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segunda-feira, 13 de junho de 2022

SANTO ANTONIO DE PÁDUA, "MARTELO DOS HEREGES" - Plinio Maria Solineo

Imagem de Santo Antonio na Sé de Lisboa [Foto PRC].

O grande taumaturgo de Pádua –– ou de Lisboa, sua cidade natal –– embora com uma curta existência terrena, tornou-se um dos santos mais populares do mundo, sendo venerado tanto no Oriente quanto no Ocidente

·         Plinio Maria Solimeo

“Alegra-te, feliz Lusitânia! Salta de júbilo, Pádua ditosa! Pois gerastes para a Terra e para o Céu um varão que bem pode comparar-se com um astro rutilante, já que brilhando, não só pela santidade da vida e gloriosa fama de milagres, mas também pelo esplendor que por todas as partes derrama a sua celestial doutrina”. Esse foi o esplêndido elogio que fez desse santo o Papa Pio XII.(1)

“Doutor da Igreja”, “Martelo dos Hereges”, “Doutor Evangélico”, “Arca do Testamento”, “Santo de todo o mundo” –– são alguns dos títulos com que os Soberanos Pontífices honraram aquele cuja vida foi, no dizer de um de seus biógrafos, um milagre contínuo.

Natural de Lisboa onde nasceu em 1191 ou 1195, filho dos nobres Martinho de Bulhões e Teresa Taveira, o futuro santo recebeu no batismo o nome de Fernando. De boa índole, inclinado à piedade e às coisas santas, sua formação espiritual e intelectual foi confiada aos cônegos da Catedral de Lisboa por seu pai, oficial no exército de D. Afonso.

Clérigo Regular de Santo Agostinho


Acometido por forte tentação contra a pureza, Santo Antonio traçou uma cruz com os dedos numa coluna de mármore da Sé de Lisboa, ficando nela impressa como em cera [Foto PRC].

Segundo alguns de seus biógrafos, na adolescência Fernando foi acometido por violenta tentação contra a pureza. Para aplacá-la, estando na catedral, o jovem traçou uma cruz com os dedos, numa coluna de mármore, ficando nela impressa como em cera. Avaliando nessa ocasião os perigos que corria, o adolescente quis entrar para o mosteiro de São Vicente de Fora, dos Clérigos Regulares de Santo Agostinho, nos arredores da capital portuguesa, quando contava 19 anos de idade.

Ali permaneceu dois anos, findos os quais, por ser muito procurado por parentes e amigos, pediu aos superiores que o transferissem para o mosteiro Santa Cruz de Coimbra, casa-mãe do Instituto. Foi ordenado sacerdote em 1220. Frei Fernando, entretanto, almejava abraçar um gênero de vida mais perfeito e mais de acordo com suas íntimas aspirações.


Cripta da Igreja de Santo António, em Lisboa, construída no local onde nasceu o santo. Na lápide, em latim lemos: Nascitur. Hac. Parva. Ut. Tradunt. Antonius. Aede. Quem. Coeli. Nobis. Abstulit. Alma. Domus (“Nesta casa, segundo a tradição, nasceu e viveu António, que foi roubado pela gloriosa morada do Céu”). [Detalhe abaixo, Fotos PRC].

 

Transferência para a Ordem franciscana


Quando chegaram a Coimbra os restos mortais dos cinco protomártires franciscanos, que deram sua vida pela Fé no Marrocos, Frei Fernando sentiu imenso desejo de imitá-los, vertendo também seu sangue por Cristo.

Um dia, no verão de 1220, quando dois franciscanos foram ao seu mosteiro pedir esmola, Frei Fernando perguntou-lhes se, passando ele para sua Ordem, o enviariam à terra dos mouros para lá sofrer o martírio. Eles deram resposta afirmativa. No dia seguinte, depois de obter, a duras penas, autorização de seu Superior, mudou-se para o eremitério franciscano, onde se tornou um filho de São Francisco de Assis.

Frei Fernando mudou então seu nome para o do onomástico do eremitério, Antonio, que ele imortalizaria.

Conforme o combinado, Frei Antonio foi enviado no fim desse mesmo ano à África. Entretanto não estava nos planos da Providência que ele ilustrasse a Igreja como mártir, mas com suas pregações e santa vida. Assim, chegando ao continente africano, foi atacado de terrível doença, que o reteve no leito por longo período. Os superiores decidiram que, para curar-se, Frei Antonio deveria voltar a Portugal.

Acrisolado pela Divina Providência

A mão da Providência, no entanto, desejava-o em outro campo de luta. O navio em que estava o convalescente, levado pela tempestade, foi parar nas costas da Itália, onde o santo encontrou abrigo em Messina, na Sicília. Lá soube que o seráfico São Francisco havia convocado um Capítulo em Assis, para maio de 1221. Antonio poderia, enfim, ver o pai e fundador dos franciscanos e contemplar sua angélica virtude.

Naquela grande assembléia o Provincial da Romênia resolveu levá-lo consigo. Frei Antonio obteve dele licença para permanecer no eremitério do Monte Paulo, a fim de entregar-se ao isolamento e à contemplação.

Entretanto a mão de Deus velava sobre ele, e chegou o tempo em que aquela luz deveria brilhar para o bem do mundo inteiro.

Começa a vida apostólica como grande pregador

Foi enviado a Forli com alguns franciscanos e dominicanos que deveriam receber as ordens sacras. O Padre guardião do convento em que se hospedavam pediu que algum dos presentes dissesse algo para a glória de Deus e edificação dos demais. Um a um, foram todos escusando-se por não estarem preparados. Restava Antonio. Sem muita convicção, o Superior mandou-lhe então que falasse, à falta dos demais.

Era a primeira vez que Antonio falava em público, e então viu-se a maravilha: de sua boca saíram palavras de fogo, demonstrando profundo conhecimento teológico e das Escrituras, tudo exposto com uma lógica, clareza e concisão que conquistou a todos.

Entusiasmado, o Guardião comunicou aquele sucesso ao Provincial, que transmitiu a notícia a São Francisco. O Poverello mandou então que Frei Antonio estudasse teologia escolástica para dedicar-se à pregação. Pouco depois, em vista de seus progressos, ordenou-lhe S. Francisco que trabalhasse na salvação das almas. Era o ano 1222, e Frei Antonio contava apenas 30 ou 31 anos de idade.



Igreja de Santo António contruída no local onde nasceu o santo (no fundo a Sé de Lisboa) [Foto PRC].

Força irresistível de suas fogosas palavras

Segundo seus biógrafos, “ele tinha um exterior polido, gestos elegantes e aspecto atraente. Sua voz era forte, clara, agradável, e sua memória feliz. A essas vantagens, juntava uma ação cheia de graça”.(2) Entretanto, “seu traço característico, o milagre constante de sua existência, é a força incontestável de sua pregação, o poder de sua voz sobre os corações e as inteligências”.(3)

“Quando ele fulminava os vícios e as heresias — das quais o mundo estava então extremamente infectado — era como uma torrente de fogo que revira tudo, e à qual ninguém pode resistir. […] Freqüentemente, se bem que falasse [durante o sermão] uma só língua, era entendido por pessoas de toda espécie de países”.(4) Daí seu sucesso extraordinário, tanto na Itália quanto na França.

Milagres como no tempo dos Apóstolos

As multidões acorriam, e até os comerciantes fechavam suas lojas para ir ouvi-lo; a cidade e toda a redondeza literalmente paravam. Sendo pequenas as igrejas para tanta gente — às vezes chegavam a juntar-se até 30 mil pessoas num só sermão — ele falava nas praças públicas. Quando terminava, “era necessário que alguns homens valentes e robustos o levantassem e protegessem das pessoas que vinham beijar-lhe a mão e tocar-lhe o hábito”.(5) O número de sacerdotes que o acompanhavam era pequeno para depois ouvirem as confissões dos que, tocados por seu sermão, queriam emendar-se de vida.

Seus sermões eram seguidos de milagres como não se viam desde o tempo dos Apóstolos. Praticamente não havia coxo, cego ou paralítico que, depois de receber sua bênção, não ficasse são. Numa ocasião converteu 22 ladrões, que por curiosidade foram ouvi-lo. O número de hereges por ele convertidos não tem fim.


Milhares de peixes de vários tipos e tamanhos puseram a cabeça fora da água para ouvir o sermão de Sto. Antonio. Azulejo na Sé de Lisboa representa o milagre [Foto PRC].

Prega aos peixes para confundir os indiferentes

Um dos milagres mais conhecidos de Santo Antonio foi sua pregação aos peixes. Em Rimini, durante seu sermão, o povo se mantinha indiferente. Abandonando seus ouvintes, foi pregar à beira-mar. Milhares de peixes de vários tipos e tamanhos puseram a cabeça fora da água para ouvir o santo, que tinha sido seguido pela população da cidade, testemunha do milagre.

Santo Antonio foi cognominado “Martelo dos Hereges”, porque a heresia não teve inimigo mais formidável. Sua mais antiga biografia, conhecida pelo nome de Assídua, relata: “Dia e noite tinha discussões com os hereges; expunha-lhes com grande clareza o dogma católico; refutava vitoriosamente os preceitos deles, revelando em tudo ciência admirável e força suave de persuasão que penetrava a alma dos seus contrários”.(6)

Um heresiarca negava a Presença Real no Santíssimo Sacramento. Para acreditar, dizia, queria um milagre. E propôs o seguinte: deixaria sua mula sem comer durante três dias. Depois disso, oferecer-lhe-ia feno e aveia, e Frei Antonio a Hóstia consagrada. Se a besta deixasse a comida para ir adorar a Hóstia, ele creria, disse. Isso foi feito diante de toda a cidade. E a mula faminta, tendo que escolher entre o alimento e o respeito à Hóstia consagrada, foi ajoelhar-se diante desta, que o santo segurava nas mãos.

Desde a mais tenra infância Antonio fora devoto de Nossa Senhora, e Ela várias vezes o socorreu. Um dia, por exemplo, em que o demônio não podia mais suportar o bem que o santo fazia, agarrou-o pelo pescoço tão violentamente, que o enforcava. Antonio mal pôde balbuciar as palavras da antífona a Nossa Senhora, “O Gloriosa Domina”. No mesmo instante o demônio fugiu apavorado. Recomposto, Antonio viu a seu lado a Rainha do Céu resplandecente de glória.

“O santo morreu! O santo morreu!”


Relíquias de Santo Antonio guardadas na Sé de Lisboa [Foto PRC]

No ano de 1231, Frei Antonio, sentindo piorar a hidropisia maligna que o perseguia havia tempos, percebeu que sua hora chegara e quis morrer em Pádua, sua cidade de adoção. Quando o povo paduano ouviu dizer que ele estava chegando, acorreu em tal quantidade, que os frades que o acompanhavam, para livrá-lo do assédio, levaram-no para a casa do capelão das freiras clarissas, onde ele faleceu com apenas 40 anos de idade.

Imediatamente as crianças de Pádua saíram espontaneamente pelas ruas gritando: “O santo morreu! O santo morreu!”. Ao mesmo tempo, em Lisboa, sua cidade natal, os sinos puseram-se a repicar por si sós, e o povo saiu às ruas. Somente mais tarde é que souberam do ocorrido.

Tantos foram os milagres operados pelo santo em seu túmulo, que levaram o Papa Gregório IX a canonizá-lo apenas um ano depois de sua morte. Anualmente sua festividade é comemorada no dia 13 de junho.

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Notas:

Fonte: Revista Catolicismo, junho/2005.

1. Pio XII, Carta Apostólica de 16 de janeiro de 1946, apud Pe. José Leite, Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1987, tomo II, p. 252.

2. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d’après le Père Giry, Bloud et Barral, Éditeurs, Paris, 1882, tomo VI, p. 617.

3. Frei Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo II, p. 603.

4. P. Simon Martin, Vie des Saints, Bar-le-Duc, 1859, tomo II, pp. 946-947.

5. Pe. Pedro Ribadaneira, apud Dr. D. Eduardo Maria Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González y Compañía, Barcelona, 1896, tomo II, p. 425.

6. Apud Pe. José Leite, S.J., op.cit., p. 251.

https://www.abim.inf.br/santo-antonio-de-padua-martelo-dos-hereges/

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domingo, 12 de junho de 2022

BIA KICIS Retrospectiva da semana

PALAVRA DA SALVAÇÃO (267)


Solenidade da Santíssima Trindade | domingo, 12 de junho de 2022

Anúncio do Evangelho (Jo 16,12-15)

— O Senhor esteja convosco.

—Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora.

Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará.

Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira, Sacerdote da Comunidade Canção Nova:


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A Santíssima Trindade é a melhor comunidade

 


“Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora” (Jo16,12)

Neste domingo (12.06.22), a Igreja celebra a Festa da Santíssima Trindade. Parece que celebramos algo estranho e distante de nossa compreensão. No entanto, a festa da Trindade nos mobiliza para uma nova maneira de viver e de nos relacionar com o Deus de Jesus, cuja presença preenche o cosmos, irrompe na nossa vida, habita criativamente no interior de cada um de nós e é vivido em comunidade.

É preciso deixar claro que o Mistério da Trindade não é um enigma a ser decifrado, ou seja, como conjugar três “individualidades” em uma Unidade, mas é a proclamação de que “tudo é Relação”. A Trindade não é uma especulação teórica sobre três pessoas “abstratas” em Deus, mas a maneira de ser de Deus, como Amor que se expande, em si e fora de si, de uma maneira “redentora”, inserindo-se na história da humanidade.

Assim, a Trindade não é uma simples verdade para crer, mas a base de nossa experiência cristã. O dogma trinitário quer expressar o mistério da Vida mesma de Deus que nos é comunicada. 

Foi a experiência cristã da ação salvadora de Deus por meio de Jesus Cristo e no Espírito Santo que deu existência à doutrina trinitária. Deus não é solidão, mas comunhão perfeita, pois “Deus é Amor”. Eis aí a grande revelação que Jesus nos trouxe: a essência de Deus é Amor em estado puro. Então, Deus não poderia fazer outra coisa senão amar. De fato, o amor não existe se não for movimento, reciprocidade, dom, acolhida, relação e comunhão.

Não podemos definir Deus. Só podemos nos aproximar da essência de Deus afirmando que Ele é relação, comunidade, partilha, comunicação, intercâmbio, comunhão.... Agostinho afirmou que no Amor se encontram três realidades: o Amante, o Amado e o mesmo Amor.

“Deus é Amor”, circulação eterna e infinita de amor, na qual o Amante, o Amado e o Amor se relacionam tão intensamente até “transbordar-se” na criação do universo. A Criação é transbordamento do Amor trinitário e o ser humano é “morada” das Três Pessoas Santíssimas.

A Trindade evoca um Deus cuja essência é caracterizada por um movimento eterno em direção a nós, em um amor redentor. Somente na medida em que formos capazes de amor, poderemos conhecer o Deus comunidade, ou seja, comunhão de Pessoas.

Esta é a essência do Evangelho. A melhor notícia que um ser humano podia receber é que Deus não o afasta de seu Amor. A Trindade nos ensina que só vivemos quando com-vivemos.

A Bíblia nos fala de um Deus amor; amor pessoal, porque ama a cada um de nós; amor total, universal, que não exclui ninguém; amor preferencial, porque se inclina para o frágil; amor comunitário, porque em si mesmo não está só, senão que é comunidade e gera comunidade entre os seres humanos.

Deus é Amor e só amor. Percebemos, então que, incompreensível não é Deus, mas nossa resistente e limitada capacidade de contemplar com profundidade essa Presença que se manifesta, permanentemente, em nossa vida e na Criação inteira.

Deus nos fez amor para o mútuo encontro, para a doação, para a comunhão...

Fomos criados “à imagem e semelhança” do Deus Trindade, comunhão de Pessoas (Pai-Filho-Espírito Santo). Quanto mais unidos somos, por causa do amor que circula entre nós, mais nos parecemos com o Deus Trindade. “Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é perfeito” (1Jo. 4,12)

Deus colocou em nossos corações impulsos naturais que nos levam em direção ao convívio, à cooperação, à acolhida, à solidariedade... “Só corações solidários adoram um Deus Trinitário”. 

Aqui está a grandeza e a dignidade do ser humano, criado à imagem e semelhança do Deus Trindade. E é fácil intuir isso: sempre que sentimos o dinamismo de amar e ser amados, sempre que sabemos acolher e buscamos ser acolhidos, quando compartilhamos uma amizade que nos faz crescer, quando sabemos doar e receber vida..., estamos saboreando e visibilizando o “amor trinitário” de Deus. Esse amor que brota em nós tem n’Ele sua fonte.

O amor intra-trinitário não é um amor excludente, um “amor egoísta” entre três. É amor em excesso que se difunde e se expande em todas as criaturas. Por isso, quem vive o amor inspirado pela Trindade, aprende a amar a quem não lhe pode corresponder, sabe doar sem esperar recompensa, sente uma grande paixão pelos mais pobres e pequenos, é capaz de entregar sua vida para construir um mundo mais amável e digno.

Por outro lado, quem é incapaz de dar e receber amor, quem não sabe compartilhar nem dialogar, quem só escuta a si mesmo, quem resiste relacionar-se com os outros, quem só busca seu próprio interesse, quem só deseja o poder, a competição e o triunfo, não pode experimentar nada da Trindade amorosa. 

O ser humano não é feito para viver só; ele é chamado a viver em comunhão com todas as pessoas;

Como homem e como mulher trazemos esta força interior que nos faz “sair de nós mesmos” e criar laços, construir fraternidade, fortalecer a comunhão. Fomos feitos para o encontro e a comunicação.

Não fomos criados para viver sós; necessitamos con-viver, viver-com-os-outros, encontrar-nos; é essencial descobrir o sentido e a vivência do encontro relacional com os outros, na vida familiar, na fraternidade, na sensibilidade social para com o diferente e o excluído.

O sentido da vida em comum com os outros é um dom de Deus; afinal, fomos criados à imagem do Deus “encontro intra-trinitário”.

fraternidade, a vida em comum se mede pelo amor, por atos e gestos de doação, por vivências de comunhão, por experiências de partilha do mesmo ser, da mesma vida, da entrega mútua gratuita...

amor é olhar o outro com olhos tão limpos, bondosos, desinteressados, tão profundos... que só desejo que o outro seja o que é... Alegro-me de vê-lo assim, tal como é... 

O dogma da Trindade, portanto, não só nos revela como Deus é para nós; é também revelação de quem somos nós, ou seja, portadores do impulso relacional que se manifesta na nossa capacidade de amar.

Se Deus é relacionamento amoroso perfeito e nós somos criados à sua imagem e semelhança, então a doutrina da Trindade está preocupada com a nossa vida também. Somos convidados pela graça divina a entrar neste fluxo de relação que define o próprio ser de Deus.

Deus de Jesus não é uma verdade para pensar, mas uma Presença a ser vivida. Não é um ideia para quebrar nossa cabeça, mas a base e fundamento de nossa vida.

Uma profunda vivência da mensagem cristã será sempre uma aproximação ao mistério Trinitário.

Será, em definitiva, a busca de um encontro vivo com Deus. Não se trata de demonstrar a existência da luz, mas de abrir os olhos para vê-la. O verdadeiramente importante foi sempre a necessidade de viver essa presença do Deus, comunhão de Pessoas, no interior de cada ser humano.

Jesus, o Mistério de Deus feito carne no Profeta da Galiléia, é o melhor e único ponto de partida para reavivar uma fé simples no Deus Comunidade de Pessoas.

Texto bíblico:  Jo 16,12-15

Na oração: A Trindade não é hóspede; é a essência do ser humano; o modo de viver de uma pessoa é revelador de quem habita seu interior; uma pessoa compassiva, aberta, acolhedora... é sinal de que é habitada pela Trindade amorosa.

- Quem perde o caminho de sua interioridade, distancia-se da Trindade que é Vida e passa a viver a cultura da morte, deixando transparecer o ódio, a violência, o preconceito, a injustiça... como modo petrificado de ser.

- Qual é a Presença que determina sua vida: a Trindade Santa ou os dinamismos diabólicos (forças que dividem)?

 


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2592-a-santissima-trindade-e-a-melhor-comunidade

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TANTA DOR, POESIA – Cyro de Mattos


                                Tanta dor, poesia 
 

Cyro de Mattos

 

          Adelmo Oliveira nasceu em 13 de maio de 1934, na cidade de Itabuna, sul da Bahia. Sua família constituída de retirantes da seca retornou às origens no sertão da Bahia, na época da Segunda Guerra Mundial. Publicou: O canto da hora indefinida (1960), O som dos cavalos selvagens (1971) , Cântico para o Deus dos ventos e das águas (1987), Espelho das horas (1991), Canto mínimo (2000), Poemas da vertigem (2005) e Antologia (2012) na coleção Poesia Seleta, da Editora Mondrongo.

          Em Cântico para o Deus dos ventos e das águas, prossegue na jornada de andarilho da ilusão pelo “reino das estrelas eternas”, como ele mesmo diz em um de seus versos. Retorna ao espaço da emoção e reflexão ritmado com a  palavra que  expressa seu sentimento de mundo,  testemunho de seu tempo e lugar.   

          Este livro está dividido em quatro partes:  Silêncio & memória, Grito & silêncio, O menino & o sonho, O homem & o sonho.  Com seus ventos e águas de eternas datas, esse cântico revela um poeta que em seu navegar solitário assume o gosto lírico da tristeza. Dotado de irmandade em   “Pássaro”, humanismo político em “As bodas da morte”, moralizante em “Bilhete a um poeta”, ingênuo em  “O menino & os pássaros”, luto e dor  em “Elegia dos deuses”, sagrado no grave ritual de  “Confissão”. A dicção se compraz em guardar no tom pungente o que é fundamental moldado com a marca das distâncias. Na flauta que toca a música de tristes claridades, a expressão lírica filtra ausências por entre sombras, queixas de muitas solidões, isolamento, cais, despedida. Longe de desesperar, afirme-se com o poeta no seu ermo que “esse pranto e ponteio num poço de ondas e mágoas” redime, conforta.  Elucida no silêncio a rosa quando nasce ade pesares na paisagem solitária.

          É uma poesia que se vincula à linhagem de tradição universal em seus elementos mais presentes: o verso, a rima, a imagem, o uso do soneto, o subjetivismo. E, moderna em sua expressão lírica, sem os desvios técnicos de certa vanguarda experimentalista. No ritual de dor, tristeza e solidão, conduz sua mensagem por “caminhos de orvalho”, através de uma dicção confessional que converte o poeta “a uma seita antiga para o culto de deuses invisíveis.”

          O cântico que Adelmo Oliveira fere nessas águas de sal é vazado com solidariedade, equilíbrio de ventos ofendidos no tempo interior, doloroso e intenso, que corre no mundo. Sua música não é artificial. Há, em notas agudas,  o eu profundo que resiste a um mundo despido de ternura, em ritmo veloz que pulsa  no absurdo, impele a criatura para uma zona ausente  de esperança e compreensão.

          É um cântico que comove, dado que nele submerso está o sujeito  como alguém triste, em  armadura frágil nos limites do próprio casco, com “um pé no chão e outro no espaço”, eis que emerge  daquela região fincada de pureza, apesar de perdida, na qual gravita  de si mesma a memória de cenas episódicas  eternamente nuas. A voz que escorre assim desse cântico mostra que na canção do viver e morrer lirismo e o lado social do homem como ser gregário podem conviver de mãos dadas, solidárias.

          Pode-se dizer que em Cântico para o deus dos ventos e das águas o poeta resgata o homem com mãos cheias de amor no apito sonoro das extensões e fragmentos doloridos latejando na memória. Com voz subjetiva eficaz, tom suficiente de queixa na vida que passa, suporta no seu ermo o mito da inocência perdida. Navega nessas águas feridas, caminha nesses ventos ofendidos, diz do eco de vozes oprimidas. Guarda na melodia de rude mar rumores de madrugada, que se anuncia solitária e indefinida.

          Na Antologia (2010), organizada por Gustavo Felicíssimo, Coleção Poesia Seleta, da Mondrongo, a poesia de Adelmo Oliveira é como uma estrela fixa que revela o mundo em órbita de ventos contrários. Constata de que estamos enredados com o peso do enigma, representados no atrito dos  seres e as coisas, até mesmo quando o cenário é a infância, que entre fissuras e rupturas forma fragmentos de uma fruta que de súbito acaba  com a idade adulta. Simbolizada por questões e momentos agudos, essa poesia é   algo que sempre está se fazendo e implica na criação de nós mesmos. Ora como feridas, que, no desencontro da passagem do tempo, deixam marcas profundas, próximas de verdades. Ora é a guerra que anula, a paz que marcha na esperança para colher a felicidade.

          Ocorrem cismas dentro da alma do poeta:

 

Vértice no tempo

De tanta dor

Meu pensamento

É só amor

 

 

          Eis aqui uma poesia que, também, veste-se de coragem e dignidade no espelho das horas. De ritmo que agrada, conduz sem pressa quem a lê  por meio de discurso elegante,  sem a  dicção para  esquivar-se  da vida na colheita das dores. Não teme os desafios, nunca recua em suas constatações do que não agrada e oprime. Não se envergonha  de mostrar   como   dolorida  é a memória do eu pronunciado, vertido por meio  de insinuações e motivações na  lágrima feita de sal.

          O mundo está dentro do poeta e o poeta dentro mundo. Essa é a sua  maneira  de  circular na existência, como um “filho errante da poesia.“ Os últimos versos de  “Monólogo de uma  rapsódia ligeira”, poema incluso na antologia, deparo-me com a certeza da crença desse poeta,  em voz viva:

 

  Só confio nas palavras

 Ainda que inutilmente revelem

 A verdadeira face da noite

                        

                         da noite

 

          Da grande noite de nossa inexorável miséria

 

          A poesia acompanha decididamente os passos do poeta no seu ofendido ser-estar do mundo, enredado na ilusão sob o peso do enigma, condição que lhe é cobrado pelo tempo na morte dos dias. Ao ler a poesia de Adelmo Oliveira, escuto o poeta T.S. Eliot quando diz que o rio flui dentro de nós, o mar cerca por todos os lados. Escuto no poeta baiano a sua voz  que se abre com as palavras , soltas na garganta como canto de  pássaro,  retirando  de dentro a fala, o grito, que  diz:

 

Sou um eco de silêncio do infinito

que perturba a razão deste enigma.

 

          Neste enigma vestido no silêncio dos desertos, o poeta medita o quanto o peito desesperado fala do homem habitado de sofrimento. As palavras são nítidas, cortantes, constatam, servem às feridas que não se fecham. Revelam sempre na metáfora do cérebro que tudo explode nos caminhos onde a cruz está fincada e abalam ideias no pensamento com incansáveis cavalos em   irascível galope. 

           Jogo e drama são movimentos de sondagem dessa poesia que pulsa em nervos e sentimentos, são vísceras do mar salgado da vida. Ninguém sabe de onde vem nem para onde vai este solitário coração. Com ele, no itinerário  de armazenadas solidões, salta o  pássaro riscado nas penas com pesares, desconfiado de sombras. Assim é que o poeta acha o equilíbrio por  entre os medos  e os vazios, delírios e sonhos. E se vê como um intervalo que não chega a compreender, não consegue decifrar o código cujas pontas estão atadas entre o primeiro vagido e o último suspiro. 

          Da infância, o poeta lembra o Rio do Ouro que secou, os caminhos que não se completaram, as veredas compartilhadas com o destino que deságua em um leito de águas mortas, nesse súbito estuário escuro. De outras vezes romântico ou assumido realista, toma emprestado a voz de figuras fundamentais na crença de uma sociedade justa. Mostra-se engajado na poesia social, solidária, de alto nível, humanista, suportando dores refeitas na esperança do mundo melhor, seguindo na marcha de esperança. 

          O poeta libertário, em “Pequena canção do porta-estandarte” distribui versos cantantes para comover e unir todas as mãos em uma só cantiga:

 

Não é sede de vingança

Não é ânsia de terror

Não é fuga ao desvario

Não é escape de angústia amorosa

Nem murmúrio de sentimentos dissolutos.

 

          E já podemos concluir com ele que a liberdade, o bem mais forte dos humanos, só é a força pura da vida, legítima, quando se escreve o seu nome  “como quem prega a paz e busca a felicidade.”

          No exercício do soneto, faturado com sinceridade, verdades, dá mostras de certa morte que é puro fingimento. Vertido de vertigens e fantasia, enuncia uma de suas estações prediletas a perdurar segredos e desejos do mito que circula na rota da ilusão:

 

Aqui perto de mim, na minha vida

Meus olhos ficam cheios de poesia

- A estrela se debruça na janela

E a lua troca a noite pelo dia.

 

          O poeta só emprega palavras que não desmentem o que sentiu e colheu nas dores da vida. Em Adelmo Oliveira, o universo verbal do poema não é feito com os vocábulos do dicionário, não se trata de ornamento que serve de mero passatempo. Quer dar no auge dos conflitos um sentido mais puro da vida.  (Ensaio que participa do livro Prosa e Poesia no Sul da Bahia, Editora Via Litterarum, Ibicaraí, Bahia, 2020)

 

Referência  

 OLIVEIRA, Adelmo. Antologia, Coleção Poesia Seleta, Editora Mondrongo, Itabuna, Bahia, 2012.

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Cyro de Mattos
é escritor e poeta. Publicado por editoras europeias. Membro da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia). Premiado no Brasil, México, Itália e Portugal.

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sábado, 11 de junho de 2022

“Senhor, por que pareceis dormir?”


 

Padre David Francisquini *

 

No último domingo, dia 5 de junho, 50 dias depois da Páscoa, a Santa Igreja celebrou a grande festa da descida do Espírito Santo sobre a Virgem Maria e os Apóstolos reunidos no Cenáculo. Trata-se de uma das datas mais importantes do calendário litúrgico, juntamente com a Páscoa e o Natal.

O termo “Pentecostes” vem do grego pentēkostḗ, que significa “quinquagésimo”, em referência aos 50 dias que se sucedem à Páscoa. No Antigo Testamento, o Pentecostes era celebrado apenas pelos judeus, no fim da última colheita do ano, como forma de agradecer a Deus pela comida. É também conhecida como celebração da Lei de Deus, em memória do dia em que Moisés recebeu as Tábuas com as Leis Sagradas.

Essa festividade aconteceu especificamente na primeira Páscoa depois de o povo de Israel sair da escravidão do Egito e receber os Dez Mandamentos enviados por Deus. Mas, no Antigo Testamento, o dia de Pentecostes é citado com outros nomes, tais como ‘Festa da Colheita ou Sega’ (Êxodo 23.16), ‘Festa das Semanas’ (Deuteronômio 34.22) e ‘Dia das Primícias dos Frutos’ (Números 28.26).

No Novo Testamento, a comemoração de Pentecostes é citada no livro dos Atos dos Apóstolos, no capítulo 2, quando narra o momento em que os apóstolos receberam os dons do Espírito Santo: “Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem” (Atos dos Apóstolos 2:1-4).

Os fiéis católicos sabem que a festa do divino Espírito Santo é comemorada com toda solenidade e se estende por oito dias. Tão importante é este tempo, que os domingos seguintes estão concatenados entre si e são chamados ‘domingos depois de Pentecostes’. A importância dessa solenidade se acentuou a partir do século IV, e conferiu à Igreja o valor do batismo e da crisma administrados aos catecúmenos na vigília de Pentecostes para aqueles que não os receberam no Sábado Santo.

Com o fato histórico descrito nos Atos dos Apóstolos, fica estabelecida a promulgação solene da verdadeira Igreja de Jesus Cristo, que se dá na difusão do evangelho e administração do Batismo. As línguas de fogo sobre os apóstolos indicam a difusão da verdadeira fé e da palavra de Cristo contidas nos evangelhos e nas epístolas: “ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). A Igreja, esposa de Jesus Cristo, se inicia pelo esplendor e grandeza desta ação no mundo no dia desta solenidade, onde se encontrava reunidos os discípulos do Senhor.

Com a descida retumbante do Divino Paraclito sobre os apóstolos, estes se tornaram instrumentos eficazes da graça para transmitir em toda a face da Terra a doutrina ensinada por seu Divino Mestre. Não é de estranhar que a vinda do Espírito Santo no Cenáculo deu-se com grande estrondo; com um vento impetuoso e a aparição de destacadas línguas de fogo sobre todos os que se encontravam no recinto sagrado, onde Jesus Cristo instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio católico. Todos ouviram em seus próprios idiomas, com enorme fascínio, o que os apóstolos falavam sobre as maravilhas de Deus.

São Luís Grignion de Montfort, no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, descreve a relação entre o grande acontecimento de Pentecostes e os pregoeiros do Reino de Maria. Fundamenta ele que a ação de Maria no Cenáculo sobre os apóstolos seria semelhante à graça que receberão aqueles que lutarão pela vitória indelével da Igreja em uma era inteiramente marial, pulverizando o processo revolucionário multissecular desencadeado há séculos com o declínio da Cristandade.

Este grande santo francês, que viveu no século XVIII, num momento em que o movimento revolucionário grassava fortemente em toda a França, não por acaso lançou, com um brado pungente, os seus justos e zelosos anseios de ver restabelecida a ordem universal de outros tempos, fazendo ecoar os anseios do salmista: “Levante-se Deus, e sejam dispersados os seus inimigos” (Sl. 67, 1-2); Erguei-vos, Senhor, por que pareceis dormir? Erguei-Vos.

Acalentava São Luís Grignion no mais profundo de sua alma, o ideal profético de instauração de uma civilização ainda mais aperfeiçoada do que a de outrora. Segundo os perenes ensinamentos daquela que é Mãe e Mestra da verdade, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana ensina, guia, governa, santifica e define as verdades de Fé com vistas à salvação eterna dos homens, em todos os séculos.

Ao se referir ao reino profetizado por ele, São Luís fala que nessa era marial as almas estarão embebidas do amor de Deus, e serão instrumentos do Espírito Santo para constituir uma era de fogo na qual a face da Terra será renovada pela ação da Santa Igreja. Convém ressaltar o relacionamento existente entre Maria e os apóstolos, unidos em oração no Cenáculo, pois Maria é o elo entre a Igreja e Deus, pois sendo Mãe de Jesus Cristo, tornou-se a Mãe da Igreja.

De fato, o Espírito Santo operou uma transformação naquelas almas, que passaram a difundir as verdades ensinadas por Nosso Senhor. Pela fé, não somente temos certeza na promessa divina de que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, mas confiamos que algo extraordinário ocorrerá nos tempos atuais, diante da crise na qual Ela se encontra.

De tal modo extraordinário, que é impensável instaurar o Reino de Maria sem a ocorrência de uma ação extraordinária do Espírito Santo sobre as almas. Como pela ação de Maria no Cenáculo foi possível a vinda do Espírito Santo, assim também será em nossos dias, para que os escolhidos sejam verdadeiros condutores para a difusão da verdadeira civilização em toda a face da terra, em que Cristo será o centro e o rei da sociedade temporal e espiritual.

*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/senhor-por-que-pareceis-dormir/

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quinta-feira, 9 de junho de 2022

A AMA-SECA

Artur Azevedo

 


          O Romualdo, marido de dona Eufêmia, era um rapaz sério, lá isso era, e tão incapaz de cometer a mais leve infidelidade conjugal como de roubar o sino de São Francisco de Paula; mas – vejam como o diabo as arma! Um dia dona Eufêmia foi chamada, a toda a pressa, a Juiz de Fora, para ver o pai que estava gravemente enfermo, e, como o Romualdo não podia naquela ocasião deixar a casa comercial de que era guarda-livros (estavam a dar balanço), resignou-se a ver partir a senhora, acompanhada pelos três meninos, o Zeca, o Cazuza, o Bibi, e a ama-seca deste último, que era ainda de colo.

            Foi a primeira vez que Romualdo se separou da família. Custou-lhe muito, coitado, e mais lhe custou quando, ao cabo de uma semana, dona Eufêmia lhe escreveu, dizendo que o velho estava livre de perigo, mas a convalescença seria longa, e o seu dever de filha era ficar junto dele um mês pelo menos.

            O Romualdo resignou-se. Que remédio!...

            Durante os primeiros tempos saía do escritório e metia-se em casa, mas no fim de alguns dias entendeu que devia dar alguns passeios pelos arrabaldes, hoje este, amanhã aquele. Era um meio, como outro qualquer, de iludir a saudade.

            Uma noite coube a vez ao Andaraí Grande. O Romualdo tomou o bonde  do Leopoldo, e teve a fortuna ou a desgraça de se sentar ao lado de mulatinha mais dengosa e bonita que ainda tentou um marido, cuja mulher estivesse em Juiz de Fora.

            Nessa noite fatal a virtude de Romualdo deu em pantanas: tencionando ele ir até o fim da linha, como fazia todas as noites, apeou-se na rua Mariz e Barros, ali pelas alturas da travessa de São Salvador. A mulata havia se apeado algumas braças antes.

            E ele viu, à luz de um lampião, o vulto dela saltitante e esquivo, e apressou o passo para apanhá-la, o que conseguiu facilmente, porque, pelos modos, ela já contava com isso.

            - Boa-noite!

            - Boa-noite.

            - Como se chama?

            - Antonieta.

            - Pode dar-me uma palavra?

            - Por que não falou no bonde?

            - Era impossível... estava tanta gente... e estes elétricos são tão iluminados...

            - Mas o senhor bolinou que não foi graça! Vamos, diga: que deseja?

            - Desejo saber onde mora.

            - Não tenho casa minha; tou empregada numa família ali mais adiante, por siná que não ‘stou satisfeita, e ando procurando outra arrumação.

            - Onde podemos falar em particular?

            - Não sei.

            - Você sai amanhã à noite?

            - Amanhã não, porque saí hoje, e não quero abusá.

            - Então, depois de amanhã?

            - Pois sim.

            - Onde a espero?

            - Onde o sinhô quis é.

            - Na praça Tiradentes, no ponto dos bondes. Às oito horas.

            - Na porta do armazém do Derby?

            - Isso!

            - Tá dito! Inté depois d’amanhã às oito horas.

            - Não falte!

            - Não farto, não!

            No dia seguinte o Romualdo contou a sua aventura a um companheiro de escritório que era useiro e vezeiro nessas cavalarias baixas, e o camarada levou a condescendência ao ponto de confiar-lhe a chave de um ninho que tinha preparado adrede para os contrabandos do amor.

            Antonieta foi pontual; à hora marcada lá estava à porta do Derby, com ares de quem esperava o bonde.

            O Romualdo aproximou-se, fez um sinal, afastou-se, e ela o seguiu.

           

 

            Dez dias depois, estava ele arrependidíssimo da sua conquista fácil, e com remorsos de haver enganado dona Eufêmia, aquela santa! Procurava agora meios e modos de se ver livre da mulata, cuja prosódia era capaz de lançar água na fervura da mais violenta paixão.

           Vendo que não podia evitá-la, tomou o Romualdo a deliberação de fugir-lhe, e uma noite deixou-a à porta do ninho, esperando debalde por ele. Lembrou-se, mas era tarde, que havia prometido dar-lhe um anel, justamente nessa noite.

           - Diabo! – pensou ele – Antonieta vai supor que lhe fugi por causa do anel.

 

 

            Voltou, afinal, dona Eufêmia de Juiz de Fora. Veio no trem da manhã, inesperadamente, e já não encontrou o marido em casa.

            Estava furiosa, porque a ama-seca de Bibi deixara-se ficar na estação da Barra. Podia ser que não fosse de propósito. O mais certo, porém, era o ter sido descaminhada por um sujeito que vinha no trem a namorá-la desde Paraibuna.

            Quando dona Eufêmia contou isso ao marido, acrescentou indignada:

            - Que homem sem-vergonha!... Não podem ver uma mulata!...

            O Romualdo perturbou-se, mas disfarçou, perguntando:

            - E agora? É preciso anunciar! Não podemos ficar sem ama-seca!

            - Já mandei o Zeca por um anúncio no “Jornal do Brasil”.

            No dia seguinte, o Romualdo saiu muito cedo; ao voltar a casa, a primeira coisa que perguntou à senhora foi:

            - Então? Já temos ama-seca?...

            - Já; é uma mulatinha bem jeitosa, mas tem cara de muito sapeca. Chama-se Antonieta.

            - Hein? Antonieta?

            - Que tens, homem?

            Nada; não tenho nada... É jeitosa?... Tem cara de sapeca?... Manda-a embora! Não serve! Nem quero vê-la!...

            - Ora essa! Por quê? Olha, ela aí vem.

            Antonieta chegou, efetivamente, com o Bibi ao colo; mas o Romualdo tinha fechado os olhos, dizendo consigo:

            - Que escândalo!... rebenta a bomba!... este diabo vai reclamar o anel!...

            Mas como nada ouvisse, o mísero abriu os olhos e – Oh! Milagre! – era outra Antonieta!...

          Ele pensou, os leitores também pensaram que fosse a mesma; não era.

            Decididamente há um Deus para os maridos que enganam as suas mulheres.

 

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Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.

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