Total de visualizações de página
sábado, 30 de julho de 2022
ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: A Imortal – Luiz Gonzaga Dias
A Imortal
Luiz Gonzaga Dias
A esperança é o futuro... A hora que finda
É um anseio que morre ou se completa.
– Um velho sonho... Uma ilusão infinda,
Uma ambição que se mantém secreta.
Por mais velha, a esperança é sempre linda!
E nunca morre, embora atinja a meta,
Que se esperava... Vai vivendo ainda,
Enquanto há vida é sempre incompleta.
Não envelhece não! Se bem que nova,
Ela tem outro tom róseo matiz
Que esmaece ao se beirar da cova.
Mas a esperança continua forte...
Porque, este anelo humano – ser feliz,
Não finda com a vida: vence a morte!
(IMAGENS MUTILADAS)
Luiz Gonzaga Dias
* * *
quinta-feira, 28 de julho de 2022
Cantiga Por Itabuna
Eglê S. Machado
Adornei um relicário
e o enchi de amor e vida,
pra no teu aniversário
te ofertar, terra querida!
Itabuna - tom
vibrante,
gingado do meu compasso
na cadência aconchegante
do teu suave regaço.
Lírios, para a cidade
que tanta vida me
deu:
Deu-me paz, luz, liberdade,
E me amou, me acolheu!
Vigor, ventura, nobreza,
trabalho, paz e fortuna:
construí minha riqueza
em ti, amada Itabuna!
Parabéns, bela cidade
do glorioso São José!
Para ti felicidade,
muita Paz e grande fé!
* * *
quarta-feira, 27 de julho de 2022
O GALÃ – Artur Azevedo
Um belo
dia, naquela pacata e honesta capital de província de segunda ordem,
apareceram, pregados nas esquinas, enormes cartazes anunciando a próxima
estreia de uma excelente companhia dramática, vinda do Rio de Janeiro.
Há muito
tempo o velho teatro não abria as portas ao público, e este, enfarado de
peloticas e cavalinhos, andava sequioso de drama e comédia.
Havia,
portanto, na cidade uma animação e reboliço desusado.
Falara-se
na vinda da companhia, mas ninguém tinha absoluta certeza de que ela viesse,
porque o empresário receava não fazer para as despesas. Agora, os cartazes,
impressos em letras garrafais, confirmavam a auspiciosa notícia, provocando um
entusiasmo indizível. Muita gente saía de casa só para ver, certificando-se,
pelos próprios olhos, de tão grata novidade.
A
companhia anunciada era, efetivamente, a melhor, talvez, de quantas até então
se tinham aventurado às incertezas de uma temporada naquela tranquila capital.
Dois artistas, pelo menos, a primeira-dama
e o galã, vinham precedidos de grande fama. Ela já tinha lá estado, quando
menos célebre; ele, porém, era a primeira vez que lá ia, e por isso o esperavam
com uma ansiedade fácil de imaginar.
Quando a
companhia chegou, foi uma verdadeira festa. Grande massa de povo aguardava-a no
cais de desembarque; houve música, foguetes e aclamações.
Tanto a
primeira-dama como o galã foram acompanhados ao hotel por inúmeros admiradores
– e ele, solicitado pelo povo, teve que aparecer à janela, onde visivelmente
comovido, expectorou algumas palavras com mais entusiasmo que sintaxe.
A estreia
foi um delírio. O teatro encheu-se completamente: não havia um lugar
desocupado.
O presidente da província (era no tempo do império) estava presente, e os camarotes, ocupados pelas primeiras famílias, apresentavam magnífico aspecto.
Representou-se a Morgadinha de Valflor.
A
primeira-dama agradou muito, mas sem causar grande impressão, porque já tinha
sido vista no papel da protagonista e não parecia agora superior ao que dantes
fora. Quem triunfou verdadeiramente, quem teve as honras da noite, foi o galã,
o melhor Luís Fernandes que até então pisara naquele palco.
Era um artista experimentado, com
todas as qualidades e defeitos indispensáveis para agradar às plateias
provincianas; bom órgão, gesto largo e abundante, porte esbelto, grande
cabeleira encaracolada, bigodes fartos e retorcidos, olhos pisados, bons dentes
– nada faltava a Luís Fernandes para ser desejado, não só pela Morgadinha de Valflor,
como por todas as espectadoras sentimentais.
Entre
estas havia uma, a Sinhazinha Brites, cujo espírito enfermiço aquele formoso
intérprete de Pinheiro Chagas impressionou singularmente.
Ela
sentia-se fascinada pela figura garbosa e varonil do palavroso pintor, em que
tão bem assentavam os calções e as botas do tempo do diretório – e, por mais
que tentasse disfarçar, não pode encobrir ao marido os violentos resultados
daquela fascinação.
Ele, o
marido, o Brites, era um sujeito
observador e inteligente, a quem não deixava de inquietar o caráter romanesco
de Sinhazinha. Estudara-a a fundo, atentando nas longas cismas em noite de
luar, ou examinando cuidadosamente os livros cuja leitura ela preferia.
Houvera certa desigualdade naquele casamento: o marido era quinze anos mais velho que a mulher; ele, um homem positivo, encarando a vida como a vida é, procurando o lado prático de todas as coisas; ela, com uns ares vaporosos de Femme incomprise divagando continuamente pelo intermúndios da quimera e do sonho. Ele, criatura comum, homem feio como todos os homens sem educação física; ela, uma das moças mais bonitas da terra.
Demais, faltava-lhes a maior ventura dos casais felizes: faltava-lhes um filho, que
reprimisse na senhora as fantasias da senhorita.
Com essa
boa posição no comércio, rico ou, pelo menos, remediado, honesto, escrupuloso,
solícito, amável, e, como já ficou dito, inteligente, o Brites era, entretanto,
um marido ideal.
O segundo
espetáculo da companhia foi com Romance de um moço pobre.
Observou o
sobressaltado marido que Máximo Odior causava à Sinhazinha uma impressão ainda
mais pecaminosa que a produzida por Luís Fernandes.
Quando o
pano desceu depois da famosa cena das ruínas castelo abandonado, em que o herói
de Octave Feuiller se atira num precipício, exclamando: - Vou salvar a honra! –
Sinhazinha ficou uns bons cinco minutos estática, sem articular um som, os
lábios entreabertos num quase sorriso voluptuoso, o olhar úmido perdido no
vago.
O público
aplaudiu calorosamente, chamando três vezes os artistas à cena e ela não saiu daquele êxtase.
- Que
tens?... Estás incomodada?... – perguntou o Brites.
A moça
estremeceu, passou as mãos pelos olhos, como se despertasse de um sonho, e
suspirou, dizendo:
- Não, não
tenho nada.
Na manhã
seguinte o Brites experimentou o maior desgosto da sua vida conjugal: ouviu
perfeitamente Sinhazinha, dormindo, pronunciar o nome do galã...
Isto
resolveu-o a atacar de frente o Minotauro.
Não deixou
perceber coisa alguma. Almoçou alegremente e foi para o trabalho à hora
costumada.
Quando voltou à tarde, aproximou-se de
Sinhazinha, deu-lhe um beijo, e disse-lhe:
- Trago-te
uma notícia que talvez te contrarie...
- Qual?
- O galã
da companhia dramática vem cá jantar amanhã.
- O galã?
- Sim: aquele que ontem fez com
tanto talento o papel do moço pobre. Foi hoje levar-me ao escritório uma carta
de recomendação, e eu, não sabendo como obsequiá-lo, convidei-o para jantar.
Amanhã não há espetáculo: ele está livre.
Sinhazinha,
que, enquanto o marido falava, tivera tempo de preparar a dissimulação,
limitou-se a responder:
- Que
maçada!
Ela mal
dormiu durante a noite, e, no dia seguinte, agitada pela ideia de que ia ver de
perto, apertar a mão e falar ao irresistível galã, passou as horas
febricitante, nervosa, mudando de lugar a cada momento. Felizmente os
preparativos do jantar ofereceram uma espécie de derivativo àquele acesso
nervoso.
Quando, às seis horas da tarde, chegou o
galã ela não quis acreditar que fosse ele: olhou para a porta como se esperasse
outra visita; mas o marido, que lhe percebeu a surpresa, insistiu na
apresentação e Sinhazinha dobrou-se à evidência.
Tinha diante de si um homem feio,
marcado de bexigas, os dentes postiços, o cabelo cortado à escovinha e a cara
inteiramente raspada... de véspera.
A alvura
da camisa era suspeita, as botinas eram cambaias, as unhas não eram
irrepreensíveis, a sobrecasaca tinha nódoas e as calças joelheiras.
A desilusão
continuou durante o jantar. O galã, aliás boa pessoa, não tinha absolutamente
conversação, nem de outro assunto tratava que não fosse da sua vida de teatro. Disse
mal dos colegas, arrastou a primeira-dama pela rua da amargura, e afirmou que
não faria parte daquela tropa fandanga, se não tivesse que sustentar mulher e
cinco filhos, em véspera de seis.
E não
sabia estar à mesa: repetia todos os pratos, metia a faca na boca, palitava os
dentes, limpava a testa no guardanapo, escarrava, cuspia!
Sinhazinha
estava pasmada, e o Brites radiante.
Quando o
galã saiu, logo depois do café, a mulher do engenhoso Brites sentia-se curada
de todos os devaneios da sua imaginação doentia.
- Que
diferença!... Não parece o mesmo!...
- Pudera!
Quem tu viste no teatro não foi ele: foi o Luís Fernandes, foi o Máximo Odiot.
Alguns
meses depois havia naquela casa o que até então lhe faltava: um filho que
reprimisse na senhora todas as fantasias da senhorita.
------------
Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo),
jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e
faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do
irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde
criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.
* * *
NO TEMPO DAS BOIADAS - Cyro de Mattos
No Tempo das Boiadas
No tempo em que a infância não era como hoje, com os jogos
eletrônicos sendo o divertimento dos meninos, a cidade tinha pouco
movimento de carro nas ruas. Ficava movimentada quando as tropas de
burro passavam pela rua do comércio, carregadas de cacau ensacado. Paravam em
frente aos armazéns de portas largas, onde homens fortes descarregavam do lombo
dos animais os sacos de cacau ensacado. A cidade tinha poucos prédios de dois
pavimentos. A feira ficava atrás da antiga estação ferroviária. Aos sábados,
parecia uma onda que tinha de tudo, com gente que ia e vinha, uns compravam,
outros vendiam.
O jardim próximo à beira do rio ficava na Praça Olinto Leoni,
o primeiro intendente da cidade. Os habitantes da cidade orgulhavam-se do
jardim, era um cartão postal que encantava os visitantes, diziam. Dava uma
impressão agradável a quem visse. O jardim tinha plantas e flores bem cuidadas
pelos jardineiros da prefeitura, palmeiras onde os passarinhos se
aninhavam em algazarra pelo cair da tarde, duas fontes
luminosas, um coreto para a filarmônica tocar marchas e hinos em dia
especial. Havia bancos embaixo das árvores para quem quisesse
descansar. Os velhos ali sentavam e ficavam conversando sobre os anos idos e
vividos. Os namorados davam voltas de mãos dadas pelo passeio do jardim. Quando
estavam sentados no banco, permaneciam com as mãos entrelaçadas. A moça sorria
para o rapaz que lembrava o beijo dado pelo galã nos lábios doces da
mocinha, na última fita romântica exibida no Cine Itabuna.
Uma balaustrada comprida, erguida bem perto do rio, ficava
separada do jardim pela rua calçada de pedras regulares. Por detrás da
balaustrada havia um caminho estreito, margeando o rio, por onde desciam
pequenas boiadas na direção do matadouro, construído em condições rudimentares
em um dos aclives do morro.
Um
dia combinei com dois amigos para irmos até o matadouro. Lá ficaríamos sabendo
como o boi era abatido, retalhado em pedaços de carne, os quais
seriam transportados para que fossem vendidos no açougue. Lá
chegamos calados por volta das quatro horas da tarde. Ficamos concentrados,
apreensivos, em cima de um dos muros do curral, que tinha o piso do pátio
cimentado, lá fora, como também na área debaixo do telheiro.
Então
vimos entrar no pátio do curral um boi laçado pelo homem musculoso. Foi preso
ao mourão no meio do pátio. E logo tomamos grande susto quando o homem
musculoso golpeou com as costas do machado a cabeça do boi. O animal deu um
grito estranho, ajoelhou-se e borrou de bosta o piso de cimento. Ouvimos um
baque surdo quando o bicho emborcou no chão, estrebuchando. Daí a pouco
instante, o homem musculoso começou a tirar o pelo do boi com uma faca de
lâmina afiada.
Não
quisemos ficar mais tempo no matadouro. Saímos depressa de lá, horrorizados com
a cena que acabávamos de presenciar. À noite, antes de dormir, eu
com os amigos Nei Gordinho e o Duduca armamos um plano lá na rua
para impedir que no outro dia os bois, vindos do sertão, conduzidos por
vaqueiros, chegassem até o matadouro. Nei Gordinho, o filho do funcionário do
banco, seria o encarregado de soprar o apito na esquina quando avistasse a
boiada descendo pela margem do rio e viesse se aproximando para descer pelo
caminho estreito, junto à balaustrada.
No
dia seguinte, quando ele trilou o apito três vezes, bem forte, e avistamos a
boiada se aproximando, começamos a soltar os fogos de São João na direção dos
bois, que costumavam se apertar procurando entrar no caminho estreito que
margeava o rio e a parede de pedras da balaustrada. Eu
e Duduca, o filho do farmacêutico, estávamos em nossos esconderijos,
encobertos pelos troncos de duas árvores no jardim. De lá acendíamos e
soltávamos os fogos Adrianino para que as bombas explodissem no meio da
boiada.
Logo
os bois se assustaram e se esparramaram para todos os lados. Alguns
caíram nas águas e foram nadando até o outro lado do rio. Outros saíram em
carreira desabalada, pisando plantas e canteiros do jardim. Ainda outros
entraram na rua do comércio em correria, espalhando o pânico aos comerciantes,
vexame e corre-corre às pessoas que por ali passavam pelo passeio das
lojas.
Não
sei até hoje quantos bois não seguiram naquele dia para o matadouro. Mas tenho
certeza que alguns deles, que estavam marcados para morrer, não tiveram o mesmo
destino daquele que vimos tombar sob o golpe do machado desferido pelo homem
musculoso no matadouro. E que mal teve tempo para gritar, logo caindo de
joelhos e borrando de bosta o piso cimentado do pátio. Numa cena terrível, que
nunca mais queríamos que fosse repetida, diante de nossos olhos
espertos de meninos, ansiosos de descobertas e desafios na aventura da
vida.
Cyro de Mattos é ficcionista, poeta, cronista, ensaísta e
autor de literatura infantojuvenil. Membro efetivo da Academia de Letras da
Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC (Bahia).
Possui prêmios importantes. Publicado no exterior.
* * *
segunda-feira, 25 de julho de 2022
25 DE JULHO - Dia do Escritor
Nesta data, caro Amigo
Elevo aos Céus um louvor!
Rendendo Graças bendigo
Seu carinho acolhedor;
No meu Coração abrigo
o mais Fraternal Amor,
Pra comemorar Contigo
O "Dia do Escritor"
Eglê S. Machado
* * *
COMO É SER ESCRITOR? - Cyro de Mattos
Como É Ser Escritor?
Cyro de Mattos
É profissão ou apenas uma atividade dos que exercem a arte literária? Thomas Mann afirma que não é profissão alguma, e, sim, uma maldição. Começa terrivelmente, muito cedo. Quis dizer com isso que o autor carrega todo o peso terrestre dentro dele quando faz a leitura do mundo com a palavra tomada de empréstimo à ilusão, impelido pela força do destino. De onde vêm, para onde vão nessas antenas da raça tantos sentimentos e tendenciosas explicações? Há quem afirme que a literatura ajuda a viver o sofrimento que todos nós temos na vida. Drummond acha que ela ajuda esse sofrimento ser um jogo divertido.
Não é
exagero achar que a literatura é uma profissão. É condição, ato ou efeito de
professar, perseguir, proferir crenças e valores. Declarar publicamente ao
outro o que somos no mundo. Nela confessamos nossa opinião sobre seres e coisas
porque assim é nosso modo de ser-estar no mundo. Profissão que não dá rendimentos para
sobreviver, não devia ser assim, dado que é forma de conhecimento da vida,
fundamental como o amanhecer. Exige esforço e labor. Sacrifício, doação. Não se
vive de literatura, mas para a literatura, dentro dessa condição em que o autor
procura liberar desejos e medos. Essa é minha crença, tem sido minha paixão. A
literatura vem demonstrando que gosta de mim, nesse meu jeito de respirar no
trânsito da vida. De fazer o bem, dizer
com a palavra que a vida é falha, não basta em razão da sua natureza, que em
essência é da própria incompletude.
Ela organiza
meus conflitos, oferta-me sonhos, equilibra-me na loucura do mundo. Nesse espaço vital é que me encontro como se
fosse a flor feita de um homem real. Um pobre homem, contraditório, finito,
provisório nesse intervalo entre o primeiro vagido e o último suspiro. Sem ela, não sou um ente que pensa e tem
emoção. Sou, como diz o poeta Pessoa, cadáver ambulante que procria. Com ela
tenho motivações de fazer leituras do mundo com as vestes da vida e da morte.
Ela põe o tempo dos humanos com possibilidade de aprofundar a vida, dos dias
retirar personagens que se queimam com suas dúvidas, choram às escondidas com a
sua incandescente ternura.
Sem essa alquimia do verbo que se faz revelação, não me
torno sequer menino, não aceno para as coisas da vida que se foi, como aconteço
nesses versos do poema “A Roda do Tempo”:
Criei vaga-lumes
Para vê-los à noite
Brilhando no quarto.
Nadei como um peixe
ágil
Nas águas mais claras
Do Rio de Água
Doce.
Como um pássaro
Tive cada voo
Com o vento mais alto.
Andei como bicho solto
Sem ter medo de nada
Pelas ruas do mato.
Mas a infância tem o sabor
De uma fruta que termina
Na idade dos homens.
Costumo dizer que o escritor é a única criatura neste planeta que gesta e pare duas vezes o mesmo filho. Gesta com suas motivações e pare quando o seu livro está concluído. Gesta pela segunda vez na fase de produção editorial até que o livro seja publicado. Não é fácil caminhar nessa estrada das letras, a essa altura, comprida. Há quem diga que sou um homem centralizador, só penso em mim quando tento encontrar-me por entre os rumores de minhas navegações agudas. Quem assim pensa, que tenho fome de fama, não sabe de solidões solidárias na madrugada de um homem só. Tenho pena da esposa, a mulher que me ama como sou. Ela sabe o que digo, durante mais de cinquenta anos em que juntos vivemos, provando alegrias e dores com a arte da palavra escrita.
Jorge Luís Borges declara que escreve
para viver. Gabriel Garcia Márquez
afirma que morre se não escrever, mas também morre se escrever. Bem ou mal,
escrevo porque assim devia ser. É minha
maneira de ser um homem útil ao outro no mundo. Se tudo é ilusão, sonhar é
sabê-lo, de novo escuto dizer isso
Fernando Pessoa. Fica claro que escrevo não com sede de imortalidade.
Sei também do meu tamanho e do lugar onde me ajusto entre os outros. No fundo de tudo, bom não esquecer, nós somos
iguais, entre nascer, viver e morrer. Cada um está aqui para contar a sua
história. Como o vento, não ficamos, para isso fomos feitos, passamos,
passamos.
Nada se pode fazer. Ai de mim, ai de mim. Como disse certa
vez nos dois últimos versos de um soneto:
Da cabeceira para a foz
Tantas explicações
Para saber enfim
Que nada sei de mim.
..................
Cyro de Mattos - Escritor e poeta. Primeiro Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna.
* * *






.jpg)
