Total de visualizações de página

domingo, 20 de março de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (258)


 
3º Domingo da Quaresma – 20/03/2022

Anúncio do Evangelho (Lc 13,1-9)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, vieram algumas pessoas trazendo notícias a Jesus a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado, misturando seu sangue com o dos sacrifícios que ofereciam.

Jesus lhes respondeu: “Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa? Eu vos digo que não. Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo.

E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”.

E Jesus contou esta parábola: “Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não encontrou. Então disse ao vinhateiro: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?’

Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás’”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

---

Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira – Comunidade Canção Nova:


---

Raízes que nos sustentam

 

Imagem: pexels.com

“Vou cavar em volta da figueira e colocar adubo” (Lc 13,8)

 

Temos perdido as raízes? Como conectar-nos com elas? Quê raízes nos alimentam? Onde estamos enraizados? Quais são as raízes que nutrem atualmente nossa vida? São as melhores?

Enraizamento, fincar raízes, viver da profundidade das raízes... O “novo” vem das raízes, vem de baixo, da base, do chão da vida. É preciso relançar uma nova radicalidade. Viver a partir das raízes, projetar a partir das raízes, criar a partir das raízes. Quaresma é tempo para colocar novo adubo e fortalecer as raízes; e viver o tempo das raízes para ser presença “diferenciada”, “enraizados” na realidade cotidiana.

“Descer” às raízes é uma oportunidade privilegiada para nos descobrir e conhecer nosso reino interior, para encontrar nossos recursos mais nobres e assim experimentar a transformação.

O caminho para uma nova qualidade de vida passa pelo encontro com as próprias raízes. Mas essa descida nos possibilita descobrir um mundo diferente que não conhecíamos, ou que havíamos perdido.

Este é o caminho da espiritualidade que brota do húmus; “descer” até o fundo, mergulhar nas dimensões mais profundas onde estão escondidos os “tesouros” que dão significado e sentido às nossas vidas.

Vivemos um contexto social-político-religioso marcado por um profundo desenraizamento, onde somos mobilizados a viver em mundos “sem raízes”, em espaços criados pela tecnologia, comunicando-nos através de relações virtuais com pessoas distantes, desconectando-nos do nosso próprio chão existencial; no emaranhado das imagens e sons perdemos a noção daquilo que é essencial e decisivo para a vida; vivemos na superfície dos acontecimentos e de nós mesmos; esvaziamos a consistência interior e fundamento sobre o qual se apoia a nossa própria vida; congelamos toda proximidade e relação com o outro; petrificamos todo compromisso com as causas mais nobres...

Desenraizar-se é desumanizar-se.

“nova radicalidade” é a maneira original de seguir a Jesus. É uma radicalidade amável e expansiva, porque quem chega às raízes descobre-se implantado na natureza humana, naquilo que todos compartilham e, por isso mesmo, descobre-se e sente-se enraizado no Outro.

Ninguém pode viver sem raízes, pois não se sustentaria de pé. Quando perde suas raízes, o ser humano se atrofia e fica privado de algo decisivo, essencial: de uma fonte de vitalidade.

Superfície significa aqui o esquecimento da raiz, significa viver na distância da vida, desconectado da fonte interior, desarticulado e ocupado com o que não é essencial. Muitas pessoas passam pela vida assim, distraídas como turistas, como “voyeurs”, que consomem, sem descanso, paisagens e imagens de si mesmas, cujo olhar está sempre ocupado com as vitrines ou o próprio umbigo e assim nunca repousam, nunca chegam à raiz de nada.

Jesus, o “homem enraizado” em seu povo e sua cultura, traçou seu caminho em parábolas.

No evangelho deste domingo Ele usa a imagem da “figueira estéril” que não recebera o nutriente necessário. A figueira é uma das árvores mais comuns na Palestina e seu fruto, muito apreciado, é abundante. As flores da figueira são um sinal da primavera. “Sentar-se debaixo da videira e da figueira” é uma expressão proverbial da paz e serenidade da vida no campo (cf. 1Rs 5,5; Mq, 4,4; Zc 3,10).

A isso, precisamente, aponta a parábola da figueira plantada no meio da vinha. Ela também destaca a paciência do vinhateiro. Apesar de “levar” três anos sem dar frutos, o vinhateiro continua confiando nela, ao mesmo tempo que lhe oferece todos os cuidados com esmero: “vou cavar em volta dela e colocar adubo”.

Jesus quer destacar a paciência divina, porque compreende e respeita o momento e o ritmo de cada pessoa. Conhecedor do coração humano, sabe dos condicionamentos de todo tipo que pesam sobre ele: sofrimentos pendentes ou não elaborados; vivências não integradas; feridas não “processadas”; mecanismos de defesa ativados ao longo da vida para poder sobreviver; ignorância básica de quem é e como quer viver...

Precisamos tempo e paciência para crescer em lucidez e em consciência, assim como em liberdade interior, frente aos próprios medos e necessidades, para podermos ser coerentes e fiéis ao melhor de nós mesmos.

A partir dessa fidelidade, tudo começa a adquirir sentido: abrimo-nos a quem somos e vamos construindo relações harmoniosas. Isso é o que significa, segundo o evangelho, “dar fruto”.

Numa chave de leitura interior, a parábola da figueira ativa a virtude da esperança que alimenta, dá sentido à nossa existência e ilumina as profundezas de nosso ser cristão. Na vivência do evangelho, a terra interior também pode ser cavada e adubada, através de diálogos e do encontro com nossa verdade pessoal.

A parábola da “figueira” toca o nosso “eu” mais profundo; é preciso escutá-la e deixá-la ressoar em nosso coração, a terra do nosso campo interior que é cavada e fertilizada. Mas a parábola não só alimenta a esperança; ela também nos desafia a corresponder ao “divino agricultor”, dando frutos.

Talvez tenhamos que parar de exigir certos frutos da nossa árvore; basta os frutos menores ou a sombra que a árvore providencia.

Escavar a terra é o primeiro requisito a ser cumprido para que a árvore interior dê fruto. O segundo é o adubo, que pode ser símbolo para a atenção e o amor, que nos fazem bem e podem nos conduzir ao florescimento e frutificação da nossa árvore. Normalmente, usamos esterco para fertilizar a terra, o esterco da nossa própria biografia pode ser usado como adubo.

Dia após dia, o agricultor leva o esterco ao campo, e, após um ano, o campo dá seus frutos. É uma imagem consoladora, pois, justamente aquilo que consideramos o esterco da nossa vida – os fracassos, as feridas, as derrotas, as fragilidades – se torna o adubo para a nossa árvore da vida e a faz florescer.

A questão está em como cavar, que adubo depositar e que frutos esperamos alcançar. É importante cavar para sanear as raízes, nossas raízes mais profundas onde está a força de Deus vitalizando nossa existência; o alimento, talvez seja conectar mais com a mensagem de Jesus, com o Evangelho e entrarmos em sintonia com o Deus da Vida. Os frutos, sem dúvida, terão mais a cor e o sabor da visibilidade, da ousadia, da liberdade, da denúncia daquilo que atenta contra a dignidade humana, de atrever-nos a abandonar o rotineiro e gerar novas formas de viver o Evangelho nestes tempos tão conflitivos.

Deus é o “paciente Cuidador” e nos alcança na medida em que nos abrimos à sua ação; Sua presença expande e multiplica o melhor de nossa vida. Ao contrário, quando permanecemos reclusos na identificação com nosso ego, irremediavelmente, dia após dia, nossa existência se atrofiará e se empobrecerá.

É fora de dúvida que, dentro de cada um de nós, continuam existindo “figueiras estéreis”, experiências com pouca profundidade, vivências asfixiantes e atrofiantes...  que limitam a liberdade de Deus em atuar em nós. Mas, o ponto de partida é que comecemos por reconhecer nosso terreno interior, reconciliando-nos com ele, abraçando-o com humildade. É no meio da “vinha” que está situada nossa “figueira”.

Desse modo, ao crescer em unificação – integrando também os aspectos mais obscuros e vulneráveis de nossa própria vida -, um bom “húmus” estará se disponibilizando e constituindo a “terra boa” onde a figueira crescerá por si mesma e dará frutos. Devemos descobrir, em cada um de nós, o que atrofia, limita e bloqueia o fluxo da seiva que brota das profundidades de nossa terra interior.

Texto bíblico:  Lc 13,1-9

Na oração: Uma vida que se enraíza, é uma vida firme, consistente. Por outra parte, as raízes na planta, são as que se introduzem na terra e crescem em sentido contrário do tronco, servindo-se como sustentação.

Graças a elas, a planta pode absorver o alimento necessário para seu crescimento.

- o que está “estéril” em sua vida?

- quais são e onde estão as raízes onde seu coração se alimenta? Quais raízes precisam ser sanadas, adubadas... para que deem frutos?



Pe. Adroaldo Palaoro sj

 https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2530-raizes-que-nos-sustentam

 

* * *

 

sábado, 19 de março de 2022

TELEGRAM: BOLSONARO DIZ QUE DECISÃO DE MORAES TRAZ GRAVES CONSEQUÊNCIAS ...



Oração a São José

Pelo povo de Deus

 

          A vós, São José, recorremos em nossas necessidades e, depois de ter implorado o auxílio de vossa santíssima esposa, cheios de confiança solicitamos também o vosso patrocínio. Por esse laço sagrado de amor, que vos uniu à Virgem Imaculada, Mãe de Deus, pelo amor paternal que tiveste a Jesus, ardentemente vos suplicamos que lanceis um olhar benigno sobre o povo, que é a herança que Jesus Cristo conquistou com seu sangue, e nos socorrais com o vosso auxílio e intercessão junto de Deus.

            Protegei, ó guarda providente da divina Família, o povo eleito de Jesus Cristo. Afastai para longe de nós, ó pai amantíssimo, o erro e o vício. Assisti-nos do alto o céu, ó nosso fortíssimo sustentáculo, na luta contra o poder das trevas e, assim como salvaste da morte a vida ameaçada do Menino Jesus, defendei também agora a santa Igreja de Deus das ciladas dos seus inimigos e de toda a adversidade. Amparai a cada uma de nós com vosso constante patrocínio, a fim de que, a vosso exemplo e sustentados com vosso auxílio, possamos viver virtuosamente, morrer piedosamente e obter no céu a eterna bem-aventurança. Amém.

 

Fonte: MANUAL DO DEVOTO de Nossa Senhora Aparecida


* * *

sexta-feira, 18 de março de 2022

A braba de Minas conta como foi...

BLACK – Artur Azevedo


 

            Leandrinho, o moço mais elegante e mais peralta do bairro de São Cristóvão, frequentava a casa do senhor Martins, que era casado com a moça mais bonita da rua do Pau-Ferro.

            Mas, por uma irregularidade notável, tão notável que a vizinhança logo notou. Leandrinho só ia à casa do Senhor Martins quando o Senhor Martins não estava em casa.

            Esperava que ele saísse e tomasse o bonde que o transportava à cidade, quase à porta da sua repartição; entrava no corredor com a petulância do guerreiro em terreno conquistado, e Dona Candinha (assim se chamava a moça mais bonita da rua do Pau-Ferro) introduzia-o na sala de visitas, e de lá passavam ambos para a alcova, onde os esperava o tálamo aviltado pelos seus amores ignóbeis.

            A ventura de Leandrinho tinha um único senão: havia na casa um cãozinho de raça, um bull-terrier, chamado Black, que latia desesperadamente sempre que farejava a presença daquele estranho.

            Dir-se-ia que o inteligente animal compreendia tudo e daquele modo exprimia a indignação que tamanha patifaria lhe causava.

            Entretanto, o inconveniente foi remediado. A poder de carícias e pães-de-ló, a pouco e pouco logrou o afortunado Leandrinho captar a simpatia de Black, e este, afinal, vinha aos pulos recebê-lo à porta da rua, e acompanhava-o no corredor, saltando-lhe às penas, lambendo-lhe as mãos, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda inquieta e curva.

            As mulheres viciosas e apaixonadas comprazem-se na aproximação do perigo; por isso, Dona Candinha desejava ardentemente que Leandrinho travasse relações de amizade com o Senhor Martins.

            Tudo se combinou, e uma bela noite os dois amantes se encontraram, como por acaso, num sarau do Clube Familiar da Cancela. Depois de dançar com ele uma valsa e duas polcas, ela teve o desplante de apresentá-lo ao marido.

            Sucedeu o que invariavelmente sucede. A manifestação da simpatia do Senhor Martins não se demorou tanto como a de Black: foi fulminante.

            Os maridos são por via de regra menos desconfiados que os bull-terriers.

            O pobre homem nunca tivera diante de si cavalheiro tão simpático, tão bem-educado, tão insinuante. Ao terminar o sarau, pareciam dois velhos amigos.

             À saída do clube, Leandrinho deu o braço a Dona Candinha, e, como “também morava para aqueles lados”, acompanhou o casal até a rua do Pau-Ferro.

            Separaram-se à porta de casa.

           O marido insistiu muito para que o outro aparecesse. Teria o maior prazer em receber a sua visita. Jantavam às cinco. Aos domingos um pouco mais cedo, pois nesses dias a cozinheira ia passear.

            - Hei de aparecer – prometeu Leandrinho.

            - Olhe, venha quarta-feira – disse o Senhor Martins. – Minha mulher faz anos nesse dia. Mata-se um peru e há mais alguns amigos à mesa, poucos, muito poucos, e de nenhuma cerimônia. Venha. Dar-nos-á muito prazer.

            - Não faltarei – protestou Leandrinho.

            E despediu-se.

            - É muito simpático – observou o Senhor Martins metendo a chave no trinco.

            - É – murmurou secamente Dona Candinha.

            Black, que os farejava, esperava-os lá dentro, no corredor, grunhindo, arranhando a porta, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva.

 

            Na quarta-feira aprazida Leandrinho embonecou-se todo e foi à casa do Senhor Martins, levando consigo um soberbo rama de violetas.

            O dono da casa, que estava na sala de visitas com alguns amigos, encaminhou-se para ele de braços abertos, e dispunha-se a apresenta-lo às pessoas presentes, quando Black veio a correr lá de dentro, e começou a fazer muitas festas ao recém-chegado, saltando-lhe às pernas, lambendo-lhe as mãos, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva.

            O Senhor Martins, que conhecia o cão e sabia-o incapaz de tanta familiaridade com pessoas estranhas, teve uma ideia sinistra, e como os dois amantes enfiassem, a situação ficou para ele perfeitamente esclarecida.

            Não se descreve o escândalo produzido pela inocente indiscrição de Black. Basta dizer que, a despeito a intervenção dos parentes e amigos ali reunidos, Dona Candinha e Leandrinho foram postos na rua a pontapés valentemente aplicados.

            O Senhor Martins, que não tinha filhos, a princípio sofreu muito, mas afinal habituou-se à solidão.

            Nem era esta assim tão grande, pois, todas as vezes que ele entrava em casa, vinha recebê-lo o seu bom amigo, o indiscreto Black, saltando-lhe às pernas, lambendo-lhe as mãos, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda inquieta e curva.

............

Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.


* * *

quinta-feira, 17 de março de 2022

UMA ROSA É UMA ROSA - Cyro de Mattos

 


Uma rosa é uma rosa

Cyro de Mattos

 

                 Uma rosa é uma rosa é uma rosa, uma das frases mais famosa da literatura, foi escrita por Gertrude Stein (1874-1946), escritora e poeta feminista, mensageira de uma poesia inovadora nos Estados Unidos. A frase motivou ao longo dos anos várias versões e variações através de músicas, óperas, filmes e paródias. Artistas famosos usaram-na em suas criações e, entre eles, Ernest Hemingway, Charles Chaplin, Aldous Huxley, Stephen King e Vinícius de Moraes com seu Rancho das Flores.

           Precisamos nesse momento de elogio ao sublime ser íntimos de outra rosa, que nos faz sentir como a vida é bela quando a encontramos formosa no jardim da cidade ou no da sua casa. É feita de seda e fragrância, gosta de acontecer no momento singular da natureza. Em ritual de carícia, ilumina o ar quando se entreabre no sonho suave da flora.

          Gostaria que fosse duradoura, não fugaz como acontece, pois em seu destino frágil de rosa fica murcha mal desponta. Assim se apresenta na sua aparição ligeira, vocação para que seja admirada em terna nervura, provocando suspiros e desejos, sugerindo a ideia de que o amor entre os seus protagonistas se faz necessário que seja bafejado com os ares da rosa.      

           Se você quiser ver sua mulher sorrir de contente, diga, quando sentar à mesa para a refeição matinal, que ela amanheceu bonita como uma rosa. Se ela quiser saber de onde foi que você achou essa rosa, que se parece com ela, não hesite em dizer que foi no Jardim de Dona Bela, só o seu coração conhecia, amava visitá-la todos os dias. Acrescente que de repente encontrou com aquela rosa agora, ali mesmo em sua frente, sentada à cabeceira da mesa. Radiante apresentava-se em ritual de amor fazendo com que seu coração tivesse a sensação de que sua casa fosse de fato na manhã formosa um jardim, igual ao de Dona Bela.    

        Os poucos leitores dessa crônica já perceberam que dentro de mim habita uma rosa, que sopra seu hálito delicado mal a manhã desperta. Justamente é essa, que nunca some, dadivosa em ritmo de cores e sons na alma flora. Tem habituais cuidados comigo, acha nesse instante que eu não deva prosseguir com a crônica, tentando dizer sobre o que é uma rosa. Ora, uma rosa é uma rosa com sua beleza fascinante, observa, será que alguém vai conseguir descrevê-la dentro da perfeição de suas linhas harmoniosas?  Desenhada pelos dedos de Deus, nunca na minha escrita pobre vou chegar perto de sua beleza provinda da natureza, que é inimitável, sua delicadeza com finas saliências, seu jeito iluminado que trescala um sentimento que perfuma e encanta.    

          Verdade, nunca saberei decifrar o quanto essa rosa que acalma os olhos é misteriosa, seja qual for a cor que expresse o seu estar na vida, em qualquer estação, embora dê preferência que aconteça na primavera quando há trinados e voos alegres para celebrar esse dom da flora. Se uma rosa é uma rosa, uma só vale todos os poemas escritos pelos melhores poetas de todos os tempos. Inalcançável é a sua perfeita aparição, sem concorrente entre as flores não se presta ao decalque da mais apurada sensibilidade do poeta genial, tendo em vista que  suas particularidades formadas por pétala e sonho pertencem somente a ela.       

Rosa no verde é felicidade, no branco sinal de tranquilidade. Ambas as duas são generosas.  Rosas no peito são bem-vindas, tão queridas, acariciam o coração ao toque do violão suave. A essa altura, em que tento mostrar minha admiração pela rainha das flores, penso que posso encerrar essa crônica recorrendo a Ataulfo Alves, poeta de nosso cancioneiro popular, que gostava de cantar o amor embalado com a beleza da rosa. Ele disse: “Quando morrer não quero choro nem vela, quero uma rosa amarela, gravada com o nome dela. “

 

Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Um dos idealizadores da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

* * *

segunda-feira, 14 de março de 2022

14 DE MARÇO - Dia Nacional da Poesia

 


Pelas Sombras

Castro Alves

                                Ao padre Francisco de Paula

                                            C’est que je suis frappé du doute.

                                            C’est que l’étoile de la foi

                                            N’éclaire plus ma notre route:

                                            Tout est abime autor de moi!

                                 

                                                                        LA MORVONNAIS

                                

 

Senhor, a noite é brava... a praia é toda escolhos.

Ladram na escuridão das Circes as cadelas...

As lívidas marés atiram, a meus olhos,

Cadáveres, que riem à face das estrelas!

 

Da garça do oceano as ensopadas penas

O mórbido suor enxugam-me da testa,

Na aresta do rochedo o pé se firma apenas,

No entanto ouço do abismo a rugidora festa!...

 

Nas orlas de seu manto o vendaval se enrola

Como invisível destra, açoita as faces minhas

Enquanto que eu tropeço... um grito ao longe rola...

“Quem foi?” perguntam rindo as solidões marinhas.

 

Senhor! Um facho ao menos empresta ao caminhante,

A treva me assoberba... Ó Deus! Dá-me um clarão!

E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:

“Acende, ó Viajor! – o facho da razão!”

 

.......................................

Senhor! Ao pé do lar, na quietação, na calma

Pode a flama subir brilhante, loura, eterna;

Mas quando os vendavais, rugindo, passam n’ alma,

Quem pode resguardar a trêmula lanterna?

 

Torcida... desgrenhada aos dedos da lufada

Bateu-me contra o rosto, e se abismou na treva,

Eu vi-a vacilar... e minha mão queimada

A lâmpada sem luz embalde ao raio eleva.

 

Quem fez a gruta – escura, o pirilampo cria!

Quem fez a noite – azul, inventa a estrela clara!

Na fronte do oceano – acende uma ardentia!

Com o floco do Santelmo – a tempestade aclara!

 

Mas ai! Que a treva interna – a dúvida constante –

Deixaste assoberbar-me em funda escuridão!...

E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:

“Acende, ó Viajor! A Fé no coração!...

 

Castro Alves (Antônio Frederico), nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É o patrono da cadeira n. 7, por escolha do fundador Valentim Magalhães.

 * * *