Total de visualizações de página

quinta-feira, 14 de abril de 2022

OTÁVIO MANGABEIRA - José Sarney


Otávio Mangabeira fora deputado federal desde 1911, chanceler no governo Washington Luís, exilado, novamente deputado, deputado constituinte, governador da Bahia, senador, participara da fundação da UDN e era membro da Academia Brasileira de Letras desde 1934. Velho, nos últimos anos de sua vida, morava no hotel Glória; se não me engano, na suíte 901, no nono andar. Recordo-me de que ele tinha os pés já bastante inflamados e andava com chinelas de plumas, muito confortáveis. Ali recebia os amigos e admiradores e os líderes dos partidos políticos, que sempre desejavam ouvi-lo.

Nós, da UDN, éramos presença constante. Não digo por mim, que era muito jovem, mas ali estive duas vezes, em companhia do Carlos Lacerda e do João Agripino.

No dia da revolta do Major Veloso, de Aragarças, Carlos Lacerda, ao saber da deflagração do movimento, telefonou para João Agripino e para mim pedindo que fôssemos ao hotel Glória, à suíte do Mangabeira, para onde ele estava se deslocando.

Lá cheguei e já encontrei o Lacerda dizendo ao Mangabeira que não tinha nenhum envolvimento com o fato e, pelo contrário, ouvindo alguns ruídos sobre sua ligação com oficiais da Aeronáutica, tinha chamado o Major Veloso, um dos mais afoitos, e dito que não praticasse nada de sedição - coisa de que eles falavam todo dia - e que ele condenaria qualquer movimento dessa natureza.

Mesmo assim, Veloso e alguns companheiros de farda desviaram três aviões militares, sequestraram um Constellation e foram para a pequena base de Aragarças. Foi o primeiro sequestro de avião do Brasil.

Lacerda insistia em reafirmar a Otávio Mangabeira e a todos nós - foram chegando outros colegas de partido: Rondon Pacheco, Milton Campos - sua absoluta falta de participação nesse movimento, feito com o objetivo de derrubar o Juscelino.

Mangabeira deu sua opinião, também contrária àquilo, dizendo que se tratava de uma loucura de jovens revoltados da Força Aérea, que ainda não haviam superado os resultados da chamada República do Galeão, na qual eles tinham feito o famoso inquérito sobre a morte do Major Vaz, que levara ao suicídio de Getúlio Vargas.

Ali foi tomada a decisão de que a UDN, por todos os meios, manifestaria sua contrariedade à chamada Revolta de Aragarças. Carlos Lacerda comprometeu-se a discursar, à tarde, na Câmara dos Deputados, dizendo de sua - bem como de todo o partido - condenação ao movimento e ao gesto tresloucado.

Foi um discurso difícil e notável!

Passada a agenda política, Carlos Lacerda perguntou ao Mangabeira por que ele não se mudava para um apartamento, argumentando que ficar ali no hotel seria bastante caro para ele, homem desprovido de posses, sendo muito mais barato morar em sua própria casa.

Mangabeira respondeu-lhe: 'Carlos, na minha idade, não sei mais quem paga meu hotel.'

Antônio Carlos Magalhães contava que um dia Mangabeira lhe perguntara pelo Luiz Viana. Ele, então, disse que o Luiz Viana se encontrava na Bahia, aonde fora para a comemoração de sessenta anos de um amigo.

Doutor Mangabeira respondeu-lhe: 'Quer dizer que Luiz Viana foi à Bahia só para um aniversário de sessenta anos de um fulano de tal?' E concluiu: 'É. Hoje qualquer vagabundo faz sessenta anos na Bahia!'

Otávio Mangabeira era governador da Bahia, e o jornal A Tarde começou a atacar alguns oficiais que teriam provocado uma desordem na zona de meretrício de Salvador. Esses oficiais invadiram e empastelaram o jornal, pelo desrespeito que tinha tido com a oficialidade da guarnição militar.

Simões Filho, que era uma grande figura da Bahia, ex-ministro da Educação e fundador de A Tarde, procurou Mangabeira: 'Governador, isso não pode acontecer no seu Governo: empastelaram o jornal, quebraram tudo e surraram uns jornalistas. Lembremo-nos de Rui Barbosa, que dizia: 'A imprensa constitui o pulmão da democracia.' O senhor tem que tomar providências imediatas, abrindo inquérito para punir os culpados.'

Mangabeira olhou para ele e respondeu: 'Ó Simões, Rui é o astral; a realidade é o Exército Nacional!' E deu por encerrada a conversa.

Antônio Carlos contava isso com muita graça, imitando, como ninguém, o falar entre as bochechas do velho Mangabeira.

Portal Metrópole Online, 09/04/2022

 

https://www.academia.org.br/artigos/otavio-mangabeira

-----------

José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

* * *

quarta-feira, 13 de abril de 2022

ITABUNA CENTERNÁRIA UM SONETO: Guilherme de Almeida - Dor Oculta

 

Foto: Acervo/Prefeitura Municipal de Campinas SP

Dor Oculta

 

Quando uma nuvem nômade destila 

gotas, roçando a crista azul da serra,

umas brincam na relva; outras, tranquilas,

serenamente entranham-se na terra.

 

E a gente fala da gotinha que erra

de folha em folha e, trêmula, cintila,

mas nem se lembra da que o solo encerra,

da que ficou no coração da argila!

 

Quanta gente que zomba do desgosto

mudo, de angústia que não molha o rosto

e que não tomba, em gotas, pelo chão,

 

Havia de chorar , se adivinhasse

que há lágrimas que correm pela face

e outras que rolam pelo coração.

 

.......


GUILHERME DE ALMEIDA

Terceiro ocupante da Cadeira 15, eleito em 6 de março de 1930, na sucessão de Amadeu Amaral e recebido pelo Acadêmico Olegário Mariano em 21 de junho de 1930. Recebeu o Acadêmico Cassiano Ricardo

* * *

segunda-feira, 11 de abril de 2022

EDITUS INAUGURA COLEÇÃO "O MENINO POETA" COM CINCO LIVROS DE CYRO DE MATTOS

 




Editus Inaugura Coleção

O Menino Poeta com Cinco

Livros de Cyro de Mattos

 

          A Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz, acaba de lançar cinco novos livros infantis do poeta Cyro de Mattos inaugurando a Coleção O Menino Poeta, na qual homenageia a escritora mineira Henriqueta Lisboa, autora de livro homônimo considerado como um clássico da literatura infantil brasileira. Os livros de Cyro de Mattos que inauguram a Coleção O Menino Poeta são estes: A Poesia É Um Mar, Venha Comigo Navegar; Existe Bicho Bobo?; Tiquinho de Ternura; Responda Certo, Se For Esperto; A Poesia de Calça Curta.


          O primeiro volume da Coleção reúne 17 poemas inspirados no mar, destinados ao público infantil, que contam a jornada de um marujinho poeta, que gosta de navegar por entre os mares verdes e azuis feitos de sustos e tesouros. 


          O segundo apresenta poemas cheios de graça e harmonia para questionar ao leitor se os bichos vivem à sua maneira, como algumas pessoas afirmam, e se eles são realmente espertos ou não. 


          O terceiro reúne 15 poemas que trazem a alegria e o riso misturado com a ternura para comover e envolver o leitor desde o primeiro verso. 


          O quarto apresenta perguntas em forma de charadas desafiadoras e divertidas, encontradas no folclore brasileiro e na sabedoria popular, tendo como assunto a natureza, os bichos, o amor, o riso, entre outros. 


          O quinto reúne 20 poemas com leveza, beleza e graça, para levar ao coração das crianças que são amantes de poesia pedaços da ternura da vida.


Membro da Academia de Letras da Bahia, Cyro de Mattos é autor de 60 livros de diversos gêneros. Com estes cinco livros da Coleção O Menino Poeta publicados pela Editus alcança a marca de vinte livros destinados ao público infantojuvenil.


* * *

 





domingo, 10 de abril de 2022

“QUE UTILIDADE HÁ NO MEU SANGUE?”



Padre David Francisquini*

Todo homem deve lutar constantemente para sobreviver, mas não deve fazê-lo apenas no campo natural, ou seja, para prover às suas necessidades puramente materiais. Os evangelhos no-lo ensinam com as célebres palavras de Cristo: “Considerai os lírios, como crescem; não fiam, nem tecem. Contudo, digo-vos: nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como um deles. Se Deus, portanto, veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã se lança ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé! Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber; e não andeis com vãs preocupações. Porque os homens do mundo é que se preocupam com todas essas coisas. Mas vosso Pai bem sabe que precisais de tudo isso.” (Lc 12-27, 30).

A luta de Jesus Cristo Nosso Senhor se dá no campo puramente espiritual. Sua morte na cruz foi para nos franquear o reino dos céus e, através dos sacramentos da Santa Igreja, nos conceder forças no combate contra os principais inimigos da nossa salvação, que são o demônio, o mundo e a carne.

Portanto, ao contemplarmos a cruz erguida no Monte Calvário, devemos considerá-la como a chave que nos abriu as portas do Céu. Foi por isso que Cristo disse a Pilatos: “O meu reino não é deste mundo, se assim fosse os meus ministros fariam de tudo para eu não ser entregue aos judeus. Pois bem, meu reino não é daqui” (João 18, 36).

Indagou Pilatos: “Então tu és rei? — Sim, Eu sou rei, para isto nasci, para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. E todo aquele que é da verdade, ouve a minha voz”. Com efeito, Jesus Cristo está na cruz como um rei, por isso havia dito: “Quando for elevado atrairei a mim todas as criaturas. Como Moisés elevou a serpente no deserto, assim o filho do Homem será elevado” (João 18, 37).

É na cruz que Cristo, humilhado, chagado, agonizante, começou a reinar sobre esta Terra, comparável a um grande campo devastado. Foi aqui que Ele edificou a sua Igreja, através da qual perpetuaria os benefícios da sua Redenção.


O saudoso Dr. Plinio Corrêa de Oliveira assim descreveu Nosso Senhor na cruz: “Vossa nudez é um manto real. Vossa coroa de espinhos é um diadema sem preço. Vossas chagas são vossa púrpura. Ó Cristo Rei, como é verdadeiro considerar-vos na cruz como um rei. Mas como é certo que nenhum símbolo exprime a intensidade dessa realeza quanto a realidade histórica de vossa nudez, de vossa miséria, de vossa aparente derrota!”

Por sua vez, Santo Afonso afirma: “Não vejo outro trono a não ser esse lenho de opróbrios; não vejo outra púrpura a não ser vossa carne ensanguentada e dilacerada; não vejo outra coroa além desse feixe de espinhos que tanto vos atormenta. Ah, sim, tudo vos proclama rei não de honra, mas de amor; essa cruz, esse sangue, esses cravos e essa coroa são incontestavelmente insígnias de amor.”

E prossegue: “Assim Jesus na sua cruz não procura tanto a nossa compaixão quanto o nosso afeto. E, se pede compaixão, pede-a unicamente para que ela nos induza a amá-Lo. Ele merece já por sua bondade todo o nosso amor, mas agora procura ser amado ao menos por compaixão.”

Esta última consideração, de caráter metafísico, deve nortear o homem em todos os momentos de sua existência, na qual se digladiam o bem e o mal, a verdade e o erro.

A alma fiel, ainda que em torno dela grassem apenas tragédia e desolação, destaca-se pelo bom ânimo, inspirado na fé e na promessa do glorioso e incontestável triunfo final da Santa Igreja. Esta é uma promessa, uma garantia d’Aquele mesmo que A instituiu e declarou que as portas do inferno não prevalecerão contra Ela. É a inabalável certeza, da qual deve se impregnar a alma católica em todos os dias de sua vida, não importando se aziagos ou felizes.

Estas reflexões têm maior efeito nesta altura do ano litúrgico, quando a Igreja de Cristo se reveste das solenidades da Paixão para recordar o episódio doloroso em que nosso Divino Salvador verteu até a última gota de seu Preciosíssimo Sangue a fim de romper os grilhões da escravidão do demônio, remir os nossos pecados e nos abrir o caminho da salvação.

Meu Jesus, contemplando-Vos, pendente na cruz, com os braços estendidos, com os vossos olhos abarcando a Terra inteira, não podemos ver outra coisa senão um verdadeiro Rei que estende o seu reino sobre este mundo. Desse trono divinal, ensanguentado, coberto de dores e de opróbrios, abri a porta do Céu, redimi o gênero humano e conquistai os corações que Vos contemplam na cruz, manifestando o vosso infinito amor.

Arrancai das trevas densas os corações! Desbaratai a impiedade, a dureza dos corações! Purificai as mentes e a vida transviada de tantas almas! Reinai com o vosso Preciosíssimo Sangue e a vossa Cruz! Se os carrascos repartiram as vossas vestes, lançando sorte sobre a vossa túnica, ó meu Jesus, reparti em nossas almas a vossa divina graça e despojai dos nossos corações todo afeto mundano e pecaminoso.

Reinai no mundo e em nossos corações, ó preciosas chagas de Jesus crucificado, nosso consolo e nossa vida!

____________

*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/que-utilidade-ha-no-meu-sangue-2/

 

 * * *


sexta-feira, 8 de abril de 2022

A BELEZA – Gibran Khalil Gibran


A Beleza

 

            E um poeta disse: “Fala-nos da Beleza”.

            E ele respondeu:

            “Onde procurareis a beleza e como a podereis encontrar a menos que ela mesma seja vosso caminho e vosso guia?

            E como podereis falar a menos que ela mesma teça vossas palavras?

 

            Os aflitos e os feridos dizem: A beleza é amável e suave.

            Como uma jovem mãe,  meio encabulada na sua glória, ela caminha entre nós.

            Os apaixonados dizem: Não, a beleza é uma força poderosa e temível.

            Como a tempestade, ela sacode a terra abaixo e o céu acima.

            Os cansados e os gastos dizem: A beleza é um murmúrio suave. Fala em nosso espírito.

            Sua voz cede aos nossos silêncios como uma luz tênue que treme por medo da sombra.

            Mas os turbulentos dizem: nós a ouvimos gritar entre as montanhas.

           E com seus gritos chegavam o tropel de cavalos, o bater de asas e o rugir de leões.

           À noite, os guardas da cidade dizem: A beleza despontará do Oriente, com a aurora.

            E, ao meio-dia, os trabalhadores e os transeuntes dizem: Nós a temos visto inclinada sobre a terra, das janelas do poente.

            No inverno, os prisioneiros  da neve dizem: Ela virá com a primavera, pulando sobre as colinas.

            E no calor do verão, os ceifeiros dizem: Nós a vimos dançar com as folhas do outono, e havia neve no seu cabelo.

 

            Todas as coisas, vós dissestes da beleza.

            Porém, na verdade, não falastes dela, mas de desejos insatisfeitos.

            E a beleza não é um desejo, mas um êxtase.

            Não é uma boca sequiosa, nem uma mão vazia que se estende.

            Mas, antes, um coração inflamado e uma alma encantada.

            Ela não é a imagem que desejais ver, nem a canção que desejais ouvir.

            Mas, antes, a imagem que contemplais com os olhos velados, e a canção que ouvis com os ouvidos tapados.

            Não é a seiva por baixo da cortiça enrugada, nem uma asa atada a uma guarra,

            Mas, sim, um pomar sempre em flor, e uma multidão de anjos em voo.

           

            Povo de Orphalese, a beleza é a vida quando a vida desvela seu rosto sagrado.

            Mas vós sois a vida, e vós sois o véu.

            A beleza é a eternidade olhando para si própria num espelho.

            Mas vós sois a eternidade, e vós sois o espelho.”

 

(O PROFETA)

Gibran Khalil Gibran



Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.

-------------

UMA LÁGRIMA E UM SORRISO

 

          Gibran escreveu livros mais importantes do que este, mas nenhum que contenha tanta ternura e tanta inspiração.

          Uma Lágrima e um Sorriso é o primeiro livro escrito por Gibran. Ele era ainda jovem. Seu gênio não tinha sido disciplinado pela arte e a maturidade. Voava livremente nos espaços ilimitados. Entregava-se sem reserva aos seus ímpetos de compaixão e idealismo. Falava ao vento, às flores, às ondas como se falasse a amigos humanos, e registrava suas impressões com todo o transbordamento emocional e verbal do romantismo.

          O resultado é este livro fascinante, que ressuscita em nós sonhos mais longínquos e nos faz reviver as deliciosas ilusões de nossos 15 anos, quando transformar o mundo pelo entusiasmo nos parecia ao alcance da mão, e quando uma palavra de amor nos abria o paraíso.

          Ler este livro é como nos reencontrar com nosso Eu mais jovem, um Eu esquecido e enterrado por baixo das decepções e amarguras da vida, e que o idealismo de Gibran e seu estilo colorido e inspirado conseguem trazer à vida, para nossa surpresa e nossa delícia.

 MANSOUR CHALLITA

         

 

          

           

 

terça-feira, 5 de abril de 2022

PARECIA COM EDILEUZA – Ariston Caldas

  


         No meio do forró, Zildo descobriu uma moça dançando, parecida com Edileusa; ombros estreitos, cabelos cacheados cor de bronze, quadril de bom tamanho. Ele não entendia por que Edileusa desistira da festa, no dia, quase na hora, sem mais nem menos. Ficou frustrado. Onde o amor retratado por ela até a véspera? Indignado, refletia o fato, debruçado no alpendre da varanda, sentindo o vento quase gelando, sacudindo a folhagem em redor; uma fogueira formando labaredas vaporosas, soltando faíscas; olhava um oitizeiro cheio de frutos amarelos, igual ao que conhecera no quintal de sua infância; os acordes da sanfona o lembravam de coisas obscuras quando nem imaginava conhecer Edileusa.

            “Por que ela desistiu assim tão de repente?” Indagava-se cheio de raiva, de decepção. Dançaria com a moça de cabelo caído pelos ombros, afastaria a frustração que o envolvia; depois, se a moça o simpatizasse, ficaria sua amiga ou até namorada; via-se, a momentos, com a moça parecida junto à fogueira, assando milho verde no braseiro, amenizando o frio, soltando fogos de um lado para outro. Olhava novamente para ela atracada pelo meio por um sujeito de botinas amarelas, boina vermelha lenço quadriculado no pescoço, idoso, braços fortes e cabeludos. “Vou dançar com ela”.

            Esqueceria o que Edileusa lhe fizera, até dos bons momentos, depois que a conhecera na Rodoviária, desembarcando de um ônibus com placa de Maceió. Esqueceria a decepção, os beijos fingidos, os apertos corpo a corpo. “É doida por mim”, chegou a pensar. Agora, olhava do alpendre da varanda a fogueira crepitando, soltando faíscas pelo vento. Dançaria com a moça parecida; quem sabe podia até ser o início de uma amizade boa, sincera?

            Onde andaria Edileusa àquelas horas? A moça parecida gingava, mexia-se agarrada com o sujeito os braços cabeludos; a noite havia passado do meio, esfriava, e a fogueira em frente ia baixando as labaredas, as faíscas escasseavam, o braseiro diminuía sob a cinza acumulando-se. As mulheres que passaram o dia preparando iguarias na cozinha, estariam cansadas e apareciam vez em quando na porta, dando olhadelas para a sala de dança, sanfoneiro de chapéu embarbelado, blusa vermelha floreada, calça de mescla desbotada. Edileusa estaria dormindo ou forrozando por aí a fora?

            Frustração. Teria que dançar com a moça que passava agarrada com o homem de boina vermelha. Será que ela conhece Edileusa? Provavelmente não; nunca estivera  em Maceió onde Edileusa morou. Só se fosse um conhecimento recente, mas a moça  nem conhecia a cidade onde Edileusa morava atualmente; de onde seria a moça? Perguntaria isso a ela logo que começasse a dançar.

            “A senhora conhece Edileusa?” Não, senhor, diria a moça afastando o corpo, desviando os olhos para o chão. Seria pessoa de pouca conversa, mesmo assim faria a ela outras perguntas, mas a moça continuaria calada ou encurtando papo. “A senhora gosta mais de Carnaval ou São João?” Por que ia trata-la de senhora? Seria você. E se ela não aceitasse assim? “Não tenho nenhuma intimidade com o senhor”.

            A música parou, a moça afastou-se do sujeito que lhe agradeceu cortesmente enxugando a testa com um lenço branco; ela sentou-se, depois, num banco de madeira, comprido, onde duas mulheres grisalhas, mastigavam milho verde assado. “Será agora, na próxima parte”, pensou assim como se tivesse esquecido de Edileusa, da insensatez dela deixando-o tonto, decepcionado.

            Olhava para a fogueira em brasa, para as faíscas subindo, piscando como pirilampos. Sentiu vontade de esquentar as mãos; nem as doses de licor de jenipapo haviam-lhe afastado a decepção; a cabeça rodava, a figura de Edileusa no meio, fria, disfarçada; “não vou mais à festa, fica para outra vez”, lembrava com indignação. Na parte seguinte dançaria com a moça. Encaminhou-se para ela, “vamos dançar comigo?”

            A moça disse não, já havia-se comprometido com o sujeito os braços cabeludos que ia chegando para ela, sorridente, de mão estendida. Zildo voltou cabisbaixo para a varanda, encostou-se no alpendre, sentindo raiva do mundo.

            A fogueira se apagando, levantando fumaça. Decepção, tristeza, Edileusa sem juízo.

            Arrasado, ficou olhando, confuso, a manhã surgindo por trás  de umas colinas neblinadas.

 

(LINHAS INTERCALADAS)

Ariston Caldas

 

------------

Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia,  em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico ‘Terra Nossa’, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.

* * *