Total de visualizações de página

segunda-feira, 11 de julho de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA SORRINDO - Torresmo


Torresmo

Por causa de sua estupidez e burrice, a professora estava sempre gritando com Torresmo.

 Você me deixa louca, Torresmo ! Você não tem jeito!

Um dia, a mãe de Torresmo foi até a escola para verificar como seu filho estava indo.

A Professora disse honestamente para a mãe que seu filho era um desastre, tinha notas muito baixas e que ela nunca viu um menino assim que não gosta de estudar em toda sua vida profissional ensinando crianças.

A mãe ficou tão chocada com esta sincera conversa que ela tirou seu filho da escola, saiu do interior e mudou-se para São Paulo.

25 anos depois, esta mesma Professora foi diagnosticada com uma grave enfermidade no coração quase incurável.

Todos os médicos de sua região indicaram a ela que necessitava de uma cirurgia do coração, mas que este tipo de operação somente um médico em São Paulo era capaz de fazer.

Deixada sem otimismo, a Professora decidiu tentar esta última esperança.

Ela foi para São Paulo e num hospital de lá realizou com sucesso a tal operação.

Quando ela abriu os olhos, voltando da cirurgia, ela viu um belo e jovem médico à sua frente, sorrindo para ela.

Ela queria agradecer a ele, mas não pode falar.

Sua face se tornou azul, ela levantou sua mão, tentou gritar sem conseguir e rapidamente ela morreu.

O médico ficou chocado, tentando entender o que aconteceu de errado.

Então, ele olhou para o lado e viu que o faxineiro Torresmo, que trabalhava no hospital, desligou os equipamentos de suporte da tomada do quarto, para ligar seu aspirador de pó e limpar o corredor.

Tava achando que torresmo tinha virado médico né?

Não estuda não, pra ver...

------------

OBS: DIZEM QUE REALMENTE TORRESMO FAZ MAL PARA O CORAÇÃO 

 

(Recebi via Whatsapp, sem menção de autoria)

* * *

domingo, 10 de julho de 2022

Melhores Momentos Marcos Pasa Baile Clube Paiol Umuarama 28 Maio 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Ai de Mim Copacabana – Torquato Neto



Ai De Mim Copacabana 

Torquato Neto

 

Um dia depois do outro
numa casa abandonada
numa avenida
pelas três da madrugada
num barco sem vela aberta
nesse mar
nem mar sem rumo certo
longe de ti
ou bem perto
é indiferente, meu bem.

Um dia depois do outro
ao teu lado ou sem ninguém
no mês que vem
neste país que me engana
ai de mim, Copacabana
ai de mim: quero
voar no concorde
tomar o vento de assalto
numa viagem num salto
(você olha nos meus olhos
e não vê nada –
é assim  mesmo
que eu quero ser olhado).

Um dia depois do outro
talvez no ano passado
é indiferente
minha vida tua vida
meu sonho desesperado
nossos filhos nosso fusca
nossa butique na augusta
o ford galaxie, o medo
de não ter um ford galaxie
o táxi, o bonde a rua
meu amor, é indiferente

Minha mãe, teu pai a lua
nesse país que me engana
ai de mim, Copacabana
ai de mim, Copacabana
ai de mim, Copacabana
Ai de mim...


Torquato Pereira de Araújo Neto (Teresina9 de novembro de 1944 — Rio de Janeiro10 de novembro de 1972) foi um poeta brasileirojornalistaletrista de música popular, experimentador ligado à contracultura

(Wikipédia)

* * *

 

AGRADECIMENTO DE CYRO DE MATTOS

  


Depois de vários dias internado no Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Itabuna, em face de um quadro agudo de anemia, provocada por inflamação no duodeno, o Pai Eterno quis que eu continuasse a viver mais um tanto no meu canto deste velho mundo. Graças ao bondoso Deus, competentes médicos, dedicada equipe de enfermeiros, orações dos entes queridos, corrente positiva de amigos e amigas, confrades e confreiras, retornei ao querido lar, para, com a querida esposa Mariza, filhos e netos, mais uma vez saber que a vida é boa e bela, muita gente é que não dá valor a ela.

Quero agradecer a corrente positiva dos confrades e confreiras, das Academias de Letras da Bahia, Ilhéus e Itabuna, para que me recuperasse nesses dias de dura apreensão, mas que terminou com a vitória da vida sobre a tristeza. A todos, agradeço de coração e, em especial, a Raquel Rocha, Reheniglei Rehem, Muniz Sodré, Baísa Nora, Florisvaldo Mattos, Marcos Bandeira, Margarida Fahel, Raimundo Laranjeira, Ritinha Dantas, Nelson Cerqueira, Pawlo Cidade, Janete Macedo, Anarleide Menezes, Maria Shaun, Edilene Matos, Wilson Caetano e Aleilton Fonseca. Deixo a flor da gratidão no coração de todos vocês com o nosso muitíssimo obrigado.

                                 Cyro de Mattos


-------------

Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia). Premiado no Brasil, México, Itália e Portugal.

* * *

sexta-feira, 8 de julho de 2022

 

5ª Festa Literária de Ilhéus começa no 

próximo dia 13 com conferência de 

Viviane Mosé

 



Com o tema “Literatura e utopias do imaginário”, a 5ª edição da Festa Literária de Ilhéus (FLI) será realizada de 13 a 16 de julho, promovida pela Editus - Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) - e Academia de Letras de Ilhéus (ALI), com apoio da Ilhéus FM, Bahia FM Sul, TV Santa Cruz, Hotel La Dolce Vita, Secretaria Municipal de Cultura, Governo do Estado da Bahia, através da Fundação Pedro Calmon e Secretaria de Esporte, Emprego e Renda; Cesol e patrocínio da Bahiagás. 

A FLI integra dois grandes eventos literários já consagrados na região: a Feira do Livro da UESC e o Festival Literário de Ilhéus (FLIOS).

A iniciativa é composta por atividades culturais, comercialização de livros, ações para o público infantil, workshops e rodas de conversas, e tem como objetivo valorizar a institucionalização da literatura universal sulbaiana, fomentar a leitura e a formação de novos escritores.

A abertura oficial acontecerá dia 13, às 19 horas, no Sindicato Rural, à Rua Eustáquio Bastos, no centro histórico de Ilhéus, quando ocorrerá a entrega do Prêmio Sosígenes Costa de Poesia – comemorativo pelos 26 anos de criação da Editus - e conferência com a psicóloga e escritora Viviane Mosé

A Festa Literária de Ilhéus conta também com o apoio da Pró-reitoria de Extensão da Uesc (Proex) e do PROLER, e este ano homenageia ao professor, escritor e babalorixá Rui do Carmo Póvoas. A programação, no dia 14, conta com bate-papo sobre “A poesia modernista na contemporaneidade”, às 9 horas, também no Palácio Paranaguá, com a participação dos escritores Aleilton Fonseca, André Rosa, Cátia Hughes e Geraldo Lavigne.

Logo mais, às 14 horas, no mesmo local, nova mesa de bate-papo vai tematizar a obra de “Fernando Leite Mendes, um cronista esquecido”, com as presenças dos escritores Ivo Korytowski, Pawlo Cidade e Wilson Mendes. Em seguida, às 16 horas, a mesa reunirá as escritoras Elisa Oliveira, Kali Oliveira, Luh Oliveira e Neila Brasil, para debater sobre “A arte e a vez de escrever para crianças”. Às 18 horas, haverá lançamento coletivo de livros na Academia de Letras de Ilhéus.

Mais Programação – No dia 15, com atividades também no auditório do Sindicato Rural, a partir da 9 horas, o bate-papo será com Elis Matos, Iran Melo e Tales Pereira/ Tallýz Mann sobre o inquietante tema “Todas, todos e todes: uma questão de gênero e linguagem”. Às 14 horas, os professores e comunicólogos Edgard Abbehusen, Julianna Torezani e Rita Virginia Argollo, conversarão sobre “Redes sociais: entre a arte e o controle.”

Os poetas Fabrício Brandão, Jane Hilda Badaró, Maria Luiza Heine e Tcharly Briglia se reúnem à mesa, às 16 horas, para discutir sobre “Poesia, arte e internet”. Às 18 horas, acontecerá um sarau lítero-musical.

No último dia do evento, 16 de julho, às 10 horas, o bate-papo sobre o tema “Corpos dançantes: música, literatura e artivismo” contará com as presenças de Karen Ramos, Milena Magalhães e Thiago Soares. Às 15 horas, o sul-africano Mlungisi Mkhonza conversará com os professores Rodrigo Bomfim e Rodrigo Felha sobre “Favela, juventudes e narrativas do mundo”.

A programação terá continuidade às 17 horas, com o lançamento de livros da Editus. Em seguida, às 18 horas, a conferência de encerramento será com o escritor carioca Jeferson Tenório sobre “O avesso da pele”, vencedor do Prêmio Jabuti 2021. Depois, previsto para às 19h30min, será apresenta o show da artista Ligia Callaz, também no Palácio Paranaguá.

Workshops e Feira de Livros – A programação da 5ª Festa Literária de Ilhéus oferece também dois workshops gratuitos, que acontecem na Academia de Letras de Ilhéus. Um sobre o tema “A Arte da Escrita”, a ser ministrado pelo premiado escritor Ivo Korytowski, no dia 14, das 9 às 12 horas. E o segundo, no dia 15, nesse mesmo horário, sobre o tema “Transformando Ideias em Contos”, com a professora e escritora Neila Brasil.

Já no Museu do Cacau, ao lado do Sindicato Rural, haverá a tradicional Feira de Livros, com descontos de até 50%.

Para outras informações sobre o evento e seus participantes, além de inscrições para as atividades, acesse o site: https://doity.com.br/festaliterariadeilheus.

 * * *

quinta-feira, 7 de julho de 2022

MENINO BOM, TÁ AÍ! – Nelson de Faria

 


                                                     “Quem quer se fazer não pode.

                                                      Quem é bom já nasce feito.”

                                                                                                 DITO POPULAR

 

            Havia gente, e muita, à porta do Bilhar Taco de Ouro, na Rua de Baixo, de Gabriel Monarca, também, conhecido por Biezinho Cururu, por via da cara gorda e bexiguenta, da boca resgada de orelha a orelha, quando ele ria, dos olhos negros saltados. Muito sujeito fraco e desprevenido experimentarão peso do braço dele, por inadvertência ou desconhecimento da jeriza que Biezinho devotava ao apelido, que, por sinal, lhe assentava bem, como luva. No Taco de Ouro, faziam ponto motoristas, boiadeiros, viajantes, pessoas desocupadas da vila. De instante a instante o grupo engrossava. O ar, viciado de fumo e odores de aguardente, era pesado, denso. Cabo Adonias, comandante do destacamento policial, foi chamado, às pressas. Acontecimento como aquele, desenrolado minutos antes, era raro no centro da cidadezinha. Nos arredores dela, nas vendas de ponta de rua, às vezes, umas duas ou três por ano, falando a verdade, o fato não despertava mais tanta atenção. O movimento às janelas e portas da Rua Direita era desusado. O prefeito, Major Suçuarana, sujeito valente, caladão, malicioso,  de faro fino, que nem o de raposa, arrastou a cadeira de vime para o passeio, refastelou-se nela, fingindo-se alheio ao que ocorrera na parte baixa de rua principal. Olhava, de soslaio, os jornais chegados pela manhã desdobrados à sua frente, pigarreava, gozando o espetáculo. Os três soldados, em cadência marcial, marchavam – um, dois, um, dois – sob as ordens do Cabo. Juntaram os calcanhares com estrépito, fazendo alto.  – Meia volta... volver! – Foi a ordem, seca, esganiçada, do comandante, no meio da rua, a cinco metros do prefeito. Cabo Adonias avançou, parou, levou a mão à pala do quepe, depois, em posição de sentido, aguardou ordens.

            - Faça recolher o defunto à sala da guarda. Enterre ele amanhã, depois que o Clodoaldo fizer o laudo do corpo de delito. Não convém muito alarido, muitas diligências. O rapaz, se bem andou, já botou muitas léguas atrás dele. Além do mais... – Coçou a cabeça, olhou em volta, certificando-se de que ninguém estava por perto, concluiu: - Quem caça, acha. Aquele sujeito carecia ser exemplado...

            - Antão, com sua licença, chefe. As ordens serão cumpridas.

            Os  soldados fizeram meia volta, continuaram o caminho.

            No chão, cimentado, caído de costas, as mãos escuras cruzadas sobre o peito largo, os olhos muito abertos, estava o corpo do motorista Zé Matias. Um filete de sangue fluía-lhe do canto da boca entreaberta. Mãos piedosas colocaram uma vela acesa ao lado dele. Cabo Adonias, impondo a autoridade do cargo, inflou as bochechas, estufou o peito, berrou:

            - Qual foi o enxerido que virou ele?

            As conversas pararam de repente. Havia susto nos olhos dos homens. Abriram roda, entreolhando-se. Voz pastosa, indicativa de criatura em início de embriaguez, rompeu o silêncio:

            - Saiba vossa senhoria que foi esta sua criada, aqui, que revirou o pobre, que golfava sangue da boca, e tava se afogando nele. – Fez uma pausa, levantou mais a cabeça de cabelos oxigenados, continuou: - Vosmecê, comandante, carece ter mais caridade com o falecido....

            Era Fifina, um pedacinho de mulher, deste tamanho, ainda bonita, apesar dos dois caninos chumbados a ouro e da vida dissipada que levava. Bichinha valente, pra danar, já havia espancado umas três concorrentes, anavalhado a cara de um rapazinho que se metera a besta com ela. Arrotava valentia, não tinha papas na língua.

            Adonias fitou a mulher bem dentro dos olhos dela, lembrou-se dos abraços apertados, das boquinhas gostosas que a diabinha sabia dar. Fechou o cenho, falou alto, voltado para os homens, para não magoar a mulher:

            - Lei é lei, Dona Josefina. A lei diz que ninguém pode mexer em defunto matado, para não desfazer as pistas, não atrapalhar a investigação. Desta vez, perdoo a ignorância da lei e dos regulamentos...

            - Deve estar correto o que vosmecê fala, comandante. Não sei nada de leis. Mais porém, deixar um vivente se acabar, como este aí, cora o coração da gente. Me desculpe se agravo vosmecê. Deixo não, gente, deixo não...

            Cuspiu no cimento do chão, passou as costas da mão na baba que lhe escorria dos lábios pintados, arrepanhou as saias, empurrou os homens que fechavam o círculo em torno dela, refugiou-se a um canto do salão. Caiu sobre uma mesa, desandou a soluçar, babando e chorando... Cabo Adonias tentou arrolar testemunhas do crime. Ninguém vira nada, ninguém sabia de nada. Biezinho contava: “O motorista parou o caminhão, chegou de junto do balcão e pediu um martelo de pinga. Ofereceu um gole pra mim, recebeu resposta de negação, porque eu não bebo; perguntei se queria mais. ‘Nhor não, foi a resposta. Só unzinho, pra clarear as vistas. Vou viajar a noite toda, quero chegar em casa de madrugada.’ Arrolhei a garrafa e levei a venenosa para a prateleira. Ouvi um barulhinho, às minhas costas, que nem dava para assustar um gato. Quando voltei o rosto, vi o extinto, o cujo aí, rodando nos calcanhares, as mãos na barriga, gemendo e soluçando. Um outro homem, que eu não vi chegar, afastou o corpo, para o ofendido não murchar em riba dele... Mais porém, não conheço o rapaz que fez o serviço, nhor não!”

            Aquilo era esperado por muita gente que conhecia o morto. Zé Matias, morador do arraial da Estiva, comprara um Fê-Nê-Mê, vivia transportando mercadorias de e para Salvador. Sujeito casado, pai de filhos, perdera a vergonha, o respeito dos mais. Viciou-se em engambelar mocinhas, induzindo-as com promessas de bons ordenados nas casas ricas da Bahia. Abusava das pobrezinhas, tirava-lhes os vinténs, se os possuíssem, largava-as nas cidades pequenas, por onde passasse, ou nos acampamentos, à beira das estradas. A última que viajou à boleia do carro dele foi Mariazinha, já de casamento conversado com Zé Procópio, rapazinho calado, manso, que, diziam, era incapaz de matar uma pulga.

            Fazia três meses que o rapazinho vivia em desassossegada andança. Ao entardecer, hora de chegarem motoristas que vinham de longe, ficava rondando portas de vendas e pensões.

            Naquele dia, à boquinha da noite, Zé Procópio aberturou o cujo e rasgou o bucho dele... Uns poucos viram o rapaz limpar a faca suja de sangue na perna da calça, colocá-la na bainha, sair andando de modo leviano, que nem inocente, e entrar na casa do prefeito. Quando Cabo Adonias parou, fazendo continência, Zé Procópio, que espiava a cena por uma fresta de janela da sala de visitas, estremeceu, suando frio. Depois, sorriu, ouvindo as ordens do chefe. Ajeitou o corpo, limpou o suor da testa e dos beiços, continuou a espiar o movimento da rua, o pensamento viajando por longe, muito longe. Indagava-se: “Por onde andaria Mariazinha, a culpada de tudo aquilo?”

 

            O OLHO CLÍNICO do Major Suçuarana descobriu, sem tardança, as qualidades de bom pistoleiro que dormiam dentro de Zé Procópio, despertadas naquela tarde. A calculada fuga da cena do crime, a calma do procedimento dele, procurando abrigo à sombra do maioral, sem deixar que muitos o vissem entrando na casa, a fala mansa do moço, relatando o fato, como se aquilo nada significasse: “Major, me garante minha pessoa porque mandei, agorinha mesmo, um danado pras profundas...” – tudo aquilo, e mais o jeito dele, humilde, sonso, eram qualidades apreciáveis num primário, bem pesadas pela experiência sertaneja do Major Suçuarana. Quando o corpo do morto passou pela frente da casa, era noite fechada. Suçuarana chamou o rapaz. Postados à janela, os dois viram a rede balançando-se, levada por dois soldados, Cabo Adonias à frente deles, com uma lanterna elétrica na mão. Zé Procópio sentiu um arrepio percorrendo-lhe o corpo, dos pés à cabeça. Quis recuar para a escuridão da sala. Uma sensação de enjoo tomava-lhe todo o estômago. Ouviu a voz seca, autoritária do padrinho:

            - Com medo? Homem, que é macho mesmo, não fraqueja. Aguenta ver, sem trastejar o malfeito que cometeu.

            - Nhor sim. Mais porém,  tou todo arrepiado, sentindo um entojo, parecendo de mulher almojada...

          - Pois, então, vamos curar a doença, que é coisa sem significância. Me siga, sem debicar do finado, sem conversar com os mais, como se não conhecesse ninguém.

            O defunto estava largado no chão duro, atijolado. O busto desnudo mostrava largo e comprido talho, que ia da caixa dos peitos à cova do umbigo. Golpe horrível, deixando entrever vísceras sanguinolentas e destroçadas. Suçuarana chegou de manso, quase sem ser pressentido. Recebeu as continências de estilo, tirou o chapéu, olhou demoradamente o corpo desventrado. Não disse palavra. Cabo Adonias contou:

            - Sujeito destemido, esse um que fez o serviço. Ir pra riba do cabra, encalcar nele palmo e meio de  aço, bem no bucho, sem boquejar, sem tremer a mão, é valentia danada, de se invejar. Ora, pois. Coisa parecida, que me acode ao bestunto, só vim no Mato Verde, faz tempo, quando eu era anspeçada. Foi o caso de um sujeito abrir a barriga de uma dona prostituta inté nas partes, lá dela – com licença da palavra – numa vezada só...

            Major Suçuarana arregaçou o canto da boca num sorriso tranquilo, olhou de viés para os curiosos amontoados à porta, enxergou, de uma mistura com quatro ou cinco, Zé Procópio, os olhos brilhando, sem uma contração na cara morena e séria. Pôs o chapéu na cabeça, puxou a aba dele sobre a testa. Despediu-se. Perdeu-se na noite escura. À sua retaguarda, colado a ele que nem sombra, o novo guarda-costas, fazendo jus ao pensamento do chefe: “Menininho bom, tá aí! Nem pestanejou. O diabinho vai longe...”

 

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

 

............

O escritor NELSON DE FARIA

Julgado pela crítica brasileira:

 

          “Os novos contos, são da mesma alta qualidade dos anteriores. A mão do mestre se reconhece em qualquer dos seus contos.”

RIBEIRO COUTO

* * *

 

 

 

terça-feira, 5 de julho de 2022

AMIGOS


 

Veja a sabedoria desse texto:

 

Um jovem recém-casado estava sentado num sofá, num dia quente e úmido, bebericando chá gelado, durante uma visita ao seu pai. Ao conversarem sobre a vida, o casamento, as responsabilidades da vida, as obrigações da pessoa adulta, o pai remexia pensativamente os cubos de gelo no seu copo e lançou um olhar claro e sóbrio para seu filho.

- Nunca se esqueça de seus amigos! - aconselhou. Serão mais importantes à medida  que você envelhecer. Independentemente do quanto você ame sua família, os filhos que porventura venham a ter, você sempre precisará de amigos..

Lembre-se de ocasionalmente ir a lugares com eles; faça coisas com eles; telefone para eles...

Que estranho conselho! (Pensou o jovem). Acabo de ingressar no mundo dos casados. Sou adulto. Com certeza, minha esposa e a família que iniciaremos serão tudo  de que necessito para dar sentido à minha vida!

Contudo, ele obedeceu ao pai. Manteve contato com seus amigos e anualmente aumentava o número de amigos. À medida  que os anos se passavam, ele foi compreendendo que seu pai sabia do que falava. À medida que o tempo e a natureza realizam suas mudanças e seus mistérios sobre um homem, amigos são baluartes de sua vida.

 

Passados 50 anos, eis o que aprendeu:

O Tempo passa.

A vida acontece.

A distância separa..

As crianças crescem.

Os empregos vão e vêm.

O amor fica mais frouxo.

As pessoas não fazem o que deveriam fazer.

O coração se rompe.

Os pais morrem.

Os colegas esquecem os favores.

As carreiras terminam.

Os filhos seguem a sua vida como você tão bem ensinou.


Os verdadeiros amigos estarão lá, não importa quanto tempo e quantos quilômetros estão entre vocês.

Um amigo nunca está mais distante do que o alcance de uma necessidade, torcendo por você, intervindo em seu favor e esperando você de braços abertos, e  abençoando sua vida!

E quando a velhice chega, não existe papo mais gostoso do que o dos velhos amigos... As histórias e recordações dos tempos vividos juntos, das viagens, das férias, das noitadas, das paqueras... Ah!!! tempo bom que não volta mais... Não volta, mas pode ser lembrado numa boa conversa debaixo da sombra de uma árvore, deitado na rede de uma varanda confortável ou à mesa de um restaurante, regada a um bom vinho, não com desconhecidos, mas com os velhos amigos.

Quando iniciamos esta aventura chamada VIDA, não sabíamos das incríveis alegrias ou tristezas que estavam adiante, nem sabíamos o quanto precisaríamos uns dos outros.

Amigos ajudam a dar sentido à sua vida...

 * * *

(Recebi via Whatsapp, sem menção de autoria)