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domingo, 27 de maio de 2018

OS SONHOS - Ariston Caldas


Os sonhos

“Qual a origem dos sonhos? Coisa do espírito ou cópia do que vemos acordados?”.

Indagava-se assim preocupado com uns sonhos, noites a fio,  com Zulmira, vizinha separada do marido. Vinte e cinco janeiros, como a própria gostava de dizer referindo-se à sua idade.

            Ora, ele a via muitas vezes todo dia – quando saía para o trabalho, na volta, à noite, na janela, sentada no passeio, perneando pela vizinhança. Uma estampa de um metro e setenta, seios robustos,  pernas conformes,  corpo esbelto;  de rosto, uma travessura. Para ele, tudo assim espetacular.

            Dera de vista com Zulmira ainda no tempo do marido. “Mulher porreta!”. Teria pensado de olho duro para a moça que nem se dera conta do espanto dele. Viam-se, depois, vez em quando, um passando pelo outro, ela de braço dado com o marido, escurinho sisudo, bem vestido, de óculos e chapéu. O que mais o impressionava agora eram os sonhos com Zulmira, toda noite entre paisagens, lugares desconhecidos, carinho e intimidade.

            Havia lido num autor russo que o sonho é obra do córtex, membrana superficial do cérebro que grava tudo o que vemos, com maior ou menor intensidade – paisagens, pessoas e objetos, mesmo através de TV, foto, cinema.

            Lembrava que via Zulmira todo dia. Não via também, outras pessoas? Por que sonhava somente com ela? Um mistério.

            Agora, bem que podia sonhar à vontade, pois Zulmira estava solteira, desimpedida. Pensou fazer-lhe uma proposta escrita, antes mesmo dela esfriar a cabeça por causa da separação.  Fez-lhe um bilhete, letra tremida, palavras açucaradas sugerindo um encontro, tal lugar, às tantas horas. Assinou embaixo, nome completo para evitar dúvidas.

            Passou a noite sem pregar um olho, nem madorna para os sonhos, nervoso entre perspectivas. Sim ou não? Lembrava-se dos sonhos, dos cenários em que Zulmira devera haver-se gravado toda em seu córtex. Por que nos sonhos ela o tratava com tanta intimidade? Na vida real não ocorria assim, era Zulmira alheia, mesmo agora sozinha, sem o marido escurinho chamado Marcelo, parece que da Silva, ciumento, de óculos e chapéu, caixa de um banco. Tinha remota esperança de uma resposta, sim ou não? Confiava no ímã que acreditava ter sobre as mulheres.

            À noite, quando voltava da rua, passava rente à casa de Zulmira, via as vidraças de uma janela larga refletindo a claridade. “Deve estar acordada, certamente assistindo televisão ou lendo revista, de roupa íntima para dormir”. Lembrava novamente dos sonhos, sentia um desejo feroz pela mulher. Será que o bilhete teria resposta? E se o mesmo não fora entregue! A portadora, mulatinha de sua intimidade, era uma menina séria.

            Passaram-se três dias sem resposta e sem os sonhos com Zulmira. O seu córtex estaria cansado de expectativa. Ela estaria preocupada com a separação. Como dizem que tudo tem dia certo, a resposta chegou. Quase uns rabiscos: “Quando voltar passe por aqui. A porta estará encostada”.

            Nem acreditou, leu outra vez, repetiu. Zulmira, agora, podia decidir o que quisesse, era uma mulher desimpedida. Se satisfação endoidasse, ele ficaria maluco. Quase voltava da rua antes do horário de costume, ponderou e decidiu-se pela hora normal de chegar em casa.

            Noitinha aproximou-se da residência de Zulmira, subiu à calçada, chegou rente à porta somente encostada, empurrando-a, sutil, trêmulo, quase com medo, obcecado, e entrou.

            Agora, frente a frente com Zulmira, sem saber como iniciar conversa ante a mulher de seus sonhos. “Pronto, meu amor”, falou assim, abafado, olho duro para ela de risinho frio, certamente surpresa com a aparecença dele, coisa de gente aventureira. Diálogo curto, olhares de banda, interrogativos. A cama agora seria o destino. O quarto, estranho para ele, turvo, diferente dos cenários dos sonhos; televisor ligado, pisca-pisca refletindo nas paredes.

            Depois, o cheiro do corpo  de Zulmira, diferente do perfume imaginado nos sonhos. As mãos dela, agora, nem eram macias e, finalmente, a frieza entre os dois.

            Na primeira tentativa ele falhou inibido com a inquietação dela, com a respiração apressada, desajeito nos movimentos. Sentiu-se sufocado, calor subindo, nervos esticados. Relutou até às tantas, inutilmente. Saiu cabisbaixo, quase pedindo desculpa, certo que não era aquela a Zulmira gravada em seu córtex.

            Na noite seguinte os sonhos voltaram, devolvendo-lhe a felicidade. Extravasou-se por inteiro, realizando tudo o que não conseguira ao vivo deitado com Zulmira.


(LINHAS INTERCALADAS – 2ª Edição 2004)
Ariston Caldas

* * *