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quarta-feira, 20 de abril de 2022

OS ESTATUTOS DO HOMEM (ATO INSTITUCIONAL PERMANENTE) – Thiago de Mello



Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente) 


 A Carlos Heitor Cony


Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Thiago de Mello )

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Amadeu Thiago de Mello (Barreirinha30 de março de 1926 — Manaus14 de janeiro de 2022) foi um poetajornalista e tradutor brasileiro. Foi considerado um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional.

* * *

domingo, 17 de abril de 2022

POEMAS CRISTÃOS - Cyro de Mattos

 


Poemas Cristãos

Cyro de Mattos


 

Jesus 

Deus é o crivo   da

Dor no coração. Pétala,

 Que na chaga exsurge.

 

Este Cristo 

É maior que o mundo

este andor feito na dor

dos grandes rumores.

É maior que o mundo

esta luz feita na cruz

dos grandes tremores.

É maior que o mundo

este amor feito no ardor

dos grandes clamores.

Ó peso da terra,

cuspe, chicotada, crivo.

E das chagas flores.

 

Súplica 

 Se te coloquei nesse calvário,

 Coroei com cuspe e escárnio,

Ofendi com agudo cravo,

Nada me disse o teu sangue,

Não te vi olhando-me no alto. 

Vesti com roxo o dia claro,

A mim atendei, ó pai eterno,    

Derramai o teu perdão

No meu coração solitário.

 

Canto de Amor 

E todo este peso

terrestre atendeu

na flor da comunhão,

de braços abertos

clamas como cacto.

E dignos não somos

de olhar este rosto

que pende no amor

do sangue derramado.

E solitários caminhos

da ternura os desviados

na voz de tudo que é perdão.

O canto de amor prossegue

pelos que têm fome e sede,

 carregam o dilema do pacto.

 

 Santa Cruz 

Todo o peso da terra

com ofensa e lenho

aqui deste desterro.

 

      Pedras cor de vinho,

      setas de veneno

      dos que ladram.

 

      Lábios de sede,

      botão que se abre

      na flor do perdão.

 

      Até hoje a oferta,

      a ternura como meta

      jogada na sarjeta.

 

  Sexta-Feira Maior

O sol morre.

turva onda

o mundo em aflição

molha-me de roxo.

Nada valho.

Nada sou de fato.

Prefiro Barrabás,

crucifico o amor,

sem dó e lágrima

dilacero o afeto. 

 

     Soneto da Paixão 

Ao pé do Cristo todas as infâmias,

ao pé do Cristo todas as insônias,

ao pé do Cristo todas as intrigas,

ao pé do Cristo todas as refregas.

 

Ao pé do Cristo todos os sedentos,

ao pé do Cristo todos os famintos,

ao pé do Cristo todos os horrores,

ao pé do Cristo todos os clamores.

 

Ao pé do Cristo todos os insultos,

ao pé do Cristo todos os corruptos,

ao pé do Cristo todos os ladrões,

 

Ao pé do Cristo todas as prisões.

Nessa onda que nos leva como cães,

cura-me, ó Deus de todas as paixões.

 

Calvário 

Na opressão

na perseguição

na aflição

na traição

na depressão

na escuridão

na solidão

na sensação

do cuspe

e do cravo

no coração

ó Senhor meu

dá-me tua mão

 

Poema na Semana Santa  

Tudo é roxo e ofensa e perdão.

A tristeza está nos ares,

já anda pelas veredas

e no perfume dos caminhos.

No ocaso da saudade ao longe,

na flor do cacau que é espinho.

E chega à igreja a procissão.

Tudo é clamor e cruz e paixão

porque uma coroa sensitiva

instalou-se em Itabuna

com fadiga e sede e fome

e escorre suas dores

pelas pedras cor de vinho.

Mas no sábado tudo é verde

e claro sem o roxo e o espinho.

Os sinos repicam na cidade

e um dia novo está nas galhas,

no coro de milhões de passarinhos.


 

Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Da Academia de Letras da Bahia. Possui prêmios importantes no Brasil e exterior. Publicado também por várias editoras europeias.  Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

* * *

SANTA PÁSCOA! TENDE CONFIANÇA, POIS “O RESTO VOLTARÁ!”

 


Padre David Francisquini *

 

Depois da crucifixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, para redimir o pecado dos homens e reabrir as portas do Céu, toda a Terra foi coberta por densas trevas, a tristeza e a desolação contagiaram os povos, liquidando com tudo o que restava de ordem. É o que poderíamos esperar depois da ignominiosa morte do Homem-Deus.

Do Santo Sepulcro ressurge a primeira claridade de esperança. As almas fiéis que o rodeavam para prestar as últimas homenagens a Nosso Senhor, pressentiam que algo de maravilhoso estava para acontecer. Junto àquela tumba, que aparentemente havia selado a derrota do Divino Redentor, eles presenciaram a glória triunfadora de Sua ressurreição.

Com efeito, como diz São Paulo, se Ele não tivesse ressuscitado, a nossa fé seria vã. Os anjos cantaram “glória a Deus nas alturas”. As trevas se dissiparam. A natureza inteira se rejubilou com a luz emanada daquele Corpo glorioso. Jesus Cristo realmente ressuscitou como triunfador da morte e do pecado. Tendo cumprido a vontade de Deus Pai, reabriu as portas dos céus aos justos.

Apesar de a notícia do enorme prodígio ter corrido como um raio, muitos discípulos ainda andavam tristes com a morte de Cristo — após ter sido entregue à soldadesca romana pelos magistrados e sacerdotes judeus —, pois a alegria da Sua ressurreição não havia ainda inundado os seus corações.

Tinham uma fé incompleta e não conheciam verdadeiramente quem era Jesus. Uns achavam que fosse um profeta com grande poder, que restauraria o reino temporal de Israel. Outros, confusos e perplexos, prestavam atenção nos acontecimentos sem entender o que se passava.

Foi necessário que Cristo morresse e ressuscitasse dos mortos para manifestar que Ele era Deus. Sendo já o terceiro dia de sua morte na Cruz, não havia mais razão para que não se conhecesse tudo o que havia se passado em Jerusalém com o Filho de Deus desde a traição do infame Judas Iscariotes.

Quando as santas mulheres chegaram pela manhã de domingo, não encontraram mais o corpo de Jesus na sepultura. Seguiu-se o anúncio do anjo de que Ele não se encontrava mais lá, mas havia ressuscitado dentre os mortos. O que parecia uma derrota, foi a confirmação na fé dos discípulos — a vitória de Cristo sobre seus inimigos —, e todos creram n’Ele depois de manifestar assim a Sua divindade.

É uma prefigura da paixão que nestes dias de trevas sofre a Santa Igreja, corpo místico de Cristo, contra a qual todos os agentes infernais conspiram e desferem golpes, mas Ela segue com vida plena nos fiéis que depositam suas certezas em Jesus Cristo vencedor e triunfador.

Poucos são os que realmente amam a Santa Igreja e estão dispostos a tudo suportar e resistir em sua honrosa defesa, bem como de tomar a iniciativa da luta a fim de que Ela seja restaurada de modo ainda mais excelente do que foi outrora, sempre segundo a lei e a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas aqueles que têm verdadeira devoção a Nossa Senhora recebem d’Ela o inestimável dom da fé, da pureza, e da bravura para lutar. Deus lhes dará a vitória.

Se correspondermos a esse dom, estaremos juntos daquelas almas privilegiadas que viram, testemunharam e registraram para os pósteros aquele momento, talvez o maior acontecimento da História: Jesus Cristo saindo vitorioso de seu sepulcro. Assim como Nossa Senhora nos deu o exemplo de nunca duvidar, Ela nos ensina e alenta a nunca desanimar nas vias da confiança.

Devemos, portanto, confiar contra todas as aparências em sentido contrário, de que junto d’Ela haveremos de encontrar forças e adquirir a certeza de que o bem não está sepultado para sempre, mas que residuum revertetur — o resto voltará, segundo Isaías. Dos escombros e das cinzas da civilização atual surgirá o Reino de Maria, com o fulgor de Cristo no momento de Sua ressurreição.

Espero que todos os fiéis e leitores tenham uma Santa e feliz Páscoa, na alegria de saber e confiar, com uma confiança sem limites, na promessa de que as portas do inferno jamais prevalecerão contra a Igreja.

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

 https://www.abim.inf.br/santa-pascoa-tende-confianca-pois-o-resto-voltara/

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (261)



Páscoa do Senhor | domingo, 17 de abril de 2022


Anúncio do Evangelho (Jo 20,1-9)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo.

Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”.

Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou.

Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte.

Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou.

De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira, Sacerdote da Comunidade Canção Nova:


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O Ressuscitado nos ensina a exercer o "ministério da consolação"

 


+ Na alegria da ressurreição, prepare a oração, criando um clima de profunda intimidade com o Ressuscitado.

+ Suplique a Deus o dom da alegria com Cristo Ressuscitado; que a experiência da Ressurreição o(a) impulsione a viver com mais intensidade em comunhão com toda a humanidade e toda a Criação.

+ Antes de “entrar em contemplação”, repasse os “pontos” seguintes:

 

Mestre Crucificado, Mestre Ressuscitado. O ensinamento de Jesus revelou-se inseparável de sua vida; em outras palavras, Ele ensinou com sua vida. Certamente, Jesus ensinou com parábolas, com gestos ousados... Mas, no final, o que educa de verdade é sua própria vida de Mestre amigo, terapeuta, compassivo, crucificado, ressuscitado... Por isso, não basta dizer que o ensinamento de Jesus “segue adiante”, mas que devemos acrescentar: Jesus mesmo, ressuscitado por Deus, é o autêntico educador.

Os relatos de suas Aparições nos revelam como Ele foi reconstruindo as pessoas, amigas e amigos, quebrados(as) pelo fracasso, pela tristeza, pela decepção... Jesus os(as) ressuscitou por dentro, despertando a vida bloqueada e abrindo o horizonte da missão. 

“Olhar o ofício de consolar que Cristo nosso Senhor exerce” (EE. 224). S. Inácio utiliza esta expressão quando apresenta, na 4ª Semana dos Exercícios, a contemplação das aparições do Ressuscitado.

Consolar é o que define a ação do Ressuscitado, transformando a situação dos seus discípulos e discípulas: a tristeza se converte numa alegria contagiosa, o medo em valentia e audácia, a negação de Jesus em profissão de fé e martírio... Não se trata de um ato pontual senão de um “ofício” , que definirá para sempre a atividade de seu Espírito no mundo.

Nas cenas evangélicas das aparições, o efeito da presença do Ressuscitado sobre os discípulos e discípulas termina sempre em reconhecimento, em chamado e envio, em restauração de uma vocação e missão.

Jesus ressuscitado exerce sobre eles(elas) um original “ofício de consolar”, cujo efeito é iluminar o caminho pelo qual, em seu nome e com Ele, eles e elas hão de percorrer. O “ofício de consolar” é a marca do Ressuscitado, é força recriadora e reconstrutora de vidas despedaçadas. Jesus “ressuscita” cada um dos seus amigos e amigas, ativando neles(as) o sentido da vida, reconstruindo os laços comunitários rompidos, e sobretudo, oferecendo solo firme a quem estava sem chão, sem direção... 

O verbo “consolar” tem, no hebraico, um sentido mais amplo e forte que nas línguas latinas, porque, muito mais que animar a alguém abatido, expressa a ação eficaz de conseguir com que desapareçam os motivos de seu abatimento. Neste sentido, consolar não é tão somente acompanhar senão, também, inclui a ação de dar esperança, uma esperança fundada, capaz de produzir uma mudança radical no estado de ânimo do outro.

Nos relatos das aparições de Jesus Ressuscitado, esta experiência de ficar consolado aparece muito evidente, porque passa-se da angústia do túmulo vazio à consolação na presença d’Aquele que vive; é a passagem da ausência desconcertante à presença significativa.

O Ressuscitado se aproxima como Presença viva que comunica Vida: deixa-se ver, caminha, fala, interpela, corrige, anima, transmite paz e alegria. Em uma palavra, presenteia seu Espírito.

Sua maneira de se fazer presente é pessoal, personalizante, identificadora: dizer o nome, suscitar recordações e experiências comuns, fazer vislumbrar projetos de futuro.

Outra vez Jesus recria a comunidade que, depois da Paixão, estava se desintegrando; e seus discípulos experimentam novamente o chamado e o envio, a serem testemunhas e cúmplices do Espírito, porque vivem a certeza existencial de que o Crucificado é o Ressuscitado, que a morte foi vencida, que Deus está constituído como Senhor.

Em meio à dor, os(as) discípulos(as) aprendem a confiar em Deus e a não se deixar levar pela tristeza.

alegria não começa quando acabam as dores; a alegria é uma opção de vida, expressão da confiança em Deus, que torna possível enfrentar o sofrimento com esperança. A alegria não suprime o sofrimento, mas lhe dá sentido. A alegria não desconhece o sofrimento, senão que o enfrenta com confiança. 

Em nosso uso habitual, a palavra “consolação” e o verbo “consolar” apontam para um profundo e rico significado: revelam um tipo de proximidade e comunhão com o outro capaz de lhe transmitir compreensão, alento, acolhida, impulso... ou seja, uma transmissão de energia que desperte nele suas próprias capacidades de reação diante de uma situação de tristeza, de fracasso, de desespero ou sofrimento...

Nos Exercícios Espirituais de S. Inácio, consolação e consolar são a linguagem e ação de Deus no ser humano, comunicação do Criador com a criatura, iniciativa de Deus que, quando é recebida com agradecimento e pureza, isto é, como dom gratuito e como escuta disponível, nunca deixam a pessoa consolada no mesmo lugar ou situação onde estava antes.

consolação de Deus é sempre dinamizadora daquilo que é mais divino no ser humano.

Por ser manifestação da comunicação do Espírito de Deus ao espírito humano, gera sempre na pessoa, amor, alegria, fé, entusiasmo..., e desemboca sempre na missão

Deus nos consola para que possamos consolar.

Na consolação, Deus nos chama a ser seus colaboradores. A consolação que recebemos do Senhor não nos é dada tendo em vista um desfrute narcisista e fechado deste dom espiritual, mas tem a finalidade de capacitar-nos para o “ministério da consolação”.

É um dom para a missão; se alguém se apropria dela como coisa pessoal, morre.

Dessa consolação de Deus, da qual nós mesmos e nosso mundo tanto necessitamos, somos chamados a fazer-nos receptores e mediadores.

Trata-se de uma consolação que é pura graça, que não está ao alcance de nossa mão dá-la a nós mesmos, nem dá-la aos outros, mas da qual podemos ser agradecidamente receptores e gratuitamente mediadores. Com isso, a consolação pode estender-se a outros muitos rincões da existência humana.

É tempo de autocompreender-nos e atuar frente aos outros como enviados a exercer ativamente o “ofício de consolar”, tendo sempre presente que a consolação verdadeira pertence somente ao Espírito, já que não é outra coisa que a gratuita autocomunicação do Deus trinitário à humanidade.

É Ele mesmo quem deseja compartilhar conosco este ofício, o ofício de consolar

Consolação e “ofício de consolar” nascem e vem precedidas pela experiência de uma alegria pura e totalmente desinteressada pelo Senhor. Alegria interna e verdadeira que procede e provoca a missão.

Nada mobiliza tanto como o agradecimento e nada revela tanto o agradecimento como a alegria pura pelo bem do outro. A gratuidade é o habitat natural da consolação e do consolado.

Todos somos chamados a prolongar este “ofício de consolar” de Jesus; a experiência da Ressurreição nos move a “descer” junto à realidade do outro (seus dramas, fracassos, perda de sentido da vida...) e exercer este ministério humanizador, ou seja, ministério entre iguais, “vida que desperta outra vida”.

É vida plenificada, iluminada, integrada... pela experiência de encontro com o Ressuscitado e que flui em direção à vida bloqueada, necrosada... ativando-a, despertando-a...

É movimento expansivo da vida.

Assim como a consolação é o canal privilegiado pelo qual Deus se comunica e atua em nós, o ofício do consolo” é o canal por onde flui a vida. 

Textos bíblicos:  Jo 20,11-18    Lc 24,13-35 

Na oração: faça “memória” das experiências de consolação, suscitadas pela Graça de Deus ao longo desta Quaresma

- Recorde pessoas que foram “presenças consoladoras” em sua vida.

- Traga à memória situações em que você foi o(a) mediador(a) da consolação de Deus. 

Iluminar a madrugada e tecer liberdade, nutrir a vida de compaixão e amizade, celebrá-la e oferecê-la de verdade, orar... Esse é o movimento de Ressurreição? É isto que o evangelista João quer destacar quando escreve que Madalena “saiu correndo”, que Pedro e João “corriam juntos”?

Que a Páscoa seja um tempo de movimento e cada um(a) discirna para onde correr!

Um Santo Tempo Pascal e todos e todas!


Pe. Adroaldo Palaoro sj

17.04.22

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2555-o-ressuscitado-nos-ensina-a-exercer-o-ministerio-da-consolacao

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quinta-feira, 14 de abril de 2022

OTÁVIO MANGABEIRA - José Sarney


Otávio Mangabeira fora deputado federal desde 1911, chanceler no governo Washington Luís, exilado, novamente deputado, deputado constituinte, governador da Bahia, senador, participara da fundação da UDN e era membro da Academia Brasileira de Letras desde 1934. Velho, nos últimos anos de sua vida, morava no hotel Glória; se não me engano, na suíte 901, no nono andar. Recordo-me de que ele tinha os pés já bastante inflamados e andava com chinelas de plumas, muito confortáveis. Ali recebia os amigos e admiradores e os líderes dos partidos políticos, que sempre desejavam ouvi-lo.

Nós, da UDN, éramos presença constante. Não digo por mim, que era muito jovem, mas ali estive duas vezes, em companhia do Carlos Lacerda e do João Agripino.

No dia da revolta do Major Veloso, de Aragarças, Carlos Lacerda, ao saber da deflagração do movimento, telefonou para João Agripino e para mim pedindo que fôssemos ao hotel Glória, à suíte do Mangabeira, para onde ele estava se deslocando.

Lá cheguei e já encontrei o Lacerda dizendo ao Mangabeira que não tinha nenhum envolvimento com o fato e, pelo contrário, ouvindo alguns ruídos sobre sua ligação com oficiais da Aeronáutica, tinha chamado o Major Veloso, um dos mais afoitos, e dito que não praticasse nada de sedição - coisa de que eles falavam todo dia - e que ele condenaria qualquer movimento dessa natureza.

Mesmo assim, Veloso e alguns companheiros de farda desviaram três aviões militares, sequestraram um Constellation e foram para a pequena base de Aragarças. Foi o primeiro sequestro de avião do Brasil.

Lacerda insistia em reafirmar a Otávio Mangabeira e a todos nós - foram chegando outros colegas de partido: Rondon Pacheco, Milton Campos - sua absoluta falta de participação nesse movimento, feito com o objetivo de derrubar o Juscelino.

Mangabeira deu sua opinião, também contrária àquilo, dizendo que se tratava de uma loucura de jovens revoltados da Força Aérea, que ainda não haviam superado os resultados da chamada República do Galeão, na qual eles tinham feito o famoso inquérito sobre a morte do Major Vaz, que levara ao suicídio de Getúlio Vargas.

Ali foi tomada a decisão de que a UDN, por todos os meios, manifestaria sua contrariedade à chamada Revolta de Aragarças. Carlos Lacerda comprometeu-se a discursar, à tarde, na Câmara dos Deputados, dizendo de sua - bem como de todo o partido - condenação ao movimento e ao gesto tresloucado.

Foi um discurso difícil e notável!

Passada a agenda política, Carlos Lacerda perguntou ao Mangabeira por que ele não se mudava para um apartamento, argumentando que ficar ali no hotel seria bastante caro para ele, homem desprovido de posses, sendo muito mais barato morar em sua própria casa.

Mangabeira respondeu-lhe: 'Carlos, na minha idade, não sei mais quem paga meu hotel.'

Antônio Carlos Magalhães contava que um dia Mangabeira lhe perguntara pelo Luiz Viana. Ele, então, disse que o Luiz Viana se encontrava na Bahia, aonde fora para a comemoração de sessenta anos de um amigo.

Doutor Mangabeira respondeu-lhe: 'Quer dizer que Luiz Viana foi à Bahia só para um aniversário de sessenta anos de um fulano de tal?' E concluiu: 'É. Hoje qualquer vagabundo faz sessenta anos na Bahia!'

Otávio Mangabeira era governador da Bahia, e o jornal A Tarde começou a atacar alguns oficiais que teriam provocado uma desordem na zona de meretrício de Salvador. Esses oficiais invadiram e empastelaram o jornal, pelo desrespeito que tinha tido com a oficialidade da guarnição militar.

Simões Filho, que era uma grande figura da Bahia, ex-ministro da Educação e fundador de A Tarde, procurou Mangabeira: 'Governador, isso não pode acontecer no seu Governo: empastelaram o jornal, quebraram tudo e surraram uns jornalistas. Lembremo-nos de Rui Barbosa, que dizia: 'A imprensa constitui o pulmão da democracia.' O senhor tem que tomar providências imediatas, abrindo inquérito para punir os culpados.'

Mangabeira olhou para ele e respondeu: 'Ó Simões, Rui é o astral; a realidade é o Exército Nacional!' E deu por encerrada a conversa.

Antônio Carlos contava isso com muita graça, imitando, como ninguém, o falar entre as bochechas do velho Mangabeira.

Portal Metrópole Online, 09/04/2022

 

https://www.academia.org.br/artigos/otavio-mangabeira

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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quarta-feira, 13 de abril de 2022

ITABUNA CENTERNÁRIA UM SONETO: Guilherme de Almeida - Dor Oculta

 

Foto: Acervo/Prefeitura Municipal de Campinas SP

Dor Oculta

 

Quando uma nuvem nômade destila 

gotas, roçando a crista azul da serra,

umas brincam na relva; outras, tranquilas,

serenamente entranham-se na terra.

 

E a gente fala da gotinha que erra

de folha em folha e, trêmula, cintila,

mas nem se lembra da que o solo encerra,

da que ficou no coração da argila!

 

Quanta gente que zomba do desgosto

mudo, de angústia que não molha o rosto

e que não tomba, em gotas, pelo chão,

 

Havia de chorar , se adivinhasse

que há lágrimas que correm pela face

e outras que rolam pelo coração.

 

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GUILHERME DE ALMEIDA

Terceiro ocupante da Cadeira 15, eleito em 6 de março de 1930, na sucessão de Amadeu Amaral e recebido pelo Acadêmico Olegário Mariano em 21 de junho de 1930. Recebeu o Acadêmico Cassiano Ricardo

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