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quinta-feira, 30 de junho de 2022

O JOGADOR - Ignácio de Loyola Brandão

 




Dificilmente confiro os resultados. Nunca sei se perdi ou ganhei. Talvez tenha ganho fortunas.

Para Dostoievski, humildemente.

Sou igual à maioria dos brasileiros. Um tolo que joga na Mega Sena. Sei, sabemos todos, que não vamos ganhar. Mas jogo, acreditando que naquele dia tudo vai virar. Assim como já virou no Brasil e deu o que está dando, um recuo como nunca se viu, logo estaremos na pré-história. Políticos iguais, assembleias legislativas medíocres (para a estadual não voto nunca mais). Penso se vale a pena votar para prefeito. Olho as ruas, sujeira, lama correndo junto ao meio-fio, produzida por construtoras, ônibus nas mãos da bandidagem. Olhem as crateras que os caminhões deixam no asfalto das ruas, o prejuízo que dão à comunidade. Quem é o prefeito atual? Olhando a cidade abandonada, tenho certeza de que não existe. Mas nada de desânimo, assim como sei que um dia ganharei a Mega Sena, teremos políticos íntegros. Devemos sonhar com utopias.

Nessa minha idealização de mundo, abro uma gavetinha onde guardo os resultados da Mega Sena e da Lotofácil. Não jogo fora os boletos das apostas. Os boletos estão divididos em grupos de um jogo, dois jogos, três jogos. Na hora de apostar, apanho aleatoriamente alguns, perfazendo uma quantia sóbria de dinheiro. Nunca joguei bolões. Apesar da insistência da Maria, linda atendente do guichê preferencial da lotérica que frequento. Tem alguns números que repito há anos, talvez décadas. Nunca saíram. Mas insisto. Para apostas uso: o dia em que nasci, ano em que entrei para a escola, ano em que tive o primeiro emprego, ano em que vim para São Paulo, ano em que conheci Marcia, minha mulher, ano em que repeti no científico, ano em que vi o primeiro teatro de revista em Araraquara com vedetes coxudas, ano em que minha mãe morreu, ano em que Alda me olhou, ano em que tirei 10 de matemática, ano em que entrei para a Academia Paulista e também para a Brasileira, superacontecimentos e assim por diante.

Agora, vem o mais importante. Dificilmente confiro os resultados. Nunca sei se perdi ou ganhei. Talvez tenha ganho fortunas. Ou melhor, perdido, porque não confiro. Tenho medo de, ganhando muito, minha vida se transtornar, eu assediado por centenas de 'amigos' que há muito não via ou por parentes que nunca tive. Ou então, alvo da bandidagem, de milícias, medo de ser colocado em um carro cheio de gás. De qualquer modo, toda semana penso em ganhar e refrescar minha vida. Que o psicoterapeuta Hiroshi explique o que nem Freud, Melanie Klein, Jung, Lacan (favorito de Betty Milan), Adler, Bion ou algum dos 980 psicanalistas existentes no Brasil (segundo o Google) conseguiram esclarecer.

O Estado de S. Paulo, 19/06/2022

https://www.academia.org.br/artigos/o-jogador

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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quarta-feira, 29 de junho de 2022

 

São Pedro e São Paulo: conheça a história dos santos juninos



Pedro era um pescador no Mar da Galileia e largou sua vida para seguir Jesus, sendo apontado como seu sucessor entre os doze apóstolos e teve a missão de construir uma igreja que continuasse a obra do Messias.

Uma das histórias mais conhecidas sobre a vida de Pedro foi a ocasião em que o apóstolo negou Jesus três vezes ao seu mestre ser preso, sendo tomado pelo arrependimento em seguida.

Para os católicos, São Pedro recebeu a missão de ser líder da Igreja de Cristo, assim como diz as escrituras “Tu és pedra, e sobre essa pedra edificarei a minha igreja” (Mateus 16:18).

Por outro lado, Paulo de Tarso, cuja conversão ocorreu quando estava em direção à cidade de Damasco, conforme os registros de Atos 9:3-5: “Durante a viagem, estando já em Damasco, subitamente o cercou uma luz resplandecente vinda do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: ‘Saulo, Saulo, por que me persegues?’. Saulo então diz: ‘Quem és, Senhor?’. Respondeu Ele: ‘Eu sou Jesus, a quem tu persegues.”

Paulo, anteriormente chamado de Saulo de Tarso, foi um dos grandes perseguidores da Igreja e dos discípulos de Cristo. No entanto, converteu-se, mudou de nome e se tornou um dos grandes evangelizadores da igreja primitiva, tornando-se um dos responsáveis pela sua expansão.

Ambos morreram martirizados. São Pedro foi crucificado, mas pediu para que a cruz ficasse de cabeça para baixo, pois não se sentia digno de ter a mesma morte que seu mestre. Já São Paulo foi degolado em Roma.

https://www.calendarr.com/brasil/dia-de-sao-pedro-e-sao-paulo/


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terça-feira, 28 de junho de 2022


Ternura 

Cyro de Mattos*


 

            É preciso viver a vida com ternura. Não importa que seja um pouco. Vale viver no tempo cativante que o dia oferta quando os seus ares se fazem verdes.  Felizes, tudo transformam nesse momento fugaz, que comove, com seus lampejos trêmulos de amor. Pode até ser ilusão esse momento que sentimos, mas com suas asas brandas, cores e sons que acalmam, é bom que se repita, mostre que é capaz de reverter o que é triste em dons da felicidade.      

            Ternura é esse cuidado que a mãe tem quando diz ao filho que primeiro é a obrigação depois a distração.  Com verões e graça, tudo na vida passa. E o pai ao se despedir do filho, sorrindo de contente, diz que você já é um homem, vá em paz, não se perca, nem esqueça que sempre estou aqui. Logramos extrair no acento circunflexo da palavra avô sensações que se alimentam de ternura, que não esquecemos, pois um homem assim, no terminal das estações acumuladas com saber, consegue o feito de ter o coração duas vezes com açúcar, tanto ele cativa e torna a vida doce.  

            A ternura da natureza tem seus hábitos protetores, que se proliferam e também cativam, seguindo uma ordem onde tudo é vida ou morte, mas com ordem.  O passarinho transmite sua afeição pela vida quando leva no bico o graveto para fazer o ninho. Daqui a pouco estará levando no bico a comida para os filhotes. Daqui a pouco estará voando com os filhos numa alegria que a natureza há tempos vem inventando durante as estações.

            A natureza mostra sempre que os bichos vivem à sua maneira, cheios de ternura. A onça mais feroz fica mansa, ao lamber as crias com a língua crespa, em ritual de afago e lambidas. Ai de quem tente interromper seu amor às crias nessa hora mansa, em lambidas de doçura.  Sua careta é tão feia que o mais corajoso predador sai em disparada para num instante não virar janta da mãezona zangada. 

            O gavião manso amanhece quando descobre a parceira para construir uma nova família. Lá estão eles bem no alto, com os bicos que se tocam e asas que abraçam. Lá como cá, embora fujam do verde odores do que encanta, a vida prossegue, além o azul inocente ressoa. Doce e eterna ternura penetra os seres e as coisas, revestindo nossa existência com o vento, o sol e a chuva.  É verdade, a ternura com seus pendores perdura dentro de cada um de nós.

            Aconteceu que certo dia o menino sorriu o sorriso mais feliz do mundo quando pela primeira vez entrou com o pai no estádio superlotado. Todo alegre ia ver o seu time querido disputar a partida final do campeonato.  Antes de a partida ter início, virou-se para o pai com o rosto festivo, deu-lhe um beijo.  Podia até não saber que estava fazendo um gol de placa com a marca da ternura, mas era o jogador mais incrível antes do vaivém da partida.

             Outro dia, um menino, que acreditava em Papai Noel, quando  viu o velhinho sentado na cadeira do supermercado, teve certeza que esse  homem gordo, vestido numa roupa vermelha, crescida barba branca,  soltava pelas mãos corações,  ao mesmo tempo que sorria fazendo rô, rô, rô  para cada um dos meninos. 

             No cinema, quando o mocinho salvava a mocinha dos bandidos que acabavam de assaltar o banco, o coração do menino queria saltar pela boca, de tanto alegria que tinha. O mocinho ganhava um beijo da mocinha. Na cena final a ovação era geral, o bem vencia o mal.

            Ternura só faz bem, mesmo quando a cena é triste e com ela a gente nunca se acostuma.  Daquela vez ele viu quando a mulher pediu para que ainda não descessem o caixão. Passou a mão no rosto do marido. Disse: “Vá em paz, fique certo que haverá no caminho a sua estrela-guia.”

            Ternura serve para espantar os males. Ela opera o milagre de nascer no mesmo chão, adormecer sob a vigília da esperança. Acordar, erguer-se com leveza, sair por aí para acontecer com hesitante tremor enquanto dura a vida com os fios sem fim do sonho no amanhecer fundamental. 

 

*Cyro de Mattos é jornalista, cronista, contista, romancista, poeta e autor de livros para crianças. Publicado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Rússia, Dinamarca, México e Estados Unidos. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

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domingo, 26 de junho de 2022

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (268)



13º Domingo do Tempo Comum – 26 de junho de 2022

Anúncio do Evangelho (Lc 9,51-62)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós!

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor!

Estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu. Então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém e enviou mensageiros à sua frente.

Estes puseram-se a caminho e entraram num povoado de samaritanos, para preparar hospedagem para Jesus. Mas os samaritanos não o receberam, pois Jesus dava a impressão de que ia a Jerusalém.

Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los?”

Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os. E partiram para outro povoado.

Enquanto estavam caminhando, alguém na estrada disse a Jesus: “Eu te seguirei para onde quer que fores”.

Jesus lhe respondeu: “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”.

Jesus disse a outro: “Segue-me”.

Este respondeu: “Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai”.

Jesus respondeu: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus”.

Um outro ainda lhe disse: “Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares”.

Jesus, porém, respondeu-lhe: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o link abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira, Sacerdote da Comunidade Canção nova:



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sexta-feira, 24 de junho de 2022

PARECIA COM A PRINCESA ISABEL – Ariston Caldas

 

 


           Na sala de entrada da casa de Adelaide havia, pendurado na parede, um quadro com a fotografia de uma moça bonita, de vestido branco com peitilho de renda e uma coroa na cabeça; no peito, uma cinta azul atravessada, com letras douradas, mas, de longe, Leni não conseguia decifrá-las; o reflexo do sol sobre o vidro atrapalhava a vista. “Só pode ser uma rainha ou uma princesa”. Lembrou da princesa Isabel, a dos escravos, desenhada num livro de história que dera no curso primário; lembrava bem do rosto de Isabel impresso no livro. Quando pudesse perguntaria a Adelaide quem era a moça do quadro. Perguntou e soube, não era nenhuma alteza, mas a própria Adelaide quando tinha dezoito anos de idade e foi rainha da beleza em sua terra natal.

            “Como a senhora era bonita!”, disse Leni. Adelaide fez um risinho disfarçado num canto da boca, sentindo o “era” de Leni como um agravo, uma afirmativa que sua beleza desaparecera. É, minha filha, veja o que a vida faz com a gente”, disse Adelaide com fala abafada.

            Leni sentiu que lhe havia magoado e tentou remendar o que dissera: “a senhora continua bonita, nem parece ser mãe de três meninos já crescidos”. Adelaide não deu nenhum crédito à reparação e continuou afirmando que estava envelhecida; falou das manchas escuras pelo rosto, dos fios de cabelo branco aparecendo, dos seios sem a robustez daquele tempo do concurso de beleza; “hoje estou um caco sem valia, cheia de pano preto, magra e sem ânimo para este mundo”, acrescentou Adelaide. A essa altura da conversa, a cidade natal emergia em seu pensamento iluminada e festiva; viu a casa onde morava, o quarto, o espelho quadrado onde se olhava vestida no modelo para a coroação no palanque da praça pública; a mãe lhe retocando a pintura do rosto, ajeitando detalhes o vestido branco de organdi com peitilho rendado, passando uma flanela pelos sapatos brancos de camurça; o pai entrando e saindo agoniado; “vamos minha gente, está na hora”, as amigas ajudando. Depois, o palanque no meio da praça regurgitando de gente, uma multidão; a filarmônica tocando, os discursos, os aplausos durante a coroação dela e das princesas; mais tarde, o baile chique no clube social especialmente decorado para o evento; os homens doidos de olho nela, as mulheres morrendo de inveja; muita bebida, ramalhetes de rosas sobre a mesa preparada para ela, os familiares e as duas princesas; “parecia um trono”. Agora sonhava ser miss Bahia, Brasil e, quem sabe, Universo.

            Lembrava de Almir, quase seu noivo, enciumado pelos cantos, retraído, nervoso, mastigando chiclete olhando-a assoberbada de gentilezas por todo lado, ela e as duas princesas; do outro, o pai, a mãe e o paraninfo da candidatura dela, dono de uma padaria. Almir achava que aquele lugar deveria ser para ele, mas nem exigia coisa nenhuma, mesmo pretendendo noivar. Ciumava, passava olhando com raiva, mordia os beiços, mastigava chiclete. Adelaide nem imaginava que mais tarde, menos de dez anos, estaria casada com Bertino, guarda municipal e agora, já com três filhos crescidos, sentia-se velha e os outros também achavam isso, como Leni: “Como a senhora era bonita!”. Sentiu-se magoada, mais velha ainda; os peitos murchos, o cabelo embranquecendo, as rugas, as manchas escuras pelo rosto, varizes nas pernas. Lembrava do salão iluminado, da banda de música tocando, os discursos, uma coroa dourada sobre a cabeça cheia de cachos bem-feitos, uma faixa bonita atravessada, “Rainha da Cidade”; Almir a um canto, emproado, cheio de ciúme, mastigando chiclete.

            Adelaide recebera o café em pó que pedira emprestado a Leni e voltou para casa do outro lado da rua empoeirada, entre sombras remotas sumindo; “a mais bonita da cidade”. Afastou o cabelo espalhado pelos ombros e lembrou novamente da velhice, dos seios que não tinham mais a robustez daquele tempo quando fora coroada rainha.

            Aumentou os passos ao lembrar que havia deixado no fogo uma chaleira com água para coar café; “já deve ter secado”.

            Leni, do passeio da casa dela, olhava Adelaide pelas costas, envelhecida, diferente da que via na foto parecida com a princesa Isabel.

 

Ariston Caldas

LINHAS INTERCALADAS

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quinta-feira, 23 de junho de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Pássaro Gentil, por Paulo Bezerra



PÁSSARO GENTIL

Paulo Bezerra

 

 

Pássaro gentil

alegre e buliçoso

a ânsia da vida te trouxe

pra dentro de minha varanda.


Voas e voas e pousas

brindando as samambaias

beijando os antúrios

e me alegrando a vida.

 

Chegaste como um sopro

um alento, um recado da vida

 dizendo que está aí

e precisa ser vivida. Revivo.

 

Encheste meu peito de paz.

Trouxeste a esperança que alenta,

espalhada sobre as asas.

Lembro que amo, e amo, e amo

 e me alegro muito.

 

Voas e vais.

 

Meu bem ficou aqui,

dormindo entre as plantas.

O peito, agora, é fonte e jorra

embalado pelo tenor de Pavarotti.

 

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PAULO BEZERRA – Juiz do Trabalho da 19ª Região – AL

Presidente da JCJ de União dos Palmares – AL

Poemas escritos em União dos Palmares

Dedicatória:

A meu filho Moacir, pedaço maior de minha sensibilidade.

A todos aqueles que têm, como eu, no peito, um pouco de sentir.

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