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terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Noite de Insônia - Emílio de Menezes


 

Noite de Insônia

Emílio de Menezes

 

 

Este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,

Onde este grande amor floriu, sincero e justo,

E unimos, ambos nós, o peito contra o peito,

Ambos cheios de anelo e ambos cheios de susto;

 

Este leito que aí está revolto assim, desfeito,

 Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto,

Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito,

Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!...

 

Louco e só! Desvairado! – A noite vai sem termo

E, estendendo, lá fora, as sombras augurais

Envolve a Natureza e penetra o meu ermo.

 

E mal julgas talvez, quando, acaso, te vais,

Quanto me punge e corta o coração enfermo,

Este horrível temor de que não voltes mais!...

 

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EMÍLIO DE MENEZES, o mais famoso poeta satírico brasileiro depois de Gregório de Mattos. Foi também lírico primoroso. Nasceu em Curitiba em 04/07/1867 e faleceu no Rio de Janeiro em 05/06/1918, sem haver tomado posse na Academia Brasileira de Letras, para a qual fora eleito na vaga de Salvador de Mendonça (cadeira nº20, depois ocupada por Humberto de Campos). As peripécias da vida boêmia de Emílio, as suas piadas chistosas, as suas tiradas repentistas, o grupo de amigo com os quais convivia, foram recordados no livro de Raimundo de Menezes – Emílio de Menezes, o último boêmio (1945), já em 3ª edição. Publicou o poeta os seguintes livros de versos: Símbolos, Poemas da Morte, Versos Antigos, e Dies Irae (1909), Últimas Rimas (1917) e Mortalinas ou Os Deuses em Ceroulas (1924). Este último volumes encerra os seus famosos sonetos satíricos.

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UM PERFIL DE CORAGEM II – José Sarney



Um Perfil de Coragem - II 

José Sarney

 

Contei na semana passada a história do grande gesto de coragem cívica do Adauto Lúcio Cardoso ao defender a Lei acima das contingências políticas. Ele foi, sem dúvida nenhuma, um dos grandes brasileiros do século passado. Era de uma retidão absoluta, que não o impediu de fazer política com todas as qualidades - ao contrário do que se costuma dizer para desqualificar a política e os políticos, a política não apenas pode, mas deve ser feita, para ser legítima, com a visão dos valores éticos que pautam a sociedade. Adauto era uma fortaleza moral, impávido, respeitado por toda a Câmara, por todo o Congresso, por todos.

Sua vida política começou com a assinatura do Manifesto dos Mineiros, um dos pontapés que derrubou a ditadura Vargas. Vereador na Capital, não aceitou a decisão do Senado de impedir que a Câmara de Vereadores analisasse os vetos do Prefeito e renunciou a seu mandato. Eleito para a Câmara dos Deputados, logo tornou-se um dos principais membros da Banda de Música da UDN.

Em 1966 foi eleito Presidente da Câmara. Foi a Castelo Branco e pediu o compromisso de que não houvesse cassações: não as aceitaria. Pouco depois da eleição de Costa e Silva, em outubro de 1966, saiu uma lista com a cassação de quatro deputados. Adauto, que estava no Rio, voltou a Brasília e disse que, enquanto ele ali estivesse, deputados não sofreriam restrições de direito. 'Eu poderia lavar as mãos, como Pilatos, mas não lavaria minha consciência.'

O Ministro da Justiça disse que a posição de Adauto de submeter as cassações à análise da Câmara era 'um absurdo inconcebível'. Mas Adauto ficou firme na garantia aos deputados que permaneciam na Casa. Um ato complementar 'considerando [que] entendeu o Senhor Presidente da Câmara?' colocou em recesso o Congresso Nacional. Adauto aguardava em sua sala desde as 4 horas da madrugada. Uma hora depois forças militares invadiram o Congresso. Pôs-se de pé no alto da escada que dá acesso do segundo andar ao plenário da Câmara dos Deputados. Quando o comandante da tropa chegou, ele enfrentou: 'Aqui estou como representante do poder civil.' E o militar contestou: 'Aqui estou como representante do poder militar.' Adauto replicou: 'Então, pela força, entre no Congresso, mas jamais com a minha complacência ou o meu reconhecimento.' Passado o recesso, Adauto renunciou à Presidência da Casa.

Para mostrar a grandeza de outro homem público, o Marechal Castello Branco decidiu, já nos últimos dias de seu governo, ao vagar uma cadeira de ministro do Supremo Tribunal Federal, indo contra todos os 'revolucionários', que estavam com o Adauto engasgado na garganta, convidá-lo para ser ministro da Suprema Corte.

Ali no Supremo, mais uma vez, Adauto iria mostrar quem ele era.

Durante o julgamento, em março de 1971, no Governo do Presidente Médici, da constitucionalidade do decreto-lei 1.077/1970, que estabelecia a obrigatoriedade de censura prévia, inclusive a livros, o Ministro Adauto disse que, como juiz, jamais concordaria com isso. Deu, então, seu voto pela inconstitucionalidade do decreto, afirmando que o livro era intocável, não poderia sujeitar-se a nenhuma censura e que sua publicação deveria ser livre.

Colhidos os votos, Adauto foi vencido e o Supremo aceitou o arquivamento da ação pelo Procurador-Geral da República, o que, na prática, autorizou a censura.

Adauto levantou-se, tirou a toga, enrolou-a, colocou-a sobre sua cadeira e deixou o Supremo Tribunal Federal! Jamais voltou.

Esse era Adauto Lúcio Cardoso.

Ao escrever estes episódios ainda me comovo lembrando sua figura?

Os Divergentes, 30/01/2022

 

https://www.academia.org.br/artigos/um-perfil-de-coragem-ii

José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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domingo, 30 de janeiro de 2022

SONETO DA INFÂNCIA MINHA – Cyro de Mattos



Soneto da Infância Minha

          Cyro de Mattos

 

Os quintais frutíferos. Houve afoito  

Amanhecer, de galho em galho, rosto

 De suor molhado deixando as tardes

Que inventavam mentiras de verdade.

 

 Inúteis, mas importantes. Lonjuras   

Alcançavam as puras aventuras

Bebidas no nascedouro da vida

Com gosto de fruta amadurecida.

 

Tomava banho na lua de prata,

Na rua onde dorme agora, quieta,

A minha turma. A vida não prendesse

         

Meu pássaro, infância minha, não desse

Ponto final nas vagas amorosas,

Onde corri nas horas primorosas.

 

Cyro de Mattos - Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (254)



4º Domingo do Tempo Comum – 30/01/2022

 

Anúncio do Evangelho (Lc 4,21-30)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, estando Jesus na sinagoga, começou a dizer: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”.

Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca. E diziam: “Não é este o filho de José?”

Jesus, porém, disse: “Sem dúvida, vós me repetireis o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum”.

E acrescentou: “Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria.

De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia.

E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio”.

Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Donizete Ferreira, Sacerdote da Comunidade Canção Nova.


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"Abrir passagem" por entre os intolerantes

 


“Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou seu caminho” (Lc 4,30)

 

Continuamos com o tema do domingo passado. A expressão “hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” faz conexão com o relato anterior. “Hoje” se cumpre essa Escritura em cada um de nós; é preciso abrir espaço para que Deus cumpra sua vontade amorosa em nossas vidas; Ele não força nem impõe nada: “que se cumpra”, depende exclusivamente de nós. Somos nós que temos continuamente de nos perguntar: “cumprimos essa Escritura que acabamos de ouvir?”

Até o leitor menos atento ficará surpreso com a dissonância que aparece no relato deste domingo: diante da aprovação e admiração que seus conterrâneos expressam, Jesus responde com repreensões, e a cena se conclui com sentimentos de fúria por parte dos ouvintes na sinagoga, a ponto de terminar em tragédia.

Se estivermos bem atentos ao texto, perceberemos que o motivo do conflito e da fúria dos ouvintes parece claro: embora citando dois grandes profetas de Israel – Elias e Eliseu -, Jesus deu destaque a dois personagens estrangeiros como referência (viúva de Sarepta e Naamã, o sírio), em detrimento dos personagens do próprio povo. Para um judeu piedoso era inadmissível que qualquer pagão recebesse um favor divino, antes de alguém pertencente ao “povo eleito”. 

Elias e Eliseu são exemplos como Deus atua com relação aos não-judeus. Elias atendeu a uma viúva de Sarepta e Eliseu a um general sírio, e isso deixa em evidência a pretensão de salvação exclusiva que os judeus pretendiam, como povo eleito.

O evangelista Lucas quer “quebrar” este argumento contundente; Jesus desmascara a cegueira coletiva e isso provocou a ira de seus vizinhos que se sentiram agredidos.

“Não é este o filho de José?”. A única razão que os membros de seu povo dão para rejeitar as pretensões de Jesus, é que Ele é mais um do povo, conhecido de todos.

No entanto, aqui está a grandeza de Jesus: sendo um entre tantos, foi capaz de descobrir o que Deus esperava dele. Jesus não é um extraterrestre que traz poderes especiais de outro mundo, mas um ser humano que tira das profundezas de seu ser aquilo que Deus já colocou em todas as pessoas. Jesus fala do que encontrou dentro de si mesmo e nos convida a descobrir e viver em nós o mesmo que Ele descobriu e viveu. 

Jesus poderia ter dito muitas coisas aos seus ouvintes, para tranquilizá-los: explicar que Deus não escolhe os seus enviados entre os grandes deste mundo, mas sim entre os pequeninos, a exemplo de Davi, o filho caçula de Jessé. Poderia ter-lhes dito que se tornariam mais imagem de Deus se dedicassem um cuidado especial aos cegos, aos prisioneiros e aos outros deserdados, vítimas do contexto social, político e religioso da época.

No entanto, em lugar de tranquilizá-los, Jesus vai inquietá-los ainda mais. Recorda-lhes, então, que Deus, em tempos de penúria e sofrimento, foi em socorro de estrangeiros, de pagãos, sem qualquer ligação com o povo eleito. Temos aí, em todo caso, o que provocou a indignação dos ouvintes de Jesus. No fundo, o culto a Deus cedeu lugar ao culto ao povo eleito. Este tipo de idolatria não é raro e pode assumir diversas formas: o culto à classe social, à família, à nação, às relações vantajosas, etc.

Tal idolatria chegou ao extremo a ponto de levarem Jesus para fora da cidade, a fim de matá-lo.

É uma antecipação da Páscoa, claro: Hebreus 13,12 destaca que Jesus foi crucificado «fora do acampamento». Mas é este excluído que vai integrar todo o universo com sua presença salvífica. 

Como humanos, todos temos a tendência por estabelecer distância entre o próprio grupo – tribo, parentela, família, povo, religião, nação – e todos os demais grupos. Trata-se, sem dúvida de um movimento de autoafirmação, de busca de segurança e defesa frente o diferente. Se, unido a tudo isso, advertimos que nossas próprias crenças são questionadas, é provável que se despertem sentimentos de agressividade, que não são outra coisa que expressão do próprio medo.

Muitas vezes, o zelo religioso, moral ou político degenera em formas de intolerância e fanatismo.

A intolerância e o fanatismo são uma expressão de atrofia espiritual e que tem graves consequências na vida social e no diálogo inter-religioso. É a incapacidade de aceitar os outros em razão de suas ideias, convicções ou crenças. É uma grave debilidade que torna impossível “viver a cultura do encontro” entre pessoas e grupos humanos que pensam, sentem, creem de maneira diferente.

É profundamente desumanizador quando alguém se fecha na cegueira de suas próprias ideias, crenças, ideologias... Frente a essa tendência ancestral e, com frequência, virulenta, uma atitude madura e compreensiva relativiza muros e fronteiras, reconhece a identidade comum e  torna possível a vivência da alteridade, no respeito e na confiança compartilhadas. 

É o que apreciamos nas pessoas sábias, como se mostra neste caso em Jesus. Sarepta, Síria, Israel:  por que a diferença deveria ser entendida como enfrentamento ou exclusão?

Ao compreender o que somos, se distendem as rigidezes instintivas do ego e a intolerância dos esquemas mentais que se expressam nas relações sociais, no campo da política, da religião... São mecanismos de defesa ativados automaticamente, mas carentes de sentido quando nos situamos na compreensão daquilo que somos, ou seja, humanos. 

É evidente que aquela mesma resistência contra Jesus se reproduz hoje: argumentos batidos e arcaicos são tomados como pretexto para que seja recusada a verdade presente no outro.

Se em todos os aspectos da vida se faz presente a inércia do costume, mais ainda no campo religioso: há um tradicionalismo de manter intocável o que foi recebido, como se nisso perigasse nossa fé. Sempre fazemos o mesmo e não nos paramos para analisar, para introduzir mudanças e avaliá-las.

É necessário superar a inércia da rotina, do de sempre, do estabelecido. Para não entrar em processos esquizofrênicos é preciso, muitas vezes, desaprender o aprendido. Pensemos, repensemos, provemos, inovemos... Não é esnobismo, nem desejos superficiais de mudar por mudar, mas necessidade de questionar aquilo que não convence e nem serve mais, e buscar o que é mais coerente e essencial.  Desconstruir para reconstruir. É um trabalho que é preciso fazer a partir de baixo. Não esperemos que as mudanças venham de cima.

É essa mesma compreensão que nos permite “abrir passagem” e “afastar-nos” dos preconceitos e intolerâncias que nos isolam, nos empobrecem e, em ocasiões extremamente cruéis, desembocam em tragédias. Somente tomando um mínimo de distância de nossos próprios mapas mentais, legalismos, suspeitas... seríamos capazes de rir de nós mesmos diante de tão cegos padrões de pensamento e comportamento; só assim poderemos suavizar nossa rigidez, ampliar horizontes, celebrar e viver a unidade compartilhada em tanta diversidade de maneiras de ser e de viver. 

Texto bíblico:  Lc 4,21-30

Na oração: Aliado ao conformismo e à segurança está o medo da Mudança; fechamo-nos no conhecido por medo do desconhecido. Marcados pela “normose” (normalidade doentia), ficamos encapsulados num quadrado “mofado”, trancafiados por normas parentais, sociais, culturais e religiosas.

- Também na nossa sinagoga interior carregamos intolerâncias, preconceitos, fanatismos... que depois se expressam no julgamento e na indiferença frente aos diferentes.

 

- Quê sinais de intolerância e preconceito percebo em minha vida cotidiana? Quando aparecem?

- Minha relação com Deus é intimista ou me abre a uma presença sadia diante de quem pensa-sente-ama de maneira diferente? Sou presença ecumênica ou carregada de suspeita?


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2496-abrir-passagem-por-entre-os-intolerantes

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sábado, 29 de janeiro de 2022

NA MÃO DE DEUS / A VIRGEM SANTÍSSIMA - Antero do Quental



Na Mão de Deus

Antero do Quental

 

Na mão de Deus, na sua mão direita

Descansou afinal meu coração,

Do palácio encantado da ilusão

Desci a passo e passo a escada estreita.

 

Como as flores mortais, com que se enfeita

A ignorância infantil, despojo vão,

Depus do ideal e da Paixão

A forma transitória e imperfeita.

 

Como criança, em lôbrega jornada,

Que a mãe leva no colo agasalhada

E atravessa, sorrindo vagamente,

 

Selvas, mares, areias do deserto...

Dorme o teu sono, coração liberto,

Dorme na mão de Deus eternamente!

 

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À Virgem Santíssima

 Antero o Quental

 

Num sonho todo feito de incerteza,

De noturna e indizível ansiedade,

É que eu vi teu olhar de piedade

E (mais que piedade) de tristeza...

 

Não era o vulgar brilho da beleza,

Nem o ardor banal da mocidade,

Era outra luz, era outra suavidade,

Que até nem sei se as há na natureza...

 

Um místico sofrer... uma ventura

Feita só de perdão, só de ternura

E da paz da nossa hora derradeira...

 

Ó visão, visão triste e piedosa!

Fita-me assim calada, assim chorosa...

E deixa-me sonhar a vida inteira!

 

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ANTERO DO QUENTAL

 Antero Tarquínio do Quental, poeta filósofo de ideias revolucionárias, espírito combativo e reformador, nasceu em Ponta Delgada em 1842. Doutorou-se em Coimbra. Notabilizou-se por sua participação ativa na luta contra os postulados românticos defendidos por Castilho e seu grupo. sua carta Bom Senso e Bom Gosto, editada em 1865, deu causa à famosa Questão Coimbrã, gerando, em consequência, uma das mais memoráveis polêmicas que houve, até hoje, em Portugal. Aos 18 anos publicou seu livro de Sonetos (1861). Mais tarde editou outra coleção de poesias – Odes Modernas (1865) e a seguir – Primaveras Românticas (1872). Sua obra poética foi posteriormente enfeixada em três volumes. É considerado um dos renovadores da prosa e da poesia portuguesa. Faleceu em 11 de setembro de 1891.

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

O GRAMÁTICO – Artur Azevedo


                                     O Gramático 

Artur Azevedo

 

          Havia na capital de uma das nossas províncias menos adiantadas certa panelinha de gramáticos, sofrivelmente pedantes. Não se agitava questão de sintaxe, para cuja solução não fossem tais senhores imediatamente consultados. Diziam as coisas mais simples e rudimentares num tom pedantesco e dogmático, que não deixava de produzir o seu efeito no espírito das massas boquiabertas.

          Dessa aluvião de grandes homens destacava-se o Dr. Praxedes, que almoçava, merendava, jantava e ceava gramática portuguesa.

          Esse ratão, bacharel formado em Olinda, nos bons tempos, era chefe de seção da Secretaria do Governo, e andava pelas ruas a fazer a análise lógica das tabuletas das lojas e dos cartazes pregados nas esquinas. “Casa do Barateiro – sujeito: esta casa; verbo, é; atributo, a casa; do barateiro, complemento restritivo.” O Dr. Praxedes despedia um criado, se o infeliz, como a soubrette das Femmes Savantes, cometia um erro de prosódia.

          E quando submetia os transeuntes incautos a um exame de regência gramatical?

          Por exemplo: encontrava na rua um menino, e este caía na asneira de perguntar muito naturalmente:

          - Sr. Dr. Praxedes, como tem passado?

          - Venha cá – respondia ele agarrando o pequeno por um botão do casaco: - “Sr. Dr. Praxedes, como tem passado?” Que oração é esta?

          - Mas... é que estou com muita pressa...

          - Diga!

          - É uma oração interrogativa.

         - Sujeito?

         - Sr. Dr. Praxedes.

         - Verbo?

         - Ter.

         - Atributo?

         - Passado.

         - Bom. Pode ir. Lembranças a seu pai.

          E, com uma ideia súbita, parando:

          - Ah! Venha cá! Venha cá! Lembranças a seu pai – que oração é esta?

          - É uma oração... uma oração imperativa.

          - Bravo! Sujeito?

          - Está oculto... é você... Você dê lembranças a seu pai.

          - Muito bem! Verbo?

          - Dar.

          - Atributo?

          - Dador.

          - Lembranças é um complemento...?

          - Objetivo.

          - A seu pai...?

          - Terminativo.

          - Muito bem. Pode ir. Adeus.

 

          Depois de aposentado com trinta anos de serviço, o Dr. Praxedes recolheu-se ao interior da província, escolhendo, para passar o resto dos seus gloriosos dias, a cidadezinha de ***, seu berço natal. Aí advogava por muito empenho, continuando a exercer a sua missão de oráculo em questões gramaticais.

          Raramente saía à rua, pois todo o tempo era pouco para estar em casa, respondendo às numerosas consultas que lhe dirigiam da capital e de outros pontos da província.

          A cidadezinha de *** dava-se ao luxo de uma folha hebdomadária, o “Progresso”, propriedade do Clorindo Barreto, que acumulava as funções de diretor, redator, compositor, revisor, paginador, impressor, distribuidor e cobrador.

          Ninguém se admire disso, porque o Barreto – justiça se lhe faça – dava mais uso à tesoura do que a pena. O vigário, que tinha sempre a sua pilhéria aos domingos, disse um dia que aquilo não era uma tesoura, mas um tesouro.

         Entretanto, se no escritório do “Progresso” a goma-arábica tinha mais extração que a tinta de escrever, não se passava caso de vulto, dentro ou fora da localidade, que não viesse fielmente narrado na folha.

          Por exemplo:

          “O Sr. Major Hilarião Gouveia de Araújo acaba de receber a grata nova de que seu prezado filho, o jovem Tancredo, acaba de concluir os seus preparatórios na Corte, e vai matricular-se na Escola Politécnica da referida corte.

          Cumprimentamos cheios de júbilo o Sr. Major Hilarião, que é um dos mais prestimosos assinantes desde que fundou-se a nossa folha.”

 

          Em fins de maio de 1885, a notícia do falecimento de Victor Hugo, chegou à cidadezinha de ***, levada por um sujeito que saíra da capital justamente na ocasião em que o telégrafo comunicara o infausto acontecimento.

          O Barreto, logo que soube da notícia, coçou a cabeça e murmurou:

          - Diabo! Não tenho jornais... Como hei de descalçar este par de botas? A notícia da morte de Victor Hugo deve ser floreada, bem escrita, e não me sinto com forças para desempenhar semelhante tarefa!

          Todavia, molhou a pena, que se parecia um tanto com a espada de certos generais, e rabiscou: Victor Hugo.

          Ao cabo de duas horas de cogitação, o jornalista não escrevera nem mais uma linha...

 

          Mas, oh! Providência! Nesse momento passou pela porta da tipografia o sábio Dr. Praxedes, a passos largos, medidos e solenes, e uma ideia iluminou o cérebro vazio de Clorindo Barreto.

          - Dr. Praxedes! Dr. Praxedes! – exclamou ele. – Tenha vossa senhoria a bondade de entrar por um momento. Preciso falar-lhe.

          O Dr. Praxedes empacou, voltou-se gravemente e, conquanto embirrasse com o Barreto, por causa de seus constantes solecismos, entrou na tipografia.

          - Que deseja?

          O relator do Progresso referiu a notícia da morte do grande poeta, confessou o vergonhoso embaraço em que se achava, e apelou para as luzes do Dr. Praxedes.

         Esse, com um sorriso de lisonjeado, sorriso que logo desapareceu, curvando-se-lhe os lábios em sentido oposto, sentou-se à mesa com a gravidade de um juiz, tirou os óculos, limpou-os com muito vagar, bifurcou-os no nariz, pediu uma pena nova, experimentou-a na unha do polegar, dispôs sobre a mesa algumas tiras de papel, cujas arestas aparou cuidadosamente com a tesoura, chupou a pena, molhou-a três vezes no tinteiro infecundo, sacudiu-a outras tantas, e, afinal, escreveu:

          “Falecimento. – Consta, por pessoa vinda de ***, ter falecido em Paris, capital da França, o Sr. Victor Hugo, poeta insigne e autor de várias obras de mérito, entre as quais um drama em verso, Mariquinhas Delorme (Marion Delorme) e uma interessante novela intitulada Nossa Senhora de Paris (Notre-Dame de Paris).

          O ilustre finado era conde e viúvo.

          O seu falecimento enluta a literatura da culta Europa.

          Nossos sinceros pêsames à sua estremecida família.”

 

          O Dr. Praxedes saiu da tipografia do “Progresso”, e continuou o seu caminho a passos largos medidos e solenes.

          Ia mais satisfeito e cheio de si do que o próprio Sr. Victor Hugo quando escreveu a última palavra de sua interessante novela.

          O Barreto ficou radiante e, examinando a tira de papel escrita pelo gramático, exclamou, comovido pela admiração:

          - Nem uma emenda!

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Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.

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CHARUTADA: O ESCÂNDALO DOS EMPRÉSTIMOS DO BNDES NA ERA PT