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quinta-feira, 3 de março de 2022

 


G U E R R A

Antonio Baracho

 

Ó, povo russo,

Não faça guerra. 

Junte seus fuzis e metralhadoras

E cuspa lírios e rosas perfumadas.

Quero adormecer inquieto

Ao som de suas bandas.

Quero uma estátua da liberdade

E não uma estátua de sal. 

Tremule a bandeira da paz 

E não a do ódio.

Jogue flores sobre as crianças 

Que dormem ao anoitecer,

Como anjos, balbuciando o pai-nosso.

Não enterrem corações inocentes.

Não jogue bomba,

Faça canção.

 

Antonio Baracho

Academia Grapiúna de Letras - Agral

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terça-feira, 1 de março de 2022

DOBRA DE LEITURAS 

Peter O' Sagae

 

Abro hoje O QUE EU VI POR AÍ, sim de Cyro de Mattos, com ilustrações da polonesa Marta Ignerska e o projeto gráfico de Monique Sena (Biruta, 2014), e sinto-me um pouco mais em paz. A voz do texto é igualmente mansa e soa como um convite às horas de contemplação, assim que o sol acorda, com seu olho enorme, onde o céu faz uma curva e vai empurrando as sombras, inventando leões rugindo nas ondas com suas jubas brancas... Sim, respinga, no rendilhado dessa prosa poética, um olhar de criança que, como o sol, pode se admirar no espelho que ele mesmo espalha na imensidão do mar.


Sim, a descrição do amanhecer não é um objeto novo na estante de meus livros. Nem a apreciação das nuvens que rolam acima, transformando-se. Mas existe, no entanto, uma necessidade de aprender a observar a natureza de uma maneira descompromissada, sem o agito do cotidiano. E talvez a lição comece durante a infância, ou no amanhecer de um dia.


Cyro de Mattos passeia do horizonte à mata, à chuva da tarde, às figuras da noite. Formas e formigas enfileiram-se em seu texto que soa, enfim, como uma oração que exalta a vida, incansável, de flores e insetos, cores e aves, água e pedras em uma correnteza de imagens. Olhar as belezas do mundo faz lembrar outros textos, como O MENINO MAIS BONITO DO MUNDO, de Ziraldo (1983). Porém aqui a narrativa mítica cede lugar às cenas engraçadas, quando o olhar contemplativo de menino assume a proposição de imagens imaginadas e lembranças: um jogador anão no meio do campo fazendo um gol no goleiro grandão, uma velhinha (que não assobia) mas chupa cana com um dente só, palhaços, presepadas, uma macaca (que não é caixeira de uma venda) mas faz toda a família dormir...


Desde a capa do livro, já se anunciava a posição de expectador de um grande cinema. O que há de diferente é a sugestão da criança narrar e também editar seu próprio filme, após a aprendizagem das coisas simples, leves e engraçadas. Tudo isso explica as ilustrações de Ignerska, as figuras de muitos braços e olhos que povoam as páginas do livro, sempre em movimento. Apenas o projeto gráfico poderia ser mais suave, claro e aberto à intervenção dos leitores. Os mais novos, não eu. Sempre em movimento.


* * *

*Peter O’Sagae  reside em São Paulo, é autor de “uma noite para João  e outros poemas” e “2 no telhado”, entre outros. Doutor em literatura infantil, crítico e tradutor. Editor do blogue Dobras de Leitura.

**O que eu vi por aí, de Cyro de Mattos,  infantojuvenil, Editora Biruta, São Paulo, 2014. 

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O JAÓ – Artur Azevedo

 


        Numa noite em que estávamos quatro ou cinco amigos reunidos em casa do Novais, vieram à baila os meus contos e não houve na assistência quem se não gabasse de saber casos que forneceriam magníficos assuntos para este gênero de literatura amena.

          - Pode ser – disse eu – mas devo confessar-lhes que até hoje não pude aproveitar para os meus trabalhos um único assunto oferecido nessas condições. Os contos inventaram-se, o que não quer dizer que não sejam também o produto do que se vê e observa na vida real, ou no renovamento de qualquer anedota que corra mundo desde tempos imemoriais.

          - Ora! Eu sei a história de um jaó, que te poderia servir, disse-me o Novais, e vou conta-la enquanto minha mulher apronta o chá!

          - Conta, que ele há de gostar – disse dona Emília, desaparecendo da sala.

          - Vamos à história do jaó! Exclamei, fingindo-me entusiasmado, para dar ânimo ao dono da casa.

          A cena passa-se em Cataguases, no estado de Minas, ainda nos ominosos tempos da monarquia, começou o Novais, acomodando-se numa poltrona.

          Houve um movimento geral de atenção, e todos nós aproximamos as nossas cadeiras.

          - A um quarto de légua da localidade, havia “um situante”, como lá dizem, homem já maduro, honrado e trabalhador, que, tendo perdido a mulher, morava sozinho com a filha.

          Esta chamava-se Mimi, e era um encanto, uma perfeição; morena, esbelta, cabelos negros e ondeados, olhos de fogo, lábios rubros e magníficos dentes. De mais não era estúpida nem de todo ignorante: fazia as quatro operações; cosia admiravelmente e no governo da casa mostrava-se expedita e asseada.

          Era agente da estação da estrada de ferro um bonito rapaz de 25 anos, que tinha a paixão da caça, e, nos lazeres do seu emprego, não fazia outra coisa senão caçar.

          Um dia em que as suas diligências cinegéticas o levaram lá às bandas do sítio do velho Serrano, que assim se chamava o pai da moça, ele encontrou Mimi numa volta de estrada, e ficou impressionadíssimo por aquela surpreendente formosura do campo.

          Pelos modos, o efeito foi recíproco: eles cumprimentaram-se, o que era muito natural, porque na roça não se encontram duas pessoas que não se cumprimentem, embora não se conheçam; mas sorriam um para o outro, e isso já não estava nos usos e costumes indígenas.

          Durante três dias a fio houve novos encontros e novos sorrisos. O moço nunca mais caçou noutro lugar.

          Afinal, chegaram à fala, e ele que talvez levasse más intenções, foi desarmado pela candura e pela ingenuidade de Mimi.

          Amaram-se, amaram-se deveras; entretanto, aquelas entrevistas na estrada eram perigosas; podia passar alguém...

          - Ficaremos à vontade – disse ela com uma adorável confiança no seu amado – à sombra de uma caneleira que há nos fundos lá de casa. Entra-se por aquele atalho e vai-se dar mesmo lá.

          - E teu pai?

          - Meu pai está da outra banda, fazendo o roçado; só vai pros lados da caneleira uma vez na vida e outra na morte. Estou sozinha em casa. Você dá um sinal, e eu vou ter com você.

          Qual há de ser o sinal?

          - Você é caçador; deve saber piar.

          - Naturalmente! Pio macuco, inhambu, jaó...

          - Jaó, prefiro jaó, é triste, mas é bonito.

          O namorado piou, para dar uma amostra da sua habilidade; o pio não podia ser mais perfeito.

         No dia seguinte o velho Serrano sentiu-se um tanto indisposto e não quis sair de casa, o que bastante contrariou Mimi.

          - Hoje nada de sol! – disse ele; - tenho a cabeça pesada, e nesta idade o sangue sobe com facilidade. Ontem se não me engano, ouvi cantar um jaó, e tomei a coisa como agouro, porque há muito tempo esse pássaro não aparecia por cá.

          - Ora papai, isso agora é tolice!

          - Será, mas não vou ao roçado. Nada, que teu avô não faz outro!

          E, dirigindo-se a um alpendrado, que ficava na parte superior da casa, o velho Serrano tirou a parede a sua espingarda, dizendo:

          - Pra não ficar com as mãos vadias, vou limpar esta sujeira que está criando ferrugem.

          E, depois de descarregar a espingarda para o ar, o velho sentou-se num banco e começou a limpá-la.

          O tiro foi um alívio para Mimi – em primeiro lugar, porque ouvindo-o, o rapaz saberia que o velho estava em casa, e em segundo lugar, porque uma arma carregada na mão do pai era um perigo iminente para o namorado.

          Mas – Oh! Contrariedade! – concluindo o trabalho, o velho foi buscar o polvarinho e carregou de novo a espingarda.

         No momento de pendurá-la, ouviu o pio do jaó.

          - Ouviste, Mimi? – perguntou Serrano empalidecendo de súbito, com a arma ainda na mão; ouviste?

          - Não, senhor; que foi?

          - O jaó!

          - Não ouvi nada; vocem’cê enganou-se.

          - Não! Estes ouvidos de velho caçador não se enganam... E aquilo é agouro!...

          - Que agouro, que nada!

          - Há dois anos piou um jaó no sítio do João Bernardo... Lembras-te?!... e três dias depois o João Bernardo esticou a canela...

          - Coincidência.

          - Eu nunca te quis dizer nada, mas quando tua mãe morreu, tinha piado um jaó na véspera, ali mesmo, do lado da caneleira. É um pássaro da morte, pior que a coruja!

          Palavras não eram ditas, ouviu-se e novo o jaó.

          Serrano estremeceu dos pés à cabeça:

          - Ouviste agora? Vê, minha filha, vê como tenho as mãos frias! Vou matar aquele diabo!

          - Ora, papai, deixe o pobre jaó! Ele não é o que vocem’cê pensa!

          Pois sim! Aquele não há de cá voltar! Vá agourar lá pro inferno.

          O velho ia sair, mas a filha, desesperada agarrou-o pelo braço:

          - Não! Não faça isso, papai! Pelo bem que me quer!

          E vendo que o velho forcejava para desvencilhar-se, Mimi pôs-se a gritar com toda força dos seus pulmões:

          - Jaó! Jaó! Vai te embora, que papai quer te matar!

          - Espera que ele te entenda?

          E, com um arremesso, o velho saltou para o terreiro e encaminhou-se para o lado da caneleira.

          Mimi continuou a gritar:

          - Jaó! Meu jaózinho! Foge, foge que papai lá vai à tua procura para matar-te!...

          O velho voltou ao cabo de meia hora sem ter encontrado o pássaro.

          - Que diabo, menina! Parece que ele te entendeu...

          E pendurou tranquilamente a espingarda.

         

          O Novais calou-se.

          - Está terminado o conto? – perguntei depois de uma pausa.

          - Está; não o achas interessante?

          - Não é mau, mas falta-lhe a conclusão. Que fim levou o jaó?

          - Aqui o tens na tua presença, meu amigo; o jaó era eu.

          - E a Mimi, esta sua criada – acrescentou dona Emília, que voltava com a bandeja do chá.

 

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Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Ô VLADIMIR PUTIN – Cyro de Mattos



Ô Vladimir Putin

Cyro de Mattos

 

Não escutas o passarinho em dia

De bemóis, ao contrário das fronteiras?

Nessa terra que é nossa casa, abrigo 

De lágrima na passagem dos anos?

 

No prazer de estar nela, onde moramos.

Nesse mistério dos que vêm e vão 

Com os saberes da grande mãe que dá

Seus filhos à luz, deitando-os no berço

 

Uterino, após a morte. Decerto

 De paz o final perfeito. Assim fomos

 Feitos, enfim juntos, adormecemos.

 

Deixe que nos leve a trama da vida, 

Revele-se no esplendor da mãe terra.

No lado azul de versos com sentido.  

 

 

Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Publicado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Estados Unidos, Rússia, Suíça e Dinamarca.

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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

A CONSTITUIÇÃO DE PERNAS QUEBRADAS - José Sarney

 

Luís Maklouf, que escreveu um dos melhores livros para se entender a Constituição e explicar como ela teve uma vida até agora completamente híbrida e incoerente, começa o seu livro 1988: Segredos da Constituinte dizendo que é difícil e quase impossível contar uma história tantas vezes contada.

Seu livro é um conjunto de depoimentos dos constituintes mais importantes, daqueles que a fizeram, escreveram e receberam a chuva de lobistas e de seus interesses corporativos. Esse fato dá a noção de como foi desorganizado o trabalho da Assembleia e como faltou a ela a capacidade de ter uma visão de conjunto da Constituição.

O livro abre com as declarações do grande Afonso Arinos, um dos maiores pensadores do Brasil, que afirmou: 'Nós estamos navegando na bruma, estamos criando nosso próprio caminho no meio da névoa. Não temos aqueles aparelhos que indicam que a névoa está para se dissipar ou que ela pode ser vencida, como os aeronautas. Estamos sendo aeronautas a pé.' Afonso presidira a Comissão de Estudos Constitucionais que Tancredo Neves prometera criar para fazer um anteprojeto de constituição -, repetindo o papel de seu pai na famosa Comissão do Itamaraty, que fez o anteprojeto da Carta de 1934.

Tudo isso pela relutância de Ulysses em aceitar oficialmente o anteprojeto, a que afinal recorreram plagiando em momentos de escuridão. Mas não só grandes nomes, como Afonso Arinos, constataram as dificuldades da ausência de um anteprojeto. Gastone Righi, no momento da partida, constatou: 'Somos a figura do navio que zarpa de um porto sem ter plotada sua rota, sem rumo estabelecido e sequer destino escolhido.' (Depoimento a Maklouf.)

Sem ideal nem rumo partiram para discutir do princípio ao fim dos trabalhos o tempo do meu mandato, que era de seis anos e eu, ingenuamente, achando que o efeito seria o mesmo da Constituição de 1946, quando o Presidente Dutra, que tinha um mandato, como o meu, de seis anos, abdicou de um e foi recebido como um gesto de grandeza. O meu gesto de abrir mão de um ano de mandato foi considerado ambição, por uma Constituinte cheia de candidatos à Presidência da República, a começar pelo Presidente Ulysses. E criou-se a maior fake news de nossa História: de que meu mandato era de quatro e eu consegui aumentar para cinco anos!?

Assim, os problemas que vivemos em mais de trinta anos de existência da Constituição decorrem de sua falta de unidade e hibridez, parlamentarista e presidencialista, de seu detalhismo e da ausência de um objetivo comum, um foco de coerência. Perdemos uma oportunidade única: fazer uma nova Carta que assegurasse novos tempos, inovadora e moderna, com o objetivo de ver um grande futuro e não fosse uma lanterna na popa, olhando para o passado.

A consequência é esta Constituição que já ensejou dois processos de impeachment - quase três, pois o de Michel Temer chegou a ser votado na Câmara dos Deputados - e é vista como de pernas quebradas.

Jornal O Estado do Maranhão, 26/09/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/constituicao-de-pernas-quebradas

 

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

BICHOS – Cyro de Mattos *


 

Bichos

Cyro de Mattos


 

Isca

 

Quando vem à tona

como se arrisca.

 

Gambá

 

Com o seu spray

fedorento

afugenta o inimigo.

 

Leão

 

O elétrico no ar

até o vento corre.

 

Hiena

 

Gargalhada da fome

amedronta até a morte.

 

Procurado

 

Procura-se cão pequinês,

é algo fenomenal,

nunca fez pipi

na cama do casal.

 

Papagaio

 

De cadeia ao pé

Humanamente bêbado.

 

Paixão

 

Com tanta saudade

da bailarina foca,

o solitário camelo

foi morar no gelo.

 

Caranguejo

 

Falou tanto dos outros

que perdeu o pescoço

e caiu dentro do poço.


 

*Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta


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