Total de visualizações de página

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O CALANGO E O VIAJANTE por JULIANA VALENTIM

O Calango e o viajante

Uma fábula do cerrado para quem tem bom coração.


O viajante de bom coração leva consigo pouca bagagem. Sabe que cada vez que pisa em solo novo, sua alma se mistura à paisagem. Tornando-se uma coisa só, é muito mais fácil viver. Foi isso que aconteceu quando chegou ao cerrado. De repente, seus olhos viraram lua, seus pés viraram mato e o sangue de suas veias começou a cantar baixinho um canto de cachoeira com voz de passarinho.

O viajante logo percebeu que aquela terra era diferente. Ali, o mar virava céu e o céu virava mar. Era preciso estar atento para enxergar, mudar de perspectiva, virar de ponta cabeça.
Sem medo, resolveu experimentar. E viu suas pernas virarem árvores que, contorcidas, dançavam um balé suave. O viajante dançou a noite inteira. Quando a manhã chegou, cansado, adormeceu.

Acordou recebendo um beijo nos lábios de um bichinho que o olhava intrigado. Quem é você, perguntou? Sou o calango do cerrado, moro aqui, moro acolá, sou dono desse lugar. O viajante de bom coração faz amigos pelo caminho. Quando perceberam, os dois já estavam rindo, lembrando das histórias do Tamanduá. Um dia, ele também havia vivido por lá, mas quase extinto, levantou a bandeira e já não voltava para visitar. O mesmo aconteceu com o Lobo Guará. E coração do calango doeu de saudade.

Decidiram, então, sacudir a poeira. Haviam conversado a manhã inteira e já era hora de almoçar. O calango, animado, decidiu cozinhar. E em pouco tempo, um aroma diferente pairava no ar. O que é isso, perguntou o viajante? É pequi, vem provar! Só não pode morder, é melhor raspar. Almoço bom que é danado. Sobremesa, tem? Tem os frutos do cerrado, coisa melhor não há. Tem Baru, Cagaita, Araticum, Mama-Cadela para os males curar.

O viajante, que iria embora em poucos dias, resolveu ficar.
Estava apaixonado por aquelas terras, queria aproveitar.
Então, os meses se passaram. Aos poucos, a chuva foi cessando e o sol rachou de brilhar. Sem cair água do céu, viu o cerrado secar. Sendo ele e sua paisagem uma coisa só, a sede daquele chão na sua garganta dava um nó.

Viu o verde virar tinta e o fogo pintar de cinza o que a terra tinha a oferecer. O que estaria acontecendo? Viu tanto bicho correr. Pela primeira vez, o viajante teve medo de morrer.
Mas o cerrado, encantado, não desiste de surpreender.
Quando menos esperava e achou que a vida acabava, virou Ipê!

* Este conto participou do I Concurso Literário de Sustentabilidade do Cerrado Brasileiro.

JULIANA VALENTIM
Nós moramos mesmo é nas entrelinhas, no silêncio dos intervalos. Somos feitos de uma voz que grita e uma voz que cala. Como música! A magia não está no que se ouve, mas no exato instante da pausa



http://obviousmag.org/o_segredo_da_pausa/2017/04/o-calango-e-o-viajante.html


* * *

EDUARDO PORTELLA - Carlos Heitor Cony.

Eduardo Portella


"Não sou ministro. Estou ministro." A frase, pronunciada pelo então ministro da Educação, em sua simplicidade radical, ficou sendo uma das melhores expressões do velhíssimo problema que tenta definir a relação do intelectual com o poder. Pronunciou-a em causa própria Eduardo Portella, que aceitara o cargo num momento em que o fim da ditadura e a abertura política eram consideradas iminentes.

O tema (cultura e poder) frequenta sua obra de ensaísta e crítico de literatura. Um de seus livros, publicado pela Tempo Brasileiro, editora de sucesso que fundou, tem o título de "O Intelectual e o Poder".

Nele, o ensaio "O Renascimento da Utopia" desenvolve magistralmente aquela frase pronunciada num momento de sua biografia: "E daí também a necessidade de o intelectual guardar, como arma não tão secreta, o trunfo da insubmissão. A alternativa da insubordinação deve recuperar o ser do estar. Até porque nós só temos o que podemos perder, o que não podemos perder nos tem".

Baiano, formado em Recife, onde conviveu com Gilberto Freyre, Portella fez estudos na Espanha, quando foi aluno de Dámaso Alonso e Carlos Bousoño. Mais tarde, na Itália, onde recebeu aulas de Ungaretti e de Bataillon, no Collège de France e na Sorbonne, tornando-se, assim, o crítico mais bem equipado de sua geração. Portella construiu sólida reputação não apenas na crítica da literatura, mas nos assuntos brasileiros em geral.

A série que escreveu, "Dimensões", é um dos momentos mais nobres e fecundos de nossa história literária.

Sua morte nesta semana desfalcou a nossa cultura, a Academia Brasileira de Letras, e eu perdi um amigo que muito me ensinou e que nunca esquecerei.

Foi um "gentleman" em todos os sentidos e honrou o nosso tempo com o seu exemplo e o legado que nos deixou.

 Folha de São Paulo (RJ), 07/05/2017


--------- 


Carlos Heitor Cony - Quinto ocupante da Cadeira nº 3 da ABL, eleito em 23 de março de 2000, na sucessão de Herberto Sales e recebido em 31 de maio de 2000 pelo acadêmico Arnaldo Niskier.

* * *

MIRIQUI - Helena Borborema

Miriqui


           Já se passaram muitos anos. Felizmente, nenhum trauma ficou do acontecido, apenas a lembrança. Hoje acho graça quando falo sobre o episódio, mas na ocasião foi um verdadeiro drama na minha vida de criança. Tinha eu uns seis anos de idade e, não sei por que circunstâncias era bastante voluntariosa, querendo sempre ser atendida nos meus desejos. Quando contrariada, armava verdadeiras cenas. Se estivesse na rua, sentava na soleira da primeira porta que encontrasse e teimava em não continuar a caminhada. Só saía, debaixo de muito agrado. Quando resolvia não calçar os sapatos, era  preciso muita persuasão e adulação, para conseguirem que eu atendesse. Para tomar óleo de rícino, quando achavam que era preciso, o que era o meu pavor, aí então eu fazia verdadeiro escândalo, correndo em cima da cama, recusando todas as promessas e presentes.

          Mas havia uma empregada que cuidava de mim, naquele tempo chamada ‘ama de menino’ em vez de ‘babá’, e esta astuciou um meio de acabar com as minhas teimosias. Contou-me a história de um preto velho chamado Miriqui, que andava pelas ruas com um cacete nas mãos e um enorme saco de couro às costas, cheio de meninos teimosos que ele ia pegando. “E o que era feito com esses meninos?, perguntei eu, muito interessada. Eram levados para o sertão e nunca mais viam nem o pai nem a mãe. Miriqui batia nos meninos com o cacete e mandava que eles cantassem: “canta, canta, meu surrão, se não te dou com o meu bordão”. “E ele pagava gente grande?”, perguntei medrosa, pensando em meus pais. “Às vezes, quando encontrava”, respondeu a narradora, muito séria. É evidente que esta história me apavorou. Logo visualizei a figura horrível de Miriqui, velho, magro, de barbicha, com o cacete na mão e o saco para esconder os meninos. E o sertão, o que era? Era um lugar longe, muito longe, todo cinzento, sem casas, uma espécie de túnel por onde Miriqui passava com o enorme saco, andando, andando, e os meninos chorando, sem nunca mais voltar para casa, explicou-me a ama.
  
          A pedagogia da minha ama Antonia era a do terror e surtiu certo efeito. Mas talvez, devido ao bem querer de que eu era cercada, logo esquecia a terrível história e, quando recomeçava uma das minhas cenas, a ameaça me alertava: ”Vou chamar Miriqui!”. A teimosia acabava de imediato.

           Um dia, à tardinha, estava bem tranquila, brincando com minhas bonecas num canto da sala. Era a hora de meu pai voltar para casa. De repente ouvi um vozerio na rua, bem perto, palavras alteradas. Trepei numa cadeira e fui espiar da janela. Alguns curiosos se dirigiam para a esquina próxima, quando, acompanhando com atenção a movimentação do grupo, dei de olhos com uma cena terrível: um velho alto e magro, negro, de barba comprida, com um saco nas costas e um cacete na mão, esbravejava e rodopiava sobre o passeio. Não sabia eu que o velho era um bêbado contando bravatas. Diante de tal figura, só podia pensar em Miriqui. Sim. Era ele verdadeiro. O que aquele espetáculo produziu no meu espírito naquele momento de pavor, podia ter deixado marcas no meu sistema nervoso. Estava vendo o Miriqui em carne e osso. Lembrei-me que o meu pai ia chegar e, sem nada saber, ia passar perto de Miriqui, que logo o pegaria, jogaria no saco e o levaria para o sertão, de onde não mais voltaria. Miriqui ia pegar meu pai! A imagem que formei foi de terror. Entrei em crise de choro e gritos de desespero tão forte, que não sei como esse abalo emocional não me deixou marcas para o resto da vida.

         Talvez a presteza com que minha mãe me abraçou e as suas palavras de segurança me protegeram. Na mesma hora, meu pai foi chegando, trazendo paz ao meu espírito de criança. Esse episódio foi tão traumático que nunca se apagou da minha memória. Ainda hoje revejo claramente a minha figura pequena da janela olhando a cena, com o coração aos pulos e os meus gritos de terror. Felizmente, a infância cercada de amor e a afetividade e segurança em que vivi, fizeram com que a pedagogia maluca da minha bem intencionada ama perdesse o seu efeito. Fizeram-me compreender que o terrível Miriqui não existia e a sua lembrança, hoje, só me faz achar engraçado o episódio quando penso nas meninas bobas do meu tempo, pois aquele Miriqui que aterrorizou  não só a mim como a outras crianças do passado, não creio que hoje merecesse nenhuma credibilidade ou temor da meninada, tão acostumado está o mundo com o contato diário e normal com os seres terríveis e perigosos dos filmes com que a TV nos presenteia diariamente. A figura de um Miriqui para qualquer criança, hoje, seria completamente ridícula e desacreditada.

           Mas, se um imaginário Miriqui foi arquitetado na minha infância para meter medo a crianças teimosas, hoje, infelizmente, o mundo está cheio de Miriquis reais que foram nascendo com a maldade humana, os desajustes sociais, o desemprego, a ausência de Deus nos corações, os péssimos programas  e enredos da TV e do cinema, verdadeiras fábricas de Miriquis. Dia a dia estão sendo clonados pela impunidade, e aí estão eles, espalhados nas cidades, nas ruas, nos ônibus, nas casas, estradas, encontrados a cada instante e por todos os lados, fazendo vítimas. O Miriqui da minha infância, que me atemorizava, nunca existiu, a não ser na minha mente infantil, produto de histórias inventadas, mas os de hoje são perigosos porque reais. O surrão que carregam está repleto de drogas, maldades, e saem eles por ai à cata, não de crianças teimosas,  mas de qualquer pessoa que se enquadre na sua mira, jovens, pais de família, todos aqueles de quem possam tirar proveito ou dar expansão aos seus instintos cruéis. Em lugar do bordão, carregam revólveres e metralhadoras. Com sua maldade, vão deferindo golpes mortais no corpo, no patrimônio dos que vão encontrando pelo caminho. E de maldade em maldade, de crime em crime, lá se vão eles medonhos, amedrontando, trilhando os túneis cinzentos da vida.

 (“RETALHOS”)
Helena Borborema



HELENA BORBOREMA - Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município.

* * *

TABOCAS – ITABUNA - Nataniel Ruben Ribeiro Gonçalves

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
Tabocas – Itabuna


Foi aos mil e oitocentos e quarenta e nove...
................................................................................................

Alma de pioneiro altivo que remove
Aquilo que se opõe à sua caminhada
FÉLIX DO AMOR DIVINO, aventureiro e forte,
Partira de Sergipe aventurando a sorte
E agora está feliz!... Prossegue na jornada!

Já não lhe basta agora a roça MARIMBETA
Chegaram seus irmãos... e então projeta:
MANOEL CONSTANTINO, avante, outra fazenda!...
Vamos abrir lugar, seja onde for; preciso!...
Transformar esta mata em nosso paraíso...
E o crioulo escutou... sonhando a grande prenda!...

Seu amo era tão bom... jamais o desprezara...
Pensava... e de repente... assim, a ideia clara...
Partiu a procurar um local diferente...
Depois de muito andar... parou... quase um encantado
Estava bem defronte o lugar desejado...
Lado esquerdo do rio... estava à sua frente!...

A mata vai gemendo... e a terra se estremece...
E o matagal cortado em fúria, desfalece...
MANOEL CONSTANTINO é um ciclone humano,
Mas, um jequitibá exsurge inesperado...
Vetusto e gigantesco e não deteriorado...
Constantino prevê então trabalho insano...

São contratados, logo, uns fortes machadeiros...
E os dois irão cortar com golpes ligeiros,
Postados face a face, ao redor do gigante!...
Aquele que o machado entrar como uma broca,
Cortando mais veloz, então dará taboca
Por derribar primeiro o tronco agonizante!

Um grupo torcedor espera o resultado...
No silêncio da espera escuta-se o machado
E o arvoredo a gemer, ao golpe que lhe toca...
Num lance mais veloz – um MACHADEIRO o corta!
Treme JEQUITIBÁ... e cai... árvore morta!...
E a turma brada e aplaude... a lhe gritar TABOCA!

Aberta estava a mata agora ao CONSTANTINO...
É o mundo que sonha FELIX DO AMOR DIVINO...
Um novo povoado exsurge florescente!...
Mas... há um coração que quer dias melhores,
Que quer civilidade e músicas e flores,
Que sonha desta selva – a cidade nascente!

TABOCAS – gozarás feliz prosperidade!
Hás de crescer... enfim...serás uma cidade!
Não é que teu ditoso encanto te ressalves;
Mas é que existe ALGUÉM que sonha engrandecer-te
Que ao concerto da vida espera enobrecer-te,
É o grande lutador – José Firmino Alves!...

E os sonhos de Firmino Alves, como os de seu tio,
Os óbices vencendo, avançam como um rio...
Eis vibra de alegria a gente Grapiúna...
Surge Olinto Leone o primeiro Intendente...
Libertou-se o arraial...é Vila... Independente!

ITABUNA! ITABUNA!... Eis o passo seguinte!...
Novecentos e dez... Eis o século vinte!...
Eis VINTE E OITO DE JULHO – o teu dia sublime...
Afinal és CIDADE em toda fulgurância...
A Bahia se ufana em fidalga elegância,
Que ao Brasil teu cacau a lavoura redime!...

***
Itabuna, fevereiro de 1960
Nataniel Ruben Ribeiro Gonçalves

(Ensaios Históricos de Itabuna, O JEQUITIBÁ DA TABOCA – 1ª Edição 1960)
Manoel Bomfim Fogueira e Oscar Ribeiro Gonçalves.

* * *







terça-feira, 9 de maio de 2017

ITABUNA CENTENÁRIA: CURTAS E BOAS – São José

“São” José


Em Itabuna, estava sendo julgado um velho, acusado de haver assassinado o namorado de uma das suas netas.

As provas e testemunhas não lhe eram favoráveis, até quando um advogado, amigo do advogado da defesa, olhando detidamente para o velho notou-lhe semelhança com a imagem de São José, padroeiro da cidade.

E, por coincidência, o danado do velho era carpinteiro e se chamava... José.

Embora não funcionasse no caso e estivesse ali apenas por curiosidade profissional, chamou a atenção do colega para todos esses detalhes.

Então, na tréplica, o advogado invocou o padroeiro da cidade, pateticamente mostrou a estranha coincidência de seu constituinte se chamar José e ser carpinteiro, e deixou o resto por conta do sentimentalismo dos jurados.

O velho foi absolvido por unanimidade e até carregado nos ombros do povo. Um mais exaltado gritou: Viva São José!...

Mas, outro velho ali presente, vizinho do acusado, murmurou:

- Quem não te conhecer que te compre... “seu” José...


(O SORRISO DO CACAU) 

Nelson Gallo

* * *

O ADVOGADO RAIMUNDO LIMA - Waly de Oliveira Lima


O Advogado Raimundo Lima


          O advogado Raymundo Lima era um capeta na tribuna do júri popular. O terror dos promotores. Criativo, improvisador, popular, palavra fácil, imaginação fértil. Às vezes enérgico, mas sempre respeitoso.
 
          Réu carente não sentava no banco sem o seu patrocínio gratuito.'

          Naquele dia, ele, os criminalistas Alberto Galvão, Adélcio Benício e Fernando Henrique, todos Itabunenses, defendiam um criminoso abonado, que matara a mulher por alegado ciúme.

          A sessão do júri estava sendo irradiada por uma das emissoras locais, e o salão do julgamento superlotado. Era no antigo fórum. Na rua, uma multidão de curiosos. Muitos deles de radinho de pilha nas mãos.

          Raymundo era advogado e também vereador. Cumpria a sua função naquele júri com dois objetivos plenamente compreensíveis: libertar o seu constituinte e aumentar as suas bases eleitorais.

          Justíssimas as suas pretensões.

          No júri, eu fui o acusador.

          Havia me precedido na comarca de Itabuna, também como promotor, o meu irmão Wilde, hoje desembargador e, naquele tempo, deputado estadual.

          Os debates foram muito tumultuados por apartes. Alguns longos e, não raro inoportunos. Não só por parte dos quatro advogados da defesa como vindos do promotor, no caso eu, como já me referi.

          O juiz Francisco Fontes usou de sua energia para manter a ordem, que, de fato, não chegou a ser quebrada, apesar do calor dos diálogos.

         Dos sete jurados, um tinha curso universitário. Os demais, pessoas simples do povo. Afinal, o júri é um tribunal popular. Todos os cidadãos devem ter vez. Está certo, assim.
         Eu havia tentado estudar todos os ângulos possíveis da causa. Levara para o fórum uma pilha de livros, para me permitir provar qualquer afirmação doutrinária ou de jurisprudência que viesse a fazer. Os defensores também estavam bem servidos de livros.

        Lá para as tantas, já na réplica, à noite – para evidenciar o caráter antissocial do acusado e os equívocos do falso ciúme que se proclamava, tomo de um livro, leio certo trecho e declaro:

       - Esta é mais uma lição de FREUD! (pronuncia-se “Fróid”).

       De imediato, num gesto de estudada elegância, o advogado Raymundo Lima pede um aparte, acrescentando, com astúcia: “se não vou atrapalhar o raciocínio de Vossa Excelência...”

        Respondi-lhe prontamente:

        - Pois não, nobre advogado. Sou toda atenção às suas palavras.

        E ele, mordaz, fingindo ignorância, certo de que feria encobertos objetivos, prosseguiu:

        - O irmão de vossa excelência foi promotor nesta comarca por muito tempo. Tribuno de qualidades invejáveis, como o nobre acusador de agora. Mas jamais precisou pronunciar palavrão neste plenário para cumprir a sua dura tarefa de acusar...

         - Eu me refiro ao pai da psicanálise, o grande Sigismundo Freud, a quem vossa excelência conhece muito bem – frisei.

         - Quanto mais imundo pior – fazendo-se de desentendido ele – E ainda por cima pai de mais filhos, que não conhece nem ampara. O irmão do nobre representante do Ministério Publico, torno a repetir, não diria palavrões aqui.

          Houve, entre os jurados e assistência, indisfarçáveis olhares de censura contra o meu “desrespeito” vocabular à pureza e à santidade do júri.

          Acredito que a maioria dos presentes e dos ouvintes acabou se convencendo de que eu citara mesmo o grande FREUD, a quem o mundo tanto deve. Tive que argumentar muito, mostrar o livro do genial judeu, desviando-me assim, por muitos instantes, dos autos. Apelei até para o conhecimento dos colegas do advogado Raymundo Lima, seus companheiros de defesa, que ficaram calados, pois não era hora de estarem falando.

          Mas deve ter ficado alguma dúvida contra a minha pureza vocabular. Porque um dia ouvi de certa senhora, que escutara os debates pelo rádio, o comentário de que o meu irmão, esse sim, falava no júri para qualquer família poder escutar.

          Ah, Raymundo Lima, meu querido e saudoso amigo, como eu te entendi naquele júri e te quis bem.


(CRÔNICA AVULSA)
Waly de Oliveira Lima
Da Antologia ITABUNA, CHÃO DE MINHAS RAÍZES
Seleção, Prefácio e Notas de Cyro de Mattos

-----------

WALY DE OLIVEIRA LIMA - é Patrono da Cadeira 39 da Academia Grapiúna de Letras – AGRAL, ocupada pela poetisa Eglê Santos Machado. É também patrono da Cadeira 06 da Academia de Letras Jurídicas do Sul da Bahia – ALJUSBA, ocupada pelo Advogado Deusdete Machado de Sena Filho. Nasceu em Vitória da Conquista, a 29 de dezembro de 1919. Fez o curso primário em Jequié, Uruçuca e Salvador, onde, no Colégio Maristas, aprovado no admissão, iria ingressar no ginásio e alcançar o “complementar de direito”. Formado em advocacia pela Faculdade de Direito da Bahia, em 1944. Promotor de justiça durante muitos anos em Itabuna, onde lecionou nos colégios Divina Providência e Ação Fraternal. Crônicas suas aparecem na imprensa sul - baiana, jornal “Dimensão“ de Itapetinga, e “A Tarde”.

* * *



EDUARDO PORTELLA: PENSADOR DA CULTURA - Cyro de Mattos

Eduardo Portella: Pensador da Cultura
Cyro de Mattos

  
          Eduardo Portella  era um desses intelectuais atuantes que argumentava com lucidez sobre assuntos de nossas letras e cultura. Graduado pela Faculdade de Ciências Sociais e Jurídicas da Universidade Federal de Pernambuco. Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro,  lecionou até os últimos dias de vida. Ministro da Educação no  governo do Presidente João Figueiredo, lutou pela anistia, foi demitido por ter  dado apoio à greve dos professores  universitários.

          Seu discurso de vida dirigiu-se para os parâmetros de um humanismo solidário com base na ordem da verdade. Foi interditado por aqueles que pensam ser suficiente para valer na dotação humana   o poder que você exerce com o cargo. Dele é a célebre frase: “Não sou ministro, estou ministro”, para afirmar com isso, no tácito entendimento da palavra enunciada, que tudo é transitório ante o eterno que fica.

          Crítico, pesquisador, conferencista, editor, advogado e político brasileiro. Ocupou a presidência da Conferência Mundial da UNESCO. Foi   diretor das  Edições Tempo Brasileiro, divulgando Heidegger no Brasil e o Formalismo Russo de Yuri Tynianov. Membro titular da Academia Brasileira de Letras, recebido por Afrânio Coutinho.  Naquela instituição recebeu João Ubaldo Ribeiro, Lígia Fagundes Telles e  Zélia Gattai.

          Propôs um método crítico de base hermenêutica, teórica e filosófica. Sem inclinações para a interpretação da obra literária com base na inserção de autor e obra nos  períodos históricos, nem decorrente de gratuitas impressões sobre a massa do que foi escrito,   mas em função do estilo em que o autor se funda e marca sua obra  na expressividade da escrita, tanto na forma  como no conteúdo.  Esteve  à frente dos níveis usuais,  sendo o responsável pela introdução da análise estilística nas letras brasileiras. Filtrou os pressupostos, métodos  e ferramentas dos espanhóis Carlos Bousoño  e Dámaso Alonso, propondo  o julgamento como ato final na análise  literária   após a captura do fundamento  que transita  entre linguagem e uso da língua, responsável pela literariedade. Este fundamento é a visualização do entretexto.  Sua tese de doutorado foi  publicada sob o título Fundamento da Investigação Literária (1973), refundida em 1974.
 
        Deixou um legado constituído de 23 obras e, entre elas, Dimensões I (1958), Dimensões II (1959), África colonos e cúmplices (1961), Literatura e realidade nacional (1963), Dimensões III (1965),  Teoria da comunicação literária (1970), Vanguarda e cultura de massa (1978) e A Sabedoria da Fábula (2011). Recebeu prêmios literários  e títulos honoríficos de muito prestígio, como Gran Cruz de la Orden del Mérito Civil, Madri (2001), Doutor Honoris-Causa, Universidade Federal da Bahia (1983), Gran-Cruz de la Orden Civil de Alfonso X, el Sabio, Madri (1980), Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco, Brasília (1979).
                
          Aprendi muito com ele.  Acompanhou  minha carreira literária desde o nascimento, há cinquenta anos. Prestigiava-me. Prefaciou meu livro Cancioneiro do Cacau, que me deu  quando inédito o Prêmio Nacional  de Poesia Ribeiro Couto da União  Brasileira de Escritores (Rio) e, quando   publicado,  o Segundo Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália,  o Terceiro Prêmio Nacional de Poesia Emílio Moura da Academia Mineira de Letras e foi finalista do Jabuti.

          É dele essa observação sobre o livro:

                “ Mas o seu poema  não irrompe de qualquer abalo sísmico, ou de qualquer intempérie facilmente previsível. Ele eclode da história revigorada, nasce do fundo do homem  e das coisas, da sua raiz em curso, da origem protegida  do menor sedentarismo... Cyro de Mattos se compraz em revalorizar a raiz, e reverenciar a origem, em reconhecer  o fundamento   radicalmente imune  ao fundamentalismo. O poeta enraizado e, no caso, porque enraizado, generoso, recorda para a frente.  Como quem retira dos filtros do passado,  e dos detectores de metais do presente, lições,  mesmo que enviesadas, para a construção do amanhã.”
 
         Que melhor prêmio poderia receber autor e obra do que essa opinião do enorme ensaísta? Humanista, leal, elegante, sóbrio, companheiro, intelectual de primeira grandeza. A última vez que estive com ele, na Academia Brasileira de Letras, quando fui proferir  palestra sobre os mares trágicos de Adonias Filho, disse-me que estava escrevendo um livro sobre Adonias Filho e outro sobre Jorge Amado.
              
         Baiano de Salvador,  nascido em 8 de outubro de 1932, Eduardo Portella passou desse plano terrestre para outra dimensão no  dia 2 de maio deste ano.’




Cyro de Mattos,  escritor e poeta. Primeiro Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

* * *