Total de visualizações de página

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

CHEGADA DO NAVIO - Gibran Khalil Gibran



             Al-Mustafa, o Eleito e o Bem-Amado, que era uma aurora em seu próprio dia, esperava havia doze anos, na cidade de Orphalese, o regresso de seu navio, que o levaria de volta à ilha onde nascera.

            E no ano décimo segundo, ao sétimo dia de Ailul, o mês da colheita, galgou o monte fora da cidade e olhou para o mar; e deparou com seu navio chegando com a névoa.

            Então, as portas de seu coração abriram-se, e sua alegria voou longe sobre o mar. E, fechando os olhos, orou no silêncio de sua alma.

            Mas ao descer o monte, foi invadido pela tristeza, e pensou no seu coração:
  
            “Como poderei ir-me em paz e sem pena? Não, não será sem um ferimento na alma que deixarei esta cidade.

            Longos foram os dias de amargura que passei dentro de suas muralhas, e longas as noites de solidão; e quem pode despedir-se sem tristeza de sua amargura e de sua solidão?

            Muitos foram os pedaços de minha alma que espalhei nestas ruas, e muitos são os filhos de minha ansiedade que caminham, desnudos, entre estas colinas, e não posso abandoná-los sem me sentir oprimido e entristecido.

            Não é uma simples vestimenta que dispo hoje, mas a própria epiderme que arranco com minhas mãos.

            Nem é um mero pensamento que deixo atrás de mim, mas um coração enternecido pela fome e a sede.

            Contudo, não posso demorar-me por mais tempo.

            O mar, que chama a si todas as coisas, está me chamando, e devo embarcar.

            Pois permanecer aqui, enquanto as horas queimam-se na noite, seria congelar-me e cristalizar-me num molde.

            De bom grado levaria comigo tudo o que está aqui. Mas como fazê-lo?

            A voz não leva consigo a língua e os lábios que lhe deram asas.

            É isolada que deve procurar o éter.

            É também só e sem ninho que a águia rumará rumo ao sol.”

            E quando atingiu o pé da colina, virou-se novamente para o mar e viu seu navio aportar e, no convés, agruparem-se os marinheiros, os homens de sua terra Natal.

            E sua alma gritou-lhes e lhes disse:
             
            “Filhos de minha velha mãe, que correis na crista das vagas impetuosas,

            Quantas vezes navegastes nos meus sonhos. E agora chegais ao meu despertar, que é meu sonho mais profundo.

            Disposto me encontrais a partir, e minha impaciência, de velas desfraldadas, está à espera do vento.

            Tomarei apenas mais um hausto de ar neste ambiente sereno, volverei para trás somente mais um olhar afetuoso.

            E, logo após, juntar-me-ei a vós, marujo entre marujos.

            E tu, vasto mar, mãe sempre acordada,

            Que, sozinho, és paz e liberdade para o rio e o regato,

            Uma só volta fará ainda esta corrente, um só murmúrio sussurrará ainda nesta clareira,

            Depois, virei a ti, gota ilimitada a um oceano ilimitado.”

            E enquanto caminhava, viu homens e mulheres abandonarem suas hortas e vinhedos e apressarem-se rumo às portas da cidade.

            E ouviu suas vozes chamarem seu nome, e anunciarem de campo a campo, um para o outro, a chegada de seu navio.

            E disse consigo mesmo:
    
            “Será acaso, o dia da separação o dia do encontro?

            E será dito que meu anoitecer era, na verdade, minha aurora?

            E o que oferecerei àquele que deixou seu arado no meio do rego, e àquele que imobilizou a roda de seu lagar?

            Converter-se-á meu coração numa árvore de abundantes frutos que colherei e lhes distribuirei?

            E correrão meus desejos como um manancial onde lhes encherei os copos?

            Sou, acaso, uma harpa para que em mim toque a mão do Onipotente, ou uma flauta para que Seu sopro me atravesse?

            Um ser em procura de silêncios, eis o que sou, e que tesouros tenho descoberto nos meus silêncios que possa distribuir com segurança?

            Se esse é o dia de minha colheita, em que campos plantei a semente, e em que estações esquecidas?

            Se esta é, na verdade, a hora de levantar minha lanterna, a chama que nela brilhará não será minha.

            Vazia e apagada erguerei minha lâmpada.

            E o guardião da noite a abastecerá de azeita e a acenderá também.”
  
            Essas coisas, ele expressou em palavras. Mas muitas outras, permaneceram inexpressas no seu coração. Pois nem ele podia externar seu segredo mais profundo.


            E quando entrou na cidade, o povo inteiro o recebeu, e todos estavam clamando seu nome numa só voz.

            E os anciãos da cidade aproximaram-se e disseram:

            “Não nos deixeis ainda.

            Foste um meio-dia em nosso crepúsculo, e tua juventude deu-nos sonhos para sonhar.

            Tu não és um estranho ou um hóspede entre nós, mas nosso filho e nosso bem-amado.

            Não condenes ainda nosso olhar a sofrer a fome de tua face.”

            E os sacerdotes e as sacerdotisas disseram-lhe:

            “Não consintas que as ondas do mar nos separem já, e os anos que entre nós passaste se tornem uma lembrança.

            Andaste entre nós como um espírito, e tua imagem tem sido uma luz que iluminou nossas faces.

            Muito te temos amado. Mas silencioso foi nosso amor, e com véus tem estado coberto.

            Porém, agora, ele grita e chama-te em alta voz e quer revelar-se a ti.

            Pois assim tem sido sempre com o amor. Ele só conhece a sua própria profundidade na hora da separação.”
  
            E outros vieram também e imploraram-lhe. Mas ele não lhes respondeu. Abaixou apenas a cabeça. E os que os rodeavam viram suas lágrimas caírem sobre o peito.

            E caminhando com o povo, chegou à grande praça em frente ao templo.

            E uma mulher chamada Almitra saiu do santuário. E ela era vidente.

            E ele a encarou com excessiva ternura, pois fora ela a primeira a procurá-lo e nele crer no dia de sua chegada à cidade.

            E ela o saudou dizendo:

           “Profeta de Deus em procura do infinito, quantas vezes sondaste as distâncias à espera de teu navio.

            E agora teu navio chegou, e tu deves partir.

            Profunda é tua nostalgia pela pátria de tua recordações e a morada de teus maiores desejos; e nosso amor não te quer prender, nem nossas necessidades te reterem.

          Uma coisa, porém, te pedimos: antes de nos deixares, fala-nos e dá-nos algo de tua verdade.

            E nós a transmitiremos a nossos filhos, e eles a transmitirão aos seus filhos, e ela não perecerá.

            Na tua soledade, vigiaste por nossos dias e, na tua vigília, escutaste os gemidos e os risos de nosso sono.

            Agora, revela-nos a nós próprios, e conta o que te foi dado descobrir do que existe entre o nascimento e a morte.”


            E ele respondeu:

            “Povo de Orphalese, de que poderia falar-vos senão do que está agora se movendo dentro de vossa alma?”

          

(O PROFETA)
Gibran Khalil Ginran

           
 ..................


Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.
* * *


quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

3 CARACTERÍSTICAS DO BOM OUVINTE - Dolors Massot


Shutterstock | Tijana Ilic

Dolors Massot | Jan 27, 2020

Você acha que é um bom ouvinte? Veja se você tem esses três comportamentos

A comunicação é uma parte muito importante do nosso relacionamento com os outros. Conversando um com o outro e esclarecemos dúvidas é que crescemos em amizade e aprendemos mais sobre outras maneiras de ver a vida.

Quem não anseia encontrar alguém que realmente ouça – um amigo em quem possa confiar e com quem possamos contar quando estivermos passando por uma situação complicada com a qual não sabemos lidar sozinhos. No entanto, nem todas as conversas são igualmente benéficas. Encontrar alguém que realmente sabe ouvir nem sempre é fácil. Muitos de nós tendem a querer falar mais do que ouvir.

Ouvir é uma manifestação de amor pela outra pessoa. Significa estar mais interessado na outra pessoa do que em nós mesmos por um tempo, abrindo-nos para ouvi-las e ajudá-las, se pudermos, pelo simples fato de ouvir. Devemos nos perguntar se realmente ouvimos e prestamos atenção a outras pessoas com o único objetivo de buscar o bem delas. Nós sabemos o que isso realmente significa?

Quais são as características de um ouvinte real?

1
BONS OUVINTES NÃO SÃO MANIPULADORES OU CONTROLADORES

Os bons ouvintes não querem extrair mais informações do que o necessário para resolver a situação que a pessoa está levantando. Eles não tiram vantagem da necessidade da outra pessoa de falar para manipulá-la em confidências inapropriadas. Eles não querem bisbilhotar.

2
BONS OUVINTES NÃO JULGAM

Acima de tudo, os bons ouvintes passam tempo com o interlocutor e demonstram empatia: eles se colocam no lugar da outra pessoa. A pessoa que está falando não precisa saber se o que ela disse ou fez está certo ou errado (a menos que peça nossa opinião).

3
BONS OUVINTES NÃO TENTAM PREGAR

O principal objetivo não deve ser “ensinar uma lição a alguém”, especialmente conselhos genéricos pré-fabricados. Cada alma é única e precisa ser tratada de maneira diferente. A conversa também não deve ser um momento de demonstração pessoal das experiências ou conhecimentos adquiridos. É sobre a pessoa que estamos ouvindo, não sobre nós.

Muitas vezes, as pessoas que se aproximam de nós precisam apenas compartilhar sua preocupação ou sofrimento, sem precisar que digamos a elas o que fazer. Isso não significa que elas nunca pedirão uma opinião ou conselho; o objetivo não é dar – a menos que elas peçam.




* * *

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

AUSCHIWTZ NUNCA MAIS – Cyro de Mattos


Auschiwtz Nunca Mais
Cyro de Mattos
  
           Foi há pouco mais de meio século. Libertado pelos soviéticos, Auschiwtz era o maior campo de concentração, onde os alemães eliminavam milhares de judeus sob o ritmo implacável de um programa com incrível capacidade de persistência. Selecionavam homens, mulheres e crianças. Separavam os pais dos filhos, as mulheres dos maridos. Formava-se o grupo dos condenados à morte, o dos trabalhadores forçados, sendo que todos eram despojados de sua identidade cultural, substituída pelo número de série tatuado no pulso. Como gado que vai para o matadouro, criaturas indefesas apertadas nos vagões. Desapareciam sem que pudessem dizer adeus com esperança. Eram sombras, vestígios, pontos obscuros que se esfumavam ao longe.

            Diante dos soldados do Exército Vermelho, em 27 de janeiro de 1945, muita gente morta, pessoas enforcadas e outras queimadas. Como o ser humano conseguia construir monstruoso absurdo e o que o tornava possível? O mundo não estava preparado para achar uma resposta ao horror executado pelos alemães nos anos do holocausto.

            Uma nação moderna, com a sua cultura requintada, que dera ao mundo homens como Bach, Mozart, Beethoven, Haendel, Goethe, Hesse, Thomas Mann, Rilke, Kant, Hegel, agora bloqueava um povo, recuava-o para os subterrâneos mais indignos, sugava sua identidade cultural, liquidava seus corpos e fazia com que o bem e o mal coexistissem numa vizinhança das mais imprevisíveis,  quanto mais niilista. Os corpos eram usados para experiências absurdas. Almas sem clamor e pequenos corações viviam aterrorizados sob a expectativa de que só sairiam de Auschiwitz pela chaminé,  reduzidos a cinzas. Tudo acontecia de maneira imperturbável. A fera ressurgia da antiga caverna para galopar nas trevas. Não concedia a trégua, bania a pomba na légua, só queria a selva, como se o amor fosse inútil e o absurdo fosse o horror na relva. O mal não tinha limites.

           Como se os Direitos do Homem ainda não tivessem sido proclamados.

            Foi há pouco mais de meio século. No século que celebrava os tempos modernos, da aviação, cinema e psicanálise. Fornos crematórios reduziam a cinzas milhares de judeus. Morriam com a sua mais difícil prova, a de que eram inocentes,  indefesos, e sem qualquer possibilidade para contradizer uma condenação sem sentido.

            Naqueles idos de 1945, do lado de cá, numa cidade do interior da Bahia, um menino era levado pela mãe para aprender as primeiras letras no prédio escolar. Não sabia que milhares de habitantes da Europa eram reduzidos a cinzas por homens que se elegiam filhos de uma raça superior, sustentada em sua feição ariana por botas de ferro de soldados impassíveis.
           
              O menino assistiria a vitória do amor com o desfile sonoro do povo nas ruas e os sinos tocando na cidade pequena. À frente do desfile, um homem, baixote e gordo, levava uma tabuleta com esses dizeres: AUSCHIWITZ NUNCA MAIS. Era o gringo Leone Leibowitz, um judeu lituano que tinha uma loja de calçado, chapéu e tecido na rua do comércio. Vendia barato e ninguém entrava na sua loja para não comprar um sapato, chapéu ou tecido. Tinha uma maneira de falar engraçada, misturando o lituano com o português das terras do sul da Bahia.  Quase sempre o freguês demorava de entender o preço exato que ele dava a um chapéu ou sapato. Gostava de fumar Yolanda Azul. O cigarro apagado ficava esquecido no canto da boca durante bons minutos. Não fazia mal a uma mosca.
                                                                      
               Os meninos de meu tempo gostavam muito dele.


Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Membro da Academia de Letras da Bahia.

* * *

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

MEU ÚNICO E VERDADEIRO AMOR - Albert Di Bartolomeo


Ela não me enlouquecia,
mas me completava



Minha mulher e eu seguíamos para a praia – um fim de semana prolongado, de quatro dias, em Stone Harbor, com uma parada em Atlantic City.

            Nunca viajei naquela estrada sem me transportar aos verões que passei em Atlantic City nos tempos de faculdade, em princípios dos anos 70. Tenho fotos daquela época, mas não preciso delas a fim de evocar o passado. Para isso basta o cenário conhecido.

            Uma hora depois estávamos no local em que eu passara aqueles verões, trabalhando como ajudante de garçom num restaurante da cidade vizinha, ao sul. era um prédio branco com estrutura de madeira, 3 andares que rangiam e uma escada de incêndio de ferro batido presa na lateral da construção, como um adendo de última hora. Meu quarto ficava no terceiro andar.

            A casa se fora, bem como outras na rua.

            - É como se tivesse desaparecido no ar – comentei.

            Olhei para o vazio profundo diante de mim e os espectros do meu passado que passavam por ele. Imaginei-me sentado na varanda, lendo romances, e espreguiçando-me na praia sob o céu azul e indo de bicicleta para o trabalho, pelo puro prazer de sentir o vigor de meu corpo jovem.

            Então Jayne, meu primeiro amor, me veio à mente.

            - Em que está pensando? - perguntou minha mulher.

            - Nada de mais. Só nos tempos que passei aqui.

            Vi Jayne pela primeira vez num dia de julho, bem cedo. Eu tinha começado a limpar as janelas da frente do restaurante quando uma garota se aproximou da entrada. Fiquei olhando enquanto ela passava pela porta. Quando nossos olhares se encontraram, ela sorriu e murmurei um olá.
 
            - Sou o novo ajudante de garçom - disse, sentindo o rosto queimar.

            - Sou a garçonete que já está aqui há tempo demais.

            - Mas a temporada só começou há uma semana.

            - Exatamente.

            Jayne riu e foi se preparar para as suas tarefas.

            Durante o dia, eu queria parar no meio da confusão dos fregueses para falar com ela. Sempre que a avistava meu olhar a seguia, às vezes tão fixamente que teria ficado constrangido se alguém reparasse. Nos dias seguintes começamos a conversar durante a pausa do meio da tarde. A princípio encabulado, com a língua presa, logo passei a falar com uma paixão quase incontrolável, que para mim era desconhecida.

            Pouco depois nos encontramos na praia. naquela tarde ficamos deitados numa toalha, eu num estado de quase delírio, minha respiração ofegante com a visão de sua pele lisa, brilhando ao sol.

            Depois disso, passamos a caminhar ao longo da praia ou ficar em minha casa, ouvindo canções sobre desejos e perdas que pareciam nos falar diretamente. Não me lembro mais de nossas conversas, mas não eram tão importantes quanto a simples presença dela.

            Eu já conhecera outras garotas, tivera até uma namorada no 2º Grau, mas o que sentira por elas agora parecia insignificante. Esse novo sentimento me consumia por completo, como é natural no primeiro amor, uma sensação que vem do próprio sangue, como uma intoxicação ou doença.

            Cerca de um mês após ter conhecido Jayne , levei-a para casa depois de uma festa. No meio do caminho caiu uma tempestade. Seguimos devagar pelas ruas alagadas, na escuridão das três da madrugada. Parei o carro diante da casa dela e ficamos ali sentados, conversando.

            - Meu coração às vezes dá um salto quando penso em você -eu lhe disse.

            Ela sorriu.

            - É verdade.

            Certas noites, deitado na cama ouvindo o murmúrio do oceano, pensar em Jayne podia realmente fazer meu coração falhar uma batida.

            O que mais poderia provocar essa reação senão o amor? Quase disse isso a ela, mas me pareceu desnecessário, na doçura daquele casulo que então nos envolvia, protegendo-nos da chuva.

            Deixei Jayne nessa noite imaginando os longos dias que passaria com ela no futuro.

            Aquela, porém, foi a última vez que nos vimos fora do trabalho. Uma semana depois Jayne foi sentar-se comigo à “nossa” mesa, nos fundos do restaurante, com ar sério.

            - Algum problema?

            Ela hesitou.

            - Meu namorado e eu fizemos as pazes.

            Foi como se eu tivesse levado um soco no estômago.

            - Pensei que estava tudo acabado.

            - Ele diz que me ama e acho que também o amo.

            Não encontrei nada para dizer.

            - Sinto muito.

            Passei o restante dá tarde num atordoamento que pouco diminuiu nas três semanas que restavam para o fim do verão. Nunca na vida me sentira tão magoado, e pensei que jamais poderia me refazer disso. Sentia-me amargurado e zangado.

            A ferida se recusava a sarar. Passaram-se muitos meses, mas dentro de mim o lugar antes ocupado por Jayne me fazia estremecer sempre que eu o tocava.

            Então, num sábado de primavera, dois anos depois, entrei numa livraria da na Filadélfia e perguntei à garota no alto de uma escada onde poderia encontrar os sonetos de Shakespeare de que precisava para uma aula de inglês.

            Ela olhou para baixo e me indicou onde era a seção de poesia. Agradeci, encontrei o livro e logo saí da loja.

            No fim de minha aula de inglês, algumas semanas depois, cheguei ao saguão e vi a moça da livraria saindo de uma sala próxima. Lembrei-me de seus cabelos cor de trigo, da voz calorosa, dos olhos verdes inteligentes.

            Ela me viu e sorriu reconhecendo-me.

            - A garota da escada - disse eu, quando nos aproximamos.

            - Os sonetos de Shakespeare.

            - Você sempre se lembra dos livros que as pessoas procuram?

            - Quando vale a pena lembrar das pessoas.

            A resposta me fez sorrir.

            Ambos estávamos indo para outras aulas, mas fizemos as apresentações antes de nos despedir.

            Depois disso encontrei Susan várias vezes, sim em geral nos cumprimentávamos ou fazíamos alguma brincadeira e seguíamos nossos caminhos. Às vezes nos encontrávamos nos fundos da biblioteca do campus e nos sentávamos à sombra dos plátanos, conversando. Se ela não aparecesse, tudo bem. Éramos apenas amigos, sem compromisso, e eu preferia assim. Depois da angústia que vivera com Jayne, tornara-me desconfiado e não me abria com ninguém.

            Entretanto, uma tarde o assunto da conversa chegou a nossos pais.

            - Acho que você gostaria de minha mãe - disse eu -, mas meu pai morreu quando eu tinha 11 anos.

            Não tivera a intenção de mencionar algo que raramente contava, mesmo a amigos íntimos, e quase desejei ter ficado calado.

            Susan tocou meu braço.

            - Já faz algum tempo – eu disse.

            - Mesmo assim, sinto muito. – Uma sombra passou por seus olhos, em geral tão brilhantes. – Perdi o meu no fim do 2º Grau.

            Foi minha vez de lamentar.

            Ficamos ali sentados por algum tempo na tarde preguiçosa, emudecidos por aqueles pensamentos. Mas, como percebi na época, uma das virtudes de Susan era não permitir que as mágoas da vida sufocassem as alegrias, e logo passamos a falar de assuntos mais animados. Algumas semanas depois começamos a namorar.

            Naquele verão fui para Atlantic City pela última vez como universitário. Sentia-me mais velho, mais sábio e certamente menos ingênuo. E havia uma sensação de algo terminando – a juventude, e tudo que ela traz e que temos de abandonar para levar uma vida estável e responsável. Aquela viagem também foi diferente porque Susan de vez em quando ia me visitar, nos fins de semana.

            Como eu trabalhava de dia, só tínhamos as noites para estarmos juntos. As horas eram preciosas, e muitas vezes as passávamos à beira-mar, apenas conversando, como se tivéssemos guardado para o outro tudo que não podíamos expressar aos demais.

            Em algumas noites o luar formava um caminho sobre a água, ligando a praia ao horizonte.

          - É como se pudéssemos caminhar sobre ele – comentei, certa vez.

          - Aonde nos levaria?

          - Aonde quiséssemos, é o que gosto de pensar.

            - E aonde você iria?

           - Não sei, mas gostaria que você fosse comigo.

            - Com prazer.

            Ficamos abraçados, enquanto a noite avançava e esfriava. Foi ali, com as ondas quebrando no escuro, que deixei Susan penetrar nos recessos secretos que eu guardara minhas feridas. Ela os tocou com delicadeza e, quando me revelou os próprios receios e desejos, descobri o que era o amor verdadeiro.

            Depois que Susan tomava o ônibus de volta à Filadélfia e eu ficava só, muitas vezes lhe escrevia. Ela guardou essas cartas, amareladas, numa bolsa de seda rosa no fundo de uma cômoda há muito tempo com a família, que ganhamos de sua mãe quando nos casamos. Eu também tenho as cartas de Susan. Quando as leio, lembro-me do motivo por que quis passar a vida ao lado dela.

            Susan e eu nos levantamos cedo na manhã seguinte e fomos à praia para “cumprimentar o oceano”, como ela costuma dizer. Atravessamos os vários quarteirões no ar ainda fresco, no silêncio típico das manhãs no litoral.

            - É tão lindo – disse Susan, apertando minha mão, e concordei.

            No alto as gaivotas voluteavam e gritavam enquanto caminhávamos descalços na areia fresca e úmida. Depois paramos, sentei-me junto de uma duna, e Susan ficou na beira d’água, olhando o mar ou procurando conchas e pedras interessantes. De vez em quando se voltava para mim, emoldurada pelo sol brilhante do início da manhã.

            O primeiro amor, pensei, pode marcar profundamente, mas quando o amor perdura e cresce é porque une e alimenta o que há de mais caro, belo e nobre em duas pessoas. E porque compreende e perdoa o que é menos do que isso.

            O primeiro amor pode invadir nosso sangue com um efeito estonteante, mas o amor duradouro toma conta da alma. Assim, o amor se torna algo muito mais poderoso do que carne e osso. Ele nos completa, dando-nos a integridade de que precisamos para navegar em segurança pela vida.

            Eu poderia passar horas observando minha mulher, as ondas se quebrando e avançando sobre seus pés descalços.

            Num mundo por vezes desfigurado pelo sofrimento e pela angústia, senti uma gratidão profunda por ter o sol surgido para mim num amor como aquele. Eu o sentia naquele momento, fluindo sem parar entre nós dois, inteiramente unidos e completos como os mares – um porto contra todas as tormentas.


(Reader’s Digest SELEÇÕES - Março 2000)

* * *

domingo, 26 de janeiro de 2020

O ROMANCE - Ariston Caldas


            Teve a ideia de escrever um conto ou romance. Em vista dos assuntos abordados envolvendo uma família de quatro pessoas e algumas personagens eventuais que deviam aparecer na história, definiu-se por um romance. Verdade que nunca havia escrito nada em sua vida, a não ser cartas para familiares e amigos, bilhetes para namoradas. Mas sentia vontade de ser um escritor, certamente o primeiro entre sua parentela numerosa. Por seus cálculos o romance alcançaria umas trezentas páginas.

            O livro seria uma obra realista, baseada no viver de uma família que residia em frente. Daí a facilidade para observar o vai-e-vem de cada um, gestos e atitudes, certas ocorrências curiosas, como as brigas entre o casal, os modos da sogra do sujeito, mulato corpulento, mecânico exercitado em lutas de boxe.

            A vida dele com a mulher era tumultuada entre ciúmes e outras encrencas. Tinha o filho oito anos, malcriado, cheio de vontades, por isso apanhava quase todo dia. No mesmo elenco incluiria um quitandeiro de rua, na esquina, especialista em vendas de bebidas fortes misturadas com raízes, e ainda uma sessentona gorda, habituada a sentar-se no passeio, toda tarde, para espionar a vida dos outros, cochichando, apontando com o dedo, franzindo o nariz, apertando um olho. Começaria anotando suas observações aproveitando os assuntos mais importantes, iniciando pelo cenário, a rua esburacada, poeirenta; o tipo de casa onde residia a dita família, com biqueiras, sem platibanda, passeio estragado, sem numeração na porta, baixa, telhado arqueado, janelas sem nivelamento, sem vidraças; em vista do telhado curvo, podia-se ver,  olhando por cima da cumeeira,  as palmas de um coqueiro tremulando no quintal  onde bandos de pássaros revoavam quando era estio.

            Anotaria manias e costumes das personagens, o perfil dessas pessoas e algumas peculiaridades de cada uma, como do homem da venda que tinha o polegar esquerdo deformado por uma cicatriz na junta; ressaltaria os risos debochados da mulher do pugilista, o hábito dela coçar a virilha no meio da gente , alheia, descalça, cabelo formando duas tranças caída pelos ombros, pisando pelas casas vizinhas, tagarelando; das advertências da mãe dela: “...isto tá certo, moça? Toma jeito de gente!”.

            Daria destaque às malcriações do menino, seu comportamento agitado, cheio de diabruras que lhe rendiam surras e castigos, puxões de orelhas; lembraria, também, o agradável dessas pessoas, destacando o corpo bem feito da mulher do boxeador, seus olhos brilhantes, sorriso aberto; a boa vontade do marido desencrencando uma fechadura do vizinho, consertando uma biqueira; a fala mansa da sogra, contando a história do seu tempo de mocinha, brincando de roda pelo terreiro, namoricando meninos da vizinhança, agora adivertindo a filha de tranças com o vício de coçar as virilhas indiferente.

            As particularidades que não podiam ser comprovadas, da privacidade de cada um, seriam mostradas por deduções, como o que se passava na cama entre o boxeur e a companheira dele; com a sessentona tomando banho numa bacia cheia de água morna; com o menino se escondendo para não escovar os dentes. Concluídas essas ideias, cuidaria agora meter mãos à obra, começando pela aquisição de acessórios indispensáveis à tarefa. Compraria um caderno grosso, páginas pautadas e numeradas, com abecedário; uma caneta preta e outra vermelha, esta para observações especiais: borracha de apagar, goma para papel, clipes, borrachinhas para prender almaços, lápis comum para revisão às margens, lapiseira, uma pasta de couro, alguns centos de papel-ofício.

            Sabendo de seus embaraços com a língua portuguesa, providenciaria um dicionário bom, uma gramática atualizada, assim não temeria trocar  S por Z, por Ç, um X por CH, entre outras dificuldades piores, como tempo do verbo, concordância, pronomes e suas colocações. Lembrou que não sabia ainda o nome dos vizinhos que seriam suas personagens, havia pouco chegados; pensou, porém, que de qualquer forma, os nomes utilizados no romance não seriam os verdadeiros, como se dá em todo o livro de história. No final de semana iria ao comércio comprar o material já relacionando.

            Depois dessas providências e pronta toda a redação, procuraria uma editora de conceito, e entrosamento com os meios de comunicação mais conceituados na região, no estado, no país.

            O sábado por ele designado para as compras amanheceu chuvoso e frio, sem nenhum pássaro revoando pelas palmas do coqueiro no quintal de suas personagens; em frente à casa sem platibanda e de janelas sem vidraças, viu um caminhão velho estacionado com as laterais da carroceria arriadas; o pugilista e dois ajudantes carregavam para o carro uns móveis velhos, outros utensílios, trouxas de roupas; o menino, pelo meio, perturbando. Em duas horas a mudança estava arrumada. A das tranças e a mãe dela subiram para a cabine, o mecânico com o filho para a carroceria, onde ficaram em pé protegendo um guarda-roupa.

            Depois de uma buzinada estridente o carro saiu roncando, banzeiro, pela rua esburacada, sumindo depois pela esquina onde ficava a quitanda do sujeito que tinha um polegar deformado, com uma cicatriz. Da janela viu o caminhão sumindo vagarosamente, levando as principais personagens do livro que escreveria. Desencantado, nem chegou ir à rua onde compraria o material já relacionado em sua imaginação.

            O romance morreu por aí, mudou de ideia e nunca mais pensou no assunto.


(LINHAS INTERCALADAS – 2ª Edição 2004)

Ariston Caldas

* * *

PALAVRA DA SALVAÇÃO (167)

3º Domingo do tempo Comum -26/01/2020


Anúncio do Evangelho (Mt 4,12-23)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia.Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia,no território de Zabulon e Neftali, para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías: ”Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos pagãos!O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz, e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz”. Daí em diante Jesus começou a pregar dizendo: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”.
Quando Jesus andava à beira do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores.Jesus disse a eles: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. Eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram. Caminhando um pouco mais, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João. Estavam na barca com seu pai Zebedeu consertando as redes. Jesus os chamou.Eles imediatamente deixaram a barca e o pai, e o seguiram. Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

---
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Padre Roger Araújo:

---

“Jesus deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia” (Mt 4,13)

Galileia foi a primeira decisão importante que Jesus tomou no início de sua vida pública. Ele começa sua atividade longe da Judeia, de Jerusalém, do templo, das autoridades religiosas. Jesus, na Galileia, encontrou o seu lugar: junto ao mar, nas estradas poeirentas, nas margens... Um “lugar sagrado” que nasceu do seu coração, carregado de afeto, de inspiração, de vitalidade... 

Ali, Ele teve suas preferências e elegeu o seu “lugar” entre os mais pobres e excluídos, vítimas daqueles que se faziam donos dos lugares; ali revelou a presença d’Aquele que se faz presente e santifica todos os lugares: o Pai.

Jesus se fez presente nos lugares onde se encontravam aqueles que não tinham “lugar”, os “deslocados”, os socialmente rejeitados e que eram a razão de seu amor e do seu cuidado; fez-se solidário com os “sem lugares” e os convidou a caminhar para um novo lugar: lugar de vida, de comunhão... Sua missão foi a de reconstruir a identidade das pessoas, devolvendo a elas o seu “lugar”.

Seu ensinamento, cheio de “autoridade”, introduziu uma perspectiva nunca ouvida antes; apresentou uma alternativa que as pessoas mais simples do povo entendiam como revelação do Pai aos pequeninos. A partir das periferias do mundo, surgiu um canto de vida nova, a sabedoria oculta a muitos sábios e expertos; uma sabedoria que vinha de Deus, desconcertando a sabedoria exibida a partir do centro. Jesus desconcertou a “sabedoria” do centro a partir da “loucura” da periferia.

Podemos, então, afirmar que Jesus descentralizou o mundo a partir da periferia. O fato surpreendente é que, em Jesus, Deus não só se fez homem, mas também se fez “margem”. O próprio Jesus foi “margem”. Belém e Calvário são os dois extremos periféricos – início e fim – de toda uma vida, despojada e pobre.

Todos tinham os olhos voltados para o centro. No templo de Jerusalém era elaborado o saber que ia se expandindo até chegar à menor das sinagogas. No entanto, em Jesus, o Reino de Deus anunciado movimentou-se em direção contrária: subiu, a partir da mais baixa periferia, para o centro. Ele começou a falar a partir da margem geográfica, cultural, religiosa e econômica.

Nesse sentido, a vida de Jesus foi “excêntrica”, porque não combinava nem se ajustava com a construção social de todos aqueles que controlavam o mundo a partir do centro. No entanto, Jesus fez o “centro” da história. Nele, o Pai “nos escolheu antes da criação do mundo”. Isto quer dizer que o “centro” da história teve seu aparecimento na “periferia”. Portanto, Jesus descentralizou a história para sempre e situou o surgimento da salvação nas terras excluídas. A ação de Jesus provocou um deslocamento geográfico-social-religioso. 

O centro da história já não se encontra mais em Roma, nem em Jerusalém, e sim na “margem”. Todo aquele que, a partir de então, pretende encontrar-se com Jesus terá de voltar a cabeça e peregrinar em direção às margens, onde estão os prediletos do Pai. 

Tendo Jesus se encarnado para sempre nas “periferias” do mundo, porque desejou assumir toda a história a partir daí, também nós, seguidores(as), temos de dirigir constantemente o olhar para as “novas periferias”, a partir de onde Ele continua nos questionando. 

“Êxodo para as periferias”: terra privilegiada, de onde podemos contemplar a história e a própria humanidade. A razão mais importante de todo este caminho é a união ao movimento de encarnação de Jesus, decidido pelo Pai como caminho privilegiado para a realização de seu Projeto.

Cada passo na direção das periferias do mundo também é um passo contemplativo em busca do encontro com o Senhor da História, que nos chama de “baixo” e de “fora”.  “O discípulo-missionário é um descentrado: o centro é Jesus Cristo que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias existenciais. A posição do discípulo-missionário não é a de centro, mas de periferias: vive em tensão para as periferias” (Papa Francisco) 
Quê significa “fronteiras geográficas e existenciais”? É preciso sair dos limites conhecidos; sair de nossas seguranças para adentrar-nos no terreno do incerto; sair dos espaços onde nos sentimos fortes para arriscar-nos a transitar por lugares onde somos frágeis; sair do inquestionável para assumir o novo... É decisivo estar dispostos a abrir espaços em nossa história a novas pessoas e situações, novos encontros, novas experiências... Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode nos enriquecer... 

A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis caminhos que podemos percorrer; pessoas instigantes que aparecem em nossas vidas; desafios, encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprenderemos e nos farão um pouco mais lúcidos, mais humanos e mais simples... A periferia passa a ser terra privilegiada onde nasce o “novo”, por obra do Espírito. Ali aparece o broto original do “nunca visto”, que em sua pequenez de fermento profético torna-se um desafio ao imobilismo petrificado e um questionamento à ordem estabelecida.

Jesus começou sua vida pública com um novo ensinamento, rompendo esquemas e modos de viver ditados pelo Templo. Diariamente ouvimos, lemos e nos deparamos com esta palavra que está tão em moda: inovação; expressão presente em todas as instâncias humanas: empresarial, educativo, social...

Partindo do evangelho deste domingo, podemos também fazer esta pergunta: qual é a “inovação do Evangelho”? Que há de inovador, na vida de Jesus, que pode nos inspirar? Com certeza, há uma inovação acima de todas: a paixão de Jesus pela vida, pelo Reino, pelas pessoas, de maneira especial pelas mais excluídas e feridas. Por isso, Jesus inicia sua missão fora dos “espaços sagrados” do Templo; é nas “margens” que Ele, com sua presença inspiradora, ativa um movimento inovador e, ao mesmo tempo, humanizador. 

Essa paixão de Jesus se revela em cada passagem do Evangelho, em cada palavra que sai de sua boca, em cada gesto que faz tremer todas as instituições, em cada ação que visa levantar, curar e devolver a dignidade a todo ser humano com quem se encontra. Não há um indício sequer de dogma, de doutrina, de regras, de leis..., a não ser isso: tudo o que façamos, vivamos e desejemos, seja em prol das pessoas, para seu bem e sua felicidade.

A inovação de Jesus está em eliminar da vida todo o peso do legalismo, do moralismo, da culpa..., para fazer emergir o que há de mais humano e divino presente em cada pessoa. A expressão “pescador do humano” deixa transparecer essa inovação mobilizada por Jesus, a partir do mais profundo de cada um. Seguindo Jesus e deixando-nos impactar por sua inovação em favor da vida, estaremos, também nós, inovando, quando deixaremos transparecer uma paixão pelas pessoas, que se manifesta em nossa acolhida, em nossos gestos, no nosso olhar contemplativo, nas nossas palavras mobilizadoras...; trata-se de investir a vida em favor da vida e fazendo os outros se sentirem mais irmãos e mais filhos de um mesmo Pai.

Nesse sentido, Mateus também situa, no início da vida pública de Jesus, o chamado dos quatro primeiros discípulos. Detrás disso, há uma intencionalidade teológica, que busca mostrar Jesus e seus discípulos compartilhando a mesma missão: aliviar o sofrimento humano, com a certeza de que o Reino de Deus tinha chegado. Assim, inicia-se um grande “movimento humanizador”, a partir de baixo, das margens...

Nesse entorno da Galileia está o futuro do Evangelho; Galileia é a terra do chamado e, a partir desse lugar, inicia-se também novo caminho do seguimento. Por isso, os(as) discípulos(as) devem entrar em sintonia com o modo original de ser e de viver de Jesus na Galileia. É ali que se devem encontrar todos os seus(suas) seguidores(as), para também ali prolongar o movimento iniciado pelo Mestre de Nazaré.

Texto bíblico:  Mt 4,12-23

Na oração:  Aquele Desconhecido se aproxima, ainda hoje, do nosso mar da Galileia, que representa os lugares, os afetos, os segredos, os costumes da nossa vida cotidiana... ; Ele fixa seu olhar em cada um de nós e, com sua Palavra inspiradora, nos desafia a transgredir os nossos lugares estreitos e entrar em outro mar. 
O Evangelho deste domingo faz emergir algumas perguntas que são significativas para a vida cristã:
- você vive em processo de mudanças ou continua sempre igual? Seu modo de viver o seguimento de Jesus é sempre criativo ou continua “normótico” (norma-lidade doentia, sem inspiração, sem afeto...)?
- você é um peregrino ou está ancorado no de sempre? Você está se convertendo constantemente para uma vida nova e melhor, ou se contenta com uma mera repetição? 

Pe. Adroaldo Palaoro sj


* * *