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sábado, 17 de outubro de 2020

PARA REFRESCAR A MEMÓRIA DOS BISPOS ESQUERDISTAS


152 arcebispos e bispos da CNBB assinaram uma carta com duras críticas ao Presidente Bolsonaro. O que tais prelados fizeram contra os descalabros dos governos petistas que arruinaram o País?

Plinio Maria Solimeo

A esquerda tem memória curta. E a tem também grande parte dos bispos que fazem parte da CNBB e que, seguindo a linha da famigerada Teologia da Libertação, não poupam críticas ao governo e à situação em que se encontra nosso País.

Esquecem-se eles que, há apenas alguns anos, o Partido dos Trabalhadores (PT), bafejado e incentivado por tais bispos, levou o Brasil à bancarrota com toda sorte de corrupção, que eles assistiam passiva e confortavelmente.

Por isso é bom relembrar-lhes que, naquela época, houve dois corajosos prelados que, destoando do resto da CNBB, fizeram duras críticas ao governo petista e à situação que vigorava no Brasil.

Foram eles Dom Henrique Soares da Costa, bispo de Palmares, no Pernambuco, e Dom Antônio Carlos Rossi Keller, bispo de Frederico Westphalen, no Rio Grande do Sul.

É-nos grato rememorar aqui as palavras desses destemidos antistites, pronunciadas no início do ano de 2016, em pleno reino petista, para refrescar a memória tão seletiva dos nossos bispos e clero esquerdistas.

O valoroso bispo de Palmares afirmou com todas as letras:

“A situação do nosso País é gravíssima: crise econômica; crise política; crise institucional; crise moral!

A democracia brasileira corre perigo!

O País foi roubado dos brasileiros!

Os que governam se sentem dispensados de dar satisfações ao Povo; não respeitam as instituições, zombam da justiça!

A sordidez, a desfaçatez e o escárnio tornaram-se método de governar e fazer política!

O Congresso Nacional trai e abandona o Povo brasileiro!

Cargos, comissões, sinecuras: é tudo quanto nossos parlamentares procuram!

Congresso indigno, Congresso omisso, eivado pela tortuosidade!

É preciso dar um basta a tudo isto!

O Povo brasileiro deve retomar o seu País, deve recobrar a sua Pátria, a sua dignidade, a sua honradez!

O Brasil está desonrado,

o Povo brasileiro está ferido em sua dignidade!

É o futuro da Pátria que está em jogo!

É preciso cobrar com convicção e firmeza um posicionamento claro do Congresso Nacional! Mas, como, com os líderes que estão ali?

Enquanto isto, crise, desemprego, tensão, desânimo, total falta de esperança!

O Brasil não tem líderes!

Estão destruindo a jovem democracia brasileira, estão colocando em risco o que se construiu com tanto sacrifício!

Que o Povo não o permita!

Que o Povo fale! Que o Povo brade!

O Brasil é dos brasileiros!”

Essas palavras tão duras, pronunciadas em 2016, contra o governo petista, são as que, mais ou menos, agora as de que acusam o atual governo.

Dom Keller não deixa a situação por menos:          

“De início, quero deixar claro que esta postagem não tem direcionamento partidário. Vivemos hoje, no Brasil, uma situação constrangedora: em todas as agremiações partidárias, o mal da corrupção apresenta-se como uma sombra vergonhosa.

O Brasil para os brasileiros! Fomos roubados: roubaram nossa esperança, nosso futuro, nossa dignidade, muito mais do que o nosso dinheiro. Somos um povo doente, sem horizontes. Prevaleceram-se de nosso comodismo, de nossa incapacidade de reação. Compraram nossa consciência cidadã com bolsas, programas, “pacs”, copas e olimpíadas.

Mudaram o rumo de nossa história, impingindo-nos ideologias inaceitáveis. Venderam nosso país a lobbies, que despejam aqui rios de dinheiro, para mudar os rumos de nossa vocação cristã-católica.

Perdemos quase tudo. Agora, querem nos fazer acreditar que tantos escândalos, desvendados a duras penas, não são verdadeiros, nada mais são do que disputa política. É preciso dar um basta a tanta pouca vergonha. É preciso, antes de tudo, resgatar o Brasil e a nacionalidade. Este país precisa ressurgir dos escombros a que foi reduzido. Mais do que nunca, é preciso recomeçar a ser brasileiro. O Brasil e os brasileiros não merecemos tanta humilhação e tanta vergonha”.

Felizmente essas palavras não foram pronunciadas em vão, como demonstraram as gigantescas manifestações populares contra o governo corrupto do partido dito dos trabalhadores.

Citamos essas declarações como publicadas no site católico “Aleteia”, em português, no dia 18 de março de 2016.


http://pt.aleteia.org/2016/03/18/bispo-tambem-e-cidadao-a-indignacao-de-dois-prelados-com-a-crise-moral-do-brasil/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt-Mar%2021,%202016%2007:01%20am

 

https://www.abim.inf.br/para-refrescar-a-memoria-dos-bispos-esquerdistas/


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sexta-feira, 16 de outubro de 2020

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL: ORDEM NA CASA - Joaquim Falcão


Que cada juiz tenha preferência por uma teoria de interpretação constitucional, tudo bem. É normal. Faz parte. Marco Aurélio tem sua preferência. O presidente Fux, a dele. Cada um, a sua. Interpretar diferentemente é possível. Mas há limites. O Supremo não pode colocar a sociedade em risco e perigo. 

O importante é retirar, agora que o susto passou, lições do caso André do Rap. Ficou claro para todos que o processo decisório do Supremo está doente. Necessita de cura. As decisões são caóticas. Não se sabe quem decide. Quando decide. Como decide. Se decide. 

Se decisões liminares têm de respeitar jurisprudência, quais? Nunca ninguém é impedido ou suspeito para julgar qualquer caso. Com parentes envolvidos ou não. Os ministros não avaliam as consequências reais de suas decisões. Como diz o ministro Alexandre de Moraes, o Supremo está com um grave problema de eficiência. Daqui a pouco, a máquina vai “grimpar”. Diante da inação do Supremo e de sua administração interna. 

A partir de 2013, por exemplo, os pedidos de habeas corpus têm subido violentamente. Motivos? Vários. Entre outros, porque advogados dos réus têm uma estratégia. Se o habeas corpus cai com um ministro mais rigoroso, o advogado renuncia ao pedido e entra com outro igual, como analisa o professor Ivar Hartmann. E vai entrando com habeas corpus substituíveis unilateralmente. Até acertar. Acertar o quê? O ministro probabilisticamente mais favorável à petição. Qualquer banco de dados com as decisões de cada ministro, como no Supremo em Números, permite prever probabilisticamente o mais favorável, e o menos, à causa.

Transforma-se a distribuição dos processos numa loteria de cartas marcadas. E o Supremo é a vítima. É o alvo do tiro. Aliás, dos tiros. Mas aceita. Silêncio. Ministros constrangidos. Terá havido erro na distribuição? Quem decide se um ministro está impedido ou não? Há dúvidas a esclarecer. Uma investigação e providências internas podem e devem ser tomadas.

O caso André do Rap mostra também o emaranhado processual em que o Supremo se autoaprisionou. Como lembrou o ministro Barroso, somente houve este caso porque o Supremo duvida de si mesmo. Vale ou não a prisão em segunda instância? 

Mais ainda. O presidente Fux defende que o Supremo tenha uma eficácia argumentativa diante de todos, incluindo a opinião pública. Neste emaranhado de recursos, esta eficácia é impossível. Os argumentos não têm nome. Não têm cara. Têm números. A ação 333.59.892 é contra a ação 976540, que difere do agravo 11.90008. Misturam-se números com citações e reitera-se que o procedimento do relator está errado. Difícil. Discussões processuais que mesmo quem entende não compreende. 

Um exemplo foi a tentativa de transformar o julgamento de André do Rap numa discussão processual sobre os superpoderes do presidente do Supremo. Como o colegiado revogaria a decisão de Marco Aurélio sem dar muito poder ao novo presidente, Luiz Fux

Enquanto os ministros não se sentarem juntos, fizerem as pazes entre si, deixarem de abusar das mídias, dos “offs”, resolver um caso não vai adiantar. 

A maior eficiência e confiança de todos no Supremo não depende do Executivo, nem do Congresso, nem da opinião pública, nem de ninguém. Depende de si próprio. Está na hora de colocar ordem na casa. 

O Estado de S. Paulo, 14/10/2020


 https://www.academia.org.br/artigos/supremo-tribunal-federal-ordem-na-casa

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Joaquim Falcão - Sexto ocupante da Cadeira nº 3 da ABL, eleito em 19 de abril de 2018, na sucessão de Carlos Heitor Cony e recebido em 23 de novembro de 2018 pela Acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira.


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quinta-feira, 15 de outubro de 2020

BIOGRAFIA DE MACHADO DE ASSIS Por M. Cavalcanti Proença



            Joaquim Maria Machado de Assis nasceu na Rua Nova Livramento, no Rio de Janeiro, filho de Francisco José de Assis, “mulato pintor” e de Maria Leopoldina Machado de Assis, “portuguesa ilhoa e, segundo a tradição, lavadeira”. Como se vê, os pais eram pobres; mas dados a relações com gente de sociedade. Por isso, o “inocente”, como se dizia nas certidões de batismo, teve padrinhos importantes – Maria José de Mendonça Barroso, viúva do general Bento Pereira Barroso, que fora ministro no primeiro reinado e na regência, e senador do império; e Joaquim Alberto de Sousa Silveira, dignitário do Paço, comendador da Ordem de Cristo, oficial da Ordem Imperial do Cruzeiro. O batizado foi na capela dedicada a N. S. da Penha, construída em terras que haviam pertencido ao general e, por isso, mais conhecida como “capela da chácara do Barroso”. Dos nomes dos padrinhos formou-se o Joaquim, sendo que o “Maria” contentava também a mãe do menino.

            Foi garoto alegre e travesso, querendo bem a madrinha e dela muito querido; teve mãe e irmã pequena, ambas deixando a vida e Joaquim Maria muito cedo. O pai casou-se com Maria Inês, mulata que não teve filhos e se afeiçoou maternalmente ao enteado; foi ela quem lhe ensinou a ler, sem poder adivinhar o que viria a fazer o menino com as letras que ia aprendendo a juntar. “Coisas futuras.”

            Continuou os estudos na escola pública, com disciplina reforçada pela palmatória. Depois, morto o pai, lá se foi, com a madrasta, para um colégio dirigido por senhoras não muito prósperas; tanto que, para reforço do orçamento, fabricavam balas e doces; madrasta e enteado trabalhavam nessa indústria, ela na cozinha, ele de vendedor ambulante. Nesse tempo moravam em São Cristóvão, para onde se haviam mudado ainda em vida do pai, que era amigo do vigário do bairro. E Joaquim Maria já revelava pendores intelectuais, não perdendo ocasião de ler e de aprender: a padaria do bairro era de uma francesa, e francês o forneiro, lá ia o menino tomar lições de língua então indispensável para dar lustro às pessoas.

            Já rapazinho, se aproximou de Paula Brito, proprietário do periódico Marmota Fluminense, e que tinha uma tipografia e loja de artigos diversos, onde se reuniam intelectuais. A tradição refere, sem prova, que ele foi aprendiz nessa oficina. Certo mesmo é que, no nº 539 daquele “jornal de modas a variedades”, edição de 21 de janeiro de 1855, aos dezesseis anos, publicou o seu primeiro poema – “Ela”. Fraco poema; mas não inferior aos que outros, já veteranos, publicavam. E, principalmente, era a estreia, o nome em letras de forma, o marco inicial de uma carreira que, até 1908, se estenderia por mais de meio século de trabalho paciente, ascendendo, sem parada e sem retorno, rumo à perfeição.

            Nesse tempo, diariamente, toma a barca na Praia Formosa, desce no Cais dos Franceses, atual Praça Quinze, e vai, a pé, até a Imprensa Nacional, que ficava na Rua da Guarda Velha (atual Treze de Maio) , onde, aí sim, em 1856, era aprendiz de tipógrafo. Aprendiz não dos melhores, no conceito do chefe das oficinas, implicando com seu jeito de mergulhar na leitura sempre que lhe dava uma folga, e até fora dela. Mas o Diretor deseja conhecê-lo, talvez mesmo em consequência do motivo das queixas. Conhece-o, e logo se tornam amigos; coisa muito natural, porque esse diretor se chamava Manuel Antônio de Almeida, o romancista de Memórias de um Sargento de Milícias, livro hoje considerado peça indispensável de nossa evolução literária.

            Em 1858, Machado de Assis é revisor e caixeiro na tipografia de Paula Brito; nessa época se vão ampliando as suas colaborações em vários jornais, até que, a convite de Quintino Bocaiúva, começa a escrever no Diário do Rio de Janeiro e na Semana Ilustrada.

            O primeiro volume publicado é de versos; nem tão moço o autor (25 anos), como era costume na época; título meio simbólico para quem sonhava com a glória – Crisálidas.

            Tem aumentado o número de amigos e camaradas de rodas intelectuais, do grupo de Marmota, da Sociedade Petalógica (Peta – mentira; lógica – estudo), onde há muita mediocridade. Mas há, também, o grupo, em que ele se integra, dos que frequentam o consultório do médico Dr. Andrade Filgueiras, conhecem Ramos da Paz, Macedo, José de Alencar, Francisco Otaviano, o escritor francês Charles Ribeyrolles, cujo livro Brasil Pitoresco, Manuel Antônio de Almeida traduz. O filho herdara a tendência paterna de relacionar-se com gente de nível social mais elevado que o seu.

            Na Imprensa Nacional, torna-se auxiliar do Diretor do Diário Oficial. Em 1873 foi nomeado primeiro-oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas; em 1881, Oficial de Gabinete do ministro que é Pedro Luís, autor de um poema célebre ”Terribilis Dea”, em que se inspiraria Castro Alves para escrever o seu poema, antitético, “Deusa Incruenta”.

            Em 1888 recebe a comenda da Ordem da Rosa, no grau de oficial; no ano seguinte é nomeado diretor da Diretoria de Comércio; em 1892, já na República, Diretor-Geral de Viação; posto em disponibilidade em 1898, logo depois reverte à atividade, como diretor da Secretaria da Indústria do Ministério da Viação, e, mais tarde, Diretor-Geral de Contabilidade.

          Nessa altura da vida, podia olhar para trás e rever-se no menino que brincava descalço no morro do Livramento. Recebera títulos e honrarias, era, deste 1897, presidente da Academia Brasileira de Letras; recebera em sessão solene, dessa mesma Academia, um ramo de carvalho de Tasso, enviado da Itália por Joaquim Nabuco. (1) A honra final não poderia prever: diante do seu ataúde, em nome dos acadêmicos, falaria comovidamente o mais ilustre dos brasileiros vivos, Rui Barbosa.

            Esta acumulação de datas, indicando a sua ascensão econômica e social, impôs-se neste resumo, pois, num país em que a profissão de escritor ainda hoje é precária, quisemos acentuar que a carreira burocrática lhe deu tranquilidade econômica para escrever e aperfeiçoar-se, ficando o serviço público, neste, como em outros casos, credor de nossa literatura.

            Duas outras datas, e que não podem ser esquecidas: 1869, ano do seu casamento com D. Carolina Augusta Xavier de Novais, e 1904, ano em que ela morreu. A mulher, imortalizada no seu melhor soneto, lhe trouxe uma tranquila felicidade; e, até certo ponto, se pode dizer que ao seu desvelo se deve a plena realização do escritor: sem Carolina, principalmente depois que nele se manifestou a epilepsia, seria, talvez, interrompida a linha ascensional que diagramatiza a carreira literária de Machado de Assis.

            Conheceu-a quando entrou a fazer parte do grupo chefiado por José Feliciano de Castilho, escritor português, erudito, mas sem talento criador, o mesmo que negou, em campanha sistemática, a obra de José de Alencar. Do grupo participavam Emilio Zaluar, Ernesto Cibrão, Artur Napoleão, e, mais tarde, Faustino Xavier de Novais, poeta satírico. Entre Castilho e Alencar, Machado de Assis não tomará partido, se bem que, anos depois, venha a escolher o romancista de Iracema para patrono de sua cadeira na Academia, e lhe preste publicamente o testemunho de sua admiração.

            Amigo de Novais, veio a conhecer-lhe a irmã que ele mandara buscar a Portugal. Ela chegou ao Brasil na casa dos trinta, livre e desimpedida de compromisso de amor; na idade em que a maioria das mulheres já tinham filhas casadoiras, não será muito rigor chamá-la de solteirona. Cinco anos mais velha que ele, “sem ser bonita, deve ter sido extremamente simpática e atraente”, supõe Lúcia Miguel Pereira, em sua biografia do escritor. Em Portugal, conhecera Camilo Castelo Branco, Gonçalves Crespo, outros literatos; aqui, estando o irmão doente dos nervos, organiza reuniões para distraí-lo. Entre os convidados, Machado de Assis. E o namoro começou. E teve logo a oposição de parte da família, Adelaide e Miguel, os últimos chegados de Portugal. Motivo: Carolina era alva, branca, e o namorado, mulato sem disfarce. Duas senhoras brasileiras amadrinharam a causa, o casamento se fez. A operação durara dois anos, de começos de 1867 a 1869.

            Valeu a pena insistir: D. Carolina foi excelente esposa e companheira. Deu-lhe um lar harmonioso; concentrou em si a bondade e o carinho da mãe, da madrasta, da madrinha que ele perdera. Morta a esposa, dizem os biógrafos de Machado que ele retratou a vida do casal em Memorial de Aires. Vida realmente feliz.

            Bem casado, glorioso, reconhecido, inclusive, pela nova geração do seu tempo, como escritor máximo da literatura brasileira, realizou-se, lenta e progressivamente, sem retornos, sem descaídas. É tempo, assim, de falar de sua obra.

            Na poesia não esteva à sua própria altura. Diríamos, até, que se lançou no gênero, porque era esse o de maior voga na época, o que reunia os grandes nomes literários. Poucos os poemas em que atingiu a atmosfera da poesia. O restante é um versejar nem sempre com bons ouvidos ou boas imagens.

            É verdade que Lúcia Miguel Pereira afirma que “ele foi inegavelmente poeta”; mas, na mesma página, tratando das resistências de Machado a dar a edição das Poesias Completas, reconhece que “talvez sentisse, com o seu agudo senso crítico, que na poesia não se realizaria inteiramente”. Nesse tempo, 1901, já haviam sido publicados: de Bilac, Poesias; de Alberto de Oliveira, Canções Românticas, Meridionais, Sonetos e Poemas, Versos e Rimas, Poesias Completas; de Raimundo Correia, Primeiros Sonhos, Sinfonias, Versos e Versões, Aleluias, Poesias; de Vicente de Carvalho, Relicário. Note-se que, em Poesias Completas, muitos poemas dos primeiros livros aparecem com correções de métrica e de vocabulário, supressão ou alteração de versos, mostrando que Machado de Assis acompanhava a evolução da técnica literária, posta em evidência pelo parnasianismo.

            A prosa, entretanto, é o terreno eu que edificou a sua glória. Nela se tornou mestre e modelo, a seguir e imitar.

            Para Lúcia Miguel Pereira, os três primeiros livros – Contos Fluminenses, Histórias da Meia Noite e Ressurreição, - ele os conseguiu fazer “quase inteiramente maus”. Os contos foram escritos de encomenda, premência de colaboração para os jornais; o romance foi armado obedecendo a um esquema, e não contém aquele traço de catarse, de confissão, a presença, enfim, do escritor que precisa libertar-se do tema que o empolga de entusiasmo ou de angústia. Mas não são matéria a desprezar esses primeiros livros de prosa, pois, neles, aqui e ali, já desponta o talento que irá dirigir o escritor sempre para o melhor, o mais alto, como aquele moço do poema de Longfellow, em cuja flâmula se achava inscrito o lema – ad Excelsior. (2)

            Helena, ainda romântico, de enredo folhetinesco, e Iaiá Garcia, história do nascimento, vida e glória de um amor, já possuem muito daquele estilo remanchado, passinho à frente, passinho atrás, que irá dar-nos a pintura minuciosa, quase microscópica, de Brás Cubas. Quincas Borba, Capitu e Bentinho, para atingir a cristalização sem jaça de Esaú e Jacó e Memorial de Aires.

            Dos contos poderemos citar “A Academia de Sião”, “A igreja do Diabo”, “A Cartomante”, “Cantiga de Esponsais”, “A Desejada das Gentes”, “Noites de Almirante”, para falar só dos que reúnem o beneplácito coletivo, embora saibamos muito incompleta a lista.

            Pouco a pouco o estilo de Machado de Assis atingiu a condição de Instrumento afinadíssimo, capaz de entretons, de sugerir mais que dizer, dominando o leitor, com quem dialoga e discute os estados de alma dos personagens. E a quem transmite o ceticismo, a dúvida, a ironia melancólica das afirmações interrogativas, das perguntas que não pedem resposta.

            São unânimes os críticos em dividir a obra machadiana em duas fases, ficando as Memórias Póstumas de Brás Cubas como marco divisório. A segunda não é, certamente, a que mais agrada ao grande público, mas é nela que encontramos o escritor na plenitude do poder criador, do talento e da técnica; nela é que se devem deter os que desejam estudar a literatura em si, como transmissão de experiências e como integração de tema e expressão.

            Antes de passar à relação das obras do escritor, limitando-a à poesia e ficção, nada melhor para encerrar esta biografia, que já vai longo, do que o fecho posto por Lúcia Miguel Pereira na sua Biografia de Machado de Assis, hoje livro fundamental para o estudo e conhecimento do romancista.

            “À medida que se vai recuando para o passado, sentimos melhor o que representa para o Brasil este mestiço que tanto elevou a sua gente e o seu país, a pureza dessa personalidade que paira sobre a literatura brasileira, como um símbolo da nobreza do pensamento e do poder do espírito.”

 

OBRAS POÉTICAS E DE FICÇÃO:

1864 – Crisálidas (poesia)

1870 – Falenas

1870 – Contos Fluminenses

1872 – Ressurreição

1873 – Histórias da Meia-Noite

1874 – A Mão e a Luva

1875 – Americanas (poesia)

1876 – Helena

1878 – Iaiá Garcia

1881 – Memórias Póstumas de Brás Cubas

1882 – Papéis Avulsos

1884 – Histórias sem data

1891 – Quincas Borba

1896 – Várias Histórias

1899 – Páginas Recolhidas

1900 – Dom Casmurro

1901 – Poesias Completas

1904 – Esaú e Jacó

1906 – Relíquias de Casa Velha

1908 – Memorial de Aires

 

( 1) Torquato Tasso (1544-1595) – poeta italiano, autor da epopeia GERUSALEMME LIBERATA.

(2) Longfellow, Henry Wadsworth (1807-1882) – poeta norte-americano, muito conhecido pelo seu poema romântico EVANGELINA         

 

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Fonte:

CLÁSSICOS BRASILEIROS (Machado de Assis) – Dom Casmurro

EDIÇÕES DE OURO

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quarta-feira, 14 de outubro de 2020

AGORA SOU ESPERANÇA – Dinah Silveira de Queiroz



Eu venho do existir mas não ainda da Esperança, e agora sou Esperança. Do infinito painel da Eternidade, do ontem, do hoje, do amanhã, eis que amanheço. Há quantos séculos, há quantos milhares de anos me esperavam aqueles seres nas regiões a que chegavam, depois da morte? Vinham, volteavam. Moviam-se lentos, obscuros, uns agarrados a outros, no cinzento de suas meias vidas, como esboços de homens. Eu lhes trazia a cor, a Esperança. Eles seriam desatados e partiriam para sempre à convivência da mansão de meu Pai, onde há moradas para todos os justos. Eles não sabiam do tempo. Eles se moviam num plano em que se entrelaçavam todas as vidas e todas as gerações. Mas eles sofriam da fome e da sede da vida eterna, da qual eram apenas sombras físicas, como o princípio da vida no seio da mãe. E se tornariam coloridos, vivos e amanheceria nessas regiões do Limbo, àquela hora em que lá estivesse, em suas moradas, para levá-los ao Pai. Eles vinham do negro, do cinzento, para o amarelo, o vermelho e o branco refulgente. Eles vinham para mim e haviam guardado a liberdade em seu mimado mundo que os vivos desconheciam. E lhes entreguei a salvação; e puderam participar do banquete e da alegria de tornar à casa do Pai. Haverá maior felicidade do que a volta à casa de onde viemos, com amor?

Eu pertencia à vida dos anjos, ao mundo que está além das sombras. Mas eu devia voltar e cumprir minha promessa. Desfiz-me da comunhão estreita das almas, do enlace supremo; eu desceria novamente à Terra, mas já não seria como dantes. E eu voltei ao lugar onde me haviam amortalhado: o sepulcro de José de Arimatéia.

Já rompia o sol e uma jovem mulher, aquela a quem curei em corpo e espírito, avançava em direção do sepulcro do qual eu emergia. Para trás, ficavam suas companheiras. Abriu Maria de Magdala a porta do jardim que os guardas do túmulo haviam fechado. Ela caminhou até o subterrâneo, ao fundo do qual deveria estar meu corpo destroçado. Um pouco de luz filtrava pela abóbada da construção, mas, para ela, que desconsolo! O corpo de quem chamara sempre de Mestre, aquele a quem houvera seguido por caminhos e pregações, já não estava mais lá. Como suas companheiras ainda não haviam chegado, para elas voltou:

- Levaram o Senhor! Levaram o Senhor!

Desarvoradas, as mulheres agora comprovavam o que Maria de Magdala havia dito: sobre a lousa já não estão mais meus despojos. Mas os olhos dessas mulheres de repente se alargam de espanto. Ali, com a luz da madrugada, luzes outras envolvem visões sobrenaturais. Agora, eles, os anjos, bem aparecem em cada lado do lugar onde repousava meu corpo flagelado. E as minhas testemunhas - pois eram dois os mensageiros, e para meu povo só valiam dois testemunhos ou mais - bem lhes perguntavam:

- Por que buscais entre os mortos aquele que está vivo? Ressuscitou, conforme predisse. Recordai as palavras ditas na Galileia: - É preciso que o Filho do Homem seja entregue às mãos dos homens, seja crucificado e ressuscite ao terceiro dia. Ide pois e dizei a Pedro e aos demais discípulos que ele mesmo aguardará na Galileia. Ali o vereis, segundo sua promessa.

E vieram os discípulos e viram vazio o meu sepulcro. João e Pedro acreditaram, então, firmemente na Ressurreição, e saíram daquele lugar meditando nas palavras a eles transmitidas pelas mulheres. E talvez não tenham, no momento, dado atenção, ali no jardim, a uma criança chorando pelo pai, guardando a sepultura, a mais humilde entre todas. Estava ali a mulher que um dia vi elevar-se e purificar-se: Maria de Magdala. estava trespassada por sua dor imensa e queria estar ali, gemendo e chorando, bebendo o seu pranto, como o fazem as crianças, quando não são acalentadas. Pelo jardim, agora ela vê um homem vestido de branco a atravessar um pequeno caminho. Agrada-me surpreendê-la:

- Mulher, por que choras? A quem buscas?

E já era tão modificado o meu todo que Maria não me reconheceu, supondo que eu era o jardineiro. Eu a conhecera criança, ela me vira e acompanhara por todos os anos de pregação, mas ali meu semblante tinha marcas desconhecidas de sua convivência.

- Senhor, disse-me ela, - se o haveis tirado daí, dizei-me onde o pusestes e eu irei buscá-lo e o levarei comigo.

Então, eu a nomeei por seu próprio nome: Maria. Seu rosto se transtornou. Sua entrega ao momento quase a abateu. E me reconheceu e arrojou-se a meus pés:

- Meu Senhor! Meu Senhor!

E me beijava os pés.

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Perguntariam mais tarde os apóstolos por que à Maria de Magdala eu apareceria em primeiro lugar, na reconciliação e na redenção do pecado. Fi-la levantar-se:

- Não pertenço mais à Terra. Em breve me distanciarei de todos para voltar a meu Pai que é também vosso Pai. A meu Deus que é também vosso Deus.

E ela não mais me viu. E o horto ficou deserto e só o canto dos pássaros lhe fizeram companhia, o bulir das árvores e a graça da manhã, manhã de Páscoa, a que me recebera.

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Porque eram homens, havia entre eles o ciúme dos homens. E meus discípulos levariam muito tempo a perguntar: - "Por que, por que, o Senhor, à Maria Magdala apareceu primeiro?" E se a seu lado, de Pedro, de João, de Tiago, de André, eu estivesse em pessoa, na carne que vesti, poderia responder, como agora vos digo a vós em meu Memorial:

- Porque no jogo infinito do amor eterno existe a mesma natureza de qualquer amor humano, que perdoa, e tanto mais ama quanto mais perdoa.


(Memorial de Cristo II, Eu, Jesus, 1977.)

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Dinah Silveira de Queiroz
- Sétima ocupante da Cadeira 7 da ABL, eleita em 10 de julho de 1980, na sucessão de Pontes de Miranda e recebida pelo Acadêmico Raymundo Magalhães Júnior em 7 de abril de 1981.

 

https://www.academia.org.br/ 

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terça-feira, 13 de outubro de 2020

QUEM É ESSE TRANCOSO DAS ANTIGAS HISTÓRIAS INFANTIS? - Evanildo Bechara


Num mergulho nos tempos da minha idade infantil, que já vão longe, guardo com saudade as histórias que me contavam mamãe ou a ama de leite, nossa Tatá, de nome verdadeiro Gertrudes.

Nesses momentos de acalanto ouvia histórias de Trancoso. Com o continuar dos tempos e a curiosidade intelectual, fiquei interessado em saber quem tinha sido esse tal Trancoso, cujas histórias competiam com os Contos da Carochinha.

Trancoso fazia parte do nome completo de Gonçalo Fernandes Trancoso, um dos primeiros contistas portugueses, que, para aplacar as dores pela perda da esposa, de uma filha de 24 anos, de um filho estudante e de um neto, em virtude da peste que assolou Lisboa em 1568, resolveu escrever sobre a necessidade de uma cultura sólida para os jovens da época, principalmente as moças, dentro da ética eclesiástica. Assim, em 1575 surgiram as duas primeiras partes dos Contos e histórias de proveito e exemplo, completadas com uma terceira depois da 4.ª edição.

O livro teve sucesso entre os séculos XVI e XVIII, época em que entrou em quase completo silêncio até o século XX, quando pesquisadores de outros campos do saber, como ética, cultura geral, reciprocidade e educação exemplar, procuraram nas histórias infantis informações preciosas nem sempre recolhidas em outros trabalhos literários.

No ano 2000, o professor Fernando Ozório Rodrigues, colega da Universidade Federal Fluminense que desde a dissertação de mestrado mergulhou nas informações e na necessidade de uma edição criteriosa sobre Trancoso, concluiu sua tese de doutorado “Trancoso e as histórias de proveito e exemplo: o texto, a língua e o léxico”. A tese, defendida na UFRJ depois de quase dez anos de pesquisa no Brasil e no estrangeiro, culminou com a edição n.o 9 da Coleção Estante Medieval, publicada pela editora da UFF, em 2013.

Portal da ABL, 13/10/2020

 

https://www.academia.org.br/artigos/quem-e-esse-trancoso-das-antigas-historias-infantis

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Evanildo Bechara - Quinto ocupante a Cadeira nº 33 da ABL, eleito em 11 de dezembro de 2000, na sucessão de Afrânio Coutinho e recebido em 25 de maio de 2001 pelo Acadêmico Sergio Corrêa da Costa.

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segunda-feira, 12 de outubro de 2020

O OLHAR DOS BRASILEIROS SE VOLTA PARA O TRONO DA RAINHA DA CLEMÊNCIA

 11 de outubro de 2020

 


Em louvor a Nossa Senhora Aparecida, neste dia em que celebramos a Rainha do Brasil, segue trecho de um artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado no “O Legionário” de 17-12-1939.

“Lembro-me invencivelmente de Aparecida do Norte, e das impressões profundas que tenho colhido sempre que ali vou rezar aos pés de Nossa Senhora.

Onde, no Brasil inteiro, um lugar para o qual, com tanta e tão invencível constância, se voltam os olhos de todos os brasileiros? Qual a palavra que tem entre nós o dom de abrir mais facilmente os corações? Qual a evocação que mais ardentemente do que a Aparecida nos fala de toda a sensibilidade brasileira retificada em seu curso e nobilitada em seus fins sobrenaturais?

Quem, ao ouvir falar em Nossa Senhora Aparecida, pode não se lembrar das súplicas abrasadoras de mães que rezam por seus filhos doentes, de famílias que choram no desamparo e na miséria o bem-estar perdido e se voltam para o Trono da Rainha da clemência, de lares trincados pela infidelidade, de corações ulcerados pelo abandono e pela incompreensão, de almas que vagueiam pelo reino do erro à procura do esplendor meridiano da Verdade, de espíritos transviados pelas veredas do vício, que procuram entre prantos o Caminho, de almas mortas para a vida da graça, e que desejam encontrar nas trevas de seu desamparo as fontes de uma nova Vida?

Onde se pode sentir de modo mais vivo o calor ardente das súplicas lancinantes, e a alegria magnífica das ações de graças triunfais? Onde, com mais precisão, se pode auscultar o coração brasileiro que chora, que sofre, que implora, que vence pela prece, que se rejubila e que agradece, do que na Aparecida? E sobretudo, onde é mais visível a ação de Deus na constante distribuição das graças, do que na vila feliz, que a Providência constituiu feudo da Rainha do Céu?

Nada, no ambiente de Aparecida, impressiona a imaginação pela grandeza das linhas arquitetônicas ou pela riqueza do acabamento. Mas o ar está tão saturado de eflúvios de prece e de orvalhos de graça, que qualquer pessoa sente perfeitamente que Aparecida foi designada pela Providência para ser a capital espiritual do País”.

https://www.abim.inf.br/o-olhar-dos-brasileiros-se-voltam-para-o-trono-da-rainha-da-clemencia/

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domingo, 11 de outubro de 2020

NUVENS NEGRAS – Péricles Capanema

11 de outubro de 2020


Péricles Capanema

Em 14 de novembro de 2018 divulguei artigo intitulado “Hora de observar o panorama”. Era momento de analisar o que vinha pela frente no País, ponderar possibilidades, alimentar esperanças e, em especial, evitar ilusões. Jair Bolsonaro eleito formava o governo, três semanas depois do segundo turno.

O antipetismo que determinou a eleição de Jair Bolsonaro abriga em seu bojo variadas correntes. Alguns exemplos em fieira. Ali se destaca o conservador em matéria de costumes, porém apático em relação à economia muito estatizada. Boa parte constituída de gente simples, representa enorme força eleitoral. Existe o liberal [privatista] em economia, libertário nos costumes, comum nos setores letrados. A ele em geral impacta pouco a ideologia do gênero, a generalização do aborto, o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, a agenda LGBT. Temos o homem de hábitos antissocialistas, mas que admite sociedade nivelada para seus netos ou bisnetos. São influentes setores organizados da burocracia estatal, que com certeza espernearão quando da aprovação das reformas que ora se anunciam. A lista é maior, muita gente ficou de fora.

No verso da moeda, um gigantesco contingente popular, de hábitos e até princípios conservadores, pouco instruído, votou em Fernando Haddad por temer a perda de apoios assistenciais, caso vencesse Bolsonaro. Com propostas e trabalho inteligente, pode mudar o voto. Se a economia andar bem, a frente eleitoral que elegeu Bolsonaro tem condições de se manter sem fissuras destrutivas. Caso marche mal (e aqui pode influir muito a situação internacional, sobre a qual nada podemos), tal frente corre risco de desagregação rápida. Paro por aqui. Quem avisa, amigo é.

No Natal de 1971, 26 de dezembro, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira publicou na “Folha de S. Paulo” artigo intitulado “Luz, o grande presente”. Dirigia-se a todos os autênticos homens de boa vontade para que vigiassem nas trevas da situação e, como os pastores, refletissem e esperassem. Na presente escuridão, espero que o artigo, bico de lamparina, possa para alguns leitores ser um presente (um pouco de luz) e assim facilite a subida em elevações para observar o panorama. Depois, passos para frente no rumo certo. Agir com desídia trará retrocessos, a perda do que foi conquistado com enorme esforço.

Vou fazer o mesmo agora; estamos, de novo em situação de encruzilhada, de perplexidades, hora de observar o panorama, no qual tanta gente, eu também, vê nuvens negras; claro; não só cumulonimbus; existem algumas do tipo cumulus.

O conservador espancado. 

Primeiro, passarei o olhar rapidamente por partes do horizonte e depois me fixarei em um só assunto: “o conservador em matéria de costumes, […] gente simples, representa enorme força eleitoral”. É o foco de hoje, o conservador de costumes, homem simples, religioso. Lembro o que disse acima, se a economia andasse bem, a frente que elegeu Bolsonaro poderia permanecer unida. Se andasse mal, viriam fissuras e desagregação. Vieram, explodiu a frente, a economia está em frangalhos. E sentem-se espancados os conservadores em matéria de costumes. Abaixo, vou falar a respeito.

O enigma da 2ª turma. 

Antes, partes preocupantes do horizonte. O pessoal conservador tremeu nas bases com a indicação do desembargador Kássio Nunes Marques para a vaga aberta no STF pela aposentadoria do ministro Celso de Mello. Ele substituirá o decano do STF na 2ª turma que, parece, passará a ser constituída pelos ministros Cármen Lúcia, Edson Fachin, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes, Kássio Nunes. Por esta turma passarão matérias importantes, agora um tanto esvaziadas pela votação oportuna determinada pelo ministro Luiz Fux, que fez com que voltassem para a decisão do plenário da corte inquéritos e ações penais antes submetidos ao crivo em geral complacente da dupla Gilmar Mendes-Ricardo Lewandowski. Um terceiro voto constituiria maioria vencedora. E se temia, pela publicação na imprensa de indícios preocupantes, que a dupla Gilmar Mendes-Ricardo Lewandowski se transformasse em repetidas ocasiões numa trinca, pela adesão do novo ministro, Kássio Marques. Temos um enigma agora; poderá virar pesadelo; poderá também se dissolver. O tempo dirá.

Esfriamento de Washington. Aproximação com Pequim? 

Vamos adiante. Segundo as pesquisas divulgadas pela mídia, a vitória de Joe Biden na eleição norte-americana parece segura, com previsível esfriamento das relações entre Brasília e Washington e fortalecimento dos laços entre Pequim e Brasília como contrapartida. E aí, noto de passagem, os setores nacionalistas que hoje emperram as privatizações, empilhando entre outras alegações que não podemos entregar blocos estratégicos ao capital internacional (sobretudo norte-americano), suspeito, vão silenciar, quando estatais chinesas começarem (começarem, não; continuarem) a abocanhar partes da infraestrutura nacional. Tal caminhada, a lógica nos empurra para lá, tem um destino final ainda oculto nas sombras de um futuro mal disfarçado, é o Brasil passar à condição inconfessada de protetorado, se nossa diplomacia agir com inépcia e/ou traição aos verdadeiros interesses nacionais.

Surto de chavismo. 

O site “O Antagonista” transcreveu opiniões do Sr. Kássio Nunes Marques sobre a situação venezuelana. Segundo suas surpreendentes reflexões, chamemo-las assim, não parecem infelicitar a simpática nação nortenha as delirantes experiências do “socialismo do século XXI”, impostas tiranicamente por Chávez e Maduro, mas tão-somente as quedas dos preços do petróleo. É, aliás, o despautério divulgado com descoco pelos maiorais petistas. Kássio Nunes Marques afivela nele suas convicções: a baixa do preço do barril do petróleo levou a Venezuela a “níveis de decréscimo econômico jamais vistos”. Constato cm tristeza, o douto magistrado desembesta na mesma bernardice: “Isso se refletiu da economia para a política e da política para as questões humanitárias”. E parte para fantasias sem amarras — relevem o português e a lógica: “Com a alta do barril, a Venezuela experimentou níveis de prosperidade jamais vistos. Houve uma política de transferência e distribuição de renda, uma infraestrutura do setor de saúde e educação”.

Ampliação dos casos de aborto legal. 

Chego, por fim, ao que é mais momentoso, coloco-o em destaque; tratei dele pela rama acima: “o conservador em matéria de costumes, […] gente simples, representa enorme força eleitoral”. A deputada mais votada no Brasil, Janaína Paschoal (2.060.780 votos), que foi cotada para vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro, prestigiada professora de Direito na USP, escreveu com autoridade que, pelo que está defendido na tese de mestrado do Sr. Kássio Nunes Marques, poderemos em futuro próximo amargar no Supremo sucessivos votos favoráveis à ampliação do aborto, como decorrência da sustentação da “interrupção da gravidez” como direito da mulher.

Vejamos o que afirma a professora Janaína Paschoal: “Acabo de ler a Dissertação de mestrado do desembargador Kássio Nunes Marques. […] Um ponto me preocupou. O […] candidato, citando Dworkin, diz que o Judiciário pode ser acionado para fazer frente à maioria conservadora. Ilustra com o caso do aborto. [NB O Judiciário impõe legalmente o aborto contra o desejo da maioria popular conservadora]. […] O magistrado traz como exemplo justamente o caso Roe v. Wade, aduzindo que o direito ao aborto foi garantido nos EUA. […] Conheço bem a ideia de que aborto é apenas questão de saúde da mulher. […] Não esperava encontrar tal posicionamento em jurista indicado por Presidente eleito como conservador! […] Como eu, a esmagadora maioria dos eleitores de Bolsonaro é contrária à legalização do aborto, defendida pelo PSOL. Justamente a maioria ‘conservadora’, que o Judiciário não deve ouvir, conforme Dworkin, citado por Dr. Kassio Nunes Marques, sem nenhuma ressalva. […] Os eleitores de Bolsonaro não votaram nele para ter decisões típicas de um governo Haddad!”

Volto ao tema. A nomeação do desembargador Kássio Nunes Marques para o STF, se ele lá votar consoante as opiniões que cita sem reserva em sua tese de mestrado, seus votos eventualmente contribuirão para formar maioria a favor da ampliação dos casos de aborto permitidos no Brasil. O povo não os quer? Pouco importará, o Judiciário os imporá por via judicial, tornar-se-ão leis. É retrocesso civilizatório, temor da Profª Janaína Paschoal. Tal involução democrática constituirá bofetada no que intitulei “conservador em matéria de costumes, […] gente simples, que representa enorme força eleitoral”. Espero que não aconteça, rezo para que não aconteça, mas compartilho o receio da deputada Janaína Paschoal. Em suma, meu maior anseio é estar inteiramente errado em meus receios aqui expressos.

Por fim, o que tem a dizer a respeito neste momento crucial a CNBB, que tem manifestado posição contrária à ampliação do aborto no Brasil? Não irá, em defesa da vida, reclamar esclarecimentos inequívocos ao desembargador Kássio Nunes Marques, ao Senado e ao Executivo? Ou se esconderá no silêncio nesta questão central para nosso futuro de nação cristã? Silêncio envergonhado, pensarão muitos. Fuga do dever, pensarão outros. Um forte brado de zelo pastoral da entidade dissiparia nuvens negras se adensando no horizonte. De tais nuvens negras sobre nós despencarão, por décadas e décadas, chuvas ácidas.

 https://www.abim.inf.br/nuvens-negras/

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