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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

“UNION SACRÉE” CONTEMPORÂNEA – Péricles Capanema



Péricles Capanema

 

Desculpem-me o título na língua dos outros — a união sagrada, em português. Justifico-me: a expressividade tem seus direitos, a elocução francesa aqui torna mais viva a realidade que tomou a França durante a 1ª Guerra Mundial em face das potências centrais, em especial da Alemanha. Proclamou-se na ocasião a necessidade imperiosa de uma união sagrada, fundada na trégua interna, que pudesse coligar para a defesa da pátria agredida todas as correntes de relevância no país, até então em choque; republicanos, monarquistas, católicos, ateus, livre-pensadores, socialistas, conservadores, tradicionalistas, progressistas. A França polarizada daria lugar à França unida na defesa da pátria atacada. Quem ficasse de fora da coligação de salvação nacional se sentia mal; rejeitado socialmente, incompreendido mesmo dos seus, poderia até acabar marcado com o labéu de covarde traidor — um pária. Situações desse tipo acontecem, não são raras.

Essa aconteceu assim. Em 3 de agosto de 1914, a Alemanha declarou guerra à França, que penava a derrota humilhante de 1870, com a consequente perda de importantes províncias. Vieram então as gerações “revanchardes”, ansiosas por revanche e vingança. A declaração de guerra abria possibilidade para o acerto de contas; em resumo, parecia, tinha chegado a hora. Esperava-se uma guerra rápida, com triunfo certo; veio uma guerra longa, com sofrimentos sem fim e triunfo pela mão dos Estados Unidos.



Um dia antes, 2 de agosto, em ambiente de tensão altíssima entre os dois países, o estado de sítio já havia sido declarado na França, com convocação do Parlamento para o dia 4. Em 4 de agosto, René Viviani, presidente do Conselho de Ministros, leu no Parlamento mensagem de Raymond Poincaré [foto ao lado], presidente da França: “Na guerra que começa, a França terá a seu lado o direito, do qual os povos, assim como os indivíduos, não podem desconhecer impunemente o eterno poder moral. Ela será heroicamente defendida por todos os seus filhos, nada quebrará sua união sagrada; estão hoje fraternalmente congregados em uma mesma indignação contra o agressor e em uma mesma fé patriótica”.



Nada quebrará sua união sagrada; aqui nasceu para a política francesa a expressão “união sagrada”; durou anos, deixou marcas profundas na vida de cada francês. O ardor da fé patriótica arredondou arestas anteriores, a aproximação soldou diferenças dos franceses de todas as tendências. O mais visível símbolo de tal coligação foi a chefia do exército confiada ao marechal Ferdinand Foch [foto à esquerda], católico conhecido, e a chefia do governo nas mãos de Georges Clemenceau [foto abaixo] , anticlerical, livre-pensador, com raízes na esquerda. Já em 2 de agosto de 1914 o ministro do Interior mandou suspender a execução de decretos que atingiam a Igreja Católica. Em outubro de 1915, Aristide Briand colocou no governo Denys Cochin, católico, encerrando longo período de hostilidade da república em relação à Igreja, iniciado em 1877.



Essa mesma política, intitulada na França de “union sacrée”, com base no patriotismo e na defesa da pátria, foi adotada pela Alemanha (Burgfrieden), Bélgica, Rússia, entre outros. Mas não tiveram a repercussão e a carga simbólica da “union sacrée” francesa.

Com o triunfo da revolução bolchevista (novembro de 1917) e o fim da Guerra, os partidos de esquerda, já em parte reticentes em relação a ela, denunciaram-na por inteiro e o quadro político voltou a ser tenso e conflitivo. Os anos 20 assistiriam ao fortalecimento dos partidos de esquerda, que suscitaram violentas reações, capitaneadas em geral pelo nazismo e fascismo, ou organizações assemelhadas. Tais movimentos atraíram e desviaram enormes contingentes católicos. Sem contar aqui a desorganização e morticínios causados pelos quatro anos de guerra.

Em resumo, ponto que ninguém ou quase ninguém ressalta, porém dever do analista católico salientá-lo, enorme tragédia se abateu sobre grandes possibilidades de evangelização e restauração social: não amadureceram de forma saudável em milhões de jovens os frutos de salvação que, antes da Guerra, prenunciavam colheita de decisiva importância para a Europa e o mundo. Para tal contribuíram a ingenuidade, a superficialidade, a precipitação, bem como a má direção, tanto no âmbito eclesiástico, como no temporal.

Por que em traços gerais lembro universo tão vasto? Por necessidade, pela enorme atualidade potencial. “Historia lux veritatis, vita memoriae, magistra vitae.”

Corta. Passo a relatar fato de hoje, distante mais de século dos anos da “union sacrée´´. O caso do COVID-19 explodiu em Wuhan, na China. Um ano depois, “Época” entrevistou um paulistano que lá vive, Kenviti Shindo, 27 anos, estudante de mestrado. A vida em Wuhan é de quase normalidade: “Aqui está praticamente normal, usamos máscara quando entramos em locais fechados, como bares, restaurantes ou shopping centers. Claro que existe uma preocupação de que o vírus volte, mas tudo já funciona como antes”, observa Shindo. Não há registros de casos novos na província de Hubei, da qual Wuhan é a capital. Em outubro, a província atraiu 52 milhões de turistas entre os dias 1 e 7, Semana Dourada, época festiva. Em contraste lúgubre, o Ocidente ainda se debate com o vírus. O Brasil, nem falar. Não dá inveja? Dá. Quem tem inveja procura imitar.

Corta de novo, terceira matéria em texto reduzido. Em 2018 escrevi um livrinho “Brigo pelos homens atrofiados” sob o pseudônimo de Zeca Patafufo. Um dos personagens do conto, Adamastor Ferrão Bravo, sabido e bom observador, fez advertência que agora ficou candente. Vale a pena ouvir Ferrão Bravo:

“— O cenário brilhante fica no Oriente. Na paradeira de atores estafados, a China e outros poucos países asiáticos disparam para tomar a boca do palco.

— Vai impingir seus intentos?

— Para lá somos arrastados. [Observou Ferrão Bravo]. Não demora, o provável, assistiremos a multidões babando de admiração pelo país que se deu bem e aí bamboleando atrás e remedando. Tem aquele tanto de sortilégio, acho. A França, quando primeira no mundo, foi trend-setter. Os Estados Unidos, passante de cem anos, ditam moda. São povos constituintes. Ainda vai escutar um bucado de mães falando: — Aula de inglês? Não é tanta prioridade, quente agora é o menino igual aprender o mandarim.

— Os Estados Unidos vão continuar na testa, está no DNA deles, seu Adamastor. Lá o pelotão da frente não brinca em serviço.

— É conforme, deix’eutifalá, têm energia para manter a mão na rédea. O século 20 foi o século americano-do-norte; o século 21 vai ser também, depende de os gringos quererem.

— A China periga dar certo? — o Cisco, espantado.

— No mundo da lua, vão agigantar tudo pela propaganda. Pode estar iminente avalancha de soft power da China, a mais do duro sharp power que começa a se generalizar e já desperta vivas reações em vários países. Dando certo a ofensiva chinesa, em cortejo, imantada, veremos atrás sarandear malemolente a bocojança, multidões sem fim. Tanta gente modernosa não achou que a Rússia dos anos 30 tinha dado certo? O Stalin, besuntado de admirações abjetas, foi ícone de cardumes de torcedores ignóbeis; décadas de chumbo aleluiadas em histeria, mais que tudo pela intelligentsia progressista; via nos intentos mitomaníacos de engenharia social, executados com frieza apavorante, a construção da utopia socialista dos ‘amanhãs que cantam’; para tal, enfiada sem fim de hojes desesperadores.

— Tem exorcismo contra tais modismos?

— Conheço um, destrinchar e divulgar preto no branco essas alquimias de fundo totalitário. Cadê o esforço intelectual e a valentia?

— Entendi, o enfeitiçamento bafeja situações ditatoriais.”

Flui o conto, Adamastor Ferrão Bravo ali continua com braveza aferroando, mas paro por aqui. Chamei a atenção de tal realidade para quê? Para a possibilidade de manobra de soft power. No combate ao vírus, a China sai na frente, elimina o problema, resolve. Cara da moeda. Na coroa, chapina o resto do mundo; mortes, fechamentos, abatimentos, desorientação. O mundo vai preferir cara ou coroa? “Multidões babando de admiração e remedando”. E então poderia acontecer uma nova e adaptada “union sacrée” em nossos dias, voltada contra a pandemia, no desenrolar da qual a China despertaria admiração, atrairia simpatias e abateria barreiras, isolaria opositores. Lucro evidente para os desígnios totalitários e imperialistas do Partido Comunista Chinês. Olho vivo, moreno, seguro morreu de velho, desconfiado ainda vive.

https://www.abim.inf.br/union-sacree-contemporanea/


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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

UMA NOVA ADOLESCÊNCIA - Carlos Diegues


Estamos perdidos, o Supremo acaba de proibir o esquecimento. Não sei se a sábia decisão inclui questões de foro privado, como fracassos pessoais e amores insanos, essas coisas que fazem de nossa vida inevitável sequência de frustrações dolorosas. Vou ler o documento com atenção, deve haver um parágrafo redentor dizendo que, a partir de certa idade, temos o indiscutível direito de não mais lembrar tristes momentos.

Em vez de nos condenar à memória, bem que o Supremo podia nos ajudar no suplício do que preferíamos que não tivesse acontecido. Valorizar nosso empenho em esquecer por respeito a nós mesmos. Não temos mais como reparar o desastre da juventude. Mas temos o direito de não darmos atenção aos que, nos salões, balbuciam nosso nome com trejeitos e risadas. Esquecer é uma bênção dos céus; rejeitá-la é um grave pecado masoquista de orgulho e pretensão.

Em certo momento adiantado da vida, começamos a nos conformar com o que somos. Seguimos vivendo a combinação patética de euforia e depressão, marca da existência, mas sabemos que o que somos dificilmente deixará de ser o que é. Ninguém vai nos reavaliar. O que foi já foi, não temos como consertar. Para que lembrar de tudo, mesmo que tenhamos sido campeões do mundo ou namorados de princesas? Sempre haverá algo de desagradável, em cada um desses sucessos.

Para a nova humanidade, não existem mais “velhos”, coisas gastas e desnecessárias. Agora somos “idosos”. O que, convenhamos, é muito mais conveniente e impõe um certo respeito. Outro dia, li na internet um post, encaminhado por meu amigo Walter Lima, o cineasta baiano, dizendo que os jovens estão achando nos idosos sinais de adolescência. Somos uma nova faixa social, idolescentes vivendo de um jeito peculiar, inventivo e agitado, capaz de renovadas provocações civilizatórias. A adolescência foi uma invenção de meados do século XX, para dar identidade demográfica e cultural a um desabrochar humano original, depois da Segunda Guerra Mundial. O desabrochar dos idosos é uma invenção desse século XXI, posterior à Guerra Fria, sei lá pra quê.

Como muitos de minha idade, esses que chamo de idolescentes, faço exercícios físicos para manter certa forma. Meu mestre em fisioterapia e shiatsu, o doutor Sashide, me garantiu que o idoso pode fazer tudo que um jovem faz. A diferença é que o idoso tem que fazer uma coisa de cada vez, concentrado no que está fazendo. Se você estiver subindo uma escada, por exemplo, se concentre só nisso, esqueça para onde vai, quem está a seu lado ou que música está tocando mais adiante. Preste atenção apenas a cada degrau, ao espaço em que, no próximo, você vai colocar o pé. A vida talvez fique mais lenta e mais chata, mas certamente mais segura e comprida.

Um amigo meu, cuja jovem filha morreu recentemente de mal incurável, me disse que, mesmo aos 79 anos de idade, só depois desse evento trágico começou de fato a envelhecer. Ele não desejou morrer por causa da morte da jovem e bela menina, a vida apenas perdeu para ele grande parte de sua graça. Agora estou tentando transformar esse meu amigo, com todo o respeito por sua dor, num idoso disposto a viver. Mas, para isso, ele precisa esquecer. Não necessariamente tudo. O rosto de sua filha sem vida, por exemplo, nunca mais deixará sua memória.

Por favor, senhores ministros do Supremo, defendam com ardor a liberdade e a democracia, deem a vida pelas duas. Mas deixem o esquecimento em paz, ele é a garantia de uma existência mais alegre para idosos feito nós.

O Globo, 14/02/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/uma-nova-adolescencia

 

 

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Carlos Diegues - Décimo ocupante da Cadeira 7, eleito em 30 de agosto de 2018 na sucessão do Acadêmico Nelson Pereira dos Santos e recebido pelo Acadêmico Geraldo Carneiro em 12 de abril de 2019.

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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

TE ESTREMECES POR EL LOBO Y EL CORDERO - Alfredo Pérez Alencart



TE ESTREMECES POR EL LOBO Y EL CORDERO                                    

Alfredo Pérez Alencart *


 

Te estremeces por el lobo y al cordero.

Amas ultrahumanamente, sin límites, como la música

del universo. Oh profunda sinfonía forjando

lo sagrado de principio a fin, alto asidero donde sobrepuja

la esperanza. Oh sucesión eterna que desatas

unisonancias, instintos trajinando hacia el magma

de lo trascendente, de la cadencia absolutoria

concebida compartiendo a ultranza las aguas profundas

y las hondas delicias de un contravuelo angélico

que se abroquela para recibir al Viento más feraz.

Siempreviva estás, trashumante presencia.

Te hospedas en la Luz que no aniquilan los ocasos.

Estando sin estar, eres evidencia,

cerebro verbal resaltando chispas de pureza,

latidos sin cautiverio, ciertísimo llamado de traslación

más allá de anhelos y desveladas ensoñaciones.

Pertenencia al páramo del Desprendido de sí,

a su oculto ritmo, a su lenta llama venturosamente

extemporal, cual indescifrable alianza.

Pertenencia al portal de los testigos,

al presagio de otro Reino, al aliento acrisolado

cual plenitud donde prospera lo sublime.

Pertenencia al verbo de una estrella.

Pertenencia al llagado cuerpo de doliente ternura.

Pertenencia al ala que se desvanece por los aires.

Pertenencia al linaje que acopia inocencias de siete en siete.

Te perpetúas en la antelación de la alegría

y asciendes, porque tu Unidad sabe la fórmula

de diásporas y deslumbramientos.

Clamas por tu orfandad. Clamas contra látigos agresivos,

fraternizando con los perseguidos, abrazándoles,

compartiéndoles la realidad que hay en los milagros.

Nada te desmide,

Criatura de nombre hermosamente pronunciado,

piel consumante, contorno que se aviene a penetrar

en frondas de cálido renacer.

Mantienes el don de ser el antes y el después,

lámpara alumbrando los vuelos breves del pájaro, su sombra

en la alta noche del abismo.

Conduces los fervores hacia el alba adolescente,

pulsas con tu estatura de Árbol de vida, riegas violetas

con el cause de tus transpiraciones.

¡Horizontal ejemplo el de las manos extendidas,

el del pulso que sustenta! ¡Belleza de la Forma en el paisaje!

¡Oh Dios, qué desnudo afán el de este Amor

avanzando eterno, dándose así, tan pródigo!

 

¿Qué savias vas donando?, ¿qué otras luciérnagas te rondan?


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Te Agitas pelo Lobo e o Cordeiro

Poema de Alfredo Pérez Alencart

Tradução de Cláudio Aguiar*

 

Te estremeces pelo lobo e pelo cordeiro.

Amas de forma ultra-humana, sem limites, como a música

do universo. Oh profunda sinfonia forjando

o sagrado do começo ao fim, alto pretexto onde domina

a esperança. Oh sucessão eterna que desencadeias

assonâncias, instintos laborando rumo ao magma

do transcendente, da cadência absoluta

concebida com o compartilhamento das águas profundas

e das saborosas delícias de um contravoo angelical

acomodadas para suportar o Vento mais copioso.

Estarás como a sempre-viva, qual presença transumante.

Ficarás na luz que não mata o pôr do sol.

Estando sem estar, tu eres evidência,

cérebro verbal destacando faíscas de pureza,

pulsações sem cativeiro, correta chamada de translação

além de anseios e de desvelados sonhos.

Pertencias ao terreno do Despretensioso,

ao seu ritmo oculto, à sua chama lenta, felizmente

extemporânea, qual aliança indecifrável.

Pertencias ao portal das testemunhas,

para profecia de outro Reino, ao refinado alento,

cuja plenitude reside onde floresce o sublime.

Integravas o verbo de uma estrela.

Pertencias ao corpo ferido de ternura sofredora.

Pertencendo à asa que desaparece pelos ares.

Pertencias à linhagem que coleta inocências de sete em sete.

Te perpetuas na antecipação da alegria

e ascendes, porque tua Unidade conhece a fórmula

das diásporas e dos deslumbramentos.

Clamas por tua orfandade. Clamas contra chicotes agressivos,

confraternizando com os perseguidos, abraçando-os,

compartilhando com eles a realidade dos milagres.

Nada te rebaixa,

criatura de nome formosamente pronunciado,

pele aliciante, contorno para penetrar

em frondes de renascimento quente.

Tu manténs o dom de ser o antes e o depois,

lâmpada iluminando os breves voos do pássaro, sua sombra

na alta noite do abismo.

Conduzes os fervores rumo ao amanhecer adolescente,

pulsas com tua estatura de Árvore da vida, regas violetas

com o leito de tuas transpirações.

Exemplo horizontal o das mãos estendidas,

o do pulso que sustenta! Beleza da forma na paisagem!

Oh Deus, que desejo nu é este Amor

avançando eterno, dando-se, assim, tão pródigo!

 

Que seivas estás doando? Que outros vaga-lumes te rodeiam?

 

 


*Poeta peruano-espanhol, Alfredo Pérez Alencart reside em Salamanca, Espanha, onde é professor universitário e organizador dos Encontros de Poetas Ibero-Americanos. Poeta premiado, de reconhecimento internacional. Já publicou mais de uma vintena de livros de poesia, é traduzido e publicado em inúmeros idiomas.

O poema   TE ESTREMECES POR EL LOBO Y EL CORDERO faz parte do livro Prontuário de Infinito (Verbum, Madrid, 2021)



** Cláudio Aguiar é ficcionista e ensaísta. Autor premiado com o Jabuti e pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro. Foi presidente do Pen Clube do Brasil.


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Deputado quer me processar, TRETA no MEC e Ivete Sangalo lacrando

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

O QUE SIGNIFICA SER CATÓLICO?



O Presidente, o Cardeal e a Comunhão para os políticos pró-aborto

Luiz Sérgio Solimeo*

Nesta era de secularismo, quando a vida política é separada da vida religiosa, é louvável que um presidente dos Estados Unidos se apresente como um católico praticante e participe publicamente dos sacramentos da Igreja.

No entanto, o catolicismo do presidente Biden é sui generis. Ele não segue a doutrina e a moral católica a respeito do aborto provocado e do pecado homossexual.

Contraste com a Doutrina Católica

Ao longo de sua carreira política, incluindo as eleições gerais de 2020, o Sr. Biden [foto acima] favoreceu a legalização do aborto voluntário. Nos anos mais recentes, ele abraçou o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, oficiando um na qualidade de vice-presidente.

Após a posse, seu governo emitiu um comunicado especificando seu apoio ao aborto e à contracepção, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo:

“Nos últimos quatro anos, a saúde reprodutiva, incluindo o direito de escolha, tem estado sob ataque implacável e extremo. … A administração Biden-Harris [foto acima] está empenhada em regulamentar (a decisão da Suprema Corte) Roe v. Wade e nomear juízes que respeitem precedentes fundamentais como Roe. Também nos comprometemos a nos empenhar no trabalho para eliminar as disparidades entre saúde materna e infantil, aumentar o acesso à contracepção e apoiar economicamente as famílias para que todos possam criar suas famílias com dignidade [sic]. Este compromisso se estende ao nosso trabalho crítico em relação aos padrões de qualidade da saúde em todo o mundo”.(1)

Com relação à homossexualidade e ao “transgenerismo”, é bem conhecida a inclinação pró-LGBT nas nomeações de membros de seu gabinete e para posições em nível de gabinete. O Sr.  Biden também assinou uma ordem executiva afirmando que a política de seu governo é que “as crianças devem poder estudar sem se preocupar se o acesso ao banheiro, ao  vestiário ou esportes escolares vai-lhes ser negado (por causa de seu sexo “escolhido”)” (2).  Da mesma forma, ele restabeleceu o “ transgenerismo” nas Forças Armadas(3), e, de acordo com Antony Blinken, seu agora confirmado Secretário de Estado, “ele planeja nomear rapidamente um emisário internacional LGBT, [e] permitir às embaixadas hastear a bandeira do orgulho (homossexual)”.(4)

Aquele que não aceita totalmente toda a doutrina da Igreja não é católico

O aborto voluntário, o pecado homossexual e o “transgenerismo” são, sem sombra de dúvida, contrários à doutrina e à moral católicas. A Escritura e a Tradição, assim como o Magistério eclesiástico não deixam margem a discussão a esse respeito.[5]

Ora, um católico deve aceitar totalmente e seguir os ensinamentos dogmáticos da Igreja bem como as verdades morais reveladas por Deus. Portanto, quem rejeita uma só dessas verdades reveladas, seja de natureza dogmática ou moral, rejeita todo o depósito da Fé e se expulsa da Igreja. Cada verdade revelada, sem exceção, deve ser aceita.

É o que ensina o Papa Leão XIII na encíclica Satis Cognitum, sobre a unidade da Igreja:

(A Igreja sempre) considerou rebeldes declarados e expulsou de seu seio a todos aqueles que não pensam como Ela sobre qualquer ponto de sua doutrina.…

….aquele que num único ponto recusa o seu assentimento às verdades divinamente reveladas abdica realmente de toda a fé, pois recusa-se a submeter-se a Deus na medida em que Ele é a verdade soberana e o motivo próprio da fé.(6)

“Que ele seja tido por gentio e publicano”

Por sua vez, em sua encíclica Mystici Corporis Christi, o Papa Pio XII afirmou:

“Como membros da Igreja contam-se realmente só aqueles que receberam o lavacro da regeneração (o batismo) e professam a verdadeira fé, nem se separaram voluntariamente do organismo do corpo, ou não foram dele cortados pela legítima autoridade em razão de culpas gravíssimas.

“Portanto …. quem se recusa a ouvir a Igreja, manda o Senhor que seja tido por gentio e publicano (cf. Mt 18, 17). Por conseguinte os que estão entre si divididos por motivos de fé ou pelo governo, não podem viver neste corpo único nem do seu único Espírito divino. …

“Nem todos os pecados, embora graves, são de sua natureza tais que separem o homem do corpo da Igreja como fazem os cismas, a heresia e a apostasia”.(7)

Desse modo, aqueles que defendem o aborto, o pecado homossexual ou o “transgenerismo”,  não apenas teoricamente, mas promovendo ou efetuando sua legalização, não podem ser considerados católicos.

“Sempre que comer este pão …”


Ao tratar da Sagrada Eucaristia, o Concílio de Florença (1438-1445) ensinou que “o efeito que este sacramento opera na alma de quem o recebe dignamente é a união do homem a Cristo”.(8) Como Nosso Senhor disse, “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele”.(9)

Dada a santidade deste sacramento, São Paulo alerta para as consequências de recebê-lo indevidamente:

“Assim, todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice lembrais a morte do Senhor, até que Ele venha. Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor. Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse pão e beba desse cálice. Aquele que o come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação”.(10)

Alguns Prelados alertam o Sr. Biden…

Em uma entrevista com Thomas McKenna, o Cardeal Raymond Burke [foto abaixo] , ex-prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica, advertiu que o Sr. Biden não tem condições de receber a Comunhão:


“Portanto, em primeiro lugar, por caridade para com ele, gostaria de lhe dizer que não se aproximasse da Sagrada Comunhão, porque isso seria um sacrilégio e um perigo para a salvação de sua alma.

“Mas também não deveria se aproximar para receber a Sagrada Comunhão porque causa escândalo a todos. Porque se alguém disser ‘bem, sou um católico devoto’ e ao mesmo tempo promover o aborto, isso dá a impressão de que é aceitável para um católico ser a favor do aborto o que, é claro, não é absolutamente aceitável. Nunca foi, nunca será”.[11]

O Arcebispo emérito da Filadélfia, D. Charles Chaput, comentou na mesma linha: “As figuras públicas que se identificam como ‘católicas’ escandalizam os fiéis ao receberem (indignamente) a comunhão, criando a impressão de que as leis morais da Igreja são opcionais. E os bispos dão escândalo semelhante ao não falar publicamente sobre a questão e o perigo do sacrilégio”.(12)

Outros bispos o apoiam

No entanto, alguns prelados, como o cardeal Wilton Gregory, falaram de maneira diferente. A jornalista do Catholic News Service Cindy Wooden entrevistou o arcebispo de Washington, DC. Ela escreve: “Embora alguns católicos acreditem que Biden não deve receber a comunhão quando vai à missa, o cardeal designado Gregory disse que por oito anos como vice-presidente Biden foi à missa e [recebeu a]  comunhão. ‘Não vou me desviar disso’, disse ele”.(13)

Duas igrejas, lado a lado?

Essas atitudes divergentes na hierarquia católica nos levam a perguntar se uns e outros têm a mesma fé católica ou se vemos uma nova religião emergindo da sombra da Igreja Católica.

Existe uma Igreja, baseada na Revelação, que nega a Sagrada Comunhão a pessoas que falam e agem publicamente contra a doutrina e a moral católicas e “obstinadamente persistem no pecado grave manifesto”?(14) E outra que permite a tais pessoas receberem a Sagrada Comunhão sem qualquer demonstração pública de arrependimento?

Só a primeira posição é legítima e corresponde à da Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo:  “Una, Santa, Católica e Apostólica”, como rezamos no Credo niceno-constantinopolitano (o Credo da Missa). A segunda não.

O que é ser católico?

A conduta do novo presidente dos Estados Unidos e de bispos como o recém-nomeado cardeal Wilton Gregory levanta a questão: o que significa ser católico?

Como mostrado nos trechos acima dos Papas Leão XIII e Pio XII, esta pergunta já foi respondida há muito tempo. Muitas outras declarações de papas, concílios e do Direito Canônico poderiam ser adicionadas. Todas, porém, se resumem nisto: católico é aquele que foi batizado e acredita e professa toda a doutrina revelada e proposta pelo Magistério da Igreja, tanto em questões dogmáticas quanto morais.

Com relação a quem rejeite até mesmo um único ponto da doutrina e da moral católica, o Papa Pio XII ensina: “Manda o Senhor que seja tido por gentio e publicano”.

* Publicado no site da The American Society for the Defense of Tradition, Family and Property em 5 de fevereiro de 2021

Notas

1. Declaração do presidente Biden e da vice-presidente Harris no 48º aniversário de Roe v. Wade”, 22 de janeiro de 2021, https://www.whitehouse.gov/briefing-room/statements-releases/2021/01/22/statement -from-president-biden-and-vice-president-harris-on-the-48-year-of-roe-v-wade /.

2. “Ordem Executiva de Prevenção e Combate à Discriminação com Base na Identidade de Gênero ou Orientação Sexual”, 20 de janeiro de 2021, https://www.whitehouse.gov/briefing-room/presidential-actions/2021/01/20/executive -ordenar-prevenir-e-combater-discriminação-com-base-identidade-gênero-ou-orientação sexual /.

3. “Ordem Executiva Habilitando Todos os Americanos Qualificados a Servirem Seu País em Uniforme”, 25 de janeiro de 2021, https://www.whitehouse.gov/briefing-room/presidential-actions/2021/01/25/executive-order- em-permitindo-todos-americanos-qualificados-para-servir-seu-país-em-uniforme /

4. Paul LeBlanc e Jennifer Hansler, “O escolhido para secretário de estado de Biden promete nomear um enviado LGBTI e permitir às embaixadas hastear a bandeira do orgulho [homossexual]”, CNN, 19 de janeiro de 2021, https://www.cnn.com/2021/01/19/ policy / antony-blinken-lgbti-pride-flag-biden-Administration / index.html.

5. Ver Cardeal Francesco Roberti e Mons. Pietro Palazzini, s.v. “Aborto”, no Dictionary of Moral Theology (Westminster, Md .: The Newman Press, 1962); TFP Committee on American Issues, Defending a Higher Law: Why We Must Resist Same Sex “Marriage” and the Homosexual Movement (Spring Grove, Penn.: The American Society for the Defense of Tradition, Family and Property, 2012)

6. Leão XIII, encíclica Satis Cognitum, 29 de junho de 1896, nn. 17, 20. http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/es/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_29061896_satis-cognitum.html

7. Pio XII, encíclica Mystici Corporis Christi, 29 de junho de 1943, nn. 21-22. http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_29061943_mystici-corporis-christi_po.html

8. Denzinger- Hünermann, n. 1322.

9. João 6,56.

10. 1 Cor 11,26-29.

11.  “Cardeal Burke: Joe Biden Não Deve Receber a Sagrada Comunhão”, National Catholic Register, 29 de setembro de 2020, https://www.ncregister.com/news/cardinal-burke-joe-biden-should-not-receive-holy -comunhão.

12. Charles J. Chaput, O.F.M. Cap., “O Sr. Biden e a Questão de Escândalo”. First Things, 4 de dezembro de 2020, https://www.firstthings.com/web-exclusives/2020/12/mr-biden-and-the-matter-of-scandal.

13. Cindy Wooden, “Em Washington, com o novo presidente, o Cardeal-designado tem esperanças de diálogo,” Catholic News Service, 24 de novembro de 2020, https://www.catholicnews.com/in-washington-with-new-president-cardinal -designar esperanças para o diálogo /.

14. Código de Direito Canônico. Cânon 915. 

https://domtotal.com/direito/pagina/detalhe/31867/codigo-de-direito-canonico#ancora-24


https://www.abim.inf.br/o-que-significa-ser-catolico/

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