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sexta-feira, 8 de abril de 2022

A BELEZA – Gibran Khalil Gibran


A Beleza

 

            E um poeta disse: “Fala-nos da Beleza”.

            E ele respondeu:

            “Onde procurareis a beleza e como a podereis encontrar a menos que ela mesma seja vosso caminho e vosso guia?

            E como podereis falar a menos que ela mesma teça vossas palavras?

 

            Os aflitos e os feridos dizem: A beleza é amável e suave.

            Como uma jovem mãe,  meio encabulada na sua glória, ela caminha entre nós.

            Os apaixonados dizem: Não, a beleza é uma força poderosa e temível.

            Como a tempestade, ela sacode a terra abaixo e o céu acima.

            Os cansados e os gastos dizem: A beleza é um murmúrio suave. Fala em nosso espírito.

            Sua voz cede aos nossos silêncios como uma luz tênue que treme por medo da sombra.

            Mas os turbulentos dizem: nós a ouvimos gritar entre as montanhas.

           E com seus gritos chegavam o tropel de cavalos, o bater de asas e o rugir de leões.

           À noite, os guardas da cidade dizem: A beleza despontará do Oriente, com a aurora.

            E, ao meio-dia, os trabalhadores e os transeuntes dizem: Nós a temos visto inclinada sobre a terra, das janelas do poente.

            No inverno, os prisioneiros  da neve dizem: Ela virá com a primavera, pulando sobre as colinas.

            E no calor do verão, os ceifeiros dizem: Nós a vimos dançar com as folhas do outono, e havia neve no seu cabelo.

 

            Todas as coisas, vós dissestes da beleza.

            Porém, na verdade, não falastes dela, mas de desejos insatisfeitos.

            E a beleza não é um desejo, mas um êxtase.

            Não é uma boca sequiosa, nem uma mão vazia que se estende.

            Mas, antes, um coração inflamado e uma alma encantada.

            Ela não é a imagem que desejais ver, nem a canção que desejais ouvir.

            Mas, antes, a imagem que contemplais com os olhos velados, e a canção que ouvis com os ouvidos tapados.

            Não é a seiva por baixo da cortiça enrugada, nem uma asa atada a uma guarra,

            Mas, sim, um pomar sempre em flor, e uma multidão de anjos em voo.

           

            Povo de Orphalese, a beleza é a vida quando a vida desvela seu rosto sagrado.

            Mas vós sois a vida, e vós sois o véu.

            A beleza é a eternidade olhando para si própria num espelho.

            Mas vós sois a eternidade, e vós sois o espelho.”

 

(O PROFETA)

Gibran Khalil Gibran



Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.

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UMA LÁGRIMA E UM SORRISO

 

          Gibran escreveu livros mais importantes do que este, mas nenhum que contenha tanta ternura e tanta inspiração.

          Uma Lágrima e um Sorriso é o primeiro livro escrito por Gibran. Ele era ainda jovem. Seu gênio não tinha sido disciplinado pela arte e a maturidade. Voava livremente nos espaços ilimitados. Entregava-se sem reserva aos seus ímpetos de compaixão e idealismo. Falava ao vento, às flores, às ondas como se falasse a amigos humanos, e registrava suas impressões com todo o transbordamento emocional e verbal do romantismo.

          O resultado é este livro fascinante, que ressuscita em nós sonhos mais longínquos e nos faz reviver as deliciosas ilusões de nossos 15 anos, quando transformar o mundo pelo entusiasmo nos parecia ao alcance da mão, e quando uma palavra de amor nos abria o paraíso.

          Ler este livro é como nos reencontrar com nosso Eu mais jovem, um Eu esquecido e enterrado por baixo das decepções e amarguras da vida, e que o idealismo de Gibran e seu estilo colorido e inspirado conseguem trazer à vida, para nossa surpresa e nossa delícia.

 MANSOUR CHALLITA

         

 

          

           

 

terça-feira, 5 de abril de 2022

PARECIA COM EDILEUZA – Ariston Caldas

  


         No meio do forró, Zildo descobriu uma moça dançando, parecida com Edileusa; ombros estreitos, cabelos cacheados cor de bronze, quadril de bom tamanho. Ele não entendia por que Edileusa desistira da festa, no dia, quase na hora, sem mais nem menos. Ficou frustrado. Onde o amor retratado por ela até a véspera? Indignado, refletia o fato, debruçado no alpendre da varanda, sentindo o vento quase gelando, sacudindo a folhagem em redor; uma fogueira formando labaredas vaporosas, soltando faíscas; olhava um oitizeiro cheio de frutos amarelos, igual ao que conhecera no quintal de sua infância; os acordes da sanfona o lembravam de coisas obscuras quando nem imaginava conhecer Edileusa.

            “Por que ela desistiu assim tão de repente?” Indagava-se cheio de raiva, de decepção. Dançaria com a moça de cabelo caído pelos ombros, afastaria a frustração que o envolvia; depois, se a moça o simpatizasse, ficaria sua amiga ou até namorada; via-se, a momentos, com a moça parecida junto à fogueira, assando milho verde no braseiro, amenizando o frio, soltando fogos de um lado para outro. Olhava novamente para ela atracada pelo meio por um sujeito de botinas amarelas, boina vermelha lenço quadriculado no pescoço, idoso, braços fortes e cabeludos. “Vou dançar com ela”.

            Esqueceria o que Edileusa lhe fizera, até dos bons momentos, depois que a conhecera na Rodoviária, desembarcando de um ônibus com placa de Maceió. Esqueceria a decepção, os beijos fingidos, os apertos corpo a corpo. “É doida por mim”, chegou a pensar. Agora, olhava do alpendre da varanda a fogueira crepitando, soltando faíscas pelo vento. Dançaria com a moça parecida; quem sabe podia até ser o início de uma amizade boa, sincera?

            Onde andaria Edileusa àquelas horas? A moça parecida gingava, mexia-se agarrada com o sujeito os braços cabeludos; a noite havia passado do meio, esfriava, e a fogueira em frente ia baixando as labaredas, as faíscas escasseavam, o braseiro diminuía sob a cinza acumulando-se. As mulheres que passaram o dia preparando iguarias na cozinha, estariam cansadas e apareciam vez em quando na porta, dando olhadelas para a sala de dança, sanfoneiro de chapéu embarbelado, blusa vermelha floreada, calça de mescla desbotada. Edileusa estaria dormindo ou forrozando por aí a fora?

            Frustração. Teria que dançar com a moça que passava agarrada com o homem de boina vermelha. Será que ela conhece Edileusa? Provavelmente não; nunca estivera  em Maceió onde Edileusa morou. Só se fosse um conhecimento recente, mas a moça  nem conhecia a cidade onde Edileusa morava atualmente; de onde seria a moça? Perguntaria isso a ela logo que começasse a dançar.

            “A senhora conhece Edileusa?” Não, senhor, diria a moça afastando o corpo, desviando os olhos para o chão. Seria pessoa de pouca conversa, mesmo assim faria a ela outras perguntas, mas a moça continuaria calada ou encurtando papo. “A senhora gosta mais de Carnaval ou São João?” Por que ia trata-la de senhora? Seria você. E se ela não aceitasse assim? “Não tenho nenhuma intimidade com o senhor”.

            A música parou, a moça afastou-se do sujeito que lhe agradeceu cortesmente enxugando a testa com um lenço branco; ela sentou-se, depois, num banco de madeira, comprido, onde duas mulheres grisalhas, mastigavam milho verde assado. “Será agora, na próxima parte”, pensou assim como se tivesse esquecido de Edileusa, da insensatez dela deixando-o tonto, decepcionado.

            Olhava para a fogueira em brasa, para as faíscas subindo, piscando como pirilampos. Sentiu vontade de esquentar as mãos; nem as doses de licor de jenipapo haviam-lhe afastado a decepção; a cabeça rodava, a figura de Edileusa no meio, fria, disfarçada; “não vou mais à festa, fica para outra vez”, lembrava com indignação. Na parte seguinte dançaria com a moça. Encaminhou-se para ela, “vamos dançar comigo?”

            A moça disse não, já havia-se comprometido com o sujeito os braços cabeludos que ia chegando para ela, sorridente, de mão estendida. Zildo voltou cabisbaixo para a varanda, encostou-se no alpendre, sentindo raiva do mundo.

            A fogueira se apagando, levantando fumaça. Decepção, tristeza, Edileusa sem juízo.

            Arrasado, ficou olhando, confuso, a manhã surgindo por trás  de umas colinas neblinadas.

 

(LINHAS INTERCALADAS)

Ariston Caldas

 

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Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia,  em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico ‘Terra Nossa’, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.

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domingo, 3 de abril de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: As duas Ilhas-Castro Alves



As Duas Ilhas

Castro Alves

 

(Sobre uma página de poesia de Victor Hugo com o mesmo título)

 

Quando à noite – às horas mortas –

O silêncio e a solidão

 - Sob o dossel do infinito –

Dormem do mar n’amplidão,

Vê-se, por cima dos mares,

Rasgando o teto dos ares,

Dois gigantescos perfis...

Olhando por sobre as vagas,

Atentos, longínquas plagas

Ao clarear dos fuzis.

 

Quem os vê, olha espantado

E a sós murmura: “O que é?

Ai! Que atalaias gigantes,

São essas além de pé!...”

Adamastor de granito

Coa testa roça o infinito

E a barba molha no mar;

E de pedra a cabeleira

Sacodindo a onda ligeira

Faz de medo recuar...

 

São – dois marcos miliários,

Que Deus nas ondas plantou,

Dois rochedos, onde o mundo

Dois Prometeus amarrou!...

- Acolá... (Não tenhas medo...)

É Santa Helena – o rochedo

Desse Titã, que foi rei!...

- Ali... (Não feches os olhos!...)

- Ali... aqueles abrolhos

São a ilha de Jersey!...

 

São eles – os dois gigantes

No século de pigmeus.

São eles que a majestade

Arrancam das mãos de Deus.

- Este concentra na fronte

Mais astros – que o horizonte,

Mais luz – do que o sol lançou!...

- Aquele – na destra alçada

Traz segura sua espada

- Cometa, que ao céu roubou!...

 

E olham os velhos rochedos

O Sena, que dorme além...

E a França, que entre a caligem

Dorme em sudário também...

E o mar pergunta espantado:

“Foi deveras desterrado

Buonaparte – meu irmão?...

Diz o céu astros chorando:

“E Hugo?...” E o mundo pasmando

Diz: “Hugo... Napoleão!...”

 

Como vasta reticência

Se estende o silêncio após...

És muito pequena, ó França,

Pra conter estes heróis...

Sim! que estes vultos augustos

Para o leito de Procustos

Muito grandes Deus traçou...

Basta os reis tremam de medo

Se a sombra de algum rochedo

Sobre eles se projetou!...

 

Dizem que quando alta noite,

Dorme a terra – e vela Deus,

As duas ilhas conversam

Sem temor perante os céus.

- Jersey curva sobre os mares

À Santa Helena os pensares

Segreda ao velho Hugo...

- E Santa Helena no entanto

No Salgueiro enxuga o pranto

E conta o que ele falou...

 

E olhando o presente infame

Clamam: “Da turba vulgar

Nós – infinitos de pedra –

Nós havemos-los vingar!...”

E do mar sobre as escumas,

E do céu por sobre as brumas,

Um ao outro dando a mão...

Encaram a imensidade

Bradando “Posteridade!...”

Deus ri-se e diz: “Inda Não!...”

 

Castro Alves (Antônio Frederico), nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É o patrono da cadeira n. 7, por escolha do fundador Valentim Magalhães.

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PALAVRA DA SAVAÇÃO (260)



5º Domingo da Quaresma – 03/04/2022


Anúncio do Evangelho (Jo 8,1-11)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus foi para o monte das Oliveiras. De madrugada, voltou de novo ao Templo. Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los. Entretanto, os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles, disseram a Jesus: 'Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?' Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão. Como persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: 'Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra.' E tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. E eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio do povo. Então Jesus se levantou e disse: 'Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?' Ela respondeu: 'Ninguém, Senhor.' Então Jesus lhe disse: 'Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais'. 

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira – Sacerdote da Comunidade Canção Nova:


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Jesus, o mestre da presença misericordiosa

 


 “De madrugada, voltou ao templo, e todo o povo se reuniu ao redor dele. Sentando-se começou a ensiná-los” (Jo 8,2)

 

O tempo litúrgico da Quaresma é um tempo privilegiado para nos deixar ensinar pele Mestre da Galileia; somos alunos(as) da escola da vida, centrados no ensinamento e na mensagem de vida de Jesus.

A imagem de Jesus educador atravessa os evangelhos. De fato, o cristianismo é um projeto de educação messiânica, uma escola de vida universal, fundada por Jesus na Galileia.

Seu ensinamento entrou em conflito com os representantes do judaísmo oficial, centrado no templo e na prática da lei, e com o poder romano, que não admitia um ensinamento diferente. Jesus foi perseguido e morto por seu magistério, mas sua mensagem foi recolhida e expandida pelos seus discípulos. 

Jesus não fundou uma escola de especialistas, mas quis educar a todos os homens e mulheres, nas vilas e campos, nas sinagogas, no Templo ou em suas próprias casas. Ele não tinha nenhum doutorado na Lei judaica, não tinha nenhum Master em questões do Templo; não era um perito a quem consultar sobre as leis. Diferentemente dos mestres da Lei e dos escribas, cujo ensinamento estava centrado em “decorar” e conservar a Lei, o ensinamento de Jesus partia da realidade humana de sofrimento, exclusão, preconceito...

Jesus era Ele mesmo; seu único título era sua verdade, sua honestidade, sua bondade, sua capacidade de sanar a dor daqueles que sofriam e libertá-los dos maus espíritos que os escravizavam. Era a identidade de si mesmo, plena: a identidade entre o que dizia e fazia, entre o que era e o que ensinava.

Podemos afirmar que Jesus era um “pedagogo da vida”, um “mestre da vida humana digna”. Não tinha estudado em outra universidade a não ser a universidade da vida, do amor, da liberdade...

Jesus, o Grande Mestre, contemplava os rostos das pessoas e via, no interior delas, ricas possibilidades humanas, ainda latentes. Sua presença humanizadora reconstruía a humanidade ferida e abria sentido para sua existência.

No seu magistério, Jesus foi semeando humanidade, um conhecimento criativo e inspirador, que se fazia vida naqueles que escutavam e acolhiam sua palavra. Esta era a sua missão: ensinar aos homens e mulheres, para que fossem eles mesmos em liberdade, para que descobrissem e ativassem a verdade por dentro, sua verdade fontal, para que todos se guiassem e se ajudassem e, assim, fossem e vivessem em plenitude.

Frente aos sábios e entendidos, representantes do poder estabelecido, Jesus descobriu e cultivou a sabedoria de Deus nos pequenos que acolhem sua Palavra e se deixam transformar por ela.

O evangelho deste domingo nos diz que Jesus se encontrava na esplanada do Templo ensinando o povo, quando levaram até ele uma mulher surpreendida em adultério. De um lado, rostos dos fariseus e Mestres da lei, endurecidos pela lei, com pedras no coração e nas mãos; de outro, o rosto de Jesus, que transparece amor, compreensão, bondade. Suas mãos acolhedoras e seu coração misericordioso estão mobilizados para dar segurança e abrir nova possibilidade de vida à pecadora.

Uma “nobre” justificação era apresentada pelos escribas e fariseus e, assim, condenar uma mulher ao apedrejamento: “a lei” mata. Salva-se a lei, mata-se a pessoa.

A lei manda apedrejar; mas a lei não tem coração, não tem misericórdia; ela é fria, fixa no passado, condena e não oferece chance de um novo futuro.

É o eterno conflito do ser humano entre fidelidade à lei ou fidelidade ao coração. A fidelidade à lei prefere a morte do(a) pecador(a), prefere as pedras que ferem e matam; a fidelidade ao coração e ao amor prefere a vida do(a) pecador(a), prefere o abraço acolhedor que devolve a confiança e esperança de vida. 

Partindo da perspectiva da lei, a mulher não tinha possibilidade nenhuma de viver; não havia saída nenhuma. Só a misericórdia poderia destravar a vida, colocar a mulher em movimento, arrancá-la do círculo legalista de morte e abrir para ela um novo e amplo horizonte de sentido.

A retirada de cena dos mestres da lei e dos fariseus é patética. É o sistema legalista e opressor que termina cedendo o lugar a uma nova relação, instaurada por Jesus, centrada na misericórdia. A mulher permanece aí, no centro, porque o sistema que decretava sua morte terminou. Agora, inicia-se um novo diálogo, entre Jesus e a mulher. Não é um diálogo inquisitório, mas uma oferta de salvação: esta mulher, humilhada e condenada por todos, envergonhada de si mesma, se encontra com Jesus que lhe diz: “Eu também não te condeno”. Desde modo, Jesus nos ensina que não se extirpa o mal eliminando quem o cometeu, mas oferecendo ao pecador condições de vida nova e plena. E a mulher, talvez, se sentiu profundamente amada pela primeira vez.

Jesus é o “pedagogo misericordioso” pois ativa nas pessoas as melhores possibilidades, riquezas escondidas, capacidades, intuições... e faz emergir nelas sua verdade mais verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis...

A força criativa da sua presença misericórdia põe em movimento os grandes dinamismos da vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe sempre uma possibilidade de vida nova nunca ativada.

O “princípio misericórdia” é o núcleo e a essência do Evangelho. E a misericórdia é o “amor em excesso”. Na misericórdia, Deus sempre nos surpreende, sempre excede nossas estreitas expectativas, abrindo caminho a partir de nossas fragilidades. Só o amor misericordioso de Deus nos reconstrói por dentro, destravando-nos e abrindo-nos em direção a horizontes maiores de coragem, responsabilidade e compromisso.

misericórdia constitui a resposta de Deus à nossa indigência. A misericórdia é expansiva, pois abre um novo futuro e desata ricas possibilidades latentes em cada um. Ela não se limita ao êrro e às fragilidades, mas impulsiona cada um a ir além de si mesmo.

Onde não há misericórdia, não há sequer esperança para o ser humano. A misericórdia, portanto,  não só é a mais divina mas também a mais humana das virtudes. É aquela que melhor revela a essência do Deus Pai e Mãe de infinita bondade. É a que revela, igualmente, o lado mais luminoso da natureza humana. Por isso, ela é o atributo que mais humaniza as relações entre as pessoas.

Fundamentalmente, a misericórdia significa assumir como própria a miséria do outro, inicialmente como sentimento que comove, mas que, logo em seguida, leva à ação. A misericórdia parte das “entranhas” e se dirige instintivamente ao próximo na forma de presença, acolhida, compaixão, ternura e consolo.  Misericórdia é exatamente: ter coração” para o outro, dando preferência aos mais frágeis e limitados.

misericórdia é a caridade que “toma mãos e pés”, ou seja, o amor que se expressa em uma ação decidida e generosa, capaz de transformar e libertar.

Ser presença misericordiosa é um “modo de proceder”, um “estilo de vida” que não está ligado a uma transgressão; é muito mais um estilo de bondade, compreensão, magnanimidade, estilo de quem não se fixa no que o outro merece, nem se escandaliza com sua miséria.

"Devemos ser presença misericordiosa como pecadores, não como justos”. A misericórdia é fundamentalmente uma mensagem de estima e confiança no outro, crer na sua amabilidade e bondade. Por isso, a presença misericordiosa é força que provoca no outro a redescoberta de sua própria identidade (uma pessoa amada e acolhida pelo Deus misericordioso).

Quem é misericordioso está convencido de que o irmão é melhor que aquilo que aparenta ser.

Texto bíblico:  Jo 8,1-11

Na oração: Uma vez mais somos chamados(as) a aprender de Jesus, que sempre olha o que há de mais autêntico em cada pessoa, isto é, a imagem de seu Pai.

- Entrar no movimento da misericórdia nos humaniza e nos cristifica. Como seguidores(as) de Jesus, somos seu coração, seus olhos, suas mãos e seus pés juntos aos que mais sofrem rejeições, julgamentos, condenações...; somos “canais de misericórdia” por onde flui a Misericórdia e a Compaixão de Deus Pai-Mãe.

 

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2537-jesus-o-mestre-da-presenca-misericordiosa

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sexta-feira, 1 de abril de 2022

A VOLTA DO FUTURO - Carlos Diegues


A eleição de Fernanda Montenegro para a ABL é uma vitória do Brasil que nós amamos.

A Academia Brasileira de Letras (ABL) vive, desde sexta-feira passada, um momento novo e brilhante em sua história. Não somente na sua história particular, como também novo e brilhante na História contemporânea do país.

Sexta-feira, dia 25 de março, tomou posse como membro da Academia nossa grande Fernanda Montenegro, eleita para isso no final do ano passado.

Fernanda não representa apenas o que existe de melhor no teatro brasileiro, uma síntese excepcional da interpretação que um ser humano pode fazer de um outro ser humano, mas também a imagem de uma forma de pensar o Brasil e o mundo que nasceu com a sua geração de artistas e intelectuais. Antes, na minha juventude, dona Arlete me lembrava as melhores tradições de nosso teatro a caminho do cinema. Hoje, ela é a lembrança de tudo que aprendi a compreender e amar nesse país tão difícil e tantas vezes traído.

Não sei como e onde ela aprendeu esses sentimentos todos e essa cultura tão vasta e antiga de coisas que se tornaram nossos costumes porque seus amigos e amigas, sobretudo parceiras e parceiros, assim desejaram. Hoje, grande parte do que sabemos de onde viemos devemos certamente a Fernanda por tudo que ela nos mostrou nos palcos e depois nas telas de cinema.

Em 1973 fiz um filme contando as histórias de famílias de minha terra que meu avô me contava às gargalhadas. O personagem principal vinha da Europa e descobria comigo essa misteriosa cultura local, se atrelava de tal maneira a ela que acabava sem fôlego no varandão da Casa Grande. Como a famosa atriz não teve como vir dublar o filme no Brasil, foi Fernanda quem me socorreu, emprestando ao personagem sua voz tão cheia de significados de coisas que não eram ditas. Fernanda Montenegro tornou-se minha Joanna Francesa e sei que devo a ela grande parte do sucesso de estima desse filme. Fernanda soprava e sussurrava as verdades que Joanna ia descobrindo e assumia o que ela vinha assumindo.

Mas o que faz de Fernanda Montenegro uma enorme representante de tudo que amamos nesse país tão difícil de ser, nesse momento, amado, não sai necessariamente de suas lembranças do passado e de costumes que não eram seus. Sai do que ela aprendeu e agora nos ensina, confiando em que ainda vivemos numa sociedade que, por pior que pareça, será sempre repositório de esperanças que não se perdem. Porque a verdade não morre, mesmo que desfaleça em aparência e nos deixe meio perturbados com isso.

A eleição de Fernanda Montenegro para a ABL é uma vitória do Brasil que nós amamos e não queremos perder de vista. Com ela a nos chamar nossa atenção, isso não acontecerá nunca mais. Mas, por via das dúvidas, insistimos em contemplar dona Arlete e a farta família que formou com Claudio e Nanda, fazendo com que recuperemos nossa confiança num futuro que ainda podemos, se tivermos o mesmo caráter que eles, viver intensamente.

O poder exercido por em quem nunca confiamos, não pode ser mais poderoso e definitivo que o amor e a fé que temos em nossos verdadeiros heróis. Em mais alguns breves meses, estaremos acordando do pesadelo em que vivemos durante esses últimos anos, graças ao acaso de eleições desprezadas e desprezíveis. Aí poderemos novamente olhar para a frente, como sempre fizemos, porque lá estará nossa certeza de que é para ali que o Brasil, apesar de tudo, ruma. E lá estarão também e para sempre as mãos e um sorriso em que aprendemos a amar e a confiar, esse sim, como um de nossos guias. As mãos e o sorriso de Fernanda Montenegro.

O Globo, 28/03/2022

https://www.academia.org.br/artigos/volta-do-futuro

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Carlos Diegues - Décimo ocupante da Cadeira 7 da ABL, eleito em 30 de agosto de 2018 na sucessão do Acadêmico Nelson Pereira dos Santos e recebido pelo Acadêmico Geraldo Carneiro em 12 de abril de 2019.

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