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terça-feira, 3 de agosto de 2021

O INVENCÍVEL BATE-ESTACAS? - Ignácio de Loyola Brandão


Meu pai ao voltar do escritório comunicou: 'Este mês vocês irão comigo para São Paulo'. De tempos em tempos ele participava na capital de uma reunião com chefes de Contadoria das ferrovias brasileiras. O aviso era recebido com alvoroço por mim e meu irmão Luis Gonzaga. Aquela era uma viagem encantada. Só quem nasceu no interior viveu a experiência arrepiante de chegar de trem na Estação da Luz, passando por baixo da rede de fios elétricos de uma super aranha acima de nossas cabeças. Havia a expectativa na capital de outra viagem dentro da viagem. Pegar o bonde Penha-Lapa, ida e volta, o que nos ocupava meia-tarde atravessando a cidade.

As reuniões dos chefes eram na Estação da Sorocabana, e Luis e eu ficávamos em um jardim interno à espera até o final, quando meu pai nos apanhava para almoçar no Hotel das Bandeiras, ou do Giuseppino, na Rua da Conceição. O prediozinho foi sacrificado pelo metrô. Ah, aquele jardim hoje é a Sala São Paulo. No restaurante, sentávamos e começava o desfile de travessinhas, uma com ovo, outras com bife, linguiça, abobrinha, berinjela, jiló, chuchu, ervilhas, couve, saladinha, arroz, feijão, macarrão. Também visitaríamos a Catedral da Sé em construção, e eu achava inacreditável ver um bonde que entrava na igreja com material de construção.

Maravilha das maravilhas sempre foi o anúncio luminoso de um café (seria o Paraventi?), em cima do prédio da Light, vizinho ao Mappin. Em uma animação (pensem, eram os anos 1940), o bule se inclinava e derramava o líquido na xícara. Para mim, havia um mistério. Por que as lojas mantinham luzes acesas durante o dia? No interior, luzes só eram acesas depois de seis da tarde. Isso significava o que era para mim a cidade grande, luzes acesas durante o dia.

Mas São Paulo era a cidade dos prédios, dos arranha-céus. Araraquara não tinha ainda nenhum. Meu pai, Luis e eu nos instalávamos na calçada, do outro lado da rua, a contemplar elevadores de madeira periclitantes que subiam e desciam, levando carrinhos com pedras, concreto, cal, tijolos. Víamos pedreiros se equilibrando nos andaimes sem nenhum medo. Homens dos ares, dizíamos arrepiados. Os prédios subiam lentos, muitas vezes ao voltarmos, meses depois, eles tinham crescido pouco. Para tudo há um ritmo, dizia seu Totó, não adianta ter pressa ou o prédio cai. Não existiam ainda os caminhões de concreto com betoneiras girando, girando. Assim se constrói uma grande cidade, murmurava meu pai, aquilo era progresso.

Em 1957 vim morar aqui. Os prédios subiam velozes. O encantamento continuava, havia cinemas, teatros, livrarias, eu trabalhava em jornal, tinha um único medo, ser demitido, mas se você perdia a vaga, em uma semana estava empregado de novo. Agora, não tenho mais medo de demissões, me demiti, aposentei, e trabalho mais do que antes. Continuei fascinado pelas construções, cada vez mais velozes. Um dia era um buraco, vinha o bate-estacas ruidoso, pram, bum, tcham, tchum, logo anunciavam o apartamento decorado, abriam o showroom. Piscou um dia, no dia seguinte edifício pronto. Passei por muitas fases da história da construção. Agora chegamos aos tempos de aceleração total. Um tapume, um buraco, um andar hoje, outro amanhã, no final da semana tem mais não sei quantos caminhões de todos os tipos. Concreteiras mandam o cimento armado por tubos a alturas inacreditáveis.

Porém, há um mistério indecifrável. Pensem bem. Vejam se não tenho razão. A revolução industrial avançou, veio a tecnologia de ponta, a informática, o celular, o computador, os robôs, a descoberta do DNA, implantes substituem as dentaduras, transplantamse corações, fígados, rins, um dia transplantarão almas. O homem foi à lua, a Marte, os trens (europeus, claro) correm a 500 por hora, usa-se a energia solar, criaram-se os games, a internet, o Twitter, a revolução digital, as fake news, os caminhões gigantescos, os treminhões, o radar, o laser, a corrupção.

No entanto, quem me explica, esclarece, justifica, encontra uma única razão para a existência dos bateestacas ruidosos como tiros de canhão que continuam a nos atormentar desde 7 da manhã? A cada pancada, vibram os edifícios todos em volta. Há silenciadores de armas, mas não se criou um para o bate-estacas. De Newton a Darwin, de Niels Bohr a Pauling, de Einstein a Fleming a Osvaldo Cruz, de Madame Curie e Steve Jobs, de Salk a Mendel, sempre tivemos pessoas querendo o bem-estar da humanidade. Mas nenhum se colocou frente a esse tormento primitivo, rompedor de tímpanos e mentes. Mistérios.

Só quem nasceu no interior viveu a experiência arrepiante de chegar de trem na Estação da Luz.

O Estado de S. Paulo, 30/07/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/o-invencivel-bate-estacas

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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domingo, 1 de agosto de 2021

AS MENINAS DO CORONEL DE ARAMIS RIBEIRO COSTA



Passei três semanas na agradável e prazerosa companhia de Ernestina, Ludmila, Fabíola e Milceia, as filhas do coronel Mendonça que vieram me visitar. Com elas, conheci o músico Conrado, o major Silveira, o doutor Lustosa, Bibiana, Didá, seu filho João Rafael, Claudionor, Marcelino, o doutor Ariano Condé, Ziraldo Conceição e algumas outras figuras bastante interessantes. Pessoas simples e comuns que nos levam a refletir sobre nossas visões de mundo, nossos medos, nossos preconceitos, nossas paixões desencontradas, nossos desejos e sonhos postergados, realizados, irrealizados ou por se realizar.

As meninas do Coronel me levaram a cruzar a fronteira do tempo e passear pelas ruas tranquilas de uma Salvador ainda pacata, mas já com ares metropolitanos e suas mazelas. Revivi o tempo em que, ainda estudante de Letras, morei na casa de minha irmã Maria José Freire na Ribeira e andava despreocupadamente pela península itapagipana, já que elas eram minhas vizinhas. Foi um belo retorno ao tempo da delicadeza que tanto nos falta nos dias de hoje. Com elas, viajei mais um pouco para trás, para a década de 50, e fizemos ‘footing’ na elegante rua Chile e suas lojas chic. Com Conrado, andei de bonde da Ribeira à Praça Cayru, tomamos o Elevador Lacerda e saboreamos deliciosos sorvetes na Cubana. Depois seguimos para vê-lo tocar com sua orquestra no Palace Hotel, no Tabaris Night Club (onde hoje se localiza o Teatro Gregório de Matos), no Hotel da Bahia e no Clube Baiano de Tênis.

Todas essas experiências e emoções – com direito a um variado fundo musical, parte de uma trilha sonora que se gestava naquela época em bailes dançantes e emissoras de rádio que lançavam novos ritmos e modas como o rock e a bossa-nova – me foram proporcionadas pelo livro “As meninas do coronel”, terceiro romance do excelente escritor Aramis Ribeiro. Sua narrativa nos puxa pelo braço e ganha nossa atenção do começo ao fim através de uma técnica bastante sedutora que cria um grande suspense em relação ao desenrolar dos fatos e faz com que atravessemos tranquilamente suas mais de seiscentas páginas, sempre com gosto de quero mais. E é esta a sensação que sentimos ao final, uma vontade de continuar em companhia desses personagens demasiado humanos que o autor nos apresenta de forma magistral.

Aramis Ribeiro faz parte do rol de grandes escritores contemporâneos, com 28 livros publicados, e que merece maior divulgação, principalmente aqui na Bahia, sua terra de origem. Depois de ter comentado aqui no FB sobre o impacto que seu livro de contos “Reportagem Urbana” me havia provocado, tive o prazer de ser presenteado pelo próprio autor com este fantástico livro que acabo de ler e recomendo a todos que buscam uma excelente companhia de leitura. Abaixo encontra-se o link da editora para quem deseja encomendar. Tenho certeza de que irão gostar. Boa leitura e bom passeio por esta cápsula do tempo!

Décio Torres

 

Disponível em: https://viaeditora.com.br/acervo-literario/as-meninas-do-corone

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (239)


18º Domingo do Tempo Comum – 01/08/2021

Anúncio do Evangelho (Jo 6,24-35)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, quando a multidão viu que Jesus não estava ali, nem os seus discípulos, subiram às barcas e foram à procura de Jesus, em Cafarnaum. Quando o encontraram no outro lado do mar, perguntaram-lhe: “Rabi, quando chegaste aqui?”

Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, eu vos digo: estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos. Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará. Pois este é quem o Pai marcou com seu selo”.

Então perguntaram: “Que devemos fazer para realizar as obras de Deus?”

Jesus respondeu: “A obra de Deus é que acrediteis naquele que ele enviou”.

Eles perguntaram: “Que sinal realizas, para que possamos ver e crer em ti? Que obra fazes? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está na Escritura: ‘Pão do céu deu-lhes a comer’”.

Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade vos digo, não foi Moisés quem vos deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo”.

Então pediram: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”.

Jesus lhes disse: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:


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Pão que desperta outras fomes

 

Imagem: pexels.com

“Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6,35)

Depois da multiplicação dos pães, Jesus, ao perceber que o povo não tinha entendido nada do que acontecera, pois tentava fazê-lo rei, retirou-se a uma montanha, sozinho. A multidão ficou satisfeita por ter se alimentado; ela segue Jesus por aquilo que Ele pode dar. No entanto, a identificação com Ele e seu projeto passa longe. Seus interesses vão em sentido contrário à atitude de Jesus de despertá-la para a compaixão e a partilha. Jesus ensina como repartir, isto é, como as pessoas precisam ser umas com as outras.

Jesus empenha-se por uma nova humanização, onde as pessoas possam ser livres, mas elas preferem continuar dependendo de outro (rei). Enquanto as pessoas buscam alguém que se responsabilize por elas, Jesus ensina a responsabilidade mútua, a corresponsabilidade. A abundância de alimento é graça de Deus, mas é igualmente empenho de cada pessoa e de todas juntas.

A solução para uma nova humanidade não é o dinheiro, o poder, o domínio ou um milagre externo, mas saber compartilhar tudo com todos. O problema não se soluciona comprando, o problema se soluciona compartilhando. A verdadeira salvação não está em que alguém solucione nossos problemas, nem sequer em ajudar a solucionar todos os problemas dos outros. A verdadeira liberdade está em superar o egoísmo e estar disposto e dividir com os outros o que cada um tem e o que cada um é.

“Não temos em nossas mãos a solução de todos os problemas do mundo, mas diante dos problemas do mundo temos nossas mãos” (Congresso de jovens latino-americanos). 

No entanto, segundo o relato de João, a multidão continua buscando a Jesus. Há algo n’Ele que a atrai, mas ainda não sabe exatamente por que o busca nem para quê. As pessoas começam a intuir que Jesus está lhes abrindo um novo horizonte, mas não sabem o que fazer, nem por onde começar.

“Do outro lado do mar” Jesus começa a conversar com elas. Há coisas que convém aclarar desde o princípio. O pão material é importante. Ele mesmo lhes ensinou a pedir a Deus “o pão de cada dia” para todos.

Comer nunca significa um mero ato biológico de ingerir alimentos; é sempre um ato comunitário e um rito de comunhão. À mesa, onde se parte o pão do Senhor, o cristão aprende a partir e a partilhar o “pão de cada dia” com os outros.

Além disso, o pão que comemos esconde toda uma rede de relações anônimas; antes de chegar à mesa, ele passou pelo trabalho de muitos braços; há muitas lágrimas e suores escondidos em cada pão, como também há muito de solidariedade e partilha. Portanto, o pão que é produzido junto deve ser repartido junto e consumido junto. O Senhor resgata em nós a fome e a sede mais profunda de encontro, partilha e vida. A mesma necessidade básica nos iguala a todos; a satisfação coletiva nos confraterniza. Só então podemos, verdadeiramente, pedir: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”.

A conversa de Jesus com o povo, com os judeus e com os discípulos é um diálogo bonito, mas exigente. Jesus procura abrir os olhos do povo para que aprenda a ler os acontecimentos e descubra neles o rumo que deve tomar na vida. Pois não basta ir atrás de sinais milagrosos que multiplicam o pão para o corpo. Não só de pão vive o ser humano. A luta pela vida sem uma mística que inspira, não alcança a raiz do próprio ser.

Enquanto vai conversando com Jesus, o povo fica cada vez mais contrariado com as palavras dele. Mas Jesus não cede, nem muda as exigências. O discurso parece um funil. Na medida em que a conversa avança, é cada vez menos gente que sobra para ficar com Ele. No fim só sobram os doze, e nem assim Jesus pode confiar em todos eles. Esse é o eterno problema da vida cristã: quando o evangelho começa a exigir compromisso, muita gente se afasta; quando se trata de seguir e se identificar com uma Pessoa (Jesus), muitos se refugiam na doutrina, no legalismo, no ritualismo..., vivendo um seguimento estéril.

O dinamismo do seguimento é gerar vida, fazer o(a) discípulo(a) viver a partir da verdade mais profunda de si mesmo(a); ou seja, viver a partir do coração, do “ser profundo”.

“Trabalhai não pelo alimento que perece, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna”.

No gesto da multiplicação dos pães se condensou todo o caminho de Jesus: vida doada na luta contra todo tipo de sofrimento e fome, na mesa partilhada onde as relações humanas alimentam a fraternidade do Reino. Aqui se conecta a essência da Vida de Jesus com a vida dos seus seguidores.

Para a mentalidade bíblica, o pão é um dos sinais primordiais da graça e do amor com que Deus nos sustenta e nos protege. Diante do pão estamos face a uma realidade santa. O pão é tratado com respeito e veneração. O pão é santo porque está associado ao mistério da vida que é sacrossanta. Em cada pedaço de pão há mais presença da mão de Deus do que da mão do ser humano.

Para o cristão o pão é ainda mais santo porque simboliza a reconciliação final de todos no banquete definitivo do Reino; o pão carrega a promessa de uma plenitude de vida.

O “pão do Reino” já se antecipou e é Jesus mesmo em sua vida e mensagem; Jesus continua presente na história e na vida de cada um através do “pão eucarístico”, alimento dos peregrinos rumo à pátria celeste. Somos eternos insatisfeitos; nunca nos saciamos de pão e milagres; queremos mais e mais. Isso nos revela que nosso interesse é ter vida assegurada e o estômago cheio.

Esta realidade nos leva a perguntar: que pão nos sacia?

Porque há pães que, enchendo o estômago, nos tiram a liberdade. São pães repartidos em escravidão, pães seguros com sabor de suor e lágrimas; pães de Egito, pães que dão a falsa sensação de saciedade.  

Há pães que nos despertam para confiar em Deus; são pães que chegam providencialmente e de maneira gratuita. Aparecem quando menos esperamos e tem o sabor do caminho e do encontro. Para qual pão trabalhamos? Ou ainda, a partir de onde pedimos pão? A partir da segurança e da escravidão ou a partir da insegurança e da confiança?

Jesus se apresenta a nós como o alimento que não perece. Buscá-Lo é descobrir o que Deus quer de nós e agradecer o que nos dá para o caminho. Quem o rejeita fica atado aos pães deste mundo que exigem fadiga, competição e escravidão. Quem o aceita, liberta-se dos tempos e espaços e se sacia de confiança.

Que pão buscamos? Que pão desperta outras fomes em nós?

 “O que é que nutre realmente o nosso ser essencial?”

“Não somente o nosso corpo, não somente nosso psiquismo, não somente nossa afetividade, mas o que é que nutre aquilo que não morrerá em nós?”

“O que é que nutre a eternidade em nós?”

“O que é verdadeiramente nutritivo? O que é que nutre a nossa identidade? 

Texto bíblico:  Jo. 6,24-35

Na oração: Não é possível reconhecer o Corpo do Senhor presente na Eucaristia se não se reconhece o Corpo do Senhor na comunidade onde alguns passam necessidades. Pois, se fechamos os olhos às divisões e às desigualdades mentimos ao dizer que Cristo está presente na Eucaristia.

Enquanto não nos mobilizamos a mudar nossa sociedade de maneira que mais pessoas aceitem a alegria de compartilhar o pão e a vida, faltará algo em nossa Eucaristia. Essa “ferida” o cristão deve sempre tê-la presente.

 


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2371-pao-que-desperta-outras-fomes

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sexta-feira, 30 de julho de 2021

MOBY DICK - Marco Lucchesi


Alguém disse que, quando lemos um clássico pela primeira vez, realizamos, a bem da verdade, uma segunda leitura. Mais que um paradoxo, as linhas de força de um grande livro não deixam margem à dúvida. 
 

Esse é o caso de Moby Dick. Antes de navegar com Ismael, naquelas águas altas e perigosas, quem não passou por um sem-número de filmes e desenhos animados, músicas e quadrinhos, que aludem à baleia branca de Herman Melville? Portanto, sabíamos algo de Moby Dick, antes mesmo de aportarmos no romance, através de remissões e fragmentos. 

Um clássico dialoga com as vozes que o precederam. Melville não esqueceu a viagem dos Argonautas, o naufrágio da Odisseia e a tempestade da Eneida. 
Assim, quando chegamos a Moby não somos uma página em branco. A primeira leitura é, no mínimo, a segunda. 

A tradução de Melville em português adquire novo teor salino. Nossa língua é filha de Netuno e de Ulisses. Cresceu na intimidade com o mar, entre sonhos e lágrimas, naufrágio e calmaria, Vênus e Adamastor. 

A literatura é um repertório infinito, rede lançada em pleno oceano para buscar uma ostra, ou quem sabe uma estrela que dorme, afogada. Ou, ainda, uma baleia, simbólica e profunda.

Há outro fato que me encanta em Moby Dick. Leio um artigo publicado no jornal carioca Última hora: “Casca de Noz em pleno Oceano”. O repórter Irênio Delgado é atraído por um pequeno barco no porto do Rio. O “Buona Stella” partiu de Gênova e levou três meses para chegar ao Brasil. Corria o ano de 1951. Havia um mascote a bordo chamado Tânger. “Cachorro fiel que viveu os mesmos perigos da longa travessia”. Irênio entrevista um jovem de 29 anos, Egidio, oficial telegrafista. Era meu pai. A vida toda me falou da travessia, tempestades e baleias.

Moby estava em mim antes de conhecê-la. 

A “segunda” leitura do romance deu-se numa praia de Niterói de cara para o Atlântico. Ia eu cercado de antigas ideias, O velho e o mar e Os lusíadas. Dezessete anos de idade.  Não conseguia separar-me da ficção que condensava uma vida: o mistério do bem e do mal, as ideias fixas: o mundo sombrio e luminoso de cada personagem. E logo me apresento ao capitão Ahab: “Olá, meu nome é Marco”. E vogo em alto mar, preso ao convés, de olhos bem abertos, a sondar o horizonte.   

Se alguém disser que saiu do romance, não acredite, leitor. Quem bebe dessas águas não é capaz de abandoná-las.  Um clássico passa a fazer parte de nossa biografia, amizade que reconheço, quatro décadas depois, na mesma praia de Itacoatiara. Não tenho dúvidas de que Moby me engoliu. Quem sabe me tornei um novo Jonas, apaziguado no corpo da baleia. 

Jornal de Letras de Lisboa, 28/07/2021

 https://www.academia.org.br/artigos/moby-dick


Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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terça-feira, 27 de julho de 2021

PRIMEIRA ESTRELA QUE VEJO DÁ-ME O QUE DESEJO – Marília Benício dos Santos


          Deitada na rede, eu olhava para o céu. De repente surge uma estrela que vai aumentando lentamente e sua luz cresce de intensidade.

          Recuei ao passado, voltei à infância e lembrei-me do tempo em que eu dizia: “primeira estrela que vejo, dá-me o que desejo”.

          Naquela época eu desejava um bocado de coisas. Eu e minhas amiguinhas pedíamos uma série de coisas àquela estrelinha.

          E hoje, o que eu desejo?

          Voltar ao passado? Não.

          Tirar na loteria esportiva? Não.

          O que desejo é... Ser uma estrela sempre a irradiar alegria, paz, amor. Uma estrela sempre no alto a espalhar os seus raios para todos.

          Não se acende uma luz para colocar debaixo do alqueire, mas para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que ilumine a todos que estão em casa. (Mateus, 5.15).

          Seguindo o exemplo da estrela, quero derramar sobre todos, tudo de bom que tenho dentro de mim: amor, ternura, alegria gratidão...

 

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Marília Benício dos Santos,

Itabuna BA . *10/10/1920   +24/05/2014

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domingo, 25 de julho de 2021

UM VELHO NA ATIVA - Arnaldo Niskier


Até que idade se pode permanecer na ativa? O certo é que não existe uma resposta precisa para essa pergunta. Veja-se o caso do escritor e pensador francês Edgard Morin. Ele está completando 100 anos e segue escrevendo, dando ao mundo o resultado de uma experiência que parece não ter fim.

Nelson Motta, em  “O Globo”, defende a tese de que o tempo não se mede pelo calendário, mas pela intensidade. E dá muitos e bons exemplos, como Marcos e Paulo Sérgio Valle, irmãos da minha professora Patrícia. A sua inspiração parece infinita.

Falar em termos pessoais nem sempre é o melhor caminho. Mas não posso deixar de revelar que me sinto inteiraço aos 86 anos de idade. Fruto talvez de um passado bem vivido de atleta. Recebi um elogio recente do médico Paulo Niemeyer Filho: “Você tem ossos muito bem constituídos.”  E assim ele pôde operar, com sua competência internacional, a minha lombar que ameaçava dar mais trabalho do que deveria.

Hoje, apear da idade, estou na plenitude das minhas atividades profissionais. Sou presidente do Conselho de Administração do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) do Rio de Janeiro, oferecendo oportunidades de emprego a milhares de jovens estagiários e aprendizes. Faço lives e dirijo e apresento o programa “Identidade Brasil”, no Canal Futura de televisão, com uma audiência espetacular. Integro os quadros da Academia Brasileira de Letras, figurando hoje como o seu vice-decano (só perco para o amigo José Sarney).

E estou colaborando com o fraternal amigo Carlos Alberto Serpa de Oliveira para criar a Academia Brasileira de Cultura, que em breve estará funcionando na plenitude. A idade só ajuda a ter mais experiência.

Utilizando as virtualidades do tempo, escrevo livros e artigos semanais para diversos periódicos. O tema é sempre educação, como tenho feito de forma ininterrupta. E não deixo de dar uma relevante contribuição ao Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio de Bens e Serviços, obediente à liderança dos notáveis Ernani Galvêas e Bernardo Cabral. Velho? Nem pensar…

Jornal Dois Estados, 22/07/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/um-velho-na-ativa

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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999. 

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (238)


17º Domingo do Tempo Comum – 25/07/2021

Anúncio do Evangelho (Jo 6,1-15)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus foi para o outro lado do mar da Galileia, também chamado de Tiberíades.

Uma grande multidão o seguia, porque via os sinais que ele operava a favor dos doentes. Jesus subiu ao monte e sentou-se aí, com os seus discípulos.

Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus.

Levantando os olhos e vendo que uma grande multidão estava vindo ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?”

Disse isso para pô-lo à prova, pois ele mesmo sabia muito bem o que ia fazer.

Filipe respondeu: “Nem duzentas moedas de prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um”.

Um dos discípulos, André, o irmão de Simão Pedro, disse: “Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o que é isto para tanta gente?”

Jesus disse: “Fazei sentar as pessoas”. Havia muita relva naquele lugar, e lá se sentaram, aproximadamente, cinco mil homens.

Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam. E fez o mesmo com os peixes.

Quando todos ficaram satisfeitos, Jesus disse aos discípulos: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca! Recolheram os pedaços e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães, deixadas pelos que haviam comido. Vendo o sinal que Jesus tinha realizado, aqueles homens exclamavam: “Este é verdadeiramente o Profeta, aquele que deve vir ao mundo”.

Mas, quando notou que estavam querendo levá-lo para proclamá-lo rei, Jesus retirou-se de novo, sozinho, para o monte.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:


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O gesto de partilha de um menino

 


“Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes” (Jo 6,9)

 

Do pão de trigo ou cevada para o pão do sentido de vida doada; do alimento de cada um para a circularidade do alimento partilhado, em pequenos grupos, sem templo, na gratuidade e frugalidade...

Este é o sentido do texto joanino, proposto para este domingo.

De todos os gestos realizados por Jesus, durante sua atividade profética, o mais recordado pelas primeiras comunidades cristãs foi, seguramente, uma refeição multitudinária, organizada por Ele no descampado, nas proximidades do lago da Galiléia. É a única cena relatada em todos os evangelhos.

O conteúdo do relato é de grande riqueza e cheio de simbolismo. Seguindo seu costume, o evangelho de João não o chama “ milagre”, mas “sinal”. Com isso nos convida a não ficarmos nos fatos externos que são narrados, mas descobrir, a partir da fé, um sentido mais profundo.

Longe do templo e das autoridades judaicas, seguido por uma multidão, Jesus sinaliza para uma Páscoa centrada na pessoa dele, aberta a um processo de partilha, comunhão e retorno de vida abundante para todos. O congraçamento de Israel, durante a festa da Páscoa, no Templo, é substituído pelo congraçamento em torno a Jesus, no lugar onde Ele estiver, com a multidão que o segue.

Mas, enquanto a Páscoa no Templo favorece os controladores dele, a Páscoa em torno de Jesus favorece e engrandece a todos. 

Jesus ocupa o lugar central na cena; ninguém lhe pede que intervenha. É Ele mesmo que olha, intui a fome daquela multidão e ativa a necessidade de alimentá-la. Como alimentar tanta gente no meio do descampado? Os discípulos não encontram nenhuma solução. Felipe diz que não se pode pensar em comprar pão, pois não têm dinheiro. André sugere que se poderia partilhar o que havia, mas só um menino tem cinco pães e dois peixes. Que é isso para uma multidão?

Segundo João, enquanto Filipe justifica a impossibilidade de solução, André procura uma alternativa e se depara com cinco pães de cevada e dois peixinhos nas mãos de um menino. Filipe ocupa seu tempo e sua inteligência em buscar justificativas para o impasse e desculpas para não ser responsabilizado.

André, no entanto, encara a realidade e se ocupa na busca de solução. Encontra um sinal. Há pão, é de cevada, não de trigo, é pouco, mas o menino, pessoa que está começando a vida agora, coloca à disposição. 

Naqueles vastos campos da Galiléia, Jesus propõe a grande mesa da comunhão universal, a mesa “fora dos templos” que inclui a todos, sem distinção. O gesto da benção instaura o horizonte da partilha, em que os alimentos são destinados à necessidade de todos, por meio da coresponsabilidade dos participantes no banquete da Criação, sobre cuja mesa Deus preparou pão em abundância para todos.

Todos acompanham com atenção os gestos de Jesus: coração em ação de graças, olhos fixos, ao mesmo tempo, no pão, enquanto o parte, e na multidão ao seu redor. Primeiro dá graças à Fonte da vida. Segundo, contempla o pão, fruto da terra e do trabalho de muitos homens e mulheres, que deve ser partido e compartilhado. Terceiro, convida a repartir e assegura-se de que a distribuição é justa. 

Jesus dá graças por cinco pães e dois peixinhos diante de cinco mil pessoas famintas. É a gratidão sobre o pouco que faz o muito. É pouco, mas é dom de Deus, e dom pode-se multiplicar, pois a graça partilhada tem alcance ilimitado. Nós, geralmente, só damos graças quando temos em abundância, porque, a nosso ver, é a abundância que significa graça.

Depois da ação de graças, o pão se multiplica, tem para todos, o quanto necessitam, e ainda sobra abundantemente. Quanto mais se partilha, mais se tem. A fome desse momento foi saciada, mas a vida continua. Jesus ensina como repartir, isto é, como as pessoas devem proceder na relação de umas com as outras.

A abundância de alimento é graça de Deus, mas é igualmente empenho de cada pessoa e de todas juntas.

Jesus é o primeiro responsável, mas quer partilhar com os seus. Isso exige a participação de todos. 

A cena é fascinante: uma multidão dispersa, transformada pelo encontro com Jesus, já é capaz de sentar-se em grupos ordenados sobre a relva do campo, iguais, sem divisão em hierarquia e partilhando uma refeição simples e gratuita. Não é um banquete de ricos; não há vinho nem carnes. É a refeição frugal das pessoas que vivem junto ao lago: pão de cevada e peixe defumado.

Os que tinham algo para comer também foram repartindo com os outros. Na realidade, o verdadeiro milagre foi o da partilha, onde as pessoas famintas não se lançam vorazmente sobre os pães numa luta para conseguir os alimentos escassos. Compartilhar gratuitamente com os outros, com desconhecidos, e não acumular o que sobra, isso sim é milagre.

A comunhão bíblica se realiza entre os “distantes”, por meio de um gesto que não é de poder, mas de esvaziamento, não é de apropriação, mas de partilha, não é de fechamento, mas de abertura das mãos que acolhem, que distribuem... 

O dinheiro continua hoje sendo a causa de toda desigualdade. Tudo tem um preço, incluídos os “bens espirituais”. A gratuidade e a partilha são gestos que estão desaparecendo de nossa sociedade.

Jesus abre outra lógica: a da partilha, frente à lógica do mercado, focado na apropriação e na acumulação.

Só se fará efetiva a nova comunidade quando pães e peixes entrarem na lógica do Reino. Sem oferecer o próprio pão, os próprios recursos, a própria pessoa, não há possibilidade de construção do Reino de Deus.

Em cada migalha de pão, em cada pedaço de peixe, há uma história de amores e trabalhos que vão passando de mão em mão, sem cobiça devoradora. Os bens deste mundo carregando dentro uma vocação fraterna e universal. São dons para todos.

Nesta refeição de todo o povo sobre o campo verde não se discrimina ninguém, não se pergunta a ninguém pelo seu passado, sua profissão ou sua situação moral e religiosa. Todos são acolhidos como expressão das entranhas compassivas de Deus, que chama todos a compartilhar sua mesa. Todos se sentem pessoas dignas e amadas.

Esta é a utopia do Reino: tudo está reconciliado: o cosmos, com a natureza verde e em paz; os produtos do trabalho humano, da generosidade do mar e da terra; e as pessoas, numa relação harmoniosa entre si e com Deus, sem exclusões, competições nem privilégios. A sensibilidade solidária de Jesus situa tudo na lógica do amor, que é a única força transformadora da história.

Texto bíblico:  Jo 6,1-15 

Na oração: A oração é também questão de densidade de vida, de humanismo, de ativar a sensibilidade para com aqueles que não têm quem os defenda; é revelar que em nosso peito bate um coração de amor infinito, capaz de vibrar e mobilizar-nos em favor dos outros. A oração implica entrar em sintonia com o coração compassivo de Deus voltado para a miséria humana.

- Como seguidor(a) de Jesus, qual é a sua “lógica” diante do contexto social de exclusão e de miséria? A do Reino ou a do mercado neo-liberal?

- A pobreza, a miséria, a fome... despertam em você uma “santa indignação” ou uma acomodação doentia?

- Os gestos de partilha e solidariedade são um modo de proceder contínuo em sua vida?



Pe. Adroaldo Palaoro sj

 https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2367-o-gesto-de-partilha-de-um-menino

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