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quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A ILHA DOS MEUS FILHOS


Por Clare Boyd-Macrae
 Os bens mais valiosos que podemos dar a eles não podem ser comprados em lojas


         Toda Páscoa nossa família vai acampar com amigos no remoto trecho de um rio, a seis horas de carro da cidade. Como uma espécie de provação antes de atingirmos o objetivo, os últimos 20 quilômetros são de difícil acesso: uma trilha cheia de cascalhos descendo a montanha, com passagem para um só veículo e um precipício num dos lados. Se deparamos com outro carro, como em geral acontece, é preciso uma boa dose de negociação.

            Na descida dessa trilha, descortinam-se vistas magníficas do rio lá embaixo. Ziguezagueando sob a proteção dos picos cobertos por pinheiros, as margens brancas e as piscinas fundas naturais trazem lembranças de férias passadas.

            Então chegamos e, quando a irritante tarefa de montar o acampamento termina, damos início àquela o que é para nós a melhor semana do ano.

            Dessa vez fizemos algo diferente. As crianças descobriram uma ilha. Era pequenina, e elas a exploraram minuciosamente. Ali havia rochas, arbustos e um pequeno banco de areia com espaço suficiente para 6 crianças dormirem. o melhor de tudo: era uma ilha de verdade, cercada por águas rasas, mas velozes.

            Exultantes, as crianças pediram para dormir ali na última noite. Concordamos com a aventura, contanto que não se importassem de nós, os pais, dormirmos numa praia próxima, de onde as pudéssemos ver e ouvir.

            Jantamos cedo e atravessamos o rio, levando sacos de dormir, forros impermeáveis e lanternas até a ilha. Arrumamos o local para os meninos dormirem e juntamos lenha para a fogueira matinal. As crianças haviam examinado e dado nome a cada recanto e fresta da ilha, mostrando-nos tudo. Rocha Torre de Vigia, Bumbum de Neném (tão lisa quanto), Spa...

            Voltamos e preparamos o lugar na praia onde dormiríamos. Acendemos uma fogueira, abrimos uma garrafa de vinho e nos esparramamos na areia refrescante, conversando. Eu me sentia como uma adolescente deitada na praia com o namorado. Experimentava uma sensação de aventura.

            A cada meia hora, até às 20h30, as crianças acendiam uma lanterna para indicar que estava tudo bem. Em resposta nós gritávamos com animação e prazer, e dávamos boa noite através das corredeiras. Às 21 horas, tudo estava quieto e às 22h30, nós, os adultos, também nos deitamos. Acordei no meio da noite pensando ter ouvido um grito de criança, mas era apenas um pássaro. Fiquei ali deitada, olhando para as estrelas e a lua brilhante, ouvindo a música do rio e se sentindo o acalento da terra à minha volta. De manhã, minha filha de 13 anos disse que mal conseguira dormir de tanta felicidade.

            Crianças de sorte! Quando eu era pequena, tinha de me contentar com um “acampamento virtual”: devorava livros de aventura maravilhosos que meus filhos agora adoram. Mas eles têm também a experiência para valer: a vida no seio da mãe Terra. Aventura, coragem e responsabilidade com a segurança da presença dos pais por perto.

            Esses são os fatos que as crianças lembram com os olhos brilhantes e o peito estufado de orgulho, quando recordamos os bons momentos. Não o jogo de computador, o website da Internet ou a série de TV recentes, mas a magia - antiga como a própria humanidade – de barracas e fogueiras, de histórias e noites passadas sob as estrelas.

            Esses são presentes que podemos dar a nossos filhos como amuletos contra o desespero que tantos jovens sentem.

            São essas as lembranças que vão encantar sua infância, conduzi-los à idade adulta e aquecê-los na velhice.

                                               ..........
1999 CLARE BOYD-MACRAE AGE (1º DE AGOSTO DE 1999), 250 SPENCER ST., MELBOURNE, VICTORIA 3000, AUSTRÁLIA

(Reader’s Digest – Seleções – ABRIL 2000)

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A VOZ DO AUTOR: FICCIONISTA E POETA CYRO DE MATTOS


Autor de diversos títulos pela Editus, Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia), Cyro de Mattos, em entrevista concedida à Associação Brasileira de Editoras Universitárias, fala sobre um de seus últimos livros, premiações literárias e a projeção global que elas oferecem para o conteúdo de suas obras.

Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista, ensaísta, romancista e também autor de livros infantis. Já publicou mais de 50 livros no Brasil e 14 no exterior, sendo 9 deles com o selo editorial da Editus - Editora da UESC. No mês de setembro de 2014, o escritor foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela UESC. Em sua trajetória, ele já recebeu mais de 40 prêmios literários, entre eles o Vânia Souto Carvalho, concedido pela Academia Pernambucana de Letras, com o livro “Berro de Fogo e outras histórias”, que em 2013 ganhou nova edição pela Editora da UESC. Seu livro “Vinte Poemas do Rio”, português-inglês, foi indicado para o vestibular da Universidade Estadual de Santa Cruz, durante três anos, como também “O Conto em Vinte e Cinco Baianos”, antologia que ele organizou.

Recebeu ainda prêmios da Academia Brasileira de Letras, Pen Clube do Brasil, Associação Paulista de Críticos de Artes, Menção Honrosa no Prêmio Jabuti e Menção entre os quatro finalistas no Concurso Internacional Plural, México. Algumas de suas obras destacam a civilização cacaueira baiana como um dos espaços do seu imaginário fecundo, no qual retrata a paisagem, personagens, lugares, hábitos e histórias. Dois outros grandes acontecimentos marcaram a vida do escritor.  Foi eleito para a cadeira nº 22 da Academia de Letras da Bahia, que tem como fundador Rui Barbosa, e o seu livro, “Histórias dos Mares da Bahia”, antologia que ele organizou, foi lançado na 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no estande da Associação Brasileira de Editoras do Nordeste - ABEU. A obra faz parte da Coleção Nordestina, projeto editorial que reúne livros produzidos pelas editoras da ABEU Nordeste.  Essa coletânea reúne dezesseis escritores baianos, e, entre eles, João Ubaldo Ribeiro, Hélio Pólvora, Ruy Espinheira Filho, Guido Guerra, Gláucia Lemos e Aramis Ribeiro Costa. No ano passado, seu livro "Cancioneiro do Cacau", Prêmio Nacional Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores (Rio) e Segundo Prêmio Internacional Maestrale Marengo d’Oro, Gênova, Itália, foi lançado na Bienal Internacional do Livro do Rio, em segunda edição.


1. As suas obras expressam muito da cultura do sul da Bahia, com destaque especial para a civilização nascida ao longo do tempo pela implantação da lavra cacaueira. Essas representações ganharam projeções internacionais e também importantes premiações no cenário nacional. Como é ver o local de suas criações ganhar uma projeção global? Como o senhor avalia pessoal e profissionalmente essas importantes premiações?

Canta a tua aldeia e serás universal, disse o russo Tolstoi. Para Fernando Pessoa, o genial poeta português, o melhor rio não era o Tejo, mas o rio que passava ao pé de sua aldeia, porque era o rio de sua aldeia. Houve quem observasse que o homem faz o lugar e não o contrário. E o lugar é onde se registra a memória. O lugar tem sido motivação e símbolo para algumas de minhas criações. Minhas origens e vivências locais têm sido uma das vertentes de minhas produções em prosa e verso. Isso acontece quando às vezes, das germinações à execução da ideia, tomo como ponto de partida minhas vivências na infância, em outras vou buscar ou imaginar o assunto no cerne da história, aproveitando o que vi, colhi dos mais velhos ou até pesquisei.  Pode até mesmo acontecer que imagine um espaço sem localização geográfica, identificável com alguma parte do sul da Bahia, como no romance “Os Ventos Gemedores”, no qual criei o condado de Japará para desenvolver a trama, auscultar os personagens através de conflitos no drama.  Assim, desde que meu texto leve aos outros uma nova forma de conhecimento da vida, através da linguagem que poetiza a vida, situações e gente com nervos e sentimentos, tendo como resultado final um alcance universal e reconhecimento, aqui na região e fora de nossas fronteiras, fico contente, torno-me menos incompleto na existência, que para nós humanos é falha, limitada, precária, vulnerável, não basta. É gratificante, um verdadeiro prêmio que é dado ao autor esse tipo de reconhecimento. Acho sensato ser reconhecido em vida pelo meu trabalho, depois de morto só serve para o orador, que passa como herói, ao ressaltar no sepultamento as qualidades de quem se foi para sempre, não está mais neste mundo, ficou submetido ao inexorável.


2. O senhor foi eleito para ocupar a cadeira 22 da Academia de Letras da Bahia e recebeu o primeiro título de Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz pela sua contribuição à literatura e à cultura.  O que significam esses novos reconhecimentos na sua carreira literária?

São qualificações de meu trabalho no mais alto nível. Sinto-me honrado, fortalecido, incentivado para continuar a jornada nessa estrada solitária, a essa altura comprida.  Nela, paro às vezes, olho para trás, vejo à direita e à esquerda, sigo em frente com tantas vozes no peito, dos outros, mas que no fundo são também minhas. Vou formando com elas e a minha voz o diálogo necessário, o disfarce múltiplo que desfaz o real e projeta outra realidade com novos sentidos, externa outra linguagem através dos sinais visíveis da escrita, com seu poder metafórico intenso e de proliferação, que me ajuda a sobreviver e a conhecer um tanto mais do que sou, entre o alegre e o triste, o transitório e o permanente, o belo e o feio. Vou cumprindo uma missão, usando as palavras para explicar o inexplicável, mas que é belo, com suas verdades retiradas da vida, a ela devolvidas com razão e emoção, porque assim deve ser.


3. O seu último livro, “História dos Mares da Bahia”, antologia integrada por autores baianos, foi lançado na 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no estande coletivo da ABEU pela Editus. A publicação traz 16 contos de importantes escritores baianos, que revelam um cenário de muitas histórias. Por que o mar como fonte de inspiração e ambientação? Como foi a escolha dos autores?

Como se vê, sem esforço, trata-se de antologia temática. As histórias têm como foco o mar da Bahia, que entra como o cenário, ora interferindo no destino dos personagens, ora como elemento de composição da paisagem humana. O mar é assim a fonte de inspiração e ambientação de cada história. O mar sempre exerceu uma sedução e atração aos seres humanos. E, como temos ficcionistas na Bahia da melhor qualidade, que souberam focar o mar como fonte de suas criações, resolvi fazer uma antologia com o tema e com esses autores expressivos. O critério da escolha dos contistas se deu em função da qualidade do texto. Convenhamos que, como em toda a antologia, ocorre a omissão, mas os autores selecionados para a coletânea “Histórias dos Mares da Bahia” são os mais representativos do gênero na Bahia. Eu diria sem hesitar que são contistas brasileiros da Bahia, fortes no discurso coeso.  Com seus projetos estéticos e resultados positivos, todos eles vêm contribuindo para que as letras brasileiras operem como meio eficaz de comunicação humana em sua função social.




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quarta-feira, 6 de novembro de 2019

SOBRE A DOUTRINA ESPÍRITA


 Por Mônica Porto
Sobre a doutrina espírita

Eu já comentei aqui, há alguns dias ou até meses atrás, que sou católica, porém acredito na reencarnação, coisa que a religião católica não crê. 

Eu, apesar de católica, pois vou a missa, não todos os domingos, mas sempre que meu coração sente necessidade. Me confesso, comungo... E acredito no Corpo e Sangue de Cristo. 

Porém vocês podem imaginar:
Mas afinal, ela é espírita, católica... O quê mesmo?

Sou uma católica que crê em Deus, em Cristo, Nossa Mãe e todos os Anjos e Santos. Nos espíritos de Luz e em toda essência do Evangelho Cristão e Espírita. 

É uma dicotomia?

Para mim não!

Não, porque em ambas, Cristã e Espírita, o que o Pai deseja, assim como seu Filho e Mãe, é que nos guiemos pela Luz do Espírito Santo, com a ajuda de nosso Anjo de Guarda, para superarmos, aqui na Terra, nossas imperfeições. Daí eu conviver muito bem com ambas as religiões: Católica e Espírita. 

O importante mesmo para mim é procurar cada vez mais me superar com a ajuda Divina. Não é fácil, tenham certeza. Mas tenho me esforçado. É isso o que quero de mim: superação!
Porque o meu maior inimigo sou eu mesma.


Mônica Maria Porto
Alegre, extrovertida, colorida.
Amante da natureza, 
principalmente dos animais, 
plantas e flores.



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CONCESSÕES DO UNIVERSO – Jennifer Hoffman


Todos nós queremos abundância em nossa vida  - queremos ter muito dinheiro, amor, sucesso e felicidade. Se não tivermos tudo isso acreditamos que a abundância não está presente. Isso ocorre porque temos a tendência em descrever o "bom" em nossa vida como abundância e o "mal" como falta de algo. Desta forma acreditamos que se tivermos dinheiro, amor, sucesso e diversão então teremos abundância. E se não tivermos essas coisas então não temos abundância ou temos carências. Mas isso é errado. Nós existimos em estado de abundância todo o tempo. Se temos ou não o que queremos, sempre temos abundância em qualquer área de nossa vida.

Nossa tendência de colocar abundância e coisas boas juntas em nossa vida é o que nos ilude, por pensarmos que não somos capazes de manifestar o que queremos ou que não estamos sendo abençoados quando olhamos para nossas vidas e vemos somente problemas ou falta das coisas. Se mudarmos nossa definição de abundância de "bens" para simplesmente ter em grande quantidade, podemos ver duas coisas:  onde temos abundância e o que temos em abundância. Teremos então a informação do que precisamos para manifestar o que realmente queremos. Com uma nova definição de abundância podemos olhar para nossa vida de forma bem diferente.

São aquelas as áreas de sua vida com as quais você não tem felicidade? Então o que você tem é abundância de insatisfação. Você tem poucos amigos e não tem um círculo social? Então o que você tem é abundância de solidão. Você não tem recursos financeiros suficientes? Então o que você tem é abundância de necessidades. Você gostaria de ter começado um novo caminho em sua vida mas não tem dado o primeiro passo? Então o que você tem é abundância de receios e dúvidas. Quando temos muitas coisas das quais  não gostamos em nossas vidas, por exemplo, dificuldade de relacionamentos,  um emprego sem realizações, dinheiro insuficiente, problemas com a família ou amigos, nós achamos que não temos abundância. Nós temos sim, abundância em muitas coisas que não gostamos. Quem é o responsável por isso? Uma pista, não é o Universo.

O Universo simplesmente responde ao que pedimos. O que pedimos não é julgado ou sequer nos lembra que o que estamos pedindo são coisas que não vão fazer-nos felizes. Por que nós intencionalmente manifestaríamos o que não gostamos?  Há várias razões para isso, o hábito, o receio, dúvida, lições cármicas, ou nossas próprias crenças sobre quanta felicidade, sucesso,  saúde ou amor merecemos. Isso sozinho é a razão pela qual temos abundância das coisas que não nos trazem diversão, paz, sucesso e amor. O Universo nos dá o que pedimos, nem mais nem menos. Uma vez que saibamos onde está a abundância, então poderemos começar a concentrar-nos em criar abundância das coisas que queremos e concentrar-nos menos no que não queremos.

Transformar o que atraímos  para nós mesmos é tão simples quanto prestar atenção no que estamos pedindo, como estamos pedindo e o que acreditamos sobre nós mesmos e o que merecemos. Enquanto estivermos, ainda que sem a intenção, dizendo ao Universo "Eu quero um emprego sem realizações", nossa crença de que não seremos felizes com um emprego ou não encontrarmos um que nos realize ou até mesmo um que nos pague o que acreditarmos sermos merecedores será o suficiente para criar um emprego sem realizações. Pedir pelo que nós queremos não é o suficiente!

Nós realmente acreditamos que podemos ter o que queremos e que somos merecedores disso? Se não for assim nunca chegaremos a ter aquilo que realmente nos satisfaça . Tudo o que pensarmos, dissermos e fizermos afetará o que atrairmos em nossas vidas. Nossos pensamentos tem apenas a energia que tem as nossas palavras! Se dissermos que queremos um companheiro amoroso mas não acreditarmos que um dia ele virá em nossa vida, não poderemos surpreender-nos por estarmos sozinhos dia após dia, mês e ano. Modificar nossas crenças sobre o que merecemos é uma das coisas mais difíceis de fazer.. Isso exige uma vigilância constante de nossos pensamentos e palavras.

Devemos fazer um esforço genuíno para lembrar que somos poderosos, seres espirituais divinos que tem a habilidade de criar o que quer que queiramos. Qualquer coisa que frequentemente esteja em nossa vida é resultado de alguma coisa pela qual pedimos, mesmo tendo sido desejada consciente ou inconscientemente, acreditamos que merecíamos e continuaremos a manifestá-lo  até que realmente nos transformemos. O que você tem em abundância em sua vida? Isso flui sem percalços e você está feliz com todos os aspectos de sua realidade? Se não estiver, lembre-se de que você criou a abundância.

Você está apenas insatisfeito com ela. Uma vez que você entenda isso, poderá concentrar-se em sua manifestação de esforços e criar abundância do que traz sucesso a você, diversão, amor e paz. Conduza seus pensamentos e palavras, reveja suas crenças E modifique aquilo que o está limitando, tome uma atitude quando a porta se abrir e as oportunidades se apresentarem E caminhe para seu poder. Crie abundância nas coisas que o fazem feliz para agradecer a cada novo dia E viva a vida dos seus sonhos. É dentro de sua força que se encontra a abundância! Use-a para criar uma abundância de contentamentos e bênçãos.


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terça-feira, 5 de novembro de 2019

"A DEMOCRATIZAÇÃO DO PODER Por Alexandre Garcia


04/11/2019
| Foto: Maicon J. Gomes / Gazeta do Povo

A “CPI das Fake-news” é, na verdade, a revelação do medo que os políticos têm de perder o poder para a inevitável democratização do direito de opinião, de manifestação e a pulverização do monopólio do poder. Cobrando impostos à razão de um terço de tudo o que se produz e vende, o estado brasileiro detém o monopólio da riqueza. Ao mesmo tempo, os que têm mandato conferido pelo voto detêm o monopólio de decisões que afetam a vida de todos.

Essa concentração de poder econômico e político está em vias de acabar, principalmente por causa de uma novidade surgida há apenas 50 anos. No início de novembro de 1969, anunciava-se que pela primeira vez um pacote de dados fora transmitido dias antes entre os computadores de duas universidades, na Califórnia.

Aqui no Brasil, essa revolução só foi percebida por muitos políticos na última eleição presidencial, quando as redes sociais e não o dinheiro de empreiteiras e estatais, nem os marqueteiros, nem a propaganda televisiva, elegeram um presidente da República. Os brasileiros não ficam atrás dos navegadores digitais do primeiro mundo. Em mensagens e participação em redes sociais, nos equiparamos aos de países de alta renda. Perdemos ainda em velocidade, mas o 5G vem aí e já foi experimentado no Rock in Rio. A fibra ótica está ajudando a integrar a Amazônia, serpenteando pelos leitos dos rios, e 38 satélites já cobrem o país, que está cada vez mais abastecido de provedores de banda larga.

Nos governos petistas, houve insistente tentativa de controlar os meios de informação, sob o eufemismo de “regulação da mídia”. Não conseguiram. E seria inútil e ultrapassado, pois já surgia a força das redes sociais, livres e soltas. Governos tentam, na China, Coreia do Norte, Cuba. O problema é a diferença de velocidade entre a burocracia estatal e a tecnologia privada. Enquanto a CPI se perde em discussões, o mundo cibernético se renova, se recria, se recicla, se redescobre numa razão mais rápida que a razão humana. A tecnologia vai à frente da política. O mundo digital leva todos para a grande ágora, a praça pública do mundo, onde todos têm voz e onde ninguém tem o monopólio do palanque, onde o carro de som é de todos e ninguém é dono dele.

Os que eram donos do poder tentam controlar esse novo poder, mas como não participaram de seu nascimento, não conseguirão mudar os rumos de um sistema que anda sozinho e à velocidade da luz. O novo poder cibernético pode ser compartilhado mas já não pode ser domado. Legislativo, Executivo e Judiciário, poderes ordenados por Montesquieu em 1748, terão que se adaptar ao que surgiu em 1969 na Califórnia, com base no que foi formulado em 1859, por Charles Darwin: quem sobrevive é quem mais bem se adapta às condições externas. O estado, seus poderes e seus políticos estão destinados, com o tempo, a se adaptar ao novo mundo digital, ou desaparecer."

Alexandre Garcia



Copyright © 2019, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

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“ECONOMIA E ARTE DA PERSUASÃO” É O TEMA DA PALESTRA DE ABERTURA DO CICLO DE CONFERÊNCIAS “EM BUSCA DE NOVOS HORIZONTES: ECONOMIA E DISCIPLINAS AFINS”, COM O ECONOMISTA PÉRSIO ARIDA


A Academia Brasileira de Letras abre seu ciclo de conferências do mês de novembro, intitulado Em busca de novos horizontes: economia e disciplinas afins, com palestra do economista Pérsio Arida. O tema escolhido é Economia e arte da persuasão. O evento será realizado quinta-feira, dia 7 de novembro, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203 – Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.
 A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado é a coordenadora-geral dos Ciclos de Conferências de 2019.
Os Ciclos de Conferência, com transmissão ao vivo pelo Portal da ABL, têm o patrocínio da Light.
 Serão fornecidos certificados de frequência.
A intitulação Em busca de novos horizontes: economia e disciplinas afins, segundo o Acadêmico Edmar Bacha, refere-se a relação da Economia com outras disciplinas como História, Literatura e Direito.
 O Ciclo Em busca de novos horizontes: economia e disciplinas afins terá mais três palestras, às quintas-feiras, no mesmo local e horário, nos seguintes dias, com os conferencistas e temas, respectivamente: dia 14, José Murilo Carvalho e Edmar Bacha, Economia e históriadia 21, Gustavo Franco, Economia e Literatura, e dia 28, Elena Landau, Economia e Direito.

O Conferencista
Pérsio Arida, nasceu em 1952 em São Paulo, Capital. É Bacharel em economia pela FEA/USP, Ph.D. em economia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT).
Foi professor da USP no período de 1979 a 1981 e na PUC-RJ de 1981 a 1984. No exterior, foi Assistente de pesquisa na School of Social Studies da Universidade de Princeton de 1978 a 1979, membro da Woodrow Wilson Center em 1984, pesquisador visitante na Universidade de Oxford de 2005 a 2007 e Acadêmico visitante na Blavatnik School of Government também da mesma Universidade em 2017.
Na Administração Pública, foi Secretário de Coordenação Econômica do Ministério do Planejamento em 1985 e diretor do Banco Central em 1986 e em 1995, assim como presidente do BNDES no período de 1993 a 1994.
No Setor Privado, foi Diretor da Brasil Warrant de 1987 a 1989, membro do Conselho de Administração do Unibanco de 1989 a 1993, diretor do Opportunity Asset Management de 1996 a 1999. Foi também membro do Conselho de Administração do Itaú de 2002 a 2008 e do Conselho do Banco BTG Pactual, de 2009 a 2017.
Atualmente, integra o Conselho consultivo do Corporate Development Committee (CDC) do MIT Foundation, da Blavatnik School of Government da Universidade de Oxford e do Comitê consultivo de Investimentos do Fundo de Pensão do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington.

Leitura complementar
Biblioteca Rodolfo Garcia disponibiliza seu acervo para pequisa e leitura de obras relacionadas ao tema desta conferência, como "Mercado de capitais e bancos públicos  : análise e experiências comparadas""Brasil : segunda grande transformação no trabalho" e "Política econômica, emprego e política de emprego no Brasil".
Para consultar mais materiais como os citados, acesse o link abaixo e visite os "Levantamentos bibliográficos" realizados para este evento.

31/10/2019



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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

UM IDOSO NA FILA - Zuenir Ventura


Quando a gente percebe que entrou na ‘terceira idade’ Por ZUENIR VENTURA

  
          “O senhor aqui é idoso”, gritava a senhora para o guarda, no meio da confusão, apontando com o dedo o tal “senhor”. Como ninguém protestasse, o policial abriu caminho para que o velhinho, aprovado no exame de vista, enfim passasse à frente de todo mundo para buscar a sua carteira de motorista. O “idoso” que a dama solidária queria proteger do empurra-empurra não era outro senão eu.

            Até hoje não me refiz do choque. Sim, eu, que já tinha me acostumado a vários e traumáticos ritos de passagem para a maturidade: dos 40, quando, em crise, se entra pela primeira vez nos enta; dos 50 , quando, deprimido, se sente que jamais vai se fazer outros 50  (a gente acha que pode chegar aos 80, mas aos 100?); e dos 60, quando um eufemismo diz que a gente entrou na “terceira idade”. Nunca passou pela minha cabeça que houvesse uma outra passagem aos 65 anos. E, muito menos, nunca achei que viesse a ser chamado, tão cedo, de “idoso”, ainda mais numa fila para carteira de motorista.

            Na hora, tive vontade de pedir a tal senhora que falasse mais baixo. Na verdade, tive vontade de dizer: “Idoso é o senhor seu pai.” O que mais irritava era a ausência total de hesitação ou dúvida. Como é que tinha tanta certeza? Que ousadia! Quem lhe garantia que eu tinha 65 anos, se nem pediu para ver minha identidade? E o guarda, por que não criou um caso, exigindo prova e documentos? será que era tão evidente assim?

            Como, além de idoso, eu era um recém-operado, acabei aceitando ser colocado pela porta adentro. Mas confesso que furei a fila sonhando com a massa gritando, revoltada: “Esse coroa tá furando a fila! Ele não é idoso! Manda ele lá pro fim!” Mas que nada, nem um pio.

            O silêncio de aprovação aumentava o sentimento de que eu era ao mesmo tempo privilegiado e vítima - do tempo. Lembrei-me da manhã em que acordei fazendo 60 anos: “Eu não mereço”, disse a mim mesmo. Há poucos dias, ao revelar minha idade, uma jovem universitária reagira assim: “Mas ninguém lhe dá isso”. Respondi que, em matéria de idade, o triste é que ninguém precisa dar para você ter. De qualquer maneira, era um gentil consolo da linda jovem. Ali na fila nem isso, nenhuma alma caridosa para me dar um pouco menos.

            A mocinha da mesa de informações apontou para os balcões 15 e 16, onde havia um cartaz avisando: “gestantes, deficientes físicos e pessoas idosas.” Hesitei um pouco e ela, já impaciente, perguntou: “O senhor não tem mais de 65 anos? Não é idoso?”

            “Não, sou gestante”, tive vontade de responder, mas percebi que não carregava nenhum sinal aparente de que tinha amamentado ou estava prestes a amamentar alguém. Saí resmungando: “não tenho mais, tenho só 65 anos.”

“CRÔNICAS DE UM FIM DE SÉCULO”. 1999 ZUENIR VENTURA. EDITORA OBJETIVA, RIO DE JANEIRO.


  (Reader’s Digest SELEÇÕES. Abril de 2000)

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