Eu já comentei aqui, há alguns dias ou até meses atrás, que
sou católica, porém acredito na reencarnação, coisa que a religião
católica não crê.
Eu, apesar de católica, pois vou a missa, não todos os
domingos, mas sempre que meu coração sente necessidade. Me confesso, comungo...
E acredito no Corpo e Sangue de Cristo.
Porém vocês podem imaginar:
Mas afinal, ela é espírita, católica... O quê mesmo?
Sou uma católica que crê em Deus, em Cristo, Nossa Mãe e
todos os Anjos e Santos. Nos espíritos de Luz e em toda essência do Evangelho
Cristão e Espírita.
É uma dicotomia?
Para mim não!
Não, porque em ambas, Cristã e Espírita, o que o Pai deseja,
assim como seu Filho e Mãe, é que nos guiemos pela Luz do Espírito Santo, com a
ajuda de nosso Anjo de Guarda, para superarmos, aqui na Terra, nossas
imperfeições. Daí eu conviver muito bem com ambas as religiões: Católica e
Espírita.
O importante mesmo para mim é procurar cada vez mais me
superar com a ajuda Divina. Não é fácil, tenham certeza. Mas tenho me esforçado.
É isso o que quero de mim: superação!
Todos nós queremos abundância em nossa vida - queremos
ter muito dinheiro, amor, sucesso e felicidade. Se não tivermos tudo isso
acreditamos que a abundância não está presente. Isso ocorre porque temos a
tendência em descrever o "bom" em nossa vida como abundância e o
"mal" como falta de algo. Desta forma acreditamos que se tivermos
dinheiro, amor, sucesso e diversão então teremos abundância. E se não tivermos
essas coisas então não temos abundância ou temos carências. Mas isso é errado.
Nós existimos em estado de abundância todo o tempo. Se temos ou não o que
queremos, sempre temos abundância em qualquer área de nossa vida.
Nossa tendência de colocar abundância e coisas boas juntas em nossa vida é o
que nos ilude, por pensarmos que não somos capazes de manifestar o que queremos
ou que não estamos sendo abençoados quando olhamos para nossas vidas e vemos
somente problemas ou falta das coisas. Se mudarmos nossa definição de
abundância de "bens" para simplesmente ter em grande quantidade,
podemos ver duas coisas: onde temos abundância e o que temos em abundância.
Teremos então a informação do que precisamos para manifestar o que realmente
queremos. Com uma nova definição de abundância podemos olhar para nossa
vida de forma bem diferente.
São aquelas as áreas de sua vida com as quais você não tem felicidade? Então o
que você tem é abundância de insatisfação. Você tem poucos amigos e não tem um
círculo social? Então o que você tem é abundância de solidão. Você não tem
recursos financeiros suficientes? Então o que você tem é abundância de
necessidades. Você gostaria de ter começado um novo caminho em sua vida mas não
tem dado o primeiro passo? Então o que você tem é abundância de receios e
dúvidas. Quando temos muitas coisas das quais não gostamos em nossas
vidas, por exemplo, dificuldade de relacionamentos, um emprego sem
realizações, dinheiro insuficiente, problemas com a família ou amigos, nós
achamos que não temos abundância. Nós temos sim, abundância em muitas
coisas que não gostamos. Quem é o responsável por isso? Uma pista, não é o
Universo.
O Universo simplesmente responde ao que pedimos. O que pedimos não é
julgado ou sequer nos lembra que o que estamos pedindo são coisas que não vão
fazer-nos felizes. Por que nós intencionalmente manifestaríamos o que não
gostamos? Há várias razões para isso, o hábito, o receio, dúvida, lições
cármicas, ou nossas próprias crenças sobre quanta felicidade, sucesso,
saúde ou amor merecemos. Isso sozinho é a razão pela qual temos abundância das
coisas que não nos trazem diversão, paz, sucesso e amor. O Universo nos dá o
que pedimos, nem mais nem menos. Uma vez que saibamos onde está a abundância,
então poderemos começar a concentrar-nos em criar abundância das coisas que
queremos e concentrar-nos menos no que não queremos.
Transformar o que atraímos para nós mesmos é tão simples quanto
prestar atenção no que estamos pedindo, como estamos pedindo e o que
acreditamos sobre nós mesmos e o que merecemos. Enquanto estivermos, ainda que
sem a intenção, dizendo ao Universo "Eu quero um emprego sem
realizações", nossa crença de que não seremos felizes com um emprego ou
não encontrarmos um que nos realize ou até mesmo um que nos pague o que
acreditarmos sermos merecedores será o suficiente para criar um emprego sem
realizações. Pedir pelo que nós queremos não é o suficiente!
Nós realmente acreditamos que podemos ter o que queremos e que somos
merecedores disso? Se não for assim nunca chegaremos a ter aquilo que
realmente nos satisfaça . Tudo o que pensarmos, dissermos e fizermos
afetará o que atrairmos em nossas vidas. Nossos pensamentos tem apenas a
energia que tem as nossas palavras! Se dissermos que queremos um
companheiro amoroso mas não acreditarmos que um dia ele virá em nossa vida, não
poderemos surpreender-nos por estarmos sozinhos dia após dia, mês e ano.
Modificar nossas crenças sobre o que merecemos é uma das coisas mais difíceis
de fazer.. Isso exige uma vigilância constante de nossos pensamentos e
palavras.
Devemos fazer um esforço genuíno para lembrar que somos poderosos, seres
espirituais divinos que tem a habilidade de criar o que quer que
queiramos. Qualquer coisa que frequentemente esteja em nossa vida é
resultado de alguma coisa pela qual pedimos, mesmo tendo sido desejada
consciente ou inconscientemente, acreditamos que merecíamos e continuaremos a
manifestá-lo até que realmente nos transformemos. O que você tem em
abundância em sua vida? Isso flui sem percalços e você está feliz com todos os
aspectos de sua realidade? Se não estiver, lembre-se de que você criou a
abundância.
Você está apenas insatisfeito com ela. Uma vez que você entenda isso, poderá
concentrar-se em sua manifestação de esforços e criar abundância do que traz
sucesso a você, diversão, amor e paz. Conduza seus pensamentos e palavras,
reveja suas crenças E modifique aquilo que o está limitando, tome uma
atitude quando a porta se abrir e as oportunidades se apresentarem E caminhe
para seu poder. Crie abundância nas coisas que o fazem feliz para agradecer a
cada novo dia E viva a vida dos seus sonhos. É dentro de sua força que se
encontra a abundância! Use-a para criar uma abundância de contentamentos e
bênçãos.
A “CPI das Fake-news” é, na verdade, a revelação do medo que
os políticos têm de perder o poder para a inevitável democratização do direito
de opinião, de manifestação e a pulverização do monopólio do poder. Cobrando
impostos à razão de um terço de tudo o que se produz e vende, o estado
brasileiro detém o monopólio da riqueza. Ao mesmo tempo, os que têm mandato
conferido pelo voto detêm o monopólio de decisões que afetam a vida de todos.
Essa concentração de poder econômico e político está em vias
de acabar, principalmente por causa de uma novidade surgida há apenas 50 anos.
No início de novembro de 1969, anunciava-se que pela primeira vez um pacote de
dados fora transmitido dias antes entre os computadores de duas universidades,
na Califórnia.
Aqui no Brasil, essa revolução só foi percebida por muitos
políticos na última eleição presidencial, quando as redes sociais e não o
dinheiro de empreiteiras e estatais, nem os marqueteiros, nem a propaganda
televisiva, elegeram um presidente da República. Os brasileiros não ficam atrás
dos navegadores digitais do primeiro mundo. Em mensagens e participação em
redes sociais, nos equiparamos aos de países de alta renda. Perdemos ainda em
velocidade, mas o 5G vem aí e já foi experimentado no Rock in Rio. A fibra
ótica está ajudando a integrar a Amazônia, serpenteando pelos leitos dos
rios, e 38 satélites já cobrem o país, que está cada vez mais abastecido de
provedores de banda larga.
Nos governos petistas, houve insistente tentativa de
controlar os meios de informação, sob o eufemismo de “regulação da mídia”. Não
conseguiram. E seria inútil e ultrapassado, pois já surgia a força das redes
sociais, livres e soltas. Governos tentam, na China, Coreia do Norte, Cuba. O
problema é a diferença de velocidade entre a burocracia estatal e a tecnologia
privada. Enquanto a CPI se perde em discussões, o mundo cibernético se renova,
se recria, se recicla, se redescobre numa razão mais rápida que a razão humana.
A tecnologia vai à frente da política. O mundo digital leva todos para a grande
ágora, a praça pública do mundo, onde todos têm voz e onde ninguém tem o
monopólio do palanque, onde o carro de som é de todos e ninguém é dono dele.
Os que eram donos do poder tentam controlar esse novo poder,
mas como não participaram de seu nascimento, não conseguirão mudar os rumos de
um sistema que anda sozinho e à velocidade da luz. O novo poder cibernético
pode ser compartilhado mas já não pode ser domado. Legislativo, Executivo e
Judiciário, poderes ordenados por Montesquieu em 1748, terão que se adaptar ao
que surgiu em 1969 na Califórnia, com base no que foi formulado em 1859, por
Charles Darwin: quem sobrevive é quem mais bem se adapta às condições externas.
O estado, seus poderes e seus políticos estão destinados, com o tempo, a se
adaptar ao novo mundo digital, ou desaparecer."
A Academia Brasileira de Letras abre
seu ciclo de conferências do mês de novembro, intitulado Em busca de
novos horizontes: economia e disciplinas afins, com palestra do
economista Pérsio Arida. O tema escolhido é Economia e arte
da persuasão. O evento será realizado quinta-feira, dia 7 de novembro, no
Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203 – Castelo, Rio de
Janeiro. Entrada franca.
A Acadêmica e escritora Ana
Maria Machado é a coordenadora-geral dos Ciclos de Conferências de
2019.
Os Ciclos de Conferência, com
transmissão ao vivo pelo Portal da ABL, têm o patrocínio da Light.
Serão fornecidos certificados de
frequência.
A intitulação Em busca de novos
horizontes: economia e disciplinas afins, segundo o Acadêmico Edmar
Bacha, refere-se a relação da Economia com outras disciplinas como
História, Literatura e Direito.
O Ciclo Em busca de novos
horizontes: economia e disciplinas afins terá mais três palestras, às
quintas-feiras, no mesmo local e horário, nos seguintes dias, com os
conferencistas e temas, respectivamente: dia 14, José Murilo
Carvalho e Edmar Bacha, Economia e história; dia 21,
Gustavo Franco, Economia e Literatura, e dia 28,
Elena Landau, Economia e Direito.
O Conferencista
Pérsio Arida, nasceu em 1952 em
São Paulo, Capital. É Bacharel em economia pela FEA/USP, Ph.D. em economia pelo
Massachusetts Institute of Technology (MIT).
Foi professor da USP no período de
1979 a 1981 e na PUC-RJ de 1981 a 1984. No exterior, foi Assistente de pesquisa
na School of Social Studies da Universidade de Princeton de 1978 a 1979, membro
da Woodrow Wilson Center em 1984, pesquisador visitante na Universidade de
Oxford de 2005 a 2007 e Acadêmico visitante na Blavatnik School of Government
também da mesma Universidade em 2017.
Na Administração Pública, foi
Secretário de Coordenação Econômica do Ministério do Planejamento em 1985 e
diretor do Banco Central em 1986 e em 1995, assim como presidente do BNDES no
período de 1993 a 1994.
No Setor Privado, foi Diretor da
Brasil Warrant de 1987 a 1989, membro do Conselho de Administração do Unibanco
de 1989 a 1993, diretor do Opportunity Asset Management de 1996 a 1999. Foi
também membro do Conselho de Administração do Itaú de 2002 a 2008 e do Conselho
do Banco BTG Pactual, de 2009 a 2017.
Atualmente, integra o Conselho
consultivo do Corporate Development Committee (CDC) do MIT Foundation, da
Blavatnik School of Government da Universidade de Oxford e do Comitê consultivo
de Investimentos do Fundo de Pensão do Fundo Monetário Internacional (FMI) em
Washington.
Quando a gente percebe que entrou na ‘terceira idade’ Por ZUENIR
VENTURA
“O senhor
aqui é idoso”, gritava a senhora para o guarda, no meio da confusão, apontando
com o dedo o tal “senhor”. Como ninguém protestasse, o policial abriu caminho
para que o velhinho, aprovado no exame de vista, enfim passasse à frente de
todo mundo para buscar a sua carteira de motorista. O “idoso” que a dama
solidária queria proteger do empurra-empurra não era outro senão eu.
Até hoje
não me refiz do choque. Sim, eu, que já tinha me acostumado a vários e
traumáticos ritos de passagem para a maturidade: dos 40, quando, em crise, se
entra pela primeira vez nos enta; dos 50 , quando, deprimido, se sente que jamais
vai se fazer outros 50 (a gente acha que
pode chegar aos 80, mas aos 100?); e dos 60, quando um eufemismo diz que a
gente entrou na “terceira idade”. Nunca passou pela minha cabeça que houvesse uma
outra passagem aos 65 anos. E, muito menos, nunca achei que viesse a ser
chamado, tão cedo, de “idoso”, ainda mais numa fila para carteira de motorista.
Na hora, tive
vontade de pedir a tal senhora que falasse mais baixo. Na verdade, tive vontade
de dizer: “Idoso é o senhor seu pai.” O que mais irritava era a ausência total de
hesitação ou dúvida. Como é que tinha tanta certeza? Que ousadia! Quem lhe
garantia que eu tinha 65 anos, se nem pediu para ver minha identidade? E o
guarda, por que não criou um caso, exigindo prova e documentos? será que era
tão evidente assim?
Como, além
de idoso, eu era um recém-operado, acabei aceitando ser colocado pela porta adentro.
Mas confesso que furei a fila sonhando com a massa gritando, revoltada: “Esse
coroa tá furando a fila! Ele não é idoso! Manda ele lá pro fim!” Mas que nada,
nem um pio.
O silêncio
de aprovação aumentava o sentimento de que eu era ao mesmo tempo privilegiado e
vítima - do tempo. Lembrei-me da manhã em que acordei fazendo 60 anos: “Eu não
mereço”, disse a mim mesmo. Há poucos dias, ao revelar minha idade, uma jovem universitária
reagira assim: “Mas ninguém lhe dá isso”. Respondi que, em matéria de idade, o
triste é que ninguém precisa dar para você ter. De qualquer maneira, era um
gentil consolo da linda jovem. Ali na fila nem isso, nenhuma alma caridosa para
me dar um pouco menos.
A mocinha da
mesa de informações apontou para os balcões 15 e 16, onde havia um cartaz avisando:
“gestantes, deficientes físicos e pessoas idosas.” Hesitei um pouco e ela, já
impaciente, perguntou: “O senhor não tem mais de 65 anos? Não é idoso?”
“Não, sou
gestante”, tive vontade de responder, mas percebi que não carregava nenhum
sinal aparente de que tinha amamentado ou estava prestes a amamentar alguém.
Saí resmungando: “não tenho mais, tenho só 65 anos.”
“CRÔNICAS DE UM FIM DE SÉCULO”. 1999 ZUENIR VENTURA. EDITORA
OBJETIVA, RIO DE JANEIRO.
Como me esquecer do circo? Ficava a semana toda aguardando
que o homem nas pernas de pau anunciasse a sua chegada. Quando isso acontecia,
saía em disparada atrás dele, o coração preste a sair pela boca. Juntava-me a
outros meninos, passando a fazer parte do coro de vozes ao redor do homem nas
pernas de pau. À pergunta que ele repetia a todo instante, “o palhaço o que
é”?, nossa resposta era uma só, explodindo a gritaria no ar, “é ladrão de
mulher!”
Os circos que apareceram no início eram pequenos. Num desses,
a lona furada, poucas luzes na fachada, conheci uma dupla de palhaço que nunca
esqueci. Bacurau com a sua cara de mau e Perereca que sempre levava do parceiro
um tapa na careca. Bacurau era catroca e tinha o nariz de pipoca. Perereca era
um contador de piada sem igual e tinha um calombo na careca.
O circo ficava um mês na cidade. Filho de pais pobres, eu e
meu irmão só tínhamos direito de ir ao circo uma única vez, geralmente no
domingo. Sempre dava um jeito para ir ao circo mais vezes. Entrava pelo buraco
da lona quando o vigia descuidava-se. Vendia jornal na venda, gibi velho na
porta do cinema, até garrafa, com o dinheiro apurado comprava o ingresso do
circo. Lá estava eu com o coração a bater acelerado, antes que desse início o
espetáculo. Não me importava que os números fossem quase sempre os mesmos. Era
bom sorrir com as piadas do palhaço, ficar todo arrepiado com o salto mortal
que davam os irmãos Vilalba, lá em cima no trapézio da morte.
Foi grande a emoção quando apareceu o primeiro circo com as
suas feras amestradas. Leão, tigre, elefante. O chimpanzé andava de bicicleta,
fazia piruetas em cima da zebra, dando voltas seguidas no picadeiro. E o
sensacional número do globo da morte? Era mesmo aquele circo o maior espetáculo
da terra. Acrobatas, trapezistas, equilibristas, malabaristas. Dois times de
cães pequenos faziam a bola correr num vaivém que nunca cessava. Flamengo
contra o Vasco, a garotada numa gritaria doida quando o gol era marcado. O
domador botava a cara dentro da boca do leão. O circo todo em silêncio, um frio
corria na espinha, os aplausos demorados para aquele número inacreditável.
O circo sempre foi para mim aquele mundo feito de aventura,
riso e humildade. O mundo permanente de graça na boca escancarada do palhaço
com a linguona de fora. Certamente comia palha e aço, daí ser chamado
palhaço.Doçura no frio com a
equilibrista que tinha pernas formosas. Vontade de voar como pássaro com
aqueles trapezistas lá no alto, no salto de vida ou morte. O perigo vivido com
o domador que si arriscava na aventura de fazer com que cinco leões deitassem
junto a seus pés, como se fossem uns pequenos grandes felinos bem comportados.
Em mim, sensação de que a morte não existia. Meus olhos rodavam rápidos com
aqueles dois irmãos que cruzavam e se encruzavam nas motos barulhentas dentro
de um globo, onde circulava a perícia feita de nervos e aço.
Como me esquecer da pipoca, algodão doce, cocada, amendoim
torradinho e roletes de cana?
Um dia, eu e os amigos resolvemos fazer um circo no quintal.
Com palhaço de pernas tortas, a menina Dolores como a fada das flores, Dom
Chicote, o incrível domador e suas terríveis feras, Lero-Lero, o cão que
dançava bolero, e Cheiroso, o gato manhoso, além do trio que tocava zabumba,
sanfona e reco-reco. Era o circo do Ciroca com palco armado embaixo de uma
mangueira. O bilheteiro, o próprio dono do circo, feito um general usava grande
chapéu de jornal e tinha uma espada de pau.
Uma pena aquele circo ter dado apenas um espetáculo. A
plateia não se conformou com a ausência do macaco Caolho, que deveria subir no
mastro de cabeça para baixo em menos de um minuto. Entre assobios e gritaria, a
plateia começou então a jogar tomates no verde homem-jibóia e no anão Pimpão,
que de tão pequeno não saía do chão. Foi tomate para todo lado, assovio,
corre-corre, empurrão, nome feio, vexame. Quando o pano caiu por terra, foi
logo rasgado em pedaços. O espetáculo foi encerrado com a plateia toda gritando
sem parar um só instante: Queremos o macaco Caolho! Queremos nosso dinheiro de volta!
Queremos mais espetáculo!
Cyro de Mattos é escritor e poeta. Vários livros publicados
no exterior. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.
31º Domingo do Tempo Comum - Solenidade de Todos os Santos
Anúncio do Evangelho (Mt 5,1-12a)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, vendo Jesus as multidões, subiu ao
monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a
ensiná-los:
“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o
Reino dos Céus.
Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque
serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão
misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão
chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da
justiça, porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem,
e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos
e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger
Araújo:
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Finados: todos vivem n´Aquele
que vive
“...que eu não perca nenhum daqueles que Ele me deu, mas os
ressuscite no último dia” (Jo 6,39)
Ao celebrar o “Dia dos mortos”, todas as culturas e
religiões, cada uma à sua maneira, intuíram o que não se pode dizer, ou o que
só pode ser dito com muito recato: que a morte é passagem, eclosão, nascimento;
que nela entramos nesse processo definitivo de libertação, de transformação, de
acesso à Plenitude da Vida, à Comunhão dos santos, à Santidade de Deus...
Este dia, em que fazemos “memória daqueles(as) que já vivem
a Páscoa definitiva”, é uma ocasião privilegiada para considerar a morte como
evento humano e cristão; sabemos do seu aspecto doloroso, mas, a experiência
cristã insiste que ela deve ser entendida também como um gesto de generosidade:
“morrer é deixar um lugar para os outros”.
Participando da morte de Jesus, podemos também fazer de
nossa morte um ato de decisão, de entrega, de oblação. A certeza de nossa fé em
Cristo, morto e ressuscitado, nos ajuda a tirar do coração os medos, os
impulsos egoístas de busca de segurança, a ilusão de sermos imortais, e
encontrar uma paz profunda que nos permita fazer de nossa vida uma oferenda
gratuita para a vida de outros.
O Evangelho nos ajuda a descobrir que o cuidado doentio da
própria vida atenta contra a qualidade humana e cristã dessa mesma vida. Aqui
descobrimos outra lei profunda da realidade: alcança-se a maturidade da vida à
medida em que ela é entregue para dar vida a outros.
O ser humano não deve admitir sua morte como uma derrota
humilhante, mas, do mesmo modo que pode dar direção à sua própria vida, deve
também incluir o ato de morrer, o último ato de sua vida, o ápice de sua
existência temporal.
A morte somente pode ter um sentido e significação se a vida
também os tiver; quando alguém sabe “para quê e para quem vive”, realizando sua
original missão, pode morrer em paz. Aqueles que vivem intensamente
enfrentam com grande serenidade seu envelhecimento e a proximidade da morte,
vendo nela mais uma etapa no processo normal de seu amadurecimento e de sua
realização.
Conscientes de ter vivido por alguma causa, de ter levado
uma vida plena, podem dar sentido e significado espontâneos ao último ato de
sua existência, a morte. É o modo como alguém vive que qualifica a morte. Há
mortes que, para além da inevitável dor que causam aos familiares e amigos,
provocam paz, agradecimento, vontade de viver seriamente, despertam impulsos
para se levantar e sair da superficialidade e da mediocridade.
Sabemos que toda expressão de vida flui para a morte. No
entanto, porque sabemos que somos mortais e dotados de liberdade, nós, seres
humanos, nos interrogamos sobre o sentido da vida; somos capazes de vivê-la
como um projeto, fruto de nossa decisão e podemos transformar a morte no último
e supremo ato de nosso viver.
A consciência de que se morre por alguma grande e nobre
causa despoja a morte de seu caráter de catástrofe absurda, não somente aos
olhos de quem vai morrer, mas também aos olhos dos que o amam.
A morte se transforma em “fator de criação de vida”, em “boa
notícia” para aqueles que se atreveram a viver como Jesus viveu. Viveram para
dar vida e morreram para defendê-la. Viveram a vida como entrega e sua morte
foi uma consequência lógica de seu modo de vida. Levaram a existência até os
limites de suas possibilidades e fizeram dela uma semente permanente de vida. A
lembrança da vida e da morte dessas pessoas continua semeando vontade de viver
com autenticidade. Elas derrotaram a morte.
De fato, o modo de viver de Jesus recebe o sim definitivo de
Deus e nos mostra que a vida entregue para dar vida é o caminho para derrotar a
morte e continuar vivendo. No acontecimento infinitamente doloroso da morte de
Jesus se revela e se promete o sentido último do viver e do morrer humano.
“Jesus morreu de tanto viver”.
Fazer “memória” desta morte é abrir-nos para a vida, não
somente para aquela vida plena do mundo futuro, mas também à mais profunda
qualidade desta vida presente: bondade e esperança lúcidas, solidariedade alegre,
compaixão ousada, liberdade arriscada, proximidade santificadora...
Como seguidores(as) de Jesus, não nos limitamos a assistir
passivamente o fato da morte. Confiando n’Aquele que é Fonte de Vida,
acompanhamos nossos entes queridos com amor e com nossa oração, nesse
misterioso encontro com Deus. Na liturgia cristã pelos mortos não há desolação,
rebelião ou desesperança. Em seu centro, só uma oração de confiança: “Em vossas
mãos, Pai de bondade, confiamos a vida do nosso ser querido”.
E afirmar a ressurreição não é consolo ilusório, nem evasão
do compromisso com a história e com a vida. É decisão firme de continuar o
projeto de Jesus, de defender a vida onde quer que esteja ameaçada, de
arriscar-se pelos mais fracos e excluídos para que tenham vida, curando
feridas, levantando corações, semeando esperanças, tirando da Cruz aqueles que
nela estão dependurados...
A ressurreição nos faz experimentar que esta vida peregrina
se revela como tempo da gestação concedido a cada um de nós para que, dentro
desse imenso ventre cósmico, quer na vida ou quer na morte, nos sintamos sempre
envolvidos pelo Amor criativo d’Aquele que é sempre Vida. Nesse sentido,
“ninguém morre”, pois todos “vivem n’Aquele que vive”.
Portanto, “re-cordar” (visitar de novo com o coração) os
entes queridos que já fizeram a “grande travessia”, nos capacita a uma nova
visão da morte e a assumi-la como acontecimento que faz parte de nossa vida.
Afinal, todos morrem, mas nem todos sabem viver.
- A primeira consequência positiva do “fazer memória” é que
a morte nos faz viver agradecidos: quando tomamos consciência da morte, nós nos
damos conta de que a vida é um verdadeiro milagre, que cada instante aqui deve
ser vivido como um presente e devemos saboreá-lo o máximo possível, porque não
sabemos quando se acabará.
- A segunda, é que a morte põe as coisas em seu devido
lugar: a morte desloca, sim, mas também realoca, porque nos faz tomar
consciência daquilo que é o mais importante em nossa vida e o que de verdade
merece a pena. Ela nos faz repensar como nos relacionamos, como usamos as
coisas, o dinheiro, onde investimos a vida, quais são os verdadeiros valores,
etc...
- E por último, a morte nos ajuda a tomar decisões em favor
da vida e a nos comprometer. S. Inácio de Loyola, nos Exercícios Espirituais,
aconselha, como critério para decidir, imaginar-nos à hora da morte e pensar
qual decisão gostaríamos de ter tomado. Essa decisão leva irremediavelmente a
um compromisso por toda a vida, pois ela nos torna conscientes de que esta vida
passa, e passa rápido, e não queremos ficar preso às afeições desordenadas, mas
desejamos investir toda nossa vida em um projeto que nos dê sentido e nos
implique totalmente.
A fé cristã não é masoquista ou sádica quando nos ensina a
bem morrer. Assim nos dá maior responsabilidade diante da nossa própria
vida.
Texto bíblico: Jo 6,37-40
Na oração: “Fazer memória agradecida” de tantos
familiares, amigos ou pessoas mais próximas que viveram intensamente e que,
generosamente, partiram e “deixaram um cantinho deste mundo” mais
iluminado.