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domingo, 13 de agosto de 2017

POEMA PARA PAPAI – Glória Brandão

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Para meu pai Heráclito


Meu querido pai, o tempo vai passando...
Seus filhos criados, seus cabelos já alvejados
Na dobra do tempo as lembranças vão ficando
Nos ombros, o peso dos anos vividos e já desbotados
Nas mãos, a calosidade das lutas que vivia enfrentando
No teu coração, retalhos de sonhos ainda bordados.
Bois de canga, pelas estradas íngremes do teu viver
Vez por outra, na casa amarela, eu via bois estacionados
Eu os comparava aos automóveis da minha imaginação
Você meu querido pai, barba por fazer, mãos calejadas
Roupas grosseiras próprias para sua labutação
Os cabelos lisos e mesmo com seu rosto suado, cansado...
Eu sempre pensava: meu pai é tão bonito!...

Na minha doce infância eu achava penoso o teu viver
Muito trabalho, dias grosseiros, a chuva, o sol, o chapéu...
Engraçado, não consigo lembrar das suas botas
Mas você devia usar botas para enfrentar as estradas
O lamaçal, o barco, os atalhos aladeirados.
Lembro -me do plantio de cacau, eu também ao seu lado
Meu medo das minhocas na terra e você muito impaciente
Lembro-me do meu mal jeito com a baliza
Para plantar enfileirados os pezinhos de cacau.

A tarde caindo, a noite chegando, os sapos coaxando
Ai que pavor! Lá  ia eu, ao seu lado chorando
Sapos enormes, todos me olhando
Mas você não tinha medo
Sempre foi um homem corajoso!
De longe eu espreitava você limpando os cascos dos cavalos
As ferraduras, os cravos – Que trabalho desgraçado!
Eu achava a ação sinistra, trágica, mas você nem ligava
Os dias passavam, e das ferraduras dos cavalos eu esquecia.
Você sempre valente, nem sempre seus dias eram contentes
A fazer negócios, vivia! Comprou uma fazenda de cacau
Com burros e gado. Ah, mamãe ficou tão contente!...
A mudança já no caminhão, esperando só você chegar
Felizes estávamos, íamos em outra direção!
Você estava na praça do meu Piraí do Norte
E todos nós a te esperar, loucos para viajar
Você chegou e disse: “desce a mudança, fiz novo negócio
Acabei de vender a fazenda e aqui vamos continuar!”
Lembro-me de mamãe chorando, eu e meus irmãos
Todos tristes, de sonhos desfeitos, ali te olhando
Pelas lágrimas caídas dos olhos de mamãe
Eu e meus irmãos, todos, te odiando.

Ah papai, sua vida era como uma batalha suada
Sempre foi um homem da terra na lida do cacau
Mas, vendeu imagens, santos com olhos de marfim
Peças valiosas e tão formosas!...
Plantou tomates a perder de vista
Carreou madeira no lombo dos bois
Comprava, vendia, ganhava, perdia...
Nunca teve sua carteira profissional assinada
Mamãe nunca trabalhou fora, mas seus filhos você criou
Você, um sábio, pela vida a fora a filosofar
Tem nome de filósofo: Heráclito!
Hoje, de tantas reminiscências vive a lembrar
E no alvorecer da velhice vive a dizer:
“Sou um homem feliz e a Deus sempre vou agradecer”
Pois é, meu pai diz a todos que é um homem muito feliz
Feliz eu fico por ser sua filha e esse poema te oferecer.
Meu pai, viemos aqui para ser felizes mesmo no sofrer.


(A MÃO DO TEMPO)
Glória Brandão

* * *

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