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terça-feira, 6 de abril de 2021

CENTURIÕES ROMANOS NO NOVO TESTAMENTO - Plinio Maria Solimeo

6 de abril de 2021


Centuriões representados na Coluna de Trajano em Roma

Plinio Maria Solimeo

Excetuando-se obviamente nosso Divino Salvador, sua Mãe Santíssima, os Apóstolos e as Santas Mulheres, dentre as figuras mais atraentes do Novo Testamento estão alguns centuriões romanos que aparecem nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos. Embora geralmente fossem pagãos, seguindo a Lei Natural que Deus colocou na alma de todos os homens, muitos deles praticavam a caridade e as boas obras, o que os predispunha a receber a verdadeira fé.

O exército do Império Romano dividia-se em várias unidades. Sua grossa maioria, como é compreensível, compunha-se dos simples soldados, ou “legionários”. Logo acima destes vinham os chamados “decanos”, que tinham sob seu comando 10 legionários (ou uma decúria). O “centurião”, por sua vez, era um oficial que comandava 10 decanos (100 homens, ou uma centúria). Acima dele estava o “tribuno”, que tinha a seu cargo quatro ou cinco centuriões, ou seja, de 400 a 500 homens, ou uma “coorte”. Vinha acima o “legado”, que comandava 10 tribunos, ou seja, cerca de cinco mil homens. Esses legados prestavam obediência ao primeiro escalão político, o dos cônsules, na época republicana, e o dos comandantes gerais na época Imperial. Estes, por sua vez, comandavam toda uma Legião.

O posto de centurião equivaleria hoje ao de um capitão de exército na hierarquia militar. Geralmente eram escolhidos entre os da tropa, tendo em vista sua coragem e confiabilidade, após 15 a 20 anos de serviço. Entretanto, alguns poderiam ser nomeados diretamente pelo Senado ou pelo Imperador.

Além de comandar seus homens, cabia ao centurião garantir a ordem local das províncias, e mesmo organizar o recolhimento dos impostos.

Os centuriões citados no Novo Testamento, em geral o são de forma positiva, por seu respeito aos judeus e imparcialidade de julgamento.

O primeiro de que nos ocupamos é um centurião de Cafarnaum, mencionado nos Evangelhos de São Mateus (8, 5-13) e de São Lucas (7, 2-10).

Embora seu nome não tenha passado para a História, por seus traços fornecidos pelos evangelistas vemos tratar-se de um oficial muito coerente, responsável, e de tal maneira aberto para com o povo dominado, que tinha vários amigos entre eles, e construiu mesmo sua sinagoga. Sobretudo era compassivo e acessível para com seus servos e subordinados, como veremos.

Quando um deles, a quem estimava especialmente, ficou muito doente com perigo de vida, esse centurião — que ouvira falar de Nosso Senhor Jesus Cristo e de seus milagres — mandou alguns de seus amigos judeus para procurá-Lo e pedir a cura do servo.

São Mateus e São Lucas narram esse episódio com pequenas diferenças, mas coincidindo no essencial, que foi quando o Divino Salvador, atendendo ao pedido do militar, prontificou-se a ir curar seu servo, que este lhe mandou dizer: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado. Pois eu também sou um subordinado e tenho soldados às minhas ordens. Eu digo a um: Vai, e ele vai; a outro: Vem, e ele vem; e a meu servo: Faze isto, e ele o faz… Ouvindo isto, cheio de admiração, disse Jesus aos presentes: Em verdade vos digo: não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel”. Assim, esse centurião deu provas de uma crença do poder curativo do Messias, que dificilmente encontrava paralelo, mesmo entre os judeus daquele tempo.


O que levou Nosso Senhor a elogiar a atitude desse oficial romano, que apesar de provir do mundo pagão estava tão aberto a segui-Lo, como explica São Lucas: “Ouvindo isto, Jesus maravilhou-se dele e, virando-se para a multidão que O seguia, disse: ‘Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé’”.

Comenta esse episódio o ilustre arcebispo de São Paulo, D. Duarte Leopoldo e Silva, em sua atualíssima Concordância dos Santos Evangelhos:

“Admirável a humildade, a confiança deste soldado, cujas obras de caridade lhe mereceram a graça da fé. A Igreja reteve as suas palavras, e sempre que um fiel se apresenta para receber em seu coração a Jesus sacramentado, Ela o faz repetir o mesmo ato de humildade e confiança: ‘Senhor, não sou digno de entrardes em minha morada; mas dizei uma só palavra, e minha alma ficará sã’”.

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Outro centurião de que fala o Evangelho teve a desdita de ser o responsável pela execução de Cristo Jesus. Pagão, julgando ser o réu que ele tinha que sentenciar apenas mais um dos criminosos comuns confiados à sua guarda, preocupava-se somente em que tudo corresse segundo os procedimentos normais. Por isso supõe-se que, acostumado à crueza sanguinária de seu ofício, aparentemente não teria tido nenhuma emoção diante de tantos e cruéis tormentos infligidos àquele Sentenciado.

Entretanto, algo inesperado ocorreu. Quando Jesus expirava — segundo narram São Mateus (27, 54), São Lucas (23, 47) e São Marcos (15, 39) —, obteve que esse centurião tivesse uma brusca mudança de opinião: Pois “O centurião que estava em frente dele [Jesus], vendo de que maneira Ele expirava, disse: ‘Verdadeiramente este homem era Filho de Deus’”. E abriu assim seu coração para a graça divina. O mesmo diziam os aterrorizados soldados à vista dos portentos ocorridos.

D. Duarte Leopoldo comenta também esse episódio:

“Os prodígios que rodearam a morte de Jesus, atemorizaram os soldados, dispondo-os a reconhecer a intervenção de um poder superior. A paciência, a mansidão do moribundo, a majestade dos últimos momentos, falavam ao coração, e estes homens que, mais do que os judeus, ignoravam o que faziam crucificando o Autor da vida, proclamavam sua divindade. Assim, a primeira reparação do deicídio se faz no mesmo lugar do crime, e dos seus próprios algozes recebe Jesus a primeira homenagem dos homens ao vencedor do Inferno. Digna vingança de um Deus: dar a vida aos que lhe deram a morte”.

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Contudo, o mais emblemático de todos os centuriões citados no Novo Testamento é Cornélio, residente em Cesareia, capital da Judéia, que por suas orações e boas obras mereceu a graça de receber o batismo com todos os de sua casa.

É o evangelista São Lucas quem no-lo apresenta, com todo o charme de suas descrições, no capítulo 10 dos Atos dos Apóstolos.

Pertencente à “coorte Itálica”, Cornélio era um homem “piedoso e temente a Deus com toda sua casa, fazia muitas esmolas ao povo e orava a Deus continuamente”. É curiosa essa afirmação, pois certamente tanto ele quanto os seus eram ainda pagãos, tendo sido batizados por São Pedro só mais tarde. O que mostra que, com as luzes da Lei Natural, também se pode chegar ao conhecimento de Deus.

Narra São Lucas que, num determinado dia, o centurião teve uma visão de um Anjo, que lhe disse: “Cornélio […] tuas orações e esmolas foram lembradas diante de Deus”. Pois chegara assim, para ele, o tempo de conhecer a verdadeira fé. Por isso devia mandar alguns homens de sua confiança à casa de Simão, o curtidor, na cidade de Jope, onde estava outro Simão, chamado Pedro, que deveria instruí-lo na religião de Jesus Cristo.


“Êxtase de São Pedro”. Obra de Domenico Fetti (1619), 
atualmente no Museu de História da Arte em Viena.

Nesse ínterim, em Jope, o futuro chefe da Igreja rezava no alto de um terraço, quando sentiu fome. Enquanto lhe preparavam algo para comer, teve um êxtase [quadro ao lado]: “Ele viu o céu aberto, e de lá descia alguma coisa como um grande pano, sustentado pelas quatro pontas, baixando sobre a terra. Nele havia todo o gênero de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu. Uma voz lhe disse: Levanta-te, Pedro, mata e come”. O Príncipe dos Apóstolos, muito caracteristicamente, respondeu: “De maneira nenhuma, Senhor, pois jamais comi qualquer coisa que fosse manchada. Disse o Senhor: Não chames de impuro o que Deus purificou”. Isso ocorreu três vezes, depois do que o pano foi recolhido ao céu.

O Apóstolo ficou pensando no que isso queria dizer, quando lhe informaram que alguns homens o procuravam. Ele os atendeu, e estes lhe explicaram o motivo da visita. “Pedro convidou-os a entrar, e hospedou-os. No dia seguinte partiu com eles, acompanhado de alguns irmãos de Jope”.

Cornélio, entretanto, sabendo que a entrevista com Pedro deveria ter uma consequência transcendental, convidara para ela todos seus parentes e amigos íntimos. Quando o enviado de Deus chegou, o centurião prosternou-se a seus pés “e adorou-o”. O apóstolo o fez levantar-se, dizendo “Levanta-te, pois eu também sou homem”. Cornélio então lhe contou a visão que tivera, e lhe disse: “Agora, pois, todos nós estamos em presença de Deus, prontos a escutar o que te foi ordenado pelo Senhor”.

À vista de tudo isso, Pedro compreendeu então o sentido mais profundo da visão que tivera: “Agora reconheço deveras que não há em Deus acepção de pessoas, mas que em toda nação aquele que teme a Deus e pratica a justiça lhe é aceito”. E transmitiu a doutrina do Evangelho aos ávidos presentes.

Foi então que algo surpreendente ocorreu: enquanto ele falava, “desceu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a prática, e os fiéis da circuncisão que tinham vindo com Pedro, maravilhavam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse sobre os gentios, porque os ouviam falar em várias línguas e glorificar a Deus”.

O que levou o primeiro Papa a dizer: “Poderá, acaso, alguém negar a água do batismo a estes, que receberam o Espírito Santo como nós?”. E mandou batizá-los. Essas foram as primícias da universalidade da Igreja.

É preciso uma explicação para se compreender a importância transcendental da conversão desse centurião romano. No-la dá o Frei Mateus Hoepers, O.F.M., em sua obra Novo Testamento:

“A história da conversão de Cornélio tem uma importância especial no corpo dos Atos dos Apóstolos. O problema mais grave da Igreja primitiva eram a impureza dos incircuncisos para os judeus, e ainda todas as prescrições de pureza levítica que tornavam impossível a convivência com os pagãos. A instrução, que o supremo chefe da Igreja recebe do céu e do Espírito Santo, foi decisiva para a missão entre os gentios. No Concílio dos apóstolos, Pedro se refere ao episódio de Cornélio (15, 7 e ss) para a solução definitiva da questão. Só removidos estes obstáculos, Paulo podia dedicar-se à sua grande missão. Por isso São Lucas deu um destaque particular a essa história pelo agrupamento literário dos quatro cenários e quatro cenas”.

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         Os Atos falam de vários outros centuriões anônimos que participaram mais ou menos ativamente da prisão e encarceramento do Apóstolo São Paulo. Contudo, nada fizeram de mais notável, razão pela qual deve ser mencionado apenas de passagem o centurião Júlio, responsável pelo transporte de São Paulo a Roma. Embora ele tivesse ignorado os conselhos do Apóstolo, que teriam impedido o trágico naufrágio de sua nave; e depois, para salvá-lo, não permitiu que seus soldados matassem os prisioneiros que estavam a bordo, dando-lhes a oportunidade de nadar para a praia. Com isso o Apóstolo dos Gentios pôde chegar são e salvo a Roma.

https://www.abim.inf.br/centurioes-romanos-no-novo-testamento/

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domingo, 4 de abril de 2021

PALAVRA DA SALVAÇÃO (227)

 


Páscoa do Senhor | Domingo, 04/04/2021


Anúncio do Evangelho (Jo 20,1-9)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo.

Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”.

Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou.

Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte.

Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou.

De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:

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O perfume da nova vida ressuscitada

“Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago e Salomé, compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus. E bem cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, elas foram ao túmulo” (Mc 16,1-2)

+ Na alegria da ressurreição, prepare a oração, criando um clima de profunda intimidade com o Ressuscitado.

+ Suplique a Deus o dom da alegria com Cristo Ressuscitado; que a experiência da Ressurreição o(a) impulsione a viver com mais intensidade em comunhão com toda a humanidade e toda a Criação.

+ Antes de contemplar o relato das mulheres que foram ao sepulcro de madrugada, repasse os “pontos” seguintes: 

- As mulheres revelaram uma presença fundamental nos relatos da Páscoa. Elas seguiram e serviram a Jesus com seus bens pelos caminhos da Galiléia e permaneceram fiéis até o final, até a Cruz. São testemunhas, como tantas mulheres de hoje, da fidelidade nas situações limite, onde o que lhes toca fazer é estar e acompanhar, na sua impotência e luto, até que emerja o inédito. São testemunhas da semente do amor entregue, que, embora invisível no ventre da terra, vai pouco a pouco abrindo caminho para a luz, afastando pedras e abrindo espaços, dando à luz o novo, porque o Deus de Jesus não é um Deus de mortos, mas de vivos. 

- Frente à traição e a ausência dos discípulos, as mulheres foram significativas por sua lealdade. Enquanto o grupo de homens se trancou na passividade covarde, elas optaram pelo enfrentamento da realidade, vencendo o medo, colocando-se a caminho.

Das mulheres que foram ao sepulcro na manhã de Páscoa levando perfumes podemos aprender sua capacidade de enfrentar os acontecimentos com sabedoria e audácia.

Elas são as mulheres “mirróforas”, ou seja, portadoras de perfumes, que madrugam para ir ungir o corpo de Jesus. São conscientes do tamanho da pedra e de sua impossibilidade de removê-la, mas isso não é um obstáculo em sua determinação de ir ao túmulo para fazer memória d’Aquele que abriu para elas um horizonte de sentido.

A alusão ao “primeiro dia da semana” e o “nascer do sol” acompanham a entrada delas em cena, na madrugada da Páscoa: estamos no começo da Nova Criação e a luz da Ressurreição as envolve em seu resplendor. 

- Quem busca, encontra; as mulheres foram as primeiras que viram este instigante sinal: a grande pedra tinha sido removida e o túmulo estava vazio. E foram as primeiras a “entrar”.

Entraram no túmulo: esta foi a experiência das discípulas de Jesus, ou seja, entraram no mistério que Deus realizou com sua vigília de amor. Não se pode fazer a experiência da Páscoa sem “entrar” no mistério.

As mulheres aprenderam uma lição inesquecível: é inútil busca Jesus no lugar da morte.

O cenário da morte carece de respostas. A busca deverá ser feita no espaço onde se desenvolve a vida. As mulheres entendem que corresponde a elas tomar a iniciativa e tirar da covardia o grupo de discípulos, transmitindo um encargo a todos os que abandonaram Jesus e, em especial, a quem chegou a renegá-Lo: “...dizei a seus discípulos e a Pedro...” (v.7).

- Agora, finalmente, Marcos cita os discípulos. Através das mulheres, eles receberão o encargo de Jesus. Elas se converteram em mensageiras da boa notícia; elas assumiram o protagonismo e relançaram o projeto do Reino a partir da grande intuição de Jesus: na Galiléia começou a história e ali deverá ser reiniciada. Seguir as pegadas do Galileu confirma que Ele vai adiante guiando os seus seguidores e seguidoras. Percorrer seus passos garante ao grupo a experiência de contar com Ele: “Ele irá à vossa frente, na Galiléia; lá vós o vereis, como ele mesmo tinha dito” (v.7). 

- Voltar à Galiléia significa retomar e prolongar a mensagem e a proposta do Reino de Jesus. Foi ali na Galiléia que Jesus começou sua vida pública e atuou como aquele que veio aliviar o sofrimento humano, com a certeza de que o Reino tinha chegado e que Deus faria mudar a maneira de vida dos homens, partindo precisamente dos mais pobres e excluídos. Dessa forma, inicia-se um grande “movimento humanizador”, a partir de baixo, ou seja, dos últimos e pobres, anunciando e preparando a chegada do Reino na Galiléia.

- Esta volta à Galiléia marca o começo da nova comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus. A partir desse lugar deve iniciar-se o novo caminho do seguimento.

Por isso, os(as) discípulos(as) devem entrar em sintonia com o modo original de ser e de viver de Jesus na Galiléia. É ali que se devem encontrar todos os que são de Jesus (Pedro, as mulheres, os discípulos de Jerusalém), para também ali retomar e prolongar o movimento iniciado pelo Mestre de Nazaré.

Mas é sobretudo através do “modo cristificado de ser e viver” que os(as) seguidores(as) de Jesus exalam um bom odor, criam uma atmosfera perfumada ao seu redor.

- Assim, às vezes nos encontramos com ambientes que nos cativam e atraem, que desprendem um aroma agradável e prazeroso. São ambientes nos quais reina a acolhida, o diálogo amoroso, o compromisso, a simplicidade. Sempre agrada ficar por mais tempo. Nossa memória parte dali amavelmente carregada com energia salutar e nossos pulmões saem repletos de ar purificado, limpo...

Também existem outros ambientes cujo ar é irrespirável, fétido, com mau odor. São lugares onde há competições, agressividade e violência, onde as pessoas são manipuladas; são atmosferas arrogantes, infectadas, intolerantes, vazias. Saímos dalí meio asfixiados, desejando não querer voltar mais.

+ Como as mulheres “mirróforas”, tome consciência dos aromas que deve levar para perfumar os ambientes com odor de morte, de rigidez, de indiferença, de medo... para que se transformem em espaços com cheiro de vida, de liberdade, de ternura e acolhida.

+ Quê aromas prepara e espalha em sua casa, em sua comunidade, em seu ambiente?

+ Diante do Ressuscitado faça um profundo colóquio, expressando toda sua alegria e seu desejo de viver intensamente em favor da vida de todos.

+ Registre e dê nome aos sentimentos de consolação.

Mensagem final

Todos nós cristãos, fomos ungidos com o óleo santo no batismo, fomos besuntados e massageados com um bálsamo cristificante. Por isso trazemos a força sanadora do perfume de Cristo, para sermos presenças diferenciadas em lugares que cheiram à morte e poder manifestar a beleza da vida cristã com a qualidade do nosso aroma.

Somos uma fragrância que é o símbolo da vida, e que, derramada em favor das pessoas, inunda o mundo, comunicando a salvação.

Páscoa é expandir o perfume da vida que nos envolve.


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2308-o-perfume-da-nova-vida-ressuscitada

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sábado, 3 de abril de 2021

C O N V I T E


 Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original:

ENTREVISTA

Entrevista com o professor universitário Samuel Leandro Oliveira de Mattosrecém-empossado presidente da Academia Grapiúna de Letras - AGRAL, a primeira a ser fundada na cidade de Itabuna e que completa 10 anos.

 


Quando e quem foram os fundadores da Academia Grapiúna de Letras (AGRAL)?

SAMUEL LEANDRO – A AGRAL foi fundada em 4 de abril de 2011, portanto, há 10 anos. Os fundadores, pioneiros, que também compuseram historicamente a sua primeira diretoria foram: Ivan Krebs Montenegro (Presidente, Cadeira 10), Vercil Rodrigues (Vice-Presidente, Cadeira 1), Washington Farias de Cerqueira (Secretário Geral, Cadeira 3), Antônio da Silva Costa (Tesoureiro, Cadeira 8), Jorge Ribeiro Carrilho (2º Tesoureiro, Cadeira 7), Ramiro Nunes de Aquino (Diretor de Eventos, Cadeira 9) e José Carlos Oliveira (Diretor de Biblioteca, Cadeira 4).

 

Quais são os objetivos e finalidades da Academia Grapiúna de Letras (AGRAL)?

SAMUEL LEANDRO – A AGRAL objetiva “o cultivo da língua e da literatura brasileiras, a preservação da memória cultural nacional, com destaque para Itabuna e para a Bahia, e o amparo e estímulo às manifestações da mesma natureza, inclusive nas áreas das ciências e das artes”. Isso significa promover ações de difusão de obras e autores, estimular novos escritores junto a escolas, realizar ações de valorização da língua, da literatura e dos literatos brasileiros, particularmente os baianos e sulbaianos.

 

Quais foram as ações desenvolvidas nesses 10 anos da AGRAL que merecem destaques?

SAMUEL LEANDRO – Gostaria muito que o Ivann Krebs Montenegro, nosso Presidente Emérito pudesse responder a esta pergunta. Ele, pois, saberia, como ninguém, elencar as atividades desenvolvidas nesse período. Igualmente, o jornalista Ramiro Aquino o faria como muito mais detalhes do que eu. Em todo caso, destaco eventos realizados no objetivo de promover a literatura, o teatro, a música e outras artes: Celebração sobre a “Amizade na vida e na obra de Vinicius de Moraes”, apresentações da Rapsódia Grapiúna, pela sua própria autora, a Professora e Confreira Zélia Lessa; recitais de poesia; visitas a locais de valor histórico-cultural, a exemplo da Casa Jorge Amado (em Ferradas, seu local de nascimento); participações em eventos de academias coirmãs, dentre outras ações. Observo também que, nas reuniões regulares da AGRAL, há um constante compartilhamento de informações e saberes diversos. Há declamações, palestras etc. de modo que os confrades e confreiras simultaneamente ensinam e aprendem.

 

Quais são os critérios para ser aceito como imortal da AGRAL? E se existe alguma cadeira vaga atualmente?

SAMUEL LEANDRO – Os critérios são os seguintes: “intelectuais que tenham publicado trabalhos em quaisquer meios escritos de informação pública ou eminentemente cultural em qualquer dos gêneros de literatura, ou obra científica ou artística de valor cultural e prioritariamente de valor literário”.

Quanto a vagas, sim, há. Há cinco cadeiras a serem ocupadas, em função do passamento de acadêmicos, quais sejam: Cadeira de nº 6, cujo patrono é José Haroldo Castro Vieira (antes ocupada Professor Antônio da Silva Costa); a de nº 10, cujo patrono é Afrânio Peixoto (antes ocupada pela Professora Agenilda Palmeira); a de nº 13, cujo patrono é Anísio Teixeira (antes ocupada por Dom Ceslau Stanula); a de nº 24, cujo patrono é Jorge Emílio  Medauar (antes ocupada pela Escritora e Poetisa Jasmínea Benício dos Santos Midlej) e a de nº 27, cujo patrono é Luiz Gama (antes ocupada pelo Professor Odilon Pinto). Há, ainda, uma cadeira, nunca antes ocupada: a de nº 38, da patronesse Valdelice Soares Pinheiro. Portanto, ao todo, há 6 vagas.

 

A AGRAL aceita como membro de seu quadro intelectual de outras cidades e/ou regiões?

SAMUEL LEANDRO - Sim. O nosso estatuto prevê a membresia de 20 acadêmicos correspondentes, que podem ser oriundos de qualquer parte do país ou do exterior.

 

Quais são os endereços físico e/ou virtual e telefone (s) de contato (s) da AGRAL?

SAMUEL LEANDRO – O endereço da AGRAL é a Rua São Vicente de Paula, s/n, Centro de Itabuna-Ba, CEP nº45600-105, onde fica a Sala Zélia Lessa, local inicial das nossas reuniões. 


Como anda o blog da AGRAL http://blogdaagral.blogspot.com/2012/09/academia-grapiuna-de-letras-e-sociedade.html que foi criação do confrade Ari Rodrigues Filho, então Diretor de Eventos da “Casa das Letras Grapíúna?

SAMUEL LEANDRO Essa foi uma importante iniciativa do confrade Ari Rodrigues. Todavia, entendo que não é fácil “alimentar” constantemente um blog, de modo que seja atual, informativo, que seja uma pronta referência, em tempo real, a uma instituição. Certamente nos seja menos trabalhoso e mais eficaz investir nas redes sociais mais usadas no momento, sobretudo Facebook e Instagram. Em todo caso, este é um assunto a ser discutido diretamente com a Diretoria de Relações Públicas, o que ocorrerá em breve.

 

Além do senhor como presidente da AGRAL, quais são os demais membros da atual diretoria e suas funções?

SAMUEL LEANDRO – O novo grupo gestor é assim formado: Ivann Krebs Montenegro (Presidente Emérito), Samuel Leandro Oliveira de Mattos (Presidente), Jailton Alves de Oliveira (Vice-Presidente), Zélia Possidônio dos Santos (Secretária), Jairo Xavier Filho (2º Secretário), Paulo Sérgio Bomfim (Tesoureiro), Ramiro Soares de Aquino (2º Tesoureiro), Jailton Alves de Oliveira (Diretor de Eventos), Eglê Santos Machado (Vice-Diretora de Eventos), Vercil Rodrigues (Diretor de Relações Públicas), Ari Rodrigues Filho (Vice-Diretor de Relações Públicas), Lilian Lima Pereira (Diretora de Revista, Biblioteca e Arquivo) e Paulo Lima (Vice-Diretor de Revista, Biblioteca e Arquivo).

 

Quais são as propostas dessa gestão para o biênio 2021-2023?

SAMUEL LEANDRO – As principais propostas são as seguintes: a) Estímulo à produção literária grapiúna, sobretudo junto a alunos de escolas públicas; b) Realização de concurso literário com patrocínio de empresas locais/regionais; c) Publicações dos próprios acadêmicos acerca dos seus respectivos patronos e patronesses; d) Realizar seminários, para a comunidade interna e externa, sobre livro, literatura e produção literária; e) Outras ações afins.

 

A  AGRAL desenvolve parcerias com outras instituições da cidade e/ou região e/ou pretende realizar?

SAMUEL LEANDRO – Sim, a AGRAL, desde o seu nascimento, mantém parceria com a Loja Maçônica 28 de Julho, com o Lions Clube, com a Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC), dentre outras entidades.

Doravante, pretendemos também estreitar laços com a Universidade Estadual de Santa Cruz (instituição na qual leciono), particularmente com o Curso de Especialização em Gestão Cultural (pós-graduação lato sensu), com o Núcleo de Artes da UESC (NAU, do Departamento de Letras e Artes), com o Museu-Vitrine das Artes Visuais, com o Programa Nacional de Incentivo à Leitura (PROLER), dentre outras instâncias da Universidade.

Outra pretensão é intensificar o relacionamento com a imprensa regional (sites, blogs, jornais, TVs e rádios), além das academias coirmãs, principalmente: Academia de Letra de Itabuna (ALITA), Academia de Letras Jurídicas do Sul da Bahia (ALJUSBA), Academia de Letras de Ilhéus, dentre outras.


 Suas considerações finais.

 SAMUEL LEANDRO – Entendo que o compromisso que ora assumo me seja uma importante oportunidade para aquisição de conhecimentos e experiências, quanto ao desenvolvimento humano, como um todo. Na UESC, ao longo de 11 anos, exerci vários cargos administrativos, através dos quais muito aprendi. Na AGRAL, igualmente, creio que ocorra o mesmo. Será mais uma etapa de realização. Inclusive, sou grato aos meus pares, acadêmicos, pela confiança em mim depositada. Assim, espelhado nos que me antecederam, e a olhar para o futuro, pretendo levar adiante o ideal de uma academia de letras sulbaiana, pela cultura e literatura regionais.


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sexta-feira, 2 de abril de 2021

"TENHO SEDE!" - Pe. David Francisquini,

 

“Tenho Sede!”

 Pe. David Francisquini *




Rica em lições e significados, a Semana Santa nos oferece inúmeros exemplos de vida e resolução que tocam nas nuvens do mistério. Um deles é a narração, pelas páginas dos evangelhos, da sede devoradora que consumia Nosso Senhor Jesus Cristo durante a paixão. Que lições tal sede nos dá?

O Divino Mestre de fato sofreu sede física pelos sofrimentos atrozes a que foi submetido, pela quantidade de sangue que derramou, e pela consequente febre que O abrasava. Essa sede simbolizava outra, que superabundava no seu espírito: a sede de redimir os homens. Para saciá-la, em vez de água, seus verdugos Lhe deram vinagre e fel.

Foi por meio de uma verdadeira guerra que Jesus Cristo conquistou o seu reino, que não era deste mundo, mas que se travou aqui na Terra para que fosse completo. Ele se tornou homem, padeceu e morreu na Cruz para nos salvar, além de nos deixar a Igreja, seu Corpo Místico.

Na pena de Plinio Corrêa de Oliveira, a Igreja “em suas instituições, em sua doutrina, em suas leis, em sua unidade, em sua universalidade, em sua insuperável catolicidade, é um verdadeiro espelho no qual se reflete nosso Divino Salvador. Mais ainda, Ela é o próprio Corpo Místico de Cristo”.

Enquanto tal, a Igreja forjou e plasmou a civilização cristã, passando a reinar nos corações e na sociedade. Em sua agonia mortal no Horto das Oliveiras, Nosso Senhor anteviu o que se passa hoje com a perda da fé, a descristianização da sociedade, a perfídia dos corações, dentro e fora da Santa Igreja. E sofreu por tudo isso!

O que nos diria nas atuais circunstâncias? — Quae utilitas in sanguine meo? (Qual a utilidade do meu sangue?). Ele nos olharia com infinita compaixão, constatando a perda de milhões de almas todos os dias, vendo a impiedade grassar em todos os rincões da Terra.

Veria também a indiferença e a frieza daqueles que poderiam ser chamados de pupila de seus olhos e delícias do seu coração, os preferidos do seu divino amor e predileção. Qual a utilidade do meu sangue se a borrasca e a escuridão continuam a cobrir toda a Terra? Não se vê uma nesga de luz.

Que utilidade é esta de seu sangue? Durante a Crucifixão, até as pedras se fenderam, os sepulcros se abriram como que proclamando que Ele era rei dos vivos e dos mortos. Sua ardente sede de almas, representada pela sede física, simbolizava o zelo divino em purificar a Terra.

Para Santo Agostinho, Aquele que parecia homem sofreu tudo isso, e todos os que estavam escondidos de Deus, sofreram. Assim se cumpriram as Escrituras: “E na minha sede me deram a beber vinagre” (Sl 68, 22). “Tenho sede”, como se dissesse: Isso precisa ser feito. Os judeus eram o vinagre, resultado da degeneração do vinho dos patriarcas e profetas.

Antes de expirar, Jesus pôs aos olhos de todos o cumprimento da Lei, o que foi predito, o complemento de toda sua obra salvadora, servindo-se de exemplo para os seus discípulos e seguidores: “Tudo está consumado”, o sacrifício estava completo, a honra de Deus havia sido expiada e as portas do céu abertas.

Jesus Cristo perseverou até o fim, e sofreu sua Crucifixão, Paixão e Morte vencendo o mundo, o demônio e a carne. A vitória da Cruz luminosa e resplandecente passou a reinar em todas as instituições, sobretudo a familiar, como elemento saudável e vivificador da sociedade cristã.

Sua sede incomensurável foi a de sofrer por nós e de conceder novamente aos homens aquilo que os nossos primeiros pais perderam, ou seja, a beleza, a pureza de nossos corações, a graça divina para estarmos constantemente em comunicação com o nosso Criador. E como seus filhos regenerados pelo Deus encarnado, sermos agradáveis a toda Trindade Santíssima.

Pelas chagas de Jesus Cristo fomos todos curados. As suas feridas, espinhos e açoites se tornaram fonte inexaurível para nossas reflexões, além de um tesouro também inesgotável para haurirmos forças e zelo para trabalhar pela glória de Deus e a salvação das almas.

Resta-nos recorrer à Mãe de todas as mães nos momentos de aflição, à Mãe Dolorosa que acompanhou seu divino Filho em todos os passos da Paixão, e pedirmos a Ela a graça de ter sempre diante dos nossos olhos o Redentor sofredor e chagado, como Ela O contemplava na Paixão.

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

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AMADO GALILEU - Cyro de Mattos



Amado Galileu

Cyro de Mattos

Para Alfredo Perez Alencart

         

             Contam que nasceu numa manjedoura, o berço de palha. Foi anunciado por uma estrela, no céu toda acesa de Deus. Os bichos cantaram: Jesus nasceu! Jesus nasceu! Os pastores tocavam uma música serena nas suas doces flautas. São José, o pai, o que tinha mãos no labor de enxó, plaina e formão, soube que de agora em diante ia talhar a mais pura fé do seu constante coração. Virgem Maria, mãe do menino, dizia baixinho: Pobrezinho quando for um homem, de tanto nos amar, vai morrer na cruz.

             Os três reis magos foram chegando, vieram de longe, muito longe, atravessaram montanhas e desertos. Traziam, como presente para o menino, mirra, incenso e ouro. Ajoelharam-se. Não eram dignos de tocar naquela palha, mas bastava agora que fizessem o bem ao próximo seriam salvos. Abelhas com os seus zumbidos de ouro vieram colocar afeto e mel no coração de cada um dos reis.

              Contam mais que foi um menino que brincava como qualquer menino, mas que gostava de ficar às vezes sozinho, olhando para a linha do horizonte. Quando ficou rapaz, não teve dúvida, havia sido o escolhido entre os seres humanos para ultrapassar aquela linha. Para conseguir a façanha teria que fazer uma mágica em que disseminasse uma rosa na manjedoura dos ares. Juntar todas as mãos numa só mesa onde todos seriam irmãos.

               Teve que trazer as sementes dadas pelo Pai para plantar cirandas nas areias do deserto. Os sentimentos daquele homem com olhar de mendigo e profeta correram nas águas doces do rio, seguiram no vento manso, que soprou a flor sozinha na plantinha do brejo. Foram levados pela borboleta até o lugar onde o amor sempre permanece.

                Ora, vejam só, sair por aí de mãos dadas como criança e espalhar num instante só ternura nessa terra? Convencer os homens de que viver vale a pena desde que a vida seja exercida numa comunhão em que não haja desigualdade, injustiça, opressão? A vida sem solidão, a vida como uma dança, a vida sem agressão? Os bichos sem matança e a mata sem queimada? Sem veneno as nuvens na chuva despejando a poluição?

               Os donos do poder no sistema organizado não perdoaram a afronta. Traçaram o mais pérfido calvário. Fizeram que carregasse uma cruz pesada. Puseram uma coroa de espinho na cabeça, cuspiram, chicotearam. Ó desamor, quão amarga é a tua memória! Morra o rebelado, o falso profeta, o demolidor da ordem, o falso fazedor de milagre? Os que estavam cegos investiam, urravam, não se cansavam. Até que decretaram a crucificação. Não aceitaram que no seu lugar ficasse o ladrão, que para ali fora apenado com a crucificação pelos crimes cometidos.

               Mas o que se viu, depois de perversa infâmia, é que até hoje toca um sino na cidade e na campina, só para nos dizer que do menino se fez o homem, em duras pedras no caminho. Vestido de aleluias, ressuscitou, ressuscitou, por ser divino e eterno só nos quer o bem.

               Esse amado galileu.

 

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Cyro de Mattos 
é escritor e poeta. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Publicado nos Estados Unidos, Dinamarca, Rússia, Portugal, Espanha, Itália, França e Alemanha. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC.

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BOM JESUS, O REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES


Plinio Corrêa de Oliveira

 

Aos pés desta imagem do Bom Jesus — ou seja, do Cristo Flagelado — poder-se-ia colocar o seguinte dístico: “As minhas cogitações não são as vossas cogitações, nem as vossas vias são as minhas vias” (Isaías 55, 8). É o que Jesus bem poderia dizer aos que O flagelavam, mas também a todos que não têm amor a Deus a ponto de desejar sofrer por Ele.

Nota-se na fisionomia de Jesus uma persistência, uma firmeza de propósito dentro da dor, e uma deliberação como a de quem diz que me matem, irei até o fim do meu caminho, porque este é o rumo que escolhi: Haja o que houver, irei até o fim do meu caminho; ainda que sozinho, ainda que abandonado, ainda.

Quando eu passo diante desta imagem, rezo a jaculatória: “Ó Bom Jesus, vítima pelos nossos pecados, tende piedade de nós!”. Ele sofreu a fim de obter para nós a contrição, o arrependimento de nossos pecados. Qualquer um que recorra a Ele é acolhido com bondade, misericórdia, naturalidade. Até Judas Iscariotes, arrependendo-se e pedindo perdão, seria acolhido misericordiosamente com esse olhar do Bom Jesus.

Consideram-se as dores de Nosso Senhor e as lágrimas de Nossa Senhora como um tesouro da Semana Santa. Mas essa consideração, essa atmosfera de Semana Santa, deve manter-se sempre, e não apenas por uma semana. Devemos considerar sempre os padecimentos não só físicos, mas também os padecimentos de alma de Jesus e de Sua Mãe Santíssima.

Esta imagem atroz e sublime, com esse olhar ímpar, apresenta bem os padecimentos do corpo, entretanto mais ainda os da alma. Poderia ser chamado “Santo Cristo do Grande Poder”, ou “Cristo Rei”, ou ainda “Rex Regum et Dominus Dominantium” — Jesus Cristo, Rei dos Reis e Senhor dos Senhores!

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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 22 de dezembro de 1983. Esta transcrição não passou pela revisão do autor. [Fotos PRC].

 

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