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sábado, 21 de março de 2020

DECEPÇÃO – Péricles Capanema


21 de março de 2020

Péricles Capanema

Tornou-se parada obrigatória o novo coronavírus. Não é para menos, basta atentar para o que os infectologistas estão advertindo. Não será diferente comigo, ponho o pé na estrada fazendo eco a declarações. Nos últimos dias duas me chamaram especialmente a atenção pelo que apresentam de auspicioso e relevante. Logo chegarei à decepção, objeto do artigo.

Sobre a disseminação do vírus, assisti na internet análise circunstanciada do Prof. Roberto de Mattei, que soube unir em uma só palestra a erudição segura, a profundeza da análise e o sensus fidei (o senso da fé).

Título da postagem de Mattei: “Nuevo escenario mundial”. Circunspecto (aquele que olha em torno de si, considera toda a realidade), discorreu como scholar e líder católico. Em suma, não escondeu o perigo, mas o observou com olhar sobrenatural; poucos o têm, faz falta enorme.

Nossa Senhora de Chiquinquirá, Padroeira e Rainha da Colômbia
Falei em líder. Palavras singelas vieram de outro dirigente, Ivan Duque, presidente da Colômbia — potência emergente, 50 milhões de habitantes, mais de um milhão de quilômetros quadrados. Ali, de igual modo, transpareci a fé: “Tenho em meu escritório o quadro de Nossa Senhora de Chiquinquirá [foto ao lado], padroeira da Colômbia. Esta manhã me levantei pedindo à padroeira da Colômbia que nos consagre como sociedade, que consagre nossa família, nossos filhos. Que me consagre, tenho responsabilidades. A padroeira da Colômbia nunca nos abandonou. Sei, palavras as sim não são comuns em minha posição”.

Pelo que consta, nenhum chefe de Estado até agora usou palavras assim. No mínimo, o primeiro mandatário colombiano considera que, no fundo, pedir orações, exame de consciência, penitência, espírito sobrenatural ajudará o povo a trilhar o rumo certo.

Em tal caminhada, opinião generalizada, teremos pela frente meses de incerteza e sofrimento. Noto aqui, pois nada disso percebi nas análises. A provação criará condições melhores para orações, exames de consciência, elevação de vistas, emenda de vida. Ad augusta per angusta (às coisas excelentes, pelos caminhos mais estreitos). Em tal caso, o sofrimento terá sido, tudo pesado, uma bênção. Lembrará a Nínive do profeta Jonas. De outro lado, como evitar ter em vista os anos loucos, les années folles da década de 1920, em que os pavorosos sofrimentos da Primeira Guerra Mundial trouxeram, como desabafo e ricochete, explosões de desregramentos? O mundo civilizado em boa medida desperdiçou oportunidade extraordinária de regeneração, para muitos dele terá acontecido o pior, o naufrágio.

Passo agora ao tema do cabeçalho. Por que decepção? Decepção com o quê? Promessa, e promessa é dívida; a mais acho importante levantar a matéria. De maneira crescente amigos me têm feito comentários exasperados sobre a qualidade pessoal dos políticos que nos governam, esperavam muito mais — decepção enorme. A respeito de alguns, pairavam esperanças. As deblaterações não são de agora, já borbotavam antes do estouro do coronavírus, que só agravou o quadro. Prometi algumas linhas a respeito e só vou tratar agora de um aspecto, em geral silenciado. Em artigo futuro, cuidarei de outros aspectos.

Era justificável a esperança? Foi surpresa a decepção? Sob certo ângulo, entro por assunto antigo, já no Império se criticava a classe política. Com palavras talvez um pouquinho diferentes, Ulysses Guimarães comentou décadas atrás a respeito: “Está achando ruim essa composição do Congresso? Então espera a próxima: será pior. E pior, e pior.”

Por quê? Culpa só dos políticos? Ou culpa sobretudo do eleitor que é quem os despacha para Brasília? A grossa maioria da população brasileira hoje já não sabe que deputado federal sufragou em 2018. Votou pouco informada, desatenta, desinteressada em candidatos que de fato não conhecia. À vera, nem interesse tinha de conhecê-los. Depois, uma minoria vociferante reclama, repercutindo sentimento geral.

A representatividade política no Brasil vem caindo, repito, já constatava Ulysses Guimarães. Outros ainda. Faz parte de fenômeno mais amplo, descrito com vivacidade e realismo contundente por Nelson Rodrigues, que em parte colocava sua origem na falta do hábito de observar e raciocinar. Recolho dele observações de quente atualidade: “Somos mais idiotas do que nunca. Ninguém tem vida própria, ninguém constrói um mínimo de solidão. Pensam por nós, sentem por nós, gesticulam por nós. No vasto passado humano, o idiota como tal se comportava. Os personagens da História e da Lenda eram os melhores. Em nosso Brasil, o que havia era o ‘o grande ministro’, ‘o grande deputado’, ‘o grande jornalista’, ‘o grande tribuno’. Os idiotas não exalavam um suspiro. Antigamente, o silêncio era dos imbecis. E, de repente, tudo muda. Hoje, são os melhores que emudecem. Quem não percebeu a invasão dos idiotas não entenderá jamais o Brasil de nossos dias. Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”.

Detive-me nas palavras do dramaturgo recifense por um motivo: padecemos, décadas afora, o achatamento generalizado das personalidades, mesmo as mais relevantes, fenômeno moral, psicológico e social, mas com reflexos daninhos na política, na economia, na vida econômica. É fenômeno algum tanto notado e pouco estudado. Atinge sobretudo os interiores das personalidades. Nunca diminuirá a decepção que hoje se espraia Brasil afora, se não for mudado nosso interior. E então, em consequência de seiva nova, surgirá naturalmente o reconhecimento, a relevância e a premiação do que melhor existir na moral, na cultura, na inteligência. E na política. Concluo. O sofrimento que de momento assoma no horizonte e nos atemoriza, se bem aceito, ajudar-nos-á a retificar disposições interiores tortas, os grandes obstáculos ao progresso autêntico do Brasil.


* * *

sexta-feira, 20 de março de 2020

O MUNDO PAROU - José Antônio Pinotti


(Texto parcialmente meu, parcialmente de várias reflexões anônimas que recebi.)


Não sabemos se estamos diante de uma arma biológica.

Não sabemos se a China arquitetou esse caos em benefício próprio.

 Ninguém sabe se é consequência da própria intervenção do homem na natureza.

 Alguns até dizem ser punição de Deus.

Outros falam sobre teoria da conspiração.

De qualquer maneira isto é apenas turbulência mental para tentar explicar o desconhecido, uma pretensão de que o seu saber mude a realidade.

 Uns são otimistas, outros não. Mas isto não muda os fatos. Serve apenas para o conforto ou a angústia pessoal. 

Alguns dizem que estamos vivendo o apocalipse. Outros comemoram uma oportunidade de renascimento de uma nova humanidade. 

Há todavia uma verdade irônica e incontestável:


O MUNDO PAROU. 
Independentemente das diferentes formas de pensamento.

E este “God's break” veio em tempo mais que oportuno.

A humanidade está desenfreadamente enlouquecida.

O homem não tem tempo para pensar, para refletir sobre si mesmo, nem olhar para o outro.

Essa oportunidade, é para colocarmos a própria vida em ordem.

Rever conceitos, valores e ressignificar a própria existência.


Este silêncio oportuno é CURATIVO.
 As ruas estão vazias. As estradas, os bares, os templos, as escolas, as universidades, os aeroportos... e isto provoca questionamentos. Será que eles eram tão necessários?

E há certamente, para quem está atento, um silêncio no céu.

Algo profundamente espiritual está acontecendo e poucos conseguem perceber.

Este é um silêncio de reverência.

Deus está falando.

Ou escolham qualquer outro nome que acreditem, Eu Superior, Vazio etc. ou qualquer coisa que prefiram. Pouco importa, está sendo transmitida uma mensagem.


A DOR FALA.
Porque ela só cessa com o desapego, com uma mudança de consciência.

É tempo de endireitarmos os nossos caminhos.

Muitos estão morrendo pelo Corona.

Mas há outros vírus muito piores matando milhares de pessoas todos os dias.

O medo.
A fome.
A injustiça.
A manipulação do semelhante.
A omissão.

Algo invisível chegou e colocou tudo no lugar. De repente os combustíveis baixaram, a poluição baixou, as pessoas passaram a ter tempo, tanto tempo que nem sabem o que fazer com ele, os pais estão com os filhos em família, o trabalho deixou de ser prioritário, as viagens e o lazer também. De repente silenciosamente voltamo-nos para dentro de nós próprios entendemos o valor das palavras solidariedade, amor, força, fé.

Num instante damos conta que estamos todos no mesmo barco, ricos e pobres, que as prateleiras dos supermercados estão vazias e os hospitais cheios e que o dinheiro e os seguros de saúde já não têm importância, porque os hospitais privados são os primeiros a fechar, quando a lotação compromete a eficiência. Compaixão surge nos locais menos técnicos.

Nas garagens estão parados igualmente os carros novos e velhos, simplesmente porque ninguém pode sair.

Bastaram meia dúzia de dias para que o Universo estabelecesse a igualdade social que se dizia ser impossível.

E o mais interessante é que isto não veio de ideologias, de políticas, de dogmas, de verdades absolutas prontas. 


O MEDO invadiu a todos.
Que ao menos isto sirva para nos darmos conta da vulnerabilidade do ser humano.
Mesmo aqueles que não temem a morte preocupam-se com seus entes amados. A impermanência da vida tornou-se algo explícito. A noção de que tudo é efêmero minou nossa onipotência, nossas fantasias de controle, nossa visão da realidade da existência. 

Não se esqueçam...


BASTARAM MEIA DÚZIA DE DIAS.
Um minuto de silêncio pode trazer mais consciência de que uma vida de agitação.

Que cada um possa fazer do silêncio deste momento, reconciliação com o Todo. Somos todos UM.

Neste momento de solidão que surja a percepção de que nunca estivemos separados.


José Antônio Pinotti

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(Recebi via Whats)

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quinta-feira, 19 de março de 2020

ITABUNA CENTENÁRIA, UM POEMA: Sim, há medo - Richard Hendrick



"Sim, há medo.
Sim, existe isolamento.
Sim, há compras de pânico.
Sim, há doença.
Sim, existe até a morte.

Mas,
Dizem que em Wuhan depois de tantos anos de barulho
Você pode ouvir os pássaros novamente.
Dizem que depois de apenas algumas semanas de silêncio
O céu não está mais cheio de fumaça
Mas azul e cinza e claro.

Dizem que nas ruas de Assis
As pessoas estão cantando umas para as outras através dos quarteirões vazios
Mantendo as janelas abertas
para que aqueles que estão sozinhos possam ouvir os sons das famílias ao seu redor.

Dizem que um hotel no oeste da Irlanda, Está oferecendo refeições gratuitas e entrega em domicílio.

Hoje uma jovem que eu conheço
está ocupada espalhando panfletos com o número dela pelo bairro Para que os idosos possam ter alguém para chamar.

Hoje Igrejas, Sinagogas, Mesquitas e Templos
estão se preparando para receber e abrigar os sem-teto, os doentes, os cansados...

Em todo o mundo, as pessoas estão desacelerando e refletindo.

Em todo o mundo, as pessoas estão olhando para seus vizinhos de uma nova maneira.

Em todo o mundo, as pessoas estão acordando para uma nova realidade.

Quão grande somos realmente.
Quão pouco controle realmente temos.
Para o que realmente importa.
Amar.

Então oremos e lembremos que
Sim, há medo.
Mas não precisa haver ódio.

Sim, existe isolamento.
Mas não precisa haver solidão.

Sim, há compras de pânico.
Mas não precisa haver maldade.

Sim, há doença.
Mas não tem que haver doença da alma.

Sim, existe até a morte.
Mas sempre pode haver um renascimento do amor.

Acorde com as escolhas que você faz sobre como viver agora.
Hoje respire.

Ouça, por trás dos ruídos que fabricam seu pânico:
Os pássaros estão cantando novamente.

O céu está clareando,
A primavera está chegando,
E sempre somos envolvidos pelo amor.

Abra as janelas da sua alma
E embora você não possa tocar ninguém através das ruas vazias:
Cante."


- Pe. Richard Hendrick da Ordem Franciscana da Imaculada Conceição

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CORONAVÍRUS: O medo



Algo invisível chegou e colocou tudo no lugar.

De repente os combustíveis baixaram, a poluição baixou, as pessoas passaram a ter tempo, tanto tempo, que nem sabem o que fazer com ele.

Os pais estão com os filhos, em família.

O trabalho deixou de ser prioritário, as viagens e o lazer também.

De repente silenciosamente, voltamo-nos para dentro de nós, para entendemos o valor da palavra solidariedade.

Num instante damos conta que estamos todos no mesmo barco, ricos e pobres, que as prateleiras dos supermercados estão vazias e os hospitais cheios e que o dinheiro e os seguros de saúde, que o dinheiro pagava, não têm nenhuma importância neste momento, porque os hospitais privados foram os primeiros a fechar.

As garagens e parques estão parados, igualmente os carros top de linha ou ferro velhos antigos, simplesmente porque ninguém pode sair.

Bastaram meia dúzia de dias para que o universo estabelecesse a igualdade social, que se dizia ser impossível novamente.

O medo invadiu todos.

Que isto sirva para nos darmos conta da vulnerabilidade do ser humano.

Vale a pena parar para refletir.

 ......
O texto não é meu e nem sei o autor, mas achei extremamente oportuno e real.Vamos aprender com as lições que este vírus nos trouxe.


(Recebi via Whats)

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quarta-feira, 18 de março de 2020

MALEFÍCIOS DA IGNORÂNCIA RELIGIOSA – Pe. David Francisquini

17 de março de 2020
Pupitre na sede do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, decorada pelo próprio Prof. Plinio. O leão à esquerda está lutando contra uma serpente bicéfala simbolizando o orgulho e a sensualidade, as duas molas propulsoras da Revolução. E o da direita está enfrentando uma serpente com três cabeças, em recordação das três Revoluções. Ao centro, a frase “Residuum revertetur” (O resto voltará). O ano de 1571 evoca a vitória da Cristandade em Lepanto.

Pe. David Francisquini *

Enquanto processo multissecular de destruição paulatina da civilização cristã nascida na Idade Média, a Revolução atua em todos os campos da atividade humana para corroer os fundamentos dessa civilização. Quem o afirma é o intelectual católico Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro Revolução e Contra-Revolução: “Claro está que um processo de tanta profundidade, de tal envergadura e tão longa duração não pode desenvolver-se sem abranger todos os domínios da atividade do homem, como por exemplo a cultura, a arte, as leis, os costumes e as instituições”.

Para o mestre da Contra-Revolução “Este inimigo terrível tem um nome: ele se chama Revolução. Sua causa profunda é uma explosão de orgulho e sensualidade que inspirou, não diríamos um sistema, mas toda uma cadeia de sistemas ideológicos. Da larga aceitação dada a estes no mundo inteiro, decorreram as três grandes revoluções da História do Ocidente: a Pseudo-Reforma, a Revolução Francesa e o Comunismo”.**

A causa mais profunda da baldeação ideológica de fiéis para as hostes contrárias à Igreja reside em larga medida na ignorância religiosa e doutrinária que grassa nos meios católicos. A propósito, recordo-me de que nos idos de 1960 um jornalista muito arguto, mas pouco fiel à nossa santa fé, chegou a afiançar que o Brasil não tardaria a se transformar no maior país ex-católico do mundo.

São Pio X ensina que a debilidade das almas, da qual derivam os maiores males, provém sobretudo da ignorância das coisas divinas. As obras da ignorância religiosa são a paganização da sociedade, a germinação de doutrinas contrárias à fé e a adoção de costumes hostis à nossa santa religião. Tal ignorância é o resultado da educação deficiente em matéria de moral e religião, que desde a infância prepara o homem contemporâneo para a aceitação de doutrinas errôneas. Haja vista a maldita ideologia de gênero que tenta relativizar uma das maiores obviedades existentes na natureza, a diferença entre homem e mulher.

Sabemos pelo profeta Isaías que o caminho do ímpio e seus iníquos pensamentos e obras agridem o Senhor. Deus é generoso para perdoar, mas desde que haja arrependimento e contrição, pois tão-só aí a alma encontrará a felicidade, existente apenas dentro da lei divina. Os que se afastam dela e promovem a iniquidade, seus pensamentos e caminhos não são os de Deus, cujas cogitações e vias se elevam muito acima deles. O profeta Isaías diz ainda que assim como a chuva e o orvalho caem do céu para irrigar a terra e fazer germinar a semente, a palavra de Deus produz o efeito de reconduzir o homem ao caminho do bem, fazendo frutificar nele os efeitos da virtude.

A mídia revolucionária vomita diuturnamente as mais escabrosas blasfêmias contra Deus e Nossa Senhora. O mesmo acontece com as chamadas exposições de “arte”, com filmes e programas de televisão, com escolas de sambas, com obras literárias etc. Com efeito, a presente etapa da Revolução não se limita apenas em implantar o socialismo, mas vai muito além, agindo na alma do homem com a intenção de destruir todos os valores cristãos existentes nele e na família. De onde o ódio e blasfêmia, cujo fim é o culto ao próprio demônio.

Não pensem os teimosos revolucionários que conseguirão implantar o reino satânico desejado pelo príncipe das trevas; não creiam que a implantação de leis iníquas conseguirá vencer as leis e a obra divinas, porque paira sobre a Igreja a promessa de que as portas do inferno não prevalecerão.

______________
* Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).
** Cfr. Leão XIII, Encíclica “Parvenus à la Vingt-Cinquième Année”.
  

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OS MAIS ODIADOS – José Robherto Guzzo


TERÇA-FEIRA, 17 DE MARÇO DE 2020

É muito ruim para a democracia que o Poder Legislativo seja tão detestado

*Por José Robherto Guzzo

Tanto faz, de certa forma, quanta gente vai ou não vai para a rua, ou quantas vezes está disposta a ir no futuro mais próximo. Além e acima de tudo isso, há um fato que não muda: o Congresso Nacional e todo mundo que está lá dentro formam hoje um dos grupos de seres humanos maís odiados do Brasil. Se fizessem uma “pesquisa de opinião” perguntando ao brasileiro qual o ambiente que ele respeita mais – a penitenciária da Papuda ou dupla Câmara/Senado – qual você acha, sinceramente, qual seria a opinião da maioria?

Melhor não fazer pesquisa nenhuma, não é mesmo? A Papuda, na verdade, bem que poderia ser hoje a residência verdadeira de muitos dos nossos parlamentares – levando-se em conta que até setembro de 2019 cerca de 100 deputados, pelo menos, respondiam a ações penais no STF.

É muito ruim para a democracia de qualquer País que o Poder Legislativo seja tão detestado como o brasileiro. É muito pior, ainda, que os culpados disso sejam os próprios deputados e senadores, pelos atos que cometem e pela conduta que exibem ao público. Não é o “facismo” que está sabotando o Congresso, nem a direita – embora existam, sim, grupos de extremistas que querem acabar com a história toda mandando para lá um cabo e dois soldados. Mas essa turma jamais seria capaz de derrubar um guarda noturno se tivesse como alvo pessoas de bem.

É o caso? Não é – e não adianta fazer de conta que é. A maioria da população, hoje, iria aplaudir se a Câmara e o Senado fossem fechados por um ato de força, ou ficariam indiferentes. Uma democracia assim está doente.

A verdade é que são eles mesmos que construíram, tijolo por tijolo, a sua imagem infame junto a maioria da população. A mídia, os partidos, as entidades que representam alguma coisa, os sociólogos, etc. se levantam indignados em defesa do Congresso. Queriam o quê? Basta ver o que fazem, no dia a dia da vida real, os deputados e senadores. Não é só questão criminal – estão sendo processados por peculato, concussão, lavagem de dinheiro, corrupção passiva e ativa, falsificação de documento. Conseguem, até mesmo, ser acusados em ações penais por trabalho escravo. Talvez pior que isso seja a postura que, no entender das pessoas, eles têm diante do interesse público – sempre que vêem alguma chance, ficam contra. Escondem-se atrás de crimes coletivos, no plenário, para saquear o País.

Os congressistas brasileiros são, eles mesmos, uma dificuldade quase insuperável para quem, honestamente, quer defender o Poder Legislativo. As vezes, até, nem merecem a imagem que têm. Ainda no passado, por exemplo, aprovaram a reforma da Previdência Social, uma obra que poucos parlamentares no mundo fizeram até hoje. Mas isso já está esquecido – o que interessa é o que o povo acha deles agora. E agora, além do passivo criminal, são vistos como inimigos de tudo o que o governo tenta fazer para melhorar o País, e como bandidos que agem o tempo todo contra as mudanças que o Brasil precisa.

Nada pode ser considerado normal quando o Presidente da Câmara dos Deputados faz 250 viagens em jatinhos da FAB durante o único ano de 2019 – mesmo porque uma das razões alegadas para isso é o fato de que ele não pode andar em nenhum meio de transporte público, para não ser triturado por vaias. Temos, aí, que o chefe da Casa do Povo não pode chegar a um metro do povo.

É aceitável uma coisa dessas? Apesar de toda sua mediocridade, que sempre funciona como um manto protetor para qualquer político, os presidentes da Câmara e do Senado estão hoje entre as pessoas mais abominadas do País. Não dá para funcionar assim – com ou sem gente na rua.


*José Robherto Guzzo, colunista da Folha de São Paulo



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terça-feira, 17 de março de 2020

UMA OUTRA CLARICE GLORIOSA - Arnaldo Niskier



Na cultura brasileira, Clarice Lispector é um nome glorioso.  A escritora ucraniana estaria fazendo agora 100 anos de vida.  Será muito lembrada.  Mas há outra Clarice que se destaca na nossa cultura popular: Clarice Niskier, minha sobrinha, que comemora 40 anos de carreira, com um feito notável que foi a apresentação de “A alma amoral” por anos seguidos de sucesso.

A filha do meu querido irmão Odilon agora volta aos palcos, para brilhar na peça inspirada na obra poético-musical de Zeca Baleiro, com 50 músicas e fragmentos de obras de Sérgio Buarque de Holanda, Ferreira Gullar, Eduardo Galeano, Hélio Pelegrino e Osvald de Andrade.  No seu texto, que lembra também o sucesso do escritor israelense Yuval Harari, Clarice, de forma inspiradora, criou um roteiro teatral de suas memórias político-sociais.

No teatro Petra Gold (Sala Marília Pêra), no Leblon, o público entenderá as razões do amor de Clarice pelo Brasil e as suas ponderadas razões para abraçá-lo.  Ela não apenas escreve muito bem, como interpreta de maneira maravilhosa, como aconteceu durante os 14 anos de apresentação de “A alma imoral”, uma adaptação do livro de mesmo nome do rabino Nilton Bonder, sob a competente direção de Amir Haddad.  A nova peça tem o sugestivo título de “A esperança na caixa de chicletes Ping-Pong”.

Não estranho o sucesso de Clarice.  Tenho por ela enorme admiração, desde os tempos em que, bem jovem ainda, começou a carreira  jornalística como repórter e fotógrafa do “Jornal do Brasil”.  Ali já revelava o seu agudo interesse pelas notícias e suas consequências  na vida brasileira.  Ela confessa que o seu novo trabalho nasceu há aproximadamente 20 anos, quando ouviu o “Samba do approach”, apresentado pela irmã Joice, que havia escolhido a música para uma audição de canto: “As letras do Zeca refletem o meu pensamento.  É uma coisa bem-humorada e profunda.”

Assim, aborda temas ligados à solidão, medo e amor, por exemplo.  Ela critica a  atualidade, em que há ódio dos dois lados: “Gosto muito de falar na língua portuguesa, tem tudo a ver com a minha identidade.”

Clarice Niskier não quer ter razão em tudo: “Quero apenas que o público me compreenda.  Como artista, tenho o dever de compreender o outro, para depois, se for o caso, poder discordar.”  Por isso mesmo, condena a ideologização da cultura, no momento degradante em que vive o país.  Quanto à peça, não há dúvida, repetirá o êxito dos trabalhos anteriores da nossa Clarice.

Tribuna de Petrópolis, 11/03/2020


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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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