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domingo, 11 de abril de 2021

VACINA CONTRA MALDIÇÃO BRASILEIRA – Péricles Capanema



Variante perigosa. O Brasil padece uma espécie de bruxedo (falo abaixo dele) entre vários, e para quem quer bem ao país, é bom conhecê-los. Com efeito, em qualquer âmbito, saber das debilidades constitui prudência indispensável para a ação eficaz. O cardeal Mazzarino (1602-1661), grande político, começa seu livro “Breviário dos Políticos” apontando como primeira providência o discernimento das próprias fraquezas — físicas, mentais, morais. Mapeá-las e então neutralizá-las no possível. “Pergunta-te em que ocasiões tens tendência a perder o controle sobre ti mesmo, a deixar-te levar para desvios de linguagem e de conduta”. Vale para o indivíduo, vale para famílias, vale para nações (para o Brasil, naturalmente).

Curas na raiz. Falava de uma espécie de maldição, sortilégio potente que está na raiz de persistentes desgraças nossas. Vem de longe, aqui está ele: temos o vezo de escolher mal nossos representantes. E depois, povo, imprensa e academia se dedicam ao esporte nacional de malhar o Judas, no caso, os políticos. Na próxima eleição, comporta-se igual o eleitorado, escolhe mal de novo. Ou piora, para lembrar a lamentação desiludida de Ulysses Guimarães: “Se você acha que o atual Congresso é ruim, espere pelo próximo, vai ser pior”. Inescapável, pelo menos boa parte da culpa respinga no representado que passou descuidado a procuração para o representante errado. Vai mudar? Dá para exorcizar seus efeitos? Difícil. Referida situação permanecerá a menos que mude a postura do público, aconteça o saneamento das raízes para então os galhos crescerem saudáveis e a árvore dar bons frutos. Que venha a maturidade, generalize-se uma educação qualificada, sejam cultivados a honestidade e os hábitos de reflexão. Nada disso será possível sem famílias revigoradas por forte senso religioso. A solução vai por aí. Quem descura do aperfeiçoamento das famílias, impulsiona o retrocesso social. O “Estado de S. Paulo” (21-3-21) traz comentário a respeito da mencionada situação. Ouvido pela reportagem, influente deputado federal do PL, partido do Centrão, disse “de São Paulo para baixo, o PL é Bolsonaro, para cima é Lula”. Situações assim, sinais prenunciativos de desgraças futuras, pejadas de descarado oportunismo, ovante primarismo ideológico e deprimente falta de princípios, repetem-se Brasil afora.



Francisco Luís da Silva Campos  (1891-1968)

Critérios de seleção. Trata-se em especial de critérios políticos, mas se refletem em outras áreas. Recordo aqui um político, Francisco Campos (1891-1968), o Chico Ciência, destacada presença no Brasil décadas atrás e cuja figura, por contraste, evidencia o enorme tombo na representação que sofremos ao longo do tempo. Pertencia, é certo, ao Brasil que contava (e quais são os critérios decisivos para contar no Brasil de hoje?). Teria defeitos e virtudes da época, foi homem de posições até hoje combatidas e com bons motivos, mas representou com traços fortes um tipo de personalidade que ascendia à direção do país. Outros homens públicos poderiam igualmente servir de ilustração; aconteceu, contudo, cair sob meus olhos discurso do prócer mineiro.

Gente com cabedal relevante e autêntico era chamada ao governo, sufragada, eleita. Oswaldo Aranha foi ainda exemplo entre muitos. É um primeiro critério, nascido de bom senso milenar, sobre o qual se pode construir solidamente. É, em suma, a atração para a vida pública dos mais capazes nos espaços da inteligência, elite autêntica com amplas condições de trabalhar pelo bem comum e assim promover a inclusão social com viés de alta — ascensão judiciosa, enérgica e ampla. Foi outrora amplamente o caso no Brasil. Quando, pelo contrário, pululam nos postos de mando figuras sem nenhuma qualidade para relevo real, hoje tantas vezes nosso caso, não há governo que preste e possa dar certo. Inexiste até mesmo a possibilidade da consciência objetiva dos problemas mais importantes e urgentes. “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”, escreveu Nelson Rodrigues.

Exemplo entre muitos. Professor de Direito Constitucional, Chico Campos foi deputado estadual, deputado federal, secretário, ministro. Logo depois da Revolução de 1930, no governo provisório, ocupou a pasta da Educação entre 1930 e 1932 — o primeiro ministro da Educação do Brasil. Nesta condição, recebeu convite para paraninfar turma da Faculdade de Ciências Econômicas em Salvador. Falou longamente sobre administração e economia, era o prato de resistência, mas antes apresentou, e era simples discurso de paraninfo, rápida visão de conjunto sobre características da Bahia e sua inserção no Brasil. Aqui temos perfume civilizador que se dispersou, fruto de ambiente que continha princípios ativos de aperfeiçoamento. Sumiu por inteiro dos rarefeitos ares oficiais e de outros ares a cortesia superior, constatada a seguir, esteada na observação luminosa do real — impulso de progresso benéfico. Vinha de Minas o ministro e encontrava na Bahia “a mesma simplicidade, o mesmo acolhimento, a mesma doçura, amenidade e gentileza de maneiras”. Percebia, contudo, uma nota diferente: “a graça e o sabor”. Os frutos “são na Bahia mais doces, mais saborosos e mais belos”.

Prossegue: “Aqui raiou a madrugada do Brasil. No berço da Bahia embalou-se a sua infância”. Amplia: “Os brasileiros revemos na Bahia o Brasil, os seus traços característicos e significativos, aqueles que as mãos e o espírito baianos imprimiram no Brasil, os traços que nos definem como nação, as linhas da inteligência e do caráter”. Caminha para o fim da abertura: “Nessa terra de bênçãos e de paz”, de “gênio pacífico”, ele via “as tradicionais virtudes de sobriedade, de reflexão e de firmeza”, “ancoradas nesse misterioso e insondável subsolo da alma baiana”. E a conclui: “Aqui, nessa luminosa Bahia, é onde se sente, em toda a amplitude de sua onda, a vibração da alma brasileira, no ritmo da língua, no compasso da música, na expressão dos sentimentos cívicos, de maneira a se poder dizer que a Bahia é o padrão do Brasil”. Realçou: “Nela se encontram, nas suas formas típicas, as categorias espirituais, por cujo intermédio se exprimem e se traduzem inteligência e coração do Brasil”.

Algum dos leitores leu ou ouviu algum dia texto ou discurso de político atual que se aproxime dessa introdução de Francisco Campos em simples discurso de paraninfo? Falava em perfume civilizatório; é mais, é impulso civilizatório; vidas de pensamento com tônus desse naipe não só aperfeiçoam personalidades; levam, em ondas cada vez mais extensas, ao aproveitamento das qualidades e oportunidades jacentes na população. Sua perda, evaporação trágica, dentro do desapreço amazônico, representou no Brasil retrocesso intelectual e baixa na educação social.

Desorientação. “Quos Jupiter vult perdere dementat prius” — Júpiter enlouquece primeiro os que deseja perder. Um país que tem dirigentes com o gosto do escangalho, arrogantemente toscos, useiros e vezeiros de expressões chulas, mesmos nos mais solenes ambientes, está virtualmente enlouquecido por Júpiter, pisa estrada que desemboca em abismo.

Estrada abandonada. Coetâneo de Francisco Campos na vida pública foi Gilberto Amado (1887-1969), também escol da inteligência nacional. Ele coloca como condição fundamental da democracia representativa, a escolha dos melhores. Só assim o governo pode agir com energia na prossecução do bem comum. Leciona o político sergipano: “É um axioma de ciência política, verdadeiro em todos os regimes — no regime democrático como nos demais — que a sociedade deve ser dirigida pelos mais avisados (sages), pelos mais inteligentes, pelos mais capazes, pelos melhores, em uma palavra pela elite”. Estuda então os meios para que tal elite “possa aceder à direção da sociedade”. Não é o caso de deles tratar aqui, iria muito longe.

O deslumbramento beócio por concepções falseadas de democracia, contrafações tóxicas do conceito, na prática cadinho contínuo para toda sorte de contubérnios demolidores, nos fez retroagir. Um avanço, começo, seria noções mais claras do problema: conceitos e realidades na vida social. Já estivemos a respeito em situação bem melhor, nos anos do Império e em épocas do período republicano. Em rápidas pinceladas um exemplo vai acima. Foi minha intenção, no presente texto, pôr um grãozinho em tal esforço.

 

https://www.abim.inf.br/vacina-contra-maldicao-brasileira/

 

sábado, 10 de abril de 2021

ACADEMIA GRAPIÚNA DE LETRAS (AGRAL) COMEMORA ANIVERSÁRIO DE 10 ANOS


 Academia Grapiúna de Letras (AGRAL) 

comemora aniversário de 10 anos

 

                Como comemoração de 10 anos de fundação da Academia Grapiúna de Letras (AGRAL), a recém empossada diretoria, eleita em 25/3, promoveu no último domingo, dia 4/4 – data de sua instituição – das 10 às 11 horas, na plataforma Google Meet, em função da inviabilidade presencial, por causa das medidas restritivas acerca de distanciamento social, face à Pandemia Coronavírus (Covid – 19), reunião virtual.

               A reunião extraordinária, comemorativa aos 10 anos da fundação da AGRAL, primeira academia dessa natureza na cidade de Itabuna, foi conduzida pelo presidente Samuel Leandro Oliveira de Mattos, que agradeceu a presença dos confrades e convidados, declarando que o motivo da reunião é fruto do ideal, da dedicação, do esforço dos pioneiros, que conceberam a ideia de uma academia de letras, em 2011, para cultivar a língua, a cultura, as artes, a literatura e seus literatos, que são muitos.

               O presidente da AGRAL, disse ainda: “Esta região sulbaiana é uma das únicas do país que tem uma literatura própria. Disse que traços artístico-literários que temos aqui, fruto da Civilização do Cacau, fruto da Cultura Cacaueira, nos fizeram únicos. E que, por sua vez, Sosígenes Costa, Adonias Filho, Euclides Neto, Jorge Amado, dentre outros, trataram de divulgá-lo mundo afora”.

               Na oportunidade, Samuel Leandro fez uma homenagem aos confrades-fundadores: Ivann Krebs Montenegro, Cadeira 10, o primeiro presidente da “Casa das Letras Sulbaiana”, o acadêmico Vercil Rodrigues, Cadeira 1; Washington Cerqueira, Cadeira 3; Antônio Costa (in memoriam), Cadeira 8; Jorge Carrilho, Cadeira 7; José Carlos Oliveira, Cadeira 4 e Ramiro Aquino, Cadeira 9, presidente de 2019/2021. E ainda, agradeceu aos membros da AGRAL pela confiança nele depositada, para que leve à frente o ideal, o sonho e o trabalho dos que o antecederam, e logo em seguida apresentou os acadêmicos/acadêmicas que formam a sua equipe de trabalho para o biênio 2021/2023.

               E mais, apresentou propostas de estreitar os laços com a Universidade Estadual de Santa Cruz, junto ao Curso de Especialização em Gestão Cultural, o Núcleo de Artes da UESC, ao Núcleo de Estudos Afrobaianos (Kàwé), ao Museu Vitrine das Artes Visuais e ao PROLER, bem como de estreitar laços com a Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC), academias de letras coirmãs, além de interagir diretamente com a educação básica do município de Itabuna, no intuito de promover, com apoio da iniciativa privada local concurso literário.

               Em continuidade a emocionante e fraterna reunião, deu-se o lançamento do livro intitulado “Poemas não Dormem” da confreira Zélia Possidônio e declamação de poesias pelo confrade Jailton Alves e pela convidada Wynnie Possidônio.

               Na segunda-feira, 5/4, às 18 horas na Catedral São José, centro de Itabuna, como parte da comemoração dos 10 anos, aconteceu com as presenças de acadêmicos e convidados, uma missa de agradecimentos pelo aniversário de fundação e vida da AGRAL.


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quinta-feira, 8 de abril de 2021

Lançamento do livro Canto até hoje de Cyro de Mattos

Cinebiografia do escritor Cyro de Mattos.

A COMUNICAÇÃO NO ATENDIMENTO PSICOLÓGICO - Antônio Baracho


Neste início de século podemos contabilizar a existência de 200 teorias diferentes fundamentando diferentes psicoterapias. Sabemos, provavelmente que psicoterapia é o nome que se dá a qualquer abordagem terapêutica.

E é a Sigmund Freud, que devemos creditar a pioneira teorização da psicoterapia. Sem dúvida, foi a partir dessa prática definida que as psicoterapias puderam proliferar até este número de 200, calculado pelo meticuloso Wilby.

O principal método psíquico das psicoterapias utiliza uma habilidade fundamental do ser humano, a linguagem, e consistiria em ouvir, com interesse e atenção, o que alguém passa, ao longo da vida nos períodos de transição ou situações críticas, provocando mudanças existenciais bastante extensas.

A utilização das formas terapêuticas de comunicação depende, fundamentalmente, de desenvolvimento da sensibilidade para enxergar não só a nossa maneira de ver, mas também para captar a visão subjetiva de outra pessoa, a fim de que nós possamos sintonizar verdadeiramente com ela. Trata-se, em suma, de aprender a ver e entender os outros.

As formas de comunicação fazem parte da linguagem que o psicólogo utiliza em seu trabalho para ajudar as pessoas a se sentirem mais compreendidas com o seu trabalho e com mais possibilidade de explorar suas vivências, sentimentos e emoções.

É importante ressaltar que estes recursos de comunicação não são fórmulas mágicas que resolvam todos os problemas e impasses, mas tentativas de abordar as situações que surjam a partir de uma nova perspectiva e de modo mais construtivo.

A reflexão de sentimentos é a forma básica de comunicação terapêutica, da qual dependem todas as outras que serão utilizadas. É uma excelente maneira de entrar em sintonia com o mundo interior de outra pessoa, e, dessa forma, impor aceitação e compreensão melhor.

O ajustamento é condição de afetividade na comunicação humana. Assim como o transmissor de rádio mal ajustado não é capaz de transmitir sons bem modulados, o receptor humano desajustado prejudica, ou mesmo impossibilita a comunicação humana.

 


ANTONIO BARACHO – Poeta, psicólogo.

Membro da Academia Grapiúna de Letras- AGRAL, ocupante da cadeira nº 11.

E-mail: antoniobaracho@hotmail.com

Tel. (73) 99102-7937 / 98801-1224

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quarta-feira, 7 de abril de 2021

'CANTO ATÉ HOJE', SESSENTA ANOS DE VIDA LITERÁRIA DO BRASILEIRO CYRO DE MATTOS



'Canto até Hoje', Sessenta anos de Vida Literária do Brasileiro Cyro de Mattos

Por Alfredo Pérez Alencart

Escritor brasileiro Cyro de Mattos lendo no Teatro Liceo em Salamanca (foto de José Amador Martín)

Neste dia 8 de abril, a Fundação Casa de Jorge Amado sediará, em suas redes virtuais, o lançamento da obra poética completa do meu bom amigo Cyro de Mattos, que aos 82 anos publicou 56 livros no Brasil e 14 na Espanha, Alemanha, França, Portugal, Rússia, Estados Unidos, México, Dinamarca, Suíça ou Itália. Eu mesmo traduzi uma antologia poética dele, intitulada "Onde estou e estou", que apresentamos no Encontro de Poetas Ibero-americanos de 2013. Anos depois, em 2017, uma edição espanhola foi feita sob o selo Editorial Verbum.

Valioso é a obra poética e narrativa de Cyro de Mattos (Itabuna, Bahia, 1939), poeta, narrador, jornalista, advogado e membro da Academia de Letras da Bahia, que obteve diversos prêmios, como o Prêmio Nacional Ribeiro Couto, o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Centenário Emílio Mora, o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo D'oro (Gênova) ou o Prêmio Jorge Portugal das Artes, que facilitou a publicação da obra. Entre seus livros de poesia mais marcantes estão Vinte Poemas do Rio, Cancioneiro do Cacau, Ecológico, Vinte e Um Poemas de Amor, Devoto do Campo e Oratório de Natal, entre outros.

Capa da obra poética completa de Cyro de Mattos. O retrato da contracapa é do pintor Miguel Elías

Agora estão todos reunidos, os publicados no Brasil e em outros países, no "Canto até hoje", um volume de 800 páginas sob o selo da Fundação Casa Jorge Amado e o apoio do Estado da Bahia por meio da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia). O volume, que será distribuído gratuitamente para bibliotecas públicas através da Fundação Pedro Calmon, também estará disponível para download gratuito em sua versão digital. Ao final do encontro de sua obra poética estão artigos e notas de escritores e críticos como Jorge Amado, Eduardo Portela, Nelly Novaes Coelho, Assis Brasil, Muniz Sodré, Heloísa Prazeres, Helena Parente, Graca Capinha, Maria Irene Ramalho, Juan Angel Torres Rechy e este, o que também assina a tradução completa de sua antologia poética 'Donde Estoy y Soy'.

Aqui eu recupero o pórtico que escrevi para aquela antologia sua, por mim traduzido.



 

POESIA E VIDA: CYRO DE MATTOS

A poesia, quando realmente é poesia, tem pouco a ver com literatura. Essa senhora esquiva está ligada à Vida : Poesia e Vida, como respirar e caminhar, como a profundidade milagrosa do Amor : poder salvador para alguns, aliviador para outros, Poesia remove o antifácio com a mão do mundo que é visto (e não visto) : e a vida aparece com sua culinária do futuro, verdadeira, mas especialmente com seu alfabeto do passado , com sua amostra do memorável na história do homem : é relâmpago e cicatriz, vida sem embaçamento...

2.

Eis que Cyro de Mattos nos mostra seu rastro de Vida, suas viagens íntimas : Cyro, o de Itabuna, nos permite viajar com ele; Ele nos oferece a chave para acessar os compartimentos mais seletos de versos dobrados à sua carne : Ele sempre carrega dentro da paisagem de sua pátria e sempre extrai, do fundo de sua inocência, algumas palavras que sustentam seus momentos de muitas décadas: "Naquele pequeno rio / todas as certezas do mundo".

Alves de Faria, Alencart, Tamura, Cyro de Mattos e Fragoso no Colégio Fonseca da Universidade de Salamanca (foto de Jacqueline Alencar, 2013)

3.

O telúrico passa por grande parte de sua criação lírica : "Pendure-me do vento e da chuva / a hora lírica do passado, / aquele que com emoção abençoada / à mão preenche as várias rações...", mas também o erótico : "Essa imensa vontade / de tirar seu corpo / com as duas mãos,/ mordê-lo como fruta, / beba-o como vinho..." : Poesia e Vida, forças suplicantes para engravidar o criado novamente, a paisagem que Cyro carrega na memória, as estações que o senhor sob seu céu, o tempo que passa com suas ameaças diárias : "Cada novo amanhecer / As sombras do tempo. / O autor de memórias" : um presente seguro, um carro alegórico para o tempo de vida eterno : Poesia...

4.

A criação está aos pés do Espírito. O ser humano sabe do Apocalipse, das revelações... Alguns fecham os ouvidos, outros cobrem os olhos – mas Cyro de Mattos racha os silêncios para que sangre Esperança e ensine seu Coração : ele se torna uma criança madura que olha através das fendas do mistério e, sem vergonha, testemunha sua fé : "Mas eu acredito naquela manhã / Anunciado em Belém..." : o cristão não diminui, sobe permeando honestidade a cada passo do poeta.

Alencart, Cyro de Mattos e Torres Rechy, do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca (2013, foto de Pablo Rodríguez)

5.

Eis Cyro de Mattos, voando para trás como um beija-flor : mas depois limpa névoas ou gritos pela degradação do planeta : aqui está e é apresentado completamente um poeta brasileiro que merece um aplauso muito caloroso : Poesia e Vida, um longo caminho que agora é coletado para que não haja banimento : e nem se esqueça.

Purificar a emoção, Poesia!

Junho e Tejares (2013)

Alfredo Pérez Alencart

Universidade de Salamanca

Alfredo Pérez Alencart e Cyro de Mattos (foto de Jacqueline Alencar)



‘Canto hasta hoy’, sesenta años de vida literaria del brasileño Cyro de Mattos (salamancartvaldia.es)


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terça-feira, 6 de abril de 2021

CENTURIÕES ROMANOS NO NOVO TESTAMENTO - Plinio Maria Solimeo

6 de abril de 2021


Centuriões representados na Coluna de Trajano em Roma

Plinio Maria Solimeo

Excetuando-se obviamente nosso Divino Salvador, sua Mãe Santíssima, os Apóstolos e as Santas Mulheres, dentre as figuras mais atraentes do Novo Testamento estão alguns centuriões romanos que aparecem nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos. Embora geralmente fossem pagãos, seguindo a Lei Natural que Deus colocou na alma de todos os homens, muitos deles praticavam a caridade e as boas obras, o que os predispunha a receber a verdadeira fé.

O exército do Império Romano dividia-se em várias unidades. Sua grossa maioria, como é compreensível, compunha-se dos simples soldados, ou “legionários”. Logo acima destes vinham os chamados “decanos”, que tinham sob seu comando 10 legionários (ou uma decúria). O “centurião”, por sua vez, era um oficial que comandava 10 decanos (100 homens, ou uma centúria). Acima dele estava o “tribuno”, que tinha a seu cargo quatro ou cinco centuriões, ou seja, de 400 a 500 homens, ou uma “coorte”. Vinha acima o “legado”, que comandava 10 tribunos, ou seja, cerca de cinco mil homens. Esses legados prestavam obediência ao primeiro escalão político, o dos cônsules, na época republicana, e o dos comandantes gerais na época Imperial. Estes, por sua vez, comandavam toda uma Legião.

O posto de centurião equivaleria hoje ao de um capitão de exército na hierarquia militar. Geralmente eram escolhidos entre os da tropa, tendo em vista sua coragem e confiabilidade, após 15 a 20 anos de serviço. Entretanto, alguns poderiam ser nomeados diretamente pelo Senado ou pelo Imperador.

Além de comandar seus homens, cabia ao centurião garantir a ordem local das províncias, e mesmo organizar o recolhimento dos impostos.

Os centuriões citados no Novo Testamento, em geral o são de forma positiva, por seu respeito aos judeus e imparcialidade de julgamento.

O primeiro de que nos ocupamos é um centurião de Cafarnaum, mencionado nos Evangelhos de São Mateus (8, 5-13) e de São Lucas (7, 2-10).

Embora seu nome não tenha passado para a História, por seus traços fornecidos pelos evangelistas vemos tratar-se de um oficial muito coerente, responsável, e de tal maneira aberto para com o povo dominado, que tinha vários amigos entre eles, e construiu mesmo sua sinagoga. Sobretudo era compassivo e acessível para com seus servos e subordinados, como veremos.

Quando um deles, a quem estimava especialmente, ficou muito doente com perigo de vida, esse centurião — que ouvira falar de Nosso Senhor Jesus Cristo e de seus milagres — mandou alguns de seus amigos judeus para procurá-Lo e pedir a cura do servo.

São Mateus e São Lucas narram esse episódio com pequenas diferenças, mas coincidindo no essencial, que foi quando o Divino Salvador, atendendo ao pedido do militar, prontificou-se a ir curar seu servo, que este lhe mandou dizer: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado. Pois eu também sou um subordinado e tenho soldados às minhas ordens. Eu digo a um: Vai, e ele vai; a outro: Vem, e ele vem; e a meu servo: Faze isto, e ele o faz… Ouvindo isto, cheio de admiração, disse Jesus aos presentes: Em verdade vos digo: não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel”. Assim, esse centurião deu provas de uma crença do poder curativo do Messias, que dificilmente encontrava paralelo, mesmo entre os judeus daquele tempo.


O que levou Nosso Senhor a elogiar a atitude desse oficial romano, que apesar de provir do mundo pagão estava tão aberto a segui-Lo, como explica São Lucas: “Ouvindo isto, Jesus maravilhou-se dele e, virando-se para a multidão que O seguia, disse: ‘Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé’”.

Comenta esse episódio o ilustre arcebispo de São Paulo, D. Duarte Leopoldo e Silva, em sua atualíssima Concordância dos Santos Evangelhos:

“Admirável a humildade, a confiança deste soldado, cujas obras de caridade lhe mereceram a graça da fé. A Igreja reteve as suas palavras, e sempre que um fiel se apresenta para receber em seu coração a Jesus sacramentado, Ela o faz repetir o mesmo ato de humildade e confiança: ‘Senhor, não sou digno de entrardes em minha morada; mas dizei uma só palavra, e minha alma ficará sã’”.

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Outro centurião de que fala o Evangelho teve a desdita de ser o responsável pela execução de Cristo Jesus. Pagão, julgando ser o réu que ele tinha que sentenciar apenas mais um dos criminosos comuns confiados à sua guarda, preocupava-se somente em que tudo corresse segundo os procedimentos normais. Por isso supõe-se que, acostumado à crueza sanguinária de seu ofício, aparentemente não teria tido nenhuma emoção diante de tantos e cruéis tormentos infligidos àquele Sentenciado.

Entretanto, algo inesperado ocorreu. Quando Jesus expirava — segundo narram São Mateus (27, 54), São Lucas (23, 47) e São Marcos (15, 39) —, obteve que esse centurião tivesse uma brusca mudança de opinião: Pois “O centurião que estava em frente dele [Jesus], vendo de que maneira Ele expirava, disse: ‘Verdadeiramente este homem era Filho de Deus’”. E abriu assim seu coração para a graça divina. O mesmo diziam os aterrorizados soldados à vista dos portentos ocorridos.

D. Duarte Leopoldo comenta também esse episódio:

“Os prodígios que rodearam a morte de Jesus, atemorizaram os soldados, dispondo-os a reconhecer a intervenção de um poder superior. A paciência, a mansidão do moribundo, a majestade dos últimos momentos, falavam ao coração, e estes homens que, mais do que os judeus, ignoravam o que faziam crucificando o Autor da vida, proclamavam sua divindade. Assim, a primeira reparação do deicídio se faz no mesmo lugar do crime, e dos seus próprios algozes recebe Jesus a primeira homenagem dos homens ao vencedor do Inferno. Digna vingança de um Deus: dar a vida aos que lhe deram a morte”.

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Contudo, o mais emblemático de todos os centuriões citados no Novo Testamento é Cornélio, residente em Cesareia, capital da Judéia, que por suas orações e boas obras mereceu a graça de receber o batismo com todos os de sua casa.

É o evangelista São Lucas quem no-lo apresenta, com todo o charme de suas descrições, no capítulo 10 dos Atos dos Apóstolos.

Pertencente à “coorte Itálica”, Cornélio era um homem “piedoso e temente a Deus com toda sua casa, fazia muitas esmolas ao povo e orava a Deus continuamente”. É curiosa essa afirmação, pois certamente tanto ele quanto os seus eram ainda pagãos, tendo sido batizados por São Pedro só mais tarde. O que mostra que, com as luzes da Lei Natural, também se pode chegar ao conhecimento de Deus.

Narra São Lucas que, num determinado dia, o centurião teve uma visão de um Anjo, que lhe disse: “Cornélio […] tuas orações e esmolas foram lembradas diante de Deus”. Pois chegara assim, para ele, o tempo de conhecer a verdadeira fé. Por isso devia mandar alguns homens de sua confiança à casa de Simão, o curtidor, na cidade de Jope, onde estava outro Simão, chamado Pedro, que deveria instruí-lo na religião de Jesus Cristo.


“Êxtase de São Pedro”. Obra de Domenico Fetti (1619), 
atualmente no Museu de História da Arte em Viena.

Nesse ínterim, em Jope, o futuro chefe da Igreja rezava no alto de um terraço, quando sentiu fome. Enquanto lhe preparavam algo para comer, teve um êxtase [quadro ao lado]: “Ele viu o céu aberto, e de lá descia alguma coisa como um grande pano, sustentado pelas quatro pontas, baixando sobre a terra. Nele havia todo o gênero de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu. Uma voz lhe disse: Levanta-te, Pedro, mata e come”. O Príncipe dos Apóstolos, muito caracteristicamente, respondeu: “De maneira nenhuma, Senhor, pois jamais comi qualquer coisa que fosse manchada. Disse o Senhor: Não chames de impuro o que Deus purificou”. Isso ocorreu três vezes, depois do que o pano foi recolhido ao céu.

O Apóstolo ficou pensando no que isso queria dizer, quando lhe informaram que alguns homens o procuravam. Ele os atendeu, e estes lhe explicaram o motivo da visita. “Pedro convidou-os a entrar, e hospedou-os. No dia seguinte partiu com eles, acompanhado de alguns irmãos de Jope”.

Cornélio, entretanto, sabendo que a entrevista com Pedro deveria ter uma consequência transcendental, convidara para ela todos seus parentes e amigos íntimos. Quando o enviado de Deus chegou, o centurião prosternou-se a seus pés “e adorou-o”. O apóstolo o fez levantar-se, dizendo “Levanta-te, pois eu também sou homem”. Cornélio então lhe contou a visão que tivera, e lhe disse: “Agora, pois, todos nós estamos em presença de Deus, prontos a escutar o que te foi ordenado pelo Senhor”.

À vista de tudo isso, Pedro compreendeu então o sentido mais profundo da visão que tivera: “Agora reconheço deveras que não há em Deus acepção de pessoas, mas que em toda nação aquele que teme a Deus e pratica a justiça lhe é aceito”. E transmitiu a doutrina do Evangelho aos ávidos presentes.

Foi então que algo surpreendente ocorreu: enquanto ele falava, “desceu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a prática, e os fiéis da circuncisão que tinham vindo com Pedro, maravilhavam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse sobre os gentios, porque os ouviam falar em várias línguas e glorificar a Deus”.

O que levou o primeiro Papa a dizer: “Poderá, acaso, alguém negar a água do batismo a estes, que receberam o Espírito Santo como nós?”. E mandou batizá-los. Essas foram as primícias da universalidade da Igreja.

É preciso uma explicação para se compreender a importância transcendental da conversão desse centurião romano. No-la dá o Frei Mateus Hoepers, O.F.M., em sua obra Novo Testamento:

“A história da conversão de Cornélio tem uma importância especial no corpo dos Atos dos Apóstolos. O problema mais grave da Igreja primitiva eram a impureza dos incircuncisos para os judeus, e ainda todas as prescrições de pureza levítica que tornavam impossível a convivência com os pagãos. A instrução, que o supremo chefe da Igreja recebe do céu e do Espírito Santo, foi decisiva para a missão entre os gentios. No Concílio dos apóstolos, Pedro se refere ao episódio de Cornélio (15, 7 e ss) para a solução definitiva da questão. Só removidos estes obstáculos, Paulo podia dedicar-se à sua grande missão. Por isso São Lucas deu um destaque particular a essa história pelo agrupamento literário dos quatro cenários e quatro cenas”.

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         Os Atos falam de vários outros centuriões anônimos que participaram mais ou menos ativamente da prisão e encarceramento do Apóstolo São Paulo. Contudo, nada fizeram de mais notável, razão pela qual deve ser mencionado apenas de passagem o centurião Júlio, responsável pelo transporte de São Paulo a Roma. Embora ele tivesse ignorado os conselhos do Apóstolo, que teriam impedido o trágico naufrágio de sua nave; e depois, para salvá-lo, não permitiu que seus soldados matassem os prisioneiros que estavam a bordo, dando-lhes a oportunidade de nadar para a praia. Com isso o Apóstolo dos Gentios pôde chegar são e salvo a Roma.

https://www.abim.inf.br/centurioes-romanos-no-novo-testamento/

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