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sábado, 2 de março de 2019

A METAMORFOSE - Cyro de Mattos


Da sacada do apartamento, jogava o milho pisado para os pombos. Via com prazer a cena inquieta dos bicos catando as migalhas na rua.

Comprava o passarinho com a gaiola, na feira, aos sábados. Abria a portinhola, ficava feliz vendo o bichinho bater asas, desaparecer. Tomava a direção da mata.

Comprara o binóculo para observar com detalhes o espetáculo dos periquitos voando acima dos telhados, próximos ao edifício onde morava, erguido na colina.

Gritos constantes das aves. Até que se empoleiravam nas árvores perto da igreja.

Acordavam cedo, nuvem de asas acima da torre da igreja. Tomavam depois a direção da mata. Voltavam pela tarde em busca do poleiro nas árvores.

Aqueles bichinhos foram feitos por Deus para voar pelas estações temperadas de sol e chuva. Bicar nas manhãs frutíferas. Alegrar a natureza com voos e cantos. Cumprir a lei da reprodução da natureza, perpetuar a espécie. Preso algum deles na gaiola, a vida do cantor prisioneiro passava sem graça, em canto e plumagem perdia o sentido.

Igual a um castigo destamanho só o de alguém que nascesse sem os braços ou arrancados do corpo em algum acidente, por exemplo.

Teve a certeza dolorida disso quando foi atropelado por um caminhão, que passou na rua desembestado.

Com a pancada, perdeu um dos braços, o outro mutilado, sem a mão, imprestável também. Sorte não ter morrido.

Difícil acostumar com a situação precária. Abatia seus sentimentos e nervos. Os olhos denunciavam a alma entristecida.

Os de casa não ligavam para ele. Só servia quando era gerente de banco, sustentando a mulher e os três filhos, a cunhada, a sogra e o sogro.

Deficiente, impossível agora dar milho pisado aos pombos. Ficava em silêncio, sentindo pena de si mesmo, a situação irreversível.

Até que uma manhã acordou com umas asas no lugar dos braços. A princípio achou o acontecimento estranho. Dessas coisas que por mais que se force a inteligência não se acha a explicação lógica do seu acontecimento. Um milagre, para Deus nada é impossível.

Foi até a sacada. De lá alçou voo. Não hesitou, seguiu na direção da mata. O mundo visto do alto pareceu-lhe então perfeito, cheio de brilho e cores.


Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Premiado no Brasil, México, Itália e Portugal. Publicado por editoras na Europa. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia).


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ESTÁ FALTANDO UMA - Arnaldo Niskier


Escrevi sobre o empoderamento feminino lá em casa (O DIA de 28/1/19) e deixei de propósito para citar a minha irmã em separado. Foi a quinta filha do casal Fany e Marcos, depois de terem nascido quatro homens. O meu pai dizia que não ia parar de ter filhos (coitada da minha mãe) enquanto não viesse uma menina. E isso aconteceu em 5º lugar. Já imaginaram se fosse em 8º ou 9º?

A Rachel sempre foi um encanto lá em casa. Era a mais nova, sempre muito bonita, e fez uma bela carreira em medicina. Teve um desempenho brilhante no curso na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), especializando-se em Pediatria. Não quis clinicar, pois detestava o lado comercial da profissão, preferindo o seu aspecto científico.

Com esse zelo integrou os quadros de grandes e notáveis instituições, ganhando renome internacional. Em 2002, ela era conselheira titular do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), e coordenou, para a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a "Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes e Violência na Infância e Adolescência". A sua atuação foi marcante e mostrou que a violência doméstica potencializava a violência social e ocorria de forma velada entre os mais ricos. Essa avaliação era resultado das diversas visitas que ela fazia por todo o Brasil, conhecendo a fundo o funcionamento das instituições que cuidavam de menores infratores, como as antigas Febens. Rachel fazia questão de conversar com os adolescentes para saber os motivos pelos quais eles cometiam atos que conflitavam com a lei. Na maioria das vezes, eles saíam de casa fugindo da violência praticada pelos próprios pais.

Também chamou a atenção outra campanha da SBP, também sob a coordenação de Rachel, chamada "Violência é Covardia - crescer sem violência é direito fundamental das crianças e adolescentes", que foi deslanchada em 2016. Nesta, outros aspectos foram abordados, como abuso sexual, negligência e maus tratos psicológicos. A preocupação era mostrar que é possível e saudável promover nas residências uma educação livre de atos violentos.

No período em que fez parte do Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente do Rio de Janeiro, ela se preocupou em resolver os principais problemas sociais que afetavam (e infelizmente ainda afetam) os jovens e adolescentes aqui do nosso estado. Temas como o atendimento do adolescente vítima de violência na emergência e violência psicológica intrafamiliar sempre foram objeto de estudos e intervenções da entidade. A atuação de Rachel ajudou a reforçar a ideia de que um relacionamento sadio e amigável na família contribui para que os meninos e meninas se tornem adultos plenos, produtivos, companheiros, solidários, generosos, bons cidadãos, bons pais e eternamente bons filhos.

Com o bom humor que lhe é peculiar, Rachel Niskier Sanchez diz que se considera uma "jurássica" na luta em defesa das crianças e adolescentes, um título que ela procura honrar. Há muitos anos ela ficava abordando transeuntes e colhendo assinaturas para a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), "numa mesinha", no centro da cidade do Rio de Janeiro. Isso foi antes de 1990, quando o Estatuto ainda não havia sido sancionado. Depois de tantas lutas e conquistas, hoje, é uma competente e conceituada profissional que presta serviços no Instituto Fernandes Figueira, participando com êxito de palestras e seminários.

O Globo, 18/02/2019



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 Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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sexta-feira, 1 de março de 2019

INVISÍVEIS


Somos invisíveis? 

É bem possível que uma grande maioria de nós já tenha se questionado dessa forma, em algum momento. Acontece quando se entra em uma loja e o atendente nos ignora. Ou quando estamos frente ao balcão de uma companhia aérea, tentando saber se o voo está no horário. Ou, em algumas repartições públicas, à procura de informações. A pessoa que ali está, simplesmente ignora nossa indagação, nossa presença. É como se fôssemos invisíveis.

Para nós que lidamos com a imortalidade, que estudamos a respeito da vida que nunca cessa, o primeiro pensamento que nos acode, ao nos sentirmos assim ignorados é: Será que eu morri e não me dei conta? Terei acaso atravessado a fronteira da vida sem me aperceber? Será por causa disso que as pessoas não me vêem, não me respondem?

No entanto, além dessas situações, de um modo geral, quase todos nós nos movemos no mundo sem darmos atenção aos demais. É assim que caminhamos pela rua, olhando nomes das ruas, números, veículos, sem olhar ao nosso redor. Por isso, é comum esbarrarmos nos outros, e não nos darmos conta de suas presenças. Esbarramos e continuamos em frente, ao encalço do nosso objetivo, sem nos determos sequer para pedir desculpas. Ou para auxiliar a pessoa a juntar o que a fizemos derrubar com nosso esbarrão. Isso, quando não é a própria pessoa que perde o equilíbrio e vai ao chão.

Quando se abrem as portas dos coletivos urbanos, saímos como quem precisa apagar incêndio logo adiante. Alguns vão abrindo caminho, à força, batendo com a mochila que trazem às costas nos que aguardam nas filas e continuam em frente. Pisam nos pés alheios, mas prosseguem andando. Na ânsia de alcançar o seu destino, rapidamente, carregam consigo o que estiver no  caminho: embrulhos, livros... ou pessoas. Mas nunca se voltam para pedir desculpas. Porque nada vêem, nada sentem, nada percebem. Somente eles existem no caminho...

Em filas de cinema, supermercados, bancos, repartições, a questão não é muito diferente. Pessoas com pressa, com compromissos urgentes, tentam passar à frente de outras que aguardam há muito tempo. Para elas, não existe ninguém mais do que elas mesmas... e o seu problema, a sua dificuldade.

Se estamos no rol dessas pessoas afoitas, insensíveis, que somente vêem a si mesmas, estanquemos o passo.Olhemos ao redor, observemos, respeitemos os que compartilham o mesmo ônibus, a mesma lanchonete, a mesma repartição pública. O fato de termos que resolver muitas questões não está dissociado da possibilidade de sermos gentis, delicados, atenciosos. Não nos impede de olharmos ao redor, de ceder o lugar a um idoso, uma grávida, alguém com dificuldade física.

Pensemos que tanto quanto nós não desejamos ser tratados como invisíveis, não devemos assim proceder com relação aos demais. Somos todos humanos, necessitados uns dos outros. Ajamos então, como quem já se alçou à Humanidade e deseja prosseguir caminho, rumo à angelitude, nosso passo seguinte.

(Autor não mencionado)

Gotas de Crystal" gotasdecrystal@gmail.com

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LEMBRANÇAS DO PRADO - Antonio Baracho


A minha última estada no Prado foi a passeio, mas o que mais me chamou atenção foi o atrativo de seus encantos... Outras cousas ficaram à margem. Tanto que dali a gente sai pensando em quando poderá voltar para o convívio daquela gente boa que faz jus ao ambiente esplêndido onde as cachoeiras encantam a todos que de alma isenta as contemplam com vontade de entregar-se às carícias de suas águas límpidas... Mas não foi isto que comigo aconteceu: folguei-me apenas em contemplá-las abastecendo-me de seus encantos. Isto porque o tempo não permitiu que o fizesse além do delicioso passeio a barco, do inesquecível banho de mar e da estirada até Comuruxatiba, situada a poucos quilômetros da sede, - lugar aprazível e lindo, com as suas areias monazíticas.

Quem não conhece o Prado, é bom que procure conhecê-lo, pois o Prado dispõe, além do seu encanto natural realçado pela areia branca que o contorna e reaviva o verde que o tapisa, o ar reconfortante que se respira e a boa água que se bebe... O visitante sai de lá conduzindo no íntimo a satisfação de ter conhecido um lugar realmente encantador. Essa satisfação ficou impregnada no meu ser por tudo o que a sua natureza proporcionou, inclusive uma via de acesso verdejante e tranquila que liga o município de Itamaraju ao Prado.

Para quem deseja conhecer o Prado há várias opções de hospedagem: Pode-se, com facilidade, conseguir casa de aluguel para uma temporada à escolha do veranista. E é oportuno dizer-se que numa casinha modesta, mesmo de telha-vã, o luar do Prado é mais belo... Na encantadora cidadezinha já brilha um hotel de cinco estrelas, cujo brilho, aliás, não constitui, absolutamente, o seu principal atrativo porque o seu principal atrativo, como já disse, está na sua beleza paisagística, nas suas cachoeiras dadivosas, na delícia do seu clima, na simpatia da sua gente...

Neste momento, quando digito esta inútil louvação, penso em Dorival Caymmi, de violão em punho, parodiando a sua famosa canção em que mal altera a letra:

Você já foi ao Prado, nêga?
Não?
Então, vá!...


Membro da Academia Grapiúna de Letras- AGRAL, ocupante
da cadeira nº 11.
Tel. (73) 99102-7937 / 98801-1224


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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

O QUE A MEMÓRIA AMA, FICA ETERNO - Adélia Prado




Quando eu era pequena, não entendia o choro solto da minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro. O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis. Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender. O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano.

 É que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando momentos. Crianças têm o tempo a seu favor e a memória ainda é muito recente. Para elas, um filme é só um filme; uma melodia, só uma melodia. Ignoram o quanto a infância é impregnada de eternidade.

Diante do tempo envelhecemos, nossos filhos crescem, muita gente parte. Porém, para a memória ainda somos jovens, atletas, amantes insaciáveis. Nossos filhos são crianças, nossos amigos estão perto, nossos pais ainda vivem.

Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente. Quando nos damos conta, nossos baús secretos – porque a memória é dada a segredos – estão recheados daquilo que amamos, do que deixou saudade, do que doeu além da conta, do que permaneceu além do tempo.

 A capacidade de se emocionar vem daí: quando nossos compartimentos são escancarados de alguma maneira. Um dia você liga o rádio do carro e toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música já fez parte de você – foi o fundo musical de um amor, ou a trilha sonora de uma fossa – e mesmo que tenham se passado anos, sua memória afetiva não obedece a calendários, não caminha com as estações; alguma parte de você volta no tempo e lembra aquela pessoa, aquele momento, àquela época...

Amigos verdadeiros têm a capacidade de se eternizar dentro da gente. É comum ver amigos da juventude se reencontrando depois de anos – já adultos ou até idosos – e voltando a se comportar como adolescentes bobos e imaturos. Encontros de turma são especiais por isso, resgatam as pessoas que fomos, garotos cheios de alegria, engraçadinhos, capazes de atitudes infantis e debilóides, como éramos há 20 ou 30 anos. Descobrimos que o tempo não passa para a memória. Ela eterniza amigos, brincadeiras, apelidos... mesmo que por fora restem cabelos brancos, artroses e rugas.

 A memória não permite que sejamos adultos perto de nossos pais. Nem eles percebem que crescemos. Seremos sempre "as crianças", não importa se já temos 30, 40 ou 50 anos. Prá eles a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das estórias contadas ao cair da noite... ainda são muito recentes, pois a memória amou, e aquilo se eternizou.

 Por isso é tão difícil despedir-se de um amor ou alguém especial que por algum motivo deixou de fazer parte de nossas vidas. Dizem que o tempo cura tudo, mas não é simples assim. Ele acalma os sentidos, apara as arestas, coloca um band-aid na dor. Mas aquilo que amamos tem vocação para emergir das profundezas, romper os cadeados e assombrar de vez em quando. Somos a soma de nossos afetos, e aquilo que amamos pode ser facilmente reativado por novos gatilhos: somos traídos pelo enredo de um filme, uma música antiga, um lugar especial.

Do mesmo modo, somos memórias vivas na vida de nossos filhos, cônjuges, ex-amores, amigos, irmãos. E mesmo que o tempo nos leve, daqui seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nos amaram.

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Adélia Luzia Prado de Freitas (Divinópolis13 de dezembro de 1935), mais conhecida como Adélia Prado, é uma poetisaprofessorafilósofa e contista brasileira ligada ao Modernismo.
Sua obra retrata o cotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características de seu estilo único. Em 1976, enviou o manuscrito de Bagagem para Affonso Romano de Sant'Anna, que assinava uma coluna de crítica literária no Jornal do Brasil. Admirado, acabou por repassar os manuscritos a Carlos Drummond de Andrade, que incentivou a publicação do livro pela Editora Imago em artigo do mesmo periódico.
Professora por formação, ela exerceu o magistério durante 24 anos, até que a carreira de escritora tornou-se a atividade central. Em termos de literatura brasileira, o surgimento da escritora representou a revalorização do feminino nas letras e da mulher como ser pensante, tendo-se em conta que Adélia incorpora os papéis de intelectual e de mãe, esposa e dona-de-casa.

(Wikipédia)

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QUAL A ATITUDE CATÓLICA FRENTE AOS ESCÂNDALOS NA IGREJA?


28 de Fevereiro de 2019

♦  Fonte: Revista Catolicismo, Nº 818, Fevereiro/2019
Resposta do Padre David Francisquini

Pergunta — A mídia vem noticiando, com frequência cada vez maior, casos escandalosos de abusos sexuais por parte de clérigos, o que leva alguns a duvidarem da Fé católica e se afastarem da Igreja, ou pelo menos da prática religiosa. Outros dizem que seria melhor eliminar o celibato sacerdotal, alegando que ele é o responsável por tais abusos. Qual a melhor defesa que um católico pode fazer da Igreja nessa situação constrangedora? Esses fatos podem ser denunciados, ou isso equivaleria a levar água para o moinho dos inimigos da Igreja?

Resposta — Começamos por esclarecer que nem todas as denúncias de abuso divulgadas pela mídia ou investigadas pela Justiça são verdadeiras. Sabe-se que em muitos países os veículos de divulgação, como também muitas autoridades da Justiça, são hostis à Igreja Católica, e vão acusando e condenando sacerdotes e prelados sem ouvi-los, desrespeitando assim a presunção de inocência de que goza qualquer acusado até o julgamento.

É inegável, contudo, que muitas das investigações confirmaram grande número de casos de abuso sexual por parte de clérigos, incluindo bispos e até mesmo um cardeal de muito destaque. Revelou-se ainda a existência de verdadeiras redes de corrupção dentro de alguns seminários e em organismos ligados à Igreja.

O celibato sacerdotal nada tem a ver com a difusão dessa praga moral do abuso sexual. Estudos estatísticos sérios provam que em mais de 80% dos casos trata-se de abusos de adolescentes ou de jovens de sexo masculino por parte de clérigos homossexuais. Um estudo, em particular, provou que o número desses abusos cresceu exatamente na mesma proporção em que aumentou o número de pessoas com atração homossexual nas fileiras do Clero.

A arca de Noé continha animais puros e impuros

A Arca de Noé, que continha animais puros e impuros
(Gn 7, 2; 1 Pd 2, 6; cfr. At 10, 9; 11, 4-18), era também
uma imagem e semelhança desta Igreja [militante].

Essa infiltração se deu de modo especial a partir da década de 1960, devido ao relaxamento nas condições para a admissão nos seminários e na disciplina destes, bem como pela relativização da Moral nos estudos de Teologia após o Concílio Vaticano II. Contribuiu também a difusão da chamada “homo-heresia”, ou seja, o erro de afirmar que a atração homossexual não é contrária à natureza, e que as relações homossexuais são lícitas.
  
Não é a primeira vez na história da Igreja que a heresia e a corrupção moral se espalham como câncer entre os que são chamados a ser “o sal da terra” e “a luz do mundo” (Mt 5, 13-14). Mas, em cada circunstância, os Papas e os Santos conseguiram reformar o Clero e restaurar tanto a disciplina eclesiástica como a pureza dos costumes, que deve caracterizar os ministros de Deus. No tenebroso período que atravessamos hoje, essa necessária reforma moral das fileiras do Clero e da Hierarquia nem sequer começou.

Diante desses escândalos, e para fortalecer a nossa fé, convém relembrar que, de acordo com o Catecismo do Concílio de Trento, a Santa Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo não é como a imaginavam Lutero e seus sequazes, ou seja, como uma comunidade puramente espiritual e constituída somente por justos que têm fé.

Ao falar da Igreja militante — “o conjunto dos fiéis que ainda vivem na Terra” —, diz o referido Catecismo: “Há na Igreja militante duas categorias de homens: bons e maus. Certo é que os maus participam, com os bons, dos mesmos Sacramentos, professam a mesma fé, mas não lhes são semelhantes nem na vida, nem nos costumes”. Mais adiante, ainda repete: “A Igreja comporta não só os bons, mas também os maus. Assim o demonstra o Evangelho por muitas parábolas, quando diz, por exemplo, que o Reino dos céus – isto é, a Igreja militante – se compara a uma ‘rede lançada ao mar’ (Mt 13, 47); a um ‘campo semeado em que se espalhou joio’ (Mt 13, 24); a uma ‘eira, na qual o trigo se acha misturado com a palha’ (Mt 13, 12; Lc 3, 17); a ‘dez virgens’, umas loucas, outras prudentes (Mt 25, 1). Muito antes [de tais parábolas], a Arca de Noé, que continha animais puros e impuros (Gn 7, 2; 1 Pd 2, 6; cfr. At 10, 9; 11, 4-18), era também uma imagem e semelhança desta Igreja [militante]. A fé católica sempre ensinou, expressamente, que à Igreja pertencem bons e maus; não obstante, devemos explicar aos fiéis cristãos, em virtude das mesmas normas de fé, que entre ambas as partes há grande diferença de condição. Os maus assistem na Igreja, à semelhança da palha que na eira se mistura com o trigo; ou, como os membros quase mortos, às vezes continuam ligados ao corpo”.

Pagãos, hereges, cismáticos e excomungados não pertencem à Igreja

Henrique VIII, negando a supremacia do Papa,

se distanciou da Igreja Católica até cair em heresia,
dando origem à igreja anglicana.
Retrato de Henrique VIII (detalhe)
Hans Holbein, O Jovem, séc. XVI.
Walker Art Gallery, Liverpool, Reino Unido


Em consequência, conforme continua o mesmo Catecismo, somente três classes de homens estão excluídas da comunhão com a Igreja: os pagãos, que nunca estiveram no seu seio; os hereges e cismáticos, porque apostataram; e os excomungados que foram excluídos judicialmente, enquanto não se reconciliarem com Ela. E acrescenta sabiamente, referindo-se de modo específico aos pastores que levam vida má, mas nem por isso perdem sua autoridade dentro da Igreja: “Quanto aos demais, não há dúvida que continuam ainda no grêmio da Igreja, apesar de maus e perversos. Sejam os fiéis bem instruídos neste ponto, para que tenham a firme convicção de que os prelados da Igreja continuam no grêmio da mesma, não obstante qualquer deslize moral; e que nem por isso lhes fica diminuída a jurisdição [eclesiástica]”.

Acrescenta ainda o Catecismo que o fato de haver no seio da Igreja membros maus, e até pastores que dão escândalo, não lhe diminui em nada a santidade, porque a santidade lhe vem do fato de ser “consagrada e dedicada a Deus” (Lv 27, 28-30); de estar “unida como corpo a uma Cabeça santa, a Cristo Nosso Senhor (Ef 4, 15-6), fonte de toda a santidade (Dn 9, 24; Is 41, 14; Lc 1, 35); e da qual dimanam os dons do Espírito Santo e as riquezas da bondade divina (Ef 2, 7; 3, 8; 3, 16-19)”; e também do fato de Ela ser a única a possuir “o culto legítimo do Sacrifício e o uso salutar dos Sacramentos”, que são “os meios eficazes, pelos quais Deus opera a verdadeira santidade”. O Catecismo ainda acrescenta: “É impossível haver verdadeiros santos fora desta Igreja”.

A Igreja é santa, apesar dos numerosos pecadores

O Catecismo conclui: “não é de estranhar que a Igreja tenha o nome de santa, apesar de haver nela muitos pecadores. Pois são chamados santos os fiéis que se fizeram povo de Deus (1 Pd 2-9; Os 2, 1), e que pela fé e a recepção do Batismo se consagraram a Cristo, embora sejam fracos em muitos pontos e não cumpram o que prometeram”.

Sendo de fé que a Igreja é santa, mas nela há muitos pecadores junto aos bons, não é preciso cobrir com um manto de silêncio os pecados de seus membros que se tornaram públicos, e que dão escândalo aos fiéis (e até aos infiéis). Nas situações históricas em que a imoralidade do Clero se generaliza, e às vezes é até aceita como normal pelas autoridades eclesiásticas, a denúncia pública desse câncer por parte dos fiéis é benéfica e pode tornar-se até obrigatória, por ser o primeiro passo para a necessária reforma.

A esse respeito, no livro Igreja e homens de Igreja o teólogo passionista Pe. Enrico Zoffoli escreve: “Não temos nenhum interesse em cobrir as culpas dos maus cristãos, dos sacerdotes indignos, dos pastores vis e ineptos, desonestos e arrogantes. Seria ingênuo e inútil o intento de defender sua causa, atenuar suas responsabilidades, reduzir o alcance dos seus erros ou fazer uso do ‘contexto histórico’ e de ‘situações específicas’, com a pretensão de tudo explicar e tudo absolver”.


A Igreja Triunfante – Fra Angélico, 1423. National Gallery, Londres.


Como dissemos, a veracidade e a santidade da Igreja Católica não dependem da virtude dos seus filhos, os quais, por fraqueza ou por maldade, podem tornar-se infiéis ao seu Batismo, à sua ordenação sacerdotal, à sua sagração episcopal, ou até mesmo ao seu ministério petrino (a história registra, infelizmente, não poucos casos de Papas que deram grande escândalo). E isso porque a santidade da Igreja provém da sua condição de Corpo Místico de Cristo. Basta, portanto, que um “pequeno rebanho” (Lc 12, 32-34) permaneça inteiramente fiel aos ensinamentos de Nosso Senhor em meio à corrupção geral – como já aconteceu, por exemplo, nos séculos IV e XI –, para que a Igreja não só permaneça santa, mas cresça ainda em graça e santidade, como o Divino Mestre na sua vida terrena.

Nas aparições de 1848, Nossa Senhora afirmou em La Salette que os sacerdotes tinham se tornado cloacas de impureza. Peçamos a Ela o envio de almas generosas, que dia e noite implorem misericórdia e perdão para o povo, a fim de que Deus se reconcilie com os homens e Jesus Cristo seja novamente servido, adorado e glorificado.
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1 comentário

José Antonio Rocha
28 de Fevereiro de 2019

Amém. Os escravos de satanás não vencerão. Não tenhamos medo. Deus é mais forte que todo o mal. Jesus Cristo venceu o mundo, a morte e o pecado. O imaculado coração da Virgem Maria triunfará. Amém.


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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

ITABUNA CENTENÁRIA REFLETINDO: Máscaras – Gilberto Lazan


Cada vez que ponho uma máscara para esconder minha realidade, fingindo ser o que não sou, faço-o para atrair o outro... E logo descubro que só atraio a outros mascarados, distanciando-me dos outros devido a um estorvo: A Máscara.

Faço-o para evitar que os outros vejam minhas debilidades... E logo descubro que  ao não verem minha humanidade, os outros não podem me querer pelo que sou... senão pela Máscara.

Faço-o para preservar minhas amizades, e logo descubro que, quando perco um amigo por ter sido autêntico, realmente não era meu amigo... E sim, amigo da Máscara que eu usava.

Faço-o para evitar ofender alguém, e ser diplomático, e logo descubro que aquilo que mais ofende às pessoas das quais quero ser mais íntimo... É a Máscara.

Faço-o convencido de que é melhor que posso fazer para ser amado, e logo descubro o triste paradoxo... O que mais desejo obter com minhas Máscaras, é precisamente o que não consigo com elas.


"Gotas de Crystal" <gotasdecrystal@gmail.com>

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