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terça-feira, 29 de maio de 2018

DESALENTADOS E MULTIRRACIAIS - Ana Maria Machado


Artigo em jornal, na página de opinião, tem compromisso com fatos, notícias e acontecimentos. Ao menos, para refletir e analisá-los. É diferente de literatura. Nessa, a primazia absoluta é da linguagem, na exploração de suas possibilidades, para revelar seu poder latente na busca de sentido de se estar no mundo. Ou o encantamento e os impasses da dor diante dele. Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta maior, já ensinou: “Não faças versos sobre acontecimentos./ Não há criação nem morte perante a poesia.”

É nas palavras que a poesia vai buscar sua força e poder. Sugere ainda o poeta: “Chega mais perto e contempla as palavras./ Cada uma/ tem mil faces secretas sob a face neutra.”

Mas jornal se faz com fatos. E eles se distribuem por todos os assuntos do mundo e do nosso tempo. Vão das dificuldades geradas pelo preço de combustíveis e protestos dos caminhoneiros à festa do casamento real em Windsor. Da revelação de novas frentes de corrupção no INSS ou na merenda escolar à escalada irrefreável da violência — da Rocinha à Cidade Universitária, da execução de Marielle Franco ao bebê baleado no colo da mãe. Fatos que parecem isolados se arrumam em constelações que lhes dão novos significados. Passam da pré-campanha eleitoral e das idas e vindas de recursos e embargos nos tribunais à divulgação dos mais recentes dados numéricos. Volta e meia, nesse processo, exigem palavras novas.

E elas surgem. Às vezes, em modismos artificiais, “lacrando” agora e destinados a durar pouco. Outras, na rica e original criação popular de potência duradoura. Os meios acadêmicos volta e meia trazem ou tentam impor artificialismos como “empoderamento” — criticado por tantos ouvidos sensíveis e já acusado de ser um “embutido” vocabular ou perversão linguística.

Estes últimos dias nos brindaram com duas contribuições interessantes nesse terreno de reapropriação léxica. Novas faces secretas reveladas sob a face neutra de que falava o poeta, de vocábulos “sós e mudos/ em estado de dicionário.”

Uma delas veio de um órgão que costumamos associar a números e não às letras. Rapidamente ganhou colunas de analistas e relatórios de economistas. Mas já o poeta ensinara que “sob a pele das palavras há cifras e códigos”. O IBGE amplifica o sentido de “desalentados” e mostra que, em quatro anos, subiu quase 200% o número de brasileiros que desistiram de procurar emprego porque chegaram à conclusão de que não vão mesmo encontrar nada. Dentro do estarrecedor descalabro nacional — com seu jovem e crescente contingente nem-nem, que nem estuda nem trabalha —, ganha visibilidade e nome uma imensa parcela de nossa população. É urgente buscarmos saídas racionais, num debate adulto, que não escamoteie os dados e fatos da realidade, nem fique tentando disfarçá-la com retórica oportunista e vazia, cuja única serventia talvez seja adiar soluções necessárias e perpetuar benefícios ou privilégios de quem tem poder.

Outra boa palavra surgida agora, a fazer pensar, brotou na cobertura do casamento na família real britânica. A noiva não se contenta em ser classificada como afrodescendente ou negra, como aconteceu com Barack Obama ao assumir a Presidência americana há alguns anos — sempre a inutilmente tentar lembrar que sua mãe era branca e seu pai, africano. Mezzo a mezzo... A nova duquesa de Sussex, intensamente ciente de cada indício simbólico nos mínimos detalhes da cerimônia, faz questão de se identificar como “birracial”, assumindo a mistura afro-caucasiana. No Brasil, talvez “multirracial” seja uma palavra mais verdadeira para nos descrever, ao incorporar indígenas — sem mistificação, como ainda Drummond aconselhava a recebermos as ordens da vida.

Já abandonamos o rico termo “favela” por “comunidade”, palavra que acentua laços importantes e força coletiva, mas traz perdas conceituais, ao relegar ao esquecimento uma série de conquistas culturais e um tecido histórico substancial, em prol de terminologia mais abstrata, mais ligada a uma classificação de capilaridade social americana. Já estamos fazendo campanhas para substituir a palavra “escravo” por “escravizado”, como se o número maior de sílabas e o aspecto de particípio passado, ao se afastar do substantivo concreto, mudasse o horror, o sofrimento e a vergonha do sistema escravocrata que nos fez como país e a que foram submetidos povos inteiros no correr da História. E assim seguimos, mesmo desalentados e multirraciais, a patrulhar palavras, discutindo o supérfluo e acessório, e deixando de encarar o essencial.

Pode parecer uma bobagem, mas acho que, se conseguirmos nos pensar como birraciais e multirraciais, estaremos mais próximos de ver quem somos e entender o imenso valor que tem essa identidade, os caminhos que ela pode nos abrir em meio às dobras do racismo persistente. Mais uma vez, com Drummond, podemos constatar que há calma e frescura na superfície intacta das palavras. “Com seu poder de palavra/ e seu poder de silêncio”.

O Globo, 26/05/2018

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Ana Maria Machado - Sexta ocupante da Cadeira nº 1 da ABL, eleita em 24 de abril de 2003, na sucessão de Evandro Lins e Silva e recebida em 29 de agosto de 2003 pelo acadêmico Tarcísio Padilha. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 2012 e 2013.

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TRÊS GRANDES PERDAS – Rodrigo Constantino


25/maio/18
No espaço de poucos dias tivemos três grandes perdas. No dia 14, morreu o escritor Tom Wolfe. Seu refinamento, visão conservadora e elegância, além da forma como retratava a hipocrisia e vaidade das elites “progressistas”, deixarão saudades. Seu radical chic foi influência direta em meu Esquerda Caviar, enquanto seus divertidos ataques aos modismos da “arte contemporânea me renderam boas risadas.

Um de seus últimos livros, Sangue nas Veias fala do caldeirão étnico e cultural repleto de latino-americanos e com poucos americanos “legítimos” em Miami. Morando há três anos nesse ambiente, tenho que constatar que Tom Wolfe é cruel na medida certa com nossas elites vaidosas e abobalhadas. Mesmo com todas as suas qualidades, de “América Latina que deu certo”, convenhamos: Miami, com uma das maiores quantidades de “breguice” por metro quadrado, é um prato cheio para o autor tripudiar dessa classe de nouveau riche, não é mesmo?

A segunda grande perda foi do historiador Richard Pipes, que faleceu no dia 17. Sua especialidade era a história russa, e isso lhe deu uma visão privilegiada do comunismo. Em Propriedade e Liberdade, Pipes resume bem o problema: “A história da Rússia oferece um excelente exemplo do papel que a propriedade desempenha no desenvolvimento dos direitos civis e políticos, demonstrando como a sua ausência torna possível a manutenção de um governo arbitrário e despótico”. Abolir a propriedade privada? Eis o caminho do inferno!

Richard Pipes conclui que “a experiência da Rússia indica que a liberdade não pode ser legislada; ela precisa crescer gradualmente, em forte associação com a propriedade e a lei”. Infelizmente para os russos, a propriedade privada nunca fincou suas raízes por lá, onde o poder sempre esteve arbitrariamente concentrado no Estado. Parece um país que conhecemos bem.

Por fim, morreu no dia 23 o escritor Philip Roth. Gosto muito de seu estilo, da força de suas palavras, sempre econômicas. Também sou atravessado pelo tema recorrente de seus livros: o poder de estrago do imprevisível, a mudança repentina na vida das pessoas por acontecimentos inesperados, o encontro com o “real”, como diria um psicanalista, as contingências do destino. Tudo parece certinho, ordenado, bem ao gosto de um típico obsessivo, quando de repente o mundo desaba, o chão desaparece, tudo fica nebuloso. É angustiante. Mas é realista. É a vida.

E por isso mesmo temos que valorizar a nossa, reconhecendo, com humildade, que não estamos em seu total controle, e que a precariedade de nossa existência é a norma, o que nos demanda coragem e fé. A morte, afinal, chega para todos, e quase sempre sem aviso. Importa, porém, aquilo que fica. No caso desses três gigantes, uma incrível obra como legado.


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segunda-feira, 28 de maio de 2018

UMA INVASÃO SILENCIOSA - Emmanuel


Uma invasão silenciosa


 "Na superfície da Terra, exatamente agora, há guerras e violência e tudo parece negro.

Mas, simultaneamente,  algo silencioso, calmo e oculto está acontecendo e certas pessoas estão sendo chamadas por uma Luz mais elevada.

Uma revolução silenciosa está se instalando de dentro para fora. De baixo para cima.

É uma operação global. Uma conspiração espiritual.

Há células dessa operação em cada nação do planeta.

Vocês não vão nos assistir na TV, nem ouvir nossas palavras nos rádios e nem ler sobre nós nos jornais. 

Não buscamos a glória. Não usamos uniformes.

Nós chegamos em diversas formas e tamanhos diferentes.

Temos costumes e cores diferentes. 

A maioria trabalha anonimamente.

Silenciosamente trabalhamos fora de cena, em cada cultura  e lugar do mundo. Nas grandes e pequenas cidades, em suas montanhas e vales. Nas fazendas, vilas, tribos e ilhas remotas. Você talvez cruze conosco nas ruas. E nem perceba...

Seguimos disfarçados. Ficamos atrás da cena. E não nos importamos com quem ganha os louros do resultado, e sim, que se realize o trabalho.

De vez em quando nos encontramos pelas ruas. Trocamos olhares de reconhecimento e seguimos nosso caminho.

Durante o dia muitos se disfarçam em seus empregos normais. Mas a noite, por trás de nossas aparências, o verdadeiro trabalho se inicia.

Alguns que conhecem o trabalho nos chamam de "O Exército da Consciência".

Lentamente estamos construindo um novo mundo, com o poder de nossos corações e mentes. 

Seguimos com alegria e paixão.  Nossas ordens nos chegam da Inteligência Espiritual e Central. 

Estamos jogando bombas suaves de amor sem que ninguém note: poemas, abraços, músicas, fotos, filmes, palavras carinhosas,  meditações e preces , danças, ativismo social, sites , blogs, atos de bondades. O mundo precisa de amor!

Expressamo-nos de uma forma única e pessoal,  com nossos talentos e dons. Sendo a mudança que queremos ver no mundo. Essa é a força que move nossos corações. 

Sabemos que essa é a única forma de conseguir realizar a transformação. 

Sabemos que no silêncio e humildade teremos o poder de todos os oceanos juntos.

Nosso trabalho é lento e meticuloso.  Como na formação das montanhas. 

O amor será a religião do século XXI.  Sem pré-requisitos de grau de educação.  Sem requisitar um conhecimento excepcional para a sua compreensão. 

Porque nasce da inteligência do coração, escondida pela eternidade no pulso evolucionário de todo ser humano.

Seja a mudança que quer ver acontecer no mundo. Ninguém pode fazer esse trabalho por você.

Nós estamos recrutando. Talvez você se junte a nós ou talvez já tenha se unido.

Todos são bem-vindos. A porta está aberta!

Emmanuel"

Recebi via WhatsApp)

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domingo, 27 de maio de 2018

OS SONHOS - Ariston Caldas


Os sonhos

“Qual a origem dos sonhos? Coisa do espírito ou cópia do que vemos acordados?”.

Indagava-se assim preocupado com uns sonhos, noites a fio,  com Zulmira, vizinha separada do marido. Vinte e cinco janeiros, como a própria gostava de dizer referindo-se à sua idade.

            Ora, ele a via muitas vezes todo dia – quando saía para o trabalho, na volta, à noite, na janela, sentada no passeio, perneando pela vizinhança. Uma estampa de um metro e setenta, seios robustos,  pernas conformes,  corpo esbelto;  de rosto, uma travessura. Para ele, tudo assim espetacular.

            Dera de vista com Zulmira ainda no tempo do marido. “Mulher porreta!”. Teria pensado de olho duro para a moça que nem se dera conta do espanto dele. Viam-se, depois, vez em quando, um passando pelo outro, ela de braço dado com o marido, escurinho sisudo, bem vestido, de óculos e chapéu. O que mais o impressionava agora eram os sonhos com Zulmira, toda noite entre paisagens, lugares desconhecidos, carinho e intimidade.

            Havia lido num autor russo que o sonho é obra do córtex, membrana superficial do cérebro que grava tudo o que vemos, com maior ou menor intensidade – paisagens, pessoas e objetos, mesmo através de TV, foto, cinema.

            Lembrava que via Zulmira todo dia. Não via também, outras pessoas? Por que sonhava somente com ela? Um mistério.

            Agora, bem que podia sonhar à vontade, pois Zulmira estava solteira, desimpedida. Pensou fazer-lhe uma proposta escrita, antes mesmo dela esfriar a cabeça por causa da separação.  Fez-lhe um bilhete, letra tremida, palavras açucaradas sugerindo um encontro, tal lugar, às tantas horas. Assinou embaixo, nome completo para evitar dúvidas.

            Passou a noite sem pregar um olho, nem madorna para os sonhos, nervoso entre perspectivas. Sim ou não? Lembrava-se dos sonhos, dos cenários em que Zulmira devera haver-se gravado toda em seu córtex. Por que nos sonhos ela o tratava com tanta intimidade? Na vida real não ocorria assim, era Zulmira alheia, mesmo agora sozinha, sem o marido escurinho chamado Marcelo, parece que da Silva, ciumento, de óculos e chapéu, caixa de um banco. Tinha remota esperança de uma resposta, sim ou não? Confiava no ímã que acreditava ter sobre as mulheres.

            À noite, quando voltava da rua, passava rente à casa de Zulmira, via as vidraças de uma janela larga refletindo a claridade. “Deve estar acordada, certamente assistindo televisão ou lendo revista, de roupa íntima para dormir”. Lembrava novamente dos sonhos, sentia um desejo feroz pela mulher. Será que o bilhete teria resposta? E se o mesmo não fora entregue! A portadora, mulatinha de sua intimidade, era uma menina séria.

            Passaram-se três dias sem resposta e sem os sonhos com Zulmira. O seu córtex estaria cansado de expectativa. Ela estaria preocupada com a separação. Como dizem que tudo tem dia certo, a resposta chegou. Quase uns rabiscos: “Quando voltar passe por aqui. A porta estará encostada”.

            Nem acreditou, leu outra vez, repetiu. Zulmira, agora, podia decidir o que quisesse, era uma mulher desimpedida. Se satisfação endoidasse, ele ficaria maluco. Quase voltava da rua antes do horário de costume, ponderou e decidiu-se pela hora normal de chegar em casa.

            Noitinha aproximou-se da residência de Zulmira, subiu à calçada, chegou rente à porta somente encostada, empurrando-a, sutil, trêmulo, quase com medo, obcecado, e entrou.

            Agora, frente a frente com Zulmira, sem saber como iniciar conversa ante a mulher de seus sonhos. “Pronto, meu amor”, falou assim, abafado, olho duro para ela de risinho frio, certamente surpresa com a aparecença dele, coisa de gente aventureira. Diálogo curto, olhares de banda, interrogativos. A cama agora seria o destino. O quarto, estranho para ele, turvo, diferente dos cenários dos sonhos; televisor ligado, pisca-pisca refletindo nas paredes.

            Depois, o cheiro do corpo  de Zulmira, diferente do perfume imaginado nos sonhos. As mãos dela, agora, nem eram macias e, finalmente, a frieza entre os dois.

            Na primeira tentativa ele falhou inibido com a inquietação dela, com a respiração apressada, desajeito nos movimentos. Sentiu-se sufocado, calor subindo, nervos esticados. Relutou até às tantas, inutilmente. Saiu cabisbaixo, quase pedindo desculpa, certo que não era aquela a Zulmira gravada em seu córtex.

            Na noite seguinte os sonhos voltaram, devolvendo-lhe a felicidade. Extravasou-se por inteiro, realizando tudo o que não conseguira ao vivo deitado com Zulmira.


(LINHAS INTERCALADAS – 2ª Edição 2004)
Ariston Caldas

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O MARTÍRIO PROLONGADO DOS VENEZUELANOS - Péricles Capanema


27 de Maio de 2018

Péricles Capanema
Foram divulgados os números finais da pantomina eleitoral da Venezuela, reeleito o boçal ditador Nicolás Maduro [na foto ao lado, votando em si mesmo] com quase 70% dos votos válidos, participação de 46% do eleitorado, fraude e intimidação generalizadas. Na tragédia, tem culpa o governo brasileiro. O chavismo medrou no país vizinho com dinheiro da Odebrecht (de fato, propina decorrente de contratos superfaturados), marqueteiros ligados ao PT e patrocínio de Lula e Dilma.

Estivesse o PT ainda no poder, Brasília seria um dos apoios vergonhosos da situação venezuelana. Com efeito, a reeleição vem sendo celebrada pelas linhas auxiliares do PT, como PC do B, entre os partidos, e Guilherme Boulos, entre os políticos. O PC do B em nota intitulada “Vitória retumbante do povo venezuelano” trombeteou: “O Partido Comunista do Brasil regozija-se com o povo venezuelano, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), o Partido Comunista da Venezuela (PCV) e demais forças políticas que comandaram a batalha”. Boulos, o candidato do PSOL à Presidência, apoiado entre outros por frei Beto, declarou: “Maduro foi eleito democraticamente, Cuba não é ditadura e impeachment foi golpe”.

Além da satisfação da esquerda brasileira, por vezes evidenciada em silêncio revelador, em outras ocasiões com desfaçatez ruidosa, na América Latina não faltou a Maduro o esperado endosso enfático de Cuba e Bolívia. Em resumo, Maduro tem esteios fortes na América Latina. Na cena internacional, o Irã, a China e a Rússia defenderam a farsa venezuelana.

Interessam especialmente Rússia e China. São os dois grandes apoios à tirania chavista. Sem eles, dificilmente Maduro se manteria no poder. O governo de Vladimir Putin atacou a oposição proveniente do exterior: “Lamentamos que nessas eleições, além dos dois tradicionais participantes — o povo e os candidatos — existiu também um terceiro participante: os governos que abertamente pediram boicote ao voto”, declarou Alexander Schetinin, diretor do Departamento de América Latina da chancelaria russa. Com descaramento completou: “As eleições foram realizadas e o resultado tem caráter irreversível: dois terços dos votos foram para Nicolás Maduro”. Esconde escandalosamente a fraude, a pressão do aparato chavista, o garrote aos opositores.

A China foi na mesma direção: “As partes envolvidas devem respeitar a decisão do povo venezuelano”, disse o porta-voz da chancelaria chinesa, Lu Kang. Para Pequim, disputas sobre o resultado devem ser resolvidas nos tribunais. Deixa de lado o fato óbvio: os tribunais foram transformados em marionetes do chavismo.

É um passo a mais da descarada e inescrupulosa ingerência russa e chinesa nos negócios da América Latina. Daqui a algum tempo vai ficar patente a ainda agora secreta contrapartida recebida — nesses meses de isolamento venezuelano —, por russos e chineses em troca de tal apoio. Com toda probabilidade, lastreadas em contratos, promessas de gigantescas vantagens relacionadas com a exploração do petróleo. A Venezuela detém as maiores reservas provadas do mundo. Para comparação, segundo dados recentes, tem 297 bilhões de barris, a Rússia, 60 bilhões, a China, 16 bilhões. O Brasil, 25 bilhões. (1 barril equivale a 159 litros). A aliança disfarçada, mas efetiva, com Rússia e China dá sobrevida a um governo cujo coletivismo delirante [o chamado socialismo do século XXI] destruiu o país. É rota de maus auspícios, no fim dela a Venezuela despencará para a condição de protetorado inconfessado.

Médicos venezuelanos protestando, pois os pacientes morrem em hospitais por falta de medicamentos

Generalizada e enérgica tem sido a reação oficial ao regime venezuelano. Foi tão ampla a repulsa aos métodos chavistas, que a oposição inclui importantes políticos socialistas, como Felipe González e Ricardo Lagos, cuja inércia escandalizaria seguidores seus. Por exemplo, em documento também firmado pelos dois, 23 ex-presidentes e ex-primeiros-ministros ibero-americanos apelam à comunidade internacional para que não reconheça a “farsa eleitoral” na Venezuela. Pedem ainda que os países chamem seus embaixadores, aumentem sanções, congelem ativos provenientes do crime e da corrupção do governo. Reclamam a seguir a suspensão da Venezuela da OEA, sugerem que Estados membros do Estatuto de Roma levem à Corte Penal Internacional o relatório sobre os crimes de lesa-humanidade da ditadura de Nicolás Maduro preparado pela Secretaria Geral da OEA. Denunciam ainda “sequelas de mortos pela violência criminosa desbordada, fome, migração maciça, endividamento ilimitado, falência, hiperinflação, fatos sem paralelos e sem precedentes na história do mundo”.
Lech Walesa, ex-presidente da Polônia foi mais duro: “A Venezuela está sequestrada por um grupo de neotraficantes e terroristas. Mais cedo ou mais tarde será preciso uma intervenção de forças coligadas para preservar a paz na região”.

Estados Unidos, União Europeia, países da América Latina tomaram medidas severas contra o governo venezuelano. Mike Pence, vice-presidente dos Estados Unidos, em nota oficial afirmou: “A eleição na Venezuela foi uma impostura. O resultado ilegítimo deste processo fraudulento é um novo golpe contra a altiva tradição democrática da Venezuela. Todos os dias milhares de venezuelanos fogem da opressão brutal e da torturante pobreza”.

14000% é a inflação estimada em 2018. Queda estimada do PIB em 2018, 15%, quinto ano de recessão. Por que não cai o regime? Deixo de lado a reação internacional, poderia ser mais efetiva.
Lembro outros fatores, a brutal repressão interna inspirada por agentes do serviço secreto cubano, vantagens escandalosas conferidas ao alto oficialato das Forças Armadas (forma de compra e chantagem) e o apoio da China e da Rússia. Importa sobretudo agora ter em vista o último ponto, atalho para a servidão. Antecipa situações que outros países da América Latina poderão viver. O Brasil também poderá passar por um martírio prolongado, caminhamos na beira do abismo.


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PALAVRA DA SALVAÇÃO (80)


Solenidade da Santíssima Trindade – Domingo, 27/05/2018


Anúncio do Evangelho (Mt 28,16-20)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado.
Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram. Então Jesus aproximou-se e falou: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Paulo Ricardo:
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Trindade: "Deus é plural"

“...batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19)

A Igreja celebra, neste domingo, a Festa da Trindade, cume e compêndio de todas as festas do ano: do Deus que é Pai, é Filho e é Espírito.

Assim, a festa de hoje vem plenificar o tempo pascal, como uma espécie de “síntese”. Síntese, não intelectual, mas “misterial”, ou seja, celebração de nossa participação no fluxo amoroso das pessoas divinas; pois a  SS.  Trindade não é uma questão especulativa, é, sobretudo, uma experiência de um Deus amoroso.

A liturgia nos convoca a viver a experiência do Deus “comunhão de Pessoas”; para isso, ela nos convida a fazer uma viagem ao interior de Deus, como vida de amor que se revela na história da humanidade, vida entendida como Pai, Filho e Espírito Santo.

A imensa maioria dos cristãos não sabe que, ao adorar a Deus como Trindade, está confessando que Deus, em sua intimidade mais profunda, é só amor, acolhida, ternura, misericórdia. Essa viagem ao coração da Trindade culmina na grande comunhão humana, pois o Deus Pai, Filho e Espírito integra no amor todos os povos da terra. Dessa forma, a viagem ao interior de Deus se converte em movimento ao exterior, no encontro expansivo com todos os homens e mulheres. Quanto mais mergulhemos em Deus, comunidade de Amor, mais poderemos expandir-nos em solidariedade, amor e justiça para com todas as pessoas, porque o interior de Deus é princípio de reconciliação e unidade (na diversidade) de todos os povos e raças do mundo.

Foi-nos dito que o dogma da Trindade é o mais importante de nossa fé católica; no entanto, a imensa maioria dos cristãos não consegue compreender o que ele quer dizer. Com a Trindade, nós cristãos não queremos “multiplicar” Deus. O que queremos é expressar a experiência singular de que Deus é comunhão e não solidão. “No princípio está a comunhão dos TRÊS e não a solidão do UM” (L. Boff).

Aproximar-nos do Deus de Jesus é descobrir a Trindade. E em cada um de nós a Trindade deixa-se refletir. Nossa vida deveria ser um espelho que em todo momento refletisse o mistério da Trindade. O grande ensinamento da Trindade é que só vivemos, se convivemos.

Viver a experiência do Deus Trino implica saber com-viver; fomos feitos para o encontro e a comunicação. Estamos, portanto, falando de uma única realidade que é relação. Deus-Trindade é a relacionalidade por excelência; Deus só existe como ser em relação; Deus é só relação, porque Deus é so amor. “No princípio está a relação” (G. Bachelard). E sendo Deus essencialmente relação, não poderia permanecer fechado n’Ele mesmo;  num gesto de pura gratuidade,  essa relação se manifesta como transbordamento de vida, chamando toda a Criação à existência  e convidando a  humanidade a entrar no fluxo dessa relação trinitária.

Mas, para nos aproximar do Deus comunhão de Pessoas, temos de superar o ídolo ao qual nos apegamos. Sim, o “falso deus” identificado com um ser poderoso que se manifesta como um déspota, um tirano destruidor, um ditador arbitrário; um ser onipotente que ameaça nossa pequena e limitada liberdade. É muito difícil abandonar-nos a alguém infinitamente poderoso. Parece mais fácil desconfiar, ser cautelosos e salvaguardar nossa independência.

Mas Deus Trindade é um mistério de Amor. E sua onipotência é a onipotência de quem só é amor, ternura insondável e infinita. É o amor de Deus que é onipotente. E sempre que esquecemos isso e saímos do fluxo do amor, nós fabricamos um Deus falso, uma espécie de ídolo que não existe. A Trindade não é uma verdade para crer mas uma presença a ser acolhida, uma experiência a ser vivida.
Uma profunda experiência da mensagem cristã será sempre uma aproximação ao mistério Trinitário.

A festa da Trindade deve nos libertar do “Deus Ser todo poderoso” e empapar-nos do Deus Ágape que nos identifica com Ele. A imagem do “Deus todo poderoso” não expressa bem a experiência do “Deus trino”. Deus é amor e só amor. Só na medida que amemos, poderemos conhecer a Deus. Esta é talvez a conversão que muitos cristãos mais precisam: fazer a passagem de um Deus considerado como Poder a um Deus adorado alegremente como Amor.

Felizes aqueles que descobrem que a Trindade não é um mistério incompreensível, mas a cotidiana experiência do Amor, a partir de uma vida encarnada em nossa história, com um respiro, um ânimo e uma paixão especial por continuar vivendo cada dia com os mesmos sentimentos de Jesus, junto a tantas pessoas que trabalham por outro mundo mais fraterno, justo e solidário. A Trindade é o espelho que nos mostra como devemos ser e viver à luz da “melhor Comunidade”.

Ora, tal Mistério fonte de todo ser, constitui o modelo ideal de todo e qualquer convívio humano. Somos feitos à “imagem e semelhança da Trindade”.  Trazemos em nós impulsos de comunhão. Sempre que construirmos relações pessoais e sociais que facilitem a circulação da vida, a comunhão de diferentes à base da igualdade, estaremos tornando visível um pouco do mistério íntimo de Deus.

Deus quer inserir-nos nesta sua comunhão eterna, como no-lo disse Jesus: “Que todos sejam um como Tu, Pai, estás em mim, e eu em Ti. Que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que Tu me enviaste”  (Jo. 17,21).

Portanto, Trindade é a glória de Deus que se expressa na vida da humanidade; é o Amor mútuo, a comunhão pessoal, de Palavra (Filho) e de Afeto (Espírito Santo) que sustenta as relações entre os seres humanos. Assim é a Trindade na terra: quando todos compartilham a vida e se amam. Não crê na Trindade quem simplesmente professa que há “em Deus três pessoas”, ou quem faz mecanicamente o sinal da Cruz, mas aquele que vive o impulso e a expansão do Amor Redentor, que se expressa como compaixão, reconciliação e compromisso. Crer na Trindade é amar de um modo ativo, como dizia S. Agostinho. Contempla-se a Trindade ali onde nos amamos e nos comprometemos com a libertação do próximo. Estamos envolvidos pelo mesmo movimento do Amor sem fim que parte do Pai, passa pelo filho e se consuma no Espírito. Só quem tem coração solidário adora um Deus Trinitário, pois no compromisso libertador torna-se visível a presença trinitária.

Texto bíblico:  Mt 28,16-20

Na oração: Como homem e como mulher trazemos uma força interior que nos faz “sair de nós mesmos” e criar laços, construir fraternidade, fortalecer a comunhão.
Fomos criados “à imagem e semelhança” do Deus Trindade, comunhão de Pessoas. (Pai-Filho-Espírito Santo). Quanto mais unidos somos, por causa do amor que circula entre nós, mais nos parecemos com o Deus Trindade.

- Em quê aspectos concretos de sua vida se manifesta o mistério do Deus trinitário como amor e vida?

- Como poderia abrir-se mais à ação do Espírito da Verdade em sua vida, para que o(a) leve a um conhecimento existencial e atualizado do Evangelho de Jesus?

- Com quais iniciativas concretas você poderia contar para que sua comunidade cristã seja cada dia mais imagem da comunidade de amor infinito que é a Trindade divina?

- Quais diferenças estão criando divisões e intolerâncias em sua comunidade? Quais elementos da vida comunitária são fatores de união, fazendo-os crescer como irmãos(ãs) e fortalecendo a missão evangelizadora?

- Sua comunidade é sinal e instrumento de salvação de Deus Trindade, através da iniciativa do amor (Pai), da entrega radical (Filho) e da abertura à novidade dos caminhos de Deus (Espírito)?

Pe. Adroaldo Palaoro sj

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sábado, 26 de maio de 2018

A CAMINHO DO BREJO – Cora Ronái


A sociedade dá de ombros, vencida pela inércia.

Um país não vai para o brejo de um momento para o outro — como se viesse andando na estradinha, qual vaca, cruzasse uma cancela e, de repente, saísse do barro firme e embrenhasse pela lama.

Um país vai para o brejo aos poucos, construindo a sua desgraça ponto por ponto, um tanto de corrupção aqui, um tanto de demagogia ali, safadeza e impunidade de mãos dadas.

Há sinais constantes de perigo, há abundantes evidências de crime por toda a parte, mas a sociedade dá de ombros, vencida pela inércia e pela audácia dos canalhas.

Aquelas alegres viagens do então governador Sérgio Cabral, por exemplo, aquele constante ir e vir de helicópteros. Aquela paixão do Lula pelos jatinhos. Aquelas comitivas imensas da Dilma, hospedando-se em hotéis de luxo. Aquele aeroporto do Aécio, tão bem localizado. Aqueles jantares do Cunha. Aqueles planos de saúde, aqueles auxílios moradia, aqueles carros oficiais. Aquelas frotas sempre renovadas, sem que se saiba direito o que acontece com as antigas. Aqueles votos secretos. Aquelas verbas para “exercício do mandato”. Aquelas obras que não acabam nunca. Aqueles estádios da Copa. Aqueles superfaturamentos.

Aquelas residências oficiais. Aquelas ajudas de custo. Aquelas aposentadorias. Aquelas vigas da perimetral. Aquelas diretorias da Petrobras.

A lista não acaba.

Um país vai para o brejo quando políticos lutam por cargos em secretarias e ministérios não porque tenham qualquer relação com a área, mas porque secretarias e ministérios têm verbas — e isso é noticiado como fato corriqueiro da vida pública.

Um país vai para o brejo quando representantes do povo deixam de ser povo assim que são eleitos, quando se criam castas intocáveis no serviço público, quando esses brâmanes acreditam que não precisam prestar contas a ninguém — e isso é aceito como normal por todo mundo.

Um país vai para o brejo quando as suas escolas e os seus hospitais públicos são igualmente ruins, e quando os seus cidadãos perdem a segurança para andar nas ruas, seja por medo de bandido, seja por medo de polícia.

Um país vai para o brejo quando não protege os seus cidadãos, não paga aos seus servidores, esfola quem tem contracheque e dá isenção fiscal a quem não precisa.

Um país vai para o brejo quando os seus poderosos têm direito a foro privilegiado.

Um país vai para o brejo quando se divide, e quando os seus habitantes passam a se odiar uns aos outros; um país vai para o brejo quando despenca nos índices de educação, mas a sua população nem repara porque está muito ocupada se ofendendo mutuamente nas redes sociais.

Enquanto isso tem gente nas ruas estourando fogos pelos times de futebol!



Cora Tausz Rónai é jornalista, escritora e fotógrafa brasileira.

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