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quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O INESQUECÍVEL IRMÃO ODILON - Arnaldo Niskier


Tive na vida irmãos (três) maravilhosos, o Sylvio, o Odilon e o Júlio. Todos mais velhos, que nasceram ainda na Polônia, mas cedo vieram para o Brasil, ajudando os meus pais nas tarefas de educação dos irmãos mais moços, o Arnaldo e a Rachel. Não os decepcionei, fazendo do estudo a razão de ser da minha vida.

O último dos três irmãos, já na idade de 94 anos, faleceu vítima da Covid-19. Senti muito a sua falta e, apesar de todas as restrições sanitárias, compareci à cerimônia de inauguração da sua sepultura, no Cemitério Israelita de Vilar dos Teles. Foi muito feliz a frase cunhada pelas suas três filhas: 'Por onde andou, soou o diálogo, a arte e a cultura.' Síntese admirável do que foi a sua vida, como profissional do Direito e como exemplar funcionário do Banco do Brasil.

No dia da cerimônia, o rabino pediu que a gente dirigisse algumas palavras aos presentes. Não podia recusar. Aproveitei para lembrar de uma das visitas feitas ao Estado de Israel, quando conheci a minha tia-avó, Mime Reisel, que tinha a cara da Golda Meir. Ela me disse uma frase inesquecível: 'Você, da nova geração, deve sempre se lembrar de que a nossa família descende diretamente do rei Davi.' Existe honra maior? E um compromisso comportamental, do qual não podemos dissociar.

Foi o que falei, no subúrbio carioca, recordando de onde viemos. E ao mesmo tempo prometendo ações que estejam sempre coerentes com essa formação. É a hora em que não importam a riqueza nem os bens materiais.

Odilon foi um líder sindical de proeminência. Graças aos seus contatos no jornalismo, especialmente na recém-lançada 'Ultima Hora', pude arranjar uma vaga de repórter no jornal de Samuel Wainer, valendo-me dos seus conhecimentos. Passei a ser repórter-esportivo, fazendo a crônica dos jogos de domingo, dentro e fora do Maracanã. Assim fiz carreira, mas nunca esqueci de agradecer ao mano querido pela providencial apresentação. E retribuí como pude, depois apresentando o doce Odilon ao João Pinheiro Neto, meu amigo da Manchete, quando foi designado ministro do Trabalho pelo presidente João Goulart. Assim ele chegou ao topo da carreira de advogado do Banco do Brasil, graças à nossa interferência. Só se faz isso por quem verdadeiramente merece.

Jornal Dois Estados, 05/08/2021

 https://www.academia.org.br/artigos/o-inesquecivel-irmao-odilon

 

Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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segunda-feira, 9 de agosto de 2021

FIDELCASTRISMO SEM FIDEL CASTRO – Plinio Corrêa de Oliveira

 


A polícia cubana reprime as manifestações contra a ditadura, em Havana no dia 13 de julho último

 

Plinio Corrêa de Oliveira

 

Segundo relatório que a Comissão Especial sobre Cuba apresentou à Associação Interamericana de Imprensa, reunida [em 1969] em Washington, Fidel Castro, premido por insucessos econômicos e diplomáticos de várias ordens, cogitou — para continuar no poder — mudar sua política em relação à América latina, propondo a esta um regime de coexistência pacífica.

Segundo aviso dado pela irmã de Fidel, Juanita Castro, à referida Comissão, o comunismo cubano, apoiado em “manobras de alguns setores norte-americanos e latino-americanos” empenhados em impedir ou pelo menos retardar a libertação do povo cubano do marxismo, pensaria até mesmo, para aliviar a situação, em derrubar o periclitante ditador, substituindo-o por algum outro líder vermelho.

Como é fácil ver, essa mudança propiciaria, fora de Cuba, a impressão de que o comunismo já não é tão feroz na Ilha. Essa impressão, por sua vez, criaria um clima favorável à coexistência. E a coexistência, afrouxando as tensões que estrangulam o comunismo cubano, proporcionaria a este uma sobrevida.

Assim, com Castro ou sem Castro, é para a coexistência, forçosamente velhaca e dolosa, que caminharia a Cuba vermelha.

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(Excertos do artigo de Plinio Corrêa de Oliveira na “Folha de S. Paulo”, em 9-11-1969)

https://www.abim.inf.br/fidelcastrismo-sem-fidel-castro/

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O GRAPIÚNA JORGE AMADO – Cyro de Mattos


           O Grapiúna Jorge Amado

Cyro de Mattos

 

             Em O Menino grapiúna (1981), pequeno livro de memórias, Jorge Amado destaca:

             Desbravador de terras, meu pai erguera sua casa mais além de Ferradas, povoado do jovem município de Itabuna, plantara cacau, a riqueza do mundo. Na época das grandes lutas.

             Mais adiante afirma:

           “Eu nasci em agosto de 1912 naquela mesma roça de cacau, de nome Auricídia”.

                        Nascera em 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, em Ferradas, um povoado do jovem município de Itabuna, que aparece com o seu comércio ativo no romance Terras de sem fim como um dos domínios do coronel Horácio. Neste romance, no capítulo Gestação de Cidades, quando se refere a Tabocas, Jorge Amado conta que o povoado pertencia ao município de São Jorge dos Ilhéus.

            Mas já muita gente quando escrevia cartas, não as datava mais de Tabocas e, sim, de Itabuna. E quando perguntavam a um morador dali, que estivesse de passeio em Ilhéus, de onde ele era, o homem respondia cheio de orgulho:

            - Sou de Itabuna

            Antigos fazendeiros, sobreviventes da fase heroica da conquista da terra, como Maneca Dantas e o coronel Horácio, personagens de Terras do sem fim, voltam no romance São Jorge dos Ilhéus a receber a empatia do ficcionista humaníssimo que é Jorge Amado. A figuração do Coronel Horácio já velho, quase cego, solitário, no meio dos cacaueiros, que plantara com muito sacrifício, alcança rica significação no romance.

            A recriação literária da civilização do cacau na Bahia tem sequência em Jorge Amado com o pequeno romance A descoberta da América pelos turcos ou de como o árabe Jamil Bichara, desbravador de florestas, de visita à cidade de Itabuna para dar abasto ao corpo, ali lhe ofereceram fortuna e casamento ou ainda os esponsais de Adma. Neste romance publicado em 1994, Jorge Amado volta a apresentar as marcas inconfundíveis de sua arte: fluência na escrita, facilidade de fabular e gozo pela vida. Recorre ao riso para contar a saga de sírios e libaneses no Sul da Bahia quando tinha início o plantio das roças de cacau e a construção de casas em vilarejos e pequenas cidades.

             Situações engraçadas predominam em A descoberta da América pelos turcos, romancinho armado com desventura e premonição de felicidade em seus episódios extraídos da vida real. Passagens com humor árabe acontecem na pequena cidade de Itabuna, agora aparecendo pela primeira vez com destaque na saga da civilização cacaueira baiana, definido como um dos filões ricos da novelística amadiana. Com o seu comercinho novo, o burburinho na estação do trem, igreja e capela. Hotel dos Lordes, cabarés, botequins, pensões de prostituta, fuxicaria na política, desmando dos jagunços armados, tropas carregadas de cacau nas ruas. A recente cidade de Itabuna como um burgo de penetração exibe-se sem retoques e ilusionismo, marca sua presença num cenário divertido da vidinha movimentada e turbulenta.

            Traduzido em mais de 40 idiomas, Jorge Amado é o escritor brasileiro que mais dá voz aos excluídos, os marginalizados pelo sistema organizado.  Sua prosa é prazerosa, sua mensagem de liberdade está expressa com a esperança na escrita irreverente, que faz pensar e, a um só tempo, rir. Esse grapiúna Jorge Amado, que nasceu numa fazenda de cacau, no Sul da Bahia, para se tornar um dos mais criativos contadores de histórias no mundo.

            Faleceu aos 6 de agosto de 2001, em Salvador.

 

 


Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Autor muitas vezes premiado, publicado também no estrangeiro. É membro das Academias de Letras da Bahia, Ilhéus e Itabuna. Na Academia de Letras de Itabuna ocupa a cadeira 6, que tem como patrono Jorge Amado.

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terça-feira, 3 de agosto de 2021

O INVENCÍVEL BATE-ESTACAS? - Ignácio de Loyola Brandão


Meu pai ao voltar do escritório comunicou: 'Este mês vocês irão comigo para São Paulo'. De tempos em tempos ele participava na capital de uma reunião com chefes de Contadoria das ferrovias brasileiras. O aviso era recebido com alvoroço por mim e meu irmão Luis Gonzaga. Aquela era uma viagem encantada. Só quem nasceu no interior viveu a experiência arrepiante de chegar de trem na Estação da Luz, passando por baixo da rede de fios elétricos de uma super aranha acima de nossas cabeças. Havia a expectativa na capital de outra viagem dentro da viagem. Pegar o bonde Penha-Lapa, ida e volta, o que nos ocupava meia-tarde atravessando a cidade.

As reuniões dos chefes eram na Estação da Sorocabana, e Luis e eu ficávamos em um jardim interno à espera até o final, quando meu pai nos apanhava para almoçar no Hotel das Bandeiras, ou do Giuseppino, na Rua da Conceição. O prediozinho foi sacrificado pelo metrô. Ah, aquele jardim hoje é a Sala São Paulo. No restaurante, sentávamos e começava o desfile de travessinhas, uma com ovo, outras com bife, linguiça, abobrinha, berinjela, jiló, chuchu, ervilhas, couve, saladinha, arroz, feijão, macarrão. Também visitaríamos a Catedral da Sé em construção, e eu achava inacreditável ver um bonde que entrava na igreja com material de construção.

Maravilha das maravilhas sempre foi o anúncio luminoso de um café (seria o Paraventi?), em cima do prédio da Light, vizinho ao Mappin. Em uma animação (pensem, eram os anos 1940), o bule se inclinava e derramava o líquido na xícara. Para mim, havia um mistério. Por que as lojas mantinham luzes acesas durante o dia? No interior, luzes só eram acesas depois de seis da tarde. Isso significava o que era para mim a cidade grande, luzes acesas durante o dia.

Mas São Paulo era a cidade dos prédios, dos arranha-céus. Araraquara não tinha ainda nenhum. Meu pai, Luis e eu nos instalávamos na calçada, do outro lado da rua, a contemplar elevadores de madeira periclitantes que subiam e desciam, levando carrinhos com pedras, concreto, cal, tijolos. Víamos pedreiros se equilibrando nos andaimes sem nenhum medo. Homens dos ares, dizíamos arrepiados. Os prédios subiam lentos, muitas vezes ao voltarmos, meses depois, eles tinham crescido pouco. Para tudo há um ritmo, dizia seu Totó, não adianta ter pressa ou o prédio cai. Não existiam ainda os caminhões de concreto com betoneiras girando, girando. Assim se constrói uma grande cidade, murmurava meu pai, aquilo era progresso.

Em 1957 vim morar aqui. Os prédios subiam velozes. O encantamento continuava, havia cinemas, teatros, livrarias, eu trabalhava em jornal, tinha um único medo, ser demitido, mas se você perdia a vaga, em uma semana estava empregado de novo. Agora, não tenho mais medo de demissões, me demiti, aposentei, e trabalho mais do que antes. Continuei fascinado pelas construções, cada vez mais velozes. Um dia era um buraco, vinha o bate-estacas ruidoso, pram, bum, tcham, tchum, logo anunciavam o apartamento decorado, abriam o showroom. Piscou um dia, no dia seguinte edifício pronto. Passei por muitas fases da história da construção. Agora chegamos aos tempos de aceleração total. Um tapume, um buraco, um andar hoje, outro amanhã, no final da semana tem mais não sei quantos caminhões de todos os tipos. Concreteiras mandam o cimento armado por tubos a alturas inacreditáveis.

Porém, há um mistério indecifrável. Pensem bem. Vejam se não tenho razão. A revolução industrial avançou, veio a tecnologia de ponta, a informática, o celular, o computador, os robôs, a descoberta do DNA, implantes substituem as dentaduras, transplantamse corações, fígados, rins, um dia transplantarão almas. O homem foi à lua, a Marte, os trens (europeus, claro) correm a 500 por hora, usa-se a energia solar, criaram-se os games, a internet, o Twitter, a revolução digital, as fake news, os caminhões gigantescos, os treminhões, o radar, o laser, a corrupção.

No entanto, quem me explica, esclarece, justifica, encontra uma única razão para a existência dos bateestacas ruidosos como tiros de canhão que continuam a nos atormentar desde 7 da manhã? A cada pancada, vibram os edifícios todos em volta. Há silenciadores de armas, mas não se criou um para o bate-estacas. De Newton a Darwin, de Niels Bohr a Pauling, de Einstein a Fleming a Osvaldo Cruz, de Madame Curie e Steve Jobs, de Salk a Mendel, sempre tivemos pessoas querendo o bem-estar da humanidade. Mas nenhum se colocou frente a esse tormento primitivo, rompedor de tímpanos e mentes. Mistérios.

Só quem nasceu no interior viveu a experiência arrepiante de chegar de trem na Estação da Luz.

O Estado de S. Paulo, 30/07/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/o-invencivel-bate-estacas

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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domingo, 1 de agosto de 2021

AS MENINAS DO CORONEL DE ARAMIS RIBEIRO COSTA



Passei três semanas na agradável e prazerosa companhia de Ernestina, Ludmila, Fabíola e Milceia, as filhas do coronel Mendonça que vieram me visitar. Com elas, conheci o músico Conrado, o major Silveira, o doutor Lustosa, Bibiana, Didá, seu filho João Rafael, Claudionor, Marcelino, o doutor Ariano Condé, Ziraldo Conceição e algumas outras figuras bastante interessantes. Pessoas simples e comuns que nos levam a refletir sobre nossas visões de mundo, nossos medos, nossos preconceitos, nossas paixões desencontradas, nossos desejos e sonhos postergados, realizados, irrealizados ou por se realizar.

As meninas do Coronel me levaram a cruzar a fronteira do tempo e passear pelas ruas tranquilas de uma Salvador ainda pacata, mas já com ares metropolitanos e suas mazelas. Revivi o tempo em que, ainda estudante de Letras, morei na casa de minha irmã Maria José Freire na Ribeira e andava despreocupadamente pela península itapagipana, já que elas eram minhas vizinhas. Foi um belo retorno ao tempo da delicadeza que tanto nos falta nos dias de hoje. Com elas, viajei mais um pouco para trás, para a década de 50, e fizemos ‘footing’ na elegante rua Chile e suas lojas chic. Com Conrado, andei de bonde da Ribeira à Praça Cayru, tomamos o Elevador Lacerda e saboreamos deliciosos sorvetes na Cubana. Depois seguimos para vê-lo tocar com sua orquestra no Palace Hotel, no Tabaris Night Club (onde hoje se localiza o Teatro Gregório de Matos), no Hotel da Bahia e no Clube Baiano de Tênis.

Todas essas experiências e emoções – com direito a um variado fundo musical, parte de uma trilha sonora que se gestava naquela época em bailes dançantes e emissoras de rádio que lançavam novos ritmos e modas como o rock e a bossa-nova – me foram proporcionadas pelo livro “As meninas do coronel”, terceiro romance do excelente escritor Aramis Ribeiro. Sua narrativa nos puxa pelo braço e ganha nossa atenção do começo ao fim através de uma técnica bastante sedutora que cria um grande suspense em relação ao desenrolar dos fatos e faz com que atravessemos tranquilamente suas mais de seiscentas páginas, sempre com gosto de quero mais. E é esta a sensação que sentimos ao final, uma vontade de continuar em companhia desses personagens demasiado humanos que o autor nos apresenta de forma magistral.

Aramis Ribeiro faz parte do rol de grandes escritores contemporâneos, com 28 livros publicados, e que merece maior divulgação, principalmente aqui na Bahia, sua terra de origem. Depois de ter comentado aqui no FB sobre o impacto que seu livro de contos “Reportagem Urbana” me havia provocado, tive o prazer de ser presenteado pelo próprio autor com este fantástico livro que acabo de ler e recomendo a todos que buscam uma excelente companhia de leitura. Abaixo encontra-se o link da editora para quem deseja encomendar. Tenho certeza de que irão gostar. Boa leitura e bom passeio por esta cápsula do tempo!

Décio Torres

 

Disponível em: https://viaeditora.com.br/acervo-literario/as-meninas-do-corone

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (239)


18º Domingo do Tempo Comum – 01/08/2021

Anúncio do Evangelho (Jo 6,24-35)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, quando a multidão viu que Jesus não estava ali, nem os seus discípulos, subiram às barcas e foram à procura de Jesus, em Cafarnaum. Quando o encontraram no outro lado do mar, perguntaram-lhe: “Rabi, quando chegaste aqui?”

Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, eu vos digo: estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos. Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará. Pois este é quem o Pai marcou com seu selo”.

Então perguntaram: “Que devemos fazer para realizar as obras de Deus?”

Jesus respondeu: “A obra de Deus é que acrediteis naquele que ele enviou”.

Eles perguntaram: “Que sinal realizas, para que possamos ver e crer em ti? Que obra fazes? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está na Escritura: ‘Pão do céu deu-lhes a comer’”.

Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade vos digo, não foi Moisés quem vos deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo”.

Então pediram: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”.

Jesus lhes disse: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:


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Pão que desperta outras fomes

 

Imagem: pexels.com

“Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6,35)

Depois da multiplicação dos pães, Jesus, ao perceber que o povo não tinha entendido nada do que acontecera, pois tentava fazê-lo rei, retirou-se a uma montanha, sozinho. A multidão ficou satisfeita por ter se alimentado; ela segue Jesus por aquilo que Ele pode dar. No entanto, a identificação com Ele e seu projeto passa longe. Seus interesses vão em sentido contrário à atitude de Jesus de despertá-la para a compaixão e a partilha. Jesus ensina como repartir, isto é, como as pessoas precisam ser umas com as outras.

Jesus empenha-se por uma nova humanização, onde as pessoas possam ser livres, mas elas preferem continuar dependendo de outro (rei). Enquanto as pessoas buscam alguém que se responsabilize por elas, Jesus ensina a responsabilidade mútua, a corresponsabilidade. A abundância de alimento é graça de Deus, mas é igualmente empenho de cada pessoa e de todas juntas.

A solução para uma nova humanidade não é o dinheiro, o poder, o domínio ou um milagre externo, mas saber compartilhar tudo com todos. O problema não se soluciona comprando, o problema se soluciona compartilhando. A verdadeira salvação não está em que alguém solucione nossos problemas, nem sequer em ajudar a solucionar todos os problemas dos outros. A verdadeira liberdade está em superar o egoísmo e estar disposto e dividir com os outros o que cada um tem e o que cada um é.

“Não temos em nossas mãos a solução de todos os problemas do mundo, mas diante dos problemas do mundo temos nossas mãos” (Congresso de jovens latino-americanos). 

No entanto, segundo o relato de João, a multidão continua buscando a Jesus. Há algo n’Ele que a atrai, mas ainda não sabe exatamente por que o busca nem para quê. As pessoas começam a intuir que Jesus está lhes abrindo um novo horizonte, mas não sabem o que fazer, nem por onde começar.

“Do outro lado do mar” Jesus começa a conversar com elas. Há coisas que convém aclarar desde o princípio. O pão material é importante. Ele mesmo lhes ensinou a pedir a Deus “o pão de cada dia” para todos.

Comer nunca significa um mero ato biológico de ingerir alimentos; é sempre um ato comunitário e um rito de comunhão. À mesa, onde se parte o pão do Senhor, o cristão aprende a partir e a partilhar o “pão de cada dia” com os outros.

Além disso, o pão que comemos esconde toda uma rede de relações anônimas; antes de chegar à mesa, ele passou pelo trabalho de muitos braços; há muitas lágrimas e suores escondidos em cada pão, como também há muito de solidariedade e partilha. Portanto, o pão que é produzido junto deve ser repartido junto e consumido junto. O Senhor resgata em nós a fome e a sede mais profunda de encontro, partilha e vida. A mesma necessidade básica nos iguala a todos; a satisfação coletiva nos confraterniza. Só então podemos, verdadeiramente, pedir: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”.

A conversa de Jesus com o povo, com os judeus e com os discípulos é um diálogo bonito, mas exigente. Jesus procura abrir os olhos do povo para que aprenda a ler os acontecimentos e descubra neles o rumo que deve tomar na vida. Pois não basta ir atrás de sinais milagrosos que multiplicam o pão para o corpo. Não só de pão vive o ser humano. A luta pela vida sem uma mística que inspira, não alcança a raiz do próprio ser.

Enquanto vai conversando com Jesus, o povo fica cada vez mais contrariado com as palavras dele. Mas Jesus não cede, nem muda as exigências. O discurso parece um funil. Na medida em que a conversa avança, é cada vez menos gente que sobra para ficar com Ele. No fim só sobram os doze, e nem assim Jesus pode confiar em todos eles. Esse é o eterno problema da vida cristã: quando o evangelho começa a exigir compromisso, muita gente se afasta; quando se trata de seguir e se identificar com uma Pessoa (Jesus), muitos se refugiam na doutrina, no legalismo, no ritualismo..., vivendo um seguimento estéril.

O dinamismo do seguimento é gerar vida, fazer o(a) discípulo(a) viver a partir da verdade mais profunda de si mesmo(a); ou seja, viver a partir do coração, do “ser profundo”.

“Trabalhai não pelo alimento que perece, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna”.

No gesto da multiplicação dos pães se condensou todo o caminho de Jesus: vida doada na luta contra todo tipo de sofrimento e fome, na mesa partilhada onde as relações humanas alimentam a fraternidade do Reino. Aqui se conecta a essência da Vida de Jesus com a vida dos seus seguidores.

Para a mentalidade bíblica, o pão é um dos sinais primordiais da graça e do amor com que Deus nos sustenta e nos protege. Diante do pão estamos face a uma realidade santa. O pão é tratado com respeito e veneração. O pão é santo porque está associado ao mistério da vida que é sacrossanta. Em cada pedaço de pão há mais presença da mão de Deus do que da mão do ser humano.

Para o cristão o pão é ainda mais santo porque simboliza a reconciliação final de todos no banquete definitivo do Reino; o pão carrega a promessa de uma plenitude de vida.

O “pão do Reino” já se antecipou e é Jesus mesmo em sua vida e mensagem; Jesus continua presente na história e na vida de cada um através do “pão eucarístico”, alimento dos peregrinos rumo à pátria celeste. Somos eternos insatisfeitos; nunca nos saciamos de pão e milagres; queremos mais e mais. Isso nos revela que nosso interesse é ter vida assegurada e o estômago cheio.

Esta realidade nos leva a perguntar: que pão nos sacia?

Porque há pães que, enchendo o estômago, nos tiram a liberdade. São pães repartidos em escravidão, pães seguros com sabor de suor e lágrimas; pães de Egito, pães que dão a falsa sensação de saciedade.  

Há pães que nos despertam para confiar em Deus; são pães que chegam providencialmente e de maneira gratuita. Aparecem quando menos esperamos e tem o sabor do caminho e do encontro. Para qual pão trabalhamos? Ou ainda, a partir de onde pedimos pão? A partir da segurança e da escravidão ou a partir da insegurança e da confiança?

Jesus se apresenta a nós como o alimento que não perece. Buscá-Lo é descobrir o que Deus quer de nós e agradecer o que nos dá para o caminho. Quem o rejeita fica atado aos pães deste mundo que exigem fadiga, competição e escravidão. Quem o aceita, liberta-se dos tempos e espaços e se sacia de confiança.

Que pão buscamos? Que pão desperta outras fomes em nós?

 “O que é que nutre realmente o nosso ser essencial?”

“Não somente o nosso corpo, não somente nosso psiquismo, não somente nossa afetividade, mas o que é que nutre aquilo que não morrerá em nós?”

“O que é que nutre a eternidade em nós?”

“O que é verdadeiramente nutritivo? O que é que nutre a nossa identidade? 

Texto bíblico:  Jo. 6,24-35

Na oração: Não é possível reconhecer o Corpo do Senhor presente na Eucaristia se não se reconhece o Corpo do Senhor na comunidade onde alguns passam necessidades. Pois, se fechamos os olhos às divisões e às desigualdades mentimos ao dizer que Cristo está presente na Eucaristia.

Enquanto não nos mobilizamos a mudar nossa sociedade de maneira que mais pessoas aceitem a alegria de compartilhar o pão e a vida, faltará algo em nossa Eucaristia. Essa “ferida” o cristão deve sempre tê-la presente.

 


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2371-pao-que-desperta-outras-fomes

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sexta-feira, 30 de julho de 2021

MOBY DICK - Marco Lucchesi


Alguém disse que, quando lemos um clássico pela primeira vez, realizamos, a bem da verdade, uma segunda leitura. Mais que um paradoxo, as linhas de força de um grande livro não deixam margem à dúvida. 
 

Esse é o caso de Moby Dick. Antes de navegar com Ismael, naquelas águas altas e perigosas, quem não passou por um sem-número de filmes e desenhos animados, músicas e quadrinhos, que aludem à baleia branca de Herman Melville? Portanto, sabíamos algo de Moby Dick, antes mesmo de aportarmos no romance, através de remissões e fragmentos. 

Um clássico dialoga com as vozes que o precederam. Melville não esqueceu a viagem dos Argonautas, o naufrágio da Odisseia e a tempestade da Eneida. 
Assim, quando chegamos a Moby não somos uma página em branco. A primeira leitura é, no mínimo, a segunda. 

A tradução de Melville em português adquire novo teor salino. Nossa língua é filha de Netuno e de Ulisses. Cresceu na intimidade com o mar, entre sonhos e lágrimas, naufrágio e calmaria, Vênus e Adamastor. 

A literatura é um repertório infinito, rede lançada em pleno oceano para buscar uma ostra, ou quem sabe uma estrela que dorme, afogada. Ou, ainda, uma baleia, simbólica e profunda.

Há outro fato que me encanta em Moby Dick. Leio um artigo publicado no jornal carioca Última hora: “Casca de Noz em pleno Oceano”. O repórter Irênio Delgado é atraído por um pequeno barco no porto do Rio. O “Buona Stella” partiu de Gênova e levou três meses para chegar ao Brasil. Corria o ano de 1951. Havia um mascote a bordo chamado Tânger. “Cachorro fiel que viveu os mesmos perigos da longa travessia”. Irênio entrevista um jovem de 29 anos, Egidio, oficial telegrafista. Era meu pai. A vida toda me falou da travessia, tempestades e baleias.

Moby estava em mim antes de conhecê-la. 

A “segunda” leitura do romance deu-se numa praia de Niterói de cara para o Atlântico. Ia eu cercado de antigas ideias, O velho e o mar e Os lusíadas. Dezessete anos de idade.  Não conseguia separar-me da ficção que condensava uma vida: o mistério do bem e do mal, as ideias fixas: o mundo sombrio e luminoso de cada personagem. E logo me apresento ao capitão Ahab: “Olá, meu nome é Marco”. E vogo em alto mar, preso ao convés, de olhos bem abertos, a sondar o horizonte.   

Se alguém disser que saiu do romance, não acredite, leitor. Quem bebe dessas águas não é capaz de abandoná-las.  Um clássico passa a fazer parte de nossa biografia, amizade que reconheço, quatro décadas depois, na mesma praia de Itacoatiara. Não tenho dúvidas de que Moby me engoliu. Quem sabe me tornei um novo Jonas, apaziguado no corpo da baleia. 

Jornal de Letras de Lisboa, 28/07/2021

 https://www.academia.org.br/artigos/moby-dick


Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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