraça. Essa instituição está cumprindo hoje dez anos de atividades na
área das letras e do saber. Tudo aconteceu quando, depois de exaustivas
reuniões, na sede da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania, da qual eu era
o presidente, ela foi criada numa manhã de alegria, tendo como patrono o
escritor Adonias Filho.
A ideia de sua
criação veio em razão da dissidência que tive na primeira reunião para a
instalação da Academia Grapiúna de Letras, pois não me sentia bem com as
perspectivas na constituição do quadro de associados daquela primeira
instituição. Logo depois os juízes de direito Marcos Bandeira e Antônio
Laranjeiras afastaram-se também da Academia Grapiúna de Letras, e, com o
promotor Carlos Eduardo Passos, voltaram a insistir comigo para que fosse
criada outra academia de letras em Itabuna.
Resisti a
princípio quanto à minha participação na segunda academia, depois resolvi
aderir à ideia por amor a Itabuna e devoção à literatura. Cedi a sala de
diretoria da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania para as reuniões
preliminares. Em nossos primeiros encontros discutimos a respeito do quadro de
patronos e de membros efetivos, sobre a elaboração do estatuto e do regimento.
As confreiras Sônia Maron e Sione Porto tiveram papel importante na confecção
desses documentos.Indiquei a maioria
dos nomes para compor o quadro de patronos e de membros.
A Academia de Letras de Itabuna vem se mantendo com
dificuldades, ao longo desses dez anos. Sem recurso financeiro para
responder aos seus propósitos, Deus sabe como teima em existir com base na
determinação e sonho de alguns abnegados. Destacam-se, nessa fase de sua
infância, entre as suas atividades principais, os eventos seguintes:
Solenidade
de instalação no salão nobre da FTC, com o presidente da Academia de Letras da
Bahia, o escritor Aramis Ribeiro Costa, dando posse aos novos acadêmicosJanete Ruiz, Antônio Laranjeiras, Carlos
Eduardo Passos, Cyro de Mattos, Rui Póvoas, Carlos Valder, Ari Quadros, Ceres
Marylise, Sione Porto, Sônia Carvalho Maron de Almeida, Maria Palma de Andrade,
Maria de Lourdes Neto Simões, Marcos Bandeira e Baísa Nora; a criação do site
comdestaque para as atuações de Ceres
Marylise no início e ano depoisRaquel
Rocha;programação especial do
Centenário Jorge Amado; Mês da Consciência Negra, com o tema Códigos da Pele,
no terreiro de candomblé do professor e babalorixáRui Póvoas; comemoração do Dia do Índio;
posse dos acadêmicosHélio Pólvora,
Edivaldo Brito, Celina Santos, Raquel Rocha, Jorge Batista, Ritinha
Dantas, Raimunda Assis, João Otávio, Silmara Oliveira, Delile Moreira,Cristiano Lobo, Aleilton Fonseca e Renato
Prata; criação da logomarca“Litteris
Amplecti”, Letras em Abraço; lançamento dos livros Atalhos e Descaminhos, de Ceres Marylise, Corpo
e Alma, de Sione Porto,Sendas e Trilhas,
de Delile Moreira, Entre Margens, de Margarida Fahel, O Canto Contido, de
Valdelice Soares Pinheiro, Histórias Dispersas de Adonias Filho, Os Ventos Gemedores, romance, e O Velho
Campo da Desportiva, os doisúltimos
livros de nossa autoria; o Natal da Alita no espaço cultural do Montepio dos
Artistas; Projeto Roda de Leitura, de autoria de Raquel Rocha, comcontação de histórias pelos alitanos nas
escolas; participação na comemoração do Centenário de AdoniasFilho em Itajuípe; e o lançamento de três
números da revista Guriatã, da qual fui idealizador e sou o editor atual.
Nesses dez
anos de ousadia e sonho, ressalte-se na presidência da Academia a atuação dos
juízes de direito Marcos Bandeira e Sonia Carvalho e, atualmente, da professora
Silmara Oliveira, que vem recorrendo à realização de “lives” para a discussão
de assuntos internos e temas importantes, como o do legado de nosso patrono
Adonias Filho e o da situação do menor na sociedade de hoje.
Nesse
percurso de dedicação e sacrifício, não se pode deixar de agradecer à Faculdade
de Tecnologia e Ciência, na pessoa de seu diretor geral Cristiano Lobo, nosso
confrade, pelos serviços que nos vem prestando em parceria generosa.
Apesar dos
tempos difíceis, agravados com a traição da noite exercida sem piedade pelo
coronavírus, e até mesmo como resistência em nossa cidadela do saber para ser,
exorto nesse instante a caminhada árdua dessa instituição, dizendo contente,
avante, ó Academia de Letras de Itabuna, com o seu espírito de corpo
constituído de valores indiscutíveis e formas de conhecimento da vidadesde o seu amanhecer, andamento para o bem
das letras e grandeza da cultura local, da Bahia e do Brasil. Concluo minha
breve exposição, talvez com formato de crônica, lembrando os versos de Fernando
Pessoa, o genial poeta português:
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.
........................
Cyro de Mattosé jornalista, cronista, contista,
romancista, poeta e autor de livros para crianças. Publicado em Portugal,
Itália, França, Espanha, Alemanha, Rússia, Dinamarca, México e Estados Unidos.
Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da Academia de
Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna.
Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.
É corrente que aqueles que se dedicam especialmente às
ciências e às coisas técnicas, são pouco propensos para seguirem à risca seus
deveres religiosos. Pois, em grande número de casos, tratando somente com
coisas práticas e concretas, acabam amortecendo o senso religioso e se tornando
materialistas ou agnósticos. Isso, que infelizmente é muito frequente, não foi
o que ocorreu com quatro astronautas americanos dedicados ao que há de mais
moderno na ciência e na técnica, que é a carreira espacial. Pois, não só
conservaram e afervoraram sua fé em suas aventuras pelo espaço, mas tiveram a
grande graça de nele receber a Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia.
A folha de serviço do mais antigo deles, Thomas Jones [foto],
nascido em janeiro de 1955 em Baltimore, por exemplo, é considerável. Ele
participou de quatro missões espaciais, e quando deixou a NASA em 2001,
trabalhou depois como cientista planetário e consultor em operações espaciais,
cientista pesquisador sênior no Instituto de Cognição Humana e de Máquina da
Flórida, envolvido no planejamento de expedições de robôs e astronautas ao
espaço profundo e asteróides próximos à Terra, palestrante e escritor de quatro
obras. De 2006 a 2009, ele serviu no Conselho Consultivo da NASA, e foi membro
do conselho da Astronauts Memorial Foundation. Por tudo isso,
mereceu ser colocado no Astronaut Hall of Fame dos Estados
Unidos em 21 de abril de 2018. Portanto, é um cientista de muito renome.
Jones, detentor de quatro prêmios concedidos pela NASA e
pela Força Aérea dos Estados Unidos, seu livro autobiográfico Sky
Walking: An Astronaut’s Memoir (Caminhando pelo céu: Memória de um
astronauta), de 2006, foi escolhido pelo Wall Street Journal como
um dos cinco principais relatos dedicados ao assunto do espaço. Católico
convicto, Jones narra sua experiência espiritual, no livro acima citado, de
receber a Sagrada Comunhão no espaço.
Isso se deu em sua primeira participação em uma missão
espacial como membro da tripulação da nau espacial Endeavour no
programa STS-59, entre 9 e 20 de abril de 1994. O objetivo da missão era o
de colocar em funcionamento, no espaço, um radar para estudo do ecossistema
terrestre, além de coletar dados sobre a quantidade e distribuição de monóxido
de carbono nos níveis mais altos da atmosfera terrestre e fazer, por radar,
observações oceanográficas, geológicas, hidrológicas e estudo e observação de
placas tectônicas ao redor do planeta.
O astronauta considerou o participar dessa grande aventura
um privilégio pois, além de adquirir experiência e de o familiarizar com a vida
no espaço, sobretudo ia lhe proporcionar a possibilidade de ver a Deus em suas
obras no imenso firmamento.
Suas expectativas, entretanto, ultrapassaram toda
expectativa. Pois ocorreu que, como três dos seis tripulantes da nave espacial
eram católicos — ele, o comandante, Gutiérrez, e o piloto Kevin Chilton, que
era ministro extraordinário da Eucaristia —, eles puderam receber a Sagrada
Comunhão em pleno vôo da nave espacial. Pois Kevin tinha recebido do seu
vigário licença para levar consigo em sua missão algumas hóstias consagradas.
Isso ocorreu da seguinte maneira: no domingo, duas semanas
depois da Páscoa, quando estavam já no espaço, os três astronautas se reuniram
na cabine de vôo para comungar. Nesse momento, diz Jones, “os três
agradecemos a Deus pelas vistas de Seu universo, pela boa companhia, e pelo
êxito que tínhamos tido até então. Kevin então repartiu o Corpo de Cristo com
Sidney e comigo, e permanecemos na cabine de vôo refletindo no silêncio, esse
momento de paz e de verdadeira comunhão com Cristo”. Quando acabaram de
comungar, conforme narra Jones, ocorreu que, “enquanto meditávamos
tranquilamente na escura cabine, uma deslumbrante luz branca irrompeu pelo
espaço, e nela penetrou. A luz radiante do sol que se avistou através das
janelas dianteiras da nau espacial e nos deu calor, que outro sinal [da
presença de Deus] podíamos pedir senão esse? Foi a afirmação gentil de Deus de
nossa união com Ele”. Comovido até às lágrimas, o astronauta se afastou de
seus companheiros, e contemplou então através das janelas da nave o amanhecer
e, debaixo, o Oceano Pacífico, cuja superfície azul resplandecia com a luz do
sol. Acrescenta ele que “com esta formosa luz entrando na nave, e o
formoso oceano azul em baixo, estive a ponto de chorar”. E então se lembrou
das palavras do evangelho de São Mateus (18, 20): “Onde dois ou três
estão congregados em meu nome, ali estou Eu no meio deles”.
O astronauta comenta que, “cada vez que tens algum
tempo livre [na nave espacial], e olhas pela janela, há um tremendo sentimento
de gratidão [para com Deus] por olhar abaixo com esta perspectiva única de teu
mundo. Tu te sentes muito especial e muito humilde ao mesmo tempo. É muito
comovedor e inspirador”.
Comentando 10 anos depois essa aventura, afirma Jones: “Estamos
destinados a nos assombrar no espaço. Se nossa espécie imperfeita encontrou
tais cintilações de deleite em nosso primeiro encontro com o cosmos, então
verdadeiramente encontramos a um Deus muito carinhoso e generoso”. Ele diz
que “era consciente de que cada dia no espaço era um regalo especial
[de Deus], e sabia que me havia sido concedido esse regalo único. Cada noite,
antes de dormir, agradecia a Deus por essas maravilhosas vistas da Terra, e
pelo êxito de nossa missão. Continuamente pedia pela segurança de nossa
tripulação, e para que tivéssemos um feliz encontro com nossas famílias”. Ele
era casado com Liz Jones, e tinha duas filhas.
Tom Jones confessa que, ao contrário do que se poderia
pensar, no espaço sempre lhe foi mais fácil rezar. Ele levava consigo textos
das leituras das Missas dos domingos e outras passagens da Sagrada Escritura,
anotados em um caderno que tinha para utilizar em suas missões. Sobretudo,
afirma ele, o Rosário sempre fez parte de suaequipagem pessoal.
Depois dessa inesquecível viagem espacial, Thomas Jones
participou de mais três missões, e realizou três passeios espaciais durante a
construção da Estação Espacial Internacional. No total, ele passou 53 dias no
espaço o que, segundo afirma, o ajudou a acrescentar ainda mais a fé católica
que já professava quando voou ao espaço pela última vez em 2001.
Atualmente Jones é paroquiano na igreja de São João Newmann,
em Reston, na Virginia, onde exerce a função de leitor.
Outro astronauta que teve a graça de comungar no espaço foi
Michael Hopkins [foto]. Nascido em dezembro de 1968, ele é coronel da
Força Espacial dos Estados Unidos e astronauta da Nasa.
Casado com Júlia Stutz e pai de dois filhos, antigo membro
da Igreja Metodista, ele se converteu e foi recebido na Igreja Católica em
2013, unindo-se assim na mesma fé à sua esposa e aos filhos.
Hopkins participou de várias missões da NASA, sendo o
primeiro membro de sua aula a voar no espaço, e o primeiro astronauta a se
transferir para a Força Espacial dos Estados Unidos, participando de uma
cerimônia de transferência na Estação Espacial Internacional.
Em setembro do ano de 2013, o astronauta americano foi
designado para participar, com seus congêneres soviéticos, da missão Soyuz
TMA-10M. Essa nave espacial permaneceu seis meses no espaço, acoplada à
Estação Espacial Internacional para servir como veículo de escape em caso de
emergência.
Para se ter uma ideia da profundidade da conversão à
verdadeira Igreja deste ex-metodista, que ocorrera nesse mesmo ano de 2013,
considere-se que, para não ficar durante esse longo período sem receber a
Sagrada Comunhão, Hopkins obteve do arcebispo de Galveston-Houston, por
intermédio de seu pároco, o Pe. James H. Kuczynsky, que fosse nomeado ministro
extraordinário da Eucaristia, e licença para levar consigo ao espaço uma teca
com seis hóstias consagradas, número suficiente para que ele pudesse comungar
aos domingos, durante as 24 semanas que ficaria no espaço. Afirma ele que
isso “foi extremamente importante para mim”.
Desse modo, chegando o domingo, ele se recolhia na Estação
Espacial, e preparava-se para a Comunhão com algumas leituras e orações. Depois
comungava. Nos dias da semana em que não comungava, Hopkins sempre fazia alguns
momentos de adoração do Santíssimo Sacramento.
Esse astronauta genuinamente católico, também procurava ver
a Deus no espaço. Para ele, “quando você vê a Terra desde esse ponto de
vista [de uma obra de Deus], e a beleza natural que existe, é difícil não
sentar-se aí, e dar-se conta de que tem que haver uma força superior
que fez tudo isso”. Isto é, um Deus criador do Céu e da Terra, e
de tudo quanto existe[i].
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo, + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, os dois discípulos contaram o
que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o
pão. Ainda estavam falando, quando
o próprio Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: “A paz esteja convosco!”
Eles ficaram assustados e cheios de medo, pensando que
estavam vendo um fantasma. Mas Jesus disse: “Por que
estais preocupados, e por que tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim
e vede! Um fantasma não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho”.
E, dizendo isso, Jesus mostrou-lhes as mãos e os pés.
Mas eles ainda não podiam acreditar, porque estavam muito
alegres e surpresos. Então Jesus disse: “Tendes aqui alguma coisa para comer?” Deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles.
Depois disse-lhes: “São estas as coisas que vos falei
quando ainda estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que está
escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”.
Então Jesus abriu a inteligência dos discípulos para
entenderem as Escrituras, e lhes disse: “Assim está
escrito: ‘O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão
dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém’. Vós sereis testemunhas de tudo isso”.
“Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!” (Lc
24,35-48)
Há uma arte milenar que consiste em recompor cerâmicas
quebradas; quando uma peça se rompe, os mestres desta arte concertam-na com
ouro, deixando a cicatriz da reconstrução completamente à vista e sem nenhuma
dissimulação, pois para eles uma peça reconstruída é um símbolo perfeito que
alia fortaleza, fragilidade e beleza.
Os primeiros cristãos decidiram também conservar e
transmitir os relatos das aparições do Ressuscitado sem ocultar as muitas
rupturas, feridas e marcas que o acompanharam durante sua vida, sobretudo
aquelas que lhe foram infligidas durante sua paixão e morte. Poderiam ter
adocicado, suavizado ou omitido diretamente os aspectos mais polêmicos de seus
ensinamentos ou os elementos mais humilhantes de seu dramático final. Pelo
contrário, deixaram as cicatrizes de suas feridas completamente à vista e sem
nenhuma dissimulação. Mas, fizeram isso não só para serem fiéis à história,
mas, sobretudo, para mostrar a fortaleza, a fragilidade e a beleza da
reconstrução realizada por Deus na ressurreição. Convinha mostrar o ouro que
preenche as fendas entre os membros feridos de Jesus, as marcas de sua entrega
nas cicatrizes do seu corpo.
O Pai, como experiente artesão, depois de enviar Jesus e de
sustentá-lo ao longo de sua missão, o eleva, o reconstrói e o ressuscita.
Essa é a razão pela qual, para os cristãos, o compromisso
com a restauração do mundo quebrado é um modo de atualizar a experiência da
ressurreição e de viver sua vocação. O(a) seguidor(a) de Jesus escuta o chamado
para unir-se ao labor do Deus-criador que, na ressurreição, recria de novo a
humanidade ferida.
Somente a ação criativa e contínua de Deus é capaz de
costurar novamente os pedaços de nossa história; ao mesmo tempo ela nos faz
descobrir a beleza e a harmonia desses mesmos pedaços. Tal qual o oleiro, o
Senhor nos cria e nos recria continuamente. Nada é desperdiçado. Suas mãos de
artista não jogam fora nenhum pedaço de nossa existência vivida, e sim, compõe
e recompõe continuamente, num desenho novo, o que nos foi dado viver. A
experiência de nossa própria fragilidade pode converter-se em
experiência de Deus, do Deus rico em misericórdia, e até o passado mais
fragmentado está aí para dizer que Ele desenhou nosso ser na palma de suas mãos
(cf. Is. 49, 14-26).
Assim, o passado em pedaços adquire um significado
totalmente diferente, e cada acontecimento se torna fragmento de um plano
amoroso, escrito no coração do Criador. O ato divino de costurar os pedaços de
nossa história não significa somente juntar os cacos, como se no passado
existissem somente derrotas e fracassos a serem anotados e aceitos. Deus acolhe
e dá um sentido novo a todas as vivências e experiências; só Ele consegue
juntar até as contradições e inconsistências da vida, dando coerência e unidade
ao todo existencial e, com isso, fortalecendo a identidade e originalidade de
cada um.
É um contínuo renascer; é um prolongamento da Criação: “faça-se
a luz”, “façamos o ser humano”.
Repetir o gesto criativo de Deus significa tomar nas mãos
os “fragmentos” daquilo que foi vivido, trazê-los das
profundezas onde sempre estiveram confinados, colocá-los à nossa frente,
tocá-los, revirá-los, contemplá-los, aceitá-los, revivê-los, recriá-los... Com
o ouro de nossa existência, aquecida pelo calor do Espírito de Deus,
podemos transformar nossas feridas, fracassos, crises, rupturas... em material
de uma nova experiência de vida. Não se trata de sufocar a vida, mas de
torná-la leve e luminosa, mantendo límpida a sua fonte, livrando-a da camada de
sentimentos negativos.
A experiência de encontro com o Ressuscitado nos dá força e
tranquilidade para empreender um mergulho dentro de nós mesmos. Ela vai
reordenando fatos, completando os vazios, corrigindo distorções, revivendo situações paralisadas,
conferindo sentimentos...
Ao nos situar na luz da ressurreição ampliamos o horizonte
de leitura de nossa vida; isso possibilita uma recomposição da nossa própria
vida e dá um novo significado aos acontecimentos vividos. As experiências do
passado não podem ser mudadas, mas a nova “releitura” pode mudar a
interpretação dada a elas. Tal experiência reconstrutora é para corajosos,
persistentes, vitais, amantes da verdade...
A experiência de encontro com o Ressuscitado é muito
positiva para o crescimento interior e nos mobiliza para retomar a “escrita” de
nossa história, agora com um olhar compassivo e acolhedor.
Deus colocou sua “assinatura” divina ali, nas
dobras do coração, mas só quem lê o interior descobre isso. Nas páginas
fragmentadas da nossa existência poderemos ler uma história de amor
profundo, uma história imortal O que não foi bem escrito no passado poderá ser
escrito de outra maneira no futuro...
Mas tudo é reconstruído e, com toda certeza, será publicado pela “editora
da vida”.
No evangelho deste 3o domingo da Páscoa, Jesus aparece
repentinamente aos discípulos; a primeira reação é de “medo pela surpresa” e
até “acreditavam ver um fantasma”.
Como se credencia Jesus para justificar sua identidade? De
uma maneira que deveria ser também a nossa. O que melhor define Jesus diante
dos discípulos medrosos é: em primeiro lugar, a “saudação de paz” (“a paz
esteja convosco”).
Em segundo lugar: mostra-lhes suas mãos e
seus pés; mãos e pés com o sinal dos cravos na Cruz. Recorda a eles
que é o mesmo Crucificado, agora Ressuscitado; mostra-lhes as mãos feridas como
marcas do amor que se doa, cura, abençoa, eleva... ; mostra-lhes os pés feridos
pelos caminhos que andou, pelos deslocamentos em direção aos últimos, e que terminaram
cravados na cruz.
A “carteira de identidade” de Jesus não é um cartão nem
papéis, mas suas mãos e pés chagados. É curioso que os grandes sinais que
tornam possível acreditar que Jesus está vivo sejam suas mãos e seus pés. É
curioso que os grandes sinais que nos fazem acreditar na Páscoa sejam as mãos e
os pés feridos e chagados.
Se nossas entranhas se compadecem, se nossas mãos se abrem,
se em nosso desalento levantamos os pés, se voltamos a confiar no outro, se o
nosso olhar se amplia..., então ressuscitamos como Jesus, como a Vida que se
expande, como a semente que se rompe...
Queres conhecer alguém? Olhe suas mãos e seus pés. Queres
conhecer o(a) verdadeiro seguidor(a? Olhe as chagas das mãos e dos pés; mãos e
pés que revelam o amor crucificado; mãos e pés que revelam o amor fiel até o
fim; mãos e pés que revelam uma vida doada para que outros possam viver.
“Mais vale uma chaga em nossas mãos e em nossos pés que
mil explicações sobre o amor”.
Texto bíblico: Lc 24,35-48
Na oração: O Cristo Ressuscitado nos mostra suas
mãos e pés glorificados, com as “marcas” de sua própria história de paixão
e de uma vida entregue em favor do Reino do Pai. Ele pede nossas mãos para que
sejam prolongamento das suas: mãos que abençoam, partilham, elevam, curam...Ele
pede nossos pés para que sejam o prolongamento dos seus: pés peregrinos que
quebram distâncias sociais, pés que rompem as fronteiras da indiferença e da
intolerância, pés que ativam presença solidária...; Ele pede nosso coração
“atravessado” pela lança do amor oblativo para contagiar a grande esperança e
combater o vírus da morte.
- Como ser presença “ressuscitada” no contexto atual onde
imperam o “genocídio” e a “cultura da morte”?
- Seu modo de ser e proceder é portador da paz pascal neste
ambiente social e religioso carregado de tanto ódio?
“Esse momento que a humanidade está vivendo agora pode ser
encarado tanto como um portal quanto como um buraco.
A decisão de cair no buraco ou atravessar o portal cabe a vocês.
Se ficarem apenas lamentando o problema, consumindo as notícias 24 horas por
dia, com a energia baixa, nervosos o tempo todo, com pessimismo, irão cair no
buraco.
Mas se aproveitarem essa oportunidade para olharem para si,
repensarem a vida e a morte, cuidando de si e dos outros, aí estarão
atravessando o portal. Cuidem da casa de vocês, cuidem do corpo de vocês. Se
conectem ao lado espiritual de vocês.
Se conectem à egrégora espiritual de vocês.
Quando você está cuidando de um, está cuidando de todo o resto.
Não percam a dimensão espiritual dessa crise, tenham o olhar da águia, que lá
de cima, vê o todo, enxerga de forma mais ampla.
Existe uma demanda social nessa crise, mas existe também a
demanda espiritual.
As duas andam de mãos dadas. Sem a dimensão social, caímos no
fanatismo.
Mas sem a dimensão espiritual, caímos no pessimismo e na falta
de sentido.
Vocês foram preparados para atravessar essa crise.
Peguem a caixa de ferramenta de vocês e usem todas as
ferramentas que vocês têm ao seu dispor.
Aprendam sobre resistência com os povos indígenas e africanos:
nós sempre fomos e continuamos sendo exterminados.
Mas nem por isso paramos de cantar, dançar, fazer fogueira e
festa.
Não se sintam culpados por estarem alegres durante esse período
difícil.
Vocês não ajudam em nada ficando tristes e sem energia.
Vocês ajudam se emanarem coisas boas para o Universo agora.
É através da alegria que se resiste. Além disso, quando a
tempestade passar, vocês serão muito importantes na reconstrução desse novo
mundo.
Vocês precisam estar bem e fortes. E, para isso, não há outro
jeito senão se manter uma vibração bonita, alegre e luminosa.
Isso não tem nada a ver com alienação.
Isso é estratégia de resistência.
No xamanismo, existe um rito de passagem chamado busca da
visão.
Você fica alguns dias sozinhos na floresta, sem água, sem comida,
sem proteção.
Quando você atravessa esse portal, você adquire uma visão nova
do mundo, por ter enfrentado seus medos, suas dificuldades…
É o que está sendo solicitado a vocês.
Que aproveitem esse tempo para realizarem os seus rituais de
busca da visão.
Que mundo vocês querem construir para vocês?
Por hora, é o que vocês podem fazer: serenidade na tempestade.
Se acalmem e rezem.
Todos os dias. Estabeleçam uma rotina de encontro com o sagrado todos
os dias.
Emanem coisas boas, o que vocês emanam agora é o mais
importante".
E cantem, dancem, resistam através da arte, da alegria, da fé e
do amor.”