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sábado, 18 de novembro de 2023

Consciência Negra e a Luta pela Igualdade Racial 

Sione Porto

 


O importante Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro, em homenagem à morte do lendário Negro Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, teve como fato impulsionador o resgate à memória dos tempos de luta incansável do povo negro pelas igualdade e liberdade raciais.

O Quilombo de Palmares surgiu no final do século XVI e se situava na Serra da Barriga, Capitania de Pernambuco, atualmente território do município de União dos Palmares, a 80 km de Maceió, capital de Alagoas.

Dele, destacou-se o Negro Zumbi, entregue ainda criança pelos portugueses ao padre Antônio Melo, que lhe ensinou os Primeiros Sacramentos e o batizou com o nome cristão Francisco, mas que retornaria ao quilombo para se tornar um grande guerreiro e um dos maiores representantes da resistência negra contra a escravidão que vigorava no Brasil Colônia, razão pela qual nada mais justo do que esse resgate que o Dia da Consciência Negra proporciona em sua memória.

Lutando bravamente por seus ideais de igualdade e de liberdade, Zumbi, casado com Dandara, resistiu à pesada artilharia dos portugueses em campanhas contra o Quilombo dos Palmares de 1680 a 1694. Entretanto, em 20 de novembro de 1695, ao ser traído por um dos seus comandantes, Antônio Soares, Zumbi foi morto, sendo seu corpo esquartejado e exposto em praça pública de Olinda. Essa data viria a ser instituída em 2003, por um lei federal, como o Dia da Consciência Negra.

O preservado Sítio Histórico dos Palmares, onde Zumbi viveu, foi reconhecido pelo governo federal em 1980 e até hoje nos premia com a beleza singular do local, onde, além do Observatório, temos um magnífico viveiro e trilhas exuberantes. Ali, cerca de 20 mil habitantes viveram, amaram, ensinaram as suas crenças, a sua cultura, e resistiram contra a escravidão, mesmo sofrendo cruéis e trágicas retaliações.

O certo é que o alijamento da escravidão no Brasil e no mundo repercutiu por séculos, envolvendo os interesses da monarquia, elites aristocráticas e senhores de engenho de açúcar e café, principais recursos da época, mas até hoje persistem os resquícios dessa tragédia em forma de racismo, preconceito e intolerância que a sociedade brasileira e a mundial precisam enfrentar.

Racismo é um câncer que deve ser extirpado da nação brasileira. Infelizmente, vê-se em todos os setores da atividade humana, como no esporte, educação, saúde, jornalismo, trabalho, arte, cultura, cargos de poder e gestão pública e privada, enfim, na vida em sociedade.

Ainda assim, temos corajosas figuras que se destacam ou se destacaram por seu talento e combatividade, como o jogador Vinícius Júnior, os cantores Gilberto Gil e Seu Jorge, o escritor


Machado de As
sis, o advogado e escritor Luís Gama, o professor e geógrafo Mílton Santos, o ex-lutador Anderson Silva, o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, a jornalista Glória Maria, a professora e escritora Conceição Evaristo, entre tantas personalidades negras da nossa história. 

O Dia da Consciência Negra é oficialmente no dia 20 de novembro, mas a luta é diária e ao longo de todo o ano. É uma luta não só do povo negro, mas de toda a sociedade brasileira, linda, alegre, trabalhadora e miscigenada

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Sione Porto é membro da Academia de Letras de Itabuna (Alita)

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quarta-feira, 15 de novembro de 2023

 

O aluno e a professora

 Conto de Cyro de Mattos

 


As batidas na porta soam insistentes.

 - Quem está aí?

- Seu aluno.

- Quem mesmo?

 - Erinaldo Gazinho.

- A essa hora da noite?

- Abra essa porta e deixe de fazer perguntas.

- Você continua com essa loucura?

- Abra logo e não se faça de rogada.

- Você não vê que isso é impossível de continuar?

- Você gostou desde a primeira noite, não gostou, Marião?

- Você tem idade de ser meu filho.

- Isso não importa.

- Tenho 48 anos de idade e você 16. Tenho idade de ser sua mãe. E você diz que isso não importa.

- Juramos não ligar para isso.

- O preconceito lá fora fala mais alto.

 - Não ligo para o que falam por aí.

 - E como eu fico?

Ele começa a perder a paciência.

- Abra a porra dessa porta antes que eu bote abaixo.

- A diretora ameaçou me despedir do colégio, se essa loucura entre nós dois continuasse.

 - A diretora que vá se meter com a vida dela. Todo mundo no colégio sabe que ela é uma chata, uma mulher mal dormida, não vive bem com o marido.

- Seus pais não aceitam. Os vizinhos também não. Ninguém aceita este tipo de relacionamento que temos. O mundo não perdoa.

- Meus pais não podem fazer nada. Desistiram de aconselhar para que eu deixe você.

- É complicado enfrentar essa onda toda contra nós dois.

- É não ligar. O que vale somos eu e você.

- Essa cidade é muito pequena. Todo mundo conhece todo mundo.

 - E daí?

 - É uma vergonha, disse a moça do caixa na farmácia, depois que paguei o remédio que comprei para curar uma dor no ouvido, saindo de lá apressada e nervosa.

 - Vergonhoso é quem não faz o que gosta e não enfrenta os que são do contra.

- Vá embora, meu menino, os vizinhos estão ouvindo tudo.

 - Pode até a cidade toda saber que estou aqui do lado de fora implorando para entrar e nunca mais sair de junto de você.

A garoa dá lugar a uma chuva grossa. Ela começa a ficar preocupada.

 - Essa chuva pode lhe fazer mal, meu menino. Vá embora e não insista.

 O primeiro pontapé na porta faz trincar a fechadura,

 - Vai abrir ou não vai essa porta?

- Tenha juízo, meu menino. Vá pra casa.

          Vários pontapés seguidos fazem estremecer a porta. Agora relâmpagos e trovoadas cortam a chuva grossa, que cai do céu escuro sem parar. Numa fúria incontrolável, ele começa a bater na porta e desferir mais pontapés.

 

Ela tem pena. E resolve socorrê-lo.

 - Entre, meu menino. Não precisa se zangar mais. Vou lhe enxugar. Tire essa roupa molhada.


 Em pouco instante eles estão debaixo da coberta de lã. Os corpos conversam com juras de amor. Soltam gemidos. Gritos estridentes, Os relâmpagos e as trovoadas não conseguem abafar esses gemidos intensos dela. Esses gritos mais fortes dele.

Semanas depois, ela vai morar numa cidade distante. Nunca mais ele teve notícias dela. Quando soube, ele foi ficando cada vez mais triste. Deixou de ser um aluno aplicado. Não se acostumou com a nova professora de geografia. Ela tem pouco mais de 23 anos de idade. Quando olha para ele, mostra-se com aquele ar de piedade no rosto rosado. Não entende como a vida gosta de armar situações difíceis de aceitar. Embora alguns achem que o amor não tem limite, quando aceso seu fogo pode virar fogueira e incendeia de cada centelha.

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Cyro de Mattos é autor de 67 livros pessoais, de diversos gêneros. Publicado também em Portugal, Itália, Espanha, França, Alemanha, Dinamarca, Rússia, México e Estados Unidos. Conquistou com Os Brabos, novelas, 1978, o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, Menção Honrosa do Jabuti, 1988, com Os Recuados, contos, o Prêmio de Romance do Pen Clube do Brasil, com Os Ventos Gemedores, 2017, e o Prêmio Internacional Casa de las América, 2023, para Infância com Bicho e Pesadelo e Outras Histórias. Membro das Academias de Letras da Bahia, de Itabuna e de Ilhéus. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia). Medalha Zumbi dos Palmares da Câmara de Vereadores de Salvador e Comenda Dois de Julho da Assembleia Legislativa da Bahia.

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sexta-feira, 27 de outubro de 2023

 

O Autor e o Leitor *

Cyro de Mattos 

 


            Primeiro foi o leitor, tempos depois veio o autor, ambos os dois persistem até hoje, o segundo com mais intensidade, em diversos gêneros, a estrada a essa altura comprida. Adotado na escola e universidade. Com reconhecimento e distinções relevantes.  Primeiras leituras da infância foram em almanaque de farmácia e revistas em quadrinhos, ler era então simples passatempo. Vício entre o trivial e a aventura com os meus heróis imbatíveis: Homem Submarino, Batman, Mandrake, Fantasma, Capitão Marvel, Tocha Humana e Durango Kid. A galeria de heróis ampliava-se aos domingos, na matinê do único cinema da cidade. Na tela do Cine Teatro Itabuna: Tarzan, Falcão do Deserto, Roy Rogers, Flash Gordon e Robin Hood, dentre outros.

            Descobri Monteiro Lobato graças a seu Zeca Freire, o dono da farmácia. Ele me emprestou dois livros de Monteiro Lobato, As Caçadas de Pedrinho e A menina do nariz arrebitado. Logo percebi que aquele autor vinha para ficar no coração da garotada, com novas vozes do mundo, novas cores do sonho.

            Ao retornar das aulas do ginásio na pequena cidade, passava na livraria e papelaria A Agenciadora, que ficava na rua do comércio. Lá fui encontrando, aos poucos, Júlio Verne, Edgard Allan Poe e Charles Dickens. A leitura iniciante do menino do interior ia se enriquecer na Capital, para onde o pai o enviara sob a expectativa de ver mais tarde o filho se tornar um advogado. Lá costumava visitar a biblioteca pública do Estado e a do Colégio da Bahia (Central) e, quase todos os dias, passava na Livraria Civilização Brasileira, na Rua Chile. O estudante buscava nas bibliotecas, livrarias e “sebos” aquele espaço onírico que o prazer da leitura proporciona entre descobertas e sustos, carícia e emoção. O vício da leitura vindo da infância passava a ser um hábito, introduzindo no momento jovial uma prática social do indivíduo que é impelido a usufruir um objeto tecido com os sinais visíveis da escrita.

            O ato de ler me faz pensar numa série de observações e sensações, gradações e variações próprias da natureza humana. Ninguém escreve um livro para ficar no fundo da gaveta, por mero diletantismo, razão pela qual não se separa os dois termos da equação livro e leitor. O que pode acontecer é que o autor de livros não passa de um incompetente usuário da palavra mítica e frustrado inventor de poemas ou peças de ficção. Por isso mesmo não fica, nasce morto, não conquista prêmios literários condignos, não possui leitores, seus textos em livro não recebe a atenção da crítica especializada. Evidente que esse tipo de autor não conta.

            O livro como um objeto tecido de elementos que buscam alcançar o leitor não é uma abstração teórica para ocupar tão somente a experiência pessoal do autor numa aventura intelectual. Inventada a história ou produzido o poema, cujo texto materializa-se no objeto escrito, o autor não mais exerce domínio sobre a sua ilusão em forma de linguagem, de um código cifrado no qual entram signos e símbolos. No ato de criar buscou a si e o outro, o apelo do pensamento não pode ficar indiferente. Há que pulsar em sentimentos e gestos, armadilhas e descobertas. Porejar nesse pacto íntimo em que se manifestam situações coincidentes, lembranças, afinidades, recusas, enfim, um relacionamento forte a circular em muitos casos como paixão, ao mesmo tempo que oscila em seu vaivém intervalar entre o amor e o ódio.

            O que se espera dos que escrevem um texto literário? Domínio da língua e facilidade em organizá-la ou reinventá-la como linguagem de expressão pessoal. Habilidade no uso dos meios para a criação de uma obra de arte, no caso a obra literária.       E, ponto essencial, capacidade para repercutir no outro o que é dele próprio, pensamento e emoção. O conteúdo fica por conta do interesse suscitado pela história inventada ou sentimento de mundo sugerido na ideia fixada através de uma forma eficaz.

Por uma necessidade obsessiva de manifestar pulsões vitais profundas, para conhecer a vida e transmitir o saber inconsciente, dizer o mundo além da superfície, fundá-lo, transformá-lo, escreve-se nesse gesto de solidão solidária, de sacrifício, mas que também dá prazer.  O parto se faz sofrido, entre sombras e ânsias, numa profissão de fé e amanhecer fundamental. O fluxo criativo emerge da tensão no drama, também  da escrita  com  ternura, graça, ludismo, ritmo fácil para fazer alegrias, trazer risos, tão necessários.

            Ler é colher no texto tudo o que foi escrito. É gostar, ver e sentir. Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê. É se deixar invadir pelo espetáculo da vida posto de maneira atuante através da palavra sensível no texto cheio de significados. Há vários tipos desse personagem que sem a sua participação o livro é coisa morta. Sem circular com o leitor, o livro fica impedido de ampliar suas potencialidades de ver o mundo.

Para o leitor desavisado, comum, sem hábito e intimidade com questões estéticas, de linguagem e técnica, evidente que lhe interessa o livro  com um conteúdo de captura fácil. Este tipo de leitor é também importante, apenas difere daquele que busca os pontos essenciais da vida postos no texto.  Difere apenas no lugar que ocupa no ato da leitura. Para o outro tipo de leitor, o ato da leitura não é simples passatempo e prazer.   Decorre da própria dinâmica da vida, dado que texto e homem estão sempre rompendo os limites no prodígio do existir. Para esse tipo de leitor, agora o ato de leitura é uma maneira de escolher a finitude e a grandeza da nossa condição humana. Já não há apenas passatempo e prazer, mas percepção do mundo de forma aguda, modo de revelar-se e impor-se através de uma abertura, sondagem e direção entre infinitas possibilidades vitais, encontro com os sentidos ampliadores de sua dimensão existencial. A leitura para ele pertence a três objetivos básicos do conhecimento: a amplitude, a profundidade e a utilidade. É aliada do autor numa cumplicidade mútua, o privilégio da fruição é substituído pelo da recepção em níveis mais largos. A obra literária não é uma companhia silenciosa, mas acontecimento que repercute a seu lado. Ela abre a sua alma, fala enquanto ele se fala, lê e se lê. Sentidos imaginados e ideias compreendidas num pacto íntimo, emoção e pensamento em vários graus de intensidade, coincidentes ou não.

            Um terceiro tipo de leitor percebe-se naquele que escolhe elementos e ideias para uma operação crítica do texto. Separa, descobre, aprofunda, revela caminhos e prodígios que o leitor comum, e até mesmo o consciente de certos sentidos estéticos, não percebe na obra. Refiro-me aos críticos e aos professores de literatura. Necessários, em seus estudos e comentários, critérios explicativos e análises qualitativas, à compreensão do texto literário, através dos elementos que expressam a vida por meios de palavras polivalentes com sua feição mítica.

            A leitura de um texto literário requer uma radical modificação em nossa maneira de ver e sentir o mundo. Costuma-se dizer que o gosto pela leitura se adquire pelo hábito de ler. Lento é o aprendizado que vai capacitando a romper com limitados conceitos de vida e predispondo a aceitar outras formas de manifestar o pensamento, dizer o mundo sem ser superficial. Penso que a mais profunda finalidade da arte literária seja a de colocar o ser humano em permanente reintegração e participação com a sua humanidade.

            O ato de escrever que se completa com o de ler, enquanto concordância de verdade e beleza, vínculo de gravidade e jogo, equilibra a vida. Torna o viver suportável, essencial, útil, solidário e cativante. Digam que o fato político comanda o mundo. O econômico determina o indivíduo no seu dilema de ser animal faminto e sedento. Dado ser impossível a apreensão total da vida por qualquer forma de conhecimento, só restando captar a sua realidade por via indireta, impõe-se que para representá-la de modo mais abrangente o fato de usar as palavras polivalentes como meios de expressão. Depreende–se então que só a palavra tem o poder de construir verdades essenciais com metáforas, símbolos, alegorias e parábolas. Ou desfazer mentiras com impressões, emoções, sentimentos, que o autor logra extrair da vida.  Nessa perspectiva, das rupturas em aceno como possibilidade do amor, em diálogo consciente com o mundo, só a palavra no texto literário, como expressão do eu consciente mais o outro mais o mundo, enriquece e não toma. Com suas mentiras verdadeiras produzidas na mente do autor, na alquimia do espírito, ao leitor oferta as mais amplas possibilidades de conhecer o eu e suas circunstâncias críticas. 

            Vale a pena repetir quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê. Pouco sabe dos múltiplos significados que, sob a superfície dos seres e objetos, desvendam os lados escuros no mistério da vida.


*Resumo da palestra proferida no Projeto “Encontro com o Leitor”, no “Encontro Estadual do Programa Nacional de Incentivo à Leitura Pró-Ler”, promovido pela Fundação da Biblioteca Nacional, Casa da Leitura-MINC e Rede de Leitura da Bahia, realizada no auditório da Faculdade de Direito da UFBa., em Salvador, 1997. 

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sábado, 21 de outubro de 2023

O Amigo Jorge Amado 

Cyro de Mattos                                             .    



 

              Enviei o primeiro livro que escrevi para Jorge Amado, seguindo conselho do amigo João Ubaldo Ribeiro, companheiro de geração. Não esperava que viesse alguma opinião dele sobre o meu pequeno volume de contos, riscado anos depois de minha bibliografia por ter sido escrito por autor imaturo. O texto envelheceu cedo. Fiquei surpreso por ver um livro de autor desconhecido ser apresentado à Academia Brasileira de Letras com palavras favoráveis do consagrado romancista Jorge Amado.  

             Outros livros meus foram merecedores de artigos com elogio por parte de Jorge Amado. Eram opiniões impressionistas, mas abonadas com a sensibilidade de quem mais conhece os caminhos do fazer literário na recriação da vida. E mais: ele publicava os artigos que escrevia sobre meus livros em jornais importantes como A Tarde, Jornal de Letras (Rio), Suplemento do Jornal do Brasil, Jornal do Comércio (Rio) e Suplemento Literário de Minas Gerais.    

            Esses gestos do criador de Tocaia Grande (Record,1984) aconteceram com outros escritores, emergentes, com obra em andamento, consagrados, baianos ou não. Ele sempre enriquecia o companheiro de letras com suas opiniões, sem esperar nada em troca. Prefácios, orelhas, artigos, depoimentos, apresentações à Academia Brasileira de Letras, um legado literário da melhor qualidade está aí espalhado com o abono do escritor tão lido e traduzido em língua portuguesa sobre livros de nossos escritores. Textos que formam um valioso legado, se coligidos, servindo como importante contribuição à nossa literatura.                

               Com João Ubaldo Ribeiro era diferente. Certa vez, o autor maiúsculo do romance Viva o povo brasileiro (Nova Fronteira, 1984), disse-me que não escrevia prefácio ou   artigo para quem recorresse aos seus préstimos porque podia não gostar do livro e aí o suplicante, que certamente queria receber elogio, poderia com a sua sinceridade se tornar um inimigo dele. Além disso, não queria se desconcentrar de seu ofício, sempre estava escrevendo um livro ou texto, não ia deixar de lado o que estava escrevendo e centrar-se sobre quem devia abrir seus próprios caminhos com suas ferramentas e crenças, sem se apegar na muleta alheia, mas acreditando nas suas qualidades.  

         Neste sentido, sempre concordei e respeitei as atitudes de João Ubaldo. Ele se tornou um dos meus amigos prediletos, criatura do bem, espírito alegre, colega inesquecível da turma de 1962, na Faculdade de Direito da UFBA. Nunca quis me aproveitar de meu bom relacionamento com o consagrado ficcionista e receber dele a opinião favorável de meus escritos. Fiz minha carreira literária com os meus textos publicados em livros, meus prêmios relevantes, que tornaram minha obra com mais visibilidade. Enviei em vários casos os originais de meus livros para as editoras, sem temer que fossem aprovados ou não para publicação, depois da leitura crítica do conselho editorial.   

       Ao escrever sobre Palhaço Bom de Briga (L&PM Editores, 1993), um dos meus livros para as crianças, em artigo publicado em forma de missiva, dirigida ao romancista Josué Montelo, então presidente da Academia Brasileira de Letras, Jorge Amado chegou ao ponto de lembrar meu nome para fazer parte daquela importante instituição das letras brasileiras. Houve exagero. Só mesmo Jorge, com o seu coração doce como mel de cacau, podia distinguir assim meu nome, em gesto que comovia, servia como incentivo para que eu nunca desistisse em minha jornada literária. Embora eu já fosse autor nessa época de mais de vinte livros, entre volumes de contos, poesia e literatura infantojuvenil. Havia conquistado alguns prêmios literários importantes e, entre eles, o Prêmio Nacional Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, por unanimidade, para o meu livro Os Brabos (Civilização Brasileira, 1979), o da Associação Paulista dos Críticos de Artes para O Menino Camelô (Atual Editora, 1992, 12ª. Edição), Menção Honrosa do Jabuti para Os Recuados (Editora Tchê!1987) e várias vezes fui agraciado com o primeiro lugar nos certames  promovidos pela União Brasileira de Escritores (RJ).            

          Jorge Amado exercia a amizade como uma coisa nata, tão dele. E me mostrava sempre que com as mãos nas mãos, o gesto desprovido de interesses pessoais, desligado da religião do egoísmo, tudo fica mais fácil. Com ele não entravam no exercício da vida a inveja e a intriga. Dava-me conta por isso que existia ainda o homem simples como o artista, embora fosse comum encontrar na vida o artista vaidoso e invejoso como o homem.  

          Dizia-se ateu, ele que era cristão porque fraterno, solidário, sincero, humaníssimo. Que coisa muito triste, a vida física de Jorge ter acabado. E tanta gente ruim existe neste mundo velho agindo sempre para fazer o mal porque habita nos lados escuros da vida. Gente com a alma venenosa, às vezes quando tem o poder da mídia nas mãos gosta de fazer o outro como seu refém por puro prazer ou para infundir medo ou para, excluindo as qualidades do ofendido, se afirmar com seus ressentimentos  

          Ainda bem que Jorge Amado deixou para milhares não o irracional como norma de comportamento, a perseguição canina das negações que infunde o medo, mas a esperança nas narrativas que mostram as verdades essenciais dos excluídos ligados à comédia da vida. Esse que nasceu numa pequena fazenda em Ferradas, bairro mãe de Itabuna, passou a infância e juventude em Ilhéus para ser um bem-amado cidadão do mundo com seus belos romances, em inacreditável peripécia porque assim devia ser.     

          Que privilégio ter sido amigo de Jorge Amado.  

 

Cyro de Mattos -Escritor e poeta. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

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quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Conversas de ½ MINUTO (31) ‒ Médicos

José Paulo Cavalcanti

 


Mais conversas, hoje só com médicos, em livro que estou escrevendo (título da coluna). ANA VASCONCELOS, advogada. O médico olhou para ela com olhos de pena

‒ Você tem câncer, Ana.

‒ Qual o tratamento?

‒ Nenhum, infelizmente.

Decidiu ir a São Paulo e junta, com mais quatro médicos, confirmou esse diagnóstico. Melhor voltar e morrer no Recife. Só que não conseguia suportar essa espera e decidiu abreviar sua história. Melhor o fim do espanto que um espanto sem fim. Como não tinha coragem para se jogar de um edifício, ou dar tiro na cabeça, escolheu fazer isso dentro de seu carro. Entre segunda e terça, madrugada (sem ninguém na rua para ser atropelado), em reta que começava na Ponte Giratória e findava em muro de concreto, grosso, da Marinha, no Porto do Recife. Lugar perfeito para um acidente automobilístico. Acelerou o velho Gol até chegar a velocidade máxima. Os braços, ao segurar o volante que tremia, estavam já dormentes (foi quando percebeu que morreria sem dores). E viu aquele muro se aproximar. Faltava pouco. Só que um pneu voou e o carro começou a dar voltas. Sem capotar, sorte dela. Até que parou. Saiu, era inacreditável, estava de frente para o tal muro. A menos de um palmo. Então pensou

‒ É coisa de Deus. Ele não quer que eu morra e me trouxe aqui para dizer qual missão reservou para mim. Olhou em volta e viu que, ali, havia só marinheiros e mulheres tentando sobreviver. Seu público não seriam aqueles marinheiros, com certeza. Decidiu criar uma instituição memorável, a Casa de Passagem – dedicada a abrigar, proteger e ensinar ofícios dignos a prostitutas que eram depois colocadas no mercado de trabalho. E Ana bem, sem mais notícias do tal câncer. Enquanto começaram a morrer os médicos que deram aquele diagnóstico. Na última vez que a vi disse, brincando,

‒ Ainda não morreu?, amiga.

‒ Que nada, Zé Paulo, e já decidi, só morro depois de enterrar os cinco médicos que me condenaram.

‒ Até agora... ‒ Quatro já foram. Só falta um.

CARLOS ROBERTO MORAES, cirurgião cardíaco. Pierre Gondim, em Londres, lembrou

‒ Há dois tipos de cirurgiões: os que bebem e os que já beberam o suficiente.

* * *

Me perguntou

– Quantos charutos você fuma?, por dia.

– Só um. Mas todo charuteiro mente muito.

ELIAS SULTANUM, santeiro. Comprou casa velha junto ao Mercado da Ribeira (Olinda). Já morando nela, começou uma reforma. Só que passou a ouvir uma barulheira que não tinha fim. Na quarta noite sem dormir, foi até o meio da escada e anunciou

– Atenção, senhores fantasmas, acabaram as reformas. A casa fica do jeito que está.

Em seguida, foi para o quarto e dormiu bem. Fim das reformas, fim dos barulhos. E ninguém, até hoje, conseguiu explicar o que aconteceu.

Dona JOANINHA, doméstica. Quinta-feira. Maria Lectícia informou que acabou bem uma operação de minha mãe. No ombro, sem riscos. Disse que estava no quarto 405 do Hospital Santa Joana e completou lembrando que já recebia visitas. Tradução, era para ir. Logo. Manda quem pode (ela), obedece quem tem juízo (eu). Ou pensa que tem, o que dá no mesmo. Não sei como, entendi Hospital Português. Errado, claro. Parei longe, calor danado, enfrentei fila no elevador, até que cheguei no quarto andar. Quando abri a porta do 405 lá estava mulher, com certeza cliente do SUS, que me olhou assustada. Ao perceber o endereço errado, e para não perder a viagem, disse

– Mamãe!!!

– Eu não sou sua mãe, não.

– Mãe desnaturada, que não reconhece o filho.

– Tenha calma, senhor. Vamos conversar. O que lhe faz acreditar que sou sua mãe?

– É simples. Minha mulher disse que mamãe estava no quarto 405. É esse. Logo, a senhora é minha mãe.

– Está errado. Pode acreditar que não sou sua mãe.

Ficamos conversando por bom tempo. Disse que podia lhe chamar de Joaninha. Contou sua vida simples, sem eventos notáveis, igual à de tantas. No fim, desejei melhoras e fui saindo. Quase na porta, ela gritou

– Meu filho!!!

Achei graça e respondi – O que é?, mamãe.

– Volte amanhã para conversar que vivo aqui tão sozinha.

Dia seguinte, sexta-feira, mandei uma cesta com frutas. E, segunda, retornei ao hospital. Para conversar, como pediu. Abri a porta, o quarto estava já vazio. Não tive coragem de perguntar o que havia acontecido com ela e fui embora, rezando que estivesse em casa. Beijos, dona Joaninha.

JOEL DATZ, um dos "irmãos eventos" – conhecidos, no Recife, por irem a todas as recepções, de batizados a conferências. Vinha caminhando pela Manuel Borba quando sentiu dores típicas de um enfarte. Como estava bem perto de unidade do SAMU, em frente ao antigo Cine Boa Vista, foi andando até lá

– Estou tendo um enfarte e preciso que me levem, de ambulância, para o Procape (onde acabaria morrendo, só que muitos anos depois).

– Impossível, senhor. Que, segundo nossos regulamentos, só podemos atender casos por telefone. E fica tudo gravado. – Mas vou morrer aqui, na sua frente?

– Infelizmente, vai. Foi quando viu, do outro lado da rua, um orelhão. E seus bolsos viviam cheios de fichas (num tempo em que ainda não havia celulares). Foi até lá e ligou.

– É do SAMU?

– Sim.

– Estou tendo um enfarte. Podem me levar para o Procape?

– Claro, senhor, onde está?

– Bem na sua frente.

LUZILÁ GONÇALVES, escritora. Madrugada, ligou amiga pedindo ajuda que o marido estava quase morto. Luzilá teve que ir a colégio de freiras que acolhiam padres. Encontrou um, já bem velhinho, e disse que precisava dele para dar a Unção dos Enfermos. Tudo acertado, inclusive o preço. Mas o velho quis tomar café, antes de partir. A freirinha que lhe atendeu, com toda paz do mundo, preparou tapioca e cuscuz que ele comia com prazer. Sem pressa. E o tempo ia passando.

– Padre, queria lembrar que o homem está se acabando.

– Tenha calma, filha, Deus é paciente.

– Deus eu sei que é, padre. Só não estou certa é que o doente queira esperar tanto tempo.

Afinal, chegaram no apartamento. O padre leu Breviário e belo Ofício aos Mortos. Diante de um paciente largado na cama, lívido, com os olhos fechados. E todos rezando. Ocorre que, de repente, o quase defunto deu um pulo

– Que merda é essa?! A gente nem pode mais dormir em paz?!!, porra!!!

Em resumo, o homem estava era de porre. Coma alcoólico. Foi só engano da quase viúva.

MARIA DE JESUS ALVES, cirurgiã. Começou a operar, no Hospital Getúlio Vargas, criança com a perna quebrada por conta de um atropelamento. A avó chegou apreensiva, na portaria, e pediu informações de como estava seu neto William. O médico Octávio (filho de Geninha e Baby) Rosa Borges respondeu

– Está lá em cima (no quinto andar, onde ficava o bloco cirúrgico), nas mãos de (Maria de) Jesus.

E a velha quase morreu do susto.

MIGUEL SOUZA TAVARES, escritor. Seu bisavô, Thomás de Mello Breyner, 4º Conde de Mafra, Catedrático de Medicina e médico pessoal do rei, era diretor do Hospital São José. E, lá, enfermeiras formalizaram uma reclamação

‒ Os estudantes ficam passando a mão em nossas bundas. Exigimos providências.

‒ Perdão, mas não vejo solução possível para o problema, enquanto os estudantes tiverem mão e vocês tiverem bunda.

OSCAR COUTINHO, clínico geral. Provocando, me disse

– Está pensando que Medicina é fácil como Direito?

– Pode até não ser, amigo. Mas tem uma vantagem, e grande. Erro de advogado fica no processo; enquanto, o do médico, a terra come.

Jornal do Commercio de Pernambuco, 28/09/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/conversas-de-12-minuto-31-medicos

 

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José Paulo Cavalcanti - Nono ocupante da Cadeira nº 39, eleito em 25 de novembro de 2021, na sucessão de Marco Maciel e recebido em 10 de junho de 2022 pelo Acadêmico Domício Proença Filho.

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domingo, 15 de outubro de 2023

A vitória do menino

Cyro de Mattos


 

         A mãe dizia que aqui na vida tudo tem sua hora para acontecer e seu lugar para ser ocupado pelos seres e as coisas. Estava perto de receber o resultado do exame de admissão quando saberia então se seria aprovado. A expressão de confiança no rosto do menino denunciava uma esperança inabalável, motivada por tudo que veio sendo construído durante o ano inteiro, com os seus pensamentos direcionando-se para a realização da conquista tão desejada.  Chegava a sorrir de contente, da certeza que tinha agora da vitória prestes a acontecer, só pensando em chegar logo à sua casa para dividir a expectativa da vitória com os pais. A autoconfiança tomava conta da expressão do rosto, os contornos nítidos formando um desenho vibrante da vida, na medida em que apressava os passos, o corpo como se fosse de um passarinho, voando no chão. Sentia-se leve, imune a qualquer tipo de dúvida ou preocupação que pudesse surgir entre as noites tranquilas, horas de entrega na preparação. Tudo o que era desafio, incentivando-o sempre, parecia prestes a ser superado, enquanto esperava o resultado do exame de admissão.

         Mas à medida que o dia avançava na manhã clara, um sentimento desconhecido começou a se infiltrar em sua alma. A sombra da dúvida começou a se espalhar, confundindo aquela certeza inicial. O sorriso que antes brilhava em seu rosto agora se contorcia em uma expressão de insegurança. A lembrança da exigência de seu pai e o medo de decepcioná-lo começaram a pesar em seus ombros, transformando a alegria da manhã em uma tarde sombria. 

         Nunca o domingo fora tão ambíguo para ele como no começo desse mês de dezembro. O brilho do sol, que antes envolvia as coisas com um toque de magia, leveza e graça, agora lançava sombras que se confundiam com seus sentimentos conflitantes. E, nesse momento conflituoso, que o fazia oscilar nas ondas da dúvida, a vida se mostrava complicada e imprevisível, fazendo-o temer ante ao que antes considerava inquestionável.  A reação do pai, uma vez pilar de apoio que o fazia seguro, agora se transformava em um espectro amedrontador, e o medo da reprovação tornava o desejo de saber o resultado um grande tormento.

         Da pequena balaustrada de onde se via o pátio do colégio, a diretora   tocou o pequeno sino várias vezes, chamando os meninos e as meninas para tomar conhecimento do resultado no exame de admissão. Observara que só ia chamar o nome do candidato que tivesse sido aprovado.  Os candidatos eram muitos, vários vieram das roças onde moravam com os pais, de vilarejos perto ou de cidades vizinhas, menores do que a sua, dividida em duas partes pelo rio manso na descida quando era tempo de estio.

         Meninos e meninas aglomeravam-se no pátio do colégio, alguns estavam acompanhados da mãe. Todos em silêncio, aguardando, ansiosos, o resultado do exame de admissão, vários com aquela cor de medo no rosto, presos ao que daqui a instante seria anunciado pela voz da diretora do ginásio.  

          Fez um esforço para que as pernas não tremessem, mas não conseguia dominar o friozinho que dava na barriga.  De repente, o que era uma nebulosa dentro dele, num lance feito de emoção indescritível, transformou-se numa luz forte que clareou tudo dentro, repercutiu na alma como uma vibrante canção salpicada de notas alegres. E notas dessa canção, que chegava em boa hora, cheia de felicidade, envolveram o peito de menino franzino, abalando, em sua mensagem venturosa, seu pequeno coração. A diretora havia chamado o seu nome como um dos aprovados no exame de admissão.

(Capítulo do romance inédito Do menino se faz o homem)         

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Editado no exterior. Membro da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz -Uesc.

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sábado, 14 de outubro de 2023

O show de horrores da moda da década de 1970

 Ruy Castro



Sabe os "anos dourados"? São sempre aqueles de 30 anos atrás. Entre outras, porque você tinha 30 anos a menos e já se esqueceu das agruras e amarguras que viveu naquele tempo. Se isso é verdade, significa que, hoje, os anos dourados foram a década de 1990. Só que, na década de 1990, as pessoas também situavam os "anos dourados" 30 anos antes, ou seja, na década de 1960. E assim por diante. Nunca ouvi alguém dizer: "Que maravilha! Estamos vivendo nos anos dourados!"

O contrário acontece muito: você odiar o tempo em que vive e se referir a ele como medíocre, hediondo, intolerável. No Brasil dos anos 1970, por exemplo, estávamos na ditadura, o que já era suficiente para nos fazer detestá-los. Mas ainda havia outro motivo: a moda masculina. Em nenhuma época do século 20, ela foi tão pavorosa e cafona. Qualquer evento para o qual as pessoas se "vestissem" tornava-se um show de horrores.

Tudo era tremendamente exagerado. Os paletós tinham lapelas gigantes, o que obrigava os colarinhos a serem também enormes e as gravatas, os famosos gravatões, a terem nós maiores que um punho fechado. Foi também a moda das gravatas-borboleta, do tamanho das borboletas da Amazônia. Os paletós eram cintados, com o que todo homem parecia ter ancas, e vinham em padrão xadrez, de listras ou de pespontos, em cores como verde-abacate e azul-bebê.

As calças tinham cintura alta e bocas de sino. Os sapatos eram de salto alto, o que nos obrigava a andar na ponta dos pés. Os penteados eram do tipo usado hoje pelos cantores sertanejos. E havia um chique-esporte: os inacreditáveis conjuntos safári. Entendeu o que estou querendo dizer?

Por que estou me lembrando disso? Porque, de uma pilha de revistas antigas, me caiu um catálogo da Ducal para 1973. Era outra forma de ditadura —as lojas só vendiam esse tipo de roupa. A alternativa, já possível em certos círculos, era andar nu.

Folha de São Paulo, 24/09/2023

https://www.academia.org.br/artigos/o-show-de-horrores-da-moda-da-decada-de-1970

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Ruy Castro - Nono ocupante da Cadeira nº 13, eleito em 6 de outubro de 2022, na sucessão de Sergio Paulo Rounet e recebido em 3 de março de 2023 pelo acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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