Neste célebre quadro, Giotto* pintou Judas no ato de oscular
Nosso Senhor Jesus Cristo. Era o ósculo da traição, no momento em que Nosso
Senhor, pouco antes de ser preso e levado para ser julgado e crucificado,
acabava de dizer aquelas tremendas palavras: “Judas, com um beijo trais o
Filho do Homem!” (Lc 22, 48).
Com toda a sua sublimidade, Nosso Senhor olha para Judas e o
analisa até o fundo da alma. Nesse olhar Ele recusa categoricamente a ação
infame de Judas; mas, apesar da recusa à infâmia, olha como quem ainda procura
algum resto de boas qualidades em Judas. Procura comovê-lo, numa tentativa de
ainda obter sua conversão. É um contraste prodigioso!
Judas é baixo, vil, ganancioso, materialista; com seus
lábios grossos e indefinidos, que vão se abrindo para o beijo da infâmia, ele
procura com o olhar turvo sorrir para mentir. Tem-se a impressão (desculpem-me
o prosaísmo) de sentir até o seu mau hálito, na hora do beijo da traição. Eles
se olham, e nisso se nota o supremo contraste entre a completa infâmia e a suma
perfeição.
A alma do católico verdadeiramente sério vive desse
contraste: a tendência contínua para ver o mais sublime, juntamente com a
compreensão de que no fundo de qualquer coisa censurável está palpitando a
infâmia, pronta para saltar e tomar conta do ambiente. Ver o mundo através de
contrastes assim é agir com seriedade.
___________
* Afresco pintado pelo célebre artista italiano da época
medieval, Giotto di Bondone (1267-1337), na Capela degli Scrovegni, Pádua
(Itália), entre 1302 e 1306.
_____________________________________________
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa
de Oliveira em 20 de setembro de 1979. Esta transcrição não passou pela revisão
do autor. Fonte: Revista Catolicismo, Nº 832, Abril/2020.
Desde o início de meu ministério como bispo de uma diocese,
parecia que todos os anos, à medida que as celebrações do Natal e da Páscoa se
aproximavam, havia um evento profundamente triste na diocese ou uma crise
difícil de enfrentar pelo bem da diocese. Assim, enquanto eu antecipava com
alegria as celebrações dos grandes mistérios de nossa salvação, algo acontecia
que, do ponto de vista humano, colocava uma nuvem negra sobre as celebrações e
questionava a alegria que elas inspiravam. Certa vez, quando comentei com um
irmão bispo sobre essa experiência terrivelmente angustiante, ele simplesmente
respondeu: “É Satanás, tentando roubar sua alegria”.
Faz sentido que Satanás, a quem Nosso Senhor descreve como
um “homicida desde o principio, […] mentiroso e o pai da mentira” (Jo
8, 44), queira esconder de nossos olhos as grandes realidades da Encarnação e
da Redenção, queira distrair-nos dos ritos litúrgicos através dos quais não
apenas celebramos essas verdades, mas também recebemos as graças imensuráveis e
incessantes que elas conquistaram para nós. Satanás quer nos convencer de que a
perda de um ente querido e a morte, a tristeza e o medo que naturalmente as
acompanham mostram que Cristo é falso, falsificam a sua Encarnação redentora e
mostram nossa fé e a alegria que ela naturalmente inspira como mentirosas.
Quem é falso é Satanás. Ele é o mentiroso. Cristo, Deus
Filho, de fato tornou-se homem, sofreu a mais cruel Paixão e Morte a fim de
redimir nossa natureza humana, restaurar-nos a verdadeira vida, a vida divina
que supera os piores sofrimentos e até a própria morte, e conduzir-nos com
certeza e segurança para o nosso verdadeiro destino: a vida eterna com Ele.
São Paulo, diante de tantas provações profundamente
desencorajadoras ao longo de seu ministério apostólico, culminando com seu
martírio em Roma, escreveu aos cristãos de Colossos: “Agora me alegro nos
sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo
na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Col 1, 24). Para ele, como
deveria ser também para nós, sofrer com Cristo pela Igreja, pelo amor de Deus e
ao próximo, é a fonte inatacável e infalível de nossa alegria. É a mais alta
expressão de nossa comunhão com Cristo, Deus Filho Encarnado, compartilhando
com Ele o mistério do amor divino de Deus — Pai, Filho e Espírito Santo. A vida
de Cristo, a graça do Espírito Santo derramada do Coração de Cristo para
habitar em nossos corações, inspira e fortalece-nos a abraçar a perda de alguém
e a morte com o seu amor que os conquista e os transforma em ganho eterno e
vida sem fim. Nossa alegria, então, não é um prazer ou emoção superficial, mas
o fruto do amor que é ‘forte como a morte’, que “as torrentes não poderiam
extinguir […] nem os rios o poderiam submergir” (Ct 8, 6-7).
Nossa alegria não tira o aguilhão agudo da perda e da morte,
mas, com confiança e coragem, as enfrenta como parte do combate ao longo da
vida do amor que somos chamados a travar durante esta vida — afinal, pela graça
de Deus, somos verdadeiros soldados de Cristo (2 Tm 2, 3) — na certeza da
vitória da vida eterna. Assim, no fim de sua vida, São Paulo poderia escrever a
seu filho espiritual e companheiro no pastoreio do rebanho, São Timóteo: “Quanto
a mim, estou a ponto de ser imolado e o instante da minha libertação se
aproxima. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé.
Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará
naquele dia, e não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor a
sua aparição” (2 Tm 4, 6-8 ).
Amamos Nosso Senhor, amamos a Encarnação redentora pela qual
Ele está vivo por nós na Igreja, e, portanto, estamos felizes por lutar o bom
combate com Ele, em continuar a corrida, não importando as provações que
enfrentamos, e em manter a fé quando o Pai da Mentira nos tenta a duvidar de
Cristo e até a negá-Lo.
Talvez Satanás nunca tenha tido uma ferramenta melhor do que
o coronavírus para roubar nossa alegria de celebrar os dias mais sagrados do
ano, os dias em que Cristo ganhou para nós a vida eterna. Como ele gostaria de
extirpar a santidade da única semana do ano que é conhecida simplesmente como
Semana Santa! A atual crise sanitária internacional causada pelo coronavírus
(COVID-19) continua sua trágica colheita de mortes, gerando profunda tristeza e
medo no coração humano. Certamente, Satanás está usando o sofrimento que
assolou tantos lares, bairros, cidades e nações a fim de nos fazer duvidar de
Nosso Senhor e da Fé, da Esperança e da Caridade, que são seus grandes
presentes para nós em nossa vida diária. O efeito da intenção assassina de
Satanás e de suas mentiras aumenta quando estamos mais distantes do Senhor,
quando consideramos sua vida dentro de nós como assegurada, quando até O
abandonamos ao buscar prazeres, interesses ou sucessos mundanos.
Na própria Igreja, temos sido testemunhas da omissão em
ensinar, sobretudo, a Cristo como Senhor. Quantos hoje sofrem profundamente de
um medo inútil porque esqueceram ou até rejeitaram o Reinado do Coração de
Jesus em seus corações e lares. Lembrem-se das palavras de Nosso Senhor a
Jairo, que procurou a ajuda de sua filha moribunda: “Não temas; crê
somente” (Mc 5, 36). Quantos hoje estão sem esperança, porque acham que a
vitória sobre o mal do coronavírus (COVID-19) depende totalmente de nós, porque
se esqueceram de que, embora devamos fazer tudo o que podemos humanamente para
combater um grande mal, somente Deus pode abençoar nossos esforços e nos dar a
vitória sobre as privações de todo tipo e a morte. É tão triste ler documentos
— mesmo documentos da Igreja — que pretendem tratar das dificuldades mais
importantes que enfrentamos e não encontrar neles nenhum reconhecimento do
Senhorio de Cristo, da verdade que dependemos completamente de Deus para nosso
ser, por tudo o que somos e tudo o que temos, e que, portanto, a oração e o
culto divino constituem o nosso primeiro e mais importante meio de combater
qualquer mal.
Alguns dias atrás, um jovem católico me disse, como se fosse
uma evidência, que este ano ele não celebraria a Páscoa por causa do coronavírus.
Se as alegrias da celebração da Páscoa fossem simplesmente uma questão de
sentir-se bem, entenderia o sentimento dele. Mas a alegria da Páscoa está
enraizada na verdade eterna, na vitória de Cristo sobre o que claramente se
parecia com a Sua aniquilação, a vitória conquistada em sua natureza humana
para obter a mesma vitória em nossa natureza humana, quaisquer que sejam as
dificuldades que possamos estar sofrendo. Se crermos em Cristo, se confiarmos
em suas promessas, devemos celebrar com alegria sua grande obra da Redenção.
Celebrar os mistérios de Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo não é uma falta
de respeito ao sofrimento de tantos hoje, mas reconhecer que Cristo está
conosco para superar nossos sofrimentos com seu amor. Nossa celebração é um
farol de esperança para aqueles cujas vidas são severamente provadas e os
convida a depositar sua confiança em Nosso Senhor.
Sim, a Semana Santa deste ano é muito diferente para nós. O
sofrimento associado ao coronavírus levou a uma situação em que muitos
católicos, durante a Semana Santa, não terão acesso aos Sacramentos da
Penitência e à Sagrada Eucaristia, que são os nossos extraordinários, mas
também ordinários encontros com Cristo ressuscitado, de maneira que Ele possa
nos renovar e fortalecer com sua vida. Mas continua sendo a Semana mais santa
do ano, pois comemora os eventos pelos quais vivemos em Cristo, pelos quais a
vida eterna nos pertence, mesmo diante de uma pandemia, de uma crise sanitária
mundial. Peço-lhes, portanto, que não cedam à mentira de Satanás, que deseja
nos convencer de que este ano não temos nada para comemorar durante a Semana
Santa. Não, temos tudo para celebrar, pois Cristo nos precedeu em todos os
sofrimentos e agora nos acompanha em nossos sofrimentos, para que permaneçamos
fortes em seu amor, o amor que vence todo mal.
Hoje celebramos o Domingo de Ramos, quando Cristo entrou em
Jerusalém, conhecendo plenamente a Paixão e Morte que O esperava. Jesus sabia
quão efêmera era a sua acolhida, uma acolhida apropriada ao Rei do Céu e da
Terra, mas superficial, porque aqueles que a estenderam tinham apenas uma
compreensão mundana da salvação que Ele veio trazer para nós. Eles não estavam
prontos para ser um com Cristo no estabelecimento de seu Reino eterno através
dos eventos de sua Paixão e Morte. Após o Domingo de Ramos, cada dia da Semana
Santa é justamente chamado de santo porque é um episódio da firmeza de Cristo
ao abraçar a sua missão salvadora rumo ao seu ponto culminante.
Consigam um tempo para meditar sobre a acolhida verdadeiramente
régia que ofereceram a Cristo em seu coração e em seu lar. Leiam novamente o
relato da entrada d’Ele em Jerusalém e de como, depois de sua entrada
triunfante, Ele chorou sobre Jerusalém com estas palavras: “Jerusalém,
Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados!
Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos
debaixo de suas asas… e tu não quiseste!” (Mt 23, 37).
Se vocês ou seus lares estiverem longe de Nosso Senhor,
recordem-se de como Ele deseja estar perto de vocês, ser o hóspede constante de
seu coração e de seu lar.
Permaneçam com Cristo durante toda a Semana Santa. De
maneira particular, façam da Quinta-feira Santa um dia de profunda gratidão
pelos sacramentos da Sagrada Eucaristia e pelo Santo Sacerdócio instituído por
Nosso Senhor na Última Ceia. Façam da Sexta-feira Santa um dia de silencio,
durante o qual sejam praticados atos penitenciais para entrar mais
profundamente no mistério do sofrimento e da morte de Cristo. Na Sexta-feira
Santa, encham-se de gratidão pelos sacramentos da penitência e pela unção dos
enfermos. No Sábado Santo, façam vigília com Nosso Senhor, louvando-O e
agradecendo-Lhe pelo dom de sua graça em nossas almas através da infusão do
Espírito Santo a partir de seu glorioso Coração trespassado. Meditem
especialmente como sua graça está dentro de suas almas pelos Sacramentos do
Batismo, da Confirmação e da Sagrada Eucaristia. Durante todos esses dias,
reflitam e agradeçam a Deus pelo dom do Sacramento do Santo Matrimônio e seus
frutos, a família — a “Igreja doméstica” ou pequena igreja do lar —, o primeiro
lugar em que aprendemos a conhecer a Deus, a oferecer-Lhe a oração e o culto e
a disciplinar nossas vidas de acordo com sua Lei.
Se não puderem participar dos ritos litúrgicos nesses dias
mais sagrados, o que é realmente uma grande privação, pois nada pode substituir
o encontro com Cristo através dos sacramentos durante esses dias, esforcem-se
em seus lares para participar na Liturgia Sagrada através do desejo de estar na
companhia de Nosso Senhor, especialmente no mistério de sua obra salvadora. Nosso
Senhor não espera de nós o impossível, mas que façamos o melhor que pudermos
para estar com Ele durante esses dias de sua graça eficaz.
Existem muitas maravilhosas ajudas para nutrir esse santo
desejo. Antes de tudo, há um rico tesouro de oração na Igreja. Por exemplo, a
leitura das Escrituras Sagradas, os Salmos Penitenciais, especialmente o Salmo
51 [50] e o relato da Paixão de Nosso Senhor nos quatro Evangelhos, a devoção
ao Sagrado Coração de Jesus, a meditação sobre os mistérios da nossa fé através
da recitação do Santo Rosário, especialmente dos Mistérios dolorosos, as
Ladainhas do Sagrado Coração de Jesus, da Santíssima Virgem (de Loreto), de São
José e dos santos, a Via Sacra — que também pode ser feita em casa usando as
imagens das catorze estações estampadas em um livro de orações ou sobre um
objeto sagrado —, o Terço da Divina Misericórdia, visitas a santuários, grutas
e outros lugares consagrados a Nosso Senhor e aos mistérios da Encarnação
Redentora, e a devoção aos santos que foram poderosos para nos ajudar,
especialmente São Roque, protetor contra as pestilências.
Em nossa época, temos o privilégio de ter acesso, através
dos meios de comunicação, aos ritos sagrados e aos atos públicos de devoção,
enquanto são celebrados em certas igrejas, especialmente nas igrejas de
mosteiros e conventos nos quais toda a comunidade religiosa está participando.
Observar um rito sagrado que é transmitido não é evidentemente o mesmo que
participar diretamente dele, mas se é tudo o que nos é possível fazer,
certamente é agradável a Nosso Senhor, que nunca deixará de nos encher com sua
graça em resposta ao nosso humilde ato de devoção e amor.
Em qualquer caso, a Semana Santa não pode ser para nós como
outra semana qualquer, mas deve ser marcada pelos sentimentos mais profundos de
fé em Cristo, que é a nossa única salvação. Os sentimentos de fé durante os
dias mais sagrados são igualmente sentimentos de profunda gratidão e amor. Se a
gratidão e o amor não puderem ter sua expressão mais alta através da
participação na Sagrada Liturgia, que eles a encontrem na devoção de seus
corações e de seus lares. Comemorando com Cristo, com sua Mãe Santíssima e com
todos os santos os eventos do Tríduo Sagrado, contemplamos o mistério de sua
vida dentro de cada um de nós. Todo o tempo gasto em oração e devoção diárias,
meditando sobre a Paixão de Nosso Senhor, nos ajudará a estar unidos da melhor
forma possível a Ele durante esses dias mais sagrados. Quanto o sofrimento do
tempo presente deve nos ensinar sobre o dom incomparável que é a Sagrada
Liturgia e os Sacramentos!
Para encerrar, quero assegurar-lhes que suas intenções estão
hoje em minhas orações e permanecerão nelas durante toda a Semana Santa, de
modo especial durante o Tríduo Sagrado da Quinta-feira, Sexta-feira e Sábado
Santos. Que todos nós possamos fazer companhia a Cristo com a mais profunda fé,
esperança e caridade, ao celebrarmos os dias mais sagrados nos quais Ele
sofreu, morreu e ressuscitou dentre os mortos para nos libertar do pecado e de
todo mal e obter para nós a vida eterna. Que nossa observância da Semana Santa
este ano seja nossa arma poderosa no contínuo combate ao coronavírus
(COVID-19). Em Cristo, a vitória será nossa. “Não temas; crê somente” (Mc
5, 36).
Mamífero em extinção é um dos animais estudados para
entender como o novo vírus chegou aos humanos
Por AFP
07/02/20
Pangolim, mamífero em extinção, atrai a atenção por ter o
corpo coberto por escamas
Foto: ROSLAN RAHMAN/AFP
O pangolim, um pequeno mamífero conhecido por suas escamas e
ameaçado de extinção, pode ser um animal-chave na transmissão ao homem do novo
coronavírus, que já matou mais de 600 pessoas na China. Pesquisadores da
Universidade de Agricultura do Sul da China identificaram o pangolim como um
possível “hospedeiro intermediário” que facilitou a transmissão do vírus,
informou a instituição em um comunicado, sem detalhes.
Um animal que hospeda o vírus sem ficar doente e pode
transmiti-lo para outras espécies é chamado de “reservatório”. No caso do novo
coronavírus, o reservatório provavelmente é o morcego. De acordo com um estudo
recente, os genomas desse vírus e os que circulam nesse animal são 96%
idênticos. O vírus do morcego não é, porém, capaz de se fixar em humanos
receptores e precisa passar por outra espécie – o hospedeiro intermediário –
para infectar o ser humano.
No séc. XVI, enquanto uma praga dizimava Roma, foi
organizada uma peregrinação pelas ruas da cidade com um Crucifixo considerado
milagroso. Enquanto a procissão ia avançando, a praga ia regredindo. Esta é a
oração que se reza ao Santíssimo Crucifixo:
Ó Jesus, que pelo Vosso amor ardente por nós quisestes ser
crucificado e derramar o Vosso Sangue para redimir e salvar as nossas almas,
vede-me aqui prostrado aos Vossos pés confiado na Vossa misericórdia.
Pelas Vossas dores e pelos méritos da Vossa Santa Cruz e
morte, dignai-Vos conceder-me a graça que ardentemente Vos peço... (dizer a
graça que se pede - pedir, neste momento, pelo fim da epidemia e pela nossa
saúde da alma e do corpo).
E Vós, minha Mãe, Virgem das Dores, escutai a minha oração,
intercedei por mim junto do Vosso divino Filho e pedi-Lhe que me conceda os
favores e as graças que Lhe peço. Amém.
“Mas ele [Jesus] foi castigado por nossos crimes e esmagado
por nossas iniquidades; o castigo que nos salva pesou sobre Ele; fomos curados
graças às suas chagas”.
(Isaías, 53, 5)
....
“Jesus foi desprezado e coberto de ignomínia quando estava na cruz. Seu rosto
foi velado e maltratado a fim de que o poder divino se ocultasse sob o corpo
humano”.
(São Jerônimo)
....
“Se a tua mente não se eleva à contemplação desse Homem-Deus
crucificado, volta atrás e, começando desde o início até o fim, rumina todos os
caminhos da Paixão e da Cruz do Homem-Deus vilipendiado. E se não podes retomar
e falar de novo destas coisas com o coração, repete-as frequentemente e
amorosamente com os lábios, porque aquilo que se repete com frequência com os
lábios dá calor e fervor ao coração”.
Narrador 1:Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo,
segundo Mateus: Naquele tempo, Jesus foi posto diante de Pôncio Pilatos, e
este o interrogou: “Tu és o rei dos judeus?” Jesus declarou:
— “É como dizes”.
Narrador 1: E nada respondeu, quando foi acusado pelos sumos
sacerdotes e anciãos. Então Pilatos perguntou: “Não estás ouvindo de
quanta coisa eles te acusam?” Mas Jesus não respondeu uma só palavra, e o
governador ficou muito impressionado. Na festa da Páscoa, o governador
costumava soltar o prisioneiro que a multidão quisesse. Naquela ocasião,
tinham um prisioneiro famoso, chamado Barrabás. Então Pilatos perguntou à
multidão reunida: “Quem vós quereis que eu solte: Barrabás, ou Jesus, a quem
chamam de Cristo?”
Narrador 2: Pilatos bem sabia que eles haviam entregado
Jesus por inveja. Enquanto Pilatos estava sentado no tribunal, sua mulher
mandou dizer a ele: “Não te envolvas com esse justo, porque esta noite, em
sonho, sofri muito por causa dele”. Porém, os sumos sacerdotes e os
anciãos convenceram as multidões para que pedissem Barrabás e que fizessem
Jesus morrer. O governador tornou a perguntar: “Qual dos dois quereis que
eu solte?” Eles gritaram:
— “Barrabás”
Narrador 2: Pilatos perguntou: “Que farei com Jesus, que
chamam de Cristo?” Todos gritaram:
— “Seja crucificado!”
Narrador 2: Pilatos falou: “Mas, que mal ele fez?” Eles,
porém, gritaram com mais força:
— “Seja crucificado!”
Narrador 1: Pilatos viu que nada conseguia e que poderia
haver uma revolta. Então mandou trazer água, lavou as mãos diante da multidão,
e disse: “Eu não sou responsável pelo sangue deste homem. Este é um problema
vosso!” O povo todo respondeu:
— “Que o sangue dele caia sobre nós e sobre os nossos
filhos”.
Narrador 1: Então Pilatos soltou Barrabás, mandou flagelar
Jesus, e entregou-o para ser crucificado. Em seguida, os soldados de
Pilatos levaram Jesus ao palácio do governador, e reuniram toda a tropa em
volta dele. Tiraram sua roupa e o vestiram com um manto vermelho; depois
teceram uma coroa de espinhos, puseram a coroa em sua cabeça, e uma vara em sua
mão direita. Então se ajoelharam diante de Jesus e zombaram, dizendo:
— “Salve, rei dos judeus!”
Narrador 2: Cuspiram nele e, pegando uma vara, bateram na
sua cabeça. Depois de zombar dele, tiraram-lhe o manto vermelho e, de
novo, o vestiram com suas próprias roupas. Daí o levaram para crucificar. Quando
saíam, encontraram um homem chamado Simão, da cidade de Cirene, e o obrigaram a
carregar a cruz de Jesus. E chegaram a um lugar chamado Gólgota, que quer
dizer “lugar da caveira”. Ali deram vinho misturado com fel para Jesus
beber. Ele provou, mas não quis beber. Depois de o crucificarem, fizeram
um sorteio, repartindo entre si as suas vestes. E ficaram ali sentados,
montando guarda. Acima da cabeça de Jesus puseram o motivo da sua
condenação:
— “Este é Jesus, o Rei dos Judeus”.
Narrador 1: Com ele também crucificaram dois ladrões, um à
direita e outro à esquerda de Jesus. As pessoas que passavam por ali o
insultavam, balançando a cabeça e dizendo: ”Tu, que ias destruir o Templo
e construí-lo de novo em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus,
desce da cruz!” Do mesmo modo, os sumos sacerdotes, junto com os mestres
da Lei e os anciãos, também zombavam de Jesus: ”A outros salvou... a si
mesmo não pode salvar! É Rei de Israel... Desça agora da cruz! E acreditaremos
nele. Confiou em Deus; que o livre agora, se é que Deus o ama! Já que ele
disse: Eu sou o Filho de Deus”.
Narrador 2: Do mesmo modo, também os dois ladrões que foram
crucificados com Jesus, o insultavam. Desde o meio-dia até as três horas
da tarde, houve escuridão sobre toda a terra. Pelas três horas da tarde,
Jesus deu um forte grito:
— “Eli, Eli, lamá sabactâni?”
Narrador 2: Que quer dizer:
— “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”
Narrador 2: Alguns dos que ali estavam, ouvindo-o, disseram:
— “Ele está chamando Elias!”
Narrador 2: E logo um deles, correndo, pegou uma esponja,
ensopou-a em vinagre, colocou-a na ponta de uma vara, e lhe deu para
beber. Outros, porém, disseram:
— “Deixa, vamos ver se Elias vem salvá-lo!”
Narrador 2: Então Jesus deu outra vez um forte grito e
entregou o espírito. (Todos se ajoelham.). E eis que a cortina do
santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras
se partiram. Os túmulos se abriram e muito corpos dos santos falecidos
ressuscitaram! Saindo dos túmulos, depois da ressurreição de Jesus,
apareceram na Cidade Santa e foram vistos por muitas pessoas. O oficial e
os soldados que estavam com ele guardando Jesus, ao notarem o terremoto e tudo
que havia acontecido, ficaram com muito medo e disseram:
Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia” (Mt 21,11)
A vida de Jesus é uma grande subida a Jerusalém; e nesta
subida, segundo os relatos evangélicos, Ele desconcertou a todos.
Evidentemente, desconcertou as pessoas mais religiosas e observantes da
religião judaica: fariseus, escribas, sacerdotes, anciãos... Não só Jesus foi a
pessoa mais desconcertante de toda a história, mas nele aconteceu algo também
desconcertante. Ele desencadeou na história da humanidade um “modo de viver”
que quebrou toda estrutura petrificada, sobretudo religiosa, constituindo um
“movimento” ousado, que colocava o ser humano no centro.
Um movimento alternativo às instituições romanas e à
organização sacerdotal do judaísmo; um movimento “marginal” que dava prioridade
aos pobres, aos deslocados, aos doentes e excluídos, aos perdedores... e que
não tinha nada a ver com uma organização fundada no poder, no prestígio, na
riqueza...
Este movimento, desencadeado na Galileia, chega agora às
portas da “cidade santa”, Jerusalém.
Aquele homem que movia multidões por todo o país, por sua
pregação e milagres, não é um revolucionário violento. E, no entanto, nem por
isso deixa de ser inquietante, transgressor e perigoso.
Jesus foi assim e assim Ele viveu; todo o resto lhe sobrava
(leis, culto, templo, estrutura religiosa...).
Em nome de um Deus que a todos acolhe e chama, que é Pai-Mãe
de todos, Jesus transgrediu a estrutura que sustentava uma sociedade fechada,
fundada na lei do mais forte e na violência de quem detém o poder.
Jesus foi um transgressor porque rompeu as fronteiras que
foram traçadas pelos poderosos, abrindo um caminho de humanidade a partir de
baixo, do lado dos excluídos...
Ele não veio para sancionar uma ordem existente, deixando
cada um com sua exclusão, senão para oferecer a todos um caminho de humanidade.
Um transgressor consequente, a serviço da vida e dos
últimos.
Como transgressor subiu a Jerusalém; e por isso sua morte
será tramada por aqueles que se sentiam ameaçados e sua vida acabará destroçada
pelas mãos dos profissionais da morte.
Em Jesus acontece algo totalmente novo; Ele desencadeou um
“movimento de vida”; Ele trouxe uma nova maneira de viver e de comunicar vida
que não cabia nos esquemas daqueles que estavam petrificados em suas posições e
visões.
A novidade de Jesus consistia, justamente, em afirmar que
existe um caminho para encontrar a Deus que não passa pelo Templo, pela pompa
dos ritos e pela observância estrita das leis. Desse modo, reconhece-se a vida
como lugar privilegiado da Sua Presença.
Quem entra em comunhão de vida com Ele, conhece uma vida
diferente, de qualidade nova, expansiva...
Isso implica: acolher outras vidas na nossa própria vida,
abrir espaços para que as histórias dos excluídos e diferentes encontrem morada
nas nossas entranhas, na nossa memória e no nosso coração; descer de nossa
montaria, como bons samaritanos, para nos aproximar e cuidar das vidas
feridas...
A entrada de Jesus em Jerusalém é um chamado à vida. Ele é a
Vida que abre caminho por aqueles espaços urbanos, carregados de poder e morte.
Vida despojada de vaidade e prestígio, conduzida por um jumentinho.
Jesus se apresenta sem coroa e sem ornamentos; não tem outra
coisa a compartilhar a não ser o amor e o serviço; não vem para governar e
impor sua vontade, mas fazer-se irmão de todos. Jesus não busca grandes
aclamações, nem aplausos, mas tão somente busca o sentido e a razão de viver.
“Quando Jesus entrou em Jerusalém, a cidade inteira ficou
agitada” (v.10).
“Agitar”: este verbo não traduz bem a realidade: na verdade,
a cidade ficou abalada, como se fosse um tremor de terra. Quando Jesus entrou,
como Rei messiânico em Jerusalém, a cidade tremeu, como aconteceu com o anúncio
do seu nascimento (Mt 2,3) e como será na hora da sua morte (Mt 27,51).
Jesus, com sua presença surpreendente, sacudiu a cidade de
sua “normalidade doentia”, de sua letargia, de seu ritualismo comandado por
aqueles que eram os poderosos traficantes da dor e da morte.
Jesus é a Vida verdadeira, a Vida que deseja despertar vida
nos outros, para romper com tudo aquilo que a limita. Por isso, o relato deste
Domingo de Ramos quer expressar o encontro de uma cidade com Aquele que é Vida
e que é fonte de vida em crescente amplitude. Jesus, o “biófilo”, também
sonhava com uma Jerusalém acolhedora, espaço da convivência e da paz.
Quando Jesus quer entrar no coração humano, não busca fazer
espetáculos. Busca a simplicidade.
O povo lançava ao solo seus mantos. O que deveríamos pôr
como tapete para que Jesus venha até nós caminhando sobre ele? Em vez de
mantos, talvez pudéssemos cobrir o solo com tudo aquilo que nos sobra
e outros necessitam; também deveríamos forrar o chão com
nossas debilidades, com nossas resistências, com nossas carências... Porque
também nossas pobrezas podem cobrir de festa o caminho. O caminho de Jesus que
vem a nós é também caminho de libertação e cura.
A liturgia deste dia também nos recorda que o “espaço
urbano” é, certamente, área de missão da Igreja e dos cristãos. Sua principal
preocupação deve ser a defesa integral da vida e de seu sentido último, o mundo
dos valores éticos que iluminam o homem e a mulher na sua ação no mundo.
Como seguidores(as) de Jesus, é preciso voltar a pôr o
coração de Deus no coração da grande cidade, para renová-la a partir de dentro.
Faz-se necessário uma opção por adentrar e viver imersos,
com todas as consequências, no interior dos grandes centros urbanos, em seu
coração, para aí descobrir o verdadeiro coração de Deus que pulsa ao ritmo dos
despossuídos, dos excluídos, dos sofredores e dos sedentos por uma vida
mais digna.
No meio das cidades encontramos homens e mulheres
“especiais” que carregam alegremente, e muitas vezes com um profundo sentido
crítico e político, a dor da humanidade, e se convertem assim em fator
essencial de esperança para um futuro humanizador; são pessoas que prestam sua
vida, sua acolhida e seus cuidados aos doentes, aos moradores de rua, aos
deficientes, aos anciãos e solitários...
Neste tempo de pandemia do “coronavírus”, devemos expressar
nossa especial gratidão aos “profissionais da saúde” que arriscam suas vidas
para que outros possam fazer a “travessia” sem piores consequências.
Somos convidados a viver a mística dos profetas nas grandes
cidades. O místico não se cansa de ser sinal de esperança e testemunha do Deus
da Vida no meio das contradições da cidade. Na cidade somos chamados a abrir
nossas casas e estarmos sempre prontos para receber os desafios que vem da rua.
A ação profética é sempre a busca permanente do outro, além
das paredes da própria casa.
Texto bíblico: Mt 21,1-11
Na oração: preparar-se para fazer o “caminho da
fidelidade” de Jesus, vivendo intensamente os mistérios da Semana Santa,
através das celebrações, do silêncio solidário e do compromisso com aqueles
que, na Jerusalém de hoje, prolongam a Paixão de Jesus.