Ah! Ah! Ah! Eu sabia e tinha certeza que ia ser assim!
A nossa genial seleção iria dar um banho nos nossos
“Hermanos”, e nem iria dar chance a “vedete” deles, o tal do Messe, para
brilhar em gramado brasileiro. Achei até que foi pouco o escore de 4 X 0, fora
os dois gols que o WAR anulou sem que houvesse motivo justo. E eles deram
sorte, pois, se Neymar estivesse jogando a goleada seria bem maior!
Lavamos nossa alma, e fizemos os mineiros esquecerem do traiçoeiro 7x1 que sofremos na copa do mundo. Agora vamos partir para a final
tranquilamente, pois, com esse time, será impossível não levantarmos a taça!
Garçom, traga mais uma cerveja bem gelada, alguns
salgadinhos e mande preparar um churrasco com picanha argentina bem mole, como
foi esse jogo! Ah! Ah! Ah! Braaasiiiill!
Garçom limpe aqui a mesa, e traga uma rodada de conhaque
Dreher e umas calabresas cortadas para tira-gosto. Quero tirar o gosto ruim
dessa derrota desgraçada para esses argentinos miseráveis. Qualé “Hermanos” que
nada!
Se não fosse o Gabriel de Jesus ter perdido o pênalti, o
jogo teria empatado e, nos pênaltis, nosso goleiro é o melhor do mundo. Seria a
sopa no mel!
Pior de tudo mermão, foi que apostei e ainda dei um gol.
Perdi dois mil e vou tomar a maior gozação no trabalho!
Garçom traz mais cervejas meu filho! Quero afogar minhas
mágoas antes de ir para casa. Essa foi uma grande decepção. Sempre achei que
Tite não era bom técnico. Sinceramente, eu preferia que fosse Dunga que é
guerreiro e tem garra!
Agora, com a cara mais cínica, esse timezinho de merda vai
disputar o terceiro lugar. Grande porcaria e eu, retado como estou, vou torcer
contra!
Essas são duas prováveis reações que veremos hoje a noite,
depois do jogo Brasil x Argentina. Os brasileiros só aprenderam a ganhar o
primeiro lugar, e não raciocinam que todas as seleções vieram participar com
seus melhores e mais bem treinados jogadores, com o pensamento de vencer a
competição!
Amigos me solicitaram que escrevesse de novo sobre o chamado
marxismo cultural — de momento tão relevante e na moda em decisivos meios de
esquerda e na direita — e, de forma congruente, pusesse no texto informações
pertinentes à Escola de Frankfurt [foto acima], atemorizador negotium
perambulans in tenebris para tantos e com bons motivos. Apenas como
informação provavelmente inócua, o artigo anterior “Esclarecimentos sobre o
marxismo cultural”, está em meu blog (periclescapanema.blogspot.com) desde 25
de fevereiro último.
Obediente, volto ao assunto. De passagem, o hoje denominado
marxismo cultural foi também chamado de marxismo ocidental, aqui e ali é qualificado
de Teoria Crítica, marxismo da Teoria Crítica, um dos fundamentos
doutrinários da revolução cultural. Nem faz falta realçar a importância da
revolução cultural (e a consequente necessidade de estudar doutrinas e métodos
seus e como a eles fazer frente).
Para cortar caminho, deixar claro o desatino da escola,
embarafusto antes por atalho pouco trilhado, pinceladas rápidas sobre dominação
e emancipação, duas das obsessões da referida escola. Seus mais conhecidos
representantes blasonavam (não custa lembrar, o marco inicial da escola poderia
ser cravado em 1923, estamos em sua terceira e quarta geração) o ideal de
extinguir a dominação e levar até limites ainda impensados a emancipação
humana. E continuam a alardeá-lo. Não custa lembrar por cima, cada vez que
líderes de orientação igual ou parecida afirmavam aplicar o marxismo à
sociedade, na prática levavam a dominação e sufocavam a emancipação a extremos
delirantes. A Coreia do Norte está aí, Cuba que o diga, a Venezuela sofre
efeitos dantescos dos partidários da emancipação.
Sempre é bom lutar contra a dominação? Em todas as situações
deve ser buscada a emancipação? Dominação vem de dominus, senhor.
Dominação é o ato próprio do senhor. Se é má a condição de senhor, maus serão
seus atos. Emancipação, o que é? Emancipação igualmente tem origem latina (mancipium,
qualidade do proprietário). Emancipar é extinguir a tutela do proprietário
sobre outro ser.
Acontece que é boa e nobre a condição de senhor. E assim,
seus atos são bons. E são bons e nobres a condição de súdito e o ato de
obedecer. Censuráveis, excessos e carências em ambos os casos, senhor e súdito.
Com efeito, a autoridade existe para o bem do súdito.
Removê-la em determinadas circunstâncias lesa o inferior. De forma análoga, a
emancipação prematura prejudica o emancipado. Enquanto dura em condições
adequadas, favorece o tutelado. Retirar o filho menor da tutela do pai,
emancipá-lo antes da hora, compromete presente e futuro. Mais ainda, a
autoridade e a dependência prolongam bons efeitos vida afora, perfumam-na. Anos
atrás, conversei com prima distante, três filhos criados, casada com advogado
rico em Belo Horizonte. Aparentemente tudo ia bem. Uma queixa ia e vinha, a
morte da mãe anos antes, fazia pouco o pai. Fechava e abria a mão direita. “Me
sinto um cachorro sem dono”,espetou o dedo.
Em suma, é destruidor para o desenvolvimento pessoal
arrebentar todas as formas de dominação e promover a desenfreada emancipação.
Que o digam em lamentos lancinantes algumas regiões da pobre e devastada
África. Aqui rui nas bases o edifício da Escola de Frankfurt, verdadeira
Torre de Babel de incontáveis correntes de esquerda, laboriosamente edificado
ao longo dos anos.
Em boa hora para a esquerda (péssima para nós) brotou
a Escola de Frankfurt. Abriu-lhe horizontes, pôs em evidência matérias
imprescindíveis que a doutrina marxista empurrava para o canto ou negava na
bruta; enfim, fincou estacas doutrinárias a uma ação revolucionária de maior
profundidade que latejava por se expandir.
Movimento intelectual, sobretudo filosófica e sociológica,
passou longe do grande público, o que não significa que teve pouca importância.
Lembro a propósito, cinco camadas envolvem a Terra: troposfera, estratosfera,
mesosfera, termosfera e exosfera. Existem fenômenos nas quatro camadas
superiores, que influenciam a troposfera, ainda que desconhecidos de nós nela
imersos. Assim na sociedade humana. A Escola de Frankfurt influenciou
a vida acadêmica e os estratos intelectualizados dos movimentos revolucionários
no mundo inteiro. E daí seus conceitos embeberam meios de divulgação, a
política, outros ambientes intelectualizados e, finalmente, a sociedade em
geral. Apenas uma pequena ilustração, o maior guru do maio de 1968 e das
agitações de Berkeley, um pouco antes, foi Herbert Marcuse (1898-1979), dos
principais representantes da referida escola.
O marxismo, materialista, determinista e evolucionista
procura explicar toda a realidade pela economia, de outro modo, pelas forças de
produção. Afirmei no artigo acima mencionado: “Segundo o marxismo, o
determinante na história é a economia. E na economia os meios de produção, […]
base das relações de produção. As forças produtivas e as relações de produção
dariam origem aos modos de produção. Existem sete modos de produção: primitivo,
asiático, escravagista, feudal, capitalista, socialista e comunista. Um leva ao
outro. Temos aqui a infraestrutura. A superestrutura são as ideias e
instituições (entre elas, o Estado) que justificariam e garantiriam os modos de
produção. O socialismo nasceria apenas depois de a sociedade capitalista estar
bem desenvolvida. Por sua vez, o comunismo só depois do desenvolvimento do
socialismo. Para o momento, o importante é o determinismo da doutrina marxista.
Em doutrina, por ser determinista, desvaloriza o ato volitivo e relativiza por
inteiro o bom, o mau, o belo, o feio, o justo e o injusto, colocados na
superestrutura, dependentes das relações de produção. Até a ação política e o
proselitismo. Na prática, os partidos comunistas nunca agiram segundo a pura
doutrina marxista. Não foram deterministas, esperavam da ação partidária a
aceleração do dia em que surgisse o homem novo sonhado pela utopia.”
Antes, tínhamos o marxismo focado em fatores econômicos. Não
só deformava, limitava o horizonte. A Escola de Frankfurt propôs a
revolução não só na sociedade, mas no interior do homem, privilegiou instintos,
advertiu contra os perigos da razão
[em especial denunciou a razão instrumental, instrumento
favorecedor da sociedade
capitalista em suas digressões].
Propugnou a liberação moral, como atividade emancipadora.
Enfatizou o papel central dos hábitos, das mentalidades, das ideias. Enfim, do
que se chamou a cultura e não apenas do econômico. Daí ser titulada de marxismo
cultural. Era marxismo ainda? Nas bases, não. Mas era doutrina profundamente
revolucionária, que servia como luva para o avanço do comunismo no interior do
homem e na sociedade. Voltarei ao tema.
Provocada pelo clima de Brasília, despenca sobre nós, sem
fim, a saraivada do escarcéu, desgoverno, desorientação, boçalidade e baixaria.
Debaixo do granizo, difícil perceber o impulso decisivo de toda boa ação
política, o agudo senso do bem comum.
Em outra comparação, a vida pública brasileira já de há
décadas vem rolando em precipícios dos quais não se vê o fundo. A previsão de
Ulisses Guimarães tem se verificado doloridamente, foi mais ou menos
assim: “Está achando ruim essa composição do Congresso? Então espera a
próxima, vai ser pior”. Imaginem, a atual já apavora, a pífia consolação é
que a próxima virá pior. Toda profissão depende da qualidade de seus membros.
Com tais atores, a peça não vai ter sucesso. Mas não vou jogar tudo no cangote
dos políticos no Planalto Central. Fomos nós, os eleitores, que os mandamos
para lá.
Não pretendo prescrever panaceias para tal situação. Faço
outra coisa, da remedama necessária, tiro do estoque e ponho na vitrine só um
vidrinho, cujo recheio tanto serve para a vida pública quanto para a
particular. Assim, não abandono inteiramente a matéria, mas trago à baila
modesta contribuição para a solução do problema, útil igualmente para a vida de
todos os dias de qualquer brasileiro.
Passo a desfiar o assunto. Em política, quem sabe conversar,
já tem meio caminho andado. E dou o primeiro passo com frase conhecida,
política é conversa, o resto é conversa fiada, da lavra, parece, de Otávio Mangabeira.
Política e tanta coisa mais é conversa, o resto é conversa fiada. Número enorme
de atividades humanas descansa na conversa.
O começo é ouvir. A língua faz muita gente surda. Nada
escuta, tomada pelo gosto da parolagem compulsiva e oca; quem muito fala, muito
erra e muito enfada. Ouvir supõe interesse, paciência, compreensão.
Benevolência. As duas primeiras estacas, interesse e paciência, seguram o andar
superior, a compreensão, entender até o fundo e em todos os matizes o que está
dizendo ou está querendo expor o outro. Se queres ser bom juiz, ouve o que cada
um diz.
Qualquer um, qualquer outro, até os mais simples. O
interesse no pequeno é estrada para entender o grande. “Aperfeiçoa-te na
arte de escutar, só quem ouviu o rio pode ouvir o mar”, advertência de Altino
Caixeta de Castro, o Leão de Formosa, bom poeta do Triângulo Mineiro. Nelson
Rodrigues marcou o Brasil e até hoje não foi esquecido (morreu em 1980) em
especial porque entre outras qualidades sabia escutar: “Posso não ter
outras virtudes, e realmente não as tenho. Mas sei escutar. Direi, com a maior
e mais deslavada imodéstia, que sou um maravilhoso ouvinte. O homem precisa
ouvir mais do que ver. Qualquer conversa me fascina […]. E, se duas pessoas se
falam, a minha vontade é parar e ficar escutando. Uma simples frase, ainda que
pouco inteligente, tem a sua melodia irresistível”.
Sentir as ocasiões dos silêncios, modular a ênfase, o timbre
da voz, ter maestria nas pausas são tão ou mais eloquentes que a o impacto da
palavra. Fala o olhar, o gesto fala, a atitude fala, pode valer mil palavras o
sorriso. O bocejo ou um gesto brusco tantas vezes cortam mais que refutações
veementes. A presença, enfim. Existem presenças estimuladoras, presenças
sabotadoras, presenças opacas. Dizia-se do príncipe de Metternich que a
conversa dele fazia os interlocutores se sentirem mais inteligentes.
Deixei o miolo para o fim. O anterior ajudava a realçar o
principal, o conteúdo. Como enriquecê-lo? Alguns recursos, observação,
explicitação das impressões, leituras, bem como, sob outro aspecto, nas
ocasiões adequadas, formação sistemática e estudos. Tudo isso enobrecido pelo
caráter. Aí a pessoa tem muita coisa a dizer e é útil a todos a disposição de
comunicá-la.
Desfio o assunto um pouco mais. A vida política tem aspecto
pouco comentado, a exemplaridade. O rei, sob tantos aspectos o mais importante
político de uma nação, é naturalmente modelo para o povo, objeto de sua
atenção, aprendizado e entretenimento. Basta ver a atenção que provoca a rainha
Elisabeth II. O político, a seu modo e proporção, é um pequeno rei. Tem também
o dever da exemplaridade. E saber conversar bem o ajudaria a cumprir tal
missão.
O diplomata e historiador Luís Cláudio Villafañe abre
na Academia Brasileira de Letras o ciclo de conferências Legado de Rio
Branco: interpretações e atualidade, sob coordenação do Acadêmico e jornalista
Merval Pereira. O evento está programado para o dia 4 de julho, quinta-feira, às
17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr. (Avenida Presidente Wilson, 203, Castelo,
Rio de Janeiro), com o tema Procedo neste caso como teria procedido o Barão:
O legado de Rio Branco como fonte de legitimidade. Entrada franca.
A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado é a coordenadora
geral dos Ciclos de Conferências de 2019.
Serão fornecidos certificados de frequência.
O ciclo terá mais duas conferências no mês de julho, sempre
às quintas-feiras, no mesmo local e horário: Rio Branco hoje: os desafios
do ofício, com o diplomata Marcos Azambuja, no dia 11; e Rio Branco: a
persistência de um novo paradigma para a política externa, diplomata e
professor Gelson Fonseca, dia 25.
O CONFERENCISTA
Luís Cláudio Villafañe Gomes Santos, diplomata e
historiador, nasceu no Rio de Janeiro em 18 de setembro de 1960. Bacharel em
Geografia pela Universidade de Brasília e bacharel em Diplomacia pelo Instituto
Rio Branco, possui pós-graduação em Ciência Política pela New York
University e mestrado e doutorado em História pela Universidade de
Brasília.
Nomeado Embaixador do Brasil na República da Nicarágua por
Decreto de 16 de fevereiro de 2017.
Como diplomata serviu no Escritório Financeiro do Itamaraty
em Nova York, nas Embaixadas do Brasil na Cidade do México, Washington,
Montevidéu e Quito, e na Missão do Brasil junto à Comunidade dos Países de
Língua Portuguesa (CPLP), em Lisboa.
Villafañe é autor de diversos livros sobre a história
das relações exteriores do Brasil, entre os quais, O Evangelho do Barão (Unesp,
2012) e O dia em que adiaram o carnaval (Unesp, 2010). Foi curador da
mostra oficial sobre o centenário da morte do patrono da diplomacia brasileira
“Rio Branco: 100 anos de memória”, exibida em Brasília e no Rio de Janeiro em
2012.
Publicou artigos em revistas especializadas e participou em
obras coletivas no Brasil, Estados Unidos, Europa e América Latina, dentre as
quais a coleção Historia General de América Latina, publicada pela Unesco.
Ademais de sócio correspondente do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro (Rio de Janeiro) e da Academia de Geografía e Historia de
Nicaragua (Manágua), é pesquisador associado ao Observatório das Nacionalidades
(Fortaleza).
Vencedor do Prêmio da Associação Paulista de Críticos de
Arte (APCA), melhor livro do ano (2018) na categoria
Biografia/Autobiografia/Memória, com Juca Paranhos, o barão do Rio Branco.
Quando Deus estava preparando o mundo, se reuniu em uma
tarde com todas as árvores. Ele pediu para que cada árvore escolhesse que época
gostaria de florescer e embelezar a terra.
Foi aquela alegria.
Outono, Verão, Primavera, diziam!
Porém Deus observou que nem uma escolhia a estação do
inverno.
Então Deus parou a reunião e perguntou:
Por que ninguém escolhe a época do inverno?
Cada um tinha sua razão. Muito seco! muito frio! muita
queimada!
Então Deus pediu um favor.
Eu preciso de pelo menos uma árvore, que embeleze o inverno,
que seja corajosa, para enfrentar o frio, a seca e as queimadas e no frio
embelezar o mundo...
Todos ficaram em silêncio.
Foi então que uma árvore quietinha lá no fundo, balançou as
folhas e disse: eu vou!...
E Deus com um sorriso perguntou: qual seu nome minha
filha?!
Me chamo Ipê, senhor!
As outras árvores ficaram espantadas com a coragem do Ipê em
querer florescer no inverno.
Então Deus respondeu: por atender ao meu pedido farei com
que você floresça no inverno não só com uma cor...
Para que também no inverno o mundo seja colorido.
Como agradecimento, terás diferentes cores e texturas, sua
linhagem será enorme.
E assim Deus fez uma das mais lindas árvores que dá cor ao
inverno... E por isso temos os Ipês:
Branco
Amarelo
Amarelo do Brejo
Amarelo da Casca Lisa
Amarelo do Cerrado
Rosa
Roxo
Roxo Bola
Roxo da Mata
Púrpura.
....
REFLEXÃO:
Quando ouvimos a voz de Deus e fazemos a vontade Dele,
recebemos muito mais daquilo que pedimos ou pensamos!!! (EFÉSIOS 3:20)
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus foi à região de Cesareia de Filipe
e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do
Homem?”
Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros
que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”.
Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?”
Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus
vivo”.
Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de
Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está
no céu. Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra
construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu
te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será
ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
---
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Paulo
Ricardo:
“Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mt 16,13)
A Igreja, ao unir numa só celebração, duas figuras humanas
tão diferentes - Pedro e Paulo - nos indica o quê pretende com esta festa:
manifestar a obra comum que Deus realizou através deles. Com certeza, a
liturgia descobriu a complementariedade desses dois homens; são um claro
exemplo de que personalidades tão diferentes se revelaram autênticos seguidores
de Jesus.
Foram completamente diferentes na formação pessoal: Pedro
era simplesmente um pescador, sem nenhuma preparação, mas teimoso e sincero.
Paulo era um intelectual. Havia passado pela escola rabínica, onde se envolveu
no estudo profundo da Lei. Um com sua simplicidade e espontaneidade e o outro
com sua agudeza intelectual, constroem a única Igreja. Tanto em Cesareia de
Filipe (Pedro), como no caminho de Damasco (Paulo), Jesus desvela a
originalidade e a diferença de cada um deles (rocha), sobre as quais vai
fundamentar sua nova comunidade. Nada do que é humano foi anulado, mas
integrado no horizonte do seguimento.
Cada um deles seguiu Jesus à sua maneira Por isso, Pedro e
Paulo foram considerados como as colunas da Igreja. Eles são como duas
referências permanentes para a comunidade dos(as) seguidores(as) de Jesus; são
exemplo de fé cristã, no seguimento do Mestre de Nazaré. No final os dois
rubricaram sua fidelidade entregando a própria vida como testemunhas de Jesus
Cristo.
A Igreja, corpo de seguidores(as) de Jesus Cristo, plural e
diversa em seus membros, também é chamada à comunhão na diversidade. Somos
conscientes de viver a difícil alteridade no interior da mesma Igreja.
A fé cristã em Deus, que é uno e trino, aparece como o
primeiro fundamento para acolher a diferença.
O modo original de ser e viver de Jesus também nos motiva a
sair de nós mesmos para acolher o outro diferente como revelação de Deus,
assumir a mudança e encontrar na Eucaristia, o sinal e a fonte da união.
A festa de hoje se apresenta como oportunidade privilegiada
para aprofundar o sentido da “diferença” no interior da comunidade cristã e na
convivência social. Estamos inseridos num contexto religioso e social carregado
de muita intolerância e indiferença, onde prevalece o medo diante de quem é
diferente.
“A diferença é inerente à comunhão na Igreja. É um
elemento da comunhão. A Igreja não é nem eliminação nem soma das ‘diferenças’,
mas comunhão nas mesmas” (J.M Tillard). Assim, ser cristão significa ser
aberto, acolhedor da diferença, sensível à diversidade. Afinal, somos humanos,
seres em caminho, buscadores de sentido, buscadores da verdade e habitados pelo
mesmo Deus, que atua em tudo e em todos. O princípio de alteridade está fundado
no princípio de identidade: podemos nos compreender apesar de sermos
diferentes, porque todos somos seres criados e agraciados por Deus, chamados a
ser habitados por uma verdade que está para além de uma ideia ou doutrina.
Esta é a vocação fundamental de todo ser humano: alimentar
uma relação mútua em cada encontro. Todos trazemos dentro de nós ricas
possibilidades que só podem ser colocadas em movimento quando alguém se
encontra conosco e nos chama à vida, numa verdadeira relação. Somos relação, e
nos fazemos ou desfazemos na relação. Não há um “eu sem um tu” que nos
complementa com a comunhão, que nos une na diferença; esse movimento desvela
nossa própria originalidade, abrindo-nos ao desconhecido e à riqueza do outro.
Tanto a comunhão como a diferença são espaços de crescimento mútuo.
A diversidade nos permite enriquecer-nos, adquirir mais
humanismo. Diferença é expressão inerente ao ser humano, é modo de pensar, de
dizer, de trabalhar, de existir e de conviver. A humanidade diferenciada
torna-se mais dinâmica; o tesouro está precisamente em sua diversidade
criadora. A humanidade é profundamente diversificada em seus talentos, valores
originais e em sua vitalidade.
Daí a importância de aprender a ver o melhor de cada pessoa
e de cada povo, superando as visões estreitas e fundamentalistas de todo tipo
de racismo, xenofobia, desprezo, preconceito, dominação...
Saber conviver com as diferenças é sinal de
maturidade.
Cresce hoje a consciência sobre a diferença do ser humano
como atração, e não como rejeição. A humanidade pós-moderna exige a diversidade
de convivência sociocultural. Não podemos permanecer trancados em redutos que
rejeitam as diferenças existenciais. A humanidade deixou de ser distante para
tornar-se mais próxima, mediante as diferenças, os diálogos e as convergências.
O mundo globalizado não pode ser apenas econômico. É chamado também a respeitar
e a cultivar as diferenças entre as pessoas, as raças, as sociedades e as
nações.
A diversidade racial, cultural, religiosa... supera a
monotonia e oferece a criatividade de muitas formas. A harmonia fecunda entre
as pessoas está na diversidade das diferenças, não na repetição mecânica.
O conformismo repete cópias, mas não facilita a união
autêntica. Sem as diferenças entre pessoas, a sociedade seria apenas um
marasmo. Por isso, as diferenças pluralistas são valores, não anomalias. Além
disso, são sedutoras, não amedrontadoras. A diferença pessoal mantém certo
fascínio.
A diversidade é uma forma de aproximação entre os seres
humanos. E deve ser vista como estimulo, não como estorvo. A diferença do
“outro” deve ser motivo para o encontro e para o enriquecimento mútuo.
Segundo o pensador E. Levinas é a diferença que gera alteridade. O outro
é diversificado e não repetitivo. A visão da diferença mostra que cada ser
pessoal é original. Massificar as pessoas é uma forma de silenciá-las e
dominá-las. Daí a importância e a urgência de aprender a valorizar o que é
próprio e também o que é diferente, esforçando-nos para não transformar as
diferenças normais (geográficas, culturais, de raça, de gênero...) em
desigualdades. É preciso educar e preservar as diferenças humanas.
Deveríamos pensar mais sobre a importância das diferenças
entre os seres humanos. Deveríamos admirar as diferenças pessoais e
grupais, e não lamentá-las. É necessário evitar tudo o que deforma as
diferenças e desenvolver a verdadeira coexistência pessoal, social, científica,
religiosa, ética. Deveríamos remover abusos e vícios que anulam a diferenças.
Perverter a diferença é uma atitude que degrada a pessoa. Valorizar o diferente
e os diferentes implica tratar com cortesia, saber interagir, trabalhar juntos,
respeitar... Diferença não dispersa nem divide, mas provoca convergência
crítica. Promove a unidade lúcida e criativa. Por isso é valor a ser preservado
e a ser desenvolvido, é potencial a ser explicitado.
A questão da «diferença cristã» não toca apenas à relação
entre o cristianismo e o espaço não-cristão. O problema situa-se no interior
mesmo do cristianismo. Viver como «comunidade» implica saber conjugar a
diversidade na unidade. Assim, o cristianismo revela uma multiplicidade de
textos, de ritos, de movimentos, de escolas de espiritualidade, de perspectivas
teológicas; mas também de funções e vocações no interior da comunidade. A
fidelidade, no cristianismo, passa por uma capacidade de integrar a
diversidade.
Somos Igreja, Casa e Povo de Deus, que vive a acolhida
positiva e respeitosa da diversidade de pessoas, carismas, ministérios, funções
e expressões da fé. O reconhecimento desse pluralismo no interior da comunidade
nos instiga a viver uma eclesiologia da comunhão.
Isso nos move a fazer a contínua passagem de uma Igreja que
discrimina os que pensam diferentes, os diversos, os outros... a uma Igreja que
respeita os que seguem sua própria consciência, as outras religiões, os ateus,
as minorias excluídas...; uma Igreja de portas abertas, atenta aos novos sinais
dos tempos, que abra caminhos novos em meio às diferenças, que saia às margens
sociais e existenciais...; uma Igreja jovem e alegre, fermento na sociedade,
com a alegria e a liberdade do Espírito, com luz e transparência...
Texto bíblico: Mt 16,13-19
Na oração: Deus nos ciou “diferentes” e é na “diferença” que
Ele vem ao nosso encontro como chance de enriquecimento vital e de intercâmbio
criativo.
- Deixe-se surpreender pelo Deus da vida que rompe esquemas,
crenças, legalismos, bolhas...;
- O que prevalece em você diante de quem pensa, sente e ama
de maneira “diferente”? intolerância, sectarismo, preconceito, mixo-fobia (medo
de se misturar), xenofobia (medo do estrangeiro);... ou acolhida, proximidade,
convivência...?