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terça-feira, 21 de março de 2017

PONTO DE PARTIDA – Wagner Albertsson

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PONTO DE PARTIDA

VALORIZE AS
COISAS PEQUENAS
QUE POSSUI
PORQUE A 
PARTIR DELAS,
CERTAMENTE,
VIRÃO AS
GRANDES.
DESPREZANDO
AS COISAS
PEQUENAS
CONQUISTAREMOS
APENAS SONHOS,
ANGÚSTIAS
E DECEPÇÕES.
TUDO TEM
UM PONTO
DE PARTIDA,
O TEU É
TUDO QUE POSSUIS
NO MOMENTO.

WAGNER ALBERTSSON

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ALGUNS PINGOS EM ALGUNS IS – Péricles Capanema


Coroa do Sacro Império Romano Alemão. Atualmente exposta na Schatzkammer (no Tesouro do Palácio Imperial de Hofburg) da capital austríaca.

Alguns pingos em alguns is
20 de março de 2017
Péricles Capanema

De alguns anos a esta parte, movimentos e partidos políticos de fundo nacionalista vêm ganhando força em países importantes. Assistimos a uma enorme reviravolta no espírito público, que pode determinar rumo diferente ao que o mundo vem trilhando, aos trancos e barrancos, desde o fim da II Guerra Mundial. Aonde chegaremos?

A corrente não é una, apresenta características díspares; e não apenas em aspectos acidentais, mas nos nacionalismos se percebe um fundo comum, sobre o qual tratarei de forma sucinta. Nacionalismo vem de nação. E nação, de natio, natus, etimologicamente, é o conjunto dos que nasceram em determinado território.

Nação foi palavra inicialmente utilizada pelos estudantes das universidades medievais, em especial a de Paris. Ali eles se organizavam em grupos, falavam a língua materna entre si, eram regidos pelas leis dos próprios países (ou regiões). Existiu a nação da Alemanha, a nação da Inglaterra, a nação normanda. E outras ainda.

A palavra não designou apenas agrupações de estudantes. Por exemplo, em fins do século XV, surgiu o acréscimo nação em realidade política de enorme importância: Heiliges Römisches Reich deutscher Nation (Em tradução literal, santo império romano da nação alemã; em português, o Sacro Império Romano Alemão). O Sacro Império foi oficialmente extinto em 1806 por Napoleão. É importante notar que ali foram extintos direitos históricos, autonomias multisseculares; essa organização política de raízes medievais dificultava planos do Corso, centralizadores e autoritários.

Por que lembro fatos antigos? Para melhor compreendermos no presente o fenômeno nacionalismo. Quando a palavra nação se difundiu, a Era Moderna ainda não havia começado. No temperante ambiente da Cristandade era comum os homens viverem distantes do absolutismo, da centralização e do autoritarismo unificador. E de delírios de grandeza, própria ou coletiva. O medieval, respirando ares de civilização cristã, não desatinava atrás da busca obsessiva da própria grandeza, da de sua família, região ou reino. Tinha um olhar temperante para as coisas temporais, condicionado ao “vale de lágrimas”. E sua atenção se fixava de imediato e preferentemente na família e na região. O imperador do Sacro Império dispunha de poucos poderes diretos. Sem ser conhecido explicitamente, o princípio de subsidiariedade, hoje o pilar central da doutrina social católica, embebia a sociedade. Mesmo em Paris, capital da França, a nação alemã dos estudantes dispunha de grande autonomia no governo próprio.

Com o avanço do Estado Moderno, nação foi ganhando significado mais denso. Passou a significar em geral comunidade estável de indivíduos, historicamente determinada por origem, costumes, religião e língua comuns. Daí a defesa do território, das fronteiras, da língua, da cultura, da raça, dentre outros. Tais elementos, ainda que importantes, de fato eram acidentais; o fundamental sempre foi o sentimento do vínculo comum, a consciência de pertencer a uma entidade com interesses próprios e necessidades peculiares. O Estado é sua forma política normal.

Surgiu o nacionalismo como o conhecemos agora, fruto típico dos Tempos Modernos. Medra bem nos miasmas do antropocentrismo potencializado com a Renascença. A nação e até o Estado passaram a ser alucinados ideais de grandeza humana. Não eram mais realidades benéficas, mas subsidiárias à família, na procura da perfeição humana em todos os níveis. A nota jacobina, do Estado como o grande instrumento a conquistar para impor um suposto programa de salvação nacional, sempre esteve muito presente.

Noto de passagem que é louvável defender a identidade nacional e lutar pela grandeza nacional, com base em doutrina razoável e conduta sensata, julgando o Estado instrumento útil, necessário e importante para a pessoa e a família alcançarem seus fins.

Autoritário, centralizador, populista, confiante no uso da força, Napoleão Bonaparte arrastou atrás de si grande parte da França, até que suas derrotas o jogaram, exilado, em Santa Helena.

E volto ao fluxo principal. Não foi assim com o nacionalismo em várias de suas vertentes importantes: pessoa, família, região passaram a ser meras partes de um todo coletivo, de valor absoluto. A exacerbação coletivista desemboca no totalitarismo, o que historicamente aconteceu em várias ocasiões. “Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado”, foi lema do fascismo italiano.

Mencionei Napoleão Bonaparte. Volto a ele, exemplo de nacionalismo, enorme influência. Chefe carismático, ele uniu a aspiração da pátria agigantada com os ideais da Revolução Francesa. Centralizador, ditatorial, adversário dos direitos históricos de famílias, regiões, corporações, agiu contra sociedades intermediárias de várias naturezas, colocadas entre a pessoa e o Estado. Procurou subjugar e utilizar a Igreja para seus objetivos de ordem e grandeza nacionais. A ele se aplicaria bem a expressão famosa, falsamente atribuída a Luís XIV: “L’État, c’est moi”. Nas linhas gerais, o bonapartismo — regime republicano imperial, Estado nacional com Executivo forte e centralizado, populista, recurso frequente ao plebiscito — foi a tintura mãe dos nacionalismos.

Seus traços principais continuam até hoje. Um deles, ausente no bonapartismo, foi acrescentado em alguns nacionalismos: o antissemitismo, que pode ser visto como espécie do gênero xenofobia, presença constante nos nacionalismos. O estrangeiro (ou o corpo estranho), eis o inimigo do coletivo nacional, sempre bom e vocacionado para a grandeza.

Bonaparte prometeu restaurar a ordem posta em frangalhos pelas convulsões sociais do período, implantar a racionalidade e a eficiência no governo, eliminar os “lados ruins” da Revolução Francesa. Perseguiu os monarquistas, recusou o Rei — isolado em Londres — e a velha nobreza dispersa pela Europa, tidos por corruptos e decadentes. Desprezava a cultura refinada e aristocrática do Antigo Regime. Autoritário, centralizador, populista, confiante no uso da força, arrastou atrás de si grande parte da França, até que suas derrotas o jogaram, exilado, em Santa Helena.

Historicamente, o nacionalismo atraiu simpatias de católicos, conservadores, tradicionalistas, de correntes favoráveis à livre iniciativa e ao empreendedorismo. Foi visto como adversário do internacionalismo socialista (inimigo da identidade nacional) e do igualitarismo revolucionário (inimigo das desigualdades de base natural). Era muitas vezes considerado baluarte na defesa da ordem ameaçada pela agressão da desordem revolucionária. Milhões de seus seguidores, gente de bem, colocaram na sombra os traços coletivistas, centralizadores e autoritários, a negação teórica e prática do princípio de subsidiariedade. Aderiram ao que lhes parecia ser a única defesa eficaz contra a avalanche revolucionária que ameaçava levar de roldão a moral, instituições veneráveis e a civilização.

Foi um falso dilema demolidor. Para milhões, acarretou tragédias das mais variadas naturezas. Podem voltar a acontecer. É momento de maturidade, exame, argúcia, equilíbrio, isenção. Claro, não esgotei assuntos, ventilei-os; nem poderia ser diferente em artigo limitado por espaço. Espero, contudo, ter fornecido material útil para reflexão. Em resumo, procurei cumprir a promessa: pôr alguns pingos em cima de alguns is.



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ITABUNA CENTENÁRIA: UM POEMA – Antonio Carlos Hygino

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Pontal de Ilhéus

Pontal querido, meu Pontal amado,
Formoso bairro de beleza tanta...
Cheio de luz e pelo mar banhado,
a lua cheia, que seduz e encanta...

O sol que fulge sobre o céu dourado,
Os pescadores já chegando em terra...
O Pernambuco pelo mar banhado,
O por-do-sol, que só beleza encerra...

Que é das lanchas, do tamarindeiro,
Da travessia, da jundiba anosa,
E do "besouro", a trafegar ligeiro?

Tudo se foi, desse passado lindo,
Ó meu Pontal- ó meu amor primeiro
Tudo se foi com o progresso vindo!...

Antônio Carlos de Souza Hygino
Juiz de Direito titular da 5ª Vara Cível da Comarca de Itabuna – Bahia.
E-Mail: hyginoantonio@bol.com.br

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OPERAÇÃO “CARNE FRACA”: O PROBLEMA É BEM MAIS SÉRIO DO QUE A REAÇÃO DO GOVERNO

20 de março de 2017
Por Adolfo Sachsida, publicado pelo Instituto Liberal



O Ministro da Justiça aparece em gravações da operação e numa delas tenta interceder em favor daquele que depois seria identificado como o chefe da quadrilha. O ministro argumenta que nem a polícia federal e nem o juiz viram qualquer procedimento ilegal de sua parte. Sejamos claros: isso é pouco. Talvez o comportamento do ministro não tenha sido ilegal, mas ele precisa explicar a sociedade qual a sua relação nessa história. Afinal, em mais de uma ocasião ele conversou com o chefe da quadrilha, numa delas o chama de “grande chefe”, em outra tentou reconduzir o chefe da quadrilha ao cargo, e na outra tenta interceder junto ao presidente em favor do chefe de quadrilha. São ligações demais para o ministro da justiça sair pela tangente. O ministro da justiça PRECISA EXPLICAR o porque de suas defesas a uma pessoa que é apontada como o chefe da quadrilha que envenenava o povo brasileiro com carne podre.

O problema é sério, quantos brasileiros morreram ou tiveram sua saúde debilitada em decorrência de se alimentarem de carne podre? Por quanto tempo ingerimos carne podre? Além da carne, quais outros produtos estão sob suspeita? Como anda a fiscalização do leite? Das verduras? Todo o sistema de vigilância sanitária está sob suspeita. O governo tem tratado isso como um caso isolado, mas é evidente que o risco ao qual a população foi exposta foi muito mais sério do que alguns parecem querer crer. Estamos falando das maiores empresas brasileiras do ramo de frigoríficos envolvidas com a comercialização de produtos podres, vencidos, ou adulterados. O Presidente da República precisa se manifestar, e o ministro da justiça precisa se explicara. Repito abaixo o que disse na minha página de facebook:

“Revoltante a maneira como o governo vem lidando com a repercussão da operação Carne Fraca. Aparentemente a única coisa que os técnicos do governo conseguem dizer é “vocês comem carne podre há mais de 7 anos, mas fiquem tranquilos que o sistema é seguro”…. Eu quero ver demissões, quero ver ministros pedindo desculpas, quero ver sangue nos olhos do presidente dizendo que quem colocou em risco a vida de milhões de brasileiros será identificado e duramente punido com o rigor da lei. Temer demita alguém, xingue alguém, mande alguém a m*, mas mostre pro povo brasileiro que você entendeu o tamanho e o perigo desse escândalo!!! Se é assim com a carne, como será com o leite? E com as verduras? Será que dá pra entender que todo nosso sistema de vigilância sanitária está em xeque???? Eu tenho filhas!!! O que devo dizer a elas? “Fiquem tranquilas o nosso sistema é seguro”????? É isso??????? NÃO, nosso sistema não é seguro. Prova disso é que estamos comendo carne podre há 7 anos!!!!!!!“.Descrição: https://ssum-sec.casalemedia.com/usermatchredir?s=183697&cb=https%3a%2f%2fdis.criteo.com%2frex%2fmatch.aspx%3fc%3d25%26uid%3d%25%25USER_ID%25%25

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Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.


http://rodrigoconstantino.com/artigos/operacao-carne-fraca-o-problema-e-bem-mais-serio-que-reacao-governo/?utm_medium=feed&utm_source=feedpress.me&utm_campaign=Feed%3A+rconstantino

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segunda-feira, 20 de março de 2017

HISTÓRIA DE ITABUNA: AS BODAS DE OURO DA JOVEM ITABUNA

As bodas de ouro da jovem Itabuna


      As comemorações dos 50 anos de Itabuna, no dia 28 de julho de 1960, culminaram definitivamente com a inauguração da Avenida do Cinquentenário. Para marcar a data, o prefeito José de Almeida Alcântara quis contratar artistas de fora – aquela deveria ser a maior e mais bonita festa até então realizada na cidade.

      No entanto, o projeto, orçado em quatro milhões de cruzeiros, infelizmente superava em muito as possibilidades financeiras do município. Assim, Alcântara decidiu criar um grêmio que se encarregasse da organização do evento, conseguindo reunir o padre Nestor Passos, o artista plástico Walter Moreira, o vereador Raimundo Lima, o historiador José Dantas de Andrade, o fazendeiro José Alves de Menezes, o jornalista Ottoni José da Silva, o professor Plínio de Almeida, o médico Rayol, dentre outros homens ilustres da sociedade Itabunense, verdadeiramente engajados no processo de desenvolvimento da cidade. Cabia ao grêmio, portanto, pensar na efetivação de um evento não menos importante, porém mais econômico, envolvendo os artistas locais e toda a comunidade. Do grupo, boas ideias foram brotando. O artista plástico Walter Moreira idealizou um grande desfile com carros alegóricos, onde seriam apresentados temas ligados à história da cidade. O vereador Raimundo Lima (um dos maiores oradores da história de Itabuna), ficou encarregado de preparar um discurso. O historiador José Dantas de Andrade incumbiu-se de uma coletânea com fotos da cidade e das famílias tradicionais. O jornalista Ottoni Silva assumiu toda a parte de divulgação, nos meios de comunicação da época. Voluntariamente cada um tomou para si uma tarefa.

      A proclamada festa em comemoração ao meio século de existência da próspera Itabuna foi um sucesso quase que total (isso porque uma chuvinha constante conseguiu tirar um pouco do brilho dos espetáculos – situação irremediável para a grande equipe dos organizadores!!), tendo sido iniciada às cinco da manhã com a alvorada em frente à Matriz de São José, missa solene, saudação oficial do Tiro de Guerra 126, hasteamento da bandeira e até a apresentação da Esquadrilha da Fumaça. No entanto, os festejos culminaram com o desfile dos doze carros alegóricos na Avenida do Cinquentenário. Decorados pomposamente, eles abordavam a vida dos tropeiros e pioneiros, bem como a vida do Arraial e Vila de Tabocas, as tribos Pataxós e Camacãs, por fim, aspectos sociais, econômicos e históricos da cidade. Todo o material, desenhado e pintado pelo artista Walter Moreira, embora iniciado com grande antecedência, só ficou mesmo pronto minutos antes do grande desfile, devido à enorme riqueza de detalhes, dos quais o artista não quis abrir mão. O carro principal de todo o cortejo trazia à frente um busto de barro do Comendador Firmino Alves, esculpido pelo próprio Walter Moreira.

      O Cinquentenário tornara-se um grande acontecimento, feito para e pela comunidade. Todos participaram de alguma forma, criando uma situação propícia para a tal festividade. Para os itabunenses, os cinquenta anos de existência da cidade tinham um grande significado. De acordo com a publicação do Jornal Diário de Itabuna, do dia 28 de julho de 1960, Itabuna prosperara prodigiosamente num período de tempo relativamente curto, obtendo o segundo lugar entre os municípios mais populosos do Estado baiano (perdendo somente para a capital), com uma população de 147.780 habitantes, sendo que a população da cidade atingia os 25.351 habitantes, de acordo com o recenseamento geral de 1950.
       
      Contava com um aeroporto, vários bancos, uma agência do Instituto de Cacau, duas estações radiofônicas, hospitais, escolas, clubes recreativos e sociais, uma empresa de ônibus, dois jornais diários, quatro cinemas, duas grandes fábricas (a de biscoitos Tupy e de colchões de mola Iracema), além de uma pluralidade de vários outros setores. Para orgulho de todos, a cidade tornara-se o pólo de crescimento de todo o sul baiano, atraindo profissionais liberais e investidores agrícolas. A “Princesinha do Sul” vivia o seu boom, usufruindo os bons frutos do presente e sonhando com um futuro promissor. Aos cinquenta anos, nos belos “anos dourados”, Itabuna tinha mesmo bons motivos para comemorar.
 
Do livro ITABUNA HISTÓRIA E ESTÓRIA de Adriana Dantas Andrade-Breust
Editus - Editora da UESC


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SAMARITANA: história de uma sede - Pe. Adroaldo Palaoro sj


“Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede...” (Jo 4,15)


Comprovamos hoje uma atrofia ou um “déficit de interioridade”, pois a volatilidade das sensações passageiras nos dificulta ter acesso à nossa própria identidade. Continuamente chegam até nós, sensações inteligentes e sedutoras elaboradas pelos técnicos da publicidade em laboratórios e ilhas de edição e semeadas na nossa afetividade subconsciente. Estamos rodeados por telas iluminadas (tvs, smart, tablets, computadores...) que emitem uma mensagem “interessada” e nos forçam a permanecer na superfície de nós mesmos, esvaziando-nos de toda densidade humana. Precisamos redescobrir uma pedagogia que nos conduza até o mais profundo de nossa intimidade, onde o Espírito alimenta a originalidade de nosso ser único, através de uma fonte que nunca se esgota. Precisamos, sob a ação da Graça, destravar nosso centro vivo e sempre inédito, de tal maneira que brote a novidade que tudo renova e plenifica nossa existência.

Vamos, pois, buscar inspiração no encontro instigante de Jesus com a Samaritana, junto a um poço.

Assim como a água, necessária para a vida, é preciso extraí-la do fundo da terra, também a água do Espírito é preciso tirá-la das profundezas de si mesmo.

No início do relato vemos uma mulher caminhando em direção ao poço de Siquém em busca de água; ela vive um “eu fragmentado”, perdida em sua solidão, sedenta de um sentido para sua existência... Tinha graves problemas, estava confusa, em toda sua vida havia buscando o grande amor. No entanto, seus casamentos fracassados continuavam a perturbá-la. Era uma mulher que havia se perdido no caminho: tantos cântaros quebrados, tantos pedaços para recolher.

Jesus rompe com as fronteiras culturais e religiosas, assenta-se junto ao poço de Jacó e, através de um diálogo provocativo, ajuda a mulher samaritana a encontrar, dentro dela mesma, esse centro de onde mana sem cessar uma água que mata a sede, e não buscá-la em tantos poços secos ou rachados. Com sua presença instigante, Jesus ajuda a mulher a integrar suas rupturas existenciais, reconstruindo-a como pessoa, a partir de sua própria interioridade.

O encontro com Jesus fez a samaritana viver uma verdadeira “páscoa”, passando de uma vida trivial e dispersa à missão de anunciar aos outros Aquele com quem se havia encontrado. Como uma água “que jorra para a vida eterna”, uma torrente de gratuidade percorre a cena e transfigura a mulher. Ela foi sendo conduzida até sua própria interioridade através de um paciente processo que a fez passar da dispersão à unificação, da exterioridade à interioridade, da desarmonia à unidade interior, da solidão à comunhão com os outros.

Ela entra em cena como “uma mulher da Samaria” e sai dela como conhecedora do manancial de “água viva”, consciente de ser buscada pelo Pai para fazer dela uma adoradora. Sua identidade transformada a converte em uma evangelizadora que consegue, através de seu testemunho, que muitos se aproximem de Jesus e creiam nele. Aquela que falava de “tirar água” como uma tarefa de esforço e trabalho, abandona agora seu cântaro: Jesus a fez descobrir um dom que lhe é entregue gratuitamente.

Na realidade, ela passou a ter a sensação de estar nascendo pela primeira vez e que Deus a amava. Caíam as etiquetas. Tudo o que tinha sido, a samaritana, filha de sangues misturados e de religião meio pagã, a mulher com uma vida afetiva fracassada, a amante que, depois de compartilhar sua vida com seis homens, duvidava de ter sido amada de verdade alguma vez... tudo aquilo parecia deixar de existir.

Os véus que cobriam o verdadeiro rosto da mulher do cântaro vazio, foram levados pelo vento. Ela se tornou “pessoa”.

Estamos, aqui, diante de uma vida em processo. Ao longo do relato assistimos a tentativa da mulher de permanecer em um nível superficial e mover-se em seu diálogo com Jesus no âmbito da superficialidade. Uma e outra vez ela procura escapar e desviar a conversação para terrenos que não permitem descer em sua profundidade e que não a deixam enfrentar-se com a verdade de sua existência.

Mas ela não contava com a tenacidade de Jesus e com sua determinação de alargar aquela vida atrofiada. Ao longo do encontro, Ele é o verdadeiro protagonista, o condutor da cena e aquele que marca as estratégias da conversação.

Como hábil pescador, Jesus joga suas redes e lança seus anzóis para tirar a mulher, com quem dialoga, das águas enganosas da trivialidade e do desejo de auto-justificação que a afogam.

Como bom pastor que conhece suas ovelhas, Jesus a faz sair do deserto da superficialidade, vai guiando-a para a profundidade e autenticidade, para a terra do dom da água viva. Como amigo que busca criar relações pessoais, em nenhum momento emite juízos morais de desaprovação ou condenação: em lugar de acusar, prefere dialogar e propor, emprega uma linguagem dirigida ao coração da mulher.

Como “expert” em humanidade, Jesus mostra-se profundamente atento e interessado pela interioridade de sua interlocutora e lhe faz descobrir o manancial que pode brotar do mais profundo dela mesma. Revela-lhe também a interioridade de Deus como Pai que busca adoradores em espírito e em verdade.

Jesus desperta a samaritana a cair na conta que é preciso abrir-se a um “manancial” novo, que lhe vem através d’Ele e que “brota em seu interior” de um modo permanente. Ele é o manancial e com sua presença desperta o manancial interior da samaritana, entupido.

                     “Dá-me um pouco de sede porque estou morrendo de água!”

Eis o clamor da nossa geração que tendo quase tudo, parece que não consegue descobrir o sentido da própria existência. Morre de sede junto ao poço de água viva.

A sede se refere à busca de sentido presente em todo ser humano, busca daquilo que traz definitivamente a paz: a “água viva” que coincide com o “dom de Deus”. Por isso, o relato se situa intencionadamente em chave de oferta: “se conhecesses o dom de Deus...”. Acabou-se o tempo dos templos; a adoração passa pelo coração, é interior e verdadeira, corresponde a uma vida em fidelidade.

A experiência acontece quando escutamos em nosso interior o “eco” que a água viva produz, saciando nossos desejos mais plenos. “Uma água viva murmura dentro de mim e me diz: Venha para o Pai” (S. Inácio de Antioquia)

Como a samaritana, também diante de nós se apresenta uma alternativa: continuar buscando água viva e justificação em poços secos e esgotados ou eleger “vida eterna” e deixar-nos arrastar pela oferta de transformação proposta pelo Jesus que nos busca, porque deseja ampliar nossa existência e comunicar-nos alegria e plenitude.

Texto bíblico: Jo 4

Na oração: A cena do encontro de Jesus com a samaritana nos remete à experiência fundante de nossa vida. Tal experiência significa abertura, dilatação do coração, expansão da consciência ao ver que tudo parte  de Deus (Fonte do rio da vida) e tudo volta para Deus (rio que mergulha no Mar).


A experiência de oração junto ao nosso poço nos conduz à outra fonte, aquela que brota do coração, e que estava ressequida, impedindo-nos de reconhecer o murmúrio da água viva.
De quê tenho sede? Onde busco saciar minha sede?


Pe. Adroaldo Palaoro sj
Itaici-SP

http://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/1056-samaritana-historia-de-uma-sede


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NO TEMPO EM QUE VIVEMOS, OS DEUSES CONTINUAM SEDENTOS - Por Ney Bello

20 de março de 2017

Não é o tempo de Anatole France, mas é o tempo de um Bob Dylan, que se recusa a reconhecer seu reconhecimento. No tempo em que vivemos, os Deuses continuam sedentos.

Os homens, à bordo de suas convicções, querem condenações; querem culpados; querem linchamentos; querem aquilo que chamam de Justiça, que nada mais é do que o reconhecimento urgente e cego de suas próprias convicções.

Não basta ter ojeriza ao crime. É necessário afastar o devido processo legal, a ampla defesa e o julgamento isento.

Já consideraram provados todos os fatos que a mídia lhes apresentou e se questionam o porquê de tanto procedimento, tanta produção de provas, tantos prazos e tantos direitos procedimentais. A modernidade atrapalha!

Exigem sangue... e agora! Exigem o cadafalso para o réu e o exigem Imediatamente! Se o juiz não lhes dá, passam a exigir o sangue do próprio juiz. O bom julgador é o que acolhe o confuso grito de barbárie coletiva e segue — não de toga mas com a capa do Batman — a veloz marcha da manada.

Como é fácil aos homens abandonar a racionalidade para confirmarem suas visões morais do mundo!

Como é fácil esquecer as normas para punir os outros, sejam eles culpados ou inocentes!

Pouco depois do tempo ficcional do francês que eu citei, os juristas diziam "não conheço o direito civil. Só conheço o Código de Napoleão". Afirmavam isso porque a norma escrita era a defesa que as pessoas possuíam contra as atitudes do absolutismo.

Era revolucionário aplicar a lei!

Nos tempos que correm, é revolucionário cumprir singelamente o código de processo penal.


Ney Bello é desembargador no Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Pós-doutor em Direito, professor, membro da Academia Maranhense de Letras.

Revista Consultor Jurídico, 20 de março de 2017


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