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quarta-feira, 2 de dezembro de 2020
terça-feira, 1 de dezembro de 2020
MARICAS É QUEM ME XINGA – Ignácio de Loyola Brandão
Para um menino, ser
chamado de mariquinha era um terror. Carimbava. Fosse hoje seria demolido pela
rede social, imaginem um efeminado, bicha, pederasta, guaxeba, boneca, jiló,
gobira, viado, 3x8. O 24 era o viado no jogo de bicho. Todos tinham pavor de
ser o 24 na lista de chamada da escola, virava motivo para bullying, era pior
do que ter tuberculose, lepra ou gonorreia. Era ser humilhado com o riso das
jovens, levava surra dos pais, ouvia o choro das mães. Fosse religioso, não
obtinha a absolvição na confissão, não podia comungar. Ser maricas era um
pecado.
Ser maricas ou mariquinha era
tormento, a vida tornava-se um inferno. Tive vários amigos assim rotulados.
Alguns deixaram a cidade, formaram-se, fizeram carreira. Outros foram
destruídos, “carimbados” que estavam. O mundo masculino era implacável. Entre
os machões estava um de apelido Chola. Nunca soube seu nome. O pai tinha
abandonado a mãe, ele fora expulso da escola. Sua avó comandava o jogo do bicho
no bairro. Feroz, mandão, humilhava o tempo inteiro. Ele tinha determinado
dezenas de garotos como maricas, dizia que não servem para nada, não enfrentam
uma briguinha de fim de aula, se pegam sarampo ou resfriadinho se apavoram com
medo de morrer. Certo dia, quando a situação chegou ao insuportável, uniram-se
os maricas e os supostamente mariquinhas, porque muitos dos não maricas assim
tinham sido rotulados em algum momento de suas curtas vidas. A quadrilha do
ódio era ativa. O grupo se armou com pedras, estilingues, cabos de vassoura com
pregos e folhas serrilhadas de abacaxi, que cortam dolorosamente. Cercaram
Chola no jardim. Intimidado, ele “pulou” para trás, deu o falado por não
falado. Chola era conhecido, dizia sim, depois dizia não. Falava pau e depois
dizia que era pedra, galo virava galinha. Dizia e desdizia. Atemorizado, ele
negou:
“Vocês maricas? Que
isso? São machos pra valer. Não! Nessa turma ninguém é maricas. Quem disse que
eu disse isso?”.
“Você disse, xingou. Escorraçou tanto
que a gente nem podia sair na rua.”
Atemorizado com a folha de abacaxi
ameaçadora diante do rosto, Chola saltou de banda, como se dizia, tirou da
seringa.
“Vocês sabem! Me conhecem! Sabem até
o que minha mãe diz? Que eu falar e um burro cagar é a mesma coisa. É assim
mesmo, sou mentiroso.”
“Mas hoje você apanha ou ...”
“Ou o quê?”
“Vai tomar um vidro de sal amargo.
“Ou uma concha de óleo de rícino”,
sugeriu Josué, de todos o mais tímido.
Para quem nunca ouviu falar, sal
amargo e óleo de rícino eram os piores purgantes. Gosto horroroso, resultados
tenebrosos. Era tomar, esperar um pouco, correr para o banheiro. Às vezes,
vergonha, nem dava tempo de tirar a calça.
“Um vidro? Não, um vidro, não. Uma
colherinha! Só uma. Uma, uma...”
“Uma para cada um que você xingou.”
E assim aconteceu. Nem calculam.
Foram três dias passados na casinha. Depois Chola foi transferido para a Santa
Casa onde o bondoso doutor Koury, santo homem, conseguiu estancar a cachoeira
malcheirosa e nos garantiu:
“Como médico gástrico, em meus 87
anos, tenho visto que todos aqueles que posam de valentes, corajosos, machões,
prepotentes, no fundo não passam de maricões camuflados, enrustidos,
envergonhados. Na hora H se borram. Borram e negam tudo”.
O Estado de S.
Paulo, 20/11/2020
https://www.academia.org.br/artigos/maricas-e-quem-me-xinga
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Ignácio de Loyola
Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de
2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.
* * *
domingo, 29 de novembro de 2020
ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA E ELETROGÓES CONCEDEM PRÊMIO AO ESCRITOR CYRO DE MATTOS
Academia de Letras da Bahia
e Eletrogóes concedem Prêmio
ao Escritor Cyro de Mattos
A Academia de Letras da Bahia e a Eletrogóes concederam o Prêmio Conjunto de Obra deste
ano ao escritor Cyro de Mattos, autor baiano (de Itabuna), com cerca de 50 livros
pessoais publicados, de diversos gêneros,
organizador de dez antologias, também editado em Portugal, Itália,
França, Espanha, Alemanha, Dinamarca e Estados Unidos, além de participar de
dezenas antologias no Brasil e exterior. Neste ano, Cyro de Mattos publicou os
livros Prosa e Poesia no Sul da Bahia, ensaios, Infância com Bicho e Pesadelo,
contos, na Coleção Mestres da Literatura Baiana, e O Discurso do Rio, poesia,
em Portugal.
O Prêmio Conjunto de Obra Academia de Letras da Bahia e Eletrogóes consiste em uma placa alusiva à obra do escritor homenageado e valor em espécie, que serão entregues ao agraciado em sessão online, na festa de confraternização natalina da Academia de Letras da Bahia, em data a ser designada neste mês de dezembro. Este prêmio é o mais elevado da Academia de Letras da Bahia e já foi conquistado nas edições anteriores pela poeta Myriam Fraga, escritor Hélio Pólvora, educador Edvaldo Boaventura, historiador João José Reis e romancista Gláucia Lemos.
* * *
PALAVRA DA SALVAÇÃO (211)
1º Domingo do Advento – 29/11/2020
Anúncio do Evangelho (Mc 13,33-37)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de
Jesus Cristo + segundo Marcos.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus aos
seus discípulos: “Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará
o momento. É como um homem que, ao partir para o estrangeiro, deixou sua
casa sob a responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um sua
tarefa. E mandou o porteiro ficar vigiando.
Vigiai, portanto, porque não
sabeis quando o dono da casa vem: à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao
amanhecer. Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre
dormindo. O que vos digo, digo a todos: Vigiai!”.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
https://liturgia.cancaonova.com/pb/
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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe.
Roger Araújo:
https://www.youtube.com/watch?v=C-Q-KKLxEJw&feature=emb_logo
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ADVENTO: "sentir o tempo"
“Ficai atentos, porque não
sabeis quando chegará o momento” (Mc 13,33)
Com o Advento,
iniciamos mais um novo “tempo litúrgico”. Qual o sentido dos tempos litúrgicos?
Podemos representá-los
graficamente, visualizando um círculo onde começamos com o Advento, percorremos
os “tempos” da vida de Jesus, com suas celebrações mais importantes, e o “tempo
comum”, que culmina com a festa de Cristo Rei.
Acaso
não é assim o grande círculo da vida? Tempos para gestar a vida, para trazê-la à luz,
para alimentá-la e cuidá-la, “tempos comuns” para descobrir a inspiração do
viver cotidiano, buscando o sentido de tudo o que fazemos e o que acontece ao
nosso redor; às vezes, estes tempos são áridos e cinzentos, outras vezes,
iluminantes e coloridos; tempos com a marca da solidão e da perda e tempos de
primavera em que a vida brota de novo... Podemos dizer que nós, como num
espelho, nos vemos no tempo litúrgico, para compreender e inspirar nossa vida a
partir de “Jesus” e da “comunidade cristã”.
Vivemos hoje tempos
conturbados, tensos...; partilhamos um momento de grande inquietação social, de
aridez espiritual, de drama sanitário, de distúrbios existenciais, de profundos
dilemas morais...
No
entanto, resistimos! Em meio às sombras, perplexidades, contradições,
provocações e promessas, que constituem o atual momento histórico, queremos
expressar a fé no futuro da
nossa vida.
Ainda
que soframos ventos contrários e as nuvens se adensem no horizonte, sabemos e
confessamos com o profeta Jeremias, e pela graça do Espírito, que “há esperança de um futuro” (31,17).
Para
cada momento histórico sempre foi válido o alerta de Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso”. A
liturgia deste primeiro domingo de Advento se atreve a proclamar de novo sua esperança, como uma
grande trombeta, que não chama para a morte, mas para a vida.
A esperança é um
princípio vital, expresso na sábia constatação de que “enquanto há vida, há esperança”. Mesmo
diante de desafios quase intransponíveis, consideramos possível ser de outro
modo, inventamos e reinventamos opções, criamos novas saídas... e, sem cessar,
sonhamos com o “mais” e
o “melhor”. A esperança cristã destrói
os “germes de
resignação” da sociedade moderna e combate a “atrofia espiritual” dos
satisfeitos. Por isso, a esperança cristã tem os pés plantados no “hoje” da
nossa história, inspirando o esforço de transformação deste mundo marcado por
muitos sinais de morte.
É
ela que introduz na sociedade a sede de justiça e o compromisso de humanização.
Aquele
que vive com esperança se
sente impulsionado a fazer o
que espera.
Nesse
sentido, o futuro esperado
se converte em projeto de ação e compromisso.
Ao
adentrarmos, mais uma vez, no tempo do Advento, sentimos ressoar, no mais íntimo, a voz
do Mestre da Galiléia, que nos convida a estar vigilantes e atentos, a viver
despertos...
E temos muitas frentes
abertas: superar o medo que nos paralisa, renovar a esperança no sentido da
vida, avançar com a comunidade para uma nova Igreja em saída, ser as mãos de
Jesus no mundo para curar, consolar, repartir o pão... Tempo para despertar e
cuidar da “casa” que foi confiada à nossa responsabilidade.
A “vigilância”, de
que fala o evangelho, é o outro nome para a atitude de “atenção”.
Para
Simone Weil “a atenção é
uma prece”, pois ela nos mobiliza para uma aliança com o “hoje” da
vida; se não formos prudentes e generosos para manter os olhos bem abertos
sobre o presente, perderemos a possibilidade do encontro com o surpreendente.
Viver tem a marca da simplicidade, que precisamos redescobrir, despojando-nos
de todas as cataratas existenciais que bloqueiam a visão, para deixar-nos
conduzir pelo fluir contemplativo. Estamos muitas vezes alienados da vida,
separados dela por uma muralha de discursos, de ideias vazias, de esperanças
confusas... Com o olhar contemplativo, podemos perfurar esse muro e
deixar-nos impactar pelo novo que se revela do outro lado.
Somos
seres “desejantes”. O
instigante tempo do Advento ativa em nós os desejos mais nobres e oblativos, nos fazem
ultrapassar a barreira do imediato e entrar no movimento que nos impulsiona a
ir além, a entrar em sintonia com Aquele que vem e, ao mesmo tempo, já está
presente. Desejar o encontro com “Aquele que vem” nos sensibiliza a perceber
presente “Aquele que é”.
Por
isso, o evangelho de hoje nos apresenta uma imagem sugestiva, que reúne no
desejo duas atitudes importantes: o tempo da espera e o permanecer em vigília, ambas
vivido no “estar despertos”.
A espera e a vigília
da vinda plena do Senhor não nos afastam da realidade presente. Pelo contrário,
faz-nos encarnar mais lucidamente nela. Nesse novo tempo litúrgico, a
comunidade cristã permanece à escuta dos passos de Deus, em nosso
mundo, em nossa vida. Porque o novo, não vem de fora, mas o sentimos e o
tocamos por dentro.
Aquele que espera o
encontro com o Senhor começa a ler a história como história redentora; descobre
os momentos de inovação; é capaz de ver as libertações sendo gestadas no
silêncio; conecta com as promessas ainda abertas e pendentes: a nova aliança, o
novo povo, o novo êxodo, o Messias...
A
atitude de vigília nos faz descobrir os sinais da chegada do Reino no tempo: não nos
contentamos com o tempo vazio, “normótico” e sempre igual a si mesmo;
descobrimos o tempo de salvação no qual há revelação e realização do novo, da
justiça e da graça.
Os
“esperantes” cristãos precisam aprender a “ressignificar” o tempo, pois o tempo
de Deus e do Reino é o tempo da decisão em favor da vida (kairós). O reino tem
seu tempo e seu ritmo. Não é questão de pressas, não é questão de datas e
lugares, não é questão de cálculos. Tentar acelerar sua vinda seria como
esticar o talo da planta para que cresça mais rápido. O importante é ter a
paciência de quem sabe que a semente do Reino está semeada em nossa história e
ninguém poderá deter seu desenvolvimento.
Nesta
tremenda e instigante história, da qual fazemos parte, precisamos nos situar
bem. Não só com a cabeça, pois aí já temos as coisas mais ou menos claras, mas
com nossa sensibilidade, com compaixão, com nossos modos de falar e de olhar,
com aquilo que deixamos que toque e afete às nossas vidas. Trata-se da
sabedoria de “sentir o
tempo”.
Diante do tempo
dramático que vivemos, nossa tentação é querer saltá-lo, fugindo de suas
exigências.
Advento vem ser,
então, um tempo para
voltarmos para o interior em meio à agitação, olhar para dentro e deixar-nos
perguntar: presto atenção à história que todos vivemos, às suas dores e à sua
beleza? Reconheço seus poderes (augustos, herodes, quirinos) e a vida
vulnerável de Deus iluminando-se nela, apesar de tudo?
Somos iniciados a
“sentir o tempo” de um modo novo, a fazer-nos amigos dele, a nomear e
acompanhar o tempo que nos toca viver, a habitar com intensidade todas as
etapas de nossa existência. Cada momento esconde sua pérola, e é muito
emocionante poder chegar a descobri-la. Precisamos recuperar a força do “hoje”
de Deus fazendo “memória” dos grandes personagens do passado: Isaías,
Jeremias, Elias, João Batista, Isabel, Maria de Nazaré, José... Eles continuam
falando, continuam desvelando sinais de vida plena na história presente. Só uma
sensibilidade marcada pelo tempo do Advento é capaz de entrar em sintonia com
as surpresas de Deus; e a história é o rumor dos Seus passos.
Texto bíblico: Mc
13,33-37
Na oração: Caminhamos
para Deus quanto mais nos adentramos no profundo de nós mesmos e da
realidade. O maior enraizamento no tempo que nos toca viver desperta maior
sensibilidade para sermos surpreendidos pelo novo que brota nos lugares menos
esperados; é precisamente ali onde a vida renasce e amadurece.
- Como você se situa
diante deste “tempo pandêmico”? Desespero? Medo? Desejo de saltá-lo?...
- Qual é o “novo” que
você vislumbra no meio deste tempo? Você percebe algum sentido nele? Para onde
ele aponta? É revelador de algo diferente?...
Pe. Adroaldo Palaoro sj
https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2199-advento-sentir-o-tempo
quinta-feira, 26 de novembro de 2020
quarta-feira, 25 de novembro de 2020
RESISTÊNCIA SANTA DE FIRMINO ROCHA – Cyro de Mattos
Resistência Santa de Firmino Rocha
Cyro de Mattos
O épico apresenta, o lírico lembra, o dramático articula
mundos interiores que resultam de atritos e conflitos na cadência crítica da
vida. O lirismo e o sentimento do amor andam juntos, como podem ser vistos na tradição da poesia
ibérica. Na sua maneira íntima, de permanente emotividade, o lírico procede
como quem recorda ou irrompe dos estados puros da paixão. O ouvido está atento
para captar situações, auscultar seres e coisas, pulsações e frêmitos que
correm no rio da vida. A mensagem é endereçada em muitos casos mais aos ouvidos do que aos olhos. Não pretende
deixar nada na escuridão e frieza. Seu estro murmura nos acordes da tristeza, adeus, agonia, lamento e
grito. Passado e presente são auscultados no presente para a sugestão r muitas vezes de
um sentimento único: o amor.
Em Firmino Rocha, poeta de expressão fácil, verso de tonalidades leves, um canto de amor emerge do eu lírico, ingênuo
no modo de sentir o mundo. Ao fugir do real circundante, recheado de horas
doloridas, que os olhos não chegam a
compreender, o transe imposto ao poeta o
impele para outra paisagem, de aflição
que atua como âncora. Provoca uma poesia
que, mesmo dolorida na captura da
vida, flui com ternura. Acontece com
forte apelo naqueles poemas em que o
fluxo lírico traduz a angústia de
ser ante o mundo: os pesares permanecem
em companhia dos recônditos por quem se vê ilha em seu estar no mundo.
De tendência intimista, no seu verso tão somente pulsa a emoção, que acontece
pelas arestas do coração, ofendido pelo
mundo áspero que fere. Os olhos tentam
colocá-lo distante, mas não conseguem. A
dor e a saudade, no seu banimento
impossível, irrompem num facho de luz
repentino para externar a solidão,
tornada queixa no gesto que é uma
profusão enorme entre o dramático, com seus delírios, e o lirismo, com a
sua pureza incrementada na verdade.
O som como elemento necessário forma o ritmo,
que emana suave e flui do verso com espontaneidade. Associada ao som,
sua poesia tem assim entonação
musical, embora nem sempre a intuição compareça no texto verbal com bons resultados. É ausente de síntese na
reflexão crítica, sem tendência
conceitual, emotiva por excelência submete-se aos instantes do eu profundo. É como o ar que o próprio poeta respira, nesses
encontros inevitáveis da solidão de quem, perturbado na alma, sofre e sente, resiste e chora.
A poesia tomada nessa
latitude não deixa de ser comoção, tornada
em linguagem condensada, intensa
e plural no seu significado. Há quem
afirme que nessa postura do sensível, com suas formas calcadas no eu lírico, a poesia obedeça ao
ritual simbólico da escrita para
revelar uma ideia. Argumente contra os
que acham que é a razão
que faz o outro se sentir bem, conhecer o inexplicável,
esclarecendo que a poesia através de emotiva pulsação interior traduz
murmúrios que estremecem,
encantam e comovem. Consegue demonstrar,
em sua linguagem aparentemente prosaica,
que um poeta nem sempre se apoia
em formas frias, não é um operador de
modelos reflexivos que buscam unir o ser humano, contraditório, finito, a momentos
da palavra tomada emprestada à
razão para pronunciar os indícios históricos da existência.
Poeta que marca a palavra com o abraço da paz e a lágrima do amor, Firmino Rocha é mais um caso de resistência da
poesia. Do homem que, ilhado na cidade do interior, de ambiência literária
incipiente à sua época, assume em sua feição heroica e santa o lado do sonho,
da loucura iluminada. Expressa por meio
de intuições e emoções a solidão solidária que encontrou como maneira de exercer a dialética do silêncio para não sucumbir ante
a opressiva lei da vida.
Para esse poeta de Itabuna, o poema é sangue e ar, calvário
e canto que redime, pilastra que
sustenta a dor de si e de muitos, ponte de inquietudes que se estende “prenhe das águas encobertas e das ramagens
emudecidas.” Dostoiewsky disse que a Arte salvaria os homens, o poeta Firmino
Rocha acredita que só o poema pode trazer-lhe o sonho da amada e salvá-lo, como
numa prece, das paragens cegas da noite sem beijos e canções.
Era sua crença:
Só um poema pode
esta angústia afugentar
esta tristeza exilar
esta escuridão espantar
Defensor dos valores eternos, como a liberdade e a paz, em
versos que se vestem com auroras e vertem estrelas, tem como um de seus temas
preferidos o da inocência que se escondeu
com a infância. A sua lira, que sobe “o manto azul da lua cheia” e se
desperta na janela pela voz de três baladas, canta a saudade, o amor, a infância, o mistério que cerca seres e coisas
nesse velho mundo impossível de ser elucidado nas propostas íntimas de uma canção constante. Firmino Rocha canta os
mares pressentidos de angústia e pranto, o eu lírico livre e sereno aparece no
verso espontâneo “colhendo do amanhecer
os seus milagres.” Canta a morte do
desesperado negro Stanley, que na terra de Tio Sam cometeu o pecado de amar uma
mulher branca.
Ânsia, lágrima, o beijo perdido para sempre, paixão,
lembrança, tudo isso está na poesia de Firmino Rocha, com seus vícios e virtudes.
Nela há sempre a necessidade de
amparar a solidão na companhia de sons e na magia de sonhos. Poesia
feita de recados, desejos impossíveis, indagações sem resposta, pranto e
distância. Filho do chão cacaueiro baiano, descendente de família pioneira na
conquista da terra, sua poesia não tem o
som épico e dramático que impõe o tema urdido
num contexto que ao longo do
tempo implantou uma civilização
singular, portadora de valores materiais, tipos e costumes com bases na lavra
dos frutos cor de ouro.
O poema “Deram um fuzil ao menino”, pungente canto de ternura feito como protesto contra a guerra (1939-1945), tem arrebatado o brilho
de toda a poesia do autor de O canto do
dia novo (1968). Há forte versão entre
os conterrâneos de que esse poema
encontra-se gravado, em bronze, na sede da ONU, em Nova Iorque.
Figura em antologia de poetas do mundo
todo, editada pela Organização das Nações Unidas. Mas não existem provas de que tais fatos sejam verdadeiros.
Pode ser uma lenda, criada pelos seus conterrâneos e admiradores, para
que o mito ganhe circulação internacional nos ares locais,
com meros propósitos ufanistas.
A poesia reunida de Firmino Rocha foi publicada numa
co-edição da Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz, e Fundação Itabunense de Cultura, na gestão
do professor Flávio Simões. Iniciativa louvável porque até aquele momento,
inclusive entre seus conterrâneos, o
poeta continuava inédito. Falava-se mais de Firmino Rocha como autor do poema “Deram um fuzil ao menino” e pouco se tinha conhecimento
do seu legado poético.
Certamente a
publicação de sua obra, reunindo diversos poemas esparsos por jornais e oferecidos a amigos em mesa de bar,
é uma forma de perpetuar esse poeta sul baiano,
resgatar e preservar a memória cultural do sul da Bahia
Poderia ser uma boa oportunidade
para inserir documentos e iconografia pertinente no livro Firmino Rocha – Poemas escolhidos e
inéditos (2008) e fazer a comprovação em
definitivo que o poema “ Deram Um Fuzil
ao Menino” encontra-se realmente
gravado na ONU, em bronze, além
de participar de antologia importante no
exterior.
Os comentários continuarão em torno do assunto informando
que os fatos que envolvem o poema famoso
com possível repercussão na ONU são
verdadeiros. Pelo sim, pelo não, com a
palavra os estudiosos de literatura, pesquisadores e historiadores da terra do poeta.
Um adendo.
Solicitei ao meu tradutor nos Estados Unidos, Fred Ellison, professor emérito
da Universidade de Austin, no Texas, para
verificar se o poema “Deram um fuzil ao menino” achava-se gravado em
bronze na ONU. E se pertencia a uma antologia da paz publicada pela ONU com
poetas do mundo. A busca exaustiva foi realizada por um parente de Fred
Ellison, funcionário da ONU. E nada foi encontrado que comprovasse estar
gravado na ONU o célebre poema do poeta itabunense. Nem antologia nem nada. Até
que prove o contrário, para mim é lenda este assunto que os aligeirados gostam
de propagar como verdade.
Leitura Sugerida
ROCHA, Firmino. Poemas escolhidos e inéditos, Via Litterarum Editora, Itabuna, Bahia, 2008.
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Cyro de Mattos é ficcionista, poeta, cronista, ensaísta e
autor de literatura infantojuvenil. Membro efetivo da Academia de Letras da
Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC (Bahia).
Possui prêmios importantes. Publicado no exterior.
* * *
A MELHOR DAS ESMOLAS – Plinio Maria Solimeo
25 de novembro de 2020
- Plinio Maria Solimeo
As editoras costumavam lançar pelo menos um título por mês, dada a
apetência de leitura que o público tinha. Com o surgimento da TV, e sobretudo
da internet, passou a prevalecer a “civilização da imagem”, e a capacidade de
abstração do homem foi se reduzindo a ponto de hoje não despertar interesse
senão aquilo que se dirige diretamente à fantasia. Daí a dificuldade que se tem
em nossos dias da leitura de um livro de caráter doutrinário ou histórico.
Entretanto, Santo Antônio Maria Claret [fotos acima e abaixo], o
grande missionário espanhol do fim do século XIX, fundador dos claretianos,
ressaltava o papel preponderante da leitura para a evangelização, pois ela
alimenta a alma do mesmo modo que a comida nutre o corpo faminto. Mas assim
como a comida deteriorada prejudica a saúde do corpo, a leitura de maus livros
corrompe a alma.
Periódicos ímpios, folhetos heréticos e demais escritos perniciosos
corrompem as crenças, pervertem os costumes, extraviam o entendimento e
corrompem o coração. E do coração corrompido saem todos os males, como diz
Nosso Senhor Jesus Cristo (Mt 15, 19), até se chegar a negar a primeira
verdade, que é Deus, origem de todo o verdadeiro: “Disse o depravado em seu
coração: ‘não há Deus’” (Sl 2, 16).
Santo Antônio Claret passou grande parte de sua vida como missionário. E
para que seus sermões tivessem efeito duradouro sobre os fiéis, procurava todos
os meios que a sua fértil imaginação lhe sugeria. Um deles, ensinado pela
experiência, que considerava o melhor e mais poderoso, era a imprensa, se bem
seja igualmente a arma mais letal quando dela se abusa, acrescentou ele. Por
isso, dedicou-se com afinco à publicação de bons livros e mesmo de folhetos de
fundo religioso como auxiliares de sua pregação.
Em sua autobiografia diz: “Quando ia missionando, cuidava de
todos os aspectos da missão; e, segundo via e ouvia, escrevia um livrinho ou um
folheto. Assim, se na população observava que havia o costume de entoar
cânticos desonestos, publicava um folheto com um cântico espiritual ou moral”. Pelo
que desde o início de seu apostolado publicou folhetos que continham meios para
se combater a blasfêmia.
Na ocasião em que começou a pregar, constituía coisa escabrosa a
quantidade e a gravidade de blasfêmias que se ouviam em todas partes. Parecia a
ele que todos os demônios do inferno se haviam espalhado pela Terra a fim de
fazer os homens blasfemarem. Igualmente, a impureza havia rompido os seus
diques, e por isso resolveu escrever dois folhetos com instruções para
combatê-la.
Segundo ele, para todos os males, é remédio muito poderoso a devoção a
Maria Santíssima, assim no início dos folhetos escreveu a oração:
“Ó Virgem e Mãe de Deus, eu me entrego por filho vosso e, em honra e
glória de vossa pureza, vos ofereço minha alma e corpo, potências e sentidos, e
vos suplico que me alcanceis a graça de não cometer nenhum pecado [neste dia].
Amém. Mãe, aqui tendes vosso filho! Em vós, Mãe dulcíssima, pus toda minha
confiança, e jamais serei confundido. Amém”.
Percebendo os bons resultados que esta publicação produzia nas almas, resolveu escrever outras, segundo as necessidades que observava na sociedade, e distribuía esses folhetos com profusão não só aos adultos, mas aos meninos e meninas que se aproximavam dele. Afirma um seu biógrafo que na Catalunha essa oração tornou-se tão popular como a Salve Rainha.
Tal foi a repercussão da ação deste ardoroso missionário, de sua
pregação e de seus escritos que um periódico de Madri registrou no tempo
dele: “A Catalunha se comove ouvindo a divina palavra da boca de um
homem de 36 anos, e este homem é Antônio Claret. […] O Padre Claret não tem um
momento de descanso. Seus sermões duram geralmente hora e meia. O
confessionário lhe ocupa boa parte do dia, de maneira que rouba ao sono o tempo
que consagra em escrever livros piedosos para uso do povo. […] Louvor, pois, a
esse eclesiástico benemérito que soube adquirir uma justa celebridade, que como
São Vicente Ferrer aparta os povos do lodo dos vícios, e os instrui na ciência
da vida. Grande é a sua missão regeneradora”.
O êxito obtido em todas as camadas da sociedade foi tão grande que o
próprio missionário chegou a afirmar: “Graças sejam dadas a Deus, todos
os livrinhos têm produzido bons resultados; mas dos que produziram mais
conversões foi O Caminho Reto, e o Catecismo
Explicado”.
Principalmente o primeiro teve muita procura, não só entre a gente do
povo mas igualmente das mais altas autoridades do país, observou ele. Da
leitura desses livros saíram muitas conversões, e mesmo na Corte, não passava
dia em que não se apresentassem almas determinadas a mudar de vida por sua
leitura. Todos o buscavam, e não descansavam até obtê-lo.
Tal desejo o obrigou a fazer uma impressão de luxo [foto ao lado] para as pessoas mais categorizadas. Com efeito, o procuraram a rainha, o rei, a infanta, damas do palácio, fidalgos e toda a nobreza. Pode-se dizer que na classe alta não houve casa ou palácio onde um ou mais exemplares da edição de luxo de O Caminho Reto não tivesse penetrado, e nas demais classes, da edição popular.
Apenas um exemplo do bem que as leituras contidas em estampas religiosas
ou nos folhetos operava. Narra ele que numa cidade, quatro réus aguardavam as
respectivas execuções, e não queriam se confessar. Santo Antônio deu então a
cada qual uma estampa religiosa, com considerações espirituais no verso.
Lendo-as, eles refletiram e se confessaram, receberam o Santíssimo Viático, e
tiveram morte edificante.
Considerando o grande bem que faziam seus livros e folhetos, Santo
Antônio Maria Claret, para torná-los mais acessíveis, em 1848 fundou em
Barcelona uma Imprensa Religiosa, colocando-a sob a proteção de Maria
Santíssima de Montserrat, como padroeira que é da Catalunha, e do glorioso São
Miguel.
Com a impressora fundou a Livraria Religiosa para difundir sua
literatura espiritual, fazendo com que eclesiásticos e seculares se provessem
de bons livros, os melhores de que se sabe, ao mais ínfimo preço, de modo que
nenhuma impressora da Espanha fornece livros tão baratos como os da Livraria
Religiosa.
Afirma o santo: “Em todos os livros publicados não se buscou o
lucro, mas a maior glória de Deus e o bem das almas. Nunca cobrei um centavo
como propriedade intelectual do que mandei imprimir; ao contrário, doei
milhares e milhares de exemplares, e continuo doando e, com a ajuda de Deus,
doarei até a morte, pois considero ser a melhor esmola que se pode fazer”.
Hoje fala-se muito nos pobres, mas se faz pouco por eles. Há muita
demagogia sobre seu bem-estar material. Até entre eclesiásticos de todos os
níveis fala-se muito pouco ou quase nada do bem-estar espiritual deles.
Esquecem-se que, como diz o grande Santo Antônio Maria Claret que dedicou a
vida a dar aos desprovidos dos bens materiais a “maior esmola que se
pode dar”, ou seja, a instrução e assistência religiosa para lhes abrir as
portas da bem-aventurança eterna.
https://www.abim.inf.br/a-melhor-das-esmolas/
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