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terça-feira, 15 de agosto de 2017

AVENTURAS DE UMA MENINA BOBA – Helena Borborema

Aventuras de uma menina boba


            A Rua Paulino Vieira mudou muito no seu aspecto com o passar dos anos. Continuando estreita e movimentada, teve, no entanto,  as fachadas de suas casas totalmente remodeladas, calçamento de pedra substituído por asfalto, fundos de casas transformados em lojas e, ultimamente, os passeios uniformizados. Ela já foi preferencialmente uma rua de residências, mas sem nunca deixar de ter movimento comercial. Antigamente, porém, o seu comércio era de feirantes, verdureiros e vendedores outros, que por ela passavam com suas mercadorias, oferecendo-as nas casas de família ou em direção à feira, nos dias de sábado. Por ela passavam também mercadores de carnes nos tabuleiros, carvoeiros, aguadeiros, leiteiros, padeiros, mascates e outros vendedores.

            Senhores importantes a palmilhavam diariamente, pois tinham ali suas residências.

            Por ocasião da safra do cacau, uma parte do seu trecho era tomada por uma grande tropa carregada de sacos do precioso produto, que era despejado num grande armazém do rico cacauicultor Oscar Marinho, também ali residente. A chegada da tropa na rua era uma festa para os meninos. Todos corriam para vê-la. A tropa era enorme. Os animais entravam na rua com a madrinha à frente, uma besta toda enfeitada de fitas de várias cores e um peitoral de metal reluzente tilintando pequenos sinos, indicando o caminho aos outros animais. Os tropeiros, ágeis e suarentos, iam logo descarregando os animais e transportando na cabeça os sacos para dentro do armazém, entulhando-o com a preciosa carga. Não havia empecilho para o trânsito de carros, pois esses ainda eram poucos na cidade.

            As casas da Paulino Vieira foram mudando com o tempo, as suas fachadas transformadas em vitrinas de lojas e butiques elegantes. Os feirantes e mercadores mudaram de caminho, pois as famílias foram saindo com a invasão das lojas. Nessa mudança para um comércio modernizado, algumas casas velhas foram demolidas para ceder lugar a novos prédios. No meio dessas demolições, lá se foi um sobradinho estreito, de um andar, que possuía no térreo um modesto restaurante, sempre aberto aos passantes. Em seu lugar foi erguido, anos depois, um prédio revestido de mármore, para funcionamento do Banco da Bahia, uma esquina entre a Paulino Vieira e a Avenida do Cinquentenário.

            Nesta rua eu, ainda bem menina, no primeiro ano primário, vinha do colégio trazendo na mão uma pasta com os livros e cadernos, após as aulas da manhã. O passeio do pequeno sobrado era o meu caminho diário. Vinha atenta às ordens de não parar no caminho, quando deparei um pequeno grupo de pessoas, talvez empregados ou comensais da pensão, fazendo um certo alvoroço com muitas risadas em torno de um amontoado de pequeninos bichos que se mexiam sem sair do lugar sobre o passeio. Aquilo despertou minha curiosidade que me deteve para perguntar que bichos eram aqueles que eu nunca tinha visto.

            - São  filhos de leão! -, respondeu alguém entre risadas.

            - Filhotes de leão? -, perguntei maravilhada.

            - Sim. Quer levar os três?

            - O senhor me dá?

            Já tinha visto leões no circo e nos livros, todos grandes, os pequeninos assim, miudinhos, nunca.

          Que coisa linda criar três leõezinhos, logo imaginei, brincar com eles e, quando estivessem mais crescidos, mansinhos, andar com eles em casa como se fossem três cachorrinhos! Era bom demais.

            A turma toda olhou para mim e, divertido, um dos homens disse: leve os três.

            Sem ter ideia do que fazia, pois só pensava no brinquedo que iam ser, prontamente, sem nojo, os peguei e os coloquei dentro da pasta, no meio dos cadernos, na maior alegria. Parti para casa feliz, mas logo caí em mim. E meus pais iam deixar que eu ficasse com aquele presente? Como iriam eles receber a novidade? O mais prudente  era mostrar depois do almoço, quando tudo estava mais calmo. Enquanto isso, era preciso guardar os três bichinhos até o momento que achasse bom. Mas onde guardar? Estava difícil encontrar um lugar onde ninguém descobrisse. Mas onde? Almocei quieta, dando tratos à bola. De repente, a ideia chegou. Já sei! Na gaveta do criado-mudo de minha mãe, peça colocada a um canto do quarto onde ela pouco mexia. Terminado o almoço, corri para a pasta escolar, peguei os bichinhos e os coloquei dentro da gaveta. E agora? Fiquei pensando, como alimentá-los? O que iriam eles comer? Valia a pena todo cuidado porque ficariam lindos quando crescessem mansinhos e eu pudesse brincar com eles.

            Fiquei sem entender o porquê do inesperado. Como pôde acontecer aquela coisa horrível que eu jamais pensara? Estava tudo calmo, eu esperando que meu pai saísse às duas horas, como fazia sempre, e minha mãe se ocupasse com alguma coisa, para eu poder, tranquilamente, olhar os meus três leõezinhos.

            Aguardava pacientemente a grande oportunidade, quando ouvi um grito partindo do quarto de minha mãe, a sua voz alterada, a chegada de uma empregada e uma enorme confusão. Três ratinhos recém-nascidos tinham sido encontrados. Como apareceram ali dentro daquela gaveta? Procurei me esconder, mas fui chamada às falas. Acho que a minha cara me denunciou ou alguma atitude suspeita me traiu. O certo é que o meu pai, que ainda não tinha saído, foi convocado, as empregadas se juntaram e eu, na maior vergonha de uma confissão pública, diante do interrogatório a que me submeteram, desembuchei toda a história. Como podia uma menina crescida, na escola, trocar filhos de ratos por leões, pegar naquela porcaria, receber coisas das mãos de estranhos, parar na rua desobedecendo ordens e trazer presente escondido para casa? Foi um rosário de culpas que minha mãe desfiou para mim, além de me mostrar o seu chinelo que iria funcionar na primeira ocasião que eu aprontasse outra armação.

            Além do conhecido chinelo, minha mãe tinha com frequência à mão, uma sola larga que ela mandava buscar na sapataria de seu Zé Gomes, que ficava perto de casa. Não adiantava eu dar sumiço na malfadada sola, porque seu Zé Gomes renovava sempre os pedidos feitos. Ele já sabia qual a finalidade, e parecia a mim que ele tinha prazer em atender os pedidos de minha mãe, pois nunca recusava. Por isso eu o odiava. A sola não funcionava realmente, mas intimidava com a presença.

            Passaram-se os anos. Eu, adulta, formada. Um dia fui convidada por seu Zé Gomes para ser madrinha de batismo de sua filha caçula. Aceitei o convite com muito prazer, com estima. Tornamo-nos compadres e eu já então agradecida, porque talvez as solas que ele forneceu tenham ajudado um bocado na eficiente pedagogia de minha mãe.

            Essa história dos ratos, além da decepção que me causou pelo logro em que caí, me ficou na lembrança e me faz recordá-la, sempre que passo pelo fundo do antigo Banco da Bahia, no passeio da Paulino Vieira. Parece que vejo gravado na parede de mármore branco: Por aqui passou um dia uma menina boba.


(RETALHOS)
Helena Borborema
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HELENA BORBOREMA -  Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. (A autora)

Conhecida professora itabunense, filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra’.  

(Cyro de Mattos)

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SÉRIE “MPB NA ABL” DE AGOSTO APRESENTA O SHOW “HAMILTON DE HOLANDA – BANDOLINS”

A série “MPB na ABL” de agosto apresentou, na Academia Brasileira de Letras, o show “Hamilton de Holanda – Bandolins”. A produção foi de Didu Nogueira: “Virtuoso, brilhante e único são alguns dos adjetivos na vida deste músico, que contagia plateias em turnês por todo o mundo, construindo uma carreira de inúmeros prêmios”, afirmou o produtor.

De acordo com Didu Nogueira, Hamilton de Holanda, 41 anos, 36 anos de música, carrega na bagagem a fusão do incentivo familiar com o Bacharelado em Composição pela Universidade de Brasília e a prática das rodas de choro e samba. “Essa identidade permite que ele transite com tranquilidade pelas mais diferentes formações (solo, duo, quarteto, quinteto, orquestra), consolidando, assim, uma maneira de expor ideias musicais e impressões sobre a vida com o coração na ponta dos dedos”.

Atualmente, depois de adicionar duas cordas extras – 10 no total –, Hamilton de Holanda reinventou o bandolim e libertou o emblemático instrumento brasileiro do legado de algumas de suas influências e gêneros, segundo os produtores do show. “O aumento do número de cordas, aliado à velocidade de solos e improvisos, inspira uma nova geração a se aproximar do bandolim e de conceber formações com uma nova instrumentação. Se é jazz, samba, rock, pop, lundu ou choro, não mais importa. Nos EUA, a imprensa logo o apelidou de Jimmy Hendrix do bandolim”.

07/08/2017

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MPB na ABL


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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

DESABAFO DE UMA SENHORA NO SUPERMERCADO


Na fila do supermercado o caixa diz a uma senhora idosa que deveria trazer suas próprias sacolas, já que sacos de plástico não eram amigáveis ao meio ambiente.

A senhora pediu desculpas e disse:
-Não havia essa onda verde no meu tempo.

O empregado respondeu:
-Esse é exatamente o nosso problema hoje, minha senhora. Sua geração não se preocupou o suficiente com nosso meio ambiente.

E a velha senhora responde:

-...Você está certo, nossa geração não se preocupou adequadamente com o meio ambiente. Sabe por quê?

-Naquela época, as garrafas de leite, refrigerante e cerveja eram devolvidos à loja.

-A loja mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de cada reuso, e as garrafas eram reutilizadas muitas vezes.

-Realmente não nos preocupamos com o meio ambiente no nosso tempo.

-Subíamos as escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios.

-Caminhávamos até o comércio, ao invés de usar o nosso carro a cada vez que precisávamos ir a dois quarteirões.

-...Mas você está certo:

-Nós não nos preocupávamos com o meio ambiente.

-Até então, as fraldas de bebês eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis.

-Roupas secas não se conseguia usando máquinas bamboleantes de 220 volts, mas era -a energia solar e eólica que realmente secavam nossas roupas.

-Os meninos pequenos usavam as roupas que tinham sido de seus irmãos mais velhos, -e não roupas sempre novas.

-...Mas é verdade: não havia preocupação com o meio ambiente, naqueles dias.

-Naquela época tínhamos somente uma TV ou rádio em casa, e não uma TV em cada quarto.

-E a TV tinha uma tela do tamanho de um lenço, não um telão do tamanho de um estádio; que depois será descartado -não sei como?...

-Na cozinha, tínhamos que 'bater' tudo com as mãos porque não havia máquinas elétricas, que fizessem tudo por nós.

-Quando embalávamos algo frágil, usávamos jornal amassado, não plástico-bolha ou pets de plástico que duram séculos para se degradar.

-Naqueles tempos não se usava um motor à gasolina para cortar a grama, mas um cortador de grama que exigia músculos.

-O exercício era extraordinário, e não precisávamos ir a uma academia e usar esteiras elétricas.

-...Mas você tem razão: não havia naquela época preocupação com o meio ambiente.

-Bebíamos diretamente da fonte, quando estávamos com sede, em vez de usar copos -plásticos e garrafas pet que agora lotam os oceanos.

-As canetas recarregávamos com tinta umas tantas vezes ao invés de comprar uma outra.

-Usávamos navalhas, ao invés de jogar fora todos os aparelhos 'descartáveis' e poluentes só porque a lâmina ficou sem corte...

-...Na verdade, tivemos uma verdadeira 'onda verde' naquela época: 

-Naqueles dias, as pessoas tomavam o bonde ou o ônibus,as crianças iam em suas bicicletas ou a pé para a escola, ao invés de usar a mãe como um serviço de táxi 24 horas.

-Tínhamos só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede.

-Nós não precisávamos usar um GPS para chegar num restaurante, só íamos ao pizzaria mais próximo.

-...Sua geração que não quer abrir mão de nada e pensa que a minha época foi responsável.

-Então, a atual geração não deve falar da MINHA geração, mas resolver o problema que a SUA vem causando ao meio ambiente... 

Tenham um bom futuro, se puderem, é claro!



(Autor não mencionado)

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FLIPELÔ E CAMPUS PARTY TERMINAM COM GRANDE SUCESSO

13/08/2017
Sayonara Moreno - Correspondente da Agência Brasil

O colorido letreiro da #FLIPELÔ foi cenário de muitas fotos no PelourinhoSayonara Moreno/Agência Brasil

Dois grandes eventos dos universos das letras e das tecnologias foram encerrados neste domingo (13) em Salvador com sucesso de público e movimento: a primeira edição da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) e a Campus Party, evento de destaque mundial na área de tecnologia e informática.

Com saraus, mostras e exposições, a Flipelô teve cinco dias de evento em homenagem ao escritor baiano Jorge Amado, que faria 105 anos na última quinta-feira (10). Entre os casarões coloniais do Centro Histórico de Salvador, no Largo do Pelourinho, em frente à sede da Fundação Casa de Jorge Amado, um colorido letreiro com o nome #FLIPELÔ foi cenário de fotos de turistas e participantes da Festa Literária.

A Flipelô teve a participação de mais de 200 convidados em 60 atividades - incluindo mesas de debates, saraus, contação de estórias, exposições e espetáculos de dança e música – o público particpante disse esperar pela próxima edição da festa, com outros homenageados e a presença cada vez maior de escritores e artistas de diversas áreas.

Para a professora de Língua Portuguesa, Carolina Almeida, destacou a festa literária, a leitura e a integração das vertentes culturais como elementos fundamentais para a construção do conhecimento e a inserção social. “Com esse evento, constrói-se a cultura do livro, que a gente não tinha, achei essa ideia bem legal para Salvador. As obras de Jorge Amado são tão importantes que, naturalmente, serão levadas para a eternidade”, comentou.

Saiba Mais
Durante estes cinco dias, passaram pela Flipelô importantes nomes da literatura, como Pasquale Cipro Neto, Talita Rebouças, Antônio Torres e Alexandra Lucas Coelho; a biógrafa de Jorge Amado, Josélia Aguiar; e a escritora mineira Conceição Evaristo, que participou de uma mesa sobre a resistência das mulheres negras, sobretudo na literatura.

Conceição Evaristo foi o destaque da Flipelô, na opinião da estudante de Letras Joelma Conceição, por abordar a invisibilidade da mulher negra na sociedade. “Ela é um exemplo para mim, me sinto identificada com ela, porque venho do trabalho doméstico, assim como ela, e não me sentia inserida na sociedade, não me enxergava representada. Hoje, essa voz negra que dá voz a outras mulheres negras é uma coisa incrível, na qual me espelho muito”, comentou a universitária, de 39 anos.

A programação da Flipelô prosseguiu até o fim da tarde deste domingo, com saraus, mostras audiovisuais, lançamentos de livros e contação de histórias. Tudo o que aconteceu no evento pode ser consultados no site www.flipelo.com.br.

Campus Party Bahia
Também neste domingo, em Salvador, jovens e estudantes se despediram do mundo da tecnologia e inovação da Campus Party, uma feira mundial que aconteceu pela primeira vez na Bahia e inovou ao ser realizado em um estádio de futebol, a Arena Fonte Nova. 

Num dos portões de acesso ao estádio, ônibus se enfileiravam para que os participantes – chamados campuseiros – retornassem para suas cidades de origem, em caravanas. Entre eles, estava a estudante de Sistemas de Informação, Vitória Trindade, de 19 anos. Ela conta que, na volta, a bagagem é maior, devido à carga de conhecimento adquirido durante os cinco dias de evento.

“Adorei tudo, a robótica, as competições, as ideias apresentadas que foram muito boas e sustentáveis. Muito bom saber que estamos nas mãos de jovens tão promissores e criativos, quero muito ser como um deles”, disse a estudante, da cidade de Jequié, a 350 quilômetros de Salvador.

A Campus Party Bahia terminou, oficialmente, na noite de ontem (12), com a premiação de vencedores de competições, palestras de encerramento, apresentação dos organizadores e voluntários e apresentação de orquestra. Ao todo, 4 mil jovens se inscreveram para acampar nas conhecidas barracas de camping da Campus Party. Além disso, cerca de 40 mil pessoas circularam na área aberta ao público, onde houve exposições de inovações tecnológicas, incluindo robôs e simuladores de voo.

Edição: Augusto Queiroz



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domingo, 13 de agosto de 2017

MEU PAI – Francisco Benício dos Santos

Meu Pai


            Belo, altivo e austero caráter. Honrado, probo, inteligente e trabalhador incansável.

            Nascido num meio pobre e rústico, distinguiu-se dos seus contemporâneos  e dos seus parentes, sendo o primeiro da família, o seu mentor, o seu orientador.

            Lavrador eficiente e exímio, dotado de uma clarividência que causava surpresa e inveja aos seus similares de labor.

            Competente cultivador de canas, criador cuidadoso, habilíssimo cavaleiro, dono dos melhores espécimes cavalares daquela  região.

            O seu cavalo de montaria “Quem te ama”, nobre e magnífico animal, era tratado com esmero, e extremo cuidado. Não pastava solto, vivia na estrebaria, assoalhada de toros de rija madeira roliça, para lhe enrijar a  cascaria. Serviam-lhe terno capim d’angola, previamente cortado, e manaiba com mel. Era banhado diariamente.

            Para ser levado ao banho eram necessário dois homens, para subjugá-lo.

            Às segundas-feiras, quando meu pai ia à Cristina, montado no “Quem te ama”, despertavam atenção e louvores o garbo, a beleza e habilidade do animal. Era o seu fraco montar cavalos finos. Este cavalo morreu em um acidente. Cabriolando no pasto, um dia, caiu e quebrou o pescoço.

            Era meu pai lavrador de cana, do meu avô a princípio, e,  depois, do coronel Argemiro, de quem era grande amigo.

            Mais tarde, depois da morte do meu avô, de posse da herança que recebera e da compra que fizera da terra vizinha, dos herdeiros do meu tio Lino (irmão do meu avô), tornou-se proprietário do engenho, em cuja posse veio a falecer.

            Antes, porém, a sua vida dificultosa e tormentosa, muito lhe fez sofrer e,  se não fosse a sua fibra e a sua envergadura de lutador e o seu caráter firme, teria, certamente, sucumbido aos embates da adversidade.

            Possuía meu avô umas terras magníficas no lugar “Cachimbo”, ubérrimas e próprias para a cultura de cana, às margens do  rio Real, nos limites com a Bahia.

            Obteve permissão de meu avô e, naquelas terras,  fez grandes e vastas plantações de cana.

            A esse tempo éramos apenas quatro crianças, ainda.  Pio e Manoel em idade escolar, eu morando em Olímpia, Manoel com meu avô e Pio com meus pais.

            Morava meu pai em boa casa, no “Criminoso”, onde nascemos.

            Possuía uma boa quantidade de gado, cavalos, ovelhas, porcos, etc., e reserva monetária, que servia para ajudar no custeio da grande plantação que fizera.

            Entretanto, o seu capital não era suficiente para o custeio do canavial. Tomara dinheiro, a juros, a Horácio Nunes, em Cachoeira, para a continuação do serviço, e com a promessa de lhe consignar toda a produção de açúcar, cuja moagem seria feita no Engenho D’água, de propriedade de meu avô, e de meia, isto é, cinquenta por cento para meu pai e cinquenta por cento para o meu avô.

            As canas cresciam e prosperavam assombrosamente, graças à exuberância dos terrenos, de massapê ubérrimo. O verde claro de suas folhas finas e compridas, como espadas, formava um oceano infinito e à passagem da brisa suave, elas inclinavam-se. Ao mesmo tempo, a música das folhas impelidas pelos ventos, soava como melodias sussurrantes e queixosas, tal quais minúsculas palmeiras a saudarem, com as suas palmas, os raios solares.

            No meio desse éden de fartura e verdura construiu rústica choupana, a título precário, e, ao redor, minúsculo pasto, onde pastava o seu cavalo de sela, que conduzia de ida e volta, todos os dias, ao romper da aurora e às tardes, ao declinar o dia.

            Um dia... Sol causticante e abrasador, calor de quarenta graus à sombra. Canícula infernal. Tudo estalava sob a ação do sol de fogo. O mundo assemelhava-se a uma imensa fogueira  ou a um vulcão em atividade, a vomitar lavas incandescentes.

            Deixara, na tarde do dia anterior, o cavalo no pasto do canavial, e tornara a pé, à casa.

            O canavial estava na fase de maturação, as canas de quatro metros de comprimento deitavam-se ao solo, maduras. Aprestava-se tudo para a moagem. E neste dia fatídico, em pleno meio dia, sem saber-se a causa incendiou-se o canavial. A notícia dolorosa corre célere. De toda parte chegam auxílios, que resultam inúteis dadas a impetuosidade das labaredas e o calor ardentíssimo do sol.

            Em poucas horas tudo estava carbonizado, inclusive o cavalo e a cabana com os móveis domésticos e ferramentas agrícolas. Aquele éden de verdura ficou reduzido a cinzas e ao esqueleto tétrico e triste das canas calcinadas, cujas cinzas o vento, ao passar, carregava.

            De toda parte lhe chegaram auxílios, de amigos e parentes condoídos da sua desdita.

            Em face do seu imenso prejuízo, resolveu aproveitar as canas calcinadas para o fabrico de mel cabaú, que seria vendido aos alambiques para destilação.

            Mobilizou os carros de boi, próprios e dos amigos, , e os recursos de emergência, e nos engenhos de meu avô e do coronel Argemiro, começou a moagem da cana queimada.

            Porém não ficou ali a desdita...

            ... Uma cobra jaracuçu postada em um buraco junto à porteira do curral, passagem obrigatória do gado, matou os bois de carro; uma peste dizimou todo o gado de criar e de trabalho, deixando os pastos limpos. Para cúmulo do sofrimento, surgiu forte desinteligência entre meu pai e meu avô, motivada por um carneiro de meu pai, do qual o meu avô quebrou a cabeça. Resultou daí profunda divergência entre os dois, total prejuízo para meu pai, que, desde então, passou a ser lavrador do coronel Argemiro. Tudo se finalizou com o estado de extrema pobreza, acrescida ainda da enorme dívida, de muitos contos, a pagar, em juros.

            Não lhe arrefeceram o ânimo, porém, reveses surgidos. Enfrentou corajosamente a situação, e novas roças fez, agora nos terrenos de Argemiro, de quem passou a ser lavrador de cana, e anos após anos, numa labuta constante e sem trégua, conseguiu a liquidação dos seus débitos, e refazer o seu patrimônio desfeito.

            Lembro-me que em nossa casa, nada se comprava no mercado, apenas fazenda, uma vez por ano, e das indispensáveis e mais grosseiras. Tudo mais se produzia na fazenda.

            Das roças tinham-se os cereais e a mandioca; dos pastos, as aves, as ovelhas, os porcos. O sabão, para lavagem, fazia-se de mamona e a soda indispensável para o fabrico do mesmo era extraída de cinzas postas em um jequi com água, pendurado na trave da casa, de que se ia filtrando um líquido corrosivo, que substituía a soda.

            O sal vinha de Abadia, presente de Higino, bem como cocos, peixes, etc.

            Gás de iluminação não se usava em casa. Era substituído o querosene por cordões previamente embebidos em sebo de que se fazia lâmpada.

            E, assim, com essa economia inigualável, conseguiu retomar o fio da vida, tão brusca e duramente interrompida pelo destino, e pagar as suas dívidas.

            Foi um homem.


(MEMÓRIAS DE CHICO BENÍCIO)
Francisco Benício dos Santos

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POEMA PARA PAPAI – Glória Brandão

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Para meu pai Heráclito


Meu querido pai, o tempo vai passando...
Seus filhos criados, seus cabelos já alvejados
Na dobra do tempo as lembranças vão ficando
Nos ombros, o peso dos anos vividos e já desbotados
Nas mãos, a calosidade das lutas que vivia enfrentando
No teu coração, retalhos de sonhos ainda bordados.
Bois de canga, pelas estradas íngremes do teu viver
Vez por outra, na casa amarela, eu via bois estacionados
Eu os comparava aos automóveis da minha imaginação
Você meu querido pai, barba por fazer, mãos calejadas
Roupas grosseiras próprias para sua labutação
Os cabelos lisos e mesmo com seu rosto suado, cansado...
Eu sempre pensava: meu pai é tão bonito!...

Na minha doce infância eu achava penoso o teu viver
Muito trabalho, dias grosseiros, a chuva, o sol, o chapéu...
Engraçado, não consigo lembrar das suas botas
Mas você devia usar botas para enfrentar as estradas
O lamaçal, o barco, os atalhos aladeirados.
Lembro -me do plantio de cacau, eu também ao seu lado
Meu medo das minhocas na terra e você muito impaciente
Lembro-me do meu mal jeito com a baliza
Para plantar enfileirados os pezinhos de cacau.

A tarde caindo, a noite chegando, os sapos coaxando
Ai que pavor! Lá  ia eu, ao seu lado chorando
Sapos enormes, todos me olhando
Mas você não tinha medo
Sempre foi um homem corajoso!
De longe eu espreitava você limpando os cascos dos cavalos
As ferraduras, os cravos – Que trabalho desgraçado!
Eu achava a ação sinistra, trágica, mas você nem ligava
Os dias passavam, e das ferraduras dos cavalos eu esquecia.
Você sempre valente, nem sempre seus dias eram contentes
A fazer negócios, vivia! Comprou uma fazenda de cacau
Com burros e gado. Ah, mamãe ficou tão contente!...
A mudança já no caminhão, esperando só você chegar
Felizes estávamos, íamos em outra direção!
Você estava na praça do meu Piraí do Norte
E todos nós a te esperar, loucos para viajar
Você chegou e disse: “desce a mudança, fiz novo negócio
Acabei de vender a fazenda e aqui vamos continuar!”
Lembro-me de mamãe chorando, eu e meus irmãos
Todos tristes, de sonhos desfeitos, ali te olhando
Pelas lágrimas caídas dos olhos de mamãe
Eu e meus irmãos, todos, te odiando.

Ah papai, sua vida era como uma batalha suada
Sempre foi um homem da terra na lida do cacau
Mas, vendeu imagens, santos com olhos de marfim
Peças valiosas e tão formosas!...
Plantou tomates a perder de vista
Carreou madeira no lombo dos bois
Comprava, vendia, ganhava, perdia...
Nunca teve sua carteira profissional assinada
Mamãe nunca trabalhou fora, mas seus filhos você criou
Você, um sábio, pela vida a fora a filosofar
Tem nome de filósofo: Heráclito!
Hoje, de tantas reminiscências vive a lembrar
E no alvorecer da velhice vive a dizer:
“Sou um homem feliz e a Deus sempre vou agradecer”
Pois é, meu pai diz a todos que é um homem muito feliz
Feliz eu fico por ser sua filha e esse poema te oferecer.
Meu pai, viemos aqui para ser felizes mesmo no sofrer.


(A MÃO DO TEMPO)
Glória Brandão

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MEU GRANDE PAI – Mirian Warttusch

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Meu grande Pai


Que grande homem tu foste, meu paizinho!
Missão maravilhosa, Deus te reservou
Doação, bondade, justiça e só carinho,
Amor eterno aos semelhantes dedicou

Passou um anjo e te levou consigo
Para morar no céu, junto a Jesus
Pois como Ele, de todos foste amigo
E carregaste, sem queixas, tua cruz!

Que grande honra o Senhor me concedeu:
Ser tua filha dileta e tão querida!
Assim, meu pai por certo não morreu,
Pois continua em mim, pulsando a sua vida!

Sinto bater seu coração no peito,
O mesmo azul do seu, tem meu olhar.
Todo meu ser com tanto amor foi feito
Numa noite azul, brilhante de luar...

Tão afins éramos, amigos, confidentes,
Vivemos sempre, em união e muito amor.
Somos assim, meu pai, teus descendentes,
Frutos de tua ternura e do teu fervor.

Cicatriz eterna, na alma tão ferida
- Ser órfã de amor, ó quanta dor encerra -
Não me permito, entanto, chorar tua partida
“Foi muito linda, tua passagem pela terra” !

Em silêncio, tristonha, caminhando,
O teu cortejo segui, muito calada...
 Mas ao final, um lenço te acenando,
“Até um dia, meu pai”! Falei emocionada!

Em despedida, brilharam todas as estrelas,
E os pássaros canoros, trinaram num gemido...
Todas as flores se abriram! E pudemos vê-las,
De orvalho chorar ao ter se despedido.

E a natureza linda, com seu verde intenso
Que tantas vezes te ouviu orar,
Hoje se verga, com respeito imenso,
Abre as ramagens pra teu séquito passar.

Dobrai os sinos, tristes, tão solenes,
Todos os anjos, “por favor, cantai”!
Cânticos lindos, sublimes e perenes,
Pra receberem, no céu, MEU GRANDE PAI!


MÍRIAN WARTTUSCH

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