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quinta-feira, 22 de agosto de 2019

SÍNODO DA AMAZÔNIA: A MAFIA DO ANEL DE TUCUM?


21 de agosto de 2019

Dom Tomás Balduíno com o anel de tucum

 José Antonio Ureta

Depois que, na biografia sobre seu compatriota cardeal Godfried Daneels, os jornalistas belgas Jürgen Mettepenningen e Karim Schelkens revelaram a existência de uma “máfia de São Gallen”, que teria contribuído de modo determinante na eleição do Papa Bergoglio, o católico médio tomou consciência da força dos grupos de pressão dentro da Igreja.

Mas historiadores e especialistas conhecem há muito tempo o peso que os lobbies tiveram sobre a vida eclesial. Imediatamente após o encerramento do Concílio Vaticano II, por exemplo, soube-se do papel desempenhado pela rede midiática IDO-C (Centro Internacional de Informação e Documentação sobre a Igreja Conciliar) para criar o “conselho de jornalistas”, o “conselho dos meios de comunicação”, que era praticamente um concílio à parte, como disse Bento XVI em seu último discurso na véspera do dia em que daria sua  renúncia.

Leonardo Boff com o anel de tucum

Não muito tempo atrás, tornou-se conhecido o papel desempenhado por um grupo de padres conciliares, reunidos sob a denominação de “Igreja dos Pobres”, que firmou um secreto “Pacto das Catacumbas”, que parece estar atingindo sua plena realização em âmbito universal com o pontificado do Papa Bergoglio.

O antigo núncio em Washington, EUA, Dom Carlo Maria Viganò, causou comoção denunciando a existência de uma rede homossexual, cujos membros se ajudam mutuamente e que garantem o progresso na carreira eclesiástica (e a cobertura em caso de envolvimento em escândalos).

Para serem eficazes, esses grupos de pressão com interesses pessoais ou ideológicos devem agir de maneira coordenada, mas sempre nas sombras, imitando o trabalho da Maçonaria, com seus misteriosos sinais de reconhecimento mútuo entre irmãos que não pertencem à mesma loja.

É famosa a passagem em que Marcel Proust traça um paralelo entre a ação dos “irmãos” e a dos homossexuais de seu tempo, da qual ele falou por conhecimento direto: “[Eles] formam uma maçonaria muito mais extensa e eficaz, e menos suspeita do que a das lojas, uma vez que responde a uma identidade de gostos, necessidades, hábitos, riscos, aprendizado, conhecimento, tráfego, glossário, e em que os membros que desejam não ser reconhecidos imediatamente o fazem através de sinais naturais ou convencionais”.

Seguramente, no futuro, conheceremos o impacto na próxima Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região Panamazônica do grupo de bispos e missionários engajados na Teologia Indígena, versão mais atualizada da Teologia da Libertação, que já adotou o chamado “anel de tucum” como sinal convencional de reconhecimento.

Tucumã é o nome de uma árvore amazônica de cuja madeira se origina um anel preto, supostamente usado pelos escravos na época do Império, na falta de recursos para portar o anel de ouro dos senhores. Teria servido como um símbolo de matrimônio, amizade ou resistência. “Era um símbolo clandestino cujo significado só os escravos conheciam”, afirma o blogue da Pastoral da Juventude da Diocese de Piracicaba.

Nos anos 70, dois órgãos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT) adotaram o anel de tucum como símbolo de compromisso na luta de classes e nas chamadas “lutas sociais”.

Dom Casaldáliga com o anel de tucum

Parece ter sido Dom Pedro Casaldáliga – religioso claretiano catalão nomeado bispo de São Félix do Araguaia pelo Papa Paulo VI e promotor do CIMI e do CPT – a popularizar o símbolo. Assim relata outro representante da Teologia da Libertação, Dom Tomás Balduino, bispo emérito de Goiás Velho e por muitos anos presidente do CIMI:

“Pedro foi consagrado bispo em 1971, na cidade de São Félix, cercado pelos pobres daquela região. Ele recebeu símbolos litúrgicos adaptados às culturas dos povos indígenas e camponeses. A mitra era um chapéu de palha, o cajado um remo de tapirapé e o anel de tucum, que em seus dedos e nos de muitos agentes pastorais tornou-se um sinal do compromisso da caminhada rumo à libertação”.

Dom Pedro Casaldáliga

Com inegáveis dotes poéticos, o prelado resumiu assim o significado desta “caminhada” no seguinte poema: “Com um calo por anel, / monsenhor corta o arroz / Monsenhor “foice e martelo”? / Eles vão me chamar de subversivo. / E eu direi a eles: Eu sou / Pelo meu povo em luta, eu vivo. / Com o meu pessoal em movimento, eu vou. Eu tenho fé de guerrilheiro / e amor à revolução”.

O anel de Tucum identificou tanto a personalidade e a agenda revolucionária do bispo de São Félix do Araguaia, e uma das teses escritas sobre ele, defendida por Agnaldo Divino Gonzaga no Departamento de Teologia da Universidade Católica de Goiás, intitula-se, precisamente, “Anel de tucum: a missão evangelizadora de Pedro Casaldáliga”.

D. Casaldáliga com sua mitra (chapéu de palha), seu báculo (um remo) e o seu anel (de tucum…)

Prova ainda mais eloquente da importância que a Teologia Indígena confere ao anel de tucum é a história que o jornal Alvorada, órgão de conscientização da Prelazia de São Félix, fez sobre a cerimônia em que Dom Pedro Casaldáliga transmitiu o governo diocesano ao seu sucessor, Dom Leonardo Steiner:

“Pedro, ao entregar o anel de tucum a Leonardo, lembrou que as causas que defendemos definem quem somos e que as causas desta Igreja são conhecidas de todos: opção pelos pobres, defesa dos povos indígenas, compromisso com os trabalhadores e sem terra, formação de comunidades inculturadas e participativas, experiência efetiva de solidariedade”.

Em uma página do Facebook das Comunidades de Base do Brasil, lemos este verso de um poema em homenagem ao anel de tucum: “Dos povos excluídos / sois sinal da nova aliança”.

Em 1994 foi lançado o filme “O anel do tucum”, uma novela em que um grupo de fazendeiros infiltra um jornalista nas Comunidades Eclesiais de Base em uma tentativa de provar seu caráter comunista e subversivo, mas acaba se convertendo à causa da CEB. Na cena culminante, na qual ocorre a conversão, o jornalista-pesquisador tem este diálogo com Dom Casaldáliga (que interpreta a parte de si mesmo no filme):

“– Uma curiosidade, dom Pedro: O que o anel preto significa?

— É o anel de tucum, uma palmeira do Amazonas, com espinhos um tanto duros. Sinal da aliança com a causa dos indígenas, com as causas populares. Quem quer que use normalmente quer expressar que faz suas essas causas e suas consequências. Você pode trazer o anel? Você pode fazer isso?

— Eu posso fazer isso.

— Olha, é exigente, hein? Queima. Muitos, muitos por essa causa, por esse compromisso, chegaram ao ponto da morte. Nós mesmos aqui, na igreja de São Félix do Araguaia, temos os santuários dos mártires do caminho”.

A mesma pergunta sobre o significado desse anel foi formulada em 2012 pelo jornalista Edoardo Salles de Lima ao já citado Dom Tomás Balduino, na véspera do seu nonagésimo aniversário. Ele respondeu:

“Representa o casamento com a causa indígena. Este objeto foi feito pelos índios Tapirapé e se pode facilmente ver como é bonito, até brilha. Adotamos como um elo com a causa indígena, mas não só com ela, mas com toda causa de mudança, de transformação, na busca pelo Brasil que queremos”.

A função “identificadora” do anel foi destacada ao público, mas sobretudo para aqueles que se comprometeram com a Teologia da Libertação, do missionário comboniano italiano Padre Giampietro Baresi, já falecido, na revista “Brasil de Fato”:

“– O que esse anel em sua mão significa? – É a opção pelos pobres. […] É lealdade por essa opção. Por que eu uso isso? Para tornar conhecido o que eles são. O anel de tucum é a solidariedade para com os pobres. […] Quando vejo o anel em alguém, reconheço uma visão similar, um compromisso similar”.

A nocividade do uso do anel de tucum pelos militantes da Teologia da Libertação foi denunciada há muitos anos por Dom Amaury Castanho, bispo emérito de Jundiaí, nas páginas do jornal “Testemunho da Fé”, órgão oficial da arquidiocese do Rio de Janeiro.

Em seu artigo, o prelado começou enfatizando que “sempre houve e sempre haverá tensões mais ou menos graves dentro da Igreja”. Depois do Concílio Vaticano II, “uma terrível tempestade atingiu a barca de Pedro”, e a “Teologia da Libertação, de estilo marxista, radicalizou suas posições extremistas e contestatórias, ideológicas e partidárias”.

Missa pelo “Dia do Maçom” na Diocese de Pesqueira, pelo Pe. Magela (com o anel de tucum…)

Em um artigo seguinte, Dom. Amaury Castanho voltou a atacar com acusações de sectarismo:

Em seguida, ele atacou o sinal do reconhecimento mútuo de seus promotores: “O curioso anel de tucum, feito do centro de uma palmeira do Nordeste, é hoje um sinal de contestação na Igreja. Um dos sinais, talvez o mais sério. Ele é encontrado nas mãos de um bom número de sacerdotes e seminaristas, religiosos e leigos. Se é verdade que alguém, inadvertidamente, usa-o – mesmo na Igreja sempre haverá ‘inocentes úteis’ – é igualmente verdade que a maioria o toma como uma afirmação provocativa de uma clara opção por uma eclesiologia que certamente não é a da ‘Lumem Gentium’, do Concílio Vaticano II.

“O anel de tucum traz consigo, implícita e explicitamente, opções heterodoxas em favor de uma Igreja considerada uma Igreja popular, em oposição à Igreja hierárquica, a única estabelecida por Cristo. Exprime uma discutível e já condenada opção ‘excludente e exclusiva’ pelos pobres, marginalizando quem não o é, como se fosse um opressor. A partir dessa análise marxista e parcial da realidade, aqueles que usam o anel de tucum não hesitam em propor soluções revolucionárias, lutas de classes, guerrilhas, violência e terrorismo, que nada têm de evangélico e cristão. […]

“É a divisão dentro da Igreja de Cristo, que a enfraquece, que distancia as ovelhas dos pastores, que opõem os bispos ao Papa, os bispos entre si, os sacerdotes e os leigos aos bispos […].

“Enquanto isso, os inimigos da Igreja se divertem, aplaudem, cumprimentam-se. O que eles querem está acontecendo: uma Igreja que não é uma comunidade de amor, que une os fiéis a Cristo entre si e seus pastores”.

“O artigo sobre o anel de tucum, que escrevi há alguns dias, causou comoção. De fato, provocou uma controvérsia. Muitos gostaram e acreditam que chegou a hora de alguém ir ao fundo do problema, revelando o sentido mais exato e total do uso daquele anel. Outros se chatearam, porque o usavam apenas como sinal de opção pelos pobres. Retiraram-lhe de seus dedos! Eles queriam viver em plena comunhão com os pastores da Igreja, que é, por vontade de Cristo, hierárquica. Eles me parabenizaram, culparam-me, interrogaram-me várias vezes no anel de tucum.

“Falando com um certo presbítero que usava o anel de tucum, dei-lhe mais informações para esclarecer suas ideias. Entre outras coisas, eu disse a ele que não é apenas a minha interpretação. Anos atrás, li um livro de um bispo zeloso e inteligente do Maranhão. Em um capítulo inteiro, ele chegou às mesmas conclusões: o anel de tucum é um traço visível de união entre aqueles que, além da “opção pelos pobres”, também defendem a Igreja ‘popular’”.

Pode-se então afirmar que, enquanto trato de união visível de uma corrente revolucionária que desempenha o papel de quinta coluna na Igreja, o anel de tucum tem um valor análogo aos sinais identificadores da Maçonaria.

Cabe a nós observar quantos participantes do próximo Sínodo vão usá-lo… Então saberemos se a assembleia foi amazônica ou maçônica!



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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

ACADÊMICO E ECONOMISTA EDMAR BACHA FAZ A QUARTA PALESTRA DO CICLO DE CONFERÊNCIAS “O QUE FALTA AO BRASIL?”


O economista, sócio fundador e diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças e Acadêmico Edmar Lisboa Bacha é o palestrante convidado da quarta conferência do ciclo O que falta ao Brasil? O tema a ser abordado é Porque ficamos para trás. O ciclo tem como coordenadora a Acadêmica e escritora Rosiska Darcy de Oliveira. O evento está programado para o dia 22 de agosto, quinta-feira, às 17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr. (Avenida Presidente Wilson, 203, Castelo, Rio de Janeiro). Entrada franca.

A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado é a coordenadora geral dos Ciclos de Conferências de 2019.

Os Ciclos de Conferências, com transmissão ao vivo pelo Portal da ABL, têm o patrocínio da Light.

Serão fornecidos certificados de frequência.
O ciclo terá mais uma conferência no mês de agosto, no mesmo local e horário: Um futuro pior que o passado? Reflexões na antevéspera do bicentenário da Independência, com o diplomata Rubens Ricupero, quinta-feira, dia 29.

O Acadêmico

Edmar Lisboa Bacha é sócio fundador e diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças, um think tank no Rio de Janeiro, e também membro da Academia Brasileira de Ciências.

Formou-se em economia pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. É um dos primeiros economistas brasileiros com doutorado no exterior, pela Universidade de Yale, em 1968.

Em 1974, publicou uma fábula sobre o reino de Belíndia, junção de Bélgica com Índia, que se tornou desde então uma imagem recorrente do Brasil.

Integrou a equipe econômica que dominou a hiperinflação com o Plano Real, em 1994.

Foi presidente do BNDES e do IBGE, e professor em diversas universidades brasileiras e americanas. No setor privado, foi consultor sênior do Banco Itaú BBA e presidente da Associação Nacional de Bancos de Investimento.

Autor de 12 livros, organizou 18 livros sobre temas econômicos, políticos e sociais do Brasil e da América Latina. Publicou também cerca de 200 artigos em periódicos especializados e, aproximadamente, 100 artigos em órgãos da imprensa.

Seu último livro autoral é Belíndia 2.0: Fábulas e Ensaios sobre o País dos Contrastes (Civilização Brasileira, 2012). O último livro que organizou é A Crise Fiscal e Monetária Brasileira (Civilização Brasileira, 2016). Ambos foram agraciados com o Prêmio Jabuti.

Livro em sua homenagem, com o título De Belíndia ao Real: Ensaios em Homenagem a Edmar Bacha, com textos apresentados por colegas e ex-alunos em seminário na Casa das Garças, será publicado ainda este ano pela Civilização Brasileira.

Leitura complementar

Para consultar mais materiais como os citados, acesse o link abaixo e visite os "Levantamentos bibliográficos" realizados para este evento.


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AMANTES - Ariston Caldas


          Chegou em casa de Dulce no início da noite. A casa estava fechada e tinha uma lâmpada acesa refletindo claridade por um vidro amarelo da porta da frente, realçando pequenas manchas cor de ferrugem. A rua estava escura e deserta, sem um pé de pessoa.

            - Dulce! Dulce!  - ele chamou assim. Instante depois a luz se apagou, mas tudo continuou em silêncio.

            Quando era menino, acordou assustado altas horas da noite sentindo os olhos como se estivessem grudados de goma, com sensação de quem não sabe onde está. O telhado era preto, as paredes eram pretas e nem uma réstia aparecia pela cumeeira, provavelmente era noite de escuro. O jeito foi gritar, assustando o pai e a mãe que dormiam num quarto ao lado.

            Mas Dulce não sentia medo. Ela teria apagado a lâmpada, indo sozinha deitar-se na cama, pensando coisas à esmo, no escuro.

            - Será que ela está sozinha? -  indagou-se de súbito com pensamento vadio. Sentiu ciúme e voltou a chamá-la. Numa casa em frente um sujeito barbudo abriu uma janela e tornou a fechá-la. Estaria curioso ou incomodado.

            Lembrou de um vizinho de cara redonda e esparrada que morava parede-meia e se parecia com um ajudante de caminhão que conhecera na infância. Já o vira conversando com Dulce no passeio e na conversa o sujeito apalpava um braço dela. Lembrou que os quintais das duas casas eram separados por um muro baixo que tinha ao lado um pé de Pitanga e, em cima, uns jarros com flores amarelas.

            Teria ouvido pisadas dentro da casa que continuava escura como Breu. Nem podia entrar para a varanda, toda lacrada a cadeado. Impaciente, afastou-se até uma esquina próxima e ficou de olho para um lado, para outro, confuso e nervoso. Voltou e chamou novamente, quase gritando. Aí ouviu ruídos na fechadura. Era Dulce destrancando a porta:

            - Ô, gente! - Ela falou meio assustada.

            - Está surda! - Exclamou ele.

            - Tava tomando banho - acrescentou Dulce.

            - Por que apagou a luz? - Fui me deitar - concluiu ela, contrafeita, trancando a porta que rangeu sutilmente. A cabeça dele perturbava-se a cada instante cheia de interrogações. Pensou novamente no sujeito da cara redonda quem residia ao lado. O muro que separava os dois quintais passou-lhe outra vez pelo juízo, queimando-lhe o miolo. Entrou para o quarto. Na cama, um cobertor desordenado, dois travesseiros desalinhados e uma toalha de rosto pendurada na cabeceira. “Alguém teria escapulido pela porta dos fundos” – maldou, rebuscando imagens criadas por sua imaginação embaralhada cheia de cismas. Observou a posição dos objetos, dos móveis. Tudo no lugar de costume. Pensou farejar os panos da cama, mas passou um rabo de olho para Dulce e acanhou-se. Apalpou um braço dela - estava quente e enxuto. “Ela não tomou banho agora coisa nenhuma. Está mentindo”. Admitiu, já irritado. O vizinho da cara redonda voltou a infernizá-lo pulando o muro baixo e cheio de flores, sustentando com uma mão o cós da calça despencando. Foi ao sanitário e viu bem que o piso do banheiro estava enxuto. “Ninguém tomou banho agora por aqui. Mulher é bicho do capeta!” – resmungou. Ao sair do sanitário, cravou um olhar duro para Dulce, mirando-lhe de cima a baixo. Aí o telefone tocou. Dulce atendeu dando-lhe as costas e falando muito baixo, não lhe permitindo ouvir coisa nenhuma. Depois, mordeu o lábio inferior, apertou o olho e desligou o aparelho.

            Sem mais questionar nada com ela nem a inquirir sobre coisa alguma, voltou para o quarto e deitou-se de papo para cima, jogando um braço encolhido sobre a testa.

            Passou o resto da noite sem pregar um olho, virando-se de um lado para o outro, cheio de maldade e de dúvidas. Ao amanhecer tirou uma madorna e sonhou com o sujeito da cara redonda pulando o muro do quintal.

            - Pilantra! - gritou, atordoado, já sentado no meio da cama. Dulce, de sono solto, mexeu-se de leve e ressonou profundamente, virando-se para a parede.

            - Porra! -  Acrescentou ele, já perfeitamente acordado.


(LINHAS INTERCALADAS – 2ª Edição 2004)
Ariston Caldas.

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terça-feira, 20 de agosto de 2019

REVOLUÇÃO TRIBALISTA


A propósito do documento preparatório para o Sínodo da Amazônia (“Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”), reproduzimos um trecho da Parte III do livro “Revolução e Contra-Revolução”, de Plinio Corrêa de Oliveira.


O caminho rumo a um estado de coisas tribal tem de passar pela extinção dos velhos padrões de reflexão, volição e sensibilidade individuais, gradualmente substituídos por modos de pensamento, deliberação e sensibilidade cada vez mais coletivos. Portanto, é neste campo que principalmente a transformação se deve dar. De que forma?

Nas tribos, a coesão entre os membros é assegurada sobretudo por um comum pensar e sentir, do qual decorrem hábitos comuns e um comum querer. Nelas, a razão individual fica circunscrita a quase nada, isto é, aos primeiros e mais elementares movimentos que seu estado atrofiado lhe consente. “Pensamento selvagem”,* pensamento que não pensa e se volta apenas para o concreto. Tal é o preço da fusão coletivista tribal. Ao pajé incumbe manter, num plano místico, esta vida psíquica coletiva, por meio de cultos totêmicos carregados de “mensagens” confusas, mas “ricas” dos fogos fátuos ou até mesmo das fulgurações provenientes dos misteriosos mundos da transpsicologia ou da parapsicologia. É pela aquisição dessas “riquezas” que o homem compensaria a atrofia da razão.

Da razão, sim, outrora hipertrofiada pelo livre exame, pelo cartesianismo etc., divinizada pela Revolução Francesa, utilizada até o mais exacerbado abuso em toda escola de pensamento comunista; e agora, por fim, atrofiada e feita escrava a serviço do totemismo transpsicológico e parapsicológico…

“Omnes dii gentium dæmonia” (Todos os deuses dos pagãos são demônios), diz a Escritura (Sl 95, 5). Nesta perspectiva estruturalista, em que a magia é apresentada como forma de conhecimento, até que ponto é dado ao católico divisar as fulgurações enganosas, o cântico a um tempo sinistro e atraente, emoliente e delirante, ateu e fetichisticamente crédulo com que, do fundo dos abismos em que eternamente jaz, o príncipe das trevas atrai os homens que negaram Jesus Cristo e sua Igreja?

É uma pergunta sobre a qual podem e devem discutir os teólogos. Digo os teólogos verdadeiros, ou seja, os poucos que ainda creem na existência do demônio e do inferno. Especialmente os poucos, dentre esses poucos, que têm a coragem de enfrentar os escárnios e as perseguições publicitárias, e de falar.
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* Cfr. Claude Lévy-Strauss, La pensée sauvage, Plon, Paris, 1969.



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segunda-feira, 19 de agosto de 2019

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS REALIZA MESA-REDONDA EM QUE SE DESTACAM OS DESAFIOS DA CIÊNCIA NO BRASIL


Academia Brasileira de Letras promoverá no dia 21 de agosto, quarta-feira, às 15h, na Sala José de Alencar, mesa-redonda em que se discutirá “Os desafios da Ciência no Brasil”. O evento, com a coordenação do Acadêmico José Murilo de Carvalho, contará com a participação de Nísia da Trindade Lima, Presidente da Fundação Oswaldo Cruz; de Ildeu Castro, Professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro e de Luiz Davidovich, Professor Titular na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entrada Franca.

O evento terá transmissão ao vivo e as inscrições poderão ser feitas pelo site e pelo telefone (21) 3974-2526, de segunda a quinta-feira, das 9h às 18h.

Os convidados

Nísia Trindade Lima

Nísia Trindade Lima é a atual Presidente da Fundação Oswaldo Cruz. Foi também Vice-Presidente de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz de 2011 a 2016. É doutora em Sociologia e Mestre em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ - atual IESP). É pesquisadora titular da Casa de Oswaldo Cruz, professora de Pós-Graduação do Programa de História das Ciências e da Saúde e professora Colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia do IESP/UERJ.

Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Pensamento Social Brasileiro, atuando principalmente nos seguintes temas: ciência e pensamento social no Brasil; história das ideias em saúde pública; o sertão no pensamento brasileiro e processos de construção do Estado Nacional. Recebeu da Academia Brasileira de Letras a medalha comemorativa dos 110 anos de fundação da Academia, em 2007; e também a Medalha Euclides da Cunha em 2009.

Possui uma vasta produção acadêmica, com destaque para os livros: Um Sertão Chamado Brasil, prêmio de melhor tese em sociologia, concedido pelo Iuperj em 1999, já em sua segunda edição (São Paulo, Hucitec, 2013), no qual a autora pretende explicar as razões da persistência e da ênfase com que a oposição entre o Brasil do litoral e o dos sertões foi abordada no pensamento social brasileiro. Antropologia Brasiliana: Ciência e Educação na Obra de Roquette-Pinto, obra organizada em colaboração com Dominique Miranda de Sá e Médicos Intérpretes do Brasil, organizado em colaboração com Gilberto Hochman (São Paulo, Hucitec, 2015). Na Revista Brasileira, publicou no volume 62, em 2010, o artigo Euclides da Cunha e o Pensamento Social no Brasil.

Luiz Davidovich

Luiz Davidovich obteve em 1968 o bacharelado em Física na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Doutorou-se na Universidade de Rochester, EUA, em 1975. É Professor Titular na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Desenvolve pesquisas nas áreas de ótica quântica e informação quântica, tendo sido pesquisador visitante em diversas instituições estrangeiras. É membro da Academia Brasileira de Ciências, da Academia Mundial de Ciências para o avanço da ciência no países em desenvolvimento (TWAS) e é membro estrangeiro da National Academy of Sciences, dos Estados Unidos da América. Recebeu a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico em 2000, o Prêmio de Física da TWAS em 2001 e o Prêmio Alvaro Alberto, outorgado pelo CNPq, em 2010. É Fellow da American Physical Society e da Optical Society of America. É Presidente da Academia Brasileira de Ciências no segundo mandato, para o período de maio de 2019 a maio de 2022, e Secretário Geral da TWAS, para o período de janeiro de 2019 a dezembro de 2022. Foi Secretário Geral da Sociedade Brasileira de Física no período 1981-1983 e membro de seu Conselho em diversos períodos. Atuou também como representante da comunidade científica no Conselho Deliberativo do CNPq, no Conselho Superior da CAPES e no Conselho Superior da FAPERJ.

Ildeu de Castro Moreira

Ildeu de Castro Moreira é professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atua também nas áreas de história da ciência e comunicação pública da ciência. Foi diretor do Departamento de Popularização da C&T do Ministério da CT&I e coordenador da Semana Nacional de CT, de 2004 a 2013. Recebeu, em 2013, o Prêmio José Reis de Divulgação Científica do CNPq.  É atualmente presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC.


INSCRIÇÕES
Garanta sua participação gratuita para esta sessão exclusiva. Lugares limitados.




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REDUZIRAM UM CELULAR A PÓ. VEJA O QUE ENCONTRARAM



Por Pedro Valls Feu Rosa Em 19 ago, 2019

Dia desses li sobre uma interessante pesquisa realizada na Universidade de Plymouth, no Reino Unido. Alguns cientistas reduziram a pó um telefone celular, a fim de poderem determinar, de forma detalhada, sua composição.

Uma vez consolidada a relação de minerais e seus quantitativos, os pesquisadores lançaram mão de uma simples calculadora, multiplicando todos os resultados por 1.457.000 - o número aproximado de telefones celulares produzidos no mundo a cada ano.

Os resultados foram surpreendentes. Gastamos, apenas com estas engenhocas, 131 toneladas de prata, 52 toneladas de ouro, 10.200 toneladas de cromo, 3.600 toneladas de alumínio, 8.700 toneladas de cobre, 3.900 toneladas de níquel, 2.300 toneladas de cálcio, 5.800 toneladas de carbono, 48.100 toneladas de ferro e 1.000 toneladas de estanho.

Há também, nesta relação, minerais mais raros, daqueles encontrados em poucos países do planeta. A eles: 3 toneladas de disprósio, 7 toneladas de gadolínio, 44 toneladas de praseodímio, 233 toneladas de neodímio, 3 toneladas de índio, outras 3 toneladas de germânio, 10 toneladas de antimônio, 15 toneladas de nióbio, 29 toneladas de tântalo, 102 toneladas de molibdênio e outras 102 toneladas de cobalto e 1.312 toneladas de tungstênio.

Fiquei a meditar longamente sobre este quadro. Comecei observando ser o mesmo referente única e exclusivamente a telefones celulares - não estão aí incluídos os populares “tablets”, os computadores de mesa e portáteis, as televisões etc. Tradução: estes números, já impressionantes, atingirão marcas estratosféricas se computada toda a “família” de engenhocas eletrônicas avidamente consumidas por todos nós.

Meu olhar seguinte foi sobre os países que produzem a esmagadora maioria destes aparelhos. A maior parte deles não dispõe de recursos minerais suficientes para suprir uma mínima parte que seja desta demanda - aliás, há casos em que não seria possível obter-se sequer um quilo dos minerais exigidos.

A matéria-prima, assim, valiosíssima e não-renovável, vem de países em regra “atrasados” ou “emergentes”, seja lá o que for isso. Pergunto: a que preço? Quanto os respectivos países recebem de “royalties”? Quem explora estes minerais? Suspeito que da resposta a estas perguntas surgirá a maior e mais urgente “reforma” que o Brasil precisa.




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domingo, 18 de agosto de 2019

ACADÊMICO E PROFESSOR ARNALDO NISKIER LANÇA O LIVRO “DESAFIOS DA EDUCAÇÃO NO BRASIL”

O Ministério da Cidadania e o Centro de História e Cultura Judaica (CHCJ) convidam para o lançamento do livro Desafios da educação no Brasil do Acadêmico e professor Arnaldo Niskier. O lançamento será segunda-feira, no dia 19 de agosto, às 17h00, no Salão Nobre da Academia Brasileira de Letras. 
Programação:
*Palestra
*Sessão de autógrafos
*Coquetel

Observação: O livro será distribuído no local conforme a disponibilidade.

 
O Acadêmico
Arnaldo Niskier é membro da Academia Brasileira de Letras desde 1984, de que foi presidente em dois mandatos
Professor aposentado de História e Filosofia da Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Doutor em Educação pela UERJ, foi membro do Conselho Federal de Educação, do Conselho Estadual de Educação e do Conselho Nacional de Educação, e quatro vezes Secretário de Estado do Rio de Janeiro.
Sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, é autor de mais de cem livros, especialmente sobre educação. Presidente do CIEE/RJ, é colaborador com artigos publicados em vários jornais do país.

13/08/2019

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