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sexta-feira, 29 de outubro de 2021

O ESCRITOR EFSON LIMA É ELEITO PARA ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS


O escritor Efson Lima [foto] foi eleito, ontem, dia 28/10, para fazer parte da Academia de Letras de Ilhéus (ALI).  O escritor tem 37 anos, é natural de Itapé e aos 11 anos foi morar na cidade de Ilhéus. Atualmente reside em Salvador, onde trabalha. É advogado e professor universitário. Fez sua formação no ensino superior na Universidade Federal da Bahia, sendo bacharel em direito, em 2012, mestre e doutor na sequência.

A Carta indicativa do escritor para a Academia de Letras de Ilhéus teve a assinatura de doze membros da confraria e, na sequência, o documento foi subscrito pelos demais membros do sodalício, alcançando a maioria absoluta.  O professor Efson lima vai suceder o editor Gumercindo Dórea, na cadeira nº 40. O imortal Gumercindo fundou a Editora e editou  pela primeira vez, escritores como Rubem Fonseca, Nélida Piñon e Fausto Cunha, entre outros que figuram na literatura nacional.

O escritor Efson Lima teve uma infância pobre. Em Ilhéus, trabalhou com a mãe na Feira do Malhado.  Morou no Alto do Coqueiro e no Basílio.  Nas redes sociais, o indicado para ALI, disse que o “morro chegava à Academia”. O escritor sempre esteve próximo da área literária. Na Feira do Malhado, antes de enrolar os litros de dendê, que vendia, lia os jornais velhos compulsivamente. Foi um leitor assíduo de A Tarde, Correio da Bahia, Diário de Ilhéus, Agora, Diário do Sul  e A Região.

No Colégio Modelo Luis Eduardo Magalhães participou da fundação do grêmio e liderou o movimento para nomear o Grêmio Estudantil  com o nome do escritor Hélio Pólvora, ainda vivo o escritor. Na UFBA, com outros colegas, liderou o Projeto Conviver, responsável por promover a inclusão literária de jovens na universidade, sendo organizador de seis livros. É autor do livro “Textos Particulares”. Tem inúmeros poemas publicados em diversas Antologias. Coordena o Projeto Bardos Baianos no Litoral Sul e é um dos criadores do Festival Literário do Sul da Bahia (FLISBA). É coordenador de assistência técnica e inclusão socioprodutiva na SETRE, no Estado da Bahia, sendo responsável pelos 15 Centros Públicos de Economia Solidária (CESOLs) na Bahia. Na Faculdade 2 de Julho foi coordenador de Pós-graduação, Pesquisa e Extensão, entre 2015/2021, criando diversos cursos de extensão e pós na área da cultura e da comunicação.

A Academia de Letras de Ilhéus foi fundada em 1959. É a mais tradicional do interior do Estado da Bahia. Foi fundada no auge da lavoura do cacau e teve participação efetiva de Abel Pereira, Nelson Schaun. Da Confraria fizeram parte escritores famosos, como: Jorge Amado, Adonias Filho, Jorge Medauar, Milton Santos, Sosígenes Costa e de juristas como Orlando Gomes. O mais novo imortal vai estar entre os escritores contemporâneos: Aleilton Fonseca, Cyro de Mattos, Ruy Póvoas, Luh Oliveira, Pawlo Cidade, Vercil Rodrigues, Jane Hilda Badaró, Geraldo Lavigne de Lemos e Neuza Maria Kerner. Ele também vai se encontrar com seus mestres: Arléo Barbosa, Edvaldo Brito e Ramayana Vargens. Agora, o escritor vai pertencer a Casa de Abel, como é chamada a Academia de Letras de Ilhéus.


ASCOM SUL ascomsul@yahoo.com

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quarta-feira, 27 de outubro de 2021

NOSSO AMIGO LIVRO – Cyro de Mattos


 

Nosso Amigo Livro

 Cyro de Mattos

 

          O livro é esse amigo que nos acompanha há séculos, possibilitando o crescimento interior. Conhecemos outras vozes do mundo com esse amigo. Inauguramos a vida com novos olhares, superamos vícios e medos. Sabemos de casos que divertem, viajamos por longes nunca conhecidos. Damos voo à razão através da linguagem que usa para cada tipo de leitor. Um de seus milagres consiste em tornar leve todo o peso terrestre feito de solidões, angústias e perdas. Sua amizade não trilha os caminhos do interesse, transpira sinceridade. Com ele aprendemos que só talento não basta para quem quiser se tornar um filósofo, cientista ou poeta. É necessário o hábito da leitura. Esse amigo está pronto para dizer que, vivendo na sua companhia, a vida fica mais fácil. Matamos até a morte. 

          Gosta de se mostrar nas livrarias. O lugar mais digno para acomodá-lo em nossa casa é a biblioteca. Quem não tem poder aquisitivo para adquiri-lo, pode achá-lo em uma   biblioteca pública. Lá está nas prateleiras o amigo solidário, esperando nossa visita para uma conversa útil. Mostra muitas coisas numa cumplicidade que informa, dá prazer, encanta. Faz aparecer paisagens impossíveis, que vão entrando na medida em que uma página puxa a outra.

          Livro xilografado, impresso com pranchas de madeira gravadas. Em rolos de papiro e também de pergaminho, no Egito. Nas telas de seda da China. Recolhido em manuscritos, no trabalho paciente e anônimo dos bibliotecários de Alexandria. Livro da sabedoria, do Antigo Testamento. Filosófico, científico e literário. Repositório do pensamento humano, dos povos para os povos, de geração em geração, com seus rumores milenares.

          Vem contribuindo para que o mundo mantenha portas e janelas abertas, o sol acenda manhãs, o vento sopre momentos que somam. Das formas primitivas às técnicas de editoração moderna, com esse amigo, como o braço ao abraço, os seres humanos aprendem que os dias de exercitar a existência e conhecer o outro ficam menos falhos. 

          O padre Antônio Vieira disse certa vez que “o livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que via, um morto que vive.”  Acho que a fala da nossa maior figura da oratória sacra combina com o que eu li num para-choque de caminhão: “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê.”  Verdade. Hoje, na minha terceira idade, reli O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry, a seguir O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Saí depois para a vida rejuvenescido.

          De cabeceira ou de bolso, o livro é esse fiel amigo por vias e arredios, capaz de dizer silêncios por meio dos sinais visíveis da escrita.  

          Fiquei certa vez abatido por conta da afeição que nutro por esse amigo. Quando morei na fazenda São Bernardo, nas imediações de Ferradas, chão onde nasceu Jorge Amado, o  romancista do mundo, e o poeta Telmo Padilha,  os   livros que trouxe do Rio de Janeiro ficaram encaixotados até que pudesse comprar uma estante digna de recebê-los. E, numa noite sem estrelas, a chuva caiu pesada na terra centenária.  O telhado velho da pequena casa não suportou o volume da água que corria por entre as calhas.  Em pouco tempo, poças d’água formaram-se em vários cantos da casa por causa das goteiras.

          No outro dia, encontrei molhados os caixões que guardavam velhos amigos. Lembro que apressado fui retirando do primeiro caixão Além dos Marimbus, de Herberto Sales, Uma Vida em Segredo, de Autran Dourado, Poesias, de Manuel Bandeira, O Salto do Cavalo Cobridor, de Assis Brasil, Fábulas, de La Fontaine, Dom Quixote, de Cervantes, Timeless Stories for Today and Tomorrow, de Ray Bradbury, Hamlet, de Faulkner, The Grass Harp, de Truman Capote, A Metamorfose, de Kafka, O Muro, de Sartre, e A Moveable Feast, de Ernest Hemingway. Foram os livros mais atingidos pela chuva, que  caíra  naquela noite cortada por relâmpago e trovoada. Páginas manchadas, letras borradas, capas danificadas. Ainda tentei salvá-los, espalhando-os abertos no passeio para que fossem aquecidos pelos raios de um sol tímido.

          Aqueles livros haviam sido adquiridos com o dinheiro da mesada que o pai mandava para o moço do interior na Capital, onde cursava a Faculdade de Direito. Outros foram comprados nos meus anos de jornalista no Rio de Janeiro. Meu coração sentia um tremor quando descobria um desses amigos na vitrina, balcão ou prateleira de livraria, acenando-me para que fosse adquiri-lo. 

          À noite peguei no sono como um herói inútil. Acordei deprimido no outro dia. Aqueles que não consegui salvar tinham me ofertado ricos momentos de leitura, horas de sonho e palavras de amor varando as madrugadas. Madrugadas do homem solitário, que, no silêncio da noite, lograva extrair sentidos da vida com aqueles companheiros especiais. Jamais esqueci isso.  

          De uns tempos para cá, a incorporação dos meios eletrônicos na sociedade fez com que o livro mudasse o suporte.  A versão digital de um livro impresso é o livro eletrônico. É adquirido por meio de download para ser lido no monitor do seu micro e impresso na sua impressora. Entre as vantagens dessa migração do livro, você pode ter uma biblioteca no seu micro. Usar o dicionário em instantes durante a leitura. Encontrar trechos com rapidez de segundos.

          Por motivos alheios à sua vontade, em caso de uma pane no circuito de energia elétrica, você pode perder sua biblioteca digitalizada no abrir e fechar do olho. Uma pena.

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*Cyro de Mattos é escritor e poeta. Autor de mais de 50 livros pessoais, de diversos gêneros. Editado também no exterior. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México

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JUVENTUDE E MUDANÇA - Luiz Fernando Conde Sangenis

Juventude e Mudança


Diz um provérbio africano: “Muita gente pequena, em muitos lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, mudarão a face da Terra”.

A juventude é sensível para compreender e aderir a ideias e ações aparentemente simples. São as pequenas mudanças que podem gerar grandes transformações.

A convocação da juventude para assumir causas nobres, passíveis de serem alcançadas e que produzam impacto na vida da comunidade tem alto potencial educativo. Evitar o desperdício de água, separar lixo para reciclagem, doar roupas, brinquedos e objetos em bom estado, cuidar de animais abandonados, denunciar injustiças e desrespeitos às leis, votar conscientemente, colocar seus dons a serviço dos pobres são algumas das muitas sugestões possíveis.


Luiz Fernando Conde Sangenis  ( lfsangenis@uol.com.br )                                                                                              

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domingo, 24 de outubro de 2021

PALAVRA DA SALVAÇÃO (244)


30º Domingo do Tempo Comum – 24/10/2021

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos (Marcos 10, 46-52)


 Naquele tempo, Jesus saiu de Jericó junto com seus discípulos e uma grande multidão. O filho de Timeu, Bartimeu, cego e mendigo, estava sentado à beira do caminho.

 Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” 

Muitos o repreendiam para que se calasse. Mas ele gritava mais ainda: “Filho de Davi, tem piedade de mim!

 Então Jesus parou e disse: “Chamai-o”. Eles o chamaram e disseram: “Coragem, levanta- te, Jesus te chama!” 

O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus. Então Jesus lhe perguntou: “O que queres que eu te faça?” O cego respondeu: “Mestre, que eu veja!” Jesus disse: “Vai, a tua fé te curou”. No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho.

 – Palavra da salvação.

- Glória a Vós, Senhor!

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Ligue o vídeo abaixo, e acompanhe a reflexão do Padre Adriano Zandoná:


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 COMPAIXÃO E ESPERANÇA

  


Não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos” (At 4,20) é a inspiração bíblica escolhida para este Dia Mundial das Missões. O novo contexto da pandemia, que se estende de forma prolongada, evidenciou e ampliou o sofrimento, a solidão, a pobreza e as injustiças que tantos já padeciam. Desmascarou nossas falsas seguranças e desnudou nossa fragilidade humana.

Na mensagem do papa Francisco para este dia, destacamos: “No contexto atual, há urgente necessidade de missionários da esperança que, ungidos pelo Senhor, sejam capazes de lembrar profeticamente que ninguém se salva sozinho. Hoje, Jesus precisa de corações capazes de viver a vocação como uma verdadeira história de amor, impulsionados a sair para as periferias do mundo como mensageiros e instrumentos de compaixão”.

Jesus, modelo de missionário da compaixão e da esperança, convida-nos a não ficar indiferentes ao sofrimento e à dor de tantas pessoas atingidas pelas consequências da pandemia e da marginalização. Ao cego Bartimeu, Jesus perguntou: “O que queres que eu te faça?” Hoje, faz-se necessário repetir a mesma pergunta aos que estão à beira do caminho. São os mais pobres e vulneráveis deste contexto pandêmico que nos interpelam à compaixão.

Na animação da campanha missionária deste ano, evidenciamos o testemunho de missionários e missionárias da compaixão e da esperança. São pessoas anônimas que se postaram na linha de frente no combate da pandemia: profissionais da saúde, famílias enlutadas com testemunho de esperança, educadores e tantos agentes de pastoral que não ficaram indiferentes aos gritos por compaixão.

Que São Francisco Xavier e Santa Teresinha, padroeiros das missões, nos inspirem a sermos missionários e missionárias da compaixão e da esperança.


Pe. Maurício da Silva Jardim
Diretor das Pontifícias Obras Missionárias no Brasil

 

https://www.paulus.com.br/portal/o-domingo-palavra/compaixao-e-esperanca

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sábado, 23 de outubro de 2021

SONETO DO MOMENTO MÁGICO - Cyro de Mattos

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Soneto do Momento Mágico 
Cyro de Mattos



Se tudo é logro, sonhar é sabê-lo
em momento mágico do existir. 
Se buscar bem a razão do existir, 
termina por encontrar não o selo

 que põe um fim aos problemas da vida, 
mas o encantamento, inexplicável, da
poesia. A linguagem é a casa 
do ser, a poesia mora na asa. 

Com a beleza inspirada pelo sonho
 e a palavra emprestada pelo sonho,
 o ser apresenta-se com as vestes da 

vida e da morte, e se repete. Nada 
fica nos anos, como o vento passamos. 
Na solidão desse verso sonhamos.

  

Cyro de Mattos - Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

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sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Entrevista com Luiz Philippe de Orleans e Bragança sobre o lançamento da...

O ALIENISTA CAP. X – Machado de Assis


A Restauração


      Dentro de cinco dias, o alienista meteu na Casa Verde cerca de cinquenta aclamadores do novo governo. O povo indignou-se. O governo, atarantado, não sabia reagir. João Pina, outro barbeiro, dizia abertamente nas ruas, que o Porfírio estava "vendido ao ouro de Simão Bacamarte", frase que congregou em torno de João Pina a gente mais resoluta da vila. Porfírio, vendo o antigo rival da navalha à testa da insurreição, compreendeu que a sua perda era irremediável, se não desse um grande golpe; expediu dois decretos, um abolindo a Casa Verde, outro desterrando o alienista. João Pina mostrou claramente, com grandes frases, que o ato de Porfírio era um simples aparato, um engodo, em que o povo não devia crer. Duas horas depois caía Porfírio! ignominiosamente e João Pina assumia a difícil tarefa do governo. Como achasse nas gavetas as minutas da proclamação, da exposição ao vice-rei e de outros atos inaugurais do governo anterior, deu-se pressa em os fazer copiar e expedir; acrescentam os cronistas, e aliás subentende-se, que ele lhes mudou os nomes, e onde o outro barbeiro falara de uma Câmara corrupta, falou este de "um intruso eivado das más doutrinas francesas e contrário aos sacrossantos interesses de Sua Majestade", etc.

     Nisto entrou na vila uma força mandada pelo vice-rei, e restabeleceu a ordem. O alienista exigiu desde logo a entrega do barbeiro Porfírio e bem assim a de uns cinquenta e tantos indivíduos, que declarou mentecaptos; e não só lhe deram esses como afiançaram entregar-lhe mais dezenove sequazes do barbeiro, que convalesciam das feridas apanhadas na primeira rebelião.

          Este ponto da crise de Itaguaí marca também o grau máximo da influência de Simão Bacamarte. Tudo quanto quis, deu-se-lhe; e uma das mais vivas provas do poder do ilustre médico achamo-la na prontidão com que os vereadores, restituídos a seus lugares, consentiram em que Sebastião Freitas também fosse recolhido ao hospício. O alienista, sabendo da extraordinária inconsistência das opiniões desse vereador, entendeu que era um caso patológico, e pediu-o. A mesma coisa aconteceu ao boticário. O alienista, desde que lhe falaram da momentânea adesão de Crispim Soares à rebelião dos Canjicas, comparou-a à aprovação que sempre recebera dele, ainda na véspera, e mandou capturá-lo. Crispim Soares não negou o fato, mas explicou-o dizendo que cedera a um movimento de terror, ao ver a rebelião triunfante, e deu como prova a ausência de nenhum outro ato seu, acrescentando que voltara logo à cama, doente. Simão Bacamarte não o contrariou; disse, porém, aos circunstantes que o terror também é pai da loucura, e que o caso de Crispim Soares lhe parecia dos mais caracterizados.

          Mas a prova mais evidente da influência de Simão Bacamarte foi a docilidade com que a Câmara lhe entregou o próprio presidente. Este digno magistrado tinha declarado, em plena sessão, que não se contentava, para lavá-la da afronta dos Canjicas, com menos de trinta almudes de sangue; palavra que chegou aos ouvidos do alienista por boca do secretário da Câmara, entusiasmado de tamanha energia. Simão Bacamarte começou por meter o secretário na Casa Verde, e foi dali à Câmara, à qual declarou que o presidente estava padecendo da "demência dos touros", um gênero que ele pretendia estudar, com grande vantagem para os povos. A Câmara a princípio hesitou, mas acabou cedendo.

          Daí em diante foi uma coleta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo, ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo metido na Casa Verde. Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé enfunado, ninguém escapava aos emissários do alienista. Ele respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural e as segundas a um vício. Se um homem era avaro ou pródigo, ia do mesmo modo para a Casa Verde; daí a alegação de que não havia regra para a completa sanidade mental. Alguns cronistas creem que Simão Bacamarte nem sempre procedia com lisura, e citam em abono da afirmação (que não sei se pode ser aceita) o fato de ter alcançado da Câmara uma postura autorizando o uso de um anel de prata no dedo polegar da mão esquerda, a toda a pessoa que, sem outra prova documental ou tradicional, declarasse ter nas veias duas ou três onças de sangue godo. Dizem esses cronistas que o fim secreto da insinuação à Câmara foi enriquecer um ourives, amigo e compadre dele; mas, conquanto seja certo que o ourives viu prosperar o negócio depois da nova ordenação municipal, não o é menos que essa postura deu à Casa Verde uma multidão de inquilinos; pelo que, não se pode definir, sem temeridade, o verdadeiro fim do ilustre médico. Quanto à razão determinativa da captura e aposentação na Casa Verde de todos quantos usaram do anel, é um dos pontos mais obscuros da história de Itaguaí; a opinião mais verossímil é que eles foram recolhidos por andarem a gesticular, à toa, nas ruas, em casa, na igreja. Ninguém ignora que os doidos gesticulam muito. Em todo caso, é uma simples conjetura; de positivo, nada há.

          — Onde é que este homem vai parar? diziam os principais da terra. Ah! se nós tivéssemos apoiado os Canjicas... 

         Um dia de manhã — dia em que a Câmara devia dar um grande baile, — a vila inteira ficou abalada com a notícia de que a própria esposa do alienista fora metida na Casa Verde. Ninguém acreditou; devia ser invenção de algum gaiato. E não era: era a verdade pura. Dona Evarista fora recolhida às duas horas da noite. O Padre Lopes correu ao alienista e interrogou-o discretamente acerca do fato.

          —Já há algum tempo que eu desconfiava, disse gravemente o marido. A modéstia com que ela vivera em ambos os matrimônios não podia conciliar-se com o furor das sedas, veludos, rendas e pedras preciosas que manifestou, logo que voltou do Rio de Janeiro. Desde então comecei a observá-la. Suas conversas eram todas sobre esses objetos; se eu lhe falava das antigas cortes, inquiria logo da forma dos vestidos das damas; se uma senhora a visitava na minha ausência, antes de me dizer o objeto da visita, descrevia-me o trajo, aprovando umas coisas e censurando outras. Um dia, creio que Vossa Reverendíssima há de lembrar-se, propôs-se a fazer anualmente um vestido para a imagem de Nossa Senhora da Matriz. Tudo isto eram sintomas graves; esta noite, porém, declarou-se a total demência. Tinha escolhido, preparado, enfeitado o vestuário que levaria ao baile da Câmara Municipal; só hesitava entre um colar de granada e outro de safira. Anteontem perguntou-me qual deles levaria; respondi-lhe que um ou outro lhe ficava bem. Ontem repetiu a pergunta ao almoço; pouco depois de jantar fui achá-la calada e pensativa. — Que tem? perguntei-lhe. — Queria levar o colar de granada, mas acho o de safira tão bonito! — Pois leve o de safira. —  Ah! mas onde fica o de granada? — Enfim, passou a tarde sem novidade. Ceamos, e deitamo-nos. Alta noite, seria hora e meia, acordo e não a vejo; levanto-me, vou ao quarto de vestir, acho-a diante dos dois colares, ensaiando-os ao espelho, ora um, ora outro. Era evidente a demência; recolhi-a logo.

          O Padre Lopes não se satisfez com a resposta, mas não objetou nada. O alienista, porém, percebeu e explicou-lhe que o caso de D. Evarista era de "mania sumptuaria", não incurável, e em todo caso digno de estudo.

          — Conto pô-la boa dentro de seis semanas, concluiu ele.

          E a abnegação do ilustre médico deu-lhe grande realce. Conjeturas, invenções, desconfianças, tudo caiu por terra desde que ele não duvidou recolher à Casa Verde a própria mulher, a quem amava com todas as forças da alma. Ninguém mais tinha o direito de resistir-lhe — menos ainda o de atribuir-lhe intuitos alheios à ciência.

          Era um grande homem austero, Hipócrates forrado de Catão.

 

Fonte: 

MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

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Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras.

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