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sexta-feira, 3 de maio de 2024

Livro de Cyro de Mattos Vencedor do 

Prêmio Literário Casa das Américas 

Teve Leitura e Análise em Havana  

 


Havana,  (Prensa Latina) - A Casa das Américas promoveu no dia 25 de abril passado, no Salão Manuel Galich da instituição cultural da capital, a apresentação com análises e leituras dos livros vencedores em 2023 do Prêmio Literário Casa das Américas e, entre eles, na categoria Literatura Brasileira, Infancia com Animal y Pesadilla y otras historias (Infância com Bicho e Pesadelo e Outras histórias), do baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos, na tradução para o espanhol da professora doutora em Letras Esther Pérez, fundadora e presidente da Fundação Martin Luther King em Havana. No evento, o escritor grapiúna divulgou  um vídeo no qual ressalta a importância do Prêmio Literário Casa de las Américas no Continente Hispânico e sua valorização no Brasil e por isso a sua obra  terá mais visibilidade agora  no plano nacional e internacional.  

A instituição apresentou os outros livros vencedores em 2023: Todos somos islas, de Felipe Núñez (Colômbia, conto); e Después del incendio (Papeles de guerra: Venezuela 2013-2021), de Eduardo Ernesto Viloria (Venezuela, literatura testemunhal); La orilla de Caliban. El rastro de la filosofía afrocaribe en el siglo xx, de Roberto Almanza (Colômbia, Prêmio de estudos sobre a presença negra na América contemporânea e no Caribe) e Diario de las revelaciones, de Gustavo Pereira (Venezuela, vencedor do Prêmio de Poesia José Lezama Lima). 

No próprio Salão Manuel Galich foi realizado depois o painel El sencillo arte de narrar (una provocación), com o jornalista e contador de histórias mexicano Fabrizio Mejía, o escritor e sociólogo argentino Hernán Ronsino e a dramaturga cubana Lourdes de Armas, membros do júri do Novel. A Casa de las Américas celebrou seu 65º aniversário em 28 de abril passado, e o prêmio é um dos principais protagonistas de sua história. Criado em 1959 e realizado pela primeira vez em janeiro de 1960, o Prêmio Literário Casa de las Américas é o concurso cultural mais antigo do país e o mais antigo do gênero no continente. 


Eduardo Viloria Daboín, vencedor do Premio Casa de las Américas 2023 na categoría Testimonio, e Fernando Luis Rojas, diretor do Fondo Editorial Casa de las Américas, fazendo a apresentação do livro de Cyro. 

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domingo, 28 de abril de 2024

Bolsonaro participa de carreata com Caiado antes da Agrishow

 Inocência sem Flor

Cyro de Mattos   

 


          A história do Brasil pode ser considerada pelo lado do negro com três pês: pão, pano, pancada. Pelo lado do indígena, entram nessa história feita de assombros nas caçadas humanas três emes: missa, miçanga, mato.

          Capítulos dessa história, impregnada de usurpação e açoite, dizem que o Brasil Colonial formou uma dívida com o negro e o indígena que de tão grande nas léguas da desgraça tornou-se impagável.

Em algumas paragens desse Brasil continental, pisado pelo colonizador ávido, chegou-se ao ponto de terem desaparecido populações indígenas que viviam em perfeito entendimento com a natureza, tirando dela apenas o necessário para a sobrevivência.

           Às vezes, escuto vozes que rolam dos longes nesses rastros da desgraça.  Como acreditar? Houve uma mancha que envergonha.  A fuga em desespero tingiu a manhã do horror na taba queimada.  Por entre as sombras do que é perverso e não se apaga, remorso não existiu dos que feriram os hábitos da inocência irmanados com o verdor da mata, dizimaram a aldeia, forjaram a chacina, denominando as cenas insanas de façanhas.

          Quem saberá quantos ventos na fuga de uma gente sem rumo entoaram lamentos de uma triste música? Gemidos produzidos nas entranhas da selva impenetrável?  Como se nada de horror acontecesse num mundo que amanhecia cheio de passaradas, brilhos e fragrâncias.

          Pasmem os céus, até hoje sentimentos que escorrem em dó e lágrima ressurgem desses rastros que machucam. Tive conhecimento que a virgindade de meninas indígenas vale pouco, muito pouco na cidade de São Mateus, que fica nos confins do braço norte do território do Japará.  Lá um homem branco compra a virgindade de uma menina indígena também com aparelho celular, peça de roupa de marca e com uma caixa de bombom.

 

          As mães das vítimas pediram à polícia há um ano para apurar o caso. Nenhum suspeito foi preso até agora.

           Doze meninas já prestaram depoimento. Elas relataram que foram exploradas sexualmente e indicaram nove homens como os autores do crime. Entre eles, há comerciantes locais, um ex-vereador, um médico chamado Pedro de Deus, um farmacêutico, dois sargentos e um açougueiro.

          As vítimas vivem na periferia de São Mateus do Japará, município de baixa renda, que vive das atividades agrícolas, com base em lavouras primárias, de pouca duração, nas estações temperadas de sol e chuva.  São Mateus do Japará tem quase cem por cento da população formada por gente indígena. Calcula-se que a população seja de quinze mil pessoas.

          Entre as meninas exploradas, há as que foram ameaçadas pelos suspeitos. Algumas foram obrigadas a se mudar para casa de familiares, na esperança de ficarem seguras. O repórter da revista “O Planeta” ficou interessado pelo caso logo que tomou conhecimento.

          Conversou com algumas dessas meninas. Criou inicial fictícia para cada uma delas, querendo com isso dificultar a identificação.

           B, de 12 anos, conta que vendeu a virgindade para um vereador. O acerto, afirmou, ocorreu por meio de uma prima dela, que é também adolescente.

                “Ele me levou para o quarto e tirou minha roupa. Foi a primeira vez, fiquei depois sem saber o que fazer.”

          A menina informou que uma amiga dela esteve duas vezes com um comerciante.

       “Na primeira vez, ela também foi obrigada. Ele deu um celular.”

        Já L, de 11 anos, disse que ela e outras meninas ganharam chocolates, dinheiro e roupa de marca em troca da virgindade. Como aconteceu com as outras na primeira vez, ela foi também obrigada. Recebeu trinta reais e uma caixa de chocolates.

        Outra menina, S, de 13 anos, disse que presenciou encontros de sete homens com meninas de até dez anos.

       “Eu vi meninas passando aquela situação, sem poder fazer nada.”    Comentou que eles sempre dão dinheiro em troca disso (da virgindade).

       Ela aceitou falar ao repórter porque já tinha denunciado tudo à polícia federal. Sabia que o pior podia acontecer, mas não tinha medo de nada.

           “O homem que me usou primeiro falou que se continuasse denunciando eu iria junto com ele pra cadeia.”

          A mãe de S disse que, se ela abrir a boca, o homem que tirou a virgindade da filha vai mandar matar ela.

          Não é difícil imaginar que a menina S tinha os olhos sumidos no rosto sem brilho, durante a entrevista que deu ao repórter de “O Planeta”.

          Quase não saiu o que disse no final:

        “Na primeira vez senti as coxas doloridas. A boca com um gosto de coisa ruim. Depois fiquei triste”.

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

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MÃE - Sione Porto

 


sexta-feira, 19 de abril de 2024


Memórias Infantis de Graciliano Ramos

Cyro de Mattos

 


             Vê-se em Infância (1945), de Graciliano Ramos, que a vida em seu começo ofereceu ao escritor de Alagoas momentos de amargura e pessimismo. Forjada dos contatos com as pessoas de alma pobre e as coisas em estado atrasado, disso resultando gestos e impressões com opressão e violência, a vida não poderia nas raízes latejar o coração pequeno com batidas leves.  Assim, nas queimaduras de uma poeira que se acumulava no cotidiano, o escritor de amanhecer áspero fora acostumado muito cedo aos maus tratos e castigos.

            Nascido em Quebrangulo, interior de Alagoas, o autor de Vidas Secas (1938), romance constituído de episódios autônomos, que podem ser considerados como contos, não guardou nenhuma lembrança de sua cidade natal. Cedo se transferiu para Buíque onde se criou numa zona de indústria pastoril, no interior de Pernambuco. Muitos fatos dessa época estão arrolados em suas memórias infantis atravessadas de dores e incompreensões.  As informações precisas sobre pessoas e fatos lá estão alinhavadas de maneira pungente, expostas nas páginas ausentes de afeto, desde o amanhecer até quando chegava a noite onde tudo é silêncio e a vida respira abafada na travessia solitária formada com sonhos pesados, carentes de ternura.

            O menino esteve mergulhado certa vez numa comprida manhã de inverno, o açude cheio, a roça tingida de amarelo e vermelho, as folhas pestanejando como cílios, os caminhos estreitos virados em riachos. Convivendo com toda essa paisagem molhada, gostaria que a natureza assim permanecesse na alma.  Com a passagem dos dias, as árvores perderam as folhas, o sol bebeu a água da terra, a natureza indiferente substituiu o que era riqueza pela aridez das estações, que se introduzira na paisagem caracterizada pela solidão e incômodos. A vida passou então a ser lenta, calcinada, o dia envolvia tudo com forte calor, trevas densas ofuscavam claridades quando chegava a noite para a longa duração.  

            Dessa poeira cinzenta trouxe pedaços de pessoas, quase sempre más, ridículas, para o seu mundo interior, o qual seria articulado depois em forma de ficção, operada como permanente auscultação de um contínuo psicologismo angustiante, sofrido.   Agora a realidade produzida pelo artista da palavra se vestia com a roupagem do estilo seco, focado numa humanidade despreparada para o afeto, acompanhada de momentos toscos vinculados ao tormento. Na angústia fixada com a secura de alma, os sentimentos nas memórias infantis e na ficção do autor de estilo descarnado, unindo o passado ao clássico moderno, sem filiação aos tempos, avultam as atitudes de rancor, seguidas vezes vão ser encontradas em suas personagens cercadas de atmosfera sombria feita de niilismo devastador.                  

            Encontram-se nessas memórias da vida calejada com a hostilidade   as marcas pessimistas dos gestos fornecidos pelos castigos que os pais afligiam ao filho, como bolos de palmatória, chicotadas, cascudos e puxões de orelha, prisão na loja onde convivia com as baratas, ratos e insetos. O pai e a mãe apresentavam-se grandes, temerosos, criaturas desconhecidas como se fossem seres misteriosos. O pai tinha imaginação fraca, era incrédulo, expandia a índole perversa com as surras cometidas no filho, a mais absurda a que fora exercida com o cinturão grosso. A mãe tinha uma índole carregada de sentimentos sem brandura, movidos com a dureza do cotidiano. Montava, atirava, era categórica na atitude imperiosa que comanda.

            O espírito infantil de Graciliano Ramos recolheu-se na imagem de que a mãe era uma senhora hostil, ranzinza, sempre a mexer-se com uma boca má, olhos perscrutantes que em momentos de raiva se inflamavam com um brilho de loucura. Ente difícil que na harmonia conjugal se afrouxava, amaciava as arestas, relaxava os dedos que batiam na cabeça, dobrados, tendo a dureza de martelos. Pedaços de seus gestos foram capturados pelo escritor nas rugas, olhos nervosos, boca irritada, mãos calosas, nada suaves. O pai e a mãe eram dois seres que impunham obediência e respeito com suas vozes absolutas.  

            Nesse ambiente familiar de natureza hostil era comum que ouvisse no seu recanto pancadas, tiros, pragas, ruído de espora, pisadas fortes de sapatões no piso gasto. Houvesse a voz severa que comandava com atitudes enérgicas, às vezes vinha acompanhada de um riso cavernoso, alastrava-se nos perigos ocultos alojados por todos os recantos. O medo instalava-se assim como um gigante da alma numa paisagem interior de vida iniciante indefesa, de estrutura insipiente, que hesitante sabia que era impossível se armar com o auxílio de fraquezas; por isso mesmo não podia ter o alcance de bons resultados com sentimentos leves, pensamentos doces, como confessa o escritor em trecho de suas contundentes memórias da infância. (página 10, segunda edição, 1952)

            Nesse círculo familiar, em que o céu era terrível, natural que os seres e os objetos se tornassem irreconhecíveis, absorvessem nos dias uma atmosfera difícil de fluir sem rancor, nesta circulava uma humanidade formada com aflições e dissabores. Normal que a submissão de movimentos infantis fosse uma constante, conduzida em suas circunstâncias críticas para uma composição feita de negações e inércia, como soubera com forte tristeza nas primeiras impressões que teve com a justiça através da surra tomada com o cinturão grosso.  

            Na surra terrível com o confronto desigual de forças, entre o algoz prepotente e a vítima encurralada, a parte que lhe cabia no polo passivo de um processo cruel era constituído de elementos que o atormentavam. Irrompiam das fissuras que tinham a perda de suas características humanas, destituídas do estar gregário harmonioso em família. Sem afeto e compreensão atuava no papel de réu como uma coisa insignificante, semelhando um objeto inerte, admitindo o desempenho de sua função como normal, por ser frágil, conformado quando então fosse castigado, apanhasse, tomasse surras. Na que tomou com o cinturão grosso, foi antecedida de dura mortificação com a fase preparatória, o quadro apresentava-se com particularidades impiedosas nunca vistas. Refletiam-se através do olho duro a magnetizá-lo, dos gestos ameaçadores, da voz rouca, a mastigar uma interrogação incompreensível.

 

“Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando.  E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra.” (página 31)

 

            Subalterno da voz absurda admitia que era justo o que se fazia com ele.  Na surra que tomou com o cinturão acontecera seu primeiro contacto com a justiça, colocando-o na situação irremediável de réu considerado como uma coisa reles, derrotado pela impotência. Na cela de sua passividade frequente não tinha como se opor a toda essa miserável situação adversa.

            De suas memórias infantis mestre Graciliano Ramos com um estilo realista traz imagens e figuras que marcaram os passos sem auroras. Nos movimentos de uma narrativa que não cedeu à facilidade, pouco faz concessões à esperança, suas criaturas aparecem com a marca de coisas desagradáveis.  Chico Brabo era perverso com o menino de dez anos, mas prestativo com os da rua. Era o vizinho da direita. A casa onde morava o menino ficava perto da residência da família Sabiá. Quando ele falava com o vozeirão, o bendito de D. Conceição murchava, as conversas desapareciam, o cochicho dos moleques, o rumor do abano na cozinha, o crepitar das labaredas que lambiam o angico no fogão.  Era como se o homenzarrão tivesse atravessado portas e paredes, com a cara balofa surgisse de repente junto dele, com os olhos miúdos de porco se tornasse irreconhecível na sua assombração. Parecia um bicho que apavorava, sem as gentilezas que o amaciavam na calçada e na rua.

            Uma das recordações mais desagradáveis que lhe ficaram das pessoas na infância estava em Fernando, sujeito magro, de aspecto tenebroso, impertinente, nunca fora visto sorrindo. Sua fisionomia viscosa, de coisa úmida, dava a sensação repugnante de uma lesma vertebrada e muito ágil. 

            De suas memórias marcadas pelo tom pessimista percebe-se de vez em quando que nem todas as pessoas eram dotadas de mesquinharia e rabugice. Em algumas não funcionava o grotesco como marca indelével do do caráter no difícil gesto do viver. D. Maria, a velha professora, era dona de uma serenidade que se aproximava da santidade. De Mário Venâncio via-se um literato que havia chegado à terra, alguns afirmavam que estava nele um sujeito profundo. Tinha o rosto fino como focinho de rato, alguns chegavam a dizer que era um sujeito dono de questões profundas, colaborador de jornais com artigos e crônicas, autor de livros. Esse homem apontado como dono de conhecimento sobre as questões que inquietam os humanos prenunciava para o moço um bom futuro. Via na sua escrita iniciante sinais de um Coelho Neto, nas descrições convincentes vestígios do naturalista Aloisio Azevedo. O vaticínio era repelido, mas não escondia que o engrandecia e ao mesmo tempo alarmava com a desconfiança. A vaidade esmoreceu depois quando examinou os escritos com calma pensando que a vida toda amargaria o provável engano.

            De todas as páginas escritas com a mão de mestre, nessas memórias que evocam os primeiros movimentos de um autor com a suas experiências negativas de vida, sobressaem algumas que de tão verdadeiras fazem pensar que a vida é inviável quando se move com a insensatez dos desarranjos, má vontade, conflito, soluço. Entre aquelas que chegam impregnadas desse conteúdo pelo avesso, destacam-se como páginas de análise arguta da natureza humana, resultantes de uma narrativa singular, concisa e revoltante, por exemplo, “Um Incêndio”, “Um Enterro” e “Venta-Romba”.     

            Em “Um Incêndio”, o menino vai com o amigo José conhecer um incêndio nas cabanas pobres com a cobertura de folhas de Ouricuri.  Tinha conhecimento até aquele momento do fogo com suas pequenas labaredas quando se cozinhava a comida no fogão a lenha ou nas fogueiras de São João.  Fogo imenso com labaredas altas e fumaça impelida para o céu como uma nuvem cinzenta, densa, nunca lhe ocorrera na visão. Daí a decepção quando encontrou os tocos de uma cabana queimada pelo fogo. Teve a atenção chamada pelo grupo de pessoas que se lamentavam em torno de   um resto de gente, um torrão sem braços e pernas, a cabeça queimada, o rosto como uma careta feia na qual pelos buracos dos olhos desciam uma gosma nojenta. Era de uma menina preta que havia morrido queimada no incêndio.  Havia duas meninas pretas que estavam cozinhando a comida na cabana enquanto os pais trabalhavam no eito. A centelha do fogo que saltara do fogão a lenha pegara nas palhas da cobertura do barraco. Uma das negrinhas fugiu, a outra ficou tirando de dentro da cabana as coisas que achava como importantes.  Quando pensou que conseguira salvar todas as coisas tidas como importantes, lembrou-se da litografia de Nossa Senhora. Ao tentar sair do barraco em chamas com a litografia da santa encontrou a porta da entrada bloqueada pelo fogo.

 

“Curvei-me num arremesso de coragem. Faltava-lhe o cabelo, faltava a pele – e não havendo seios nem sexo,  perdiam-se os restos da animalidade. A superfície vestia-se de crostas, como a dos metais inúteis, carcomidos no abandono e na ferrugem. Em alguns pontos semelhava carne assada, e havia realmente   um cheiro forte de carne assada; fora daí ressecava-se demais.” (Pág. 83)

 

           Distinguiu uma cara, melhor dizendo, sobra de cara, máscara pavorosa, e retornou para a sua casa com a imagem horrível daquela visão, arrependido de ter aceito o convite para conhecer um incêndio. Amaldiçoava   o amigo, que o expusera à tamanha desgraça. Durante o dia voltou a mencionar a visão com o restante de um corpo de gente, a descrevê-la nos detalhes, enojado. Responsabilizou Nossa Senhora como autora daquela agonia sórdida.  Se a criatura não tivesse a ideia de salvar a imagem, estaria  cortando palma de Ouricuri para fazer nova cabana. As pessoas grandes refutaram o seu modo de julgar a situação inconveniente. Nossa Senhora não era uma figura feroz e impiedosa. Podia ser pior. O fogo poderia ter comido um dos prédios importantes do comércio local. Escolhera a negrinha para que alçasse ao céu, sem precisar passar pelo fogo do purgatório.  Não lhe convenceu o argumento com a benesse estranha ao drama.  Não lhe pareceu que o fogo do purgatório tivesse a ver com o do incêndio que matou a negrinha. E a negra, imunda e com um defeito de cor, não estava no céu.

 

 “Que ia fazer lá? Estragaria as delícias eternas, mancharia as asas dos anjos”. (pág. 86)

 

         Nessas memórias infantis tomamos conhecimento de vivências amargas que serviram ao escritor para construir na sua ficção regional destinada ao leitor adulto uma atmosfera angustiante coberta de sombras. O gosto pela literatura provavelmente herdara do avô paterno, de quem tinha um retrato velho no álbum guardado no baú. A propósito, ele próprio admitia ter recebido desse avô a vocação que se alimentava do ócio e das coisas que não servem para nada.  Em Buíque, na primeira escola, provou os primeiros desconfortos dos livros didáticos do Barão de Macaúbas. Mudou-se para Viçosa, depois passou para Maceió onde frequentou um colégio de má fama, que lhe deu momentos da vida sem bons predicados.  Retornou e, aos 18 anos, foi morar em Palmeira dos Índios, no interior de Alagoas, onde se tornaria prefeito. Graças a dois relatórios que escreveu se tornou conhecido. Os documentos, provenientes da gestão municipal com a marca de sua escrita precisa, deram a entender que ali havia um escritor promissor, inclinado para largas expressões, voos altos.  

           Já foi dito que a vida é sofrimento. Sofremos é porque estamos na vida. Toda boa literatura tem sofrimento. Graciliano Ramos escreveu uma obra magnífica como conhecimento da vida, haurida no Nordeste sem o verde, seco, desamparado, que confirmam essas observações. Faz lembrar por isso o que a literatura tem de catarse para libertar-nos das ruas ásperas, calcinadas, de paisagem sombria em que andamos.   Neste sentido, o poeta William Blake adverte que nunca se deve deixar de sonhar porque só nos sonhos pode ser livre o homem.


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