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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

A CORRIDA DOS SENTIMENTOS



A Corrida dos Sentimentos


Era sol. Todos os sentimentos se preparavam para a grande corrida.

A ansiedade chegou primeiro. Não via a hora de começar. 

A dúvida foi a última a chegar, estava sempre questionando onde essa corrida ia dar.

A derrota desistiu antes mesmo de começar.

A alegria deu um salto à frente e disse:  Vamos lá! 

Todos se preparavam para a largada: 3,2,1, já! 

A tristeza põe-se a chorar, “Como vou conseguir chegar lá?”

A dor levou um tombo e começou a gritar.

A intolerância berrou: cale essa boca já!

E a dor respondeu: “Não aguento mais, vou parar”.

A coragem falou em alta voz: Vamos amigos, todos nós podemos ganhar!

A inveja logo se manifestou: “Não sei pra que encorajar!”

A esperança pensou alto: “Estamos perto de chegar

O amor, sempre quietinho, observando tudo, resolveu falar: 

“O que acham de todos juntos darmos as mãos e pararmos de brigar? A vida é muito curta para perdermos tempo.

 Podemos cada momento aproveitar? 

E assim, todos os sentimentos deram as mãos e ganharam juntos a corrida. 

A dúvida que não sabia se daria certo, chegou lá. A ansiedade viu que não valia a pena se desesperar. A derrota foi vencida pela esperança. A tristeza se animou com o salto da alegria. A dor foi encorajada com as palavras da coragem. A inveja foi vencida pelo amor e a esperança sempre acreditou. 

Nós também vivemos numa corrida chamada vida. Em alguns momentos, a dor grita e quer parar. A ansiedade não nos deixa aproveitar os bons momentos. A dúvida chega e traz angústias para o coração.

A coragem nos ajuda a caminhar, mais umas milhas. A tristeza mais uma vez nos faz parar. A inveja, olha para o outro e começa a reclamar. A intolerância não aceita nada, mas o amor, Ah! O amor! .... O amor "suporta todas as coisas, acredita em todas as coisas, espera todas as coisas, persevera em todas as coisas. O amor nunca acaba."(1 Coríntios 13:7,8) Ainda que tenhamos maus momentos, o amor nos faz aguentar. Se não fosse o amor de nada valeria!

 

 Autor desconhecido



(Recebi via WhatsApp)


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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

A HONRA DOS BROSSABOURG – Georges Courteline

A Honra dos Brossabourg


           A Baronesa – Esposo meu! Chegou o momento de confessar-vos alguma coisa terrível. Nossa honra, a honra dos Brossabourg, até hoje imaculada...

            O Barão – Que dizeis, senhora? A honra dos Brossabourg?...

            A Baronesa (com dolorosa solenidade) – Senhor de Brossabourg! Vossa honra está para sempre manchada! 

            O Barão – (com entonação terrível) – Vosso cúmplice! O nome do vosso cúmplice, senhora! Necessito afogá-lo em seu próprio sangue! Seu nome prontamente!

            A Baronesa – Ignoro-o!... (Assombro do Barão). É uma história terrivelmente trágica. Ouvi-me e julgai-me. Estais lembrado de que no mês de novembro vieram passar uns dias no castelo vários amigos vossos. Eram eles, o visconde Lamonte, o cavalheiro de Mepier, o senhor de Poilú-Budin, o general barão de La Roussardière...

             O Barão – O doutor Bourdegrave e Oscar Poutrepet. E então?

            A Baronesa – Dois dias depois da chegada de vossos hóspedes achava-me eu nos meus aposentos, mudando de roupa interior. Havia atingido o momento psicológico em que a extremidade inferior da camisa, subindo ao nível da nuca, fica enganchada nos grampos do penteado. Lutava eu para desvencilhar a cabeça desse envoltório, quando ouço, com terror, abrir-se a porta atrás de mim e exclamar, numa voz masculina! – “Raios do céu! Como isto é lindo!...  No mesmo instante, senti uns dedos audaciosos me roçarem a pele, no lado inferior das espáduas... (pudicamente) Corramos um véu sobre o que houve. Quando enfim, pude arrancar a cabeça de entre as pregas da maldita camisa e passear em torno um olhar de nobre indignação, o indiscreto havia desaparecido, deixando uma nódoa indelével no brasão dos Brossaborgs!

            O Barão (soltando uma gargalhada) – Mas como? Não reconheceste a voz?

            A Baronesa – Pela baixeza da expressão, supus reconhecer Poutrepet, e, no mesmo instante, me dispus a apurar a verdade, arrancando ao falso gentil-homem a confissão de sua felonia. Para isso, convidei-o para uma entrevista à meia noite. À hora fixada, abri-lhe a porta do meu aposento, repartindo com ele o meu leito...

            O Barão – Hein?!

           A Baronesa - Sim, esposo meu. Ocultei sob o travesseiro punhal envenenado resolvida a levar a cabo minha vingança ao ter a prova do seu miserável procedimento. Quando o vi prestes a exalar a alma na embriaguez do beijo supremo, disse-lhe com pérfido sorriso, passando-lhe os braços pelo pescoço, numa expressão de fingida ternura: “Confessa tudo, meu amor! Não é verdade que foste tu que entraste ontem no meu aposento no momento em que eu mudava de camisa?” E enquanto dizia isso acariciava o cabo do punhal. Mas ele respondeu: “Como? Não entendo!”, com tal acento de sinceridade, que minhas suspeitas se dissiparam.

            O Barão (enxugando o suor que lhe banha a fronte) – Uff!...

            A Baronesa – Minhas dúvidas recaíram, então, sobre o senhor de Poilú-Budin, cujos olhares libidinosos haviam mais de uma vez chamado a minha atenção. Desejosa de vingar a honra dos Brossabourg, usei do mesmo procedimento anterior, convencendo-me igualmente da sua inocência.

            O Barão (cujos olhos saltam das órbitas) – E, com certeza, suspeitaste também do barão de La Rous-sardière.

            A Baronesa – Exatamente. Por desgraça, minha terceira tentativa resultou igualmente infrutífera, tocando, então, o turno do cavalheiro de Mepier...

            O Barão – E logo ao doutor Boudegrave...

            A Baronesa – Depois ao visconde Lamote, e mais tarde ao nosso cocheiro. Agora, vou fazer e experiência com o porteiro.

            O Barão (fora de si) – É verdade, senhora, que sois mais estúpida que todos os porcos do mundo, juntos. Que meu rosto se cubra de cicatrizes, se pensei, jamais que pudessem advir tais consequências da minha inocente brincadeira daquele dia.

            A Baronesa – Ah!... Mas... Então, foste vós?

            O Barão – Sim, senhora! Fui eu...

            A Baronesa – Louvado seja Deus! Alegra-me saber isso! Pois, à dúvida de que o culpado fora o porteiro, se misturava o indizível terror de que pudesse ter sido aquele imundo criado preto, que trouxeste de Marrocos!...

            

(CONTOS DE ALCOVA)

Compilado por Ives Idílio   

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GEORGES COURTELINE

 

         GEORGES VICTOR MARCEL MOINAUX, que se tornou mundialmente conhecido no mundo literário sob o pseudônimo de Georges Courteline, nasceu em Tours, por volta de 1858 e morreu em Paris em 1929.

          Dotado de fino poder de observação e de uma crítica penetrante, foi inúmeras vezes comparado por essas qualidades ao próprio Molière...

          “A Honra dos Brossabourg”, é um modelo de, sutileza e sobretudo, de poder de síntese. Em meia dezena de palavras, Courteline nos dá uma visão completa e magnífica, embora irreverente, da época em que se passa essa cena inimitável... 

                                       * * *

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Hebreia – Castro Alves

 

Hebreia

                                Flos campi et lilium convallium

                                                   (Cântico dos Cânticos)

 

Pomba de esperança sobre um mar de escolhos,

Lírio do vale oriental, brilhante,

Estrela Vésper do pastor errante,

Ramo de murta a rescender cheirosa!

 

Tu és, ó filha de Israel formosa...

Tu és, ó linda, sedutora hebreia.

 Pálida rosa da infeliz Judéia

Sem ter o orvalho, que do céu deriva!

 

Por que descoras, quando a tarde esquisa

Mira-se triste sobre o azul das vagas?

Serão saudades das infindas plagas

Onde a oliveira no Jordão se inclina?

 

Sonhas acaso, quando o sol declina,

A terra santa do Oriente imenso?

E as caravanas no deserto extenso?

E os pegureiros da palmeira à sombra?!...

 

Sim, fora belo na relvosa alfombra,

Junto da fonte, onde Raquel gemera,

Viver contigo qual Jacó vivera

Guiando escravo teu feliz rebanho...

 

Depois nas águas de cheiroso banho

- Como Suzana a estremecer de frio –

Fitar-te, ó flor do babilônio rio,

 Fitar-te a medo no salgueiro oculto.

 

Vem pois!... Contigo no deserto inculto,

Fugindo às iras de Saul embora,

Davi eu fora se Micol tu foras,

Vibrando na harpa do profeta o canto.

 

Não vês?... Do seio me goteja o pranto

Qual da torrente do Cédron deserto!

Como lutara o patriarca incerto

Lutei, meu anjo, mas caí vencido.

 

Eu sou o lótus para o chão pendido,

Vem ser o orvalho oriental, brilhante!

Ai! Guia o passo ao viajor perdido,

Estrela Vésper do pastor errante!...

 

                                                               Bahia, 1866

(ESPUMAS FLUTUANTES)

Castro Alves

 

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CASTRO ALVES

 

          Antônio de Castro Alves nasceu na comarca de Cachoeira, Estado da Bahia, a 14 de abril de 1847, sendo filho do médico Antônio Alves e de sua mulher, D. Clélia Brasília da Silva Castro. Faleceu na cidade do Salvador a 6 de julho de 1871. Na expressão de Afrânio Peixoto Castro Alves “Pôs suas ideias à frente do seu sentimento e, num tempo em que a miséria da escravidão não comovia ninguém,  despertou com os seus poemas arrebatadores, piedosos ou indignados, a sensibilidade humana e patriótica da geração que, vinte anos mais tarde, viria a conseguir a liberdade. Por isso lhe deram o nome invejável de Poeta dos Escravos. Das alturas do seu gênio compreendera que não há grande homem sem uma grande causa social a que tenha servido, e não aspirava a outra glorificação que a dessa obra realizada. A morte, depois, não importaria...

 

De tumba da infâmia erguer um povo

Fazer de um verme – um rei.

Depois morrer... que a vida está completa

- Rei ou tribuno. César ou poeta,

Que mais quereis, depois?

Basta escutar do fundo lá da cova

Dançar em vossa lousa a raça nova

Libertada por vós...”


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BRASIL: A ARCA DE NOÉ DO SÉCULO XXI? – Hélio Brambilla

26 de agosto de 2020


Hélio Brambilla

          Tantos são os problemas que assolam o Brasil e o seu povo que se torna difícil traçar uma unidade descritiva desse circo de horrores em que a esquerda pretende transformar nosso País. Na verdade, ela quer tocar fogo no circo e permanecer imune e impune. Literalmente, quer ver o circo pegar fogo, ou pelo menos a Amazônia em chamas…

         Comecemos por ver e analisar as desgastadas calúnias de que o Brasil está acabando com a Floresta Amazônica. Os focos de queimadas podem ser decorrentes da técnica milenar da coivara utilizada na limpeza de pastagens ou na preparação de roças para o plantio de pequenos produtores. Ou até mesmo de festas juninas.

          Mas, em todo caso, as queimadas diminuíram em relação a 2019 segundo dados coletados pela Embrapa Territorial e divulgados em 17-8-20.

          A Embrapa noticia que o monitoramento por satélite de referência da NASA das queimadas e fogos ativos, de 1º de janeiro a 16 de agosto deste ano, registrou no Brasil um total de 63.616 pontos de calor. Com relação ao mesmo período do ano de 2019 houve no Brasil uma redução de 2%.

         A Embrapa informa ainda que no bioma Amazônia, apesar do falso alarde de alguns, até 16-8-20, houve uma redução de 15% nas queimadas: 29.710 em 2020 contra 35.145 no mesmo período em 2019. O bioma caatinga também apresenta uma redução de 24% das queimadas com relação ao ano passado.

          O Mato Grosso apresenta 0% de variação nas queimadas com relação a 2019. O Estado registrou até 16-10-20 o total de 13.225 queimadas, incluindo as de parte do Pantanal. O número é quase igual ao do ano passado: 13.238.

          No Pantanal, muitas queimadas transformaram-se em incêndios. Outros foram provocados por raios e por ações criminosas ou de negligência. Segundo a Embrapa, a vegetação aberta e caducifólia da região, onde predominam gramíneas e arbustos, facilita a ocorrência e propagação dos incêndios. Raios com frequência provocam incêndios. A chegada das chuvas tende a encerrar esse ciclo de fogo.

         O que os 152 bispos têm a dizer sobre isso? Macron? Merkel? Greta?

         A dizimação de florestas — de que somos acusados sem cessar — ocorre em sua imensa maioria em áreas de cerrado, pois a floresta amazônica, a rain forest, não pega fogo, tão elevada a sua umidade. Mesmo assim, a derrubada de florestas no País não atingiu 10.000 km2.

         Não que concordemos com esse desmate, mas o fato concreto é que nesse ritmo demoraríamos cerca de 500 anos para abater a última árvore em nosso País. A Greta estaria viva para assistir a cena?

         A imensidão do território nacional é tal que, se por uma catástrofe viesse um novo dilúvio universal e restasse ileso apenas o Brasil — além da pomba e do corvo do relato bíblico da Arca de Noé — caberiam aqui, com a densidade da população de Bangladesh mais de 9 bilhões de pessoas.

         O Brasil é 57 vezes maior do que o território de Bangladesh, que conta com 164 milhões de habitantes em uma área de 147.000 km2. Ou seja, 50.000 km2 menor que o Estado do Paraná com seus 11 milhões de habitantes (Boletim da FAEP, nº. 1477, de 9-6-19).

         Alguém perguntará, mas e comida para toda essa gente? Ora, até o momento utilizamos apenas 8% do nosso território para produção agrícola e 16% para pecuária, e alimentamos 1,5 bilhão de pessoas em todo o mundo.

         Se considerarmos os mesmos índices de produtividade atuais e raciocinarmos em termos hipotéticos, tomando 100% de nosso território, então seríamos capazes de alimentar 6 bilhões de pessoas.

         E haveria mais, muito mais. Basta somarmos, além dos 8,5 milhões de km2, mais 4,5 milhões de km2 da denominada “Amazônia azul” — que é nosso território marítimo e zona econômica exclusiva equivalente à superfície da Floresta Amazônica — em nossa costa com 7.400 km de extensão. Estudos recentes apontam que fazendas aquáticas seriam capazes de produzir o equivalente à atual produção terrestre do Brasil em frutos do mar e algas marinhas.

         Senhores catastrofistas de plantão e ambientalistas radicais, falem com mais fundamento quando disserem que é preciso eliminar 1 bilhão de pessoas da face da Terra para começar a diminuir a pobreza. O exemplo começa em casa. Ajudem com suas fortunas incalculáveis a que os povos tenham mais religião, moral, cultura e tecnologia para produzir mais com menos terras.

         Sigam o exemplo do Brasil que vocês tratam como vilão, mas que em 50 anos, ao aumentar apenas 40% de sua área cultivada, obteve um aumento de mais de 300% na produção, superando índices de produtividade dos EUA.

*   *   *

         Agora, tratemos um pouco do propalado genocídio dos 100 mil mortos pela Covid-19 no Brasil.

          Parece que 152 bispos que se pronunciaram contra o Governo estão caolhos. Afinal, só enxergam eventuais erros no Governo, mas não enxergaram, por exemplo, as blasfêmias todas que ocorreram no carnaval nem a liberação do carnaval por governadores irresponsáveis. Será por serem caolhos ou será por falta de reta intenção?

          Basta ver o jornal “O Estado de S. Paulo”, 8-8-20, que fornece a lista dos Estados que liberaram o carnaval: AM, PA, MA, CE, PE, BA, RJ, SP. Esses Estados totalizaram 69.724 mortes, ou seja, 70.000 em números redondos. Em relação às 100.000 mortes, isso significa que esses Estados que liberaram o carnaval foram responsáveis por 70% das mortes por Covid-19 no Brasil, supondo evidentemente que não se tratem de fake-óbitos.

          152 bispos no Brasil propalam genocídio do Governo, mas não falam uma palavra de eventual genocídio dos Estados. Alegam responsabilidade do Governo por essas mortes, mas não enxergam que apenas 30% das mortes seriam eventualmente de responsabilidade do Governo e dos Municípios.

         Conforme tínhamos advertido em artigo, em abril, no início da pandemia, já denunciávamos que os Estados que tinham liberado o carnaval apresentavam uma quantidade muito maior de infectados.

          Além disso, nem 152 bispos, nem mídia, nem esquerda mundial disseram uma só palavra sobre os responsáveis pelo vírus, ao deixá-lo escapar de maneira acidental ou culposamente.

          Estatísticas apontam quase 1 milhão de mortos e 20 milhões de contaminados em todo o mundo. Isso sem contar o desastre econômico e psicológico que abalou o mundo, enquanto China parece continuar crescendo economicamente.

         É bem verdade que ninguém sabe ao certo quantos morreram na China, porque nenhum regime do mundo foi tão fechado como o regime escravagista chinês. Mas, conforme apontamos em recente artigo tratando a respeito dos fake-óbitos, o número de mortes foi inflado no ocidente e desinflado na China.

         Talvez para glorificar a eficiência chinesa no combate à epidemia, talvez para colocar o ocidente em pânico e, portanto, de joelhos perante a mesma China.

Hipóteses à parte, a história um dia — e esperamos seja em breve — elucidará essa trama secreta universal.


Mas, o que parece mais inusitado ainda foi a entrevista de Dingding Chen [foto ao lado], feita pelo jornalista Jamil Chade para o UOL, em 10-8-20.

         Trata-se de um professor de relações internacionais da Jinan University, em Guangzhou e Diretor do Intellisia Institute, um dos maiores think tanks chineses dedicados à sua política externa. Chade constata que desde o início do governo Bolsonaro, atritos se proliferaram entre a diplomacia brasileira e a chinesa, enquanto exportadores agrícolas e mesmo militares agiram nos bastidores para tentar uma convivência adequada no eixo Brasília-Pequim.

         Chen admite que a curto prazo o Brasil poderia — notem bem, poderia — ser mais afetado por um resfriamento nas relações, principalmente por sua dependência comercial. […] Mas, Pequim é quem perderia a longo prazo com o distanciamento em relação à América do Sul.

         O entrevistado chinês constata que “a China se beneficiou muito da globalização. Muito mais que os demais países nos últimos 40 anos”. Isso não teria sido feito propositalmente pelas forças revolucionárias do mundo?

         Se a China ganhou com a globalização e uma parcela importante da classe média do ocidente tem a impressão de que saiu perdendo, questiona Chade, como esperar,diante dessa situação, que esse sistema possa se sustentar em um cenário em que os políticos culpam a China pela destruição dos empregos?

         Mais adiante, a uma pergunta sobre um eventual conflito armado, Chen respondeu que é “preciso levar a sério a possibilidade de um conflito localizado sair do controle. Historicamente já vimos isso ocorrer, […] o momento é de extrema incerteza”.

         Na última pergunta sobre quem mais perderia com uma relação ruim entre Brasil e China, o entrevistado respondeu que o seu país perderia muito. Comercialmente é algo pequeno diante do significado da relação de longo prazo.

         Ou seja, o desconforto gerado pela quinta-coluna brasileira e ocidental de aumentar os impostos aqui para favorecer a China a se industrializar, levando nossos empregos e fazendo crescer nossa dependência, isso é uma coisa que a classe média não tolera e se indigna.

         Não falemos dos grandes, porque são cúmplices dessa traição. Quanto aos pequenos, não têm força de expressão, e no mais das vezes estão apenas voltados para o seu dia a dia, mas a coisa é diferente com a classe média que carrega o país nas costas e está mais que indignada.

         Outra coisa que o professor chinês não disse, porque não pode mostrar o calcanhar de Aquiles da China, é a questão dos alimentos. Só o Brasil pode oferecer alimentos baratos de alta qualidade e em grande volume para alimentar aquela população que foi acostumada pelo regime comunista a comer todo tipo de insetos e coisas repugnantes.

         Basta lembrar que na China, quase 46% do território são montanhas acima de 4 mil metros de altitude e desertos, incluindo o de Gobi, um dos maiores do mundo. Portanto, impróprios para agricultura.

         No Brasil, boa parte do território é apta para a agricultura, e mais que isso, de altíssima produtividade. Prova disso é que a agropecuária no Brasil segue com recordes de produção e exportação.

         Falam tanto em vacina contra a Covid, mas o que certa imprensa não diz é que o Brasil está inundando o mundo com suco de laranja, ou seja, com pura vitamina C, um imunizante natural excelente.

As exportações de suco de laranja aumentaram 158% neste ano. Fora Covid! Viva o produtor de laranja brasileiro! Nas exportações é provável que tenhamos o maior superavit da nossa história, graças ao agronegócio.

         Basta lembrar da apresentação do Ministro Paulo Guedes para a Frente Parlamentar da Agricultura, em 10-8-20, quando ele afirmou que o PIB brasileiro, nesse ano de pandemia, quase não mudou. Isso graças à agricultura que salvou a economia, pois só da agricultura brasileira é possível tirar três safras por ano.

         Em relação às exportações mundiais, a soja nacional responde por 51% delas; a carne de frango por 34%; a carne bovina por 24%; o farelo de soja por 24%; o milho por 21%; a carne suína por 10% e o óleo de soja por 9%.

         Prova dessa eficiência da agricultura brasileira é que o consumo de diesel chegou em julho/2020 a patamares de antes da crise provocada pela Covid. Onde houver produção e safra agrícola, haverá caminhões rodando pelas estradas.

Segundo o jornal “O Estado de S. Paulo”, 16-8-20, por causa da superprodução de milho deste ano, a safra do Brasil vai alcançar 253,7 milhões de toneladas. Isso é de longe o maior recorde de produção que já houve no Brasil por conta do sucesso da safrinha de milho.

         Além disso, em decorrência da pandemia, o povo brasileiro está poupando mais. Segundo o mesmo jornal, em 12-8-20, os depósitos na caderneta de poupança superaram os saques em 127 bilhões de reais.

         Deus é brasileiro e a Virgem Aparecida é a Mãe D’Ele. Portanto, confiança, trabalho, fé e perseverança. Unidos venceremos a crise! Fora quinta-coluna catastrofista!

 

https://www.abim.inf.br/brasil-a-arca-de-noe-do-seculo-xxi/


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terça-feira, 25 de agosto de 2020

FASCINAÇÃO RECÍPROCA – Péricles Capanema

24 de agosto de 2020

Péricles Capanema


A França tem nova embaixadora no Brasil, Brigitte Collet [foto ao lado]; assume o posto em momento de dificuldades nas relações entre os dois países. Passo ao lado dos assuntos espinhosos, não têm relação próxima com o tema de que vou me ocupar. Objeto também espinhoso. As matérias rugosas precisam ser ventiladas.

A nova representante gaulesa fez saudação de praxe aos franceses residentes no Brasil. Está na rede (“Premier message à la communauté française de l’ambassadrice, Mme Brigitte Collet”). Nela, a diplomata mencionou realidade cada vez menos lembrada, a “fascinação cultural recíproca” existente entre o Brasil e a França. Vem de longe, está inscrita na história dos dois países. Só vou analisar, na fala da embaixadora, a expressão acima referida, o resto fica para outra hora, se ensejo houver.

Nada mais verdadeiro, nada mais justificável que recordar a “fascinação cultural recíproca”, campo com enorme poder evocativo. Contudo, verdade triste, não apenas é expressão cada vez menos lembrada; pior, está se apagando por causas várias o fascínio recíproco, tanto na França, como no Brasil. É tragédia sem nome, estávamos em uma aurora, ainda imersa na neblina, que, afastados os efeitos das tempestades, poderia ter dado origem a progressos autênticos.

Espiadela sobre razões do apagamento.  O deslumbramento a que alude a Sra. Collet não é (ou era) apenas cultural. Ou era cultural em acepção ampla; como André Malraux via a cultura, “herança da nobreza do mundo”; de outro modo, junção harmoniosa de altas perfeições vicejando nos vários âmbitos da vida humana. O fascínio mútuo, encarando mais fundo, era a percepção de traços de personalidade, de valor extraordinário que, pelo enlevo assimilativo, completariam os “role models” predominantes nas duas culturas.

De nossa parte, olho daqui para lá, lembrando a distinção filosófica entre ato e potência, fascinava-nos sobretudo atos, realidades já construídas; uma ou outra vez energias latentes se transformando em atos. Examinando de lá para cá, minha opinião, os franceses eram sobretudo fascinados por potencialidades que avistavam no Brasil (em especial nas pessoas com as quais entravam em contato, para ser mais preciso). Tais pessoas, em geral, ou eram de condição social privilegiada, ou eram de inteligência e cultura privilegiadas. Ou ambas. Constituíam escol, representativo do que de melhor o Brasil, país ainda muito pobre, poderia na época oferecer ao mundo. Por indução, com base em tais amostras, era possível conceber noção real, traços gerais, esboço um tanto brumoso, do que o Brasil um dia poderia chegar a ser, se, entre outros esforços, continuasse aperfeiçoando e tornasse patrimônio comum do povo os valores psicológicos e morais percebidos naqueles encontros, expressos no comportamento.

Tal realidade incipiente de enorme riqueza potencial foi destroçada quase por inteiro. Não foi só desleixo. Houve ação contra, por vezes encarniçada. Se, em vez de lançar pedras, impulsionadas por preconceitos obscurantistas, tais grupos sociais — pessoas, também — fossem, com senso das proporções, prestigiados na vida da nação, ao longo das décadas teríamos tido das mais benéficas e produtivas iniciativas de inclusão social. Uma política autenticamente popular, e sem gastar um tostão do erário nisso. Por contato e admiração, círculos cada vez mais amplos, de forma gradual, partilhariam, ainda que de maneira diferenciada, tais maneiras de ver a vida, de grande potencial de ascensão (fonte de fascínio de estrangeiros que viviam no Brasil, em particular de franceses) florescentes então em particular em ambientes pequenos.

Nada ou quase nada disso aconteceu. Tais grupos informais — moldados por valores, percepções delicadas, modos de viver próprios —, repito, foram sufocados pela desatenção geral, quando não objeto de mofa e desprestígio. Surgiram outros “role models”, ocuparam a cena, relegando os anteriores, como velheiras inúteis, aos desvãos não frequentados das casas.

E era em tais grupos, ilhas no interior dos mundos da cultura e da sociedade educada, que latejava mais forte o fascínio pela França. Em direção contrária, ali em geral estava mais brilhante a origem do fascínio que o Brasil exercia na França. Fascinação recíproca, lembrou a embaixadora. Restam fiapos.

Em vez da subida em número e qualidade de setores autenticamente representativos e da ascensão popular generalizada, disse atrás, novos “role models” dominaram, postiços e caricatos, e com eles se impuseram socialmente em grande número de casos desigualdades desagregadoras e igualitarismos atrofiantes. Primarismos, boçalidades, má educação, incompreensão da vida, quando não a imoralidade solta, em boa parte são marcas distintivas dos primeiros lugares nas cenas pública e social do Brasil de hoje. Basta observar o que vemos e comparar com o que tivemos como figuras de expressão. São marcas da opção preferencial pelo atraso.

“Até o século XIX o idiota era apenas o idiota e como tal se comportava. E o primeiro a saber-se idiota era o próprio idiota. Não tinha ilusões. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais se atreveu a mover uma palha, ou tirar uma cadeira do lugar. Em 50, 100 ou 200 mil anos, nunca um idiota ousou questionar os valores da vida. […] Descobriram que são em maior número e sentiram a embriaguez da onipotência numérica. […] Houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas. […] Os idiotas vão tomar conta do mundo […] O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota” (Nelson Rodrigues). Aconteceu no Brasil, restam fiapos dos ambientes de inundados de simplicidade, finura de percepção e cultivo da educação, onde desabrochavam pessoas com possibilidades de orientar a sociedade e encantar quem nos visitava. Contrastam com tantos homens de relevo do Brasil contemporâneo, figuras grotescas, toscas, contrafações popularescas ou arrogantes do que outrora houve, ainda que em ambientes limitados. Quase diria, uma bênção que evolou deixou no lugar maldição cuja fedentina se entranha em tudo.


Vou dar um exemplo notável de traços do Brasil de outrora (já tenho aludido a ele) que hoje impulsionariam avanços civilizatórios, escolhido entre vários, mas já enterrado na história. Postas as condições atuais, não mais acontecerão, desapareceram os ambientes em que nasciam e se firmavam. Vem de Fernand Braudel (1902-1985) [foto ao lado], muitas vezes considerado o maior historiador francês do século passado. Morou no Brasil entre 1935 e 1937, lecionando na então recém-fundada USP. Conheceu e privou com muitos brasileiros, parte deles intelectuais de expressão, estudou autores nacionais, imergiu na vida intelectual do país. Não só isso. Frequentou casas de família, ouviu observações de pessoas de todas as condições; de outro modo, escutou as palavras e delas percebeu o tom e os entretons. Viajou. Sentiu o calor, o perfume e a cor da sociedade brasileira; sua realidade e seu passado profundos. Ao lado da instrução, veio o embebimento, a educação por osmose.

Em simpósio sobre sua obra, realizado em Châteauvallon, 1985, ano do falecimento, explicou Fernand Braudel: “Eu me tornei inteligente indo ao Brasil. O espetáculo que tive diante dos olhos era um tal espetáculo de história, um tal espetáculo de gentileza social que eu compreendi a vida de outra maneira. Os mais belos anos de minha vida eu passei no Brasil”. Em outra ocasião, meses antes, na Academia Francesa, afirmou: “O Brasil foi o grande período de nossas vidas”. Ainda, “eu me tornei menos banal [no Brasil]”. Constatou agradecido, “foi no Brasil que me tornei o que sou hoje”. Sua grande obra foi “La Méditerranée et le monde méditerranéen à l’époque de Philippe II”. Dela disse: “Não creia que eu teria escrito sobre o Mediterrâneo um livro diferente dos outros, se eu não tivesse estado antes no Brasil”. Perguntado sobre o significado de se ter tornado inteligente no Brasil, respondeu sorrindo: “Talvez tenha sido porque lá eu aprendi a ser feliz”. Claro, em boa medida, é força de expressão dizer que se tornou inteligente no Brasil, utilizada para ressaltar com mais força a gratidão sentida pelo fato de a frequentação de ambientes nacionais lhe ter aberto horizontes mentais decisivos para sua vida intelectual.

Tendo como fundo as palavras de Fernand Braudel, é melancólico constatar, fechou-se um horizonte para nós, perdeu-se inconsideradamente ativo importante. Não haverá um Braudel 2. Por razão simples: mudaram os ambientes de formação, o principal dos quais era o interior das famílias, e com isso o Brasil perdeu uma de suas mais importantes características, digamos assim, nas pegadas do historiador francês, a de fazer os outros mais inteligentes, motor de progresso real. Seria possível recobrá-la? Sem dúvida. Duas palavras a respeito. A primeira coisa, lamentar a perda. Suporia reatar com aspectos do passado, um meia volta volver; quase uma ressureição. Para tal, pedir a Deus, claro. E ainda conhecer direito o que terá encantado tanta gente, pôr de lado contrafações. Daí, ambientes domésticos, comportamentos e “role models” renovados. Outro título para o artigo: brado de afeto e angústia.

https://www.abim.inf.br/fascinacao-reciproca/


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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

POR QUE SE TÊM EMPREGADO O TERMO “ENTREGA” EM VEZ DE “CONSAGRAÇÃO”?

14 de agosto de 2020

Padre David Francisquini


Pergunta — Durante a pandemia do coronavírus, fiéis de vários países pediram a seus episcopados que renovassem a consagração de suas nações a Nossa Senhora, a fim de obter a sua benevolência e o fim da pandemia. Chamou-me a atenção que os bispos da Itália e de Portugal, nos respectivos atos litúrgicos que realizaram para atender a esse pedido, reservaram a palavra “consagração” exclusivamente a Jesus. No que se refere a Maria, empregaram em Fátima o termo “entrega”; e “no santuário italiano de Caravaggio, “affidamento”, que quer dizer a mesma coisa. Achei isso estranho, já que Nossa Senhora em Fátima pediu a “consagração” da Rússia (não apenas a “entrega”) ao Imaculado Coração de Maria. Se a Rússia pode ser consagrada à nossa Mãe do Céu, por que não Portugal ou Itália, quanto mais em uma emergência tão grave como esta?

Resposta — Essa reticência dos prelados e dos teólogos em empregar o termo “consagração” em relação a Nossa Senhora vem desde o tempo anterior ao Concílio Vaticano II, sob pretexto de que “uma consagração propriamente dita não se faz senão a uma Pessoa divina, pois a consagração é um ato de latria, cujo termo final apenas pode ser Deus”, como escreveu o jesuíta Pe. Juan Alfaro.[1]

De fato, em sentido estrito, a consagração é o ato pelo qual uma coisa é transferida de um uso comum e profano para um uso sagrado; ou o ato pelo qual uma pessoa ou coisa é dedicada ao serviço e ao culto de Deus por meio de orações, ritos e cerimônias. Assim, fala-se da consagração de uma igreja, de um altar ou de um bispo. O conceito tem um aspecto positivo, o de pertencer total e exclusivamente a Deus. E um aspecto negativo, que é o de subtrair o uso profano.

Ao longo dos séculos a Igreja não hesitou em empregar a palavra “consagração” para exprimir o dom e a oferenda que uma pessoa, um grupo humano ou uma região fazem de si a uma criatura de Deus, como Nossa Senhora, a Igreja ou uma Ordem religiosa, como um meio para melhor servir ao próprio Deus. Até na linguagem comum se utiliza esse termo para exprimir uma dedicação total. Por exemplo, quando dizemos que uma pessoa se consagrou a uma causa ou a um trabalho.

Como é isso possível, se somente Deus, Criador e Senhor de tudo quanto existe, tem direito à pertença (domínio) total e exclusiva de suas criaturas? A resposta é que se trata aí da aplicação deste princípio conhecido: quando se diz algo de Deus, a referência é em sentido próprio; quando se diz o mesmo de uma criatura, o sentido é apenas analógico.

O protestantismo é contrário à vassalagem a Nossa Senhora


Na Basílica de São Pedro, imagem de São Luís Maria Grignion de Montfort

Já no século IV a noção de pertencer a Nossa Senhora aparece nos escritos de Santo Efrem, o Siríaco; e no século seguinte, uma “santa servidão” a Ela, pela qual os que a praticavam eram chamados “servos de Maria”. No século VII, provavelmente em 626, depois do cerco dos ávaros e dos persas, a cidade de Constantinopla exprimiu no hino Akathistos sua pertença Àquela que os tinha salvo: “A Vós, capitã e defesa, canções de vitória e de gratidão. Mãe de Deus, eu consagro vossa cidade, libertada de ameaças horríveis”. Santo Ildefonso de Toledo (+667) difundiu a ideia da consagração a Nossa Senhora, ou mais precisamente “da dedicação plena ao seu serviço”.

No século VIII, São João Damasceno elaborou ainda mais o tema da consagração a Maria. Numa passagem de seu sermão sobre a dormição, escreveu: “A Vós consagramos nossas mentes, nossas almas e nossos corpos – em uma palavra, todo nosso ser”. Empregou sem hesitar o verbo grego anathemeni, que significa reservar para uso sagrado, configurar como presente votivo, dedicar, separar.

Na sociedade feudal da Idade Média, não causava nenhuma estranheza a ideia da dedicação total a um senhor feudal inferior. A sociedade era então baseada sobre um sistema de vassalagens sucessivas, pelo qual o senhor de um vassalo era, por sua vez, vassalo de um senhor mais alto, até chegar ao rei. E todos compreendiam que, se cada vassalo em seu respectivo nível servisse bem ao seu senhor, o maior beneficiário final dessas dedicações era o soberano.

Assim, a ideia da consagração a Deus por meio de Maria entrou muito fundo na espiritualidade de muitos santos, de várias Ordens, congregações e do próprio povo. O conceito de vassalagem a Nossa Senhora só foi questionado pela revolução protestante, com a orgulhosa pretensão de que cada batizado estabeleça uma relação direta com Deus, sem nenhuma intermediação da Igreja, de seus sacramentos e de seu magistério. O pretexto para isso é que tal vassalagem afastaria de Cristo, único Mediador.

O Cardeal Pierre de Bérulle (+1629), fundador da chamada “escola francesa” de espiritualidade, impôs à Congregação do Oratório e aos carmelitas o voto de servidão a Maria. Levantou-se então grande ofensiva de libelos anônimos motivados pelo jansenismo, que era uma versão moderada dos erros protestantes. O voto de escravidão proposto pelo Cardeal de Bérulle foi condenado pelas universidades de Louvain e Douai.

Consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria

No Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de Montfort fundamenta de modo irrefutável que a escravidão a Maria é o meio mais rápido, fácil e seguro de se conformar a Jesus Cristo. Para evitar uma condenação semelhante à do Cardeal de Bérulle, o grande santo mariano tomou o cuidado de intitular sua fórmula de escravidão mariana “Ato de consagração a Jesus Cristo, a Sabedoria Encarnada, pelas mãos de Maria”. A descoberta desse livro em meados do século XIX fez com que a Mariologia se desenvolvesse resolutamente nos meios teológicos, e que dezenas de milhares de fiéis fizessem sua consagração a Nossa Senhora nos termos propostos por São Luís de Montfort.

Esse movimento de entusiasmo por parte dos escravos de amor da Santíssima Virgem foi indiretamente convalidado pelas aparições de Nossa Senhora em Fátima, nas quais Ela disse que viria solicitar a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração, a ser realizada pelo Papa em união com todos os bispos do mundo.

No dia 31 de outubro de 1942, num momento crítico da Segunda Guerra Mundial, o Papa Pio XII, numa Radiomensagem aos fiéis portugueses, fez um ato de consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, nos seguintes termos: “A Vós, ao vosso Coração Imaculado, nesta hora trágica da história humana, confiamos, entregamos, consagramos não só a Santa Igreja, corpo místico de vosso Jesus, que pena e sangra em tantas partes e por tantos modos atribulada, mas também todo o mundo, dilacerado por mortíferas discórdias, abrasado em incêndios de ódio, vítima de suas próprias iniquidades”. Um pouco adiante o Papa fez uma analogia entre seu ato e aquele de seu predecessor Leão XIII: “Como ao Coração do vosso Jesus foram consagrados a Igreja e todo o gênero humano, […] assim desde hoje Vos sejam perpetuamente consagrados também a Vós e ao vosso Coração Imaculado, ó Mãe nossa e Rainha do mundo”.

Honrando a Santíssima Virgem, honra-se Jesus Cristo

Papa Pio XII

Dez anos mais tarde, em julho de 1952, o mesmo Pio XII, atendendo às instantes súplicas recebidas do mundo inteiro, declarou solenemente na Carta Apostólica Sacro Vergente Anno: “Tal como há alguns anos Nós consagramos todo o gênero humano ao Coração Imaculado de Maria, Mãe de Deus, hoje consagramos e confiamos todos os povos da Rússia a este Imaculado Coração”.

Durante sua visita a Fátima, no cinquentenário das aparições, Paulo VI publicou a exortação Signum Magnum,na qual encorajou todos os filhos da Igreja “a renovar sua consagração ao Imaculado Coração de Maria”. No sermão que fez em Fátima no dia 13 de maio de 1982, João Paulo II declarou: “Consagrar o mundo ao Coração Imaculado de Maria significa aproximar-nos, mediante a intercessão da Mãe, da própria Fonte da Vida, nascida no Gólgota. […] Consagrar o mundo ao Imaculado Coração da Mãe significa voltar de novo junto da Cruz do Filho. Mais quer dizer, ainda: consagrar este mundo ao Coração transpassado do Salvador, reconduzindo-o à própria fonte da Redenção”. Em 25 de março de 1984, diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima, levada a Roma para a ocasião, João Paulo II proclamou: “Abraçai, com o amor da Mãe e Serva do Senhor, este nosso mundo humano, que Vos confiamos e consagramos, cheios de inquietude pela sorte terrena e eterna dos homens e dos povos. De modo especial Vos entregamos e consagramos aqueles homens e aquelas nações que desta entrega e desta consagração têm particularmente necessidade”.

Não obstante essa utilização pelos Papas da expressão “consagração”, em ocasiões solenes, para referir-se à entrega do mundo a Maria ou ao seu Imaculado Coração, nos ambientes progressistas o emprego dessa expressão é asperamente contestado, em nome dos princípios do Concílio Vaticano II. Para os prelados e os teólogos dessa corrente, a inserção da Igreja no mundo leva a uma minoração do sagrado e da ideia de consagração, enquanto implicando uma separação do mundo, em lugar de uma presença e comunhão fraternas junto a ele. Além do mais, a redescoberta da consagração fundamental a Deus, no batismo, tornaria supérfluas quaisquer outras consagrações ou devoções. E alegam finalmente que um maior rigor na linguagem teológica desaconselharia aplicar o mesmo vocábulo para se referir à entrega a Deus e a Maria.


No peito da imagem, o medalhão com as belas palavras: “Consagração da Paróquia d’Ars a Maria concebida sem pecado, feita em maio de 1836 pelo Pe. João Maria Vianney, o cura d’Ars”. [Foto: Frederico Viotti]

Essas críticas fazem lembrar aquilo que São Luís Grignion de Montfort diz a respeito dos devotos escrupulosos: “São pessoas que têm receio de desonrar o Filho ao honrar a Mãe, de rebaixar o primeiro ao elevar a segunda. Eles conseguem suportar que se deem à Santa Virgem louvores muito justos, como lhe deram os santos Padres; eles não suportam senão com dificuldade que haja mais gente de joelhos diante de um altar da Santa Virgem do que diante do Santíssimo Sacramento, como se um fosse contrário ao outro; como se aqueles que rezam à Santa Virgem não rezassem a Jesus Cristo! […] Trata-se de uma perigosa e sutil armadilha do maligno, com a desculpa de promover um bem maior; pois jamais se honra mais a Jesus Cristo do que quando se honra a Santíssima Virgem, porquanto não se honra a Mãe a não ser com a finalidade de honrar mais perfeitamente o Filho, pois só se vai a Ela como sendo o caminho para encontrar o termo aonde se vai, que é Jesus Cristo”.

A conclusão do santo é de que a melhor forma de devoção a Nossa Senhora é consagrar-se a Ela como escravo, pois “esta Consagração é feita conjuntamente à Santíssima Virgem e a Jesus Cristo: à Santíssima Virgem como ao meio perfeito que Jesus Cristo escolheu para se unir a nós e nos unir a Ele; a Nosso Senhor como ao nosso fim último, a quem devemos tudo o que somos, como a nosso Redentor e nosso Deus. Com esta devoção damos a Jesus Cristo tudo o que lhe podemos dar, e da maneira mais perfeita, porque o fazemos pelas próprias mãos de Maria”.

Pelo exposto, compreende-se que é totalmente infundado, e contrário ao ensino constante do Magistério e dos santos, o receio dos bispos italianos e portugueses de empregar o termo “consagração” no ato de confiar seus países e seus povos a Nossa Senhora, pedindo sua proteção na atual epidemia.

Não duvidamos em afirmar que essa frieza de altos prelados em relação à sua Mãe é o espinho mais doloroso que fere o Sagrado Coração de seu Filho. Ofereçamos a Ele, em reparação, nossa mais terna devoção a Nossa Senhora e nossa consagração a Ela, de preferência segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort.


[1] “Il cristocentrismo della consacrazione a Maria nella congregazione mariana”, Stella mattutina, Roma, 1962, p. 21.

https://www.abim.inf.br/por-que-se-tem-empregado-o-termo-entrega-em-vez-de-consagracao/


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MENINA E MOÇA - José Sarney

Tomei emprestado para este artigo o título do livro de Bernardim Ribeiro, que na minha adolescência fazia parte da formação clássica. É velho como a Sé de Braga, como se diz em Portugal, de 1554. Começa — cito de memória e me sujeito a erros — assim: “Menina e moça me levaram da casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube.”

Lembro isso pelo caso que nos revoltou pela violência e pela maldade: a gravidez da menina de dez anos, violentada desde os seis, no Espírito Santo. Não entra em nosso entendimento, neste conjunto de valores que Deus nos deu, que se possa aceitar isso. É o mundo louco que a cada dia se revela. Certamente minha avó diria “é o fim do mundo”.

Essa atrocidade revoltou o Brasil, nosso povo, independentemente da formação religiosa, independente da controvertida posição sobre o aborto. É uma brutal atrocidade que nos choca a começar pela monstruosidade corporal. Uma criança pura de sentimentos, sem saber o que é sexo e cujo corpo não está fisiologicamente apto para o ato sexual.

O nosso sistema jurídico só permite o casamento a partir dos 16 anos, assim mesmo com o consentimento dos pais, pois a idade legal de casar é 18 anos. Com menos de 16 só em caso de gravidez. É verdade que a realidade é bem outra. Estamos em 4º lugar em casamentos de crianças de até 15 anos, precedidos pela Índia, Bangladesh e Nigéria. E pasmem: no Brasil o Estado onde é primeiro é o Maranhão.

Uma vez ouvi em Bacabal de um chefe político a história de um fazendeiro que tinha a fama de comprar virgindade, quase sempre de mocinhas pobres. Fiquei chocado, mas atribuí a informação em parte a essas infâmias que, no interior, colam nos adversários políticos para desqualificá-los e destruí-los.

Verdade é que essa menina ficará como um caso ultrajante na história dos nossos costumes. Pensar numa menina grávida aos dez anos, violentada pelo tio, e no martírio da violação desde os seis anos de idade, cria indignação e revolta.

É que o ato sexual não envolve só o contato corporal, mas uma gama de sentimentos contraditórios que vão desde o amor até à vivência das relações pessoais, do afeto até a devassidão e o ultraje, para os quais as pessoas têm de ter a faculdade de reação. Envolve a pureza e o carinho de estar junto. Foi o Criador, segundo o Gênesis, que melhor o definiu dizendo que “serão dois em um”.

A inocência, esse aspecto de fragilidade e ternura que envolve a meninice, nos leva a ter a infância como uma fonte sublime e pura da existência humana. Ela se revela na alegria da graça da vida, num tempo que forma nossas referências e fica como memória. Mas esse período ficará para essa menina como apenas o horror desse bárbaro episódio.

A menina não perdeu somente a virgindade e inocência. Perdeu o nome, perdeu a identidade, tem que ser outra para ser a mesma.

Como viverá daqui para frente? Como apagará essa indelével mancha?

O Estado do Maranhão, 22/08/2020

 

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.


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