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segunda-feira, 18 de julho de 2022
domingo, 17 de julho de 2022
Dai-lhe, Senhor o descanso eterno. E a luz perpétua o
ilumine!
https://www.abim.inf.br/dai-lhe-senhor-o-descanso-eterno-e-a-luz-perpetua-o-ilumine/
sábado, 16 de julho de 2022
ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Lembranças de Morrer - Álvares de Azevedo
Lembranças de Morrer
Álvares de Azevedo
Álvares
Azevedo(Manuel Antônio Álvares de Azevedo), poeta, contista e ensaísta,
nasceu em São Paulo, a 12 de setembro de 1831, e faleceu o Rio de Janeiro, RJ,
em 25 de abril de 1852. Patrono da Cadeira nº 2 da Academia Brasileira de
Letras, por escolha de Coelho Neto.
* * *
quinta-feira, 14 de julho de 2022
Paulino e Roberto
Artur
Azevedo
O Paulino toda vida remou contra a maré.
Para
cúmulo da desgraça, o destino atirou-lhe nos braços uma esposa que não era
precisamente o sonhado modelo de meiguice e dedicação.
Adelaide
não lhe perdoava o ser pobre, o ganhar apenas o necessário para viver. O seu
desejo era ter um vestido por semana e um chapéu de quinze em quinze dias,
possuir um escrínio de magníficas joias, deslumbrar a rua do Ouvidor,
frequentar bailes e espetáculos, tornar-se a rainha da moda. Não se podia
conformar com aquela vida de privação e trabalho.
O Paulino
era a bondade em pessoa, afligia-se muito por não poder proporcionar à sua
mulher a existência que ela ambicionava. Fazendo um exame de consciência, o
mísero acusava-se de haver sacrificado a pobre moça, que, bonita e espirituosa
como Deus a fizera, teria facilmente encontrado um marido com recursos
bastantes para satisfazer todos os seus caprichos de Frou-frou³ sem dote.
Ele só tinha um amigo, um amigo
íntimo, seu companheiro de infância, o Vespasiano, que um dia lhe disse com
toda brutalidade:
- Tua
mulher é insuportável! Eu, no teu caso, mandava-a para o pasto.
- Oh!
Vespasiano! Não diz isso!...
- Digo,
sim! Senhor! Digo e redigo!... Vocês não têm filhos; portanto, não há
consideração nenhuma que te obrigue a aturar um diabo de mulher que todos os
dias te lança em rosto a tua pobreza, como se ela te houvesse trazido algum dinheiro,
e o esbanjasses!...
- Isso não
é conselho que se dê a um amigo, nem eu tenho razões para me separar de
Adelaide.
- Pois não
te parece razão suficiente essa eterna humilhação a que ela te condena?
- Pois sim,
mas quem me manda ser tão caipora?
- Não
creias que, se melhorasses de posição, ela melhoraria de gênio. Aquela é das
tais que nunca estão contentes com a sorte, nem se lembram que Deus dá o frio
conforme a roupa. Se algum dia chegasses a ministro, ela não te perdoaria não
seres presidente da República!
-
Exageras.
- Pode
ser, mas afianço-te que mulher assim não a quisera eu nem pesada a ouro!
Prefiro ficar solteiro.
Efetivamente. Vespasiano, apesar de ser muito amigo de Paulino, não o
frequentava, tal era a aversão que lhe causava a presença de Adelaide. Não a
podia ver.
Paulino em
vão procurava por todos os meios e modos melhorar a vida, aumentando o parco
rendimento, quando um comerciante, seu conhecido, lhe propôs uma pequena viagem
ao Rio Grande do Sul, para a liquidação de certo negócio. Era empresa que lhe
poderia deixar um par de contos de réis, se fosse bem-sucedida.
Instigado
pela mulher, a quem sorria a perspectiva de alguns vestidos novos, Paulino
partiu para o Rio Grande a bordo do Rio Apa; tendo porém, desembarcado em Santa
Catarina, perdeu, não sei como, o paquete, e foi obrigado a esperar por outro.
Antes que
esse outro chegasse, recebeu a notícia de que o Rio Apa naufragara, não
escapando nenhum homem da tripulação, nem passageiro algum. Do próprio paquete
não havia o menor vestígio. Sabia-se que naufragara porque desaparecera.
Paulino
agradeceu a Deus por ter escapado milagrosamente ao naufrágio.
Ao ver o
seu nome impresso, nos jornais, entre os das vítimas, atravessou-lhe o espírito
a ideia de calar-se, fazendo-se passar por morto. Não sei se ele teria lido o
Jaques Amour, de Zola, ou a Viuvinha, do nosso Alencar.
- Em vez de me livrar da Adelaide, como
aconselhava o Vespasiano, livrá-la-ei de mim. Ora está dito! Seremos ambos mais
felizes...
Ninguém o
conhecia em Santa Catarina, e ele, de ordinário taciturno e reservado, a
ninguém se queixara de haver perdido a viagem, de modo que pôde executar
perfeitamente o seu plano. Calou-se, muito caladinho, e deixou que a notícia da
sua morte circulasse livremente, como a dos demais passageiros do Rio Apa.
Escusado é
dizer que mudou de nome.
Tendo feito conhecimento com um rico
industrial teuto-brasileiro, ex-colono de Blumenau, foi com este para o
interior da província, e, como era inteligente e trabalhador, não tendo mulher
que o “encabulasse”, arranjou muito bem a vida, conseguindo até por de parte
algum pecúlio.
Passaram-se
os anos sem que Roberto, o ex-Paulino, tivesse notícias de Adelaide.
Resolveu um
dia ir ao Rio de Janeiro, a passeio, convencido de que ninguém mais se
lembraria dele, nem o reconheceria, pois deixara crescer a barba, engordara extraordinariamente,
e tinha um tipo muito diverso do de outrora.
O seu primeiro
cuidado foi passar pela casinha de porta e janela onde morava, na rua do
Alcântara, quando embarcou para o Sul. Não a encontrou: tinham erguido um
prédio no local outrora ocupado pelo ninho dos seus amores sem ventura.
Informou-se
na venda próxima que fim levara a viúva de um tal Paulino, morador naquela rua,
náufrago do Rio Apa: mas ninguém se lembrava dessa família, e ele teve a
sensação de que era realmente um defunto.
Procurou ver
Vespasiano, e viu-o, quando saía da Alfândega, onde era empregado. O seu movimento
foi correr para o amigo e dizer-lhe: Olha! Sou eu! Não morri! Venha de lá um
abraço!; mas conteve-se, e deixou-o passar, saboreando um cigarro.
- Como
está velho! – pensou Paulino - eu decerto não reconheceria, se o supusesse tão morto como ele me supõe a mim! Deixá-lo! Eu
morri deveras, e nada lucraria em ressuscitar, mesmo para ele, que era meu
único amigo.
Bem inspirado
andou o morto em não se dar a conhecer, porque, alguns dias depois, achando-se
num bondinho da praça Onze, atravessando a rua do Riachuelo, viu entrar no
carro o Vespasiano acompanhado por uma senhora que era Adelaide sem tirar nem
por.
Paulino conteve
o natural sobressalto que lhe causou aquela aparição.
Ela vinha
muito irritada. Logo que sentou, voltou-se com mau modo para Vespasiano, e
disse-lhe:
- Eu logo vi que você me dizia que não!
Paulino reconheceu
a voz da sua viúva.
- Mas,
reflete bem, Adelaide; aquele dinheiro está destinado para o aluguel da casa, e
tu não tens assim tanta necessidade de uma capa de seda!
Adelaide soltou
um grande suspiro, e expectorou esta queixa bem alto para que todos a ouvissem:
- Meu
Deus! Que sina a minha de ter maridos pingas! Você ainda é pior que o outro!
- Ah! se
ele pudesse ver-nos lá do outro mundo – murmurou entre os dentes Vespasiano –
como se riria de mim!
Roberto ficou
muito sério, olhando com indiferença para a rua, mas Paulino riu-se,
efetivamente, no fundo do oceano.
Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de
Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de
1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao
lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de
Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.
* * *
quarta-feira, 13 de julho de 2022
ERA SÓ SAUDADE DE EUNICE – Ariston Caldas
Era só Saudade de Eunice
Gostaria que a moça se chamasse Eunice, nome perfeitamente assentado.
Ela
passava pelo meio da rua em pleno trânsito de pessoas e lançou para ele um
olhar discreto, mas como quem repara; sentiu que a moça ia apressada, por isso
não entendeu por que o olhar dela pareceu-lhe transmitir alguma mensagem, como
a perguntar, “tudo bem, Miraldo?”. Apesar da rapidez, pôde notar-lhe os traços
do rosto, a boca de lábios finos, o cabelo de índio. Como seria o nome da moça?
Mesmo que fosse coisa estranha, para ele seria Eunice, certamente o mais
adequado. Quase impossível chamar-se Shirley ou Ingrid – índio não tem nome de
gringo. – E se a moça tivesse um sinalzinho preto entre um seio e outro, tudo
ficaria justificado, indubitavelmente. Melhor ainda se ela tivesse uma
obturação de ouro na parte superior dentária, lado direito, igual a de Eunice
que fora sua vizinha na Praça Independência onde ele se criou.
Tinha
claras lembranças de Eunice, bonita, cabelo de índio, um sinalzinho preto
embutido entre um seio e outro, descoberto por ele na praia durante um banho de
mar. Chegou a apaixonar-se por Eunice, de repente, e o negócio só não foi para
a frente por causa da diferença de idades, ela com vinte, ele com menos de
quinze. “Besteira”, pensava agora, lamentando a perda.
Pensou em
outros nomes para a moça que passara por ele no meio da rua regurgitando de
gente apressada mas nenhum assentava bem como Eunice, adequado para o tipo de
cima a baixo. Teve vontade de segui-la rua a fora mas a esse tempo ela havia se
perdido entre o burburinho de pessoas apressadas desviando-se umas das outras.
Uma confusão. Voltou algumas jardas, numa tentativa; nem adiantou, a moça havia
sumido definitivamente. Sabia, sem dúvida, não tratar-se de Eunice, o tempo
entre uma e outra já era longo, mais de doze anos. Eunice, hoje, estará
amadurecida, mesmo que não tenha cabelo branco, coisa pouco provável para gente
índia, com a pele enrugando, os seios caindo, os olhos frios, criando uma ruma
de meninos, muito trabalho e outras consumições que ele as sabia.
A moça que
vira no meio da rua agitada, seria igual a Eunice moderna no tempo em que
morava na Praça Independência, bonita,
saudável, cabelo liso parecendo seda. Será que a moça do meio da rua terá um
sinalzinho preto? Havia outros detalhes que justificavam a parecença das duas,
com o olhar atravessando despretensioso, colo amplo, de tonalidade morena
uniforme como se fora veludo; o jeito do cabelo exótico partido ao meio, a
derramar-se em brilho pelo rosto, às vezes escondendo os olhos que no momento cruzaram-se
rapidamente para ele, cara a cara, como a perscrutar-lhe curiosos. Um susto! Notara até os pés da moça medidos
numas sandálias vermelhas semelhantes às que Eunice gostava nos dias de sol,
nas tardes de domingo pelo jardim no meio da praça Independência. Tudo lhe
esquentara o juízo, mais ainda depois que ele deu de olho no sinalzinho cravado
entre um seio e outro. Certo é que banzou por Eunice e só perdeu a esperança
depois que ela meteu-se com um sujeito sarará que vendia utensílios de alumínio
pelas portas.
Andou algum tempo lembrando da moça de
cabelo liso parecida com Eunice que morou na praça Independência, que
desentendeu-se com ele por causa da diferença de idades. Quantos anos teria o
sujeito que vendia alumínio pelas portas? Vermelho, espadaúdo, braços robustos
recobertos de cabelos cor de cobre. Sentia a presença do sujeito na praça pelo
estrídulo da buzina. Tipo esquisito, desassentado para Eunice da cor de índio,
cabelo brilhando, sinalzinho preto entre um peito e outro. Será que o sujeito visgou-se
a ela por causa do sinal? – indagava-se, a momentos, à toa.
Fazia
calor, estava pingando de suor; entrou numa lanchonete e pediu um sorvete duplo,
de coco, enquanto lembrava de Eunice, da moça de olhar atravessando, no meio da
rua, gente que só formiga. Meditou, finalmente, que nunca mais voltaria a
vê-la, a não ser através da imagem de Eunice fincada de corpo inteiro em seu
miolo, desde o tempo da praça Independência; na janela, no jardim, na
lanchonete onde tomava sorvete, tudo isso antes de embaraçar-se com o sujeito
sarará que vendia utensílios de alumínio pelas portas, tocando uma buzina
insuportável.
(LINHAS INTERCALADAS)
Ariston Caldas
* * *
terça-feira, 12 de julho de 2022
POEMA DO NETO E DA NORA *
Cyro de Mattos
Veio a mim o amor
Com o neto Rafael.
Seus ombros de anjo,
Pelo fio de esperança,
Levaram-me para o hospital.
Sem eles, nada eu seria.
Veio a mim o amor
Com a nora Jamile.
Sem a sua fé na vigília,
Ativa nas horas lentas,
Vindas com força e vida,
Ai de mim, o que eu seria?
Como posso agradecer
Esses gestos, se entre tantos
As palavras não tenho?
No enleio assim formado
O que dizer sobre o nosso
Mais forte sentimento?
Pobre poeta, importa saber
Que o tempo cuida da chuva
Enquanto entreabre a flor
Que aflora na família.
Sob o relógio do coração,
Nada mais correto do que isso.
* Para Mariza, André, Finha, Adriano,
Anderson, Pedro Henrique, Gabriel,
Marizinha, Murilo e Luís Fernando.
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