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terça-feira, 12 de abril de 2022
segunda-feira, 11 de abril de 2022
EDITUS INAUGURA COLEÇÃO "O MENINO POETA" COM CINCO LIVROS DE CYRO DE MATTOS

Editus Inaugura Coleção
O Menino Poeta com Cinco
Livros de Cyro de Mattos
A Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz,
acaba de lançar cinco novos livros infantis do poeta Cyro de Mattos inaugurando
a Coleção O Menino Poeta, na qual homenageia a escritora mineira Henriqueta
Lisboa, autora de livro homônimo considerado como um clássico da literatura
infantil brasileira. Os livros de Cyro de Mattos que inauguram a Coleção O
Menino Poeta são estes: A Poesia É Um Mar, Venha Comigo Navegar; Existe Bicho
Bobo?; Tiquinho de Ternura; Responda Certo, Se For Esperto; A Poesia de Calça
Curta.
O primeiro volume da Coleção reúne 17 poemas inspirados no mar, destinados ao público infantil, que contam a jornada de um marujinho poeta, que gosta de navegar por entre os mares verdes e azuis feitos de sustos e tesouros.
O segundo apresenta poemas cheios de graça e harmonia para questionar ao leitor se os bichos vivem à sua maneira, como algumas pessoas afirmam, e se eles são realmente espertos ou não.
O terceiro reúne 15 poemas que trazem a alegria e o riso misturado com a ternura para comover e envolver o leitor desde o primeiro verso.
O quarto apresenta perguntas em forma de charadas desafiadoras e divertidas, encontradas no folclore brasileiro e na sabedoria popular, tendo como assunto a natureza, os bichos, o amor, o riso, entre outros.
O quinto reúne 20 poemas com leveza, beleza e graça, para levar ao coração das crianças que são amantes de poesia pedaços da ternura da vida.
Membro da Academia de Letras da Bahia, Cyro de Mattos é autor de 60 livros de diversos gêneros. Com estes cinco livros da Coleção O Menino Poeta publicados pela Editus alcança a marca de vinte livros destinados ao público infantojuvenil.
* * *
domingo, 10 de abril de 2022
“QUE UTILIDADE HÁ NO MEU SANGUE?”
Padre David Francisquini*
Todo homem deve lutar constantemente para sobreviver, mas
não deve fazê-lo apenas no campo natural, ou seja, para prover às suas
necessidades puramente materiais. Os evangelhos no-lo ensinam com as célebres
palavras de Cristo: “Considerai os lírios, como crescem; não fiam, nem
tecem. Contudo, digo-vos: nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu
como um deles. Se Deus, portanto, veste assim a erva que hoje está no campo e
amanhã se lança ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé! Não vos inquieteis
com o que haveis de comer ou beber; e não andeis com vãs preocupações. Porque
os homens do mundo é que se preocupam com todas essas coisas. Mas vosso Pai bem
sabe que precisais de tudo isso.” (Lc 12-27, 30).
A luta de Jesus Cristo Nosso Senhor se dá no campo puramente
espiritual. Sua morte na cruz foi para nos franquear o reino dos céus e,
através dos sacramentos da Santa Igreja, nos conceder forças no combate contra
os principais inimigos da nossa salvação, que são o demônio, o mundo e a carne.
Portanto, ao contemplarmos a cruz erguida no Monte Calvário,
devemos considerá-la como a chave que nos abriu as portas do Céu. Foi por isso
que Cristo disse a Pilatos: “O meu reino não é deste mundo, se assim
fosse os meus ministros fariam de tudo para eu não ser entregue aos judeus.
Pois bem, meu reino não é daqui” (João 18, 36).
Indagou Pilatos: “Então tu és rei? — Sim, Eu sou
rei, para isto nasci, para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da
verdade. E todo aquele que é da verdade, ouve a minha voz”. Com efeito,
Jesus Cristo está na cruz como um rei, por isso havia dito: “Quando for
elevado atrairei a mim todas as criaturas. Como Moisés elevou a serpente no
deserto, assim o filho do Homem será elevado” (João 18, 37).
É na cruz que Cristo, humilhado, chagado, agonizante, começou a reinar sobre esta Terra, comparável a um grande campo devastado. Foi aqui que Ele edificou a sua Igreja, através da qual perpetuaria os benefícios da sua Redenção.
O saudoso Dr. Plinio Corrêa de Oliveira assim descreveu Nosso Senhor na cruz: “Vossa nudez é um manto real. Vossa coroa de espinhos é um diadema sem preço. Vossas chagas são vossa púrpura. Ó Cristo Rei, como é verdadeiro considerar-vos na cruz como um rei. Mas como é certo que nenhum símbolo exprime a intensidade dessa realeza quanto a realidade histórica de vossa nudez, de vossa miséria, de vossa aparente derrota!”
Por sua vez, Santo Afonso afirma: “Não vejo outro
trono a não ser esse lenho de opróbrios; não vejo outra púrpura a não ser vossa
carne ensanguentada e dilacerada; não vejo outra coroa além desse feixe de
espinhos que tanto vos atormenta. Ah, sim, tudo vos proclama rei não de honra,
mas de amor; essa cruz, esse sangue, esses cravos e essa coroa são
incontestavelmente insígnias de amor.”
E prossegue: “Assim Jesus na sua cruz não procura
tanto a nossa compaixão quanto o nosso afeto. E, se pede compaixão, pede-a
unicamente para que ela nos induza a amá-Lo. Ele merece já por sua bondade todo
o nosso amor, mas agora procura ser amado ao menos por compaixão.”
Esta última consideração, de caráter metafísico, deve
nortear o homem em todos os momentos de sua existência, na qual se digladiam o
bem e o mal, a verdade e o erro.
A alma fiel, ainda que em torno dela grassem apenas tragédia
e desolação, destaca-se pelo bom ânimo, inspirado na fé e na promessa do
glorioso e incontestável triunfo final da Santa Igreja. Esta é uma promessa,
uma garantia d’Aquele mesmo que A instituiu e declarou que as portas do inferno
não prevalecerão contra Ela. É a inabalável certeza, da qual deve se impregnar
a alma católica em todos os dias de sua vida, não importando se aziagos ou
felizes.
Estas reflexões têm maior efeito nesta altura do ano
litúrgico, quando a Igreja de Cristo se reveste das solenidades da Paixão para
recordar o episódio doloroso em que nosso Divino Salvador verteu até a última
gota de seu Preciosíssimo Sangue a fim de romper os grilhões da escravidão do
demônio, remir os nossos pecados e nos abrir o caminho da salvação.
Meu Jesus, contemplando-Vos, pendente na cruz, com os braços
estendidos, com os vossos olhos abarcando a Terra inteira, não podemos ver
outra coisa senão um verdadeiro Rei que estende o seu reino sobre este mundo.
Desse trono divinal, ensanguentado, coberto de dores e de opróbrios, abri a
porta do Céu, redimi o gênero humano e conquistai os corações que Vos
contemplam na cruz, manifestando o vosso infinito amor.
Arrancai das trevas densas os corações! Desbaratai a
impiedade, a dureza dos corações! Purificai as mentes e a vida transviada de
tantas almas! Reinai com o vosso Preciosíssimo Sangue e a vossa Cruz! Se os
carrascos repartiram as vossas vestes, lançando sorte sobre a vossa túnica, ó
meu Jesus, reparti em nossas almas a vossa divina graça e despojai dos nossos
corações todo afeto mundano e pecaminoso.
Reinai no mundo e em nossos corações, ó preciosas chagas de
Jesus crucificado, nosso consolo e nossa vida!
____________
*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria –
Cardoso Moreira (RJ).
https://www.abim.inf.br/que-utilidade-ha-no-meu-sangue-2/
sexta-feira, 8 de abril de 2022
A BELEZA – Gibran Khalil Gibran
E um poeta
disse: “Fala-nos da Beleza”.
E ele
respondeu:
“Onde
procurareis a beleza e como a podereis encontrar a menos que ela mesma seja
vosso caminho e vosso guia?
E como
podereis falar a menos que ela mesma teça vossas palavras?
Os aflitos
e os feridos dizem: A beleza é amável e suave.
Como uma
jovem mãe, meio encabulada na sua
glória, ela caminha entre nós.
Os
apaixonados dizem: Não, a beleza é uma força poderosa e temível.
Como a
tempestade, ela sacode a terra abaixo e o céu acima.
Os cansados e os gastos dizem: A
beleza é um murmúrio suave. Fala em nosso espírito.
Sua voz
cede aos nossos silêncios como uma luz tênue que treme por medo da sombra.
Mas os
turbulentos dizem: nós a ouvimos gritar entre as montanhas.
E com seus
gritos chegavam o tropel de cavalos, o bater de asas e o rugir de leões.
À noite, os
guardas da cidade dizem: A beleza despontará do Oriente, com a aurora.
E, ao
meio-dia, os trabalhadores e os transeuntes dizem: Nós a temos visto inclinada
sobre a terra, das janelas do poente.
No
inverno, os prisioneiros da neve dizem:
Ela virá com a primavera, pulando sobre as colinas.
E no calor
do verão, os ceifeiros dizem: Nós a vimos dançar com as folhas do outono, e
havia neve no seu cabelo.
Todas as
coisas, vós dissestes da beleza.
Porém, na
verdade, não falastes dela, mas de desejos insatisfeitos.
E a beleza
não é um desejo, mas um êxtase.
Não é uma boca sequiosa, nem uma mão vazia
que se estende.
Mas,
antes, um coração inflamado e uma alma encantada.
Ela não é
a imagem que desejais ver, nem a canção que desejais ouvir.
Mas,
antes, a imagem que contemplais com os olhos velados, e a canção que ouvis com
os ouvidos tapados.
Não é a
seiva por baixo da cortiça enrugada, nem uma asa atada a uma guarra,
Mas, sim,
um pomar sempre em flor, e uma multidão de anjos em voo.
Povo de
Orphalese, a beleza é a vida quando a vida desvela seu rosto sagrado.
Mas vós
sois a vida, e vós sois o véu.
A beleza é
a eternidade olhando para si própria num espelho.
Mas vós
sois a eternidade, e vós sois o espelho.”
(O PROFETA)
Gibran Khalil Gibran
Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na
França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a
beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com
simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da
verdade.
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UMA LÁGRIMA E UM SORRISO
Gibran
escreveu livros mais importantes do que este, mas nenhum que contenha tanta
ternura e tanta inspiração.
Uma Lágrima
e um Sorriso é o primeiro livro escrito por Gibran. Ele era ainda jovem. Seu
gênio não tinha sido disciplinado pela arte e a maturidade. Voava livremente
nos espaços ilimitados. Entregava-se sem reserva aos seus ímpetos de compaixão
e idealismo. Falava ao vento, às flores, às ondas como se falasse a amigos
humanos, e registrava suas impressões com todo o transbordamento emocional e
verbal do romantismo.
O resultado
é este livro fascinante, que ressuscita em nós sonhos mais longínquos e nos faz
reviver as deliciosas ilusões de nossos 15 anos, quando transformar o mundo
pelo entusiasmo nos parecia ao alcance da mão, e quando uma palavra de amor nos
abria o paraíso.
Ler este
livro é como nos reencontrar com nosso Eu mais jovem, um Eu esquecido e
enterrado por baixo das decepções e amarguras da vida, e que o idealismo de
Gibran e seu estilo colorido e inspirado conseguem trazer à vida, para nossa
surpresa e nossa delícia.
terça-feira, 5 de abril de 2022
PARECIA COM EDILEUZA – Ariston Caldas
No meio do forró, Zildo descobriu uma moça dançando, parecida com Edileusa; ombros estreitos, cabelos cacheados cor de bronze, quadril de bom tamanho. Ele não entendia por que Edileusa desistira da festa, no dia, quase na hora, sem mais nem menos. Ficou frustrado. Onde o amor retratado por ela até a véspera? Indignado, refletia o fato, debruçado no alpendre da varanda, sentindo o vento quase gelando, sacudindo a folhagem em redor; uma fogueira formando labaredas vaporosas, soltando faíscas; olhava um oitizeiro cheio de frutos amarelos, igual ao que conhecera no quintal de sua infância; os acordes da sanfona o lembravam de coisas obscuras quando nem imaginava conhecer Edileusa.
“Por que
ela desistiu assim tão de repente?” Indagava-se cheio de raiva, de decepção.
Dançaria com a moça de cabelo caído pelos ombros, afastaria a frustração que o
envolvia; depois, se a moça o simpatizasse, ficaria sua amiga ou até namorada;
via-se, a momentos, com a moça parecida junto à fogueira, assando milho verde
no braseiro, amenizando o frio, soltando fogos de um lado para outro. Olhava
novamente para ela atracada pelo meio por um sujeito de botinas amarelas, boina
vermelha lenço quadriculado no pescoço, idoso, braços fortes e cabeludos. “Vou
dançar com ela”.
Esqueceria
o que Edileusa lhe fizera, até dos bons momentos, depois que a conhecera na
Rodoviária, desembarcando de um ônibus com placa de Maceió. Esqueceria a
decepção, os beijos fingidos, os apertos corpo a corpo. “É doida por mim”,
chegou a pensar. Agora, olhava do alpendre da varanda a fogueira crepitando,
soltando faíscas pelo vento. Dançaria com a moça parecida; quem sabe podia até
ser o início de uma amizade boa, sincera?
Onde
andaria Edileusa àquelas horas? A moça parecida gingava, mexia-se agarrada com
o sujeito os braços cabeludos; a noite havia passado do meio, esfriava, e a
fogueira em frente ia baixando as labaredas, as faíscas escasseavam, o braseiro
diminuía sob a cinza acumulando-se. As mulheres que passaram o dia preparando
iguarias na cozinha, estariam cansadas e apareciam vez em quando na porta,
dando olhadelas para a sala de dança, sanfoneiro de chapéu embarbelado, blusa
vermelha floreada, calça de mescla desbotada. Edileusa estaria dormindo ou
forrozando por aí a fora?
Frustração. Teria que dançar com a moça que passava agarrada com o homem
de boina vermelha. Será que ela conhece Edileusa? Provavelmente não; nunca
estivera em Maceió onde Edileusa morou.
Só se fosse um conhecimento recente, mas a moça
nem conhecia a cidade onde Edileusa morava atualmente; de onde seria a
moça? Perguntaria isso a ela logo que começasse a dançar.
“A senhora
conhece Edileusa?” Não, senhor, diria a moça afastando o corpo, desviando os
olhos para o chão. Seria pessoa de pouca conversa, mesmo assim faria a ela
outras perguntas, mas a moça continuaria calada ou encurtando papo. “A senhora
gosta mais de Carnaval ou São João?” Por que ia trata-la de senhora? Seria
você. E se ela não aceitasse assim? “Não tenho nenhuma intimidade com o
senhor”.
A música
parou, a moça afastou-se do sujeito que lhe agradeceu cortesmente enxugando a
testa com um lenço branco; ela sentou-se, depois, num banco de madeira,
comprido, onde duas mulheres grisalhas, mastigavam milho verde assado. “Será
agora, na próxima parte”, pensou assim como se tivesse esquecido de Edileusa,
da insensatez dela deixando-o tonto, decepcionado.
Olhava
para a fogueira em brasa, para as faíscas subindo, piscando como pirilampos.
Sentiu vontade de esquentar as mãos; nem as doses de licor de jenipapo
haviam-lhe afastado a decepção; a cabeça rodava, a figura de Edileusa no meio,
fria, disfarçada; “não vou mais à festa, fica para outra vez”, lembrava com
indignação. Na parte seguinte dançaria com a moça. Encaminhou-se para ela,
“vamos dançar comigo?”
A moça
disse não, já havia-se comprometido com o sujeito os braços cabeludos que ia
chegando para ela, sorridente, de mão estendida. Zildo voltou cabisbaixo para a
varanda, encostou-se no alpendre, sentindo raiva do mundo.
A fogueira
se apagando, levantando fumaça. Decepção, tristeza, Edileusa sem juízo.
Arrasado,
ficou olhando, confuso, a manhã surgindo por trás de umas colinas neblinadas.
(LINHAS INTERCALADAS)
Ariston Caldas
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Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da
Bahia, em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do
estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde
residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos
jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o
periódico ‘Terra Nossa’, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do
Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do
Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio
Jornal.
* * *
segunda-feira, 4 de abril de 2022
domingo, 3 de abril de 2022
ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: As duas Ilhas-Castro Alves
As Duas Ilhas
Castro Alves
(Sobre uma página de poesia de Victor Hugo com o mesmo título)
Quando à noite – às horas mortas –
O silêncio e a solidão
- Sob o dossel do
infinito –
Dormem do mar n’amplidão,
Vê-se, por cima dos mares,
Rasgando o teto dos ares,
Dois gigantescos perfis...
Olhando por sobre as vagas,
Atentos, longínquas plagas
Ao clarear dos fuzis.
Quem os vê, olha espantado
E a sós murmura: “O que é?
Ai! Que atalaias gigantes,
São essas além de pé!...”
Adamastor de granito
Coa testa roça o infinito
E a barba molha no mar;
E de pedra a cabeleira
Sacodindo a onda ligeira
Faz de medo recuar...
São – dois marcos miliários,
Que Deus nas ondas plantou,
Dois rochedos, onde o mundo
Dois Prometeus amarrou!...
- Acolá... (Não tenhas medo...)
É Santa Helena – o rochedo
Desse Titã, que foi rei!...
- Ali... (Não feches os olhos!...)
- Ali... aqueles abrolhos
São a ilha de Jersey!...
São eles – os dois gigantes
No século de pigmeus.
São eles que a majestade
Arrancam das mãos de Deus.
- Este concentra na fronte
Mais astros – que o horizonte,
Mais luz – do que o sol lançou!...
- Aquele – na destra alçada
Traz segura sua espada
- Cometa, que ao céu roubou!...
E olham os velhos rochedos
O Sena, que dorme além...
E a França, que entre a caligem
Dorme em sudário também...
E o mar pergunta espantado:
“Foi deveras desterrado
Buonaparte – meu irmão?...
Diz o céu astros chorando:
“E Hugo?...” E o mundo pasmando
Diz: “Hugo... Napoleão!...”
Como vasta reticência
Se estende o silêncio após...
És muito pequena, ó França,
Pra conter estes heróis...
Sim! que estes vultos augustos
Para o leito de Procustos
Muito grandes Deus traçou...
Basta os reis tremam de medo
Se a sombra de algum rochedo
Sobre eles se projetou!...
Dizem que quando alta noite,
Dorme a terra – e vela Deus,
As duas ilhas conversam
Sem temor perante os céus.
- Jersey curva sobre os mares
À Santa Helena os pensares
Segreda ao velho Hugo...
- E Santa Helena no entanto
No Salgueiro enxuga o pranto
E conta o que ele falou...
E olhando o presente infame
Clamam: “Da turba vulgar
Nós – infinitos de pedra –
Nós havemos-los vingar!...”
E do mar sobre as escumas,
E do céu por sobre as brumas,
Um ao outro dando a mão...
Encaram a imensidade
Bradando “Posteridade!...”
Deus ri-se e diz: “Inda Não!...”
Castro Alves (Antônio Frederico), nasceu em Muritiba,
BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É
o patrono da cadeira n. 7, por escolha do fundador Valentim Magalhães.
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