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domingo, 10 de abril de 2022

“QUE UTILIDADE HÁ NO MEU SANGUE?”



Padre David Francisquini*

Todo homem deve lutar constantemente para sobreviver, mas não deve fazê-lo apenas no campo natural, ou seja, para prover às suas necessidades puramente materiais. Os evangelhos no-lo ensinam com as célebres palavras de Cristo: “Considerai os lírios, como crescem; não fiam, nem tecem. Contudo, digo-vos: nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como um deles. Se Deus, portanto, veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã se lança ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé! Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber; e não andeis com vãs preocupações. Porque os homens do mundo é que se preocupam com todas essas coisas. Mas vosso Pai bem sabe que precisais de tudo isso.” (Lc 12-27, 30).

A luta de Jesus Cristo Nosso Senhor se dá no campo puramente espiritual. Sua morte na cruz foi para nos franquear o reino dos céus e, através dos sacramentos da Santa Igreja, nos conceder forças no combate contra os principais inimigos da nossa salvação, que são o demônio, o mundo e a carne.

Portanto, ao contemplarmos a cruz erguida no Monte Calvário, devemos considerá-la como a chave que nos abriu as portas do Céu. Foi por isso que Cristo disse a Pilatos: “O meu reino não é deste mundo, se assim fosse os meus ministros fariam de tudo para eu não ser entregue aos judeus. Pois bem, meu reino não é daqui” (João 18, 36).

Indagou Pilatos: “Então tu és rei? — Sim, Eu sou rei, para isto nasci, para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. E todo aquele que é da verdade, ouve a minha voz”. Com efeito, Jesus Cristo está na cruz como um rei, por isso havia dito: “Quando for elevado atrairei a mim todas as criaturas. Como Moisés elevou a serpente no deserto, assim o filho do Homem será elevado” (João 18, 37).

É na cruz que Cristo, humilhado, chagado, agonizante, começou a reinar sobre esta Terra, comparável a um grande campo devastado. Foi aqui que Ele edificou a sua Igreja, através da qual perpetuaria os benefícios da sua Redenção.


O saudoso Dr. Plinio Corrêa de Oliveira assim descreveu Nosso Senhor na cruz: “Vossa nudez é um manto real. Vossa coroa de espinhos é um diadema sem preço. Vossas chagas são vossa púrpura. Ó Cristo Rei, como é verdadeiro considerar-vos na cruz como um rei. Mas como é certo que nenhum símbolo exprime a intensidade dessa realeza quanto a realidade histórica de vossa nudez, de vossa miséria, de vossa aparente derrota!”

Por sua vez, Santo Afonso afirma: “Não vejo outro trono a não ser esse lenho de opróbrios; não vejo outra púrpura a não ser vossa carne ensanguentada e dilacerada; não vejo outra coroa além desse feixe de espinhos que tanto vos atormenta. Ah, sim, tudo vos proclama rei não de honra, mas de amor; essa cruz, esse sangue, esses cravos e essa coroa são incontestavelmente insígnias de amor.”

E prossegue: “Assim Jesus na sua cruz não procura tanto a nossa compaixão quanto o nosso afeto. E, se pede compaixão, pede-a unicamente para que ela nos induza a amá-Lo. Ele merece já por sua bondade todo o nosso amor, mas agora procura ser amado ao menos por compaixão.”

Esta última consideração, de caráter metafísico, deve nortear o homem em todos os momentos de sua existência, na qual se digladiam o bem e o mal, a verdade e o erro.

A alma fiel, ainda que em torno dela grassem apenas tragédia e desolação, destaca-se pelo bom ânimo, inspirado na fé e na promessa do glorioso e incontestável triunfo final da Santa Igreja. Esta é uma promessa, uma garantia d’Aquele mesmo que A instituiu e declarou que as portas do inferno não prevalecerão contra Ela. É a inabalável certeza, da qual deve se impregnar a alma católica em todos os dias de sua vida, não importando se aziagos ou felizes.

Estas reflexões têm maior efeito nesta altura do ano litúrgico, quando a Igreja de Cristo se reveste das solenidades da Paixão para recordar o episódio doloroso em que nosso Divino Salvador verteu até a última gota de seu Preciosíssimo Sangue a fim de romper os grilhões da escravidão do demônio, remir os nossos pecados e nos abrir o caminho da salvação.

Meu Jesus, contemplando-Vos, pendente na cruz, com os braços estendidos, com os vossos olhos abarcando a Terra inteira, não podemos ver outra coisa senão um verdadeiro Rei que estende o seu reino sobre este mundo. Desse trono divinal, ensanguentado, coberto de dores e de opróbrios, abri a porta do Céu, redimi o gênero humano e conquistai os corações que Vos contemplam na cruz, manifestando o vosso infinito amor.

Arrancai das trevas densas os corações! Desbaratai a impiedade, a dureza dos corações! Purificai as mentes e a vida transviada de tantas almas! Reinai com o vosso Preciosíssimo Sangue e a vossa Cruz! Se os carrascos repartiram as vossas vestes, lançando sorte sobre a vossa túnica, ó meu Jesus, reparti em nossas almas a vossa divina graça e despojai dos nossos corações todo afeto mundano e pecaminoso.

Reinai no mundo e em nossos corações, ó preciosas chagas de Jesus crucificado, nosso consolo e nossa vida!

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/que-utilidade-ha-no-meu-sangue-2/

 

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sexta-feira, 2 de abril de 2021

"TENHO SEDE!" - Pe. David Francisquini,

 

“Tenho Sede!”

 Pe. David Francisquini *




Rica em lições e significados, a Semana Santa nos oferece inúmeros exemplos de vida e resolução que tocam nas nuvens do mistério. Um deles é a narração, pelas páginas dos evangelhos, da sede devoradora que consumia Nosso Senhor Jesus Cristo durante a paixão. Que lições tal sede nos dá?

O Divino Mestre de fato sofreu sede física pelos sofrimentos atrozes a que foi submetido, pela quantidade de sangue que derramou, e pela consequente febre que O abrasava. Essa sede simbolizava outra, que superabundava no seu espírito: a sede de redimir os homens. Para saciá-la, em vez de água, seus verdugos Lhe deram vinagre e fel.

Foi por meio de uma verdadeira guerra que Jesus Cristo conquistou o seu reino, que não era deste mundo, mas que se travou aqui na Terra para que fosse completo. Ele se tornou homem, padeceu e morreu na Cruz para nos salvar, além de nos deixar a Igreja, seu Corpo Místico.

Na pena de Plinio Corrêa de Oliveira, a Igreja “em suas instituições, em sua doutrina, em suas leis, em sua unidade, em sua universalidade, em sua insuperável catolicidade, é um verdadeiro espelho no qual se reflete nosso Divino Salvador. Mais ainda, Ela é o próprio Corpo Místico de Cristo”.

Enquanto tal, a Igreja forjou e plasmou a civilização cristã, passando a reinar nos corações e na sociedade. Em sua agonia mortal no Horto das Oliveiras, Nosso Senhor anteviu o que se passa hoje com a perda da fé, a descristianização da sociedade, a perfídia dos corações, dentro e fora da Santa Igreja. E sofreu por tudo isso!

O que nos diria nas atuais circunstâncias? — Quae utilitas in sanguine meo? (Qual a utilidade do meu sangue?). Ele nos olharia com infinita compaixão, constatando a perda de milhões de almas todos os dias, vendo a impiedade grassar em todos os rincões da Terra.

Veria também a indiferença e a frieza daqueles que poderiam ser chamados de pupila de seus olhos e delícias do seu coração, os preferidos do seu divino amor e predileção. Qual a utilidade do meu sangue se a borrasca e a escuridão continuam a cobrir toda a Terra? Não se vê uma nesga de luz.

Que utilidade é esta de seu sangue? Durante a Crucifixão, até as pedras se fenderam, os sepulcros se abriram como que proclamando que Ele era rei dos vivos e dos mortos. Sua ardente sede de almas, representada pela sede física, simbolizava o zelo divino em purificar a Terra.

Para Santo Agostinho, Aquele que parecia homem sofreu tudo isso, e todos os que estavam escondidos de Deus, sofreram. Assim se cumpriram as Escrituras: “E na minha sede me deram a beber vinagre” (Sl 68, 22). “Tenho sede”, como se dissesse: Isso precisa ser feito. Os judeus eram o vinagre, resultado da degeneração do vinho dos patriarcas e profetas.

Antes de expirar, Jesus pôs aos olhos de todos o cumprimento da Lei, o que foi predito, o complemento de toda sua obra salvadora, servindo-se de exemplo para os seus discípulos e seguidores: “Tudo está consumado”, o sacrifício estava completo, a honra de Deus havia sido expiada e as portas do céu abertas.

Jesus Cristo perseverou até o fim, e sofreu sua Crucifixão, Paixão e Morte vencendo o mundo, o demônio e a carne. A vitória da Cruz luminosa e resplandecente passou a reinar em todas as instituições, sobretudo a familiar, como elemento saudável e vivificador da sociedade cristã.

Sua sede incomensurável foi a de sofrer por nós e de conceder novamente aos homens aquilo que os nossos primeiros pais perderam, ou seja, a beleza, a pureza de nossos corações, a graça divina para estarmos constantemente em comunicação com o nosso Criador. E como seus filhos regenerados pelo Deus encarnado, sermos agradáveis a toda Trindade Santíssima.

Pelas chagas de Jesus Cristo fomos todos curados. As suas feridas, espinhos e açoites se tornaram fonte inexaurível para nossas reflexões, além de um tesouro também inesgotável para haurirmos forças e zelo para trabalhar pela glória de Deus e a salvação das almas.

Resta-nos recorrer à Mãe de todas as mães nos momentos de aflição, à Mãe Dolorosa que acompanhou seu divino Filho em todos os passos da Paixão, e pedirmos a Ela a graça de ter sempre diante dos nossos olhos o Redentor sofredor e chagado, como Ela O contemplava na Paixão.

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/tenho-sede/

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